Marília de Dirceu
de Tomaz Antonio Gonzaga
Lira XXII
Muito embora, Marília,
muito embora
Outra beleza, que não seja a tua,
Com avermelha roda, a seis puxada,
Faça tremer a rua.
As paredes da sala,
aonde habita,
Adorne a seda, e o tremó dourado;
Pendam largas cortinas, penda o lustre
Do teto apainelado.
Tu não habitarás
palácios grande,
Nem andarás no coches voadores;
Porém terás um Vate, que te preze,
Que cante os teus louvores.
O tempo não
respeita a formosura;
E da pálida morte a mão tirana
Arrasa os edifícios dos Augustos,
E arrasa a vil choupana.
Que belezas, Marília,
floresceram,
De quem nem sequer temos a memória!
Só podem conservar um nome eterno
Os versos, ou a história.
Se não houvesse
Tasso, nem Petrarca,
Por mais que qualquer delas fosse linda,
Já não sabia o mundo, se existiram
Nem Laura, nem Clorinda.
É melhor, minha
Bela, ser lembrada
Por quantos hão de vir sábios humanos,
Que ter urcos, ter coches, e tesouros,
Que morrem com os anos.
Lira XXIII
Num sítio ameno
Cheio de rosas,
De brancos lírios,
Murtas viçosas;
Dos seus amores
Na companhia
Dirceu passava
Alegre o dia.
Em tom de graça
Ao terno amante
Manda Marília
Que toque, e cante.
Pega na lira,
Sem que a tempere,
A voz levanta,
E as cordas fere.
C'os doces pontos
A mão atina,
E a voz iguala
À voz divina.
Ela, que teve
De rir-se a idéia,
Nem move os olhos
De assombro cheia:
Então cupido
Aparecendo,
À Bela fala
Assim dizendo:
"Do teu amado
"A lira fias,
"Só porque dele
"Zombando rias?
"Quando num peito
"Assento faço,
"Do peito subo
"À língua, e braço.
"Nem creias que
outro
"Estilo tome,
"Sendo eu o mestre,
"A ação teu nome."
Lira XXIV
Encheu, minha Marília,
o grande Jove
De imensos animais de toda a espécie
As terras, mais os ares,
O grande espaço dos salobros, rios,
Dos negros, fundos mares,
Para sua defesa,
A todos deu as armas, que convinha
A sábia natureza.
Deu as asas aos pássaros
ligeiros,
Deu ao peixe escamoso as barbatanas;
Deu veneno à serpente,
Ao membrudo elefante a enorme tromba,
E ao javali o dente.
Coube ao leão a garra;
Com leve pé saltando o cervo foge;
E o bravo touro marra.
Ao homem deu as armas
do discurso,
Que valem muito mais que as outras armas;
Deu-lhe dedos ligeiros,
Que podem converter em seu serviço
Os ferros, e os madeiros;
Que tecem fortes laços,
E forjam raios, com que aos brutos cortam
Os vôos, mais os passos.
Às tímidas
donzelas pertenceram
Outras armas, que têm dobrada força,
Deu-lhes a Natureza
Além do entendimento, além dos braços
As armas da beleza.
Só ela ao Céu se atreve;
Só ela mudar pode o gelo em fogo,
Mudar o fogo em neve.
Eu vejo, eu vejo ser
a formosura,
Quem arrancou da mão de Coriolano
A cortadora espada.
Vejo que foi de Helena o lindo rosto,
Quem pôs em campo armada
Toda a força da Grécia.
E quem tirou o cetro aos reis de Roma?
Só foi, só foi Lucrécia.
Se podem lindos rostos,
mal suspiram,
O braço desarmar do mesmo Aquiles;
Se estes rostos irados
Podem soprar o fogo da discórdia
Em povos aliados;
És árbitra da terra:
Tu podes dar, Marília, a todo o mundo
A paz, e a dura guerra.
Lira XXV
O cego Cupido um dia
Com os seus Gênios falava
Do modo, que lhe restava
De cativar a Dirceu.
Depois de larga disputa,
Um dos Gênios mais sagazes
Este conselho lhe deu:
As setas mais aguçadas,
Como se em rocha batessem,
Dão no peito seu, e descem
Todas quebradas ao chão.
Só as graças de Marília
Podem vencer um tão duro,
Tão isento coração.
A fortuna desta empresa
Consiste em armar-se o laço,
Sem que sinta ser o braço,
Que lho prepara, de Amor:
Que ele vive como as aves,
Que já deixaram as penas
No visco do caçador.
Na força deste
conselho
O raivoso Deus sossega,
E à tropa a honra entrega
De o fazer executar.
Todos pretendem ganhá-la;
Batem as asas ligeiros,
E vão as armas buscar.
Os primeiros se ocultaram
Da Deusa nos olhos belos:
Qual se enlaçou nos cabelos,
Qual às faces se prendeu.
Um amorinho cansado
Caiu dos lábios ao seio,
E nos peitos se escondeu.
Outro Gênio
mais astuto
Este novo ardil alcança,
Muda-se numa criança
De divino parecer.
Esconde as asas, e a venda;
Esconde as setas, e quanto
Pode dá-lo a conhecer.
Ela que vê um
menino
Todo de graças coberto,
Tão risonho, e tão esperto
Ali sozinho brincar,
A ele endireita os passos;
Finge Amor ter medo, e a Deusa
Mais que empenha em lhe pegar.
Ela corria chamando;
Ele fugia, e chorava:
Assim foram onde estava
O descuidado Pastor.
Este, mal viu a beleza,
E o gentil menino, entende
A malícia do traidor.
Põe as mãos
sobre os ouvidos,
Cerra os olhos, e constante
Não quer ver o seu semblante,
Não o quer ouvir falar.
Qual Ulisses noutra idade
Para iludir as Sereias
Mandou tambores tocar.
Cupido, que a empresa
via,
Julga o intento frustrado,
E de raiva transportado
O corpo na chão lançou.
Traçou a língua nos dentes;
Meteu as unhas no rosto,
E os cabelos arrancou.
O Gênio, que
se escondia
Entre os peitos da Pastora,
Ergueu a cabeça fora,
E o sucesso conheceu.
Deixa o sossego em que estava,
E vai ligeiro meter-se
No peito do bom Dirceu.
Apenas do brando peito
Lhe tocou a neve fria,
Com o calor, que trazia,
Lhe abrasou o coração.
Dá o Pastor um suspiro,
Abre os seus olhos, e solta
Do apertado ouvido a mão.
Logo que viram os
Gênios
Ao triste Pastor disposto
Para ver o lindo rosto,
Para as palavras ouvir,
Cada um as armas toma,
Cada um com elas busca
Seu terno peito ferir.
Com os cabelos da
Deusa
Lhe forma um Cupido laços,
Que lhe seguram os braços,
Como se fossem grilhões.
O Pastor já não resiste;
Antes beija satisfeito
As suas doces prisões.
Lira XXVI
O destro Cupido um
dia
Extraiu mimosas cores
De frescos lírios, e rosas,
De jasmins, e de outras flores.
Com as mais delgadas
penas
Usa de uma, e de outra tinta,
E nos ângulos do cobre
A quatro belezas pinta.
Por fazer pensar a
todos
No seu liso centro escreve
Um letreiro, que pergunta:
"Este espaço a quem se deve?"
Vênus, que viu
a pintura,
E leu a letra engenhosa,
Pôs por baixo "Eu dele cedo;
"Dê-se a Marília formosa."
Lira XXVII
Alexandre, Marília,
qual o rio,
Que engrossando no inverno tudo arrasa,
Na frente das coortes
Cerca, vence, abrasa
As cidades mais fortes.
Foi na glória das armas o primeiro;
Morreu na flor dos anos, e já tinha
Vencido o mundo inteiro.
Mas este bom soldado,
cujo nome
Não há poder algum, que não abata,
Foi, Marília, somente
Um ditoso pirata,
Um salteador valente.
Se não tem uma fama baixa, e escura,
Foi por se pôr ao lado da injustiça
A insolente ventura.
O grande César,
cujo nome voa,
À sua mesma Pátria a fé quebranta;
Na mão a espada toma,
Oprime-lhe a garganta,
Dá Senhores a Roma.
Consegue ser herói por um delito;
Se acaso não vencesse, então seria
Um vil traidor proscrito.
O ser herói,
Marília, não consiste
Em queimar os Impérios: move a guerra,
Espalha o sangue humano,
E despovoa a terra
Também o mau tirano.
Consiste o ser herói em viver justo:
E tanto pode ser herói pobre,
Como o maior Augusto.
Eu é que sou
herói, Marília bela,
Segundo da virtude a honrosa estrada:
Ganhei, ganhei um trono,
Ah! não manchei a espada,
Não roubei ao dono.
Ergui-o no teu peito, e nos teus braços:
E valem muito mais que o mundo inteiro
Uns tão ditosos laços.
Aos bárbaros,
injustos vencedores
Atormentam remorsos, e cuidados;
Nem descansam seguros
Nos palácios cercados
De tropa, e de altos muros.
E a quantos nos não mostra a sábia história
A quem mudou o Fado em negro opróbrio
A mal ganhada glória.
Eu vivo, minha Bela,
sim, eu vivo
Nos braços do descanso, e mais do gosto:
Quando estou acordado
Contemplo no teu rosto
De graças adornado:
Se durmo, logo sonho, e ali te vejo.
Ah! nem desperto, nem dormindo sobe
A mais o meu desejo.
Lira XXVIII
Cupido tirando
Dos ombros a aljava
Num campo de flores
Contente brincava.
E o corpo tenrinho
Depois, enfadado,
Incauto reclina
Na relva do prado.
Marília formosa,
Que ao Deus conhecia,
Oculta espreitava
Quanto ele fazia.
Mal julga que dorme
Se chega contente,
As armas lhe furta,
E o Deus a não sente.
Os Faunos, mal viram
As armas roubadas,
Saíram das grutas
Soltando risadas.
Acorda Cupido,
E a causa sabendo,
A quantos o insultam
Responde, dizendo:
"Temíeis
as setas
"Nas minhas mãos cruas!
"Vereis o que podem
"Agora nas suas."
Lira XXIX
O tirano Amor risonho
Me aparece e me convida
Para que seu jugo aceite;
E quer que eu passe em deleite
O resto da triste vida.
"O sonoro Anacreonte
(Astuto o moço dizia)
"Já perto da morte estava,
"Inda de amores cantava;
"Por isso alegre vivia.
"Aos negros,
duros pesares
"Não resiste um peito fraco
"Se o amor o não fortalece:
"O mesmo Jove carece
"De Cupido, e mais de Baco."
Eu lhe respondo: "Perjuro,
"Nada creio do que dizes;
"Porque já te fui sujeito,
"Inda conservo no peito
"Estas frescas cicatrizes.
"Se o mundo conhece
males,
"Tu os maiores fizeste,
"Sim, tu a Tróia queimaste,
"Tu a Cartago abrasaste,
"E tu a Antônio perdeste."
Amor, vendo que da
oferta
Algum apreço não faço,
Me diz afoito que trate
De ir com ele a combate
Peito a peito, braço a braço.
Vou buscar as minhas
armas;
Cinjo primeiro que tudo
O brilhante arnês, e à pressa
Ponho um elmo na cabeça,
Tomo a lança, e o grosso escudo.
Mal no campo me apresento,
Marília (oh Céus!) me aparece:
Logo que os olhos me fita,
O meu coração palpita,
A minha mão desfalece.
Então me diz
o tirano:
"Confessa, louco, o teu erro;
"Contra as armas da beleza
"Não vale a externa defesa
"Dessa armadura de ferro."
Lira XXX
Junto a uma clara
fonte
A mãe de Amor s assentou,
Encostou na mão o rosto,
No leve sono pegou.
Cupido, que a viu
de longe,
Contente ao lugar correu;
Cuidando que era Marília
Na face um beijo lhe deu.
Acorda Vênus
irada:
Amor a conhece; e então
Da ousadia, que teve,
Assim lhe pede o perdão:
"Foi fácil,
ó Mãe formosa,
"Foi fácil o engano meu;
"Que o semblante de Marília
"É todo o semblante teu."
Lira XXXI
Minha Marília,
Se tens beleza,
Da Natureza
É um favor.
Mas se aos vindouros
Teu nome passa,
É só por graça
Do Deus de amor,
Que tanto inflama
A mente, o peito
Do teu Pastor.
Em vão se viram
Perlas mimosas,
Jasmins, e rosas
No rosto teu.
Em vão terias
Essas estrelas,
E as tranças belas,
Que o Céu te deu;
Se em doce versos
Não as cantasse
O bom Dirceu.
O voraz tempo
Ligeiro corre:
Com ele morre
A perfeição.
Essa, que o Egito
Sábia modera,
De Marco impera
No coração;
Mas já Otávio
Não sente a força
Do seu grilhão.
Ah! vem, ó
Bela,
E o teu querido,
Ao Deus Cupido
Louvores dar;
Pois faz que todos
Com igual sorte
Do tempo, e morte
Possam zombar:
Tu por formosa,
E ele, Marília,
Por te cantar.
Mas ai! Marília,
Que de um amante,
Por mais que cante,
Glória não vem!
Amor se pinta
Menino, e cego:
No doce emprego
Do caro bem
Não vê defeitos,
E aumenta quantas
Belezas tem.
Nenhum dos Vates,
Em teu conceito,
Nutriu no peito
Néscia paixão?
Todas aquelas,
Que vês cantadas,
Foram dotadas
De perfeição?
Foram queridas;
Porém formosas
Talvez que não.
Porém que importa
Não valha nada
Seres cantada
Do teu Dirceu?
Tu tens, Marília,
Cantor celeste;
O meu Glauceste
A voz ergueu;
Irá teu nome
Aos fins da terra,
E ao mesmo Céu.
Quando nas asas
Do leve vento
Ao firmamento
Teu nome for:
Mostrando Jove
Graça extremosa,
Mudando a Esposa
De inveja a cor;
De todos há de,
Voltando o rosto,
Sorrir-se Amor.
Ah! não se
manche
Teu brando peito
Do vil defeito
Da ingratidão:
Os versos beija,
Gentil Pastora,
A pena adora,
Respeita a mão,
A mão discreta,
Que te segura
A duração.
Lira XXXII
Num noite sossegado
Velhos papéis revolvia,
E por ver de que tratavam
Um por um a todos lia.
Eram cópias
emendadas,
De quantos versos melhores
Eu compus na tenra idade
A meus diversos amores.
Aqui leio justas queixas
Contra a ventura formadas,
Leio excessos mal aceitos,
Doces promessas quebradas.
Vendo sem-razões
tamanhas
Eu exclamo transportado:
"Que finezas tão mal-feitas!
"Que tempo tão mal passado!"
Junto pois num grande
monte
Os soltos papéis, e logo,
Porque relíquias não fiquem,
Os intento pôr no fogo.
Então vejo
que o Deus cego
Com semblante carregado
Assim me fala, e crimina
O meu intento acertado:
"Queres queimar
esses versos?
"Dize, Pastor atrevido,
"Essas Liras não te foram
"Inspiradas por Cupido?
"Achas que de
tais amores
"Não deve existir memória?
"Sepultando esses triunfos,
"Não roubas a minha glória?"
Disse Amor; e mal
se cala,
Nos seus ombros a mão pondo,
Com um semblante sereno
Assim à queixa respondo:
"Depois, Amor,
de me dares
"A minha Marília bela,
"Devo guardar umas liras,
"Que não são em honra dela?
"E que importa,
Amor, que importa,
"Que a estes papéis destrua;
"Se é tua esta mão, que os rasga,
"Se a chama, que os queima, é tua?"
Apenas Amor me escuta
Manda que os lance nas brasas;
E ergue a chama c'o vento,
Que formou batendo as asas.
Lira XXXIII
Pega na lira sonora,
Pega, meu caro Glauceste;
E ferindo as cordas de ouro,
Mostra aos rústicos Pastores
A formosura celeste
De Marília, meus amores.
Ah! pinta, pinta
A minha Bela!
E em nada a cópia
Se afaste dela.
Que concurso, meu
Glauceste,
Que concurso tão ditoso!
Tu és digno de cantares
O seu semblante divino;
E o teu canto sonoroso
Também do seu rosto é digno.
Ah! pinta, pinta
A minha Bela!
E em nada a cópia
Se afaste dela.
Para pintares ao vivo
As suas faces mimosas,
A discreta natureza
Que providência não teve!
Criou no jardim as rosas,
Fez o lírio, e fez a neve.
Ah! pinta, pinta
A minha Bela!
E em nada a cópia
Se afaste dela.
A pintar as negras
tranças
Peço que mais te desveles,
Pinta chusmas de amorinhos
Pelos seus fios trepando;
Uns tecendo cordas deles,
Outros com eles brincando.
Ah! pinta, pinta
A minha Bela!
E em nada a cópia
Se afaste dela.
Para pintares, Glauceste,
Os seus beiços graciosos,
Entre as flores tens o cravo,
Entre as pedras a granada,
E para os olhos formosos,
A estrela da madrugada.
Ah! pinta, pinta
A minha Bela!
E em nada a cópia
Se afaste dela.
Mal retratares do
rosto
Quanto julgares preciso,
Não dês a cópia por feita;
Passa o outros dotes, passa,
Pinta da vista, e do riso
A modéstia, mais a graça.
Ah! pinta, pinta
A minha Bela!
E em nada a cópia
Se afaste dela.
Os seus pés,
quando passeiam,
Pisando ternos amores;
E as mesmas plantas calcadas
Brotando viçosas flores.
Ah! pinta, pinta
A minha Bela!
E em nada a cópia
Se afaste dela.
Pinta mais, prezado
amigo,
Um terno amante beijando
Suas douradas cadeias;
E em doce pranto desfeito,
Ao monte, que temo no peito.
Ah! pinta, pinta
A minha Bela!
E em nada a cópia
Se afaste dela.
Nem suspendas o teu
canto,
Inda que, Pastor, se veja
Que a minha boca suspira,
Que se banha em pranto o rosto;
Que os outros choram de inveja,
E chora Dirceu de gosto.
Ah! pinta, pinta
A minha Bela!
E em nada a cópia
Se afaste dela.