À Margem da História
Euclides da Cunha
"Brasileiros"
O Peru tem duas histórias fundamentalmente distintas. Uma,
a do comum dos livros, teatral e ruidosa, reduz-se ao romance rocambolesco
dos marechais instantâneos dos pronunciamentos. A outra é
obscura e fecunda. Desdobra-se no deserto. É mais comovente;
é mais grave; é mais ampla. Prolonga, noutros cenários,
as tradições gloriosas das lutas da Independência;
e veio até aos nossos dias tão impartível e
sem hiatos, apesar de seus aspectos variáveis, que pode acapitular-se
sob o título único, geralmente adotado pelos melhores
publicistas daquela República: El Problema del oriente.
A designação é perfeita. Trata-se de assunto
rigorosamente positivo a resolver.
Ao peruano não lho impuseram maciços argumentos de
sociólogos ou a intuição feliz de um estadista,
senão o próprio empuxo material do meio. Constrangida
numa fita de terrenos adustos entre as cordilheiras e o mar, onde
acampara durante três séculos iludida pelo fausto dos
conquistadores e dos vice-reis, a nacionalidade, maior herdeira
das virtudes e dos vícios por igual notáveis da Espanha
cavalheiresca e decaída do século XVII, compreendeu
afinal, pelo simples instinto da defesa, a necessidade imperiosa
de abandonar a clausura isolante que a seqüestrava de todo
o resto da Terra.
E começou a transmontar os Andes...
Fôra longo recontar a sua hégira para o levante, nas
investidas sucessivas por cinco penosíssimas estradas desesperadoramente
retorcidas no boleado das serras, empinando-se em ladeiras altas
de milhares de metros, e unindo os portos do litoral entre Mollendo
e Paita às paragens apetecidas da montaña na extrema
orla amazônica expandida do pongo de Manseriche às
urmanas acachoantes do Urubamba.
Baste-nos notar que depois de transposta a última cordilheira
do Oriente e atingida a bacia do Ucaiáli, pôs-se de
manifesto aos seus mais incuriosos pioneiros, a par da exuberância
do vale maravilhoso capaz de regenerar-lhes a nacionalidade exausta,
uma anomalia física oriunda dos relevos orográficos
ali predominantes: a melhor porção do país
entre os que mais se afiguram ribeirinhos do Pacífico, tem
como único e verdadeiro mar, capaz de consorciá-la
pelo intercâmbio comercial à civilização
longínque, o Atlântico, que se lhe prende graças
aos três longos sulcos desimpedidos do Purus, do Juruá
e do Ucaiáli.
Nenhum milagre de engenharia lhos substituirá com vantagem.
A linha férrea de Oroya e as que se lhe emparelham nas ousadias
do traçado - tornejando escarpas a pique, enfiando em túneis
afogados nas nuvens, e correndo em viadutos alcandorados nos abismos
- não criarão sistemas de comunicações
mais práticas e seguras.
As suas condições técnicas excepcionais, industrialmente
desastrosas, tornam-nas para sempre impropriadas a transportarem,
sem fretes excessivos, os produtos do Oriente, ainda quando a abertura
do Canal de Panamá dispense, mais tarde, a longa travessia
contorneante do Cabo Horn.
Assim, a saída para o Atlântico, pelo Amazonas e seus
tributários de sudoeste, se tornou a primeira solução
claríssima do problema. E nas paragens novas, erigidas administrativamente
no atual Departamento de Loreto, começou para logo um intensivo
trabalho de domínio, que persiste, crescente, em nossos dias.
Abriram-se caminhos demandando a opulenta zona fluvial; planearam-se,
a despeito de sucessivos malogros, colônias militares e agrícolas,
reatou-se, na revivescência das missões apostólicas,
a tradição admirável dos jesuítas de
Maynas; engenhou-se uma vasta regulamentação de terras;
construiu-se o pôrto de Iquitos, e, para aviventar-se o povoamento,
aboliram-se todos os impostos, agindo o homem aforradamente na terra
feracíssima. Ao mesmo tempo as expedições geográficas,
iniciadas em 1834 por P. Beltran e W. Smith, em que tanto se ilustraram
depois F. de Castelnau, Faustino Maldonado, A. Raimondi, John Tucker
e hoje G. Stiglich, rumaram a todos os quadrantes, ininterruptas
e pertinazes, na tarefa complexa que era uma espécie de levantamento
expedito de uma nova pátria.
Aos caudilhos irrequietos contrapuseram-se os exploradores tranqüilos.
No litoral revôlto pelas sedições e guerrilhas
sistematizava-se a incapacidade crônica dos governos revolucionários,
e, derrancados os melhores estímulos da recente campanha
pela liberdade, os bravos salteadores do poder desmandavam-se num
militarismo pernicioso que ali, como em tôda parte, era a
fraqueza irritável da nação enfêrma.
Nos desertos floridos da montaña ao arrepio ou à feição
dos rios ignorados, remoinhando nos giros estonteantes das muyunas,
canoas despedidas, de frecha, nas correntadas céleres dos
pongos, ou embatendo nas travancas abruptas das cachoeiras - os
geógrafos, os prefeitos e os missionários demarcavam
novos cenários à pátria regenerada e, apurando
em tirocínio de perigos os mais nobres atributos da sua raça,
reconstruíram o caráter nacional que se abatera, e
davam àqueles rumos, secamente definidos por traçados
geométricos, um prolongamento inesperado na História.
Porque o problema do Oriente, afinal, incluía nas suas numerosas
incógnitas os destinos do Peru inteiro.
Reconheciam-nos os próprios caudilhos esmaniados. Não
raro no estavanado e vacilante de seus atos, entre dois fuzilamentos
ou entre dois combates, acertavam de considerar por momentos as
paragens insistentemente aneladas, e muito dêles, de golpe,
transfiguravam-se patenteando lúcidos descortinos de estadistas.
A êste propósito poderiam citar-se numerosos casos
delatadores da política bifronte, do mesmo passo reconstituinte
e demolidora, que com o rigorismo de um decalque retrata na ordem
moral do Peru o contraste físico entre o Ocidente obscurecido,
onde as energias se quebrantam malignadas pela história emocional
epidêmica dos pronunciamentos - e o Levante resplandecente,
onde alvorecem as esperanças renascidas.
* * *
Aponte-se um exemplo.
Em 1841 a República estava a pique das maiores catástrofes.
Imperava D. Agustín Gamarra. Aquêle zambo cesareano
refletia nos atos tumultuários os desequilíbrios de
seu temperamento instável, de mestiço, ferrotoado
dos temores e das impaciências de um prestígio improvisado,
à ventura, nos sobressaltos das guerrilhas.
O seu govêrno - govêrno de quem inaugurou no Peru o
regime das deposições apeando o virtuodo La Mar -
foi naturalmente agitadíssimo. O restaurador impôsto
pelas armas dos chilenos, de Bulnes, sôbre os destroços
da efêmera confederação perúvio-boliviana,
assediado pelas ambições contrariadas, pelas exigências
dos condutícios incontentáveis e pelas ameaças
dos conspiradores recidivos, tonteava na vertigem daquela eminência,
onde chegara desprendendo-se da parceria dos cholos e pisoando todos
os melindres aristocráticos da terra que sôbre tôdas
herdara a sobranceria tradicional da Espanha. Nas conjunturas prementes
dependeu-lhe, por vêzes, a fortuna, até do gesto de
uma mulher - a sua própria espôsa, amazona gentilmente
heróica, que não raro travando de uma espada e precipitando-se,
à espora feita, a cavalo, pelo campo das manobras ou no mais
aceso dos combates, ia eletrizar com a presença encantadora
os coronéis embevecidos e os regimentos vacilantes...
Assim não se poderiam exigir à vida em tanta maneira
perturbada e romântica, daquele presidente, ponderosas medidas
administrativas. Acompanhamo-la apenas com o interêsse artístico
de quem segue a urdidura de imaginosa novela sulcada de episódios
alarmantes, ou dramáticos, até desfechar no sacrifício,
inútil e glorioso, do protagonista, sucumbindo sob uma carga
furiosa dos lanceiros bolivianos nas esplanadas de Viacho...
Mas no volver de uma das páginas salteia-nos esta surprêsa:
"El ciudadano Agustín Gamarra - Gran mariscal restaurador
del Perú, benemérito a la patria in grado heroico
y eminente, etc.
"Considerando que para promover la navigación por vapor
en el rio de Amazonas y sus confluentes és necesario proporcionar
facilidades y ventagens que indemnicen a los empresarios...
"Decreta: 1º Se concebe al ciudadano brasileiro D.
Antonio Marcelino Pereira Ribeiro el privilegio exclusivo de navegar
por buques de vapor en el rio Amazonas, en la parte que corresponde
al Perú e todos sus afluentes.
"... 3º Los buques de vapor levarón el pabellón
brasileiro...
"Dada en la casa de Gobierno de Lima a 6 de Julio de 1841."
Êste decreto, extratado nos trechos principais, inculca ao
mesmo tempo o caudilho, no recacho presuntuoso que lhe emprestam
aquêles adjetivos e substantivos constrangidos a escoltarem-lhe
o nome, e o governante, que primeiro traçou aos seus patrícios
a marcha regeneradora para o Oriente. Mas não o reproduzimos
apenas para realce dos aspectos contrariantes da História
Peruana; senão também para destacar aquela figura
de brasileiro, que seria inexpressiva se não constituísse
o primeiro têrmo de uma série de compatriotas obscuros,
erradios dos nossos fastos e elegendo-se por atos memoráveis
entre os melhores servidores da nação vizinha.
De fato, à medida que se rastreia a marcha peruana para o
levante, exposta em todos os seuspormenores, miudeada em regulamentos,
em decretos, em circulares e em ofícios - porque é
a suprema preocupação política, militar e administrativa
do Peru - observa-se nas referências obrigatórias e
incisivas ao elemento brasileiro, o intercurso de uma outra avançada
obscura, mas vigorosa, e contrapondo-se-lhe numa expansão
tão enérgica, para o ocidente, que com os seus efeitos
a despontarem de longe em longe, precisamente nos períodos
mais decisivos da primeira, se restauraria todo um capítulo
da nossa História, que se perdeu ou se fracionou despercebido
à visão embotada dos cronistas, para ressurgir agora,
esparso em fragmentos surpreendentes, nas entrelinhas da História
de outro povo.
É o que demonstram outros casos, entre nós inéditos.
Apontemo-los de relance.
* * *
No período abrangido pelos governos do austero Marechal Castilla,
as explorações prosseguiram. Castelnau desceu das
cabeceiras do Urubamba às ribas do Amazonas; Maldonado imortalizou-se
descobrindo, numa excursão temerária, a nova estrada
para o Atlântico ajustada ao sulco desmedido do Madre de Diós;
e Raimondi desvendou os tesouros da mesopotâmia de 16.000
léguas quadradas de terras exuberantes, interferidas pelos
cursos do Huallaga e do Ucaiáli. Por fim Montferrir calculou,
rigorosamente, as riquezas da Canaã vastíssima: 50.000.000
de hectares, valendo o mínimo de meio bilhão de pesos.
A aritmética tornava-se quase lírica nesta dilatação
de números maravilhosos.
As medidas governamentais do grande Marechal tiveram para logo o
alento dos mais enérgicos estímulos patrióticos,
a par do anseio de fortuna dos mais desassombrados aventureiros.
Os peruanos, iludidos durante largo tempo no litoral estéril,
viam pela primeira vez o nôvo mundo. E a conquista da terra,
numa de suas fases mais agudas, desenrolou-se em tôda a plenitude.
Então, contravindo a tantas esperanças sob o amparo
das mais lúcidas resoluções governativas -
leis, regulamentos e decretos enfeixando-se num volumoso compêndio
de administração fecunda e militante - principiou
uma fase desalentadora de brilhantes tentativas abortícias.
As colônias planeadas, e para logo erigidas, espelhavam por
algum tempo naqueles rincões solitários a fantasmagoria
de um progresso artificial; e extinguiam-se prestes. Já em
1854 o governador de Loreto, pueblo obscuro cujo nome irradia hoje
abrangendo aquêles lugares, ao informar do estado de duas
colonizações sucessivas que ali se estabeleceram,
centralizadas em Caballo-Cocha, próximas à fronteira
do Brasil, indicava-as completamente extintas. E idênticos
malogros generalizavam-se por tôda a banda.
Eram naturais. As vagas humanas nas paragens virgens não
se aquietam de súbito. Carateriza-as nos primeiros estádios
a instabilidade inevitável imposta pela própria força
viva adquirida no movimento da maarcha. Precedendo ao equilíbrio
das culturas, surge a pesquisa dos frutos ou das riquezas imediatas,
como a permitir aos recém-vindos, na vida errante das colheitas,
dos garimpos, dos pastoreios ou das caçadas, um reconhecimento
imprescindível do seu nôvo habitat, antes da escolha
de uma situação de descanso.
É a eterna função social do nomadismo, que
mesmo no Peru já se manifestara na azáfama devastadora
dos cascarileros, desvendando as paragens ignotas que vão
dos cerros de Carabaya às vertentes mais aastadas do Beni.
Êste incentivo, porém, ali, estava extinto.
Por aquêle tempo, uma tenaz explorador, Marckam, comissionado
pelo govêrno inglês, andava nas regiões da quina
calisaya; e conseguira transplantar tão prontamente para
as Índias aquêle elemento da fortuna peruana que, já
em 1862, mais de quatro milhões de árvores, em Darjeeling,
com a produção extraordinária de 370 toneladas
de quinino, iniciavam uma concorrência triunfante no primeiro
assalto. Dêste modo, as paragens tão ansiosamente apetecidas
mostravam-se, ante os novos povoadores, desnudas dêsses recursos
que em tôda a parte se figuram adrede predispostos a que não
se desenfluam as esperanças sempre exageradas dos que emigram.
Não lhes bastariam, certo, as bombonaças para os chapéus
de palha oriundos da indústria graciosa das mulheres do Moyobamba,
ou os cascalhos auríferos das vertentes do Pastaza guardadas
pelos huambizas ferocíssimos.
Assim, todos os atos, e magníficos decretos, e lúcidos
regulamentos, e generosas concessões de terras, do último
govêrno de Castilla, desfechariam nos mais lastimáveis
insucessos se, precisamente na derradeira quadra da sua presidência,
e no mesmo ano (1862) em que a cultura indiana da quina arrebatava
daqueles desertos o seu maior atrativo _ um anônimo, um outro
imortal humílimo evadido da nossa História, não
aparecesse, eclipsando de golpe os mais imponentes lances administrativos
e oferecendo aos peruanos o reagente enérgico que os alentaria
até aos nossos dias na rota da Amazônia.
Um brasileiro descobriu o caucho; ou, pelo menos, instituiu ali
a indústria extrativa correspondente.
No reconstruir êste trecho da nossa História, que versado
mais tarde por um historiador merecerá o título de
"Expansão Brasileira na Amazônia", não
vamos desacompanhados.
Diz-nos um narrador sincero:
"Antes do ano de 1862, não tinha ainda sido explorada
a incalculável riqueza da goma elástica... Depois
da entrada de alguns brasileiros para o território do Departamento,
principalmente do laborioso José Joaquim Ribeiro, começou
êste rico produto a figurar no catálogo dos que o Departamento
exporta para o Brasil. A primeira quantidade exportada foi de 2.088
quilogramas, produto dos ensaios daquele brasileiro que muito teria
contribuído para o desenvolvimento dessa indústria,
se ao iniciá-la não encontrasse contrariedades nascidas
do cupidismo de alguns agentes subalternos que contra êle
exerceram todos os ardis..."
Não comentemos o desquerer das autoridades peruanas. Era
antigo. Desde 1811 o reportado D. Manoel Ijurra denunciava "los
Brazileros más próximos al Perú que tienen
la bárbara costumbre de armar expediciones militares con
objeto de haccer correrías sobre los indios Maynas, atropelando
muchas veces las autoridades..."; ou apresentava-os como "absolutos
monopolizadores del comercio de importación o exportación."
Cinco anos depois, em ofício alarmante, o Subprefeito de
Maynas solicitava providências urgentíssimas "al
intuito de que los Brazileros moradores de Caballo-Cocha, salgan
fuera de esta provincia, se buenamente no quieren, por la fuerza";
e pintava-os laivando-os dos mais denegridos estigmas. Por fim o
Governador-Geral das Missões (1849) determinou se exigissem
passaportes de todos os brasileiros que lá entrassem, gaguejando
num castelhano emperrado esta razão curiosíssima:
"que no se experimentaba provecho alguno en estos negociantes
del Brazil; ni menos hay bayonetas con que poder conterlos; hacen
lo que quieren metiendo-se por los rios, extraendo zarza, manteca,
salado e otras especies..."
Não prossigamos.
Adivinha-se nestas linhas, que poderiam ser prolongadas, a invasão
formidável que se alastrava avassaladora para o ocidente,
desafiando os ódios do estrangeiro; espraiando-se pelo vale
do grande rio, por Loreto, Caballo-Cocha, Moremote, Perenate, Iquitos,
até Nauta, na embocadura do Ucaiáli; subindo pelo
Ucaiáli em fora até além do Pachitéa:
deixando nos mais vários pontos, nos sítios numerosos,
nas trilhas coleantes do deserto, e até nos costumes ainda
persistentes, os traços indeléveis da passagem.
Se a historiássemos contraporíanos às verrinas
oficiais dos subprefeitos apavorados, cujos dizeres se pejoravam
à medida que progredia aquela surda conquista do solo, os
próprios conceitos de Antonio Raimondi. Mas aquêle
belo tipo de Joaquim Ribeiro, que em 1868 o maior naturalista peruano
foi encontrar nas margens do Itaia possuindo as melhores fazendas
do Departamento, concretiza uma réplica irrefragável.
Não o pearam tão pequeninos empeços. Criada
a indústria extrativa, a exportação da borracha
a partir de 1871 erigiu-se preeminente entre as dos demais produtos
de Loreto. E as turmas dos extratores, sem nenhuns amparos oficiais,
rompendo espontâneos de tôda a parte e arremetentes
com as mais desfreqüentadas espessuras, ultimaram em pocuo
tempo a emprêsa quase secular tantas vêzes cindida de
reveses.
Desvendou-se todo o Oriente.
Mas há um reverso no quadro.
A exploração do caucho como a praticam os peruanos,
derribando as árvores, e passando sempre à cata de
novas "manchas" de castilloas ainda nào conhecidas,
em nomadismo profissional interminável, que os leva à
prática de todos os atentados nos recontros inevitáveis
com os aborígenes - acarreta a desorganização
sistemática da sociedade. O caucheiro, eterno caçador
de territórios, não tem pega sôbre a terra.
Nessa atividade primitiva apuram-se-lhe, exclusivos, os atributos
da astúcia, da agilidade e da fôrça. Por fim,
um bárbaro individualismo. Há uma involução
lastimável no homem perpètuamente arredio dos povoados,
errante de rio em rio, de espessura em espessura, sempre em busca
de uma mata virgem onde se oculte ou se homizie como um foragido
da civilização.
A sua passagem foi nefasta. Ao cabo de 30 anos de povoamento, as
margens do Ucaiáli, tão nobilitadas outrora pela abnegação
dos missionários de Sarayaco, patenteiam, hoje, nos seus
vilarejos diminutos, uma decadência moral indescritível.
O Coronel Pedro Portillo, atual Prefeito de Loreto, que as visitou
em 1899, denunciou-a, indignado: Alli no hay leyes... El más
fuerte que tiene más rifles, es el dueño de la justicia".
Verberou depois o tráfico escandaloso de escravos. E, afinados
pelo mesmo tom, um sem-número de outros excursionistas, que
fôra longo citar, delatam, em narativas expressivas, o regime
de tropelias que se normalizou naquelas terras - e se amplia seguindo
os rastros do homem que passa pelo deserto com o só efeito
de barbarizar a própria barbaria.
* * *
Ora, na presciência dos inconvenientes desta exploração,
que, entretanto, determinou o pleno desdobramento de seu domínio
no Oriente, o govêrno peruano nunca renunciou ao seu primitivo
propósito de uma colonização intensiva. E para
ao mesmo tempo garantir o tráfego do melhor caminho para
o Amazonas, pelo Ucaiáli, que vai da estação
terminus de Oroya aos tributários principais do Pachitéa,
estabeleceu em 1857, à margem de um dêles, o Rio Pozuzo,
a colônia alemã, que sôbre tôdas lhe monopolizou
os cuidados e uma solicitude nunca interrompida.
Realmente, a situação era admirável. À
média distância de Iquitos, próxima aos afluentes
navegáveis do Ucaiáli e num solo exuberante, o núcleo
estabelecido era, militar e administrativamente, o mais firme ponto
estratégico daquele combate com o deserto, justificando-se
os esforços e extraordinárias despesas que se fizeram
para um rápido desenvolvimento, que as melhores condições
naturais favoreciam.
Mas não lhe vingou o plano. A exemplo do que acontecera em
Loreto, os novos povoadores, embora mais persistentes, anulavam-se,
estéreis. A colônia paralisara-se, tolhiça,
entre os esplendores da floresta. Reduziu-se a culturas rudimentares
que mal lhe satisfaziam o consumo. E o progresso demográfico,
quase insensível, retratava-se numa prole linfática,
em que o rijo arcabouço prussiano se engelhava na envergadura
esmirrada do quíchua. Ao visitá-la, em 1870, o Prefeito
de Huanuco, Coronel Vizcarra, quedou atônito e comovido: os
colonos apresentaram-se-lhe andrajosos e famintos, pedindo-lhe pão
e vestes para velarem a nudez. O romântico D. Manoel Pinzás,
que descreveu a viagem, pinta-nos em longos períodos soluçantes
os lances daquele cuadro desgarrador!, suspendendo-o em dois rijos
pontos de admiração.
Viu-o ainda, passado um lustro, com as mesmas côres sombrias,
o Dr. Santiago Tavara, ao descrever a primeira viagem do Almirante
Tucker.
Por fim, transcorridos trinta anos, o Coronel P. Portillo na sua
rota do Ucaiáli teve notícias certas do núcleo
povoador: era uma Tebaida aterradora. Lá dentro os primitivos
colonos e os seus rebentos degenerados agitavam-se vítimas
de um fanatismo irremediável, na mandria dolorosa das penitências,
a rezarem, a desfiarem rosários e a entoarem umas ladainhas
intermináveis numa concorrência escandalosa com os
guaribas da floresta.
Ora, o excursionista, que é hoje um dos mais lúcidos
políticos peruanos, para agravar-lse-lhe o desapontamento
ante êste malôgro completo da colônia predileta
da sua terra, tivera dias antes, ao passar em Puerto Victoria, na
confluência do Pichis e do Palcazu, formadores do Pachitéa,
um espetáculo completamente diverso. De fato, Puerto Victoria
surgira e desenvolvera-se, tornando-se a estância mais animada
e opulenta daquela redondeza, sem que o govêrno peruano soubesse
ao menos do seu aparecimento.
Jamais cogitara em povoar aquêle trecho.
A paragem era malsinada. Rodeavam-na os mais bravios entre os selvagens
sul-americanos: os campas do Pajonal, ao sul, e ao norte os caxibos
indomáveis, que em 1866 haviam trucidado em Chonta-Isla,
que lhe demora a jusante, os oficiais de marinha Tavara e West.
O Prefeito Benito Arana, que ali andara naquele mesmo ano, fôra,
em som de guerra, com dois vapôres e uma lancha artilhada,
em revide àquela afronta sanguinolenta. Saltou em terra;
meteu-se pela mata; travou pequeninos recontros em formidáveis
tiroteios; volveu num triunfo singularíssimo, encalçado
de perto pelos selvagens, que o frechavam; embarcou no tumulto da
sua gente vitoriosa, e fugindo; canhoneou furiosamente as barrancas;
volveu, precípite, águas abaixo, deixando na Playa
del Castigo um traço romanesco da sua emprêsa tormentosa...
E durante três decênios a região sinistra permaneceu
no isolamento que lhe criavam as gente apavoradas...
Até que, provindos do ocidente e vencendo à voga arrancada,
nas ubás esguias, as correntezas fortes do Pachitéa,
atravessaram-na de extremo a extremo e foram abordar na confluência
do Pichis alguns aventureiros destemerosos.
Eram uns caboclos entroncados, de tez morena e baça, e musculatura
sêca e poderosa. Não eram caucheiros. A palavra remorada
não lhes vibrava na fanfarrice ruidosa. Ao invés de
um tambo, improvisaram um tejupar mal arranjado. Não se armaram
do cuchillo, misto de punhal e de navalha. Pendiam-lhes à
cintura as facas de arrasto, longas como as espadas.
Aperceberam-se sem ruídos para a emprêsa e penetraram,
vagarosamente, na floresta...
Não se conhecem as peripécias da entrada temerária,
que foram sem dúvida excepcionalmente dramáticas.
Os caxibos têm no próprio nome a legenda da sua ferocidade.
Caxi, morcego; bo, semelhante. Figuradamente: sugadores de sangue.
Ainda nos seus raros momentos de jovialidade aquêles bárbaros
assustam, quando o riso lhes descobre os dentes retintos do sumo
negro da palmeira chonta; ou estiram-se de bruços, acaroados
com o chão, as bôcas junto à terra, ululando
longamente as notas demoradas de uma melopéia selvagem.
Atravessaram, indenes na bruteza, trezentos anos de catequese; e
são ainda a tribo mais bravia do vale do Ucaiáli.
Mas ao que se figura não pulsearam com vantagem o vigor nos
novos pioneiros.
É que o bárbaro sanguinário tinha pela frente,
enterreirando-o, um adversário mais temeroso, o jagunço.
Os recém-vindos eram brasileiros do Norte; e o seu patrão,
Pedro C. de Oliveira, mais um modêlo de lidador obscuro aparecendo
em lances de fecundas iniciativas entre os acontecimentos de uma
história estranha. Para aquilatar-se-lhe a valia, observemos
de relance que em janeiro de 1900 foi nomeado, apesar da sua nacionalidade,
governador de tôda a zona que o seu barracão centralizava.
O Coronel Portillo, que ali deparou agasalho sincero sem o pregão
de rasgados oferecimentos, tão característico da nossa
gens obscura, trai em todos os conceitos que emitiu no seu relatório
- desde o primeiro dia até desperdir-se da "muy estimable
familia del señor Olivera", o encanto que lhe causou
a estância animadíssima no centro de suas culturas
fartas, e inteligentemente locada com as numerosas vivendas circulantes
no alto da barranca, a prumo sôbre a margem esquerda do rio,
que se alcançava subindo uma longa escadaria resistente e
tôsca. Cativaram-no, sobretudo, os valentes tranqüilos
que se lhe mostraram modestíssimos em pleno triunfo sôbre
a barbaria e a terra. Por fim, à sua visão esclarecida
não escapou que aquêle forasteiro, sem um decreto e
sem uma subvenção, resolvera o problema colimado pelo
govêrno de seu país, fundando no lugar mais conveniente
a estação garantidora da "via central" demandando
a Amazônia. Disse-o nuamente: Pôrto Vitória era
o lugar mais apropriado para a guarnição militar e
alfândega que protegessem a importação e exportação
da colônia de Chanchamayo, norte de Pajonal, Tarma e montañas
do Palcazu, Matro e Pozuzo.
Concluiu: "La casa de Olivera debe ser tomada por el Supremo
Gobierno como la más aparente para las oficinas de la capitania,
aduana e comandancia militar."
Foi aceito o alvitre. Um decreto do Presidente Pierola ordenou a
demarcação de Puerto Victoria para estabelecer-se
comisaría destinada a proteger os colonizadores daquelas
terras; e num grande ciúme da situação vantajosa
adquirida revelou o intento de uma posse exclusiva "no consentiendo,
alli, en el radio de un quilómetro, poblador alguno".
O Peru conseguira realmente uma estação fluvial admirável.
E os brasileiros retiraram-se.
Passaram cinco anos.
Em 1905 um touriste parisiense, J. Delebecque, desceu o Pachitéa,
em viagem para o Amazonas, e não notaria a estância
outrora florescente se não o acompanhassem alguns índios
mansos conhecedores dos lugares.
No alto da barranca, que os enxurros solapavam, viam-se apenas alguns
tetos abatidos e restos de culturas afogadas num carrascal bravio.
O pôrto era uma ruína.
O viajante ali permaneceu por algumas horas a fim de secar as suas
roupas encharcadas ao calor de uma fogueira feita com as portas
desquiciadas e ombreiras vacilantes das vivendas, consoante praticam
todos os que por ali passam na travessia de Iquitos; e considerou,
melancòlicamente, que daquele jeito Puerto Victoria seria
em breve apenas uma recordação.
Depois abalou rio abaixo, a tôda a voga, fugindo da paragem
que se ermana no mais completo abandono...
Transacreana
A carta da Amazônia, no trato que demora ao ocidente do Madeira,
é o diagrama de seu povoamento inicial. A história
da paragem nova, antes de escrever-se, desenha-se. Não se
lê, vê-se. Resume-se nos longos e torturosos riscos
do Purus, do Juruá e do Javari.
São linhas naturais de comunicação a que nenhumas
se emparelham no favorecer um dilatado domínio. Geomètricamente,
os seus talvegues, rumados no sentido geral de SO para NE, num quase
paralelismo, oblíquos aos meridianos, facultam avançamentos
simultâneos em latitude e em longitude; sob o aspecto físico,
à parte os entraves artificiais oriundos do abandono em que
jazem, estiram-se de todo desimpedidos. Travam-se-lhes os mais privilegiados
requisitos. Na grande maioria dos rios amazônicos, e sobretudo
no Vale do Ucaiáli, os empeços naturais acumulam-se
ao ponto de originarem estranhos têrmos geográficos.
Nêles não há citar-se um só. Nem pongos
vertiginosos, nem despenhadas urmanas, nem muiúnas remoinhantes
ou vueltas del diablo desesperadores...
Daí esta expressiva conseqüência histórica:
enquanto no Tocantins, no Tapajós, no Madeira e no Rio Negro,
o povoamento, iniciado desde os tempos coloniais, se entorpeceu
ou retrogradou, retratando-se na ruinaria dos vilarejos a caírem
com as barrancas solapadas, ali, ajustando-se-lhes às margens,
progrediu tão de improviso que determinou, em menos de cinqüenta
anos, uma dilatação de fronteiras.
Era inevitável. O forasteiro, ao penetrar o Purus ou o Juruá,
não carecia de excepcionais recursos à emprêsa.
Uma canoa maneira e um varejão, ou um remo, aparelhavam-no
às mais espantosas viagens. O rio carregava-o; guiava-o;
alimentando-o; protegendo-o. Restava-lhe o só esfôrço
de colhêr à ourela das matas marginais as especiarias
valiosas; atestar com elas os seus barcos primitivos e volver águas
abaixo - dormindo em cima da fortuna adquirida sem trabalho. A terra
farta, mercê duma armazenagem milenária de riquezas,
excluía a cultura. Abria-se-lhe em avenidas fluviais maravilhosas.
Impôs-lhe a tarefa exclusiva das colheitas. Por fim tornou-lhe
lógico o nomadismo.
O nome de "montaria", da sua ubá aligeirada, é
extremamente expressivo. Ela o ajustou àquelas solidões
de nível, como o cavalo adaptou o tártaro às
estepes. Esta diferença apenas: ao passo que o calmuco tem
nos infinitos pontos do horizonte infinitos rumos atraindo-o ao
nomadismo irradiante à roda da sua iurta, que ao mudar-se
se afigura imóvel no círculo indefinido das planuras
- o jacumaúba amazonense, subordinado a roteiros lineares,
adscrito a direções imutáveis, ficou largo
tempo constrangido entre as barrancas dos rios. Mal poderia libertar-se
em desvios de poucas léguas pelos sulcos laterais dos tributários.
Ao invés do que se acredita, aquelas rêdes hidrográficas,
entretecidas de malhas tão contínuas, não misturam
as águas das caudais diversas em largas anastomoses, insinuando-se
pelas imperceptíveis linhas de vertentes abatidas nas planícies
encharcadas. O paranamirim volve sempre ao leito principal de onde
se esgalhou; e o igarapé acaba no lago que êle alimentou
nas cheias para que o alimente nas vazantes, correndo em sentidos
opostos consoante as estações; ou extingue-se, ampliando-se
nos plainos empantanados escondidos pela flórula anfíbia
dos igapós inextricáveis de lianas. Entre um curso
d'água e outro, a faixa da floresta substitui a montanha
que não existe. É um isolador. Separa. E subdividiu,
de fato, em longos caminhos isolados, as massas povoadoras que demandavam
aquela zona.
Viu-se então, de par com primitivas condições
tão favoráveis, êste reverso: o homem, em vez
de senhorear a terra, escravizava-se ao rio. O povoamento não
se expandia: estirava-se. Progredia em longas filas, ou volvia sôbre
si mesmo sem deixar os sulcos em que se encaixa - tendendo a imobilizar-se
na aparência de um progresso ilusório, de recuos e
avançadas, do aventureiro que parte, penetra fundo a terra,
explora-a e volta pelas mesmas trilhas - ou renova, monòtonamente,
os mesmos itinerários da sua inambulação invariável.
Ao cabo, a breve, mas agitadíssima história das paragens
novas, à parte ligeiras variantes, ia imprimindo-se tôda,
secamente, naquelas extensas linhas desatadas para SO: três
ou quatro riscos, três ou quatro desenhos de rios, coleando,
indefinidos, num deserto...
* * *
Ora, êste aspecto social desalentador, criado sobretudo pelas
condições em comêço tão favoráveis,
dos rios, corrige-se pela ligação transversa de seus
grandes vales.
A idéia não é original, nem nova. Há
muito tempo, com intuição admirável, os rudes
povoadores daqueles longínquos recantos realizaram-na com
a abertura dos primeiros varadouros.
O varadouro - legado da atividade heróica dos paulistas compartido
hoje pelo amazonense, pelo boliviano e pelo peruano - é a
vereda atalhadora que vai por terra de uma vertente fluvial a outra.
A princípio tortuoso e breve, apagando-se no afogado da espessura,
êle reflete a própria marcha indecisa da sociedade
nascente e titubeante, que abandonou o regaço dos rios para
caminhar por si. E foi crescendo com ela. Hoje nas suas trilhas
estreitíssimas, de um metro de largura, tiradas a facão,
estirando-se por tôda a parte, entretecendo-se em voltas inumeráveis,
ou encruzilhadas, e ligando os afluentes esgalhados de tôdas
as cabeceiras, do Acre para o Purus, dêste para o Juruá
e daí para o Ucaiáli, vai traçando-se a história
contemporânea do nôvo território, de um modo
de todo contraposto à primitiva submissão ao fatalismo
imponente das grandes linhas naturais de comunicação.
Nos seus torcicolos, impostos pelas linhas mais altas das pequenas
vertentes deprimidas, sente-se um estranho movimento irrequieto,
de revolta. Trilhando-os, o homem é, de fato, um insubmisso.
Insurge-se contra a natureza carinhosa e traiçoeira, que
o enriquecia e matava. Repele-lhe tanto os amparos antigos que realiza
na maior das mesopotâmias a anomalia de navegar em sêco;
ou esta transfiguração: carrega de um rio para o outro
o barco que o carregava outrora. Por fim, numa afirmativa crescente
da vontade, vai estirando de rio em rio, retramada com os infinitos
fios dos igarapés, a rêde aprisionadora, de malhas
cada vez menores e mais numerosas, que lhe entregará em breve
a terra dominada.
E do Acre para o Iaco, para o Tauamano e para o Orton: do Purus
para o Madre de Diós, para o Ucaiáli, para o Javari,
trilhando aforradamente o território em todos os quadrantes,
os acreanos, despeados do antigo traço de união do
Amazonas longínquo, que os submetia, dispersos, ao litoral
afastado, vão em cada uma daquelas veredas atrevidas, firmando
um símbolo tangível de independência e de posse.
Tomemos um exemplo de testemunho estrangeiro.
Em 1904 o oficial da marinha peruana, Germano Stiglich, encontrou
no Javari vários brasileiros, que o surpreenderam com a simples
narrativa de uma travessia costumeira, ante a qual se apequenavam
as suas mais estiradas rotas de explorador notável. Registrou-a
em um de seus relatórios: os sertanistas entram pelo Javar,
subindo o Itacoaí até às cabeceiras; varam
dali, por terra a buscarem as vertentes do Ipixuna: alcançam-nas;
transmontam-nas; descem o pequeno tributário; chegam ao Juruá;
navegam até S. Felipe, onde infletem, penetrando o Tarauacá,
o Envira e o Jurupari até onde subam as suas canoas ligeiras;
deixam-nas; rompem outra vez por terra a encontrarem o Purus nas
cercanias de Sobral; descem, embarcados, 760 km do grande rio até
a foz do Ituxi; e enveredando por êste último, vão,
depois de uma outra varação por terra, atingir o Abunã,
que baixam, abordando, afinal à margem esquerda do Madeira.
A derrota, com a percentagem de 20% sôbre as retas da desmedida
linha quebrada que a define, avalia-se em 3.000 km, ou o dôbro
da estrada tradicional, dos bandeirantes, entre S. Paulo e Cuiabá.
Os obscuros pioneiros prolongam a êstes dias a tradição
heróica das entradas, que constituem o único aspecto
original da nossa História.
Aquêle roteiro, entretanto, alonga-se contorcendo-se em voltas
sobremaneira extensas. Abreviemo-lo, baseando-nos em alguns dados
seguros.
Partindo de Remate dos Males, no Javari, nas cercanias de Tabatinga,
o viajante, em qualquer estação, pode sulcar num dia
o Itacoaí até a confluência do Ituí,
percorrendo 140 km itinerários. Prossegue por terra em terreno
firme, no rumo de SE pelo extenso varadouro de 190 km que corta
as cabeceiras do Jutaí e termina em S. Felipe, à margem
do Juruá, empregando apenas cinco dias de marcha. Sobe o
Tarauacá, embarcado, até a foz do Envira; e desta
à do Jurupari, prosseguindo a buscar as suas mais altas vertentes,
num percurso máximo de 350 km que vencerá em pouco
mais de uma semana. Rompe o breve varadouro que o leva ao Furo do
Juruá, e atinge, descendo-o, ao fim de dois dias, de lancha,
realizados os ligeiros reparos de que carece o rio. A sede da Prefeitura
do Alto-Purus, distante 24 km, alcança-se em duas horas de
navegação; e dali, pelo varadouro do Oriente, longo
de 25 léguas percorrido normalmente em cinco dias, chega-se
ao seringal Bajé, à margem esquerda do Acre. Transpondo
êste rio e seguindo para leste a cortar os derradeiros tributários
do Iquiri e os campos do Gavião, o caminhante vai ao Abunã,
a jusante da embocadura do Tipamanu, e daí ao Beni, na confluência
do Madeira, percorrendo cêrca de 300 km em oito dias, por
terra.
Dêste modo, em pouco mais de um mês de travessia, vencendo-se
907 km por águas e 660 por terra, pode-se vir de Tabatinga
a Vila Bela, diagonalmente, de um a outro extremo da Amazônia,
naquele itinerário de 250 léguas.
A êstes números falta, sem dúvida, o rigorismo
das quilometragens regulares; mas não variam talvez de um
décimo sôbre a realidade, à parte os dados demasiado
falíveis relativos à navegação do Tarauacá
e ao rumo por terra do Jurupari ao Purus.
Excluamo-los nesta variante: partindo do mesmo ponto à margem
do Javari e sulcando o Itacoaí até aos seus derradeiros
formadores, o viajante encontra o antigo varadouro do Ipixuna que
o conduz ao Juruá e a Cruzeiro do Sul, capital do Departamento,
em percurso pouco maior do que o anterior por S. Felipe.
Ora, de Cruzeiro do Sul às sedes dos departamentos do Purus
e do Acre podem remover-se todos os inconvenientes daquela navegação
precária, sujeita a fatigante roteiro.
De fato, o extenso segmento retilíneo, de 605 km, da linha
Cunha Gomes, é a própria linha de ensaio de um varadouro
notável ligando as três sedes administrativas. Dando-se-lhe
o desenvolvimento exagerado de 20% sôbre a distância,
terá a extensão de 726 km; ou sejam, exatamente, 110
léguas, que podem ser transpostas em grande parte, a cavalo,
em menos de doze dias.
Observe-se, de passagem, que êste projeto não se delineia
nos riscos arbitrários a que se avezam os exploradores de
mapas, ou consoante "o conhecido processo do Tzar Nicolau I,
riscando com a unha do polegar o traçado da estrada de Petersburgo
a Moscou".
Esteia-se em reconhecimentos, certo despidos de azimutes, ou cotas
esclarecedoras de aneróides, mas práticos e concludentes.
O primeiro trecho, normal ao vale do Taruacá, planeado pelo
General Taumaturgo de Azevedo, já se acha em grande parte
aberto por um seringueiro de Cocamera - e estende-se em terrenos
tão afeiçoados à marcha que, depois de concluído
o caminho, "ir-se-á do Juruá ao Tarauacá,
a cavalo, em quatro dias" conforme afirma o ex-Prefeito em
seu penúltimo relatório; ao passo que atualmente,
para efetuar-se a mesma viagem, "em vapor, que faça
poucas escalas e dobre a foz do Tarauacá, consomem-se 15
dias, no mínimo".
O segmento intermediário, de Barcelona ou Nôvo Destino
à confluência do Caeté, no Iaco, por sua vez
estudado pela Prefeitura do Alto-Purus, é de execução
facílima, todo desatado sôbre breve altiplano livre
das inundações. E o último, do Iaco ao Acre,
tem há muito tempo um tráfego permanente.
Dêste modo a grande estrada de 726 km, unindo os três
departamentos, e capaz de prolongar-se de um lado até ao
Amazonas, pelo Javari, e de outro até ao Madeira, pelo Abunã,
está de todo reconhecida, e na maior parte trilhada.
A intervenção urgentíssima do Govêrno
Federal impõe-se como dever elementaríssimo de aviventar
e reunir tantos esforços parcelados.
Deve consistir porém no estabelecimento de uma via férrea
- a única estrada de ferro urgente e indispensável
no Território do Acre.
Atalhemos uma objeção inicial.
A fisiografia amazônica figura-se sempre obstáculo
indispensável a tais emprêsas. Mas os que a agitam,
em argumentos que temos por escusado reproduzir, não podem,
certo, compreender as linhas férreas da Índia. De
fato, no Industão pròpriamente dito, o nivelamento
superficial, o solo aluviano de areias e argilas acumuladas em espessuras
indefinidas, e as características climáticas, patenteiam-se
em condições idênticas. Ali, como na Amazônia,
os rios destacam-se pela grandeza, volumes excessivos nas cheias,
amplitudes das inundações, e volubilidade dos canais
nos leitos divagantes. Os nulla incontáveis, serpeantes por
toda a banda, desenham-se na hidrografia caótica dos igarapés;
e o Purus, o Juruá, o Acre e seus tributários, não
variam tanto de curso e de regime quanto o Ganges e os rios de Punjab,
cujas pontes foram o maior problema que resolveu a engenharia inglêsa.
Na Índia, como entre nós, não faltaram profissionais
apavorados ante as dificuldades naturais - esquecidos de que a engenharia
existe precisamente para vencê-las. Ao discutir-se o memorandum
Kennedy, onde germinou a viação indu, o Coronel Grant,
do corpo de engenheiros de Bombaim, pilheriou sisudamente, propondo
com a maior seriedade que os trilhos se suspendessem em todo o correr
das linhas por meio de séries regulares de cadeias, em rijos
postes fronteantes, a oito pés acima do solo... E desafiou
o humor magnífico de seus fleugmáticos colegas. Os
rígidos railroadmen replicaram-lhe tempos depois, esmagadoramente,
com a West Indian Peninsular, e nobilitaram tôda a engenharia
de estradas de ferro obedecendo a uma de suas fórmulas mais
civilizadoras, enunciada por Mac-George: "In every country
it is necessary that railway should be ladi out with references
to the distribuition of population and to the necessities of people,
rather than to the mere physical characteristics of its geography..."
Ora, no caso atual, ainda êsses caracteres físicos
e geográficos evidenciam-se favoráveis.
A estrada de Cruzeiro do Sul ao Acre não irá, como
as do Sul do nosso país, justapondo-se à diretriz
dos grandes vales, porque tem um destino diverso. Estas últimas,
sobretudo em S. Paulo, são tipos clássicos de linhas
de penetração: levam o povoamento ao âmago da
terra. Naquele recanto amazônico esta função,
como o vimos, é desempenhada pelos cursos d'água.
À linha planeada resta o destino de distribuir o povoamento,
que já existe. É uma auxiliar dos rios. Corta-lhes,
por isto, transversa, os vales.
Daí esta conseqüência inegável: adapta-se,
naturalmente, mercê da própria direção,
às deprimidas áreas divisórias dos afluentes
laterais, e, acompanhando-os, forra-se em grande parte aos empecilhos
daquela hidrografia embaralhada.
Por outro lado, ao sul do paralelo de 8º persiste, certo,
o facies predominante da enorme várzea amazonense. Mas atenuado.
A inconstância tumultuária das águas não
se retrata em curvas tão numerosas e volúveis. Os
terrenos, expandindo-se em ondulações ligeiras com
a altitude média, absoluta, de 200 metros, são, no
geral, firmes e a cavaleiro das enchentes. Trilhamo-los em vários
pontos. Está-se, visívelmente, sôbre formações
mais antigas, definidas e estáveis, que as da imensa planura
pós-quaternária onde ainda se adivinham as derradeiras
transformações geológicas do Amazonas, no conflito
inevitável entre os cursos d'água inconstantes e a
várzea inconsistente.
Além disto, os obstáculos naturais, reduzem-nos, ou
amortecem-nos, os traçados que se lhes afeiçoes. A
via férrea em questão deve modelar-se pelas condições
técnicas menos dispendiosas a um primeiro estabelecimento
- caracterizando-se, sobretudo, por uma via singela, de bitola reduzida,
de 0,76 m ou 0,91 m, ou no máximo de 1,0 m entre trilhos,
que lhe permita os maiores declives e as menores curvas, dando-lhe
plasticidade para volver-se em busca dos terrenos mais altos e estáveis,
que lhe alteiem o grado acima das zonas inundadas em traçados
quase à flor da terra. Deve nascer como nasceram as maiores
estradas atuais: trilhos de 18 quilos, no máximo, por metro
corrente, capazes de locomotivas de escasso pêso aderente
de 15 a 20 toneladas; curvas que se arqueiem até aos raios
de 50 metros; e declives que se aprumem até 5% submetidos
a todos os movimentos do solo.
Não os tem muito melhores a Central Pacific, de Nevada, com
a sua bitola estreita, sem balastro, serpeando com a mesma levidade
de trilhos em curvas de 90 metros, e tornejando pendores em rampas
inclassificáveis. Ou o Transiberiano, onde locomotivas de
30 toneladas, rebocando 1/6 de pêso aderente sôbre trilhos
de 19 quilos, andando com a velocidade de 20 km por hora, não
raro recuavam, desandando, constrangidas, se encontravam de frente,
repelindo-as, ponteiras, as ventanias ríspidas das estepes...
Sem dúvida, de uma tal superestrutura, a que se liga o imperfeito
do material rodante, de tração ou transporte, resultará
reduzidíssima capacidade de tráfego. Mas a linha acreana,
a exemplo da Union Pacific Railway, não vai satisfazer um
tráfego, que não existe, senão criar o que
deve existir.
Como as norte-americanas, construir-se-á aceleradamente,
para reconstruir-se vagarosamente.
É um processo generalizado. Tôdas as grandes estradas,
no evitarem os empeços que se lhes antolham transpondo as
depressões e iludindo os maiores cortes com os mais primitivos
recursos que lhes facultem um rápido estiramento dos trilhos,
erigem-se nos primeiros tempos como verdadeiros caminhos de guerra
contra o deserto, imperfeitos, selvagens. E como para justificar
o asserto, o primeiro engenheiro das suas obras rudimentares - que
hoje se fazem como há dois mil anos - de suas estacadas,
de suas pontes e pontilhões de madeira mal lavradas, superpostas
em linhas sôbre os styli fixi dos tanchões roliços,
é César.
Depois evolvem; e crescem, aperfeiçoando os elementos da
sua estrutura complexa, como se fôssem enormes organismos
vivos.
FIM
À Margem da História, de Euclides da
Cunha
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A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
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