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À Margem da História
Euclides da Cunha
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Introdução
Foi Coelho Neto, grande amigo de Euclides, que o induziu a editar
seus livros na Editôra Lello, de Portugal. O êxito editorial
do autor de Livro de Prata (pelo assunto e pelo estilo) o animou
a aconselhar seu colega da Academia à prestigiosa casa do
Pôrto.
A morte inesperada de Euclides, porém, as naturais dificuldades
para os necessários contactos com editôres e a falta
de afinidade dos portuguêses com a temática euclidiana
fizeram com que as seguintes edições de Contrastes
e Confrontos e À Margem da História se epaçassem
cada vez mais e não tivessem a indispensável assistência
direta do Autor, ou de revisores afetios à matéria.
À Margem da História (obra póstuma que só
saiu um mês após a morte do escritor) vem em sua 1ª
edição - provàvelmente pela falta de uma revisão
final de Euclides - eivada de erros e descuidos. Graças ao
zêlo de seus editôres, as ediçòes seguintes
se apresentam mais corretas e melhor revistas.
Sendo crescente entre nós o interêsse pela obra euclidiana
e dada a importância dos livros para a perfeita compreensão
da problemática do Autor, impunha-se fôssem eles editados
entre nós, na nossa ortografia e sob nosso cuidados revisórios.
Graças aos entendimentos da Editôra Lello Brasileira,
de São Paulo, conseguindo autorização da Editôra
Lello, do Pôrto, e com o estabelecimento de textos feito pelo
Sr. Dermal Monfré, temos agora (como iniciativa da editôra
nacional em comemoração ao Ano Euclidiano) os dois
livros editados no Brasil.
À Margem da História compõe-se de quatro partes:
Na Amazônia, Terra Sem História (7 capítulos,
sôbre essa região), Vários Estudos (3 capítulos,
assuntos americanos), Da Independência à República
(ensaio histórico) e Estrêlas Indecifráveis
(crônica).
O livro apresenta, bem nítidas, quatro constantes da personalidade
cultural de Euclides: o cultor da língua e verdadeiro esteta
da linguagem, o ensaísta e o humanista brasileiro.
Não há preciosismo no falar euclidiano; há,
sim, o rigorismo da palavra exata. Seu vocabulário riquíssimo,
técnico e profissional quando necessário, era-lhe
o instrumento próprio para captar tôdas as sutilezas
da realidade e expor o logicismo de seu raciocínio de investigador
e a lucidez do intérprete.
Nas palavras densas, carregadas de emoções e evocações,
dispostas numa estruturação sintática de ritmo
veemente, que se torna frêmito de vida e poesia, temos a própria
autenticidade de Euclides, numa linguagem que é bem tropicalmente
brasileira, no transbordamento fenomenológico de formas,
sons, calor e luz. Se n'Os Sertões êle foi mais improvisado
e por isso mais grandiloqüente e espetacular, agora ei-lo mais
equilíbrio e maturidade. O capítulo Judas Ahsverus
(que nasceu inteiriço como um bloco de beleza) continua sendo
uma das melhores páginas da língua portuguêsa.
O espírito científico de Euclides, sempre estudando
e sumariando os assuntos (formado na juventude conforme o espírito
da época), dado a hipóteses e prefigurações
muitas vêzes discutíveis, extravasa-se na insopitável
vocação ao ensaísmo, exigindo-lhe conhecimentos
e pesquisas, para que se torne mais lúcido, mais penetrante,
melhor intérprete. Por isso achamos que há necessidade
de uma iniciação cultural para se sentir e compreender
Euclides. Não estranhamos ser êle um escritor pouco
popular. Sua irrefreável tendência à interpretação
fisiológica dos fenômenos naturais mostra-se através
de uma vibração romântica e idealística,
fazendo surgir, dos algarismos e teorias, sua figura inigualável
de artista.
Euclides é inesgotável. Por mais que se queira defini-lo
e caracterizá-lo, ainda se descobrem novas veredas e magníficas
perspectivas que escaparam à delimitação...
Seu tema central é a pátria e a gente brasileira.
N'Os Sertões o objetivo último é o homem; n"Amazonia,
o tema principal é a terra.
Seu nacionalismo mais se prende à preocupação
do bem comum e da denúncia das estruturas desequilibradas
de nossa sociedade. Já de algum tempo era sua intenção
escrever um "segundo livro vingador". Deveria referir-se
à Amazônia, acusando os descasos pela terra e o desprêzo
pelo homem.
Deveria chamar-se Paraíso Perdido.
Não o completou, porém, e alguns de seus capítulos
constituem a Terra Sem História, que abre êste volume.
São, no entender de alguns euclidianos, as mais expressivas
e belas páginas de Euclides.
Quando, em 1904, escreveu a José Veríssimo sôbre
sua ida ao Acre (como Chefe da Comissão de Reconhecimento
das Nascentes do Rio Purus) confessa o intento: "Aquelas paragens,
hoje, depois dos últimos movimentos diplomáticos,
estão como o Amazonas antes de Tavares Bastos; se eu não
tenho a visão admirável dêste, tenho o seu mesmo
anelo de revelar os prodígios da nossa terra".
Seu desejo era mostrar os aspectos físicos e as riquezas
essenciais da exuberante região.
"Além disso, se as nações estrangeiras
mandam cientistas ao Brasil, que absurdo haverá no encarregar-se
de idêntico objetivo um brasileiro?"
O grande rio teve o intérprete à altura.
Conhecerá melhor a Amazônia aquêle que ler as
páginas de Terra Sem História. Não é
sòmente a geografia descritiva que o empolga; são
suas transfigurações no tempo.
O mesmo crítico da caatinga, d'Os Sertões, é
aqui o arrebatado revelador do sistema hidrográfico da (ainda
hoje) desordenada região. E se o sertanejo é antes
de tudo um forte, o seringueiro, é um tipo de lutador excepcional.
Devido, porém, ao egoísmo desenfreado dos patrões
opulentos, o homem ali "trabalha para escravizar-se".
Se n'Os Sertões a denúncia fica mais como um alerta,
aqui Euclides é mais objetivo e recomenda leis trabalhistas
(isso em 1906...) para que "salvemos aquela sociedade obscura
e abandonada".
Enquanto Contrastes e Confrontos está recheado de estudos
e ensaios que são o desdobramento ou a complementação
d'Os Sertões, êste outro em nada a êles se assemelha,
a não ser pelo mesmo tema da integração nacional
- através da penetração na Amazônia -
e o mesmo desvêlo pelo sofrido homem de nossa pátria,
o que faz de Euclides da Cunha um dos primeiros e mais ardorosos
cultores do humanismo brasileiro.
Continuam aqui suas preocupações e seus interêsses
pelos problemas americanos, principalmente os referentes à
América do Sul. Isso em 1904. Se os tivéssemos acompanhado
e estudado com igual dedicação e cuidado, hoje teríamos
uma alinaça latino-americana melhor e mais eficientemente
estruturada e, conseqüentemente, uma vida econômica e
social mais condinzente com nossas possibilidades e riquezas.
O historiador Euclides tem, no esbôço Da Independência
à República, um ensaio cuja leitura deve ser obrigatória
mesmo para os especialistas no assunto. É lúcido e
original na interpretação do evoluir de nosso processo
histórico-social.
O livro termina com um capítulo que parece chamar a atenção
para os céus indecifráveis, assunto que hoje seria
o ponto alto das pesquisas científicas, nas penetrações
espaciais. É poesia, ciência e confissão do
agnóstico diante do infinito desconhecido e sua ânsia
de decifrá-lo...
Os euclidianos brasileiros, exultantes, muito têm a agradecer
à Lello Brasileira S.A., pelo retôrno dêstes
dois filhos pródigos...
Oswaldo Galotti
Grêmio
Euclides da Cunha, de São
José do Rio Pardo
I Parte
Na Amazônia, Terra Sem História
Impressões Gerais
Ao revés da admiração ou do entusiasmo, o que
nos sobressalteia geralmente, diante do Amazonas, no desembocar
do dédalo florido do Tajapuru, aberto em cheio para o grande
rio, é antes um desapontamento. A massa de águas é,
certo, sem par, capaz daquele terror a que se refere Wallace; mas
como todos nós desde mui cedo gizamos um Amazonas ideal,
mercê das páginas singularmente líricas dos
não sei quantos viajantes que desde Humboldt até hoje
contemplaram a hiléia prodigiosa, com um espanto quase religioso
- sucede um caso vulgar de psicologia: ao defrontarmos o Amazonas
real, vemo-lo inferior à imagem subjetiva há longo
tempo prefigurada. Além disto, sob o conceito estritamente
artístico, isto é, como um trecho da terra desabrochando
em imagens capazes de se fundirem harmoniosamente na síntese
de uma impressão empolgante, é de todo em todo inferior
a um sem número de outros lugares do nosso país. Tôda
a Amazônia, sob êste aspecto, não vale o segmento
do litoral que vai de Cabo Frio à Ponta do Munduba.
É sem dúvida, o maior quadro da Terra; porém
chatamente rebatido num plano horizontal que mal alevantam de uma
banda, à feição de restos de uma enorme moldura
que se quebrou, as serranias de arenito de Monte Alegre e as serras
graníticas das Guianas. E como lhe falta a linha vertical,
preexcelente na movimentação da paisagem, em poucas
horas o observador cede às fadigas de monotonia inaturável
e sente que o seu olhar, inexplicàvelmente, se abrevia nos
sem-fins daqueles horizontes vazios e indefinidos como o dos mares.
***
A impressão dominante que tive, e talvez correspondente a
uma verdade positiva, é esta: o homem, ali, é ainda
um intruso impertinente. Chegou sem ser esperado nem querido - quando
a natureza ainda estava arrumando o seu mais vasto e luxuoso salão.
E encontrou uma opulenta desordem... Os mesmos rios ainda não
se firmaram nos leitos; parecem tatear uma situação
de equilíbrio derivando, divagantes, em meandros instáveis,
contorcidos sem "sacados", cujos istmos a reveses se rompem
e se soldam numa desesperadora formação de ilhas e
de lagos de seis meses, e até criando formas topográficas
novas em que êstes dois aspectos se confundem; ou expandindo-se
em "furos" que se anastomosam, reticulados e de todo incaracterísticos,
sem que se saiba se tudo aquilo é bem uma bacia fluvial ou
um mar profusamente retalhado de estreitos.
Depois de uma única enchente se desmancham os trabalhos de
um hidrógrafo.
A flora ostenta a mesma imperfeita grandeza. Nos meios-dias silenciosos
- porque as noites são fantàsticamente ruidosas -,
quem segue pela mata, vai com a vista embotada no verde-negro das
fôlhas; e ao deparar, de instante em instante, os fetos arborescentes
emparelhando na altura com as palmeiras, e as árvores de
troncos reilíneos e paupérrimos de flôres, tem
a sensação angustiosa de um recuo às mais remotas
idades, como se rompesse os recessos de uma daquelas mudas florestas
carboníferas desvendadas pela visão retrospectiva
dos geólogos.
Completa-a, ainda sob esta forma antiga, a fauna singular e monstruosa,
onde imperam, pela corpulência, os anfíbios, o que
é ainda uma impressão paleozóica. E quem segue
pelos longos rios, não raro encontra as formas animais que
existem, imperfeitamente, como tipos abstratos ou simples elos da
escala evolutiva. A "cigana" desprezível, por ex.,
que se empoleira nos galhos flexíveis das oiranas, trazendo
ainda na asa de vôo curto a garra do réptil...
Destarte a natureza é portentosa, mas incompleta. É
uma construção estupenda a que falta tôda a
decoração interior. Compreende-se bem isto: a Amazônia
é talvez a terra mais nova do mundo, consoante as conhecidas
induções de Wallace e Frederico Hartt. Nasceu da última
convulsão geogênica que sublevou os Andes, e mal ultimou
o seu processo evolutivo com as várzes quaternárias
que se estão formando e lhe preponderam na topografia instável.
Tem tudo e falta-lhe tudo, porque lhe falta êsse encadeamento
de fenômenos desdobrados num ritmo vigoroso, de onde ressaltam,
nítidas, as verdades da arte e da ciência - e que é
como que a grande lógica inconsciente das coisas.
Daí esta singularidade: é de tôda a América
a paragem mais perlustrada dos sábios e é a menos
conhecida. De Humboldt a Em. Goeldi - do alvorar do século
passado aos nossos dias, perquirem-na, ansiosos, todos os eleitos.
Pois bem, lêde-os. Vereis que nenhum deixou a calha principal
do grande vale; e que ali mesmo cada um se acolheu, deslumbrado,
no recanto de uma especialidade. Wallace, Mawe, W. Edwards, d'Orbigny,
Martius, Bates, Agassiz, para citar os que me acodem na primeira
linha, reduziram-se a geniais escrevedores de monografias.
A literatura científica amazônica, amplíssima,
reflete bem a fisiografia amazônica: é surpreendente,
preciosíssima, desconexa. Quem quer que se abalance a deletreá-la,
ficará, ao cabo dêsse esforço, bem cpouco além
do limiar de um mundo maravilhoso.
Há uma frase do Professor Frederico Hartt que delata bem
o delíquio dos mais robustos espíritos diante daquela
enormidade. Êle estudava a geologia do Amazonas quando em
dado momento se encontrou tão despeado das concisas fórmulas
científicas e tão alcandorado no sonho, que teve de
colhêr, de súbito, tôdas as velas à fantasia:
- "Não sou poeta. Falo a prosa da minha ciência.
Revenons!"
Escreveu; e encarrilhou-se nas deduções rigorosas.
Mas decorridas duas páginas não se forrou a novos
arrebatamentos e reincidiu no enlêvo... É que o grande
rio, malgrado a sua monotonia soberana, evoca em tanta maneira o
maravilhoso, que empolga por igual o cronista ingênuo, o aventureiro
romântico e o sábio precavido. As "amazonas"
de Orellana, os titânicos curriquerês de Guillaume de
L'Isle e a Mana del Dorado de Walter Raleigh, formando no passado
um tão deslumbrante ciclo quase mitológico, acolchetam-se
em nossos dias às mais imaginosas hipóteses da ciência.
Há uma hipertrofia da imaginação no ajustar-se
ao desconforme da terra, desequilibrando-se a mais sólida
mentalidade que lhe balanceie a grandeza. Daí, no próprio
terreno das indagações objetivas, as visões
de Humboldt e a série de conjeturas em que se retravam, ou
contrastam, todos os conceitos, desde a dinâmica de terremotos
de Russell Wallace ao bíblico formidável das galerias
pré-diluvianas de Agassiz.
Parece que ali a imponência dos problemas implica o discurso
vagaroso das análises: às induções avantajam-se
demasiado os lances da fantasia. As verdades desfecham em hipérboles.
E figura-se alguma vez em idealizar aforrado o que ressai nos elementos
tangíveis da realidade surpreendedora, por maneira que o
sonhador mais desensofrido se encontre bem na parceria dos sábios
deslumbrados.
Vai-se, por ex., com Fred. Katzer a seriar, a escandir e aconfrontar
velhíssimos petrefactos ou graptólitos numa longa
romaria ideal pelos mais remotos pontos nas mais remotas idades
- largo tempo, a debater-se entre as classificações
maciças, a enredar-se na trama das raízes gregas das
nomenclaturas bravias - e de improviso, os dizeres da ciência
desfecham num quase idealismo: as análises rematam-nas prodígios;
as vistas abreviadas nos microscópios desapertam-se no descortino
de um passado muitas vêzes milenário; e esboçados
os contornos estupendos de uma geografia morta, alonga-se-lhe aos
olhos a perspectiva indefinida daquele extinto oceano médio-devônico
que afogava todo o Mato Grosso e a Bolívia, cobrindo quase
tôda a América meridional e chofrando no levante as
antiqüíssimas arribas de Goiás, últimos
litorais do continente brasilio-etiópico que aterrava o Atlântico
indo abranger a África... Segue-se com os naturalistas da
Comissão Morgan, e a história geológica, a
despeito de linhas mais seguras, não perde o traço
grandioso, desenvolvendo-se às duas margens do largo canal
terciário que por longo tempo separou os planaltos brasileiros
e os das Guianas, até que o vagaroso sublevar dos Andes,
no Ocidente, serrando-lhe um dos extremos, o transmudasse em golfo,
em estuário, em rio.
Ao cabo, ainda atendo-se aos fatos atuais da fisiografia amazônica,
restam outros agentes nímio perturbadores da fria serenidade
das observações científicas.
* * *
Basta mostrar-se de relance que, ainda nos casos mais simples, há
no Amazonas um flagrante desvio do processo ordinário da
evolução das formas topográficas.
Em tôda a parte a terra é um bloco onde se exercita
a molduragem dos agentes externos entre os quais os grandes rios
se erigem como principais fatôres, no lhe remodelarem os acidentes
naturais, suavizando-lhos. Compensando a degradação
das vertentes com o alteamento dos vales, correndo montanhas e edificando
planuras, êles vão em geral entrelaçando as
açòes destrutivas e reconstrutoras, de modo que as
paisagens, lento e lento transfiguradas, reflitam os efeitos de
uma estatuária portentosa.
Assim o Hoang-Ho aumentou a China com um delta, que é uma
província nova; e, ainda mais expressivo, o Mississipi assombra
o naturalista, com a expansão secular do atêrro desmedido
que em breve chegará às bordas da profundura onde
se encaixa o Gulf-Stream. Nas suas águas barrentas andam
os continentes dissolvidos. Mudam-se países. Deconstituem-se
territórios. E há um encadeamento tão lógico
nos seus esforços contínuos, onde incidem as grandes
energias naturais, que o acompanhá-los implica algumas vêzes
o acompanhar-se o próprio rumo de um aspecto qualquer da
atividade humana: das páginas de Herôdoto às
de Maspéro, contempla-se a gênese de uma civilização
de par com a de um delta; e o paralelismo é tão exato,
que se justificam os exageros dos que, a exemplo de Metchnikoff,
vêem nos grandes rios a causa preeminente do desenvolvimento
das nações.
Ao passo que no Amazonas, o contrário. O que nêle se
destaca é a função destruidora, exclusiva.
A enorme caudal está destruindo a terra. O Professor Hartt,
impressionado ante as suas águas sempre barrentas, calculou
que "se sôbre uma linha férrea corresse dia e
noite, sem parar, um trem contínuo carregado de tijuco e
areias, esta enorme quantidade de materiais seria ainda menor do
que a de fato é transportada pelas águas..."
Mas tôda esta massa de terras diluídas não se
regenera. O maior dos rios não tem delta. A Ilha de Marajó,
constituída por uma flora seletiva, de vegetais afeitos ao
meio maremático e ao inconsistente da vasa, é uma
miragem de território. Se a despissem, ficariam só
as superfícies rasadas dos "mondongos" empantanados,
apagando-se no nivelamento das águas; ou, salteadamente,
algumas pontas de fragueados de arenito endurecido, esparsas, a
êsmo, na amplidão de uma baía. À luz
das deduções rigorosas de Walter Bates, comprovando
as conjeturas anteriores de Martius, o que ali está sob o
disfarce das matas, é uma ruína: restos desmantelados
do continente, que outrora se estirava, unido, das costas de Belém
às de Macapá - e que se tem de restaurar, hipotèticamente,
em passado longínquo, para explicar-se a identidade das faunas
terrestres, hoje separadas pelo rio, do Norte do Brasil e das Guianas.
O Amazonas, entretanto, poderia reconstruí-lo em pouco tempo,
com os só 3.000.000 de metros cúbicos de sedimentos,
que carrega em vinte e quatro horas. Mas dissipa-os. A sua corrente
túrbida, adensada nos últimos lances de seu itinerário
de 6.000 milhas, com os desmontes dos litorais, que dia a dia se
desbarrancam, fazendo recuar a costa que se desenrola desde o Paru
ao Araguari, decanta-se tôda no Atlântico. E os resíduos
das ilhas demolidas - entre as quais a de Caviana que lhe foi antiga
barragem e se bipartiu no correr de nossa vida histórica
- vão cada vez mais delindo-se e desaparecendo, no permanente
assalto daquelas correntezas poderosas. Destarte, desafoga-se mais
e mais a desembocadura principal da grande artéria e acentua-se
o seu desvio para o norte, com o abandono contínuo das paragens
que lhe demoram a leste e sôbre as quais êle passou
outrora, deixando ainda, nas áreas recém-desvendadas
dos brejos marajoaras, um atestado tangível daquele deslocamento
lateral do leito, que tem dado aos geólogos inexpertos a
ilusão de um levantamento ou de uma reconstrução
da terra.
Porque, na realidade, esta se reconstitui mui longe das nossas plagas.
Neste ponto, o rio, que sôbre todos desafia o nosso lirismo
patriótico, é o menos brasileiro dos rios. É
um estranho adversário, entregue dia e noite à faina
de solapar a sua própria terra. Herbert Smith, iludido ante
a poderosa massa de águas barrentas, que o viajente vê
em pleno Oceano antes de ver o Brasil, imaginou-lhe uma tarefa portentosa:
a construção de um continente. Explicou: depondo-se
aquêles sedimentos do fundo tranqüilo do Atlântico,
novas terras aflorariam nas vagas e ao cabo de um esfôrço
milenário encher-se-ia o golfão aberto, que se arqueia
do Cabo Orange à Ponta do Gurupi, dilatando-se desta sorte,
consideràvelmente, para nordeste, as terras paraenses.
The king is building his monument! bradou o naturalista encantado
e acomodando às ásperas sílabas britânicas
um rapto fantasista capaz de surpreender à mais ensofregada
alma latina. Esqueceu-lhe, porém, que aquêle originalíssimo
sistema hidrográfico não acaba com a terra, ao transpor
o Cabo Norte; senão que vai, sem margens, pelo mar dentro,
em busca da corrente equatorial, onde aflui, entregando-lhe todo
aquêle plasma gerador de território. Os seus materiais,
distribuídos pelo imenso rio pelásgico que se prolonga
com o Gulf-Stream, vão concentrando-se e surgindo a flux,
espaçadamente, nas mais longínquas zonas: a partir
das costas das Guianas, cujas lagunas, a começar no Amapá,
a mais e mais se dessecam avançando em planuras de estepes
pelo mar em fora, até aos litorais norte-americanos, da Geórgia
e das Carolinas, que se dilatam sem que lhes expliquem o crescer
contínuo os breves cursos d'água das vertentes orientais
dos Aleganis.
Naqueles lugares, o brasileiro salta: é estrangeiro, e está
pisando em terras brasileiras. Antolha-se-lhe um contra-senso pasmoso:
à ficção de direito estabelecendo por vêzes
a extraterritorialidade, que é a pátria sem a terra,
contrapõe-se uma outra, rudemente física: a terra
sem a pátria. É o efeito maravilhoso de uma espécie
de imigração telúrica. A terra abandona o homem.
Vai em busca de outras latitudes. E o Amazonas, nesse construir
o seu verdadeiro delta em zonas tão remotas do outro hemisfério,
traduz, de fato, a viagem incógnita de um território
em marcha, mudando-se pelos tempos adiante, sem parar um segundo,
e tornando cada vez menores, num desgastamento ininterrupto, as
largas superfícies que atravessa.
Não se lhe apontam formações duradouras, ou
fixas. Por vêzes, nas arqueaduras de seus canais remansam-se
as águas fazendo que se deponham os sedimentos conduzidos
e as sementes que acarretam. Então as faculdades criadoras
do rio despontam supreendedoramente. O baixio prestes recém-formado
e aflorando à superfície, delineia-se, em contornos
indecisos; define-se logo, vivamente; dilata-se e ascende, bombeando
levemente nas águas; e na ilha que se gera, crescendo e articulando-se
a olhos vistos, apontoada de cabuchos, que se alongam e se retorcem
à superfície à maneira de tentáculos
de um prodigioso organismo - desencadeia-se para logo a luta das
espécies vegetais tão viva e tão dramática
que nem lhe faltam no baralhamento dos colmos, das hastes ou das
ramagens revôltas, estirando-se, enredando e confundindo-se,
todos os movimentos convulsivos de uma enorme batalha sem ruídos:
dos aningais, que consolidam o tijuco inconsistente com a infibratura
dos risomas estirados; aos mangues, que os suplantam e repelem para
as bordas, em violentos e tumultuários bracejos; aos javaris
altaneiros, que por sua vez recalcam os últimos expelindo-os
para as margens apauladas, e senhoreando os tesos consistentes...
Assim se erigiu recentemente a Ilha de Cururu, com dois km²
de área; e se reconstróem tôdas as que se observam
acima dos canais de Breves.
Mas formam-se para se destruírem, ou desocarem-se incessantemente.
As ilhas trabalhadas pelas mesmas correntes que as geraram, desbarrancam-se
a montante e restauram-se a jusante, e vão lento e lento
derivando rio abaixo, ao modo de monstruosos pontões desmastreados,
de longas proas abatidas e pôpas altas, a navegarem dia e
noite com velocidade insensível. Por fim, desgastam-se e
acabam. A de Urucurituba durou dez anos (1840-1850) mercê
da superfície vastíssima; e apagou-se numa enchente...
O mesmo fato, nas margens. Os litorais do Amazonas mal lhe definem
a calha desmedida. São margens que evitam o rio. Ficam-lhe,
normalmente, fora das águas, para além das vastas
planuras salpintadas de "lagos de terra firme", que atenuam,
feito compensadores, a violência das caudais, nas cheias.
Aí, num cenário mais amplo, se desdobra por vêzes
a aparência de uma construção, em larga escala,
de solo. O rio, multífluo nas grandes enchentes, vinga as
ribanceiras e desafoga-se nos plainos desimpedidos. Desarraíga
florestas inteiras, atulhando de troncos e esgalhos as depressões
numerosas da várzes; e nos remansos das planícies
inundadas, decantam-se-lhe as águas carregadas de detritos,
numa colmatagem plenamente generalizada. Baixam as águas
e nota-se que o terreno cresceu; e alteia-se de cheia em cheia,
aprumando-se as "barreiras" altas, exsicando-se os pantanais
e "igapós", esboçando-se os "firmes"
ondeantes, para logo invadidos da flora triunfal... até que
num só assalto, de enchente, todo êsse delta lateral
se abata.
Numa só noite (29 de julho de 1866) as "terras caídas"
da margem esquerda do Amazonas desmoronaram numa linha contínua
de cinqüenta léguas.
É o processo antigo, invariável - patenteando-se ainda
no diminuto raio da nossa história. As ribanceiras a pique
da antiga costa do Paru, onde apareceram aos condutícios
de Orellana as amazonas lendárias, reduzem-se hoje a um baixio
degredado, visível apenas nas vazantes excessivas.
A inconstância tumultuária do rio retrata-se ademais
nas suas curvas infindáveis, desesperadoramente enleadas,
recordando o roteiro indeciso de um caminhante perdido, a esmar
horizontes, volvendo-se a todos os rumos ou arrojando-se à
ventura em repentinos atalhos. Assim êle se precipitou pela
angustura afogante de Óbidos num abandono completo do antigo
leito, que ainda hoje se adivinha no enorme plaino maremático
ganglionado de lagoas, de Vila Franca; ou vai, noutros pontos, em
"furos" inopinados, afluir nos seus grandes afluentes,
tornando-se ilògicamente tributário dos próprios
tributários; sempre desordenado, e revôlto, e vacilante,
destruindo e construindo, reconstruindo e devastando, apagando numa
hora o que erigiu em decênios - com a ânsia, com a tortura,
com o exaspêro de monstruoso artista incontentável
a retocar, a refazer e a recomeçar perpètuamente um
quadro indefinido...
* * *
Tal é o rio; tal, a sua história: revôlta, desordenada,
incompleta.
A Amazônia selvagem sempre teve o dom de impressionar a civilização
distante. Desde os primeiros tempos da colônia, as mais imponentes
expedições e solenes visitas pastorais rumavam de
preferência às suas plagas desconhecidas. Para lá
os mais veneráveis bispos, os mais garbosos capitães-generais,
os mais lúcidos cientistas. E do amanho do solo que se tentou
afeiçoar a exóticas especiarias, à cultura
do aborígine que se procurou erguer aos mais altos destinos,
a Matrópole longínqua demasiara-se em desvelos à
terra que sôbre tôdas lhe compensaria o perdimento da
Índia portentosa.
Esforços vãos. As partidas demarcadoras, as missões
apostólicas, as viagens governamentais, com as suas frotas
de centenares de canoas, e os seus astrônomos comissários
apercebidos de luxuosos instrumentos, e os seus prelados, e os seus
guerreiros, chegavam, intermitentemente, àqueles rincões
solitários, e armavam ràpidamente no altiplano das
"barreiras" as tendas suntuosas da civilização
em viagem. Regulavam as culturas; puliam as gentes; aformoseavam
a terra.
Prosseguiam a outros pontos, ou voltavam - e as malocas, num momento
transfiguradas, decaíam de chôfre, volvendo à
bruteza original.
Já nos fins do século XVIII, Alexandre Rodrigues Ferreira,
ao realizar a sua "viagem filosófica", pela calha
principal do grande rio, andara entre ruínas. Na Vila de
Barcelos, capital da circunscrição longínqua,
antolhara-se-lhe, tangível, a imagem do progresso tìpicamente
amazônico, naquele presuntuoso Palácio das Demarcações
- amplíssimo, monumental, imponente - e coberto de sapé!
Era um símbolo. Tudo vacilante, efêmero, antinômico,
na paragem estranha onde as próprias cidades são errantes,
como os homens, perpètuamente a mudarem de sítio,
deslocando-se à medida que o chão lhes foge roído
das correntezas, ou tombando nas "terras caídas"
das barreiras...
Vai-se de um a outro século na inaturável mesmice
de renitentes tentativas abortadas. As impressões dos mais
lúcidos observadores não se alteram, perpètuamente
desenfluídas pelo espetáculo de um presente lastimável
contraposto à ilusão de um passado grandioso.
Tenreiro Aranha em 1852, ao erigir-se a província do Amazonas,
assumiu a sua direção, e numa resenha retrospectiva
diz-nos do extraordinário progresso que se perdera, referindo-se
a "manufaturas primorosas", a uma indústria extinta
em que "o algodão, o anil, a mandioca e o café
tiveram cultura tal que dava para o consumo sobrando para a exportação;
e assim as fábricas de anil, as cordoarias de piassaba, de
fiação, tecidos e rêdes de algodão, de
palhinha ou de penas; as telhas e alvenaria; as de construção
civil e naval, com hábeis artistas, fazendo aparecer templos,
palácios, ou possantes embarcações..."
Recua-se, porém, exatamente um século, a buscar o
período decantado - e num grande desapontamento observa-se,
à luz do relatório feito em 1752 por outro insigne
governador, o Capitão-General Furtado de Mendonça,
que a "capitania estava reduzida à última ruína..."
Assim se desconchavam os pareceres, agitando idênticos desânimos.
Ou então se harmonizavam de modo impressionador no firmarem
a mesma decadência das gentes singulares. Em 1762 o Bispo
do Grão-Pará, aquêle extraordinário Fr.
João de S. José - seráfico voltaireano que
tinha no estilo os lampejos da pena de Antônio Vieira - depois
de resenhar os homens e as coisas, "assentando que a raíz
dos vícios da terra é a preguiça", resumiu
os traços característicos dos habitantes, dêste
modo desalentador: - "lascívia, bebedice e furto."
Passam-se cem anos justos. Procura-se saber se tudo aquilo melhorou;
abrem-se as páginas austeras de Russel Wallace, e vê-se
que alguma vez elas parecem traduzir, ao pé da letra, os
dizeres do arguto beneditino, porque a sociedade indisciplinada
passa diante das vistas surpreendidas do sábio - drinking,
gambling and lying - bebendo, dançando, zombando - na mesma
dolorosíssima inconsciência da vida...
Assim, essa indiferença pecaminosa dos atributos superiores,
êsse sistemático renunciar de escrúpulos e êsse
coração leve para o êrro, são seculares;
e surgem de um doloroso tirocínio histórico, que vem
da"Casa do Paricá" à "barraca"
dos seringueiros. Compulsai os nossos velhos cronistas, com especialidade
o imaginoso Padre João Daniel, e avaliareis o travamento
de motivos físicos e morais que há muito, ali, entibiam
os caracteres. E lêde Tenreiro Aranha, José Veríssimo,
dezenas de outros. Nestes livros se espalham, fracionadas, tôdas
as cenas de um dos maiores dramas da impiedade na História.
Depois há o incoercível da fatalidade física.
Aquela natureza soberana e brutal, em pleno expandir das suas energias,
é uma adversária do homem. No perpétuo banho
de vapor, de que nos fala Bates, compreende-se sem dúvida
a vida vegetativa sem riscos e folgada, mas não a delicada
vibração do espírito na dinâmica das
idéias, nem a tensão superior da vontade nos atos
que se alheiem dos impulsos meramente egoísticos. Não
exagero. Um médico italiano - belíssimo talento -
o Dr. Luigi Buscalione, que por ali andou há pouco tempo,
caracterizou as duas primeiras fases da influência climatérica
- sôbre o forasteiro - a princípio sob a forma de uma
superexcitação das funções psíquicas
e sensuais, acompanhada, depois, de um lento enfraquecer-se de tôdas
as faculdades, a começar pelas mais nobres...
Mas neste apelar para o clássico conceito da influência
climática esqueceu-lhe, como a tantos outros, influxo porventura
secundário, mas apreciável, da própria inconstância
da base física onde se agita a sociedade.
A volubilidade do rio contagia o homem. No Amazonas, em geral, sucede
isto: o observador errante que lhe percorre a bacia em busca de
variados aspectos, sente, ao cabo de centenares de milhas, a impressão
de circular num itinerário fechado, onde se lhe deparam as
mesmas praias ou barreiras ou ilhas, e as mesmas florestas e igapós
estirando-se a perder de vista pelos horizontes vacios; - o observador
imóvel que lhe estacione às margens, sobressalteia-se,
intermitentemente, diante de transfigurações inopinadas.
Os cenários, invariáveis no espaço, transmudam-se
no tempo. Diante do homem errante, a natureza é estável;
e aos olhos do homem sedentário que planeie submetê-la
à estabilidade das culturas, aparece espantosamente revôlta
e volúvel, surpreendendo-o, assaltando-o por vêzes,
quase sempre afugentando-o e espavorindo-o.
A adaptação exercita-se pelo nomadismo.
Daí, em grande parte, a paralisia completa das gentes que
ali vagam, há três séculos, numa agitação
tumultuária e estéril.
* * *
Como quer que seja, para a Amazônia de agora devera restaurar-se
integralmente, na definição da sua psicologia coletiva,
o mesmo doloroso apotegma - ultra equinotialem non peccavi - que
Barlaeus engenhou para os desmandos da época colonial.
Os mesmos amazonenses, espirituosamente, o perceberam. À
entrada de Manaus existe a belíssima Ilha de Marapatá
- e essa ilha tem uma função alarmante. É o
mais original dos lazaretos - um lazareto de almas! Ali, dizem,
o recém-vindo deixa a consciência... Meça-se
o alcance dêste prodígio da fantasia popular. A ilha
que existe fronteira à bôca do Purus, perdeu o antigo
nome geográfico e chama-se "Ilha da Consciência";
e o mesmo acontece a uma outra, semelhante, na foz do Juruá.
É uma preocupação: o homem, ao penetrar as
duas portas que levam ao paraíso diabólico dos seringais,
abdica às melhores qualidades nativas e fulmina-se a si próprio,
a rir, com aquela ironia formidável.
É que, realmente, nas paragens exuberantes das heveas e castilloas,
o aguarda a mais criminosa organização do trabalho
que ainda engenhou o mais desaçamado egoísmo.
De feito, o seringueiro - e não designamos o patrão
opulento, senão o freguês jungido à gleba das
"estradas" -, o seringueiro realiza uma tremenda anomalia:
é o homem que trabalha para escravizar-se.
Demonstra-se esta enormidade precitando-a com alguns cifrões
secamente positivos e seguros.
Vêde esta conta de venda de um homem:
No próprio dia em que parte do Ceará, o seringueiro
principia a dever: deve a passagem de proa até ao Pará
(35$000), e o dinheiro que recebeu para preparar-se (150$000). Depois
vem a importância do transporte, num "gaiola" qualquer
de Belém ao barracão longínquo a que se destina,
e que é, na média, de 150$000. Aditem-se cêrca
de 800$000 para os seguintes utensílios invariáveis:
um boião de furo, uma bacia, mil tigelinhas, uma machadinha
de ferro, um machado, um terçado, um refle (carabina Winchester)
e duzentas balas, dois pratos, duas colheres, duas xícaras,
duas panelas, uma cafeteira, dois carretéis de linha e um
agulheiro. Nada mais. Aí temos o nosso homem no "barracão"
senhoril, antes de seguir para a barraca, no centro, que o patrão
lhe designará. Ainda é um "brabo", isto
é, ainda não aprendeu o "corte da madeira"
e já deve 1:135$000. Segue para o pôsto solitário
encalçado de um comboio levando-lhe a bagagem e víveres,
rigorosamente marcados, que lhe bastem para três meses: 3
paneiros de farinha de água, 1 saco de feijão, outro,
pequeno, de sal, 20 quilos de arroz, 30 de xarque, 21 de café,
30 de açúcar, 6 latas de banha, 8 libras de fumo e
20 gramas de quinino. Tudo isto lhe custa cêrca de 750$000.
Ainda não deu um talho de machadinha, ainda é o "brabo"
canhestro, de quem chasqueia o "manso" experimentado,
e já tem o compromisso sério de 2:090$000.
Admitamos agora uma série de condições favoráveis,
que jamais concorrem: a) que seja solteiro; b) que chegue à
barraca em maio, quando começa o "corte"; c) que
não adoeça e seja conduzido ao barracão, subordinado
a uma despesa de 10$000 diários; d) que nada compre além
daqueles víveres - e que seja sóbrio, tenaz, incorruptível;
um estóico firmemente lançado no caminho da fortuna
arrostando uma penitência dolorosa e longa. Vamos além
- admitamos que, malgrado a sua inexperiência, consiga tirar
logo 350 quilos de borracha fina e 100 de sernambi, por ano, o que
é difícil, ao menos no Purus.
Pois bem, ultimada a safra, êste tenaz, êste estóico,
êste indivíduo raro ali, ainda deve. O patrão
é, conforme o contrato mais geral, quem lhe diz o preço
da fazenda e lhe escritura as contas. Os 350 quilos remunerados
hoje a 5$000 rendem-lhe 1:750$000; os 100 de sernambi, a 2$500,
250$000. Total 2:000$000.
É ainda devedor e raro deixa de o ser. No ano seguinte já
é "manso": conhece os segredos do serviço
e pode tirar de 600 a 700 quilos. Mas considere-se que permaneceu
inativo durante todo o período da enchente, de novembro a
maio _ sete meses em que a simples subsistência lhe acarreta
um excesso superior ao duplo do que trouxe em víveres, ou
seja, em números redondos, 1:500$000 - admitindo-se ainda
que não precise renovar uma só peça de ferramenta
ou de roupa e que não teve a mais passageira enfermidade.
É evidente que, mesmo nêste caso especialíssimo,
raro é o seringueiro capaz de emancipar-se pela fortuna.
Agora vêde o quadro real. Aquêle tipo de lutador é
excepcional. O homem de ordinário leva àqueles lugares
a imprevidência característica da nossa raça;
muitas vêzes carrega a família, que lhe multiplica
os encargos; e quase sempre adoece, mercê da incontinência
generalizada.
Adicionai a isto o desastroso contrato unilateral, que lhe impõe
o patrão. Os "regulamentos" dos seringais são
a êste propósito dolorosamente expressivos. Lendo-os,
vê-se o renascer de um feudalismo acalcanhado e bronco. O
patrão inflexível decreta, num emperramento gramatical
estupendo, coisas assombrosas.
Por exemplo: a pesada multa de 100$000 comina-se a êstes crimes
abomináveis: a) 'fazer na árvore um corte inferior
ao gume do machado"; b) "levantar o tampo da madeira na
ocasião de ser cortada"; c) "sangrar com machacinhas
de cabo maior de quatro palmos". Além disto o trabalhador
só pode comprar no armazém do barracão, "não
podendo comprar a qualquer outro, sob pena de passar pela multa
de 50% sôbre a importância comprada".
Farpeiem-se de aspas êstes dizeres brutos. Ante êles
é quase harmoniosa a gagueira terrível de Caliban.
É natural que ao fim de alguns anos o "freguês"
esteja irremediàvelmente perdido. A sua dívida avulta
ameaçadoramente: três, quatro, cinco, dez contos, às
vêzes, que não pagará nunca. Queda, então,
na mórbida impassibilidade de um felá desprotegido
dobrando tôda a cerviz à servidão completa.
O "regulamento" é impiedoso: "Qualquer "freguês"
ou "aviado" não poderá retirar-se sem que
liqüide tôdas as suas transações comerciais..."
Fugir? Nem cuida em tal. Aterra-o o desmarcado da distância
a percorrer. Buscar outro barracão? Há entre os patrões
acôrdo de não aceitarem, uns os empregados de outros,
antes de saldadas as dívidas, e ainda há pouco tempo
houve no Acre numerosa reunião para sistematizar-se essa
aliança, criando-se pesadas multas aos patrões recalcitrantes.
Agora, dizei-me, que resta, no fim de um qüinqüênio,
do aventuroso sertanejo que demanda aquelas paragens, ferretoado
da ânsia de riquezas?
Não o ligam sequer à terra. Um artigo do famoso "regulamento"
torna-o eterno hóspede dentro da própria casa. Citemo-lo
com todo o brutesco de sua expressão imbecil e feroz: "Tôdas
as benfeitorias que o liqüidado tiver feito nesta propriedade
perderá totalmente o direito uma vez que retire-se."
Daí o quadro doloroso que patenteiam, de ordinário,
as pequenas barracas. O viajante procura-as e mal descobre, entre
as sororocas, a estreitíssima trilha que conduz à
vivenda, meio afogada no mato. É que o morador não
despende o mais ligeiro esfôrço em melhorar o sítio
de onde pode ser expelido em uma hora, sem direito à reclamação
mais breve.
Esta resenha comportaria alguns exemplos bem dolorosos. Fôra
inútil apontá-los. Dela ressalta impressionadoramente
a urgência de medidas que salvem a sociedade obscura e abandonada:
uma lei do trabalho que nobilite o esfôrço do homem;
uma justiça austera que lhe cerceie os desmandos; e uma forma
qualquer do homestead que o consorcie definitivamente à terra.
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