Marília de Dirceu
de Tomaz Antonio Gonzaga
Lira XXVIII
Detém-te,
vil humano;
Não espremas a cicuta
Para fazer-me dano.
O sumo, que ela dá, é pouco forte;
Procura outras bebidas,
Que apressem mais a morte.
Desce ao Reino profundo,
Ajunta aí venenos,
Que nunca visse o mundo:
Traze o negro licor, que têm nos dentes,
Nos dentes denegridos
As raivosas serpentes.
Cachopo levantado,
Que pôs a natureza
Dentro no mar salgado,
Não se abala no meio da tormenta;
Bem que uma onda, e outra onda
Sobre ele em flor rebenta.
Árvore, que
na terra
As robustas raízes,
Buscando o centro, a ferra,
Não teme ao furacão mais violento,
E menos, se se deixa
Vergar do rijo vento.
Sou tronco, e rocha,
ó Bela,
Que açoita o Sul, que brama,
E o mar, que se encapela:
Não temas que do rosto a cor se mude;
Vence as rochas, e os troncos
A sólida Virtude.
A maior desventura
É sempre a que nos lança
No horror da sepultura:
O covarde a morrer também caminha;
Com que males não pode
Uma alma como a minha?
Lira XXIX
Eu descubro procurar-me
Gentil mancebo, e louro;
Trazia a testa adornada
Com folhas de verde louro.
Vejo ser o Pai das Musas,
E me entrega a lira d'ouro.
"Já basta,
me diz, ó filho,
"Já basta de sentimento;
"O cansado peito exige
"Um breve contentamento:
"Louva a formosa Marília
"Ao som do meu instrumento."
Firo as cordas; mas
que importa?
A dor não sossega entanto:
Ergo a voz; então reparo
Que, quanto mais corre o pranto,
É mais doce, e mais sonoro
Meu terno, e saudoso canto.
Apolo fitou os olhos
Na mão que regia o braço;
E depois de estar suspenso,
De me ouvir um largo espaço,
Assim diz: "O Deus Cupido,
"Faz inda mais, do que eu faço.
"Eu te dou a
minha lira:
"Louva, louva a tua Bela;
"Porém vê que ta concedo
"Com condição, e cautela..."
Eu lhe corto a voz dizendo,
Que só canto me honra dela.
Lira XXX
O Pai das Musas,
O Pastor louro
Deu-me, Marília,
Para cantar-te
A lira de ouro.
As cordas firo;
O brando vento
Teus dotes leva
Nas brancas asas
Ao firmamento.
"O teu cabelo
"Vale um tesouro;
"Um só me adorna
"A sábia fronte
"Melhor que o louro.
"Nesses teus
olhos
"Amor assiste;
"Deles faz guerra;
"Ninguém lhe foge,
"Ninguém resiste.
"Algumas vezes
"Eu o diviso
"Também oculto
"Nas lindas covas
"Que faz teu riso.
"Nesses teus
peitos
"Têm os seus ninhos
"Destros Amores;
"neles se geram
"Os cupidinhos.
"Vences a Vênus,
"Quando com arte
"As armas toma,
"Porque mais prenda
"Ao fero Marte."
Eu produzia
Estas idéias,
Quando, Marília,
O som escuto
De vis cadeias.
Dou um suspiro,
Corre o meu pranto;
E, inda bebendo
Lágrimas tristes,
De novo canto:
"Sou da constância
"Um vivo exemplo:
"E vós, ó ferros,
"Honrareis inda
"De Amor o Templo".
Lira XXXI
Roubou-me, ó
minha Amada, a sorte impia
Quanto de meu gozava
Num só funesto dia;
Honras de maioral,
manada grossa,
Fértil, extensa herdade,
Bem reparada choça.
Meteu-se nesta infame
sepultura,
Que é sepulcro sem honras,
Breve masmorra, escura.
Aqui, ó minha
amada, nem consigo
Venho outro desgraçado
Sentir também comigo:
Mas esta companhia
não mereço,
Os Deuses me dão outra,
Ainda de mais apreço.
Não é,
não, ilusão o que te digo;
Tu mesma me acompanhas;
Peno, mas é contigo.
Não vejo as
tuas faces graciosas,
Os teus soltos cabelos,
As tuas mãos mimosas.
Se eu as visse, infeliz
me não dissera,
Bem que subira ao Potro
Bem que na Cruz pendera.
Não ouço
as tuas vozes magoadas,
Com ardentes suspiros
Às vezes mal formadas.
Mas vejo, ó
cara, as tuas letras belas,
Uma por um beijo,
E choro então sobre elas.
Tu me dizes que siga
o meu destino;
Que o teu amor na ausência
Será leal, e fino.
De novo a carta ao
coração aperto,
De novo a molha o pranto,
Que de ternura verto.
Ah! leve muito embora
o duro Fado
A tudo, quanto tenho
Com meu suor ganhado.
Eu juro que do roubo
nem me queixe,
Contanto, ó minha cara,
Que este só bem me deixe.
Que males voluntários
não sentiram,
Os que te amam, somente
Porque menos te ouviram?
Dê pois aos
mais seus bens a Deusa cega;
Que eu tenho aquela glória,
Que a mil felizes nega.
Lira XXXII
Se o vasto mar se
encapela,
E na rocha em flor rebenta,
Grossa nau, que não tem leme,
Em vão sustentar-se intenta;
Até que naufraga, e corre
À discrição da tormenta.
Quem não tem
uma beleza,
Em que ponha o seu cuidado;
Se o Céu se cobre de nuvens,
E se assopra o vento irado,
Não tem forças que resistam
Ao impulso do seu fado.
Nesta sombria masmorra,
Aonde, Marília, vivo,
Encosto na mão o rosto,
Ah! que imagens tão funestas
Me finge o pesar ativo.
Parece que vejo a
honra,
Marília, toda enlutada;
A face de um pai rugosa,
Num mar de pranto banhada;
Os amigos macilentos,
E a família consternada.
Quero voltar aos meus
olhos
Para outro diverso lado;
Vejo numa grande praça
Um teatro levantado;
Vejo as cruzes, vejo os potros,
Vejo o alfanje afiado.
Um frio suor me cobre,
Laxam-se os membros, suspiro;
Busco alívio às minhas ânsias,
Não o descubro, deliro.
Já , meu Bem, já me parece
Que nas mãos da morte expiro.
Vem-me então
ao pensamento
A tua testa nevada,
Os teus meigos, vivos olhos,
A tua face rosada,
Os teus dentes cristalinos,
A tua boca engraçada.
Qual, Marília,
a estrela d'alva,
Que a negra noite afugenta;
Qual o Sol, que a névoa espalha
Apenas a terra aquenta;
Ou qual Íris, que o Céu limpa,
Quando se vê na tormenta:
Assim, Marília,
desterro
Triste ilusão, e demência;
Faz de novo o seu ofício
A razão, e a prudência;
E firmo esperanças doces
Sobre a cândida inocência.
Restauro as forças
perdidas,
Sobe a viva cor ao rosto,
Gira o sangue pela veia,
E bate o pulso composto:
Vê, Marília, o quanto pode
Contra meus males teu rosto.
Lira XXXIII
Morri, ó minha
Bela:
Não foi a Parca impia,
Que na tremenda roca,
Sem Ter descanso, fia;
Não foi, digo, não foi a Morte feia
Quem o ferro moveu, e abriu no peito
A palpitante veia.
Eu, Marília,
respiro;
Mas o mal, que suporto,
É tão tirano, e forte,
Que já me dou por morto:
A insolente calúnia depravada
Ergueu-se contra mim, vibrou da língua
A venenosa espada.
Inda, ó Bela,
não vejo
Cadafalso enlutado,
Braço de ferro armado;
Mas vivo neste mundo, ó sorte impia,
E dele só me mostra a estreita fresta
O quando é noite, ou dia.
Olhos baços,
e sumidos,
Macilento, e descarnado,
Barba crescida, e hirsuta,
Cabelo desgrenhado;
Ah! que imagem tão digna de piedade!
Mas é, minha Marília, como vive
Um réu de Majestade.
Venha o processo,
venha;
Na inocência me fundo:
Mas não morreram outros,
Que davam honra ao mundo!
O tormento, minha alma, não recuses:
A quem sábio cumpriu as leis sagradas
Servem de sólio as cruzes.
Tu, Marília,
se ouvires,
Que ante o teu rosto aflito
O meu nome se ultraja
C'o suposto delito,
Dize severa assim em meu abono:
"Não toma as armas contra um Cetro justo
"Alma digna de um trono."
Lira XXXIV
Vou-me, ó Bela,
deitar na dura cama,
De que nem sequer sou o pobre dono:
Estende sobre mim Morfeu as asas,
E vem ligeiro o sono.
Os sonhos, que rodeiam
a tarimba,
Mil coisas vão pintar na minha idéia;
Não pintam cadafalsos, não, não pintam
Nenhuma imagem feia.
Pintam que estou bordando
um teu vestido;
Que um menino com asas, cego, e louro,
Me enfia nas agulhas o delgado,
O brando fio de ouro.
Pintam que entrando
vou na grande Igreja;
Pintam que as mãos nos damos, e aqui vejo
Subir-te à branca face a cor mimosa,
A viva cor do pejo.
Pintam que nos conduz
dourada sege
À nossa habitação; que mil Amores
Desfolham sobre o leito as moles folhas
Das mais cheirosas flores.
Pintam que desta terra nos partimos;
Que os amigos saudosos, e suspensos
Apertam nos inchados, roxos olhos
Os já molhados lenços.
Pintam que os mares
sulco da Bahia;
Onde passei a flor da minha idade;
Que descubro as palmeiras, e eme dois bairros
Partidas a grã Cidade.
Pintam leve escaler,
e que na prancha
O braço já te of'reço reverente;
Que te aponta c'o dedo, mal te avista,
Amontoada gente.
Aqui, alerta, grita
o mau soldado;
E o outro, alerta estou, lhe diz gritando:
Acordo com a bulha, então conheço,
Que estava aqui sonhando.
Se o meu crime não
fosse só de amores,
A ver-me delinqüente, réu de morte,
Não sonhara, Marília, só contigo,
Sonhara de outra sorte.
Lira XXXV
Se lá te chegarem
Aos ternos ouvidos
Uns tristes gemidos,
Repara, Marília,
Verás, que são meus.
Ah! dá-lhes abrigo,
Marília, nos peitos;
Aqui os conserva
Em laços estreitos,
Unidos aos teus.
O vento ligeiro,
De ouvi-los movido,
Os pede a Cupido,
Que a todos apanha,
E lá tos vai pôr.
Ah! não os desprezes,
Porque se conspira
O Céu em meu dano,
E a glória me tira
De honrado Pastor.
Têm suspiros
Motivo dobrado;
Perdi o meu gado;
Perdi, que mais vale,
O bem de te ver.
Se os não receberes,
Amante por ora,
Por serem de um triste,
Os deves, Pastora,
Por honra acolher.
Virá, minha
Bela,
Virá uma idade,
Que, vista a verdade,
Gostosa me entregues
O teu coração.
Os crimes desonram,
Se são existentes;
Os ferros, que oprimem
As mãos inocentes,
Infames não são.
Chegando este dia,
Os braços daremos:
Então mandaremos
De gosto, e ternura
Suspiros aos Céus.
Pôr-me-ão no sepulcro
A honrosa inscrição:
"Se teve delito,
"Só foi a paixão,
"Que a todos faz réus."
Lira XXXVI
Não hás
de Ter horror, minha Marília,
De tocar pulso, que sofreu os ferros!
Infames impostores mos lançaram,
E não puníveis erros.
Esta mão, esta
mão, que ré parece,
Ah! não foi uma vez, não foi só uma,
Que em defesa dos bens, que são do Estado,
Moveu a sábia pluma,
É certo, minha
amada, sim é certo
Qu'eu aspirava a ser de um Cetro o dono;
Mas este grande império, que eu firmava,
Tinha em teu peito o trono.
As forças,
que se opunham, não batiam
Da grossa peça, e do mosquete os tiros;
Só eram minhas armas os soluços,
Os rogos, e os suspiros.
De cuidados, desvelos,
e finezas
Formava, ó minha Bela, os meus guerreiros;
Não tinha no meu campo estranhas tropas;
Que amor não quer parceiros.
Mas pode ainda vir
um claro dia,
Em que estas vis algemas, estes laços
Se mudem em prisões de alívios cheias
Nos teus mimosos braços.
Vaidoso então
direi: "Eu sou Monarca;
"Dou leis, que é mais, num coração divino!
"Sólio que ergueu o gosto, e não a foça,
"É que é de apreço digno."
Lira XXXVII
Meu sonoro Passarinho,
Se sabes do meu tormento,
E buscas dar-me, cantando,
Um doce contentamento,
Ah! não cantes,
mais não cantes,
Se me queres ser propício;
Eu te dou em que me faças
Muito maior benefício.
Ergue o corpo, os
ares rompe,
Procura o Porto da Estrela,
Sobe à serra, e se cansares,
Descansa num tronco dela,
Toma de Minas a estrada,
Na Igreja nova, que fica
Ao direito lado, e segue
Sempre firme a Vila Rica.
Entra nesta grande
terra,
Passa uma formosa ponte,
Passa a segunda, a terceira
Tem um palácio defronte.
Ele tem ao pé
da porta
Uma rasgada janela,
É da sala, aonde assiste
A minha Marília bela.
Para bem a conheceres,
Eu te dou os sinais todos
Do seu gesto, do seu talhe,
Das suas feições, e modos.
O seu semblante é
redondo,
Sobrancelhas arqueadas,
Negros e finos cabelos,
Carnes de neve formadas.
A boca risonha, e
breve,
Suas faces cor-de-rosa,
Numa palavra, a que vires
Entre todas mais formosa.
Chega então
ao seu ouvido,
Dize, que sou quem te mando,
Que vivo neta masmorra,
Mas sem alívio penando.
Lira XXXVIII
Eu vejo aquela Deusa,
Astréia pelos sábios nomeada;
Balança numa mão, na outra espada.
O vê-la não me causa um leve abalo,
Mas, antes, atrevido,
Eu a vou procurar, e assim lhe falo:
Qual é o povo,
dize,
Que comigo concorre no atentado?
Americano Povo?
O Povo mais fiel e mais honrado:
Tira as Praças das mãos do injusto dono,
Ele mesmo as submete
De novo à sujeição do Luso Trono!
Eu vejo nas histórias
Rendido Pernambuco aos Holandeses;
Eu vejo saqueada
Esta ilustre Cidade dos Franceses;
Lá se derrama o sangue Brasileiro;
Aqui não basta, supre
Das roubadas famílias o dinheiro.
Enquanto assim falava,
Mostrava a Deusa não me ouvir com gosto;
Punha-me a vista tesa,
Enrugava o severo e aceso rosto.
Não suspendo contudo no que digo;
Sem o menor receio,
Faço que a não entendo, e assim prossigo:
Acabou-se, tirana,
A honra, o zelo deste Luso Povo?
Não é aquele mesmo,
Que estas ações obrou? É outro novo?
E pode haver direito, que te mova
A supor-nos culpados,
Quando em nosso favor conspira a prova?
Há em Minas
um homem,
Ou por seu nascimento, ou seu tesouro,
Que aos outros mover possa
À força de respeito, à força d'ouro?
Os bens de quantos julgas rebelados
Podem manter na guerra,
Por um ano sequer, a cem soldados?
Ama a gente assisada
A honra, a vida, o cabedal tão pouco,
Que ponha uma ação destas
Nas mãos dum pobre, sem respeito e louco?
E quando a comissão lhe confiasse,
Não tinha pobre soma,
Que por paga, ou esmola, lhe mandasse!
Nos limites de Minas,
A quem se convidasse não havia?
Ir-se-iam buscar sócios
Na Colônia também, ou na Bahia?
Está voltada a Corte Brasileira
Na terra dos Suíços,
Onde as Potências vão erguer bandeira?
O mesmo autor do
insulto
Mais a riso, do que a temor me move;
Dou-lhe nesta loucura,
Podia-se fazer Netuno ou Jove.
A prudência é tratá-lo por demente;
Ou prendê-lo, ou entregá-lo
Para dele zombar a moça gente.
Aqui, aqui a Deusa
Um extenso suspiro aos ares solta;
Repete outro suspiro,
E sem palavra dar, as costas volta.
Tu te irritas! Lhe digo e quem te ofende?
Ainda nada ouviste
Do que respeita a mim; sossega, atende.
E tinha que ofertar-me
Um pequeno, abatido e novo Estado,
Com as armas de fora,
Com as suas próprias armas consternado?
Achas também que sou tão pouco esperto,
Que um bem tão contingente
Me obrigasse a perder um bem já certo?
Não sou aquele
mesmo,
Que a extinção do débito pedia?
Já viste levantado
Quem à sombra da paz alegre ria?
Um direito arriscado eu busco, e feio,
E quero que se evite
Toda a razão do insulto, e todo o meio?
Não sabes
quanto apresso
Os vagarosos dias da partida?
Que a fortuna risonha,
A mais formosos campos me convida?
Daqui nem ouro quero;
Quero levar somente os meus amores.
Eu, ó cega,
não tenho
Um grosso cabedal, do mais herdado:
Não o recebi no emprego,
Não tenho as instruções dum bom soldado,
Far-me-iam os rebeldes o primeiro
No império que se erguia
À custa do seu sangue, e seu dinheiro?
Aqui, aqui de todo
A Deusa se perturba, e mais se altera;
Morde o seu próprio beiço;
O sítio deixa, nada mais espera.
Ah! vai-te, então lhe digo, vai-te embora;
Melhor, minha Marília,
Eu gastasse contigo mais esta hora.