A MÃO E A LUVA
Machado de Assis
CAPÍTULO IV
Latet anguis
O passeio da baronesa durou pouco mais de meia hora. O sol começava
a aquecer, e apesar de ser bastante sombreada a chácara, o calor
aconselhava à boa senhora que se recolhesse. Guiomar deu-lhe o
braço, e ambas, seguindo pelo mesmo caminho, guiaram para casa.
* Parece muito tarde, Guiomar, disse a baronesa ao cabo de alguns segundos.
* E é, madrinha. Demorei-me hoje mais do que costumo, por causa
de um encontro que tive aqui na chácara.
- Um encontro?
- Um homem.
- Algum ladrão? perguntou a madrinha parando.
* Não, senhora, respondeu Guiomar sorrindo, não era ladrão.
A minha mestra de colégio... sabe que morreu?
- Quem disse isso?
- O sobrinho, o tal sujeito que encontrei aqui hoje.
- Você está zombando comigo! Um homem na chácara?
* Não era bem na chácara, mas no jardim do Dr. Luís
Alves. Estava encostado à cerca; trocamos algumas palavras.
A baronesa olhou para ela alguns segundos.
- Mas, menina, isso não é bonito. Que diriam se os vissem?...
Eu não diria nada, porque conheço o que você vale,
e sei a discrição que Deus lhe deu. - Mas as aparências...
Que qualidade de homem é esse sobrinho?
Interrompeu-as uma mulher de quarenta e quatro a quarenta e cinco anos,
alta e magra, cabelo entre louro e branco, olhos azuis, asseadamente vestida,
a Sra. Oswald, - ou mais britanicamente, Mrs. Oswald, - dama de companhia
da baronesa, desde alguns anos. Mrs. Oswald conhecera a baronesa em 1846;
viúva e sem família, aceitou as propostas que esta lhe fez.
Era mulher inteligente e sagaz, dotada de boa índole e serviçal.
Antes da ida de Guiomar para a companhia da madrinha, era Mrs. Oswald
a alma da casa; a presença de Guiomar, que a baronesa amava extremosamente,
alterou um pouco a situação.
- São nove horas! disse de longe a inglesa; pensei que hoje não
queriam voltar para casa. O calor está forte; e a senhora baronesa
sabe que não é conveniente expor-se aos ardores do sol,
sobretudo neste tempo de epidemias.
- Tem razão, Mrs. Oswald; mas Guiomar tardou hoje tanto em ir buscar-me,
que o passeio começou tarde.
- Por que me não mandou chamar?
- Estava talvez a dormir, ou entretida com o seu Walter Scott...
- Milton, emendou gravemente a inglesa; esta manhã foi dedicada
a Milton. Que imenso poeta, D. Guiomar!
- Tamanho como este calor, observou Guiomar sorrindo. Apertemos o passo
e lá dentro a ouviremos com melhor disposição.
Foram as três andando, subiram a escada e entraram na sala de jantar,
que era vasta, com seis janelas para a chácara. Dali seguiram para
uma saleta, onde a baronesa sentou-se na sua poltrona, a esperar a hora
do almoço. Guiomar saiu para ir cuidar da toilette; e a baronesa
que desde alguns minutos estivera cabisbaixa e pensativa, olhou fixamente
para Mrs.Oswald, sem dizer palavra.
Era ela uma senhora de cinqüenta anos, refeita, vestida com esse
alinho e esmero da velhice, que é um resto da elegância da
mocidade. Os cabelos, cor de prata fosca, emolduravam-lhe o rosto sereno,
algum tanto arrugado, não por desgostos, que os não tivera,
mas pelos anos. Os olhos luziam de muita vida, e eram a parte mais juvenil
do rosto.
Tendo casado cedo, coube-lhe a boa fortuna de ser igualmente feliz desde
o dia do noivado até o da viuvez. A viuvez custara-lhe muito; mas
já lá iam alguns anos, e da crua dor que tivera ficara-lhe
agora a consolação da saudade.
- Chegue-se mais perto; preciso falar-lhe a sós, disse ela à
inglesa, que se achava a alguns passos de distância.
Mrs. Oswald foi até a porta espreitar se viria alguém e
voltou a sentar-se ao pé da baronesa. A baronesa estava outra vez
pensativa, com as mãos cruzadas no regaço e os olhos no
chão.
Estiveram as duas, ali silenciosas alguns dois ou três minutos.
A baronesa
despertou enfim das reflexões, e voltou-se para a inglesa:
- Mrs. Oswald, disse ela, parece estar escrito que não serei completamente
feliz. Nenhum sonho me falhou nunca; este, porém, não passará
de sonho, e era o mais belo de minha velhice.
- Mas por que desespera? disse a inglesa. Tenha ânimo, e tudo se
há de arranjar. Pela minha parte, oxalá pudesse contribuir
para a completa felicidade desta família, a quem devo tantos e
tamanhos benefícios.
- Benefícios!
- E que outra coisa são os seus carinhos, a proteção
que me tem dado, a confiança...
- Está bom, está bom, interrompeu afetuosamente a baronesa;
falemos de outra coisa.
- Dela, não é? Diz-me o coração que com alguma
paciência tudo se alcançará. Todos os meios se hão
de tentar; e todos eles são bons se se trata de fazer a felicidade
sua e dela. Bem está o que bem acaba, disse um poeta nosso, homem
de juízo. Por enquanto só vejo um obstáculo: a pouca
disposição...
- Só esse?
- Que outro mais?
- Talvez outro, disse a baronesa abaixando a voz; pode ser que não,
mas tão infeliz sou neste meu desejo, que há de vir a ser
obstáculo, talvez.
- Mas que é?
- Um homem, um moço, não sei quem, sobrinho da mestra que
foi de Guiomar... Ela mesma contou-me tudo há pouco.
- Tudo o quê?
- Não sei se tudo; mas enfim disse-me que, estando a passear na
chácara, vira o tal sobrinho da mestra, junto à cerca do
Dr. Luís Alves, e ficara a conversar com ele. Que será isto,
Mrs. Oswald? Algum amor que continua ou recomeça agora, - agora,
que ela já não é a simples herdeira da pobreza de
seus pais, mas a minha filha, a filha do meu coração.
A comoção da baronesa ao proferir estas palavras era tal,
que Mrs. Oswald pegou-lhe afetuosamente das mãos e procurou confortá-la
com outras palavras de esperança e confiança. Disse-lhe,
além disso, que o simples conversar com esse homem, que aliás
nenhuma delas conhecia, não era razão para supor uma paixão
anterior.
- Enfim, concluiu a inglesa, custa-me crer que ela ame a alguém
neste mundo. Por enquanto estou que não gosta de ninguém,
e a nossa vantagem não é outra senão essa. Sua afilhada
tem uma alma singular; passa facilmente do entusiasmo à frieza,
e da confiança ao retraimento. Há de vir a amar, mas não
creio que tenha grandes paixões, ao menos duradouras. Em todo o
caso, posso responder-lhe atualmente pelo seu coração, como
se tivesse a chave na minha algibeira.
A baronesa abanou a cabeça.
- Quanto a esse homem, continuou Mrs. Oswald, saberemos quem é
ele, e que relações de afeto houve no passado.
- Parece-lhe possível?
- Naturalmente!
A inglesa proferiu esta única palavra com a segurança necessária
para serenar o ânimo da boa senhora, que ficou algum tempo a olhar
pasmada para ela, como quem refletia.
* Há ocasiões, disse enfim a baronesa ao cabo de alguns
segundos de silêncio, há ocasiões em que eu quase
chego a sentir remorsos do amor que tenho a Guiomar. Ela veio preencher
na minha vida o vácuo deixado por aquela pobre Henriqueta, a filha
das minhas entranhas, que a morte levou consigo, para mal de sua mãe.
Se havia de ser infeliz, melhor é que a chore morta, com a esperança
de a ir encontrar no céu. Mas não lhe quis mais, nem talvez
tanto, como a esta criança, que levei à pia, e de quem Deus
me fez mãe...
A baronesa calou-se; ouvira passos no corredor.
Guiomar, embora tivesse ido vestir-se e aprimorar-se, com tão singelos
meios o fizera, que não desdizia daquele matinal desalinho em que
o leitor a viu no capítulo anterior. O penteado era um capricho
seu, expressamente inventado para realçar a um tempo a abundância
dos cabelos e a senhoril beleza da testa. As pontas bordadas de um colarinho
de cambraia dobravam-se faceiramente sobre o azulado do vestido de glacê,
talhado e ornado com uma simplicidade artística. Isto, e pouco
mais, era toda a moldura do painel, - um dos mais belos painéis
que havia por aqueles tempos em toda a Praia de Botafogo.
- Viva a minha rainha de Inglaterra! exclamou Mrs. Oswald quando a viu
assomar à porta da saleta.
E Guiomar sorriu com tanta satisfação e gozo ao ouvir-lhe
esta saudação familiar, que um observador atento hesitaria
em dizer se era aquilo simples vaidade de moça, ou se alguma coisa
mais.
A baronesa pôs os olhos na afilhada, uns olhos amorosos e tristes,
em que a moça reparou, e que a tornaram séria durante alguns
rápidos segundos. Mas sorriu depois; e pegando das mãos
da madrinha deu-lhe dois beijos no rosto, com tanta ternura e tão
sincera, que a boa senhora sorriu de contentamento.
- Não precisa falar, disse Guiomar, já sei que me acha bonita.
É o que me diz todos os dias, com risco de me perder, porque se
eu acabo vaidosa, adeus, minhas encomendas, ninguém mais poderá
comigo.
Guiomar disse isto com tanta graça e singeleza, que a madrinha
não pôde deixar de rir, e a melancolia acabou de todo. A
sineta do almoço chamou-as a outros cuidados, e a nós também,
amigo leitor. Enquanto as três almoçam, relancemos os olhos
ao passado, e vejamos quem era esta Guiomar, tão gentil, tão
buscada e tão singular, como dizia Mrs. Oswald.
CAPÍTULO V
Meninice
Guiomar tivera humilde nascimento; era filha de um empregado subalterno
não sei de que repartição do Estado, homem probo,
que morreu quando ela contava apenas sete anos, legando à viúva
o cuidado de a educar e manter. A viúva era mulher enérgica
e resoluta, enxugou as lágrimas com a manga do modesto vestido,
olhou de frente para a situação e determinou-se à
luta e à vitória.
A madrinha de Guiomar não lhe faltou naquele duro transe, e olhou
por elas, como entendia que era seu dever. A solicitude, porém,
não foi tão constante a princípio como veio a ser
depois; outros cuidados de família lhe chamavam a atenção.
Guiomar anunciava desde pequena as graças que o tempo lhe desabrochou
e perfez. Era uma criaturinha galante e delicada, assaz inteligente e
viva, um pouco travessa, decerto, mas muito menos do que é usual
na infância. Sua mãe, depois que lhe morrera o marido, não
tinha outro cuidado na terra, nem outra ambição mais, que
a de vê-la prendada e feliz. Ela mesma lhe ensinou a ler mal, como
ela sabia, - e a coser e bordar, e o pouco mais que possuía de
seu ofício de mulher. Guiomar não tinha dificuldade nenhuma
em reter o que a mãe lhe ensinava, e com tal afinco lidava por
aprender, que a viúva, - ao menos nessa parte, - sentia-se venturosa.
Hás de ser a minha doutora, dizia-lhe muita vez; e esta simples
expressão de ternura alegrava a menina e lhe servia de incentivo
à aplicação.
A casa em que moravam era naturalmente modesta. Ali correu a infância,
- mas solitária, o que é um pouco mais grave. A mãe,
quando a via embebida nos jogos próprios da idade, infantilmente
alegre, - mas de uma alegria que fazia mal a seus olhos de mãe,
tão fundo lhe doía aquele viver,- a mãe sentia às
vezes pularem-lhe as lágrimas dos olhos fora. A filha não
as via, porque ela sabia escondê-las; mas adivinhava-as através
da tristeza que lhe ficava no rosto. Só não adivinhava o
motivo, mas bastava que fossem mágoas de sua mãe, para lhe
descair também a alegria.
Com o tempo, avultou outra causa de tristeza para a pobre viúva,
ainda mais dolorosa que a primeira. Na idade apenas de dez anos, tinha
Guiomar uns desmaios de espírito, uns dias de concentração
e mudez, uma seriedade, a princípio intermitente e rara, depois
freqüente e prolongada, que desdiziam da meninice e faziam crer à
mãe que eram prenúncios de que Deus a chamava para si. Hoje
sabemos que não eram. Seria acaso efeito daquela vida solitária
e austera, que já lhe ia afeiçoando a alma e como que apurando
as forças para as pugnas da vida?
A primeira vez que esta gravidade da menina se lhe tornou mais patente
foi uma tarde, em que ela estivera a brincar no quintal da casa. O muro
do fundo tinha uma larga fenda, por onde se via parte da chácara
pertencente a uma casa da vizinhança. A fenda era recente; e Guiomar
acostumara-se a ir espairecer ali os olhos, já sérios e
pensativos. Naquela tarde, como estivesse olhando para as mangueiras,
a cobiçar talvez as doces frutas amarelas que lhe pendiam dos ramos,
viu repentinamente aparecer-lhe diante, a cinco ou seis passos do lugar
em que estava, um rancho de moças, todas bonitas, que arrastavam
por entre as árvores os seus vestidos, e faziam luzir aos últimos
raios do sol poente as jóias que as enfeitavam. Elas passaram alegres,
descuidadas, felizes; uma ou outra lhe dispensou talvez algum afago; mas
foram-se, e com elas os olhos da interessante pequena, que ali ficou largo
tempo absorta, alheia de si, vendo ainda na memória o quadro que
passara.
A noite veio, a menina recolheu-se pensativa e melancólica, sem
nada explicar à solícita curiosidade da mãe. Que
explicaria ela, se mal podia compreender a impressão que as coisas
lhe deixavam? Mas, como a mãe entristecesse com aquilo, Guiomar
domou o próprio espírito e fez-se tão jovial como
nos melhores dias.
Esta era ainda outra feição da menina; tinha uma força
de vontade superior aos seus anos. Com ela, e a viveza intelectual que
Deus lhe dera, logrou aprender tudo o que a mãe lhe ensinara, e
melhor ainda do que ela o sabia, desde que o tempo lhe permitiu desenvolver
os primeiros elementos.
Aos treze anos ficou órfã; este fundo golpe em seu coração,
foi o primeiro que ela verdadeiramente pôde sentir, e o maior que
a fortuna lhe desfechou. Já então a madrinha a fizera entrar
para um colégio, onde aperfeiçoava o que sabia e onde lhe
ensinavam muita coisa mais.
Vivia ainda então a filha da baronesa, uma interessante criança
de treze anos, que era toda a alma e encanto de sua mãe. Guiomar
visitava a casa da madrinha; a idade quase igual das duas meninas, a afeição
que as ligava, a beleza e meiguice de Guiomar, a graciosa compostura de
seus modos, tudo apertou entre a madrinha e a afilhada os laços
puramente espirituais que as uniam antes. Guiomar correspondia aos sentimentos
daquela segunda mãe; havia talvez em seu afeto, aliás sincero,
um tal encarecimento que podia parecer simulação. O afeto
era espontâneo; o encarecimento é que seria voluntário.
Tinha a moça dezesseis anos quando passou para o colégio
da tia de Estêvão, onde pareceu à baronesa se lhe
poderia dar mais apurada educação. Guiomar manifestara então
o desejo de ser professora.
- Não há outro recurso, disse ela à baronesa quando
lhe confiou esta aspiração.
- Como assim? perguntou a madrinha.
- Não há, repetiu Guiomar. Não duvido, nem posso
negar o amor que a senhora me tem; mas a cada qual cabe uma obrigação,
que se deve cumprir. A minha é... é ganhar o pão.
Estas últimas palavras passaram-lhe pelos lábios como que
à força. O rubor subiu-lhe às faces; dissera-se que
a alma cobria o rosto de vergonha.
- Guiomar! exclamou a baronesa.
- Peço-lhe uma coisa honrosa para mim, respondeu Guiomar com simplicidade.
A madrinha sorriu e aprovou-a com um beijo, - assentimento de boca, a
que já o coração não respondia, e que o destino
devia mudar.
Pouco tempo depois padeceu a baronesa o golpe quase mortal a que aludiu
no capítulo anterior. A filha morreu de repente, e o inopinado
do desastre quase levou a mãe à sepultura.
A afeição de Guiomar não se desmentiu nessa dolorosa
situação. Ninguém mostrou sentir mais do que ela
a morte de Henriqueta, ninguém consolou tão dedicadamente
a infeliz que lhe sobrevivia. Eram ainda verdes os seus anos; todavia
revelou ela a posse de uma alma igualmente terna e enérgica, afetuosa
e resoluta. Guiomar foi durante alguns dias a verdadeira dona da casa;
a catástrofe abatera a própria Mrs. Oswald.
O coração da pobre mãe ficara tão vazio, e
a vida lhe pareceu tão agra e deserta sem a filha, que ela morreria
talvez de saudade, se não fora a presença de Guiomar. Nenhuma
outra criatura poderia preencher, como esta, o lugar de Henriqueta. Guiomar
era já meia filha da baronesa; as circunstâncias, não
menos que o coração, tinham-nas destinado uma para a outra.
Um dia, em que a afilhada fora visitar a madrinha, esta lhe disse que
a iria em breve buscar para sua casa.
-Você será a filha que eu perdi; ela não me amou mais,
nem eu já agora
teria outra consolação.
- Oh! madrinha! exclamou Guiomar beijando-lhe as mãos.
A baronesa estava assentada; Guiomar ajoelhou-se-lhe aos pés e
pôs-lhe a
cabeça no regaço. A boa mãe curvou-se e beijou-lha
ternamente, com os olhos naquela filha que os sucessos lhe haviam dado,
e o pensamento no céu, onde devia estar a outra, que Deus lhe dera
e levou para si.
Pouco depois estabeleceu-se Guiomar definitivamente em casa da
madrinha, onde a alegria reviveu, gradualmente, graças à
nova moradora, em quem havia um tino e sagacidade raros. Tendo presenciado,
durante algum tempo, e não breve, o modo de viver entre a madrinha
e Henriqueta, Guiomar pôs todo o seu esforço em reproduzir
pelo mesmo teor os hábitos de outro tempo, de maneira que a baronesa
mal pudesse sentir a ausência da filha. Nenhum dos cuidados da outra
lhe esqueceu, e se em algum ponto os alterou foi para aumentar-lhe novos.
Esta intenção não escapou ao espírito da baronesa,
e é supérfluo dizer que deste modo os vínculos do
afeto mais se apertaram entre ambas.
Ao mesmo tempo que ia provando os sentimentos de seu coração,
revelava a moça, não menos, a plena harmonia de seus instintos
com a sociedade em que entrara. A educação, que nos últimos
tempos recebera, fez muito, mas não fez tudo. A natureza incumbira-se
de completar a obra,- melhor diremos, começá-la. Ninguém
adivinharia nas maneiras finamente elegantes daquela moça, a origem
mediana que ela tivera; a borboleta fazia esquecer a crisálida.
CAPÍTULO
VI
O post-scriptum
Aquele conselho de Luís Alves, na fatal noite de dois anos antes,
não há dúvida que era judicioso e devera ter ficado
no espírito de Estêvão. Não convinha reler
a carta, sob pena de lhe achar um post-scriptum. Estêvão
era curioso de epístolas; não pôde ter-se que não
abrisse aquela. O post-scriptum la estava no fim.
Vindo à linguagem natural, Estêvão saiu do jardim
de Luís Alves com o coração meio inclinado a amar
de novo a mulher que tanto o fizera padecer um dia. Daqui concluirá
alguém que ele verdadeiramente não deixara de a amar. Pode
ser; havia talvez debaixo da cinza uma faísca, uma só, e
essa bastava a repetir o incêndio. Mas fosse de um ou de outro modo,
o certo é que Estêvão saiu dali com o princípio
do amor no coração.
Todo aquele dia foi de alvoroço e agitação para ele,
que não se resignou logo, antes buscou reagir contra a entrada
da paixão nova. A tentativa era sincera; as forças é
que eram escassas. Ele desviava de si a imagem da moça; ela, porém,
perseguia-o, tenaz, como se fora um remorso, fatal como a voz de seu destino.
Estêvão nada disse a Luís Alves do encontro e da conversa
que tivera com a moça no jardim; e não lho escondeu por
desconfiança, mas por vergonha. Que lhe diria porém ele
que o não tivesse visto e percebido Luís Alves? Da janela
de seu quarto, que dava para o jardim, enfiando os olhos pela fresta das
cortinas pôde observá-los durante aqueles três quartos
de hora de inocente palestra. O espetáculo não o divertiu
muito; Luís Alves achou um pouco atrevida a escolha do lugar.
A circunstância de os ver juntos chamou-lhe a atenção
para a coincidência do nome da vizinha com o da antiga namorada
do colega; era naturalmente a mesma pessoa.
- Vai contar-me tudo, pensou Luís Alves quando viu o colega afastar-se
da cerca e dirigir os passos para casa.
Estêvão, como disse, foi discreto. Vinha preocupado, muito
outro do que entrara na véspera, a ler-se-lhe no rosto alguma coisa
mais séria do que ele próprio costumava ser.
Tinha Estêvão contra si o passado e o futuro. O presente,
sim, defendia-o; ele sentia que alguma coisa o distanciava de Guiomar.
Mas o passado falava-lhe de todas as doces recordações -
as menos amargas - e a memória quase não sabe de outras
quando relembra o que foi. O futuro acenava-lhe com as suas esperanças
todas, e basta dizer que eram infinitas. Além disso, a Guiomar
que ele via agora, surgia-lhe no meio de outra atmosfera - a mesma que
o seu espírito almejava respirar; e aparecia-lhe para fugir logo.
Sobre tudo isto o obstáculo, aquela porta fechada, que bem podia
ser a da città dolente, mas que em todo o caso ele quisera ver
franqueada às suas ambições.
Os dias correram alternados de confiança e desânimo, tecidos
de ouro e fio negro, um lutar de todas as horas, que acabou como era de
prever e devia acabar. O coração levou Estêvão
atrás de si.
Nenhum meio, dos que tinha à mão, lhe esqueceu para ver
Guiomar. As janelas da casa estavam quase sempre desertas. Duas ou três
vezes aconteceu vê-la de longe; ao aproximar-se-lhe, sumira-se o
vulto na sombra do salão. Não perdia teatro; mas só
duas vezes teve o gosto de a ver: uma no Lírico, onde se cantava
Sonâmbula, outra no Ginásio, onde se representavam os Parisienses,
sem que ele ouvisse uma nota da ópera, nem uma palavra da comédia.
Todo ele, olhos e pensamento, estava no camarote de Guiomar. No Lírico
foi baldada essa contemplação; a moça não
deu por ele. No Ginásio, sim; o teatro era pequeno; contudo, antes
não fora visto, tão tenazmente desviou ela os olhos do lugar
em que ele ficara.
Nem por isso deixou Estêvão de ir esperá-la à
saída, colocar-se francamente no seu caminho, solicitar-lhe audazmente
os olhos e atenção. A família desceu da segunda ordem
pela escada do lado de S. Francisco; a estreiteza do lugar era excelente.
Dava o braço à baronesa um moço de vinte e cinco
anos, figura elegante, ainda que um tanto afetada. Desceram todos três
e ficaram à espera do carro alguns minutos. Na meia sombra que
ali havia destacava-se o rosto marmóreo de Guiomar e a gentileza
de seu talhe. Seus grandes olhos vagavam pela multidão, mas não
fitavam ninguém. Ela possuía, como nenhuma outra, a arte
de gozar, sem as ver, as homenagens da admiração pública.
Irritado com a indiferença da moça, vagou Estêvão
toda aquela noite, a sós com o seu despeito e o seu amor, tecendo
e destecendo mil planos, todos mais absurdos uns que outros. A taça
enchera de todo; era mister entorná-la no seio de um amigo, de
um amigo que houvesse nas suas mãos o único remédio
que ele nessa ocasião pedia; - a chave daquela porta.
Luís Alves era esse homem.
- Outra vez caído! exclamou ele rindo quando Estêvão
lhe contou tudo. Eu já o havia percebido. Isto de mulheres... Queres
então que te leve lá ?
- Quero.
Luís Alves refletiu alguns instantes.
- E uma viagem, não te seria bom fazer uma viagem? Já sei
o que me vais dizer; mas também não te proponho uma viagem
de recreio, à Europa. Olha, arranjo-te, se queres, um lugar de
juiz municipal...
A proposta era sincera; Estêvão cuidou ver-lhe uma ponta
de zombaria e ergueu os ombros com enfado. A proposta, entretanto, merecia
ser examinada; era uma carreira, e vinha de um homem que estava a entrar
na vida política, que esperava daí a algumas semanas o resultado
de uma eleição, com a certeza, ou quase, de haver triunfado.
Era influência que nascia, e de força viria a crescer. Mas
para Estêvão, naquela ocasião, toda a carreira pública,
influência, futuro, leis, tudo estava nos olhos castanhos de Guiomar.
- Eu amo-a, disse ele enfim, isto para mim é tudo. Pode bem ser
que tenhas razão; talvez me espere algum grande desgosto; mas são
reflexões, e eu não reflito agora, eu sinto...
- Em todo o caso, acudiu Luís Alves, desempenho o meu dever de
amigo; digo-te que vocês não nasceram um para outro; que,
se ela te não amou naquele tempo, muito menos te amará hoje,
e que enfim...
Luís Alves estacou.
- Enfim? perguntou Estêvão.
- Enfim pedes-me um sacrifício, concluiu rindo o advogado, porque
também eu já a namorisquei... Não é preciso
carregares o sobrolho; foi namoro de vizinho, tentativa que durou pouco
mais de vinte e quatro horas. Com vergonha o digo, ela não me prestou
uma migalha de atenção sequer, e eu voltei aos meus autos.
- Então... gostas dela? perguntou Estêvão.
- Acho-a bonita e nada mais. Aquilo foi um lançar barro à
parede; se aceitasse, casava-me; não aceitou...
- Já vês que somos diferentes.
- Queres, então?...
- Um serviço de amigo.
- Bem, disse por fim Luís Alves, faça-se a tua vontade.
A baronesa vai cuidar agora de um processo e mandou-me falar. Eu passo-te
a prebenda; entrarás ali, como advogado, o que de alguma maneira
me tira um peso da consciência.
Estêvão, que só pedia um pretexto, aceitou a oferta
com ambas as mãos, e agradeceu-lha com tão expansiva ternura,
que fez sorrir o outro.
A promessa cumpriu-se pontualmente. Luís Alves apresentou Estêvão
à baronesa, na seguinte noite, como seu companheiro e amigo, como
advogado capaz de zelar os interesses da ilustre cliente. A recepção
foi geralmente boa, salvo por parte de Guiomar, que pareceu aborrecida
de o ver naquela casa. Quando Estêvão a saudou, como quem
a conhecia de longo tempo, ela mal pôde retribuir-lhe o cumprimento;
em todo o resto da noite não lhe deu palavra. Daquela parte o acolhimento
não podia ser pior; mas Estêvão sentia-se feliz, desde
que ia vê-la, respirar o mesmo ar, nada mais pedindo por ora, e
deixando o resto à fortuna.
De todas as pessoas da casa da baronesa, a primeira que reparou na indiferença
com que Guiomar tratava Estêvão, foi Mrs. Oswald. A sagaz
inglesa afivelou a máscara mais impassível que trouxera
das ilhas britânicas e não os perdeu de vista. Nem da primeira
nem da segunda vez viu nada mais que os olhos dele, que solicitavam os
dela, e os dela que pareciam surdos. Havia decerto uma paixão,
solitária e desatendida.
- Sabe que descobri um namorado seu? perguntou ela alguns dias depois
a Guiomar.
Guiomar fez um gesto de estranheza.
- Entendamo-nos, observou a inglesa; não digo que a senhora o namore
também; digo que é ele quem anda apaixonado. Não
adivinha?
- Talvez.
- O Dr. Estêvão.
Guiomar fez um gesto de desdém.
- Vejo que tinha adivinhado, disse Mrs. Oswald; também não
era difícil. Quem tem alguma prática destas coisas fareja
uma paixão a cem léguas de distância, por mais que
ela busque recatar-se dos olhos estranhos. Os namorados geralmente supõem
que ninguém os vê; é uma lástima. Olhe, da
senhora posso eu jurar que não está namorada de pessoa nenhuma.
- Que sabe disso? perguntou Guiomar deitando os olhos para o espelho de
seu guarda-vestidos. Pois estou, mas de mim mesma.
Mrs. Oswald desatou a rir, de um riso grave e pausado. Ela sabia que a
moça tinha orgulho de suas graças; era bom caminho afagar-lhe
o sentimento. Disse-lhe muita coisa bonita, que não vem para aqui,
e concluiu pondo-lhe as mãos nos ombros, encarando-a fito a fito,
e enfim rompendo nestas palavras, meias suspiradas:
- A senhora é a flor desta sua terra. Quem a colherá? Alguém
sei eu que a merece...
Guiomar ficou séria, e desviou brandamente as mãos da inglesa,
murmurando:
- Mrs. Oswald, falemos de outra coisa.