MINHA FORMAÇÃO
Joaquim Nabuco
Capítulo XIII
O espírito inglês
Sem ele a convicção da superioridade do tipo político
da Inglaterra não teria bastado. Quanto à sensação
aristocrática da vida, de que também falei, essa,
no combate dos partidos, não teria resistido ao primeiro
choque. O que entendo por espírito inglês neste caso
é a norma tácita de conduta a que a Inglaterra toda
parece obedecer, o centro de inspiração moral que
governa todos os seus movimentos. Vi quase nada da Inglaterra, sinto
dizê-lo, mas vi pedaços que me impedem quase de querer
ver o resto, exceto Oxford, cujo lugar tenho vago em minha galeria
interior, à espera do seu pequeno quadro. Vi, por exemplo,
Cantuária, e tenho no pensamento a calma, o silêncio,
a grandeza daquela imponente massa recolhida em si mesma. Vi, na
semana de Cowes, Southampton e a ilha de Wight, pequena sombra da
Inglaterra no mar, sombra colorida, movente e alegre. Fui em carruagem
- poderá haver um dia mais completo de romance? - de Straford-on-Avon,
atravessando Warwick, a Kenilworth. Passei dias à margem
do Tâmisa, entre Windsor e Henley, e creio que tive reminiscências
do paraíso terrestre. É realmente a vinheta mais perfeita
que se podia imprimir à margem do capítulo II, v.
10 do Gênese: "Deste lugar de delícias saía
um rio que regava o paraíso". Em toda parte a impressão
que tive da Inglaterra foi a mesma: ruínas cobertas de hera,
antigas gravuras expostas em Pall Mall, montes de trigo nos campos
ceifados, castelos recortados no meio de parques florestais, velhas
estalagens à beira da estrada, botes encostados ao arvoredo
de Cliveden, grandes transatlânticos nas docas de Southampton,
sempre a mesma impressão, o cunho inglês estampado
em tudo. A sensação foi a mesma para mim da Inglaterra,
vista de dentro, na segurança de seus recursos, e vista de
fora, inatacável nos seus altos cliffs brancos, a cujos pés
o mar se abre como uma trincheira.
É, porém, na sua feição política
somente que considero neste momento o espírito inglês,
e, ainda mais restritamente, o modo por que ele se manifesta nos
movimentos reformistas, a influência que tem sobre os espíritos
inovadores. Politicamente, o espírito inglês pode decompor-se
em espírito de tradição, em espírito
de realidade, em espírito de força e generosidade
de progresso e melhoramento, em espírito de ideal: supremacia
anglo-saxônia e supremacia cristã no mundo.
A veneração imprime na Inglaterra aos precedentes
uma autoridade quase sagrada, o tira a tudo que tem caráter
histórico ou função nacional, a feição
individual em que se fixa a vista de outros povos. A rainha Vitória
é mais do que a augusta, cuja imagem cada família
venera no seu lararium interior; é a realeza normanda, Plantagenet,
Tudor. Como a rainha, a Constituição. Esta não
é mais do que uma procuração em causa própria
dada pela nação inglesa à Câmara dos
Comuns, e mesmo assim, um mandato de que nunca se viu o instrumento.
Nenhum grande legista a redigiu, nenhum homem de Estado a ideou:
formou-se espontaneamente, inconscientemente, como a língua
inglesa, a arquitetura perpendicular, os contos da nursery. A tradição,
como base do temperamento nacional, produz no inglês a faculdade
de admirar a massa histórica de uma instituição,
como o arquiteto admira a grandeza e o detalhe de uma catedral gótica.
Para o inglês, se a liberdade é o grande atributo do
homem, se ele a sente como o desenvolvimento da personalidade, a
ordem é a verdadeira arquitetura social. Ele compreende e
penetra a grandeza do sistema que se perpetua mais do que a das
revoluções, ao contrário do latino, que pode
viver e ser feliz em um solo político oscilante, sujeito
a terremotos contínuos. Daí, para ele o amor da lei
e a simpatia, interesse, carinho mesmo, pela autoridade encarregada
de executá-la; daí, também, o prestígio
do juiz, a popularidade das sentenças que aterrorizam o criminoso,
ao contrário das facilidades que este encontra nos países
onde decai o instinto de conservação.
Se numa organização assim formada existe, ao lado
dessa quase superstição do costume, o espírito
de aperfeiçoamento e de progresso, o que resulta é
que as reformas, as modificações serão governadas
por algumas regras elementares. Uma destas será conservar
do existente tudo o que não seja obstáculo invencível
ao melhoramento indispensável; outra, que o melhoramento
justifique - e para justificar não basta só compensar
- o sacrifício da tradição, ou mesmo do preconceito
que o embarga; outra regra é respeitar o inútil que
tenha o cunho de uma época, só demolir o prejudicial;
outra, substituir tanto quanto possível provisoriamente,
deixando ao tempo a incumbência de experimentar o novo material
ou a nova forma, para consagrá-lo ou rejeitá-lo; uma
última, esta rara e extrema, será reformar, no sentido
originário da instituição, o mais antigo, procurando
o traçado primitivo. Dessas regras resulta o dever de demolir
com o mesmo amor e cuidado com que outras épocas edificaram.
Nenhum explosivo é legítimo, porque a ação
não pode ser de antemão conhecida; é preciso
demolir a nível e compasso, retirando pedra por pedra, como
foram colocadas.
O que, porém, dirige o espírito de progresso é
o espírito de realidade, espírito prático,
positivo, que se manifesta pela rejeição de tudo que
é teórico, a priori, tentativo, lógico, ou
que pretenda à perfeição, à finalidade,
à uniformidade, à simetria. A esse espírito
corresponde, na ordem política, a idéia de crescimento:
as instituições tem o seu habitat como as plantas,
as suas latitudes e terrenos próprios, condições
especiais de aclimação, obstáculos e perigos
de transplantação. Não basta que a reforma
seja indicada pela experiência, baseada em uma forte verossimilhança;
é preciso que tenha afinidade com as outras instituições.
Esse espírito prático, positivo, é a experiência
do utilitarismo, do espírito de criar e acumular riqueza,
característico da raça. O utilitarismo manifesta-se
em que as reformas devem ter uma vantagem econômica, pelo
menos indireta, e justificar-se por algarismos. Ao lado, porém,
da corrente utilitária, há a corrente imaginativa
ou de ideal, moral, nacional, religiosa.
A varonilidade impõe ao reformador não fazer vítimas
emissárias, responsabilizando indivíduos ou instituições
pelos erros comuns da sociedade, não lavar as mãos
como Pilatos das injustiças da multidão, não
preferir o fraco para sobre ele descarregar o golpe, em uma palavra,
o flair-play. O patriotismo manda não consentir que o espírito
de partido suplante o de responsabilidade para com o país.
O que, entretanto, na Inglaterra alimenta, renova e purifica o patriotismo,
é outra espécie de responsabilidade: a do homem para
com Deus. Só quando o orgulho britânico e a consciência
cristã estremecem juntos e se unem em uma mesma causa, é
que o sentimento inglês desenvolve a sua energia máxima.
A inspiração da vida pública na Inglaterra
vem em grande parte da Bíblia. A política e a religião
sentem que terão sempre muito que fazer em comum, que uma
e outra têm o mesmo objetivo prático - elevar a condição
moral do homem, e o efeito desse último e, talvez principal
elemento do espírito inglês, em relação
às reformas, é fazer o argumento moral prevalecer
sobre o argumento utilitário.
Tomando-se o espírito inglês, como acabo de delinear,
que é que ele inspirará na Inglaterra a republicanos
de ideal, que se subordinem, entretanto, como indivíduos,
à consciência coletiva, ao instinto nacional ? Há
uma página interessante em On Compromise, livro típico
de casuística intelectual inglesa, escrito por John Morley.
Essa página é a melhor ilustração do
que eu disse antes sobre o republicanismo que pode existir por baixo
do sentimento monárquico, até para dar-lhe brilho
e calor. Ele figura um inglês convencido de que a Monarquia,
mesmo meramente decorativa, tende a engendrar hábitos sociais
degradantes. O dever desse republicando será deixar a Monarquia
de lado e abster-se de todos os atos, em público e em particular,
que possam, mesmo remotamente, alimentar o espírito de servilismo.
"Tal política não interfere, diz-nos mr. Morley,
com as vantagens que se diz ter a Monarquia, e tem o efeito de tornar
as suas supostas desvantagens tão pouco prejudiciais quanto
possível..."
Desse espírito inglês eu disse que tive apenas um toque.
Na questão da abolição, entretanto, não
me desviei dele. A abolição era uma reforma que o
espírito inglês anteporia a todas as outras por toda
ordem de sentimento. Se a abolição se fez entre nós
sem indenização, a responsabilidade não cabe
aos abolicionistas, mas ao partido da resistência. O meu projeto
primitivo, em 1880, era a abolição para 1890 com indenização.
Se em qualquer tempo um ministro da coroa chegasse às Câmaras
e dissesse: "A escravidão não pode mais ser tolerada
no Brasil, o nosso grau de civilização repele-a, e
eu venho pedir que decreteis a liberdade imediata dos escravos existentes,
votando os precisos recursos para a respectiva desapropriação",
poderia haver abolicionista que quisesse prolongar a escravidão?
Nenhum de nós assumiria a odiosa responsabilidade. Esse homem,
porém, não surgiu dentre os estadistas do Império;
todos pensavam, ou que a abolição arruinaria a lavoura
e o crédito do país, ou que o Brasil não era
rico bastante para pagar a libertação moral do seu
território. Podia haver abolicionistas contrários
à indenização; de fato, os houve; mas podiam
eles, acaso, votar nunca contra uma lei de abolição
imediata? A responsabilidade foi assim dos partidos, que se comprometeram
perante a lavoura a resistir ao movimento, e que teriam, do seu
ponto de vista, feito melhor sacando sobre o futuro e desapropriando
os escravos, quando o princípio da não-indenização
ainda não tinha triunfado no projeto Dantas e na segunda
lei de 28 de setembro. Essa intuição só a teve
meu querido amigo José Caetano de Andrade Pinto no Conselho
do Estado; não lhe deram, porém, valor. Com relação
à lei de 13 de maio devo dizer que em 1888 era tarde para
se pleitear a eqüidade da desapropriação diante
de um movimento triunfante, quando já a maior parte dos escravos
tinha sido liberalmente alforriado pelos senhores e o resto da escravatura
estava em fuga, depois, sobretudo, de estar por lei consagrado o
princípio de que a escravidão era uma propriedade
anômala, a que o legislador marcava sem ônus para o
Estado o prazo de duração que queria.
Em relação à Monarquia do Brasil aquele toque
do espírito inglês bastou para traçar-me uma
linha de que eu não poderia afastar-me, mesmo querendo. Era
um ponto de honra intelectual, um caso de consciência patriótico
definitivamente resolvido em meu espírito, aos 23 anos. Suprimir
a Monarquia que tínhamos, ficou claro para mim desde então,
era uma política a que eu não poderia nunca associar-me;
eu poderia tanto banir, deportar o imperador, como atirar no mar
uma criança ou deitar fogo à Santa Casa. Quebrar o
laço, talvez providencial, que ligava a história do
Brasil à Monarquia, era-me moralmente tão impossível,
como me seria no caso de Calabar entregar Pernambuco por minhas
próprias mãos ao estrangeiro. Faltar-me-iam forças
para uma intervenção dessas no destino do meu país.
Seria atrair sobre mim um golpe de paralisia, ferir-me eu mesmo
de morte moral. Minha coragem recuava diante da linha misteriosa
do Inconsciente Nacional. O Brasil tinha tomado a forma monárquica,
eu não a alteraria.
O que vi nos Estados Unidos não fez senão calcar mais
profundamente a impressão monárquica que eu levava
da Inglaterra. Foi uma segunda chave, de segurança, que fechou
em meu pensamento a porta que nunca mais se devia abrir. O espírito
político americano, com certas modalidades que não
quero amesquinhar, mas que me parecem secundárias, é
uma variedade do espírito inglês, o qual merece antes
ser chamado espírito anglo-saxônio, porque é
um espírito comum de raça, de grande família
humana, superior a formas e acidentes de instituições.
Capítulo XIV
Nova York (1876-1877)
Talvez o melhor modo de mostrar o que devo aos Estados Unidos seja
reproduzir páginas do meu diário de 1876-77. Cheguei
pouco tempo depois da visita do imperador; pude assim recolher o
eco da impressão deixada por ele. O ano que passei na grande
República foi um dos seus momentos políticos mais
interessantes, porque foi o da eleição de Tilden.
Como se sabe, os democratas ganharam as eleições de
1876, mas as juntas apuradoras republicanas de alguns Estados do
Sul manipularam as atas de forma a dar maioria aos eleitores do
seu partido. Ambos os lados reclamavam a vitória, e, como
a Câmara dos Representantes era democrata e o Senado republicano,
a perspectiva era que o Congresso não chegaria a acordo até
março, e que os Estados Unidos teriam dois presidentes com
todas as probabilidades de uma guerra civil. O espírito prático,
o espírito de transação da raça anglo-saxônia
interveio, e as duas casas do Congresso concordaram em entregar
o julgamento a uma comissão especial, tirada de cada uma
delas e do Supremo Tribunal. A diferença entre Inglaterra
e os Estados Unidos não pode ser melhor apresentada do que
nesse caso: a resolução americana foi como a inglesa,
o acordo em vez da guerra civil dos países latinos, mas nos
Estados Unidos, ao contrário do que aconteceria na Inglaterra,
a comissão não se elevou acima do espírito
de facção, as votações foram todas estritamente
partidárias, o que quer dizer, figurando nela cinco membros
da Corte Suprema, que o mais alto tribunal da União era composto
de politicians. Com juízes ingleses a decisão teria,
talvez, sido injusta, mas não seria nunca parcial, dada por
motivo político; não se contariam de antemão
os votos dos juízes como os dos congressistas. Em tão
pouco tempo como tive, nenhum estudo comparativo da educação,
da seriedade e dos costumes políticos dos dois países
podia ser mais proveitoso para mim do que foi essa campanha eleitoral
de 1876-1877 e o desenlace que ela teve. As qualidades e as deficiências
da política americana estavam todas visíveis e patentes
nessa lição de coisas. Eu tinha acompanhado a luta
dos partidos para a captura da cadeira presidencial com o maior
interesse, cada boss me era conhecido, como o era cada figura de
senador, a opinião de cada jornalista influente, cada nuança
das duas convenções. É realmente o momento
para o estrangeiro abranger num relance a vida política dos
Estados Unidos, esse ano eleitoral. Eu tinha chegado a Nova York
a tempo de familiarizar-me com as questões, as alusões,
a gíria política do formidável canvass que
se ia travar e do qual a política da reconstrução
no Sul devia ser o eixo. Interessava-me o Tammany Ring, o Whiskey
Ring, o cisma dos Independentes, o Civil-Service Reform, o Railroad
Land-Grants, como me interessava o encontro de Gladstone com Disraeli
na questão do Oriente, ou a luta de Thiers com o duque de
Broglie. Durante mais de um ano fui um verdadeiro americano nos
Estados Unidos, como o provérbio manda ser romano em Roma.
Era o meio de penetrar, de compreender, de sentir a vida política
do país, se eu o queria, e este fora o meu motivo ao desejar
ir para os Estados Unidos.
O meu diário desse ano é antes um registro de pensamentos
do que de impressões americanas. Há muito pouca política
nele, o que mostra que eu vivia em uma atmosfera diversa da que
os homens de partido respiram, mesmo no estrangeiro. Reproduzo algumas
dessas notas para mostrar isto mesmo, que o meio norte-americano
teve sobre mim o efeito que muita vez tem sobre os próprios
americanos, de desinteressá-los da política, exceto
como e espectadores. Posso dizer que vivi esses dois anos, de 1876
e 1867, na sociedade de Nova York, onde se está tão
longe da política americana como em Londres ou em Paris;
mas o mundo exterior, que me cercava por toda parte, a rua, a praça
pública com os seus cartazes e procissões eleitorais,
os jornais com as cenas do Congresso e as torrentes de eloqüência
dos meetings, não podia deixar de atrair-me como todo espetáculo
nacional curioso e único, além, está visto,
do interesse intelectual que eu tinha em saber como um tão
grande país era governado e dirigido, as forças sociais
e influências morais que presidiam ao seu colossal desenvolvimento.
Aqui estão ao acaso algumas das notas.
"22 de outubro. O discurso de Carl Schurz pronunciado ontem
no Union League Club, expõe o sentimento republicano na melhor
luz. O principal elemento da presente campanha começa a ser
a Questão do Sul. Com a aproximação do dia
7 de novembro esse ponto de vista tornar-se-á mais importante
do que todos os outros. A camisa ensangüentada (bloody-shirt)
caiu em completo descrédito, mas é preciso contar
como receio de que o Sul, unido, composto dos antigos Estados rebeldes
e onde os candidatos são todos soldados da Confederação,
possa dominar o Norte tão cedo, depois da guerra, passando
o governo americano a ser representado por antigos separatistas.
Esta idéia assunta os que põe acima de tudo a União,
mesmo quando seja preciso reduzir os Estados impenitentes a territórios
sujeitos ao despotismo militar e entregues politicamente ao domínio
conjunto dos carpet-baggers e dos negros. Este elemento decidirá,
provavelmente, em favor de Hayes a luta que de outra forma seria
nos últimos anos desonra a política americana."
"1º de janeiro. Cheguei a Washington, em Riggs House.
Pela primeira vez ponho o uniforme. À Casa Branca. Apresentação
ao presidente, depois à casa do secretário de Estado,
mr. Fish. A chamada dinastia Grant, a filha de mrs. Sartoris; a
netinha recebendo os cumprimentos pelo avô. Vou com o capitão-tenente
Saldanha de Gama visitar os membros da Corte Suprema: através
da terrapine e das baked oysters todo dia, até que em casa
do secretário da Marinha um solene the reception is over!
põe termo à nossa peregrinação de New-Year's
day."
Eu tinha conhecido Saldanha na Exposição de Filadélfia,
depois ligamo-nos muito em Nova York, onde morávamos no mesmo
hotel, o Buckingham. Ele ria-se sempre muito daquele: the reception
is over! Pobre Saldanha! nascido para o mundo, para o amor, para
a glória, quem imaginaria, ao vê-lo naquele tempo em
Nova York, que o seu destino seria o que foi? A esfinge da vida
que lhe dera, ainda adolescente, um dos seus enigmas indecifráveis
para resolver, destruindo nele a aspiração de ser
feliz, reapareceu de novo a embargar-lhe o passo no momento em que
podia disputar a primeira posição do país.
"11 de janeiro. À casa de mr. John Hamilton, filho de
Alexandre Hamilton. Um homem do passado, voltado todo para ele.
Diz-me que o Brasil deve conservar o mais tempo possível
a sua formação monárquica. Este Whig não
acredita que países como os nossos possam durar unidos sob
outra forma de governo. Emoção ao mostrar-me o retrato
de Luís XVI, presente feito ao pai..."
"22 de fevereiro. Almocei com mr. Marshall no Knickerbocker
Club, hoje aniversário de Washington; almoçavam mr.
Manton Marble, ex-redator do World, mr. Appleton, o grande editor,
mr. Stout, mr. Robinson, mr. Pell, e outros. Ao toast feito ao imperador
respondi, como todas as saúdes eram humorísticas,
com um ensaio de humor. Disse que nós tínhamos tido
receio de que os americanos o guardassem, lembrando-se de que uma
grande autoridade para eles, o general Lafayette, dissera da Monarquia
constitucional: "Aqui está a melhor das repúblicas".
Mas, desde que eles tinham deixado o imperador partir, eu fazia
votos para que os dois países conservassem suas instituições
como uma aposta de liberdade perpétua entre a Monarquia e
a República. Quanto a Washington, fiz uma reserva à
sua grande obra: a de ter fundado a capital em uma cidade, sem dúvida,
muito agradável, mas para a qual sempre se vai a custo, quando
se tem que deixar Nova York."
"Março, 2. Hoje fui ao Congresso ver os destroços
da véspera. (Hayes fora proclamado presidente por um voto.)
Não há alegria no lado republicano; no democrata a
decepção é grande; mas, em pouco tempo, quando
a ferida tiver cicatrizado e se pensar no futuro, esse partido ficará
contente de se terem passado as coisas como vimos ontem. O general
Banks, antigo speaker da Câmara, cedeu-me a sua cadeira no
próprio recinto do Congresso (em sessão), depois veio
sentar-se nela o meu ministro, e fomos apresentados a diversos deputados,
notáveis, entre eles Lamar e Garfield."
"8 de março. O presidente propõe uma emenda constitucional,
tornando o prazo da presidência de seis anos, sem reeleição.
Essa emenda provém do medo que se tem de que as eleições
presidenciais sejam tão disputadas pelos dois partidos, que
dividem em duas metades o país, como foram as do outono passado,
e que os negócios de três em três anos tenham
um quarto ano de interrupção e de paralisia, como
se tudo peregrinasse e a anarquia ou a guerra civil, talvez a separação,
pudesse seguir-me a uma eleição duvidosa. Os interesses
do comércio e os da propriedade conseguirão um dia
alongar o prazo até seis anos, e como com a maior escassez
de eleições elas tendem a tornar-se mais renhidas,
não há prazo para o país correr todos os seis
anos um risco que não quer correr todos os quatro. Assim,
a eleição crítica do chefe do Estado irá
sendo o mais possível espaçada, e não é
impossível que a República americana se aproxime tão
de perto das monarquias eletivas, que, vendo o perigo desta forma,
ela prefira a tranqüilidade das longas dinastias...
É curioso que o que há de mais perfeita nesta democracia
seja a mulher, que é aqui o ente mais aristocrático
do mundo."
"2 de abril. A idéia de governo hoje é inteiramente
diversa da idéia de governo antigamente; tomemos, por exemplo,
a liberdade de imprensa nos Estados Unidos, que representavam a
nova educação política, e a censura na Rússia.
Há muito que dizer em favor de se deixar o pensamento inteiramente
livre e sobre os inconvenientes da repressão; mas o correto
é que se formam duas sociedades diversas pelo respeito forçado
à autoridade e pelo desprestígio dela. A dificuldade
que há no caminho da tradição é que
a dignidade, ou a altivez pessoal, não quer sacrificar-se
aos grandes resultados morais e que os homens se consideram todos
iguais por um sentimento que já é indestrutível.
Eu sou seguramente igual a um rei, como indivíduo, mas, como
do princípio da Monarquia vêm muitos bens para a sociedade,
coloco-me em plano inferior. Isso não é quebra de
dignidade humana, ainda que a altivez pessoal tenha que se curvar."
"13 de maio. Diz-se que Tilden não reconhece Hayes como
presidente. É o caso de algum amigo ler-lhe o Kriton. Quando
Kriton quer convencer a Sócrates de que deve fugir para evitar
uma morte injusta, Sócrates nega-se com o fundamento de que
a sentença, injusta como é, é todavia inteiramente
legal. Se os juízes fizeram mal em pronunciá-la, ele
faria pior em não se sujeitar às leis de Atenas, porque
o cidadão que goza da proteção e dos direitos
que uma cidade lhe oferece, tem com ela o pacto tácito de
respeitar as suas leis. Sócrates recusava a vida por ser
ilegal, ainda que soubesse que adviria da sua fuga mais bem do que
mal à democracia ateniense. Não devia Tilden reler
esse diálogo? Injusta como foi a decisão contra ele,
foi estritamente legal, não no sentido de estar de acordo
com o direito, mas por ser dada pelos intérpretes competentes
da lei. Ele só pode chamar para si e o seu partido as simpatias
de todos, sujeitando-se à decisão proferida, salvo
o seu direito de brandir contra o novo presidente as fraudes pelas
quais chegou ao poder."
"Junho, 13. Ontem realizou-se no Manhattan Club a recepção
dos swallow-tails aos candidatos democráticos eleitos e counted
out. Tilden falou pela primeira vez depois da inauguração
de Hayes, à qual chamou o mais portentoso acontecimento na
história da América. América quer dizer Estados
Unidos, porque no México e no Peru há, cada dia, acontecimentos
desses muito mais portentosos. 'Os males no governo crescem com
o êxito e com a impunidade. Não se restringem a si
mesmos voluntariamente. Não podem ser nunca limitados senão
por forças externas. Uma grande e nobre nação
não separa a sua vida política da sua vida moral.'
Tudo isto é muito exato. O Brasil é a prova. Deve
o povo, ou não, fazer política? O adiantamento de
um país prova-se pela extensão da idéia de
que a política é inseparável dos mais vitais
interesses da sociedade, e por aí, de cada um. No Brasil,
essa idéia não se derramou, pelas condições
especiais em que nos achamos, de território, população,
trabalho escravo, etc. Aqui ela está em cada cabeça.
O que mais me surpreendeu nessa reunião de Manhattan, foi
o governador de Nova York, este de jure e de facto, mr. Robinson,
chamar em público ao presidente dos Estados Unidos um presidente
fraudulento. Depois de ter dito que não teriam que esperar
até 1880 para pô-lo fora da Casa Branca, terminou assim,
referindo-se a Tilden e a Hendricks: 'Fellow citizens, tivestes
a primeira oportunidade de saudar o presidente e o vice-presidente
dos Estados Unidos depois da sua eleição. Eu vos felicito
e acredito que este é apenas um presságio de fatos
que se hão de suceder'. A alocução do governador
do principal Estado da União proclamando a rebelião,
legal ou ilegal, é característico do regime político
americano, e do laissez-faire, laissez-passer de que goza neste
país a palavra. As revoluções de língua
e pena não são nunca um delito; são um desabafo.
A boca do politician é uma válvula de segurança
das instituições. É o país das válvulas
automáticas."
"19 de junho. Os jornais têm hoje um fato interessante:
a visita feita por Frederic Douglass ao seu velho senhor, que deixou
na adolescência, para começar a vida de aventuras que
o levou até ser marshall em Washington e o grande orador
da abolição que foi. Vim antes de tudo, disse Douglass,
ver meu velho senhor, de quem estive separado 41 anos, apertar-lhe
a mão, contemplar-lhe o velho rosto bondoso, brilhando com
o reflexo da outra vida.'
Esta cena dá uma idéia mais tocante da escravidão
no Sul do que a Cabana do Pai Tomás. O lugar é St.
Michel, Talbot, County, Md. O nome do senhor Capt, Thomas Aould.
Marshall Douglass ouviu a sua verdadeira cidade da boca do seu senhor,
em cujos livros ele figura assim: 'Frederic Balley, fevereiro 1818'.
Provavelmente, o senhor não registrou mais carreira agitada
de Frederic desde a idade de 18 anos (1836). Esse fato é,
do que tenho lido, uma das mais profundas e penetrantes apresentações
do fato moral complexo da escravidão, o laço entre
escravo e senhor."