MINHA FORMAÇÃO
Joaquim Nabuco
Capítulo XVII
Influência dos Estados Unidos
Eu não podia, entretanto, ter vivido quase dois anos nos
Estados Unidos sem em algum ponto ser modificado pela influência
norte-americana. Uma coisa é a Europa, outra a América
do Norte. Entre os americanos, o metal do caráter, o fundo
de experiência humana, o tato da vida é, falando do
país como uma só pessoa moral, anglo-saxônia.
Os Estados Unidos, como a Austrália e o Canadá, não
podem esconder a sua procedência. O fundo anglo-saxônio
revela-se, aumentando ou diminuído, na coragem e tenacidade,
na dureza e impenetrabilidade, no espírito de empresa e de
independência da raça, também na brutalidade
e crueldade do instinto popular, nas rixas de sangue, na bebida,
nos linchamentos, na sede insaciável de dinheiro, e também,
outras traços, na necessidade de limpeza física e
moral, no espírito de conservação, na emulação
e amor-próprio nacionais, na religião, no respeito
à mulher, na capacidade para o governo livre.
Que homem diferente, porém, é o americano do inglês!
Os moldes são tão diversos que, para explicar a diferença,
é preciso admitir uma influência modificadora mais
forte do que a de instituições sociais, uma influência
de região, - cada grande região do globo produzindo
como o tempo uma raça sua, diferente das outras. As instituições
modificam o caráter de um povo, mas não se provou
ainda que lhe modificassem o tipo e o temperamento físico.
Qual seria a diferença entre o grego do tempo de Milcíades
e do tempo de Alexandre ou de Trajano? Qual a diferença do
napolitano do tempo de Afonso o Grande para o rei Umberto, ou do
português manuelino para o de hoje?
A comparação do maquinismo político-social
entre a América do Norte e a Inglaterra é, em quase
tudo, favorável a esta. As instituições inglesas,
tanto as políticas quanto as judiciárias, tanto as
públicas quanto as privadas, têm mais dignidade, mais
seriedade, mais respeitabilidade. Na Câmara dos Comuns não
se imagina o processo do lobbying, não há na administração
inglesa o spoils system, ninguém pensaria em squaring um
tribunal inglês, não há na Inglaterra um trecho
de território em que os cidadãos só tenham
confiança na justiça que fazem por suas mãos,
como nos lynchings americanos. A todos os que têm que tratar
com a administração, que estão na dependência
da justiça, a organização americana oferece
muito menos garantias de eqüidade e menor proteção
do que a inglesa.
Isto, por um lado; por outro, quem entra na vida pública
tem que procurar nos Estados Unidos as boas graças de indivíduos
muito diferentes dos que na Inglaterra abrem aos principiantes as
portas da política; além disso, tem que aprender por
um catecismo muito mais relaxado. A intervenção do
grande pensador, do grande escritor, do homem competente, faz-se
sentir na Inglaterra mais do que nos Estados Unidos, onde as massas
obedecem a influências que não têm nada de intelectual
e não tem apreço por nenhuma espécie de elaboração
mental. Tudo o que é superior tem, com efeito, o cunho da
individualidade, envolve, portanto, desdém pela sabedoria
das massas. O gênio político, qualquer que seja, está
para elas eivado de rebeldia. Singularmente, o cidadão vale
menos nos Estados Unidos do que na Inglaterra. Para ser uma unidade
na política americana, é preciso que o indivíduo
se matricule em um partido, e, desde esse dia, renuncie à
sua personalidade. Na Inglaterra não há semelhante
escravidão do partido. O país é governado,
como os estados Unidos, por dois partidos que se alternam e se equilibram,
mas os partidos ingleses são partidos de opinião,
não são machines, como os americanos, das quais certo
número de bosses governam e dirigem os movimentos.
Tomando-se, porém, o indivíduo sem relação
ao maquinismo político, o homem que não tem dependências
da administração nem da justiça e que denuncia
o direito de desgovernar ele também os seus concidadãos,
os Estados Unidos são o país livre por excelência.
Os americanos são uma nação que quisera viver
sem governo e agradece aos seus governantes suspeitarem-lhe a intenção.
Daí a popularidade de seus presidentes: eles não fazem
sombra ao país, não pesam sobre a nação.
A pressão de cima para baixo, do governo sobre a sociedade,
a que a humanidade se habituou de tempos imemoriais, de forma a
não poder viver sem ela, faz-se sentir nos Estados Unidos
menos do que em outra qualquer parte, menos do que na Inglaterra,
onde a proteção governamental está sempre presente.
A coluna da autoridade é menor sobre os ombros do americano
do que sobre os de qualquer outro povo; a sua respiração
é a mais franca, a mais larga, a mais profunda de todas.
O governo pode ser melhor, mais perfeito na Inglaterra: que lhe
importa isso, se o que ele quer é mesmo que a ação
do governo se vá cada dia restringindo e ele a sinta menos
e tenha menos que ver com ela? A questão é saber se
a coluna de autoridade, que é hoje tão leve nos Estados
Unidos, não virá um dia a ser a mais pesada de todas.
O sistema americano pode bem corresponder, dada a diferença
de época e adiantamento, à liberdade pessoal de que
gozaram sempre mais ou menos as raças que tinham espaço
ilimitado para se estenderem a escassa vizinhança em país
novo. No fundo, essa extrema liberdade é uma forma de individualismo,
de isolamento, de vida à parte, de responsabilidade ainda
não formada, do homem na sociedade. Isoladamente, o americano
será, como eu disse, o mais livre de todos os homens; como
cidadão, porém, não se pode dizer que o seu
contrato de sociedade esteja revestido das mesmas garantias que
o do inglês, por exemplo. A autoridade é menor sobre
os seus ombros, mas a solidariedade humana é também
mais frouxa em sua consciência.
Uma coisa o governo americano não é: não é
o governo do melhor homem, como pretendiam ser as democracias antigas.
Governo pessoal, as presidências podem ser, pelo menos foram
algumas acusadas de o ser; não se pode, porém, apontar
neste século o homem de influência nos Estados Unidos,
o Gladstone ou o Gambeta americano. A nação dispensa
tutores, diretores, conselheiros, rejeita tudo o que pareça
patronizing, ares de proteção e condescendência
para com ela. Aos seus olhos, o que faz um estadista considerável
é a soma de confiança que ele lhe merece, é
o reflexo da satisfação que causa o Uncle Sam.
A idéia de que o seu governo é o mais forte do mundo
e o que mais economiza e oculta a sua força, é o orgulho
por excelência do americano. Entre o militarismo europeu e
a democracia desarmada dos Estados Unidos pode um dia rebentar um
conflito que hoje parece quase um paradoxo figurar, mas, até
se experimentar em uma grande guerra estrangeira, como se provou
em uma grande rebelião, a solidez e a elasticidade da americana,
não se a pode considerar superior à velha textura
européia.
O que se pode dizer é que os Estados Unidos não tiveram
ainda os mesmos perigos de que se acautelar do que a Europa. Esse
governo que muda todos os quatro anos, pode ser o mais forte do
mundo, mas não foi experimentado nas mesmas condições
que os outros, e que para estes, que são governos armados
e em constante vigia pelo risco das coalizões estrangeiras,
como os magníficos transatlânticos, de vastos salões
iluminados, cobertas altas, camarotes espaçados e arejados,
verdadeiras cidades flutuantes, estão como habitação
para os navios de combate.
A União, comparada com a Inglaterra, é como a prairie
americana comparada ao pátio interior de um castelo normando.
Em uma, há de todos os lados o espaço descortinado,
a planície sem fim; em outro, o espectador está fechado
por altas paredes, que lhe contam sempre a história de outras
épocas. O passado pesa sobre o presente na Inglaterra e o
limita; na América, não há vista retrospectiva.
De tudo isto resulta para o americano um sentimento de independência,
que o faria, como fazia o grego, sentir-se metade escravo, se lhe
dessem um rei, mesmo quando efeito da realeza fosse aumentar a sua
parte efetiva de direitos e de influência na comunhão.
É nisto que consiste a maior "liberdade" americana:
no sentimento de igualdade hierárquica entre governantes
e governados.
Não havia perigo de que eu adquirisse essa idiossincrasia
americana: era evidente para mim que ela era o resultado das condições
em que o país crescera e que, se a independência tivesse
sido feita com um príncipe inglês, como a nossa foi
feita com o herdeiro do trono, os Estados Unidos. em um século
de progresso e de adiantamento, teriam desenvolvido para com a sua
casa reinante o mesmo sentimento de loyalty dos ingleses. Se a realeza,
na Inglaterra, passou, no nosso tempo, pela metamorfose que se observa
do reinado de Jorge IV para o reinado de Vitória, teria passado
na América do Norte por uma transformação ainda
maior. Mr. King ou mrs. Queen seria uma pessoa muito mais popular
do que mr. President, e diariamente receberia mais esmagadores shake-hands
ou mais familiares cartões postais. No Brasil a Monarquia
foi o que vimos, uma pura magistratura popular; como não
seria nos Estados Unidos, onde o princípio ativo, a força
corrosiva da democracia é ainda mais enérgica? A Monarquia
na Nova Inglaterra, teria, provavelmente, exercido maior influência
sobre as velhas Monarquias européias do que exerceu a grande
República, e outra espécie de influência sobre
o resto da América.
Depois da recepção e do acolhimento que d. Pedro II
teve nos Estados Unidos em 1876, não era mais lícito
duvidar de que para a inteligência culta do país a
Monarquia constitucional, representada por uma dinastia como a brasileira,
era um governo muito superior às chamadas repúblicas
da América Latina. Perante multidões americanas nem
sempre conviria, talvez, ao orador dizer isso; ele poderia às
vezes declamar que a pior das repúblicas é um progresso
sobre a melhor das monarquias, mas eu sentia que falar assim era
o privilégio do demagogo irresponsável, e que esse
não fora o sentimento dos Washingtons, dos Hamiltons, dos
Jeffersons, nem é o dos que procuram seguir-lhes as tradições.
O efeito do republicanismo norte-americano só podia ser para
mim o de corrigir o que houve de supersticioso no meu monarquismo,
tirar-lhe tudo o que parecesse direito divino, consagração
super-humana. Entre os dois espíritos, o inglês e o
norte-americano, eu não via oposição, como
não há oposição entre as duas raças
e as duas sociedades; não havia nada mais fácil de
compreender e conciliar do que a admiração com que
Gladstone fala dos Estados Unidos e a admiração dos
escritores mais respeitáveis da América pela Constituição
inglesa.
Nenhuma das minhas idéias políticas se alterou nos
Estados Unidos, mas ninguém aspira o ar americano sem achá-lo
mais vivo, mais leve, mais elástico do que os outros saturados
de tradição e autoridade, de convencionanismo e cerimonial.
Essa impressão não se apaga na vida. Aquele ar, quem
o aspirou uma vez, prolongadamente, não o confundirá
com o de nenhuma outra parte; sua composição é
diferente da de todos.
Quanto a mim, fui tratado com tanta benevolência, encontrei
tão generoso acolhimento nos Estados Unidos, que ainda hoje
me reconforto nessas doces recordações. A impressão
geral que me deixou o que vi na América do Norte, é
uma impressão de nitidez; tudo é nítido, de
contorno perfeito e incisivo, como uma medalha antiga. O inglês
fará tudo sólido; o francês elegante; o americano
procura fazer nítido, clear cut. Isso reconhece-se logo em
qualquer estampa americana. Há uma perfeição
à parte, que é a perfeição americana,
distinta do último toque que o inglês ou o francês
dá as coisas, perfeição real, incontestável,
como é a japonesa. Pode-se preferir o modo de ver, ou, antes,
o modo de olhar - a arte não é no fundo senão
um modo de olhar, uma questão de ângulo visual - ,do
europeu ao do americano, é também isso em grande parte
uma questão de raça, mas não há dúvida
que o traço americano é um traço que alcançou,
por sua vez, a perfeição. Tudo o que vi me pareceu
feito, desenhado com esse traço, que eu não confundiria
com outro. O que o distingue é que ele não exprime,
como os outros, um estado de espírito ou aspiração
de ordem puramente estética; que não exprime uma resolução,
uma vontade, um caráter. Se não fosse a aspiração
histórica, de que eu não poderia, nem quisera, desfazer-me,
nenhuma residência, nenhuma vida, nenhum espetáculo
me teria nunca parecido tão encantador como o de Nova York.
Não sei se o céu de Nova York não me pareceu
o mais belo do mundo; o que sei é que ele derrama em ondas
de luz a alegria, a vida, a coragem, sobra a mais admirável
procissão de mocidade e de beleza humana que jamais passou
diante dos meus olhos, a que flui e reflui todas as tardes e manhãs
da Quinta Avenida para o Central Park.
Ao americano, ao homem, não à mulher, e ao homem que
não pertence à elite do país, faltará
o que se tem convencionado chamar maneiras, os toques ou sinais,
desconhecidos dos profanos, pelos quais os iniciados nos segredos
mundanos se reconhecem entre si; isto quer dizer somente que a americana
é uma raça que ainda está crescendo na mais
perfeita igualdade e ganhando a vida em desenfreada competição(
Não há, porém, no mundo uma escola igual a
essa para se aprender o que, de hora em diante pelo menos, é
o mais importante dos preparatórios da vida, - a arte de
contar consigo só. O menino americano, e quando se diz o
menino nos Estados Unidos entende-se a menina também, é
metido desde quase a primeira infância em um banho químico
que lhe dá a cada fibra da vontade e rijeza e a elasticidade
do aço( Qualquer que seja o valor da cultura, nenhum pai
preferirá deixar ao filho mais um sentido intelectual a deixar-lhe
o poderoso pick-me-up americano, o cordial que impede a enervação
nos grandes transes morais( E que o jogo da vida nos tempos modernos,
- muito mais nos séculos que vão vir, em que a concorrência
será ainda mais numerosa e implacável, - não
se parece com figuras de minuete ou com divertimentos campestres
do século passado, como os vemos em um Boucher ou em um Goya;
parece-se com as chamadas montanhas russas: é um incessante
despenhar a toda a velocidade, montanha abaixo, de trens que com
o impulso da descida transpõem as escarpas fronteiras para
se precipitarem de novo e de novo reaparecerem mais longe, e para
essa contínua sensação de vertigem é
principalmente o coração que precisa ser robustecido.
Segundo toda probabilidade, os Estados Unidos hão de um dia
parar, e então terão tempo para produzir a sua sociedade
culta, como os velhos países da Europa. Já nos Estados
Unidos porções da sociedade que param e querem permanecer
em repouso; essas formam o primeiro indício de uma aristocracia,
que um dia será um grande poder na União, uma grande
influência ou conservadora ou artística.
Em uma entrevista que concedeu há anos a um repórter
americano, Herbert Spencer concluiu com esta previsão sobre
o futuro dos Estados Unidos: "De verdades biológicas
deve-se inferir que a mistura eventual das variedades aliadas da
raça Ariana que formam a população hão
de produzir um mais poderoso tipo de homem do que tem existido até
hoje, e um tipo de homem mais plástico, mais adaptável,
mais capaz de suportar as modificações necessárias
para a completa vida social. Por maiores que sejam as dificuldades
que os americanos tenham que vencer e as tribulações
por que tenham que passar, eles podem razoavelmente contar com uma
época em que hão de produzir uma civilização
mais grandiosa do que qualquer que o mundo tenha visto".
É possível que seja aquela a lei biológica
da mistura ariana, mas até hoje ainda nenhum galho americano
de tronco europeu mostrou poder dar a mesma flor de civilização
que a da velha estirpe. É possível que a civilização
americana venha um dia a ser mais grandiosa do que qualquer que
o mundo conheceu, mas eu consideraria perigoso, por enquanto, renunciar
a Europa nos Estados Unidos a tarefa de levar a cabo a obra da humanidade.
Reduzida esta aos atuais elementos americanos, muita nobre inspiração
talvez nunca mais se pudesse renovar e o gênio da raça
humana não viesse nunca a reflorir. A educação
americana parece a única que não é convencional,
que não é uma pura galvanização de estados
de espírito de outras épocas, de ideais clássicos
e literários, que homens que vivem entre livros insinuam
aos que não têm tempo para ler. A idéia tem
na América do Norte muito menor papel na vida do que nos
outros países, onde tudo está escrito e convertido
em regra, e dos quais se pode dizer, invertendo a célebre
frase, que nada lhes cai sob os sentidos que não tenha estado
primeiro na inteligência. Os americanos, em grande escala,
estão inventando a vida, como se nada existisse feito até
hoje. Tudo isto sugere grandes inovações futuras,
mas não existe ainda o menor sinal de que a elaboração
do destino humano ou a revelação superior feita ao
homem tenha um dia que passar para os Estados Unidos( A sua missão
na história é ainda a mais absoluta incógnita.
Se ele desaparecesse de repente, não se pode dizer o que
é que a humanidade perderia de essencial, que raio se apagaria
do espírito humano; não é ainda como se tivesse
desaparecido a França, a Alemanha, a Inglaterra, a Itália,
a Espanha.
Capítulo XVIII
Meu pai
Por onde quer, entretanto, que eu andasse quaisquer que fossem as
influências de país, sociedade, arte, autores, exercidas
sobre mim, eu fui sempre interiormente trabalhado por outra ação
mais poderosa, que apesar, em certo sentido, de estranha, parecia
operar sobre mim de dentro, do fundo hereditário, e por meio
dos melhores impulsos do coração. Essa influência,
sempre presente por mais longe que eu me achasse dela, domina e
modifica todas as outras, que invariavelmente lhe ficam subordinadas.
É aqui o momento de falar dela, porque não foi uma
influência propriamente da infância nem do primeiro
verdor da mocidade, mas do crescimento e amadurecimento do espírito,
e destinada a aumentar cada vez mais com o tempo e a não
atingir todo o seu desenvolvimento senão quando póstuma,
essa influência foi a que exerceu meu pai...
Quando eu o vi pela primeira vez, em 1857, ele tinha 44 anos e acabava
de deixar o Ministério da Justiça. O Gabinete Paraná-Caxias
(1853-57) fora o mais longo que o Império até então
tinha tido e ficou sendo a mais brilhante escola de estadistas do
reinado. O grupo dos "moços" que o marquês
de Paraná reuniu em torno de si, mostra de que maneira ele
lia os homens e o futuro. Paranhos, Wanderley, Pedreira, Nabuco
estavam todos destinados a representar primeiros papéis em
política. Esse gabinete foi conhecido como o Ministério
da Conciliação. Ele correspondia ao pensamento, aceito
pelo imperador depois do choque da última guerra civil do
Império, de abrir a política aos elementos liberais
proscritos, sem tirar a direção dela ao espírito
conservador. Antes de entrar para o Ministério, fora Nabuco
quem melhor definira o alcance e os limites dessa nova política,
da qual devia ficar depois da morte de Paraná, e por muito
tempo, quase que o solitário continuador. Citarei em trecho
desse seu discurso de 1853 como simples deputado, discurso-programa,
pode-se dizer, pelo muito que será interpretado e invocado
depois que por ele é feito ministro, porque basta esse trecho
para dar idéia do seu modo de insinuar nos espíritos
uma direção nova, um rumo diverso do que se ia levando.
É dos seus discursos o chamado a ponte de ouro. Os discursos
de Nabuco tinham entre os contemporâneos cada um o seu nome,
ou, como esse, tirado pelos adversários do alcance, da intenção
que lhe atribuíram, ou dado pela imagem ou frase mais expressiva,
ou compreensiva, de que ele se serviria para caracterizar a situação.
"Eu entendo, dizia ele falando da idéia de conciliação,
a qual estava no ar, que é preciso fazer alguma concessão
no sentido que o progresso e a experiência reclamam, para
que mesmo o orgulho e o amor-próprio não se embaracem
ante a idéia da apostasia; para que a transformação
seja explicada pelo novo princípio, pela modificação
das idéias. A conciliação como coalizão
e fusão dos partidos, para que se confundam os princípios,
para que se confundam os princípios, para que se obliterem
as tradições, é impraticável, e mesmo
perigosa, e por todos os princípios inadmissível;
porque, destruídas as barreiras do antagonismo político
que as opiniões se opõem reciprocamente, postas em
comum as idéias conservadoras e as exageradas, estas hão
de absorver aquelas; as idéias exageradas hão de triunfar
sobre as idéias conservadoras; as idéias exageradas
têm por si o entusiasmo, as idéias conservadoras somente
à reflexão; o entusiasmo é do maior número,
a reflexão é de poucos; aquelas seduzem e coagem,
estas somente convencem... A história nos diz que nestas
coalizões a opinião exagerada ganha mais que a opinião
conservadora..." E em seguimento: "Ouvi com repugnância
uma idéia proferida nesta casa, que os partidos por si é
que se deviam conciliar. Entendo ao contrário que a conciliação
deve ser a obra do governo e não dos partidos, porque no
estado atual, se os partidos por si mesmo se conciliarem, será
em ódio e despeito ao governo, e a transação,
versando sobre o princípio da autoridade, não pode
deixar de ser funestíssima à ordem pública
e ao futuro do país..."
Esses quatro anos de Ministério foram para ele extremamente
trabalhosos, mas por igual fecundos. Meu pai vinha da magistratura
e da Câmara com uma reputação feita de jurisconsulto.
No Ministério da Justiça ele a consolidou. Não
tento agora um resumo de sua obra, que extensamente recompuz em
Um Estadista do Império. Escolho alguns traços somente
para definir a sua individualidade e a sua influência. Coube-lhe
em primeiro lugar acabar inteiramente com o tráfico de africanos
que Eusébio de Queiroz, seu antecessor, ferira de morte,
mas que não queria desaparecer senão mui lentamente;
a menor fraqueza da parte de uma futura administração
fá-lo-ia renascer com dobrada ânsia de aproveitar a
monção, porque seus quadros e material conservavam-se
intatos no Brasil e em África. Nabuco propõe como
recurso extremo tirar-se o julgamento do crime aos jurados. Esse
golpe na "instituição popular" parecia uma
enormidade aos idólatras do preconceito liberal: ele, porém,
sustentou-o com razões de uma coerção moral
e social absoluta. "Em 1850, vós o sabeis, disse ele
à Câmara, o grande mercado dos escravos era nas costas;
é aí que havia grandes armazéns de depósito
onde todos iam comprar; mediante essa lei de 5 de setembro de 1850",
- a lei de Eusébio de Queiroz, - "essas circunstâncias
se tornaram outras, os traficantes mudaram de plano. Apenas desembarcados
os africanos são para logo, por caminhos impérvios
e por atalhos desconhecidos, levados ao interior do país.
A face destas novas circunstâncias que pode o governo fazer
com a lei de 4 de setembro de 1850, cuja ação é
somente restrita ao litoral? Se desejamos sinceramente a repressão,
se não queremos sofismá-la, devemos seguir os africanistas
em seus novos planos... Não é para abusar que o governo
quer estas disposições, porque para abusar eram bastantes
e poderosos os meios que estão hoje à sua disposição...
Um governo, a menos que desconheça a sua missão, não
pode por amor de um interesse comprometer os outros interesses da
sociedade: é na combinação de todos eles que
consiste o grande problema da administração pública...
Eu vos disse que o governo tinha o desejo sincero de reprimir o
tráfico e não queria sofismar a repressão:
não será sofismar a repressão o encarregar
ao júri o julgamento deste crime?... Os africanistas não
hão de deixar de procurar para o desembarque aqueles sítios
em que a opinião for favorável ao tráfico;
não hão de internar os africanos senão para
os lugares em que acham proteção, e o júri
desses lugares, os cúmplices, os interessados, os coniventes
no crime, podem julgá-lo?..." O governo triunfou, a
lei proposta foi votada pelas Câmaras... Ter ousado propor
a derrogação da competência do júri quando
o tráfico estava expirante, era a coragem do verdadeiro homem
de Estado, cuja divisa deve ser o nil actum reputans de César.
A glória não seria mais de repressão depois
do golpe de Eusébio; este a tinha tirado toda a antecessores
e sucessores igualmente; o que restasse a quem viesse depois dele
era somente o dever. Mais de uma vez meu pai teve que fazer frente
aos defensores teóricos da intangibilidade do júri
para fazer triunfar o princípio superior da defesa social.
Assustava-o a estatística da impunidade, e entre as causas
desse estado de coisas ele contava o poderio das influências
do interior que dominavam o júri e por esse meio aumentavam
e mantinham em obediência a sua vassalagem. Como remédio
propunha a concentração do júri nos lugares
povoados bastante para terem uma opinião independente.
Essa era a sua qualidade principal de político: adaptar os
meios aos fins e não deixar periclitar o interesse social
maior por causa de uma doutrina ou de uma aspiração.
Como se mostrou com o júri, mostrou-se, ele, magistrado,
com a magistratura. A distribuição da justiça
foi um de seus maiores empenhos na ordem administrativa, uma boa
magistratura, eficiente, instruída, prestigiada, era para
ele a solução de metade dos nossos problemas; levantar
a vocação de juiz por todos os meios ao alcance do
Estado seria o complemento do seu outro desideratum: levantar a
vocação religiosa, formar um clero a cujas mãos
se pudesse entregar a guarda dos dez mandamentos, o depósito
da moral e dos costumes. No entanto será ele o principal
sustentador das aposentadorias forçadas de magistrados vitalícios;
ele quem transformará em máxima do governo, em aspiração
para os homens de Estado, as palavras de um antigo chanceler francês,
quando disse: "Prefiro mil vezes ser julgado por um magistrado
venal, porém, capaz, a sê-lo por um magistrado honesto,
porém, ignorante, porque o magistrado venal não faltará
à justiça senão nas causas em que tiver interesse
em fazê-lo, enquanto que o magistrado ignorante só
por um mero acaso pronunciará uma boa sentença".
Da mesma forma com o clero. Como ministro da Justiça, ele
dá um forte impulso à educação do clero,
propõe a criação de faculdades teológicas;
é dele o decreto que confere aos bispos o poder ex-informata
conscientia sobre os seus sacerdotes, sem o qual não seria
praticável a arregimentação passiva da milícia
eclesiástica; e no entanto é ele quem interrompe no
Brasil o noviciado monástico. Seu pensamento, longe de se
suprimir as ordens religiosas, era regenerá-las, restituí-las
à desejada pureza, ou, como ele disse em uma frase que se
gravou na memória de Pio IX, "levantar um muro de bronze
entre o novo e o velho clero". Assim também serviu a
Monarquia com lealdade e desinteresse; jovem ainda, acadêmico
de Olinda, partiu dele o primeiro grito ouvido e repercutido no
Norte contra as tendências republicanas de 7 de abril, mas
a prerrogativa monárquica não encontrou entre nós
mais forte barreira do que fosse o seu espírito liberal fortemente
imbuído do preconceito constitucional. É característico
do seu modo de compreender a posição de conselheiro
de Estado a franqueza com que perante o próprio imperador
ele sustenta máxima, - o rei reina e não governa.
De 1868 a 1871, em que a idéia foi abraçada pelo visconde
do Rio Branco que a converteu em lei, meu pai foi o principal agitador
da libertação das gerações futuras.
Em 1866 ele votara por essa reforma em despacho de ministros e em
1867 fora o seu mais extremo defensor no Conselho de Estado, como
relator do projeto que depois se converteu na lei de 28 de setembro.
Distribuindo no dia da vitória os louros do triunfo. Francisco
Octaviano render-lhe-á este tributo: "Ao seu nobre colega
o sr. Nabuco de Araújo também é indisputável
a glória pelo zelo com que no Conselho de Estado, na correspondência
com os fazendeiros e na tribuna por meio de eloqüentes discursos,
fez amadurecer a idéia e tomar proporções de
vontade nacional".
Essa foi a reforma a que ele se dedicou com maior interesse e amor...
Também desde 1866 o meu sonho, minha ambição
para ele era que o seu nome ficasse associado ao primeiro ato de
emancipação do reinado... Quantas cartas minhas escritas
da academia, e conservadas, como ele fazia com todos os papéis
que recebia, encontrei depois exprimindo aquela esperança
íntima de que ele viesse a ser o Lincoln brasileiro! E de
certo de sua carreira nenhum traço me é mais precioso
do que esse que reconstruí com fidelidade em sua Vida e que
faz dele, assim como Rio Branco foi o Robert Peel, o Cobden daquele
primeiro movimento abolicionista. Assim, se ao entrar eu para a
Câmara em 1879 ele vivesse ainda, ao passo que sua presença
no Senado, modificaria em muita coisa a minha "liberdade de
ação, em um ponto, tenho a mais completa certeza,
o meu papel teria sido o mesmo, ainda mais acentuado: na questão
dos escravos. Nessa ele não me corrigiria nem me conteria.
A sua atitude seria, como havia de ser a de Rio Branco se assistisse
a mais uma sessão legislativa, francamente favorável
à abolição. Se um e outro vivessem, o caráter
revolucionário do movimento teria talvez sido evitado, porque
em ambos os partidos haveria no momento decisivo - depois foi tarde
-, quem se identificasse com a propaganda, impedindo assim no futuro
a aspiração liberal humana de tornar-se em fermento
político... Eu não tenho, graças a Deus, dúvida
que esta seria a sua atitude, e posso assim dizer que em 1879 não
fiz como deputado senão continuar do ponto em que ele ficara,
substituir-me a ele, com a diferença natural entre minha
mocidade e sua velhice, desenvolvendo em favor dos escravos existentes
o pensamento que ele assinalara como um dever nacional, tanto no
preparo como na discussão da lei que libertou as gerações
futuras.
Para o fim da vida seu liberalismo tinha tomado um tom muito acentuado,
mas era sempre sob formas concretas que ele encarava a liberdade.
Assim ocupava-se sobretudo das garantias judiciais da liberdade
individual. Ele tinha um certo número de fórmulas
constitucionais, de máximas políticas, que faziam
parte de sua lealdade tanto à causa monárquica como
à causa liberal. Conservador na mocidade e em toda a parte
da carreira em que a vida se expandia e a emulação
o inspirava, foi na idade do retraimento que ele rompeu com o partido
da tradição, que a seu ver se tornara uma oligarquia,
tomando a forma de um triunvirato; chefe liberal, porém,
mostrou sempre preferir a maneira, o compasso, a compostura da velha
escola à lufa-lufa, promiscuidade e indisciplina do seu novo
campo.
Estes traços bastariam para desenhar o homem de Estado: era
uma natureza liberal, com um impulso imaginativo muito pronunciado,
vendo distintamente o ideal político, mas querendo realidades
e não fantasmas, preferindo um pouco de liberdade que se
pudesse deixar como a herança aos filhos, um bem-estar relativo,
a grandes direitos ilusórios, em cuja posse não se
pudesse entrar; ou a grandes reformas do mecanismo político
que em nada melhorassem a condição do país.
Tinha um fundo de idealismo, formado de princípios inflexíveis,
mas corrigido sempre pela intuição nítida dos
efeitos práticos da lei. Era um chefe de partido alheio à
pequena política, o que quer dizer que exercia uma espécie
de autoridade moral que os amigos e adversários compararam
por vezes ao poder espiritual dos antigos mikados.
Vivendo no meio de uma elite verdadeiramente notável de homens
de Estado, oradores, legisladores, a mais rica dos dois reinados
em talento parlamentar, tradições políticas
e conhecimentos administrativos, ele teve longo tempo entre eles
por admissão geral o papel de oráculo. Para o fim
falava raramente e uma tristeza invencível misturava-se às
suas adivinhações patrióticas. Hoje dir-se-ia,
lendo-o, que a uma distância de doze ou quinze anos o fim
das instituições liberai projetava na frente a sua
sombra e que ele a via avançar sobre a tribuna do Senado.
Foi muitos anos depois e sua morte, estudando-lhe a vida, meditando
sobre o que ele deixou do seu pensamento, compulsando o vasto arquivo
por ele acumulado, a sua correspondência política,
os testemunhos, as controvérsias, suscitadas pela sua ação
individual e as conseqüências a ela atribuídas
por amigos e adversários, que abrangi a personalidade política
de meu pai. Na mocidade ser-me-ia impossível ter dele a compreensão
que depois formei; eu não teria as faculdades para isso,
a calma necessária para admirar o que só fala à
razão, o espírito de sistema, o gênio construtor.
Mas se o estadista só podia ser medido e avaliado por mim
em outra fase do meu desenvolvimento, não sofri, toda a vida,
influência direta e positiva como a admiração
que tive pelo homem. Sua grande ciência eu sabia bem, eu via,
estar nele e não nos livros, que literalmente não
eram senão autoridades de que ele se servia para o público,
juízes, colegas... Mais, porém, do que sua ciência,
o que me dominava nele era a harmonia visível da sua estrutura
mental e moral, manifestada por uma serenidade e uma doçura
sem igual.
Em 1860 meu pai mudou-se do Catete para a praia do Flamengo, onde
residiu até a morte. A casa era uma dessas construções
maciças ainda do bom tempo da edificação portuguesa
do Rio de Janeiro, com proporções no interior de um
trecho de palácio ou de convento. Ali, naqueles salões,
e quartos que eram salas, ele estava à vontade, tinha o espaço
e, com o mar em frente de suas janelas, a variedade e o movimento
exterior, precisos a um recluso dos livros. A sociedade do Rio de
Janeiro vinha às suas partidas e recepções;
vizinhos, nos domingos, à missa rezada em seu oratório;
durante a sessão das Câmaras, deputados pernambucanos,
e sempre os íntimos, como o marquês de Abrantes, Quarahim,
os antigos colegas. Isto, além das vezes que ia de carruagem
ao Senado ou ao escritório, constituía toda a distração
que ele tinha fora do seu gabinete. Sua vida, pode-se dizer, era
exclusivamente cerebral, e nunca teve tempo, (nem um dia, talvez,
em toda ela), de interromper, de suspender, essa labor contínuo,
que era todo ele um serviço forçado, nenhuma parte,
nem a mais insignificante sequer, sendo de sua própria escolha
ou inclinação...Desse modo de viver, encerrado entre
altas muralhas de livros, saindo da sua cela somente para se encontrar
em presença da família com os que a simpatia ou a
fidelidade reunia em torno dele, resultou aquela bondade cativante,
que foi o seu principal traço.
É para mim hoje uma causa de arrependimento e compunção
o não ter tido como principal aspiração saciar-me,
saturar-me dele, fazer do meu espírito uma cópia,
um borrão mesmo, do que havia impresso e gravado no dele,
quando mais não fosse, das notações que um
instante retive, mas deixei apagar... Há lacunas que não
me seria possível reparar...Estou-me lembrando agora dos
grandes volumes encadernados que faziam companhia no degredo do
escritório à duplicata dos velhos praxistas...Era
a coleção dos periódicos em que colaborara
ou que redigira no Recife... Estavam ali vinte anos de sua vida...Toda
essa série dispersou-se, desapareceu... Porque não
coincidiu o interesse profundo, incomparável, que tudo isso
depois me inspirou com o tempo em que vivi ao lado dele? Este desejo
de recolher os menores vestígios do seu pensamento, os traços
mais fugitivos da sua reflexão, eu sempre era, na esfera
em que ele produzia, pessoal, criadora, transformadora do assunto
que tratava, só me veio quando já não podia
recorrer a ele, pedir-lhe esclarecimentos, fazê-lo animar
para mim aquela poeira com a vida que estava só nele, dar-me
a chave, o espírito da época, o caráter, o
alcance, a verdade real do que ali se representava, e de que só
ele possuía as limitações, a escala, o padrão
definitivo em que tudo devia ser tomado...E em relação
aos personagens que conhecera, com quem vivera! Porque não
fiz passar diante dele, sem cansá-lo nem forçá-lo,
a galeria dos seus contemporâneos para apanhar o vestígio
que lhe ficara de cada um?... No entanto, quanto não conversei
com ele! Anos inteiros meu maior prazer eram as horas que ele nos
dava cada dia em que me embebia em ouvi-lo e, ainda mais, em vê-lo...
Hoje sinto não ter tido a ambição de não
ser senão o aparelho que recebesse para conservar o mais
que fosse possível dele, e cuja presença continua
ao seu lado lhe fosse recolhendo as reminiscências, os pontos
de vista, as imagens representativas, em cinqüenta anos de
atividade cerebral traçaram em seu pensamento.
Feito este ato de contrição pelo que deixei de aproveitar
dele para minha própria formação e pelo que
deixei perder ao seu espólio intelectual, a verdade é
que nenhuma sanção moral foi por muito tempo tão
forte para mim como a consciência da relação
que me prendia a ele e que em todo o tempo estive sempre pronto
a renunciar a uma palavra dele - que a não disse -, a minha
inspiração pela sua, o papel que eu ambicionasse pelo
que ele me desse. Como eu disse, só muito mais tarde, vinte
anos depois de o ter visto pela última vez, pude avaliar
o que chamo hoje o seu gênio político e sentir por
ele toda a admiração consciente, objetiva, de que
sou capaz. Mas ainda assim o sentimento da sua superioridade no
seu tempo foi para mim instintivo. Longe dele, na minha esfera intelectual
independente, eu exprimiria muitas opiniões, diversas das
suas, teria muito exagero da linha que ele levava; não haveria
hipótese, porém, de não ceder eu à menor
pressão que ele julgasse preciso exercer sobre mim, a uma
persuasão que me quisesse incutir. A pretensão da
mocidade, que se inspira em si mesma e decreta a sua infalibilidade,
porque só vê o lado das coisas ao seu alcance, desapareceria
sem hesitação a um apelo da sua ternura, a um toque
da sua razão superior. Prouvera a Deus tivesse sido assim
nos primeiros anos da curiosidade intelectual insaciável,
quando primeiro travei conhecimento com a terra incógnita
assinalada no mapa da fé como o limite da própria
imaginação.
O espetáculo da sua devoção concorreu mais
do que nenhuma outra influência para conservar durante anos
intacta a minha crença; depois esta passou por grandes abalos,
mas aquela impressão predominante fez-me sempre tratar o
que me parecia essencial na religião como a esfera superior
ou a fonte mais elevada da inspiração humana... Alguma
vez, entretanto, pensando nele e na sua grande autoridade sobre
mim, não deixei de sentir a vantagem que os espíritos
emancipados se atribuem em relação aos que nunca saíram
da fé. Era no tempo em que eu perguntava a mim mesmo se um
homem, mesmo tendo o gênio de um Santo Tomás de Aquino,
podia ser chamado superior, se não tinha, em nosso século,
outro horizonte intelectual senão o da revelação...
Talvez pensasse eu então como consolo que meu pai também
tivera dúvidas que não deixava perceber, ou que tinha
voltado à fé como uma síntese já pronta
da vida humana em todas as suas relações depois de
ter debalde procurado construir outra por si mesmo. Só mais
tarde alcancei compreender que a inteligência pode trabalhar
até ao fim inteiramente alheia aos graves problemas religiosos
que confundem o pensador que os quer resolver segundo a razão,
se nenhum choque exterior veio perturbar para ela a solução
recebida na infância. A dúvida não é
sinal de que o espírito adquiriu maior perspicuidade, é
às vezes um simples mal-estar da vida. Uma existência
ocupada por grandes trabalhos pode não ter um momento para
dar à dúvida religiosa. Se não é exato
dizer que a dúvida nunca ajudou nenhum dos grandes gênios
da humanidade no traço ou no aperfeiçoamento de sua
obra, o número dos que ela assistiu é seguramente
pequeno comparado ao dos que não precisaram de um sopro de
negação para os inspirar e souberam criar, crendo.
Uma coisa pelo menos é certa, a saber, que as faculdades
criadoras devem estar solidamente construídas para que a
dúvida não as faça produzir uma obra menos
considerável ou menos bela do que o faria a fé. A
dúvida pode ser o indício de um novo destino humano,
o esboço de uma inteligência ainda por vir, mas ela
levará muito tempo para chegar a formar um sentido superior
à religião. As minhas idéias sobre o que constitui
a superioridade intelectual mudaram felizmente muito desde esse
tempo em que eu procurava pretextos para atribuí-la a espíritos
destituídos da faculdade da dúvida, mas que em tudo
mais me impunham admiração, como meu pai. Eu tomaria
por vezes então um literato, um escritor, como superior a
um desses pensadores ásperos, cuja idéia só
se pode colher depois de quebrar o invólucro resistente que
a protege. É como se a flor que dura uma manhã devesse
ser a última expressão do mundo vegetal da preferência
ao cedro milenário, pai da floresta.