A MÃO E A LUVA
Machado de Assis
CAPÍTULO XVI
A confissão
Na mesma noite em que Jorge, cedendo às sugestões de Mrs.
Oswald, tentava o último recurso que no entender da inglesa havia,
achava-se Luís Alves em casa, comodamente sentado numa poltrona
de couro, defronte da janela com os olhos no mar e o pensamento nas suas
duas candidaturas vencidas. Meia-noite estava a pingar; uma pessoa descia
de um tílburi e batia-lhe à porta.
Era Estêvão.
Luís Alves naturalmente admirou-se de o ver ali àquela hora;
mas Estêvão explicou-lhe tudo.
- Venho passar meia hora contigo, ou a noite toda se quiseres. Estava
em casa aborrecido, a pensar... bem sabes em quê...
- Nela? interrompeu Luís Alves.
- Agora e sempre.
Luís Alves torceu o bigode e olhou três ou quatro vezes para
o colega, enquanto este tirava o chapéu e dispunha-se a ir buscar
uma cadeira para sentar-se ao pé do outro.
- Estêvão, disse Luís Alves depois de alguns instantes
de reflexão, e voltando a poltrona para dentro, ouve-me primeiro
e resolverás depois se ficas a noite ou se te vais embora imediatamente.
Talvez escolhas este último alvitre.
- Vais falar-me de Guiomar?
- Justamente.
Estêvão sentou-se defronte de Luís Alves. Seu coração
batia apressado; dissera-se que toda a sua vida pendia dos lábios
do amigo. Houve um instante de silêncio.
- Nenhuma... nenhuma esperança então? murmurou Estêvão.
- Disseste a fatal palavra! exclamou Luís Alves. Sim, não
tens nenhuma esperança.
- Mas... como sabes?
- Não me interrogues; eu não poderia dizer-te tudo o que
há. Poupa-me, ao menos, esse triste dever.
Estêvão sentiu arrasarem-se-lhe os olhos d'água. Quis
falar, mas as palavras iam-lhe saindo envoltas em soluços.
Luís Alves fumava tranqüilamente, acompanhando com os olhos
os rolinhos de fumo que lhe fugiam da ponta do charuto. Este silêncio
durou cerca de dez minutos. O mar batia compassadamente na praia. A voz
da onda e o latido de um cão ao longe eram os únicos sons
que vinham quebrar a mudez daquela hora solene para um desses dois homens
que ia perder até o repouso da esperança.
Estêvão foi o primeiro que falou:
- Ama a outro, não é? perguntou ele com a voz trêmula.
- Ama, respondeu surdamente Luís Alves.
Estêvão ergueu-se e deu alguns passos na sala, sem dizer
palavra, a morder a ponta do bigode, parando às vezes, outras traduzindo
com um gesto desordenado os sentimentos que lhe tumultuavam no coração.
A dor devia ser grande, mas a manifestação já não
era a mesma que o leitor lhe viu, dois anos antes, quando ele foi confiar
ao amigo o primeiro desengano de Guiomar.
- Parece-me que eu adivinhava isto mesmo, disse ele, enfim, parando em
frente de Luís Alves. Este desejo que me acometeu de vir aqui,
a esta hora, sem certeza de encontrar-te, era mais um benefício
do meu destino. Devia esperá-lo. Que vida tem sido a minha, Luís!
Agarrei-me, nem sei por quê, à esperança de ser amado
por ela, de a vencer pela piedade, ou pelo remorso, ou por qualquer outro
motivo que fosse - o motivo importava pouco... O essencial é que
ela me pagasse em ternura e amor todas as dores que curti, as lágrimas
todas que tenho devorado em silêncio... E era só essa esperança
que ainda me dava forças... que me fazia crer feliz, como pode
sê-lo um desgraçado, como podia sê-lo eu, que nasci
debaixo de ruim estrela... Oh! se tu souberas... Não, não
sabes, nem ela também, ninguém sabe nem saberá nunca
tudo quanto tenho padecido, tudo quanto...
Interrompeu-se. Duas lágrimas, espremidas do fundo do coração,
saltaram-lhe dos olhos e desceram-lhe rápidas a perder-se entre
os cabelos raros e finos da barba. Ele sentiu que outras podiam vir, e
foi sentar-se num sofá, meio voltado de costas para Luís
Alves. As outras vieram, porque o coração ainda as tinha
para as dores supremas; mas correram-lhe silenciosas, sem um soluço,
sem uma queixa única.
Luís Alves levantara-se e chegara à janela. Seu espírito,
apesar de frio e quieto, parecia agora um pouco alvoroçado. Não
era dor; e não sei se lhe podia chamar remorso. Mal-estar apenas,
e comiseração. O coração era capaz de afeições;
mas, como ficou dito no primeiro capítulo, ele sabia regê-las,
moderá-las e guiá-las ao seu próprio interesse. Não
era corrupto nem perverso; também não se pode dizer que
fosse dedicado nem cavalheiresco; era, ao cabo de tudo, um homem friamente
ambicioso.
Estêvão levantara-se outra vez e pegara no chapéu.
- Vem cá, disse Luís Alves entrando e indo ter com ele;
vejo que estás mais homem do que antes. Resta que o sejas completamente;
varre da memória e do coração tudo o que possa referir-se...
- Que remédio! interrompeu Estêvão sorrindo amargamente;
que remédio tenho eu senão esquecê-la! Mas quando?
- Mais breve talvez do que supões...
Luís Alves não acabou; Estêvão olhara para
ele com um gesto de espanto e fora sentar-se outra vez.
- Mais breve do que suponho! exclamou ele. Tu não tens coração:
não tens sequer observação nem memória. Não
vês, não sentes que esta paixão é o sangue
do meu sangue, a vida da minha vida? Esquecê-la! Era bom se eu a
pudesse esquecer; mas a minha má sina até essa esperança
me arranca, porque este padecer íntimo, constante, há de
ir comigo até à morte...
Desta vez era Luís Alves que passeava de um lado para outro. Em
seu espírito despontava uma idéia, que ele examinava, a
ver se a poria ali mesmo em execução. Era dizer-lhe tudo.
Estêvão viria a sabê-lo mais tarde; melhor era que
o soubesse logo e por ele. Ao mesmo tempo refletia na exaltação
dos sentimentos do rapaz; a dor certamente se lhe agravaria, em sabendo
que era ele o preferido de Guiomar. O coração, que perdoaria
a um estranho, condenaria ao amigo.
Estêvão, assentado, com os olhos no teto, parecia entregue
às suas reflexões, mas só parecia, porque ele não
pensava, evocava antigas memórias, fazia surgir diante de seus
olhos a figura gentil de Guiomar, sentia-lhe o império dos belos
olhos castanhos, ouvia-lhe a palavra doce e aveludada entornar-se-lhe
no coração, Não evocava só, criava também,
pintava coma imaginação a felicidade que lhe poderia dar
a moça, se entre todos os homens o escolhera, se eles dois vinculassem
os seus destinos. Ele via-a ao pé de si, cingia-lhe o braço
em volta da cintura, enchia-lhe de beijos os cabelos, tudo isto em meio
de uma paisagem única na terra, porque a abundância da natureza
cresceria ao contato daquele sentimento puro, casto e eterno. Não
falo eu, leitor; transcrevo apenas e fielmente as imaginações
do namorado; fixo nesta folha de papel os vôos que ele abria por
esse espaço fora, única ventura que lhe era permitida.
No meio dessas visões foi acordá-lo Luís Alves.
- Tens razão de sentir, disse este; mas não gastes o coração,
que há maiores surpresas na vida... Em todo caso, deixa-me dizer-te
que nenhuma razão tens de censura...
- Censuro eu alguém?
- Há no amor um gérmen de ódio que pode vir a desenvolver-se
depois. Talvez chegues a acusá-la de te não querer; nesse
dia reflete que os movimentos do coração não estão
nas mãos da vontade. Ela não tem culpa se outro lhe despertou
o amor.
- Ah! Incumbiu-te da defesa!
Luís Alves sorriu; ele contava com a recriminação.
- Não, não me incumbiu da defesa, disse ele; sou eu que
a tomo por minhas mãos. Que defendo eu aqui senão a natureza,
a razão, a lógica dos sentimentos, dura e inflexível
como toda a outra lógica? Há no fundo das tuas palavras
um sentimento de egoísmo...
- O amor não é outra coisa, respondeu Estêvão
sorrindo por sua vez. Queres que inda em cima lhe agradeça este
desespero? Queres que vá apertar a mão ao homem que a soube
vencer?
Luís Alves mordeu a ponta do lábio e acercou-se da janela.
Quando ia a voltar para dentro ouviu um rumor na janela ao pé,
a primeira da casa da baronesa. Luís Alves deu um passo mais. Não
viu ninguém; viu apenas o resto de um vestido que fugia e um objeto
que lhe caía aos pés. Inclinou-se a apanhá-lo. Era
uma grande folha de papel envolvendo, para lhe dar mais peso, outra folha
pequena dobrada em quatro. Luís Alves aproximou-se da luz, e leu
rapidamente o que ali vinha escrito. Leu, meteu o papel na algibeira e
encaminhou-se disfarçadamente para a janela. Ninguém; a
casa da baronesa dormia.
Quando voltou para dentro, Estêvão tinha-se levantado. Ele
vira cair o papel, apanhá-lo e lê-lo Luís Alves. Não
entendeu nada do que se passara; mas seu olhar como que pedia uma explicação.
Luís Alves foi direito ao fim.
- Estêvão, disse ele, vais saber a verdade toda; não
poderia ocultar-te o que se há passado, nem conviria talvez que
tu a soubesses por boca de outro. Guiomar podia amar-te, eras digno dela,
e ela digna de ti; mas a natureza não os fez um para o outro. São
duas almas excelentes que seriam infelizes unidas. Quem há aqui
que censurar? Mas se a natureza explica o sentimento dela, igualmente
explica o de um terceiro, que sou eu. Tu confiaste-me as dores e as esperanças
de teu coração; era conhecer toda a minha amizade e a profunda
estima que sempre te consagrei. Mas nem tu nem eu contávamos comigo;
porque também eu tenho coração, e os prestígios
da beleza também falam à minha alma. Não a pude ver
a frio. A paixão obscureceu-me. Nesta minha felicidade de amar
e ser amado, acredita que sou alguma coisa infeliz, porque há lágrimas
tuas, há o teu padecer longo e cruel, que eu imagino e deploro.
A confissão é franca; não te falo em arrependimento,
porque são atos do coração e não da consciência,
que essa é pura e honrada. E depois desta exposição
fiel, cuido que lastimarás comigo o encontro em que o acaso ou
a má sorte nos reuniu a todos três; mas não me acusarás
nem me recusarás a tua velha estima. Falo só da estima;
a amizade, creio que não poderá ser a mesma. Mas prezarás
o meu caráter. Pela minha parte, nem uma nem outra coisa perece;
sei o que vales. Não sei aonde nos lançará a onda
do destino amanhã. Pela última vez, porém, espero
que apertarás a mão do teu amigo.
Luís Alves concluíra estendendo-lhe a mão. Estêvão
olhou para ele, mas não disse uma só palavra, não
fez um gesto único: caminhou para aporta e saiu.
- Estêvão! gritou Luís Alves.
Mas só lhe respondeu o rumor dos pés que desciam, e pouco
depois o do tílburi que rolava surdamente na terra úmida
da praia.
Luís Alves levantou secamente os ombros; chegou-se à luz
e releu o escrito.
CAPÍTULO XVII
A carta
Não era preciso reler o papel para entendê-lo; mas olhos
amantes deliciam-se com letras namoradas. O papel continha uma palavra
única:- Peça-me - escrita no centro da folha, com uma letra
fina, elegante, feminina. Luís Alves olhou algum tempo para o bilhete,
primeiramente como namorado, depois como simples observador. A letra não
era trêmula, mas parecia ter sido lançada ao papel em hora
de comoção.
Desta observação passou Luís Alves a uma reflexão
muito natural. Aquele bilhete, pouco conveniente em quaisquer outras circunstâncias,
estava justificado pela declaração que ele próprio
fizera à moça alguns dias antes, quando lhe pediu que o
conhecesse primeiro, e que no dia em que o julgasse digno de o tomar por
esposo, ele a ouviria e acompanharia. Mas se isto era assim em relação
ao bilhete, não o era em relação à hora. Que
motivo obrigaria a moça a deitar-lhe da janela, à meia-noite,
aquele papel decisivo, eloqüente na mesma sobriedade com que o escrevera?
Luís Alves concluiu que havia alguma razão urgente, e portanto,
que era preciso acudir à situação com os meios da
situação. Quanto à razão em si, não
a pôde descobrir. Ocorreu-lhe o fato, aliás patente, da corte
que o sobrinho da baronesa fazia a Guiomar, mas ignorava as circunstâncias
que lhe eram relativas, e não pôde passar além.
Não direi que Luís Alves gastasse a noite a cavar fundo
no terreno das conjecturas vagas. Não era homem que perdesse tempo
em coisas inúteis; e nada mais inútil naquela ocasião
do que tentar explicar o que nenhuma explicação podia ter
para ele. O que resolveu foi obedecer ao recado da moça; pedi-la
sem hesitação nem preâmbulo. Mas se o caso lhe não
produziu insônia, não deixou de lhe estender a vigília,
além da hora usual, como era de jeito naquela ocasião solene,
sobretudo, tratando-se de criatura que por aqueles tempos era a inveja
e a cobiça de muitos olhos. Luís Alves não era como
Estêvão, um adorável cismador, não se nutria
de imaginações e devaneios, alimento que funde pouco ou
nada, mas cismou algum tempo, embebeu-se uma hora na contemplação
ideal da mulher que ele soubera escolher. O sono chegou, e o devaneio
confundiu-se com o sonho.
Guiomar dormiria tão repousadamente como ele? Dormia; a noite,
porém, fora-lhe muito mais agitada e amarga, como era natural depois
da declaração de Jorge e das insinuações da
madrinha.
A moça recolhera-se ao quarto, logo depois da declaração.
As pessoas da casa nada puderam ler-lhe no rosto, salvo a palidez repentina
e o rubor que se lhe seguiu; mas, logo que ela se achou só, deu
toda a expansão aos sentimentos que até ali pudera conter.
O primeiro deles era o despeito; Guiomar sentia-se humilhada com aquela
declaração, assim feita, de emboscada e sobressalto, para
arrancar-se-lhe um consentimento que o coração e a índole
repeliam. Nenhuma consulta, nenhuma autorização prévia;
parecia-lhe que a tratavam como ente absolutamente passivo, sem vontade
nem eleição própria, destinado a satisfazer caprichos
alheios. As palavras da madrinha desmentiam esta suposição;
mas, a notícia que ela tinha da resolução da baronesa,
neste negócio, diminuía muito o valor de tais palavras.
Se era uma campanha, como dissera Mrs. Oswald, queriam constrangê-la
com aparências de moderação, e o tempo que lhe deixavam
para refletir era-o realmente para considerar, sozinha consigo, na necessidade
de pagar os benefícios que recebera.
Não a acusem de ter feito estas reflexões, logo que entrou
no quarto, com os olhos cintilantes e os lábios frios de cólera.
Eram naturais; primeiramente porque supunha que o seu casamento com Jorge
estava deliberado e se realizaria, quaisquer que fossem as circunstâncias;
depois, porque a alma dela era melindrosa; não esquecia os benefícios
recebidos, mas quisera que lhos não lembrassem por meio de uma
violência: fazê-lo, era o mesmo que lançar-lhos em
rosto
- "Não!" murmurara enfim a moça, forçar-me,
reduzir-me à condição de simples serva, nunca.
Mas esta cólera apaziguou-se, e o coração venceu
o coração. Guiomar recordou a constante ternura da baronesa
para com ela, a solicitude com que lhe satisfazia os seus menores desejos,
que eram ali ordens, e não combinava tamanho amor com a suposta
violência que lhe queria fazer. Não tardou em arrepender-se
das palavras incoerentes que lhe haviam fugido, e dos sentimentos maus
que atribuíra ao coração da baronesa. Cruzou as mãos
no peito e ergueu o pensamento ao céu, corno a pedir-lhe perdão.
Guiomar, em meio das seduções da vida, que tantas eram para
ela e de todo lhe levavam os olhos, não perdera o sentimento religioso,
nem esquecera o que lhe havia ensinado a fé ingênua e pura
de sua mãe.
A cólera acabara, mas veio depois a luta entre a gratidão
e o amor- entre o noivo que lhe propunha a afeição da madrinha
e o que o seu próprio coração escolhera. Ela nem
ousava tirar as esperanças à baronesa, nem imolar as suas
próprias - e uma de duas coisas era preciso que fizesse naquela
solene ocasião. O que sentiu e pensou foi longo e cruel; mas se
tal duelo podia travar-se-lhe na alma, não era duvidoso o resultado.
O resultado devia ser um. A vontade e a ambição, quando
verdadeiramente dominam, podem lutar com outros sentimentos, mas hão
de sempre vencer, porque elas são as armas do forte, e a vitória
é dos fortes. Guiomar tinha de decidir por um dos dois homens que
lhe propunha o seu destino; elegeu o que lhe falava ao coração.
A resposta, porém, não podia a moça demorá-la
nem esquivá-la, não convinha, talvez, prolongar a luta e
a dúvida. Quando isto pensou, veio-lhe ao espírito uma idéia
decisiva, a de confessar tudo à madrinha. Hesitou, porém,
entre fazê-lo ela própria ou por boca de Luís Alves,
cujas palavras, apontadas acima, trazia escritas na memória. Preferia
este meio; mas não lhe bastava preferi-lo, era mister realizá-lo,
e para isso só dois modos tinha, escrever-lhe ou falar-lhe. O segundo
podia não ser tão pronto, e talvez falhasse ocasião
apropriada; adotou o primeiro, e recuou logo. A carta seria mandada por
um fâmulo, mas o espírito de Guiomar era a tal ponto sobre
si que repeliu semelhante intervenção. A janela estava aberta;
dali viu luz na sala de Luís Alves e a sombra do moço, que
passeava de um lado para outro. Ocorreu-lhe então a idéia
que pôs por obra, conforme ficou dito no capítulo anterior.
Tal é a história daquela palavra escrita rapidamente numa
folha de papel. Apesar da declaração de Luís Alves
e das circunstâncias em que a moça se achou, o leitor facilmente
compreenderá que ela não a escreveu sem pelejar consigo
mesma, sem vacilar muito entre a repugnância e a necessidade. Afinal
foram vencidos os escrúpulos, que é tanta vez o seu destino
deles, e força é dizer que não os vencem nunca de
graça, porque eles falam, arrazoam, obstam o mais que podem, mas
é vulgar passarem-lhes por cima. A moça, entretanto, apenas
lançara a carta, arrependeu-se; a dignidade teve remorsos; a consciência
quase a acusava de uma ação vil. Era tarde, a carta chegara
a seu destino.
Na manhã seguinte, a baronesa acordou mais alegre que de costume.
Cuidara ver em Guiomar, na noite anterior, alguma coisa que só
lhe pareceu enleio natural da situação. Guiomar erguera-se
tarde; a manhã estava chuvosa e a madrinha não deu o seu
passeio. A moça foi beijar-lhe a mão e a face, como costumava,
e receber dela o ósculo materno. O rosto parecia cansado mas um
véu de afetada alegria disfarçava-lhe a expressão
natural, à semelhança das posturas de toucador, de maneira
que a baronesa, pouco ledora de fisionomias, não discerniu naquela
a verdade da impostura. Impostura, digo eu, devendo entender-se que é
honesta e reta, porque a intenção da moça não
era mais do que não amargurar a madrinha, e tirar-lhe motivo a
qualquer aflição antecipada.
- Dormiu bem a minha rainha de Inglaterra? perguntou Mrs. Oswald, pondo-lhe
familiarmente as mãos nos ombros.
- A sua rainha de Inglaterra não tem coroa, respondeu Guiomar com
um sorriso contrafeito.
Pela volta do meio-dia, recebeu a baronesa uma carta de Luís Alves.
Abriu-a e leu-a. O advogado pedia-lhe a mão de Guiomar. Poucas
linhas, corteses, símplices, naturais, feitas por quem parecia
senhor da situação.
- Mrs, Oswald, disse a baronesa à sua dama de companhia que se
achava na mesma sala, leia isto.
A inglesa obedeceu.
- Isto não quer dizer nada, observou ela depois de alguns instantes.
É um pretendente mais; devemos crer, porém, que são
muitos, e que se os outros não lhe escrevem cartas destas, é
porque são menos afoitos. A senhora baronesa pensa que os olhos
de sua afilhada são inocentes? continuou a inglesa sorrindo. Eu
cuido que devem estar carregados de crimes, e que há mortos...
- Mas não vê, Mrs. Oswald, interrompeu a baronesa, que esse
homem parece estar autorizado?
Mrs. Oswald calou-se como quem refletia. Logo depois expôs uma série
de argumentos e considerações, se não graves em substância,
pelo menos nas roupas com que ela os vestia, umas roupas seriamente britânicas,
como as não talharia melhor a melhor tesoura da Câmara dos
Comuns, Toda ela dava ares de um argumento vivo e sem réplica.
Havia em seus cabelos, entre louro e branco, toda a rigidez de um silogismo;
cada narina parecia uma ponta de um dilema. A conclusão de tudo
é que nada estava perdido, e que a felicidade de Jorge era coisa
não só possível, mas até provável,
uma vez que a baronesa mostrasse - era o essencial - certa resolução
de ânimo muito útil e até indispensável naquela
ocasião. Mrs. Oswald oferecia-se parair chamar a moça imediatamente.
- Pois vá, vá, disse a baronesa.
A inglesa saiu dali e foi ter com Guiomar. Quando a viu de longe compôs
um sorriso, e Guiomar, vendo-a sorrir, sentiu como que um movimento interno
de repulsa.
- Venho buscá-la, disse Mrs. Oswald, para uma coisa que a senhora
está longe de imaginar.
Guiomar interrogou-a com os olhos.
- Para casar!
- Casar! exclamou Guiomar sem compreender a intenção da
mensageira.
- Nada menos, respondeu esta. Admira-se, não? Também eu;
e sua madrinha igualmente. Mas há quem tenha o mau gosto de apaixonar-se
por seus belos olhos, e a afronta de a vir pedir, como se se pedissem
as estrelas do céu...
Guiomar compreendeu de que se tratava. Olhou desdenhosamente para a inglesa,
e disse em tom seco e breve:
- Mas, conclua, Mrs. Oswald.
- A senhora baronesa manda chamá-la.
Guiomar dispôs-se a ir ter com a madrinha; Mrs. Oswald fê-la
parar um instante, e com a mais melíflua voz que possuía
na escala da garganta, disse:
- Toda a felicidade desta casa está em suas mãos.
CAPÍTULO XVIII
A escola
Mrs. Oswald tinha falado demais. A baronesa não a incumbira de
dizer à afilhada a razão por que a mandava chamar. Aconteceu,
porém, que aquela indiscrição não foi a única.
Mrs. Oswald, em vez de esquivar-se e deixar que entre Guiomar e a baronesa
fosse tratado o assunto que as ia reunir, cedeu à curiosidade,
e acompanhou a moça.
A baronesa estava sentada, entre duas janelas, com a carta aberta nas
mãos, tão atenta em relê-la, que não ouviu
o rumor dos pés de Guiomar e de Mrs. Oswald.
- Madrinha chamou-me? perguntou Guiomar parando em frente dela.
A baronesa ergueu a cabeça.
- Ah! É verdade; sim; chamei-te. Senta-te aqui.
Guiomar arrastou a cadeira que ficava mais próxima e sentou-se
ao pé da baronesa. Esta, entretanto, havia dobrado lentamente a
carta, e tinha os olhos no chão, como a procurar por onde começaria.
Quando os levantou deu com a inglesa. Ia já a falar, mas estacou.
A afeição que lhe tinha não impediu que achasse demasiada
familiaridade a presença de Mrs. Oswald em semelhante ocasião.
Esperou alguns instantes; mas como a inglesa parecesse inteiramente distraída:
- Mrs. Oswald, disse a baronesa, vá ver se já deram de comer
aos passarinhos.
A inglesa percebeu que estes passarinhos, naquele caso, eram uma pura
metáfora, e que a baronesa nada mais fazia do que pedir-lhe delicadamente
que se fosse embora. Todavia, não se deu por achada.
- Parece-me que não, disse ela; vou já saber disso.
- Olhe, disse a baronesa quando ela já ia a meio caminho; encoste-me
essas portas, e dê ordem para que ninguém nos interrompa.
A inglesa obedeceu e saiu. A careta que fez ao sair ninguém lha
pôde ver, e não se perdeu nada.
As duas ficaram sós.
- Senta-te aqui, Guiomar, disse a baronesa indicando um banquinho que
lhe ficava aos pés.
Guiomar deixou a cadeira e foi sentar-se no banquinho, pousando amorosamente
os braços nos joelhos da madrinha. Esta cingiu-lhe a cabeça
com as mãos, e assim esteve longo tempo sem falar, mas eloqüente
naquela mudez, em que a palavra pertencia ao coração. Ambas
estavam comovidas; e Guiomar, de envolta com um suspiro, murmurou este
único e doce nome:
- Mamãe!
Era a primeira vez que ela lhe dava este nome, e tão fundo lhe
calou na alma à baronesa que a resposta foi cobri-la de beijos.
- Sim, tua mãe, disse a madrinha; a que te deu o ser não
te amaria mais do
que eu. Tens a alma e a ternura da filha que o céu me levou, e
se todas as mães que perdem filhos pudessem substituí-los
do mesmo modo, desaparecia do mundo a maior e mais cruel dor que há
nele...
A resposta de Guiomar foi apertar-lhe as mãos e beijar-lhas. Seguiu-se
uma pausa, em que a comoção a pouco e pouco desapareceu,
e a baronesa olhou para a carta de Luís Alves, amarrotada pelo
gesto de Guiomar.
- Guiomar, disse ela enfim, já refletiste no pedido de ontem à
noite?
A moça esperava que a madrinha lhe falasse no pedido de Luís
Alves; a pergunta da baronesa desnorteou-a um pouco. Sua inteligência,
porém, era clara e sagaz; a resposta foi outra pergunta:
- Uma noite será bastante para decidir de todo o resto da vida?
disse ela sorrindo.
- Tens razão, minha filha; mas a pergunta era natural da parte
de quem quer ver realizado um desejo. Jorge pediu-te em casamento. Sabes
que é um excelente caráter?
- Excelente, respondeu a moça.
- Uma boa alma, continuou a baronesa, e um moço distinto. Parece
gostar muito de ti, segundo disse ontem, não? É natural;
só me admira que não te amem muitos mais.
A baronesa parou; Guiomar brincava com as franjas da manga sem se atrever
a levantar os olhos.
- Deves saber, continuou a baronesa, - que eu estimaria ver que este casamento
se efetuasse; estou convencida de que te faria feliz, e a ele também,
pelo menos tanto quanto é possível julgar das coisas presentes...
Que diz o teu coração?
E como Guiomar não respondesse logo:
- Ah! esquecia-me do que me disseste há pouco. Uma noite não
é bastante para decidir de todo o resto da vida. Bem; ouvir-me-ás
mais duas coisas. A primeira é que... Lê tu mesma esta carta.
A baronesa deu a carta a Guiomar, que a abriu e leu o pedido que Luís
Alves fazia de sua mão. Enquanto ela percorria com os olhos as
poucas linhas escritas, a madrinha parecia observá-la fixamente,
como a tentar ler-lhe no rosto a impressão que o pedido lhe fazia,
se espanto, se satisfação. Não houve espanto nem
satisfação aparente; Guiomar leu a carta e entregou-a à
madrinha.
- Leste? É a primeira coisa que eu queria dizer-te. O Dr. Luís
Alves pede-te em casamento; tens de escolher entre ele e Jorge. A segunda
coisa é que dos dois pretendentes Jorge é o que meu coração
prefere; mas não sou eu que me caso, és tu; escolhe com
plena liberdade aquele que te falar ao coração.
Guiomar erigiu o busto e olhou direitamente para a madrinha, com tais
sinais de espanto no rosto, que esta não pôde deixar de lhe
perguntar:
- Que tens?
A moça não respondeu; quero dizer não lhe respondeu
com os lábios; travou-lhe da mão e apertou-a entre as suas,
e ficou a olhar para ela como a refletir. A expressão de seu rosto
passara do espanto à satisfação e desta a uma coisa
que parecia a um tempo indignação e asco.
- Oh! madrinha! exclamou Guiomar, por que se não entenderam logo
os nossos corações? Não havia mister pôr de
permeio um espírito importuno e desconsolador. Se eu adivinhara
essas palavras que acabou de dizer, não teria padecido metade do
que me fazem padecer há longos dias...
- Padecer?
- Padecer; nada menos. Mas deixemos isso. Foi o seu coração
que falou e o meu que ouviu; posso agora dizer-lhe francamente o que sinto,
sem receio de a afligir.
Não precisava dizer mais nada; a escolha que ela ia fazer estava
já indicada pelo menos. Entendeu-o a baronesa, que fechou o rosto
e suspirou. A afilhada ouviu-lhe o suspiro, e percebeu a tristeza súbita;
arrependeu-se de ter ido tão longe.
- Percebo, respondeu a baronesa, queres dizer que dos dois pretendentes
escolhes o Dr. Luís Alves?
A moça conservou-se calada; a madrinha olhava para ela com uma
expressão de ansiedade que a afligiu.
- Fala, repetiu a baronesa.
- Escolho... o Sr. Jorge, suspirou Guiomar depois de alguns instantes.
A baronesa estremeceu.
- Falas sério? Não creio; não e esse o sentimento
do teu coração. Vê-se que não é. Queres
iludir-me e a ti também. Percebo que o não amas; não
o amaste nunca. Mas amas ao outro, não é? Que tem isso?
Não me dá o prazer que eu teria se... Que importa, se fores
feliz? A tua felicidade está acima das minhas preferências.
Era um sonho meu; desejava-o com todas as forças; faria o que pudesse
para alcançá-lo; mas não se violenta o coração
- um coração, sobretudo, como o teu! Escolhes o outro? Pois
casarás com ele.
Vê o leitor que a palavra esperada, a palavra que a moça
sentia vir-lhe do coração aos lábios e querer rompê-los,
não foi ela quem a proferiu, foi a madrinha; e se leu atento o
que precede verá que era isso mesmo o que ela desejava. Mas por
que o nome de Jorge lhe roçou os lábios? A moça não
queria iludir a baronesa, mas traduzir-lhe infielmente a voz de seu coração,
para que a madrinha conferisse, por si mesma, a tradução
com o original. Havia nisto um pouco de meio indireto, de tática,
de afetação, estou quase a dizer de hipocrisia, se não
tomassem à má parte o vocábulo. Havia, mas isto mesmo
lhes dirá que esta Guiomar, sem perder as excelências de
seu coração, era do barro comum de que Deus fez a nossa
pouco sincera humanidade; e lhes dirá também que, apesar
de seus verdes anos, ela compreendia já que as aparências
de um sacrifício valem mais, muita vez, do que o próprio
sacrifício.
A baronesa acabara de falar. A alegria do rosto de Guiomar confirmou a
sua primeira impressão, e se a escolha era contrária ao
que ela desejava, a satisfação da afilhada pagou-lhe tudo
quanto ela ia perder. Era assim aquela alma de mãe; boa, dedicada
e generosa.
- Oh! madrinha! obrigada! exclamou a moça. Não me fica odiando?
- Oh! exclamou a baronesa com um tom de repreensão.
E puxou-a para si, e abraçou-a com amor. Guiomar correspondeu ao
movimento, e as duas confundiram as suas alegrias íntimas e afeições
sinceras.
Mrs. Oswald viu-as daí a pouco, risonhas e entendidas. Era fácil
concluir qual dos dois pretendentes vencera; Guiomar não receberia
de tão boa cara o sobrinho da baronesa. Tudo estava acabado; e
talvez que a sua própria pessoa padecera naquele lance último.
A baronesa pedira a Guiomar que lhe explicasse a que padecimentos aludira,
mas a moça preferiu não dizer nada, não só
por não afligir a madrinha, como por não dar um aspecto
de rivalidade à situação entre ela e Mrs. Oswald.
A escolha estava feita, o consentimento dado. A baronesa respondeu nessa
mesma tarde ao pretendente feliz. Estêvão teria manifestado
ruidosamente toda a alegria que semelhante resposta lhe causara; sua alma
apaixonada e exuberante contaria a Deus e aos homens aquela imensa fortuna.
Luís Alves encerrou o prazer, aliás grande, dentro de si;
pensou na moça e no futuro alguns instantes, mas não falou
deles a ninguém.
A baronesa escreveu nesse mesmo dia ao sobrinho, comunicando-lhe a resposta
de Guiomar. Os leitores não terão dificuldade de admitir
que o coração de Jorge não sentiu o golpe profundamente,
mas sentiu alguma coisa. Não foi nessa noite à casa da tia;
não foi também na segunda; na terceira chegou a descer as
escadas; na quarta embicou para Botafogo.
- Tudo está acabado, disse-lhe a tia verdadeiramente sentida.
- Acabado! suspirou Jorge.
- Agora, é preciso ânimo; espero que serás homem.
- Oh! serei homem! suspirou outra vez Jorge.
E dois suspiros, arrancados do peito de um homem tão grave, deviam
ser por força dois suspiros gravíssimos, como facilmente
acredita o leitor.
Efetivamente a fisionomia do moço não tinha abatimento nem
aflição; não a amarrotava o menor vestígio
de noite maldormida, menos ainda de lágrimas enxutas. Alegre não
era, mas grave e austera, como ele a trazia sempre, a contrastar com o
retesado do bigode.
A baronesa imaginou contudo que a dor do sobrinho devia tê-lo mortificado
muito; apertou-lhe as mãos com ternura e disse-lhe ainda algumas
palavras de animação.
Imagine-se o que seria o primeiro encontro de Jorge com Guiomar. A moça
estava serena, talvez risonha e até compassiva. Se tivesse de casar
com ele odiara-o decerto; agora já lhe perdoava o amor. Jorge pela
sua parte não deixou de ficar um tanto abalado, em parte comoção,
em parte constrangimento, sendo porém o constrangimento maior do
que a comoção. Nos lábios pairou-lhe um desses sorrisos
em que o olhar penetrante do povo ou a sua imaginação pinturesca
descobriu a cor amarela. Se outro fosse o aspecto, é provável
que ela lhe conservasse, ao menos, o respeito. Mas aquele sorriso perdeu-o
de todo no ânimo de Guiomar.
Na primeira ocasião que se lhe ofereceu, expandiu-se Jorge com
Mrs.Oswald.
- Perdeu-se tudo... murmurou ele.
A inglesa não respondeu.
Jorge continuou ainda a falar, e a inglesa a ouvir, mas a ouvir só,
e a querer diverti-lo daquele assunto.
-Tudo se perdeu, disse enfim o sobrinho da baronesa, talvez por culpa
sua.
-Minha? perguntou Mrs. Oswald.
- Sua.
- Mas...
Jorge hesitou um instante.
-Não mostrou calor suficiente, disse ele enfim.
-Que quer? disse Mrs. Oswald. O coração não se pode
dominar, nem há meio de impor-lhe um sentimento. D. Guiomar é
uma santa criatura, ama deveras ao seu rival; há nada mais justo
do que casá-los?
- De maneira que.
-De maneira que tudo era lícito fazer na suposição
de que ela não amava a outro, mas uma vez que ama...
Luís Alves, na noite do dia em que recebeu a carta, foi à
casa da baronesa, que o recebeu com o melhor de seus sorrisos. A felicidade
de Guiomar fazia-a completamente feliz; nem iras, nem ressentimentos,
como anunciara Mrs. Oswald. Todo o castelo de cartas caíra por
terra, desde que a sinceridade da baronesa interveio.
CAPÍTULO XIX
Conclusão
Marcado o casamento para dois meses depois, todo o tempo de intervalo
foi despendido pelos noivos naquele deleitoso viver, que já não
é o colóquio furtivo do simples namoro, nem é ainda
a intimidade conjugal, mas um estado intermédio e consentido, em
que os corações podem entornar-se livremente um no outro.
Aqueles não tinham nada do amor extático e romanesco de
Estêvão, mas amavam sinceramente, ela ainda mais do que ele,
e tão feliz um como outro.
A gente que os conhecia comentou de todos os modos e feitios aquele caso
inesperado, e a mais de um roeu a inveja do favor com que o céu
tratara a Luís Alves. A gentileza e a elegância da moça
não encontravam objeção no espírito de ninguém;
todos as confessavam e aplaudiam, porque até o silêncio mortificado
de algumas belezas rivais, se porventura as havia- era também aplauso
e do melhor. Quanto ao caráter de Guiomar, divergiam muito as apreciações;
e um dia, em que Luís Alves lhe contava uns trechos de conversa
ouvidos a furto, e de que era objeto a noiva, ela pareceu refletir longo
tempo, e enfim respondeu:
- Não admira que haja tanta opinião diferente; é
natural, porque nunca vulgarizei o
meu espírito. Entretanto, a opinião dos outros importa-me
pouco; eu quisera saber a sua.
- A minha é que é um anjo.
Guiomar fez um gesto gracioso de enfado, como quem não esperava
aquele cumprimento velho e comum, aliás eternamente novo - porque
não há outro mais pronto e mais belo nas nossas línguas
cristãs. O noivo sorriu, mas nada lhe disse, e todavia podia dizer-lhe
alguma coisa - aquilo, pelo menos, que o leitor lhe ouviu num dos capítulos
anteriores.
* Se não sabe o que sou, - continuou Guiomar, - eu mesma o direi,
para que se
não case comigo assim de emboscada, e não lhe aconteça
unir-se a um demônio, supondo que é um anjo.
- Um demônio! exclamou Luís Alves rindo.
- Nem mais nem menos, retrucou ela rindo também. Saiba pois que
sou muito senhora da minha vontade, mas pouco amiga de a exprimir; quero
que me adivinhem e obedeçam; sou também um pouco altiva,
às vezes caprichosa, e por cima de tudo isto tenho um coração
exigente. Veja se é possível encontrar tanto defeito junto.
Luís Alves respondeu que eram tudo qualidades excelentes, e esteve
quase a dizer que lhe faltava mencionar ainda outra, que era a fundamental
de todas; preferiu aludir a ela depois do casamento.
O casamento efetuou-se, no dia marcado, com as solenidades do estilo.
A manhã daquele dia trajava um manto de neblina cerrada, que o
nosso inverno lhe pôs aos ombros, como para resguardá-la
do rigor benigno da temperatura, manto que ela sacudiu dali a nada, a
fim de se mostrar qual era, uma deliciosa e fresca manhã fluminense.
Não tardou que o sol batesse de chapa nas águas tranqüilas
e azuis, e nessas colinas onde o verde natural ia alternado com a alvura
das habitações humanas. Vento nenhum; apenas uma aragem,
branda e fresca, que parecia o último respirar da noite já
remota, e que só a trechos agitava as folhas do arvoredo.
A chácara naquele dia era a mesma que nos outros, mas Guiomar achou-lhe
um aspecto novo e melhor, uma como expansão divina que animava
as coisas em redor dela. Toda alma feliz é panteísta; parece-lhe
que Deus lhe sorri de dentro da flor que desabrocha, do fundo da água
que serpeia murmurando, e até de envolta com o cipó humilde
e rústico, ou no seixo bronco e desprezado do chão. Era
assim a alma de Guiomar naquela manhã. Nunca as árvores,
as flores, a grama rasteira lhe pareceram mais vicejantes; o sentimento
interno hauria aquela vida exterior, do mesmo modo que o pulmão
bebia o puro ar matinal.
De envolta com essas sensações comuns a toda a alma, havia
ainda as que eram dela - dela, que via ali o seu último sol de
moça solteira e contemplava por antecipação a aurora
nova, o dia longo e feliz de suas férvidas ambições.
Neste ponto despia a sua fantasia as asas de folha agreste, com que andara
a pairar no meio daquela vegetação, para envergar outras
de seda e brocado, e voar sabe Deus a que sítios de grandeza humana.
O acaso quis que naquela manhã vestisse o mesmo roupão com
que Estêvão a vira do outro lado da cerca, e trouxesse no
colo e nos pulsos o mesmo broche e os mesmos botões de safira.
Não tinha o livro; mas, em falta desta circunstância, havia
outra, que era a mesma daquela célebre manhã, havia uns
olhos que do outro lado da cerca a espreitavam namorados. Não eram,
porém, os mesmos; eram os do noivo, com quem ela foi encontrar
os seus; - e o mais doloroso de tudo é que nem a cerca, nem os
demais acessórios, nada lhe lembrou o outro homem que morria por
ela. A felicidade é isto mesmo; raro lhe sobra memória para
as dores alheias.
Não menos alegre do que ela parecia a baronesa naquele dia. De
longe em longe surgia-lhe na memória a idéia do sobrinho,
mas já não havia tristeza de não ter efetuado o casamento,
como desejara; tão leve foi o golpe em Jorge e tão indiferente
andava ele, que a boa senhora compreendeu que o amor, se existira, não
era grande, e sobretudo não perdurou; a idéia de que isto
mesmo podia acontecer-lhe ao cabo de seis semanas de casado, fê-la
dar graças a Deus do nenhum êxito de seus planos.
Mrs. Oswald igualmente se mostrava feliz - talvez ainda mais, porque era-o
aparatosamente, como se quisesse resgatar as passadas culpas. Guiomar
entendia a intenção latente das manifestações
ruidosas com que ela andava a felicitá-la; mas o dia não
era de rancores nem de ressentimentos, e ela recebia sorrindo as cortesanices
da inglesa.
O casamento fez-se, enfim. As lágrimas que a baronesa derramou,
quando viu Guiomar ligada para sempre, foram as mais belas jóias
que lhe podia dar. Nenhuma mãe as verteu mais sinceras; e, seja
dito em honra de Guiomar, nenhuma filha as recebeu mais dentro do coração.
Na noite do casamento, quem olhasse para o lado do mar, veria pouco distante
dos grupos de curiosos, atraídos pela festa de uma casa grande
e rica, um vulto de homem sentado sobre uma lájea que acaso topara
ali. Quem está afeito a ler romances, e leu esta narrativa desde
o começo, supõe logo que esse homem podia ser Estêvão.
Era ele. Talvez o leitor, em lance idêntico, fosse refugiar-se em
sítio tão remoto, que mal pudesse acompanhá-lo a
lembrança do passado. A alma de Estêvão sentiu uma
necessidade cruel e singular, o gosto de revolver o ferro na ferida, uma
coisa a que chamaremos - voluptuosidade da dor, em falta de melhor denominação.
E foi para ali, contemplar com os indiferentes e ociosos aquela casa onde
reinava o gozo e a vida, e naquela hora que lhe afundava o passado e o
futuro de que vivera. Não o retinha a constância do estóico;
pela face emagrecida e pálida lhe corriam as lágrimas derradeiras,
e o coração, colhendo as forças que lhe restavam,
batia-lhe forte na arca do peito.
Defronte dele refulgia de todas as suas luzes a mansão afortunada;
detrás batia a onda lenta e melancólica, e via-se o fundo
da enseada, escuro e triste. Esta disposição do lugar servia
ao plano que ele concebera, e era nada menos do que matar-se ali mesmo,
quando já não pudesse sofrer a dor, espécie de vingança
última que queria tomar dos que o faziam padecer tanto, complicando-lhes
a felicidade com um remorso.
Mas este plano não podia realizar-se, pela razão de que
era mais um devaneio, que se lhe dissipou como os outros. A frouxidão
do ânimo negou-lhe essa última ambição. Os
olhos podiam fitar a morte, como podiam encarar a fortuna; mas faltavam-lhe
os meios de caminhar a ela. Esteve ali, pois, até o fim; e em vez
de mergulhar na água e no nada, como delineara, regressou tristemente
para casa, trôpego como um ébrio, deixando ali a sua mocidade
toda, porque a que levava era uma coisa descolorida e seca, estéril
e morta. Os anos passaram depois, e à medida que vinham, ia-se
Estêvão afundando no mar vasto e escuro da multidão
anônima. O nome, que não passara da lembrança dos
amigos, aí mesmo morreu, quando a fortuna o distanciou deles. Se
ele ainda vegeta em algum recanto da capital, ou se acabou em alguma vila
do interior, ignora-se.
O destino não devia mentir nem mentiu à ambição
de Luís Alves. Guiomar acertara; era aquele o homem forte. Um mês
depois de casados, como eles estivessem a conversar do que conversam os
recém-casados, que é de si mesmos, e a relembrar a curta
campanha do namoro, Guiomar confessou ao marido que naquela ocasião
lhe conhecera todo o poder da sua vontade.
- Vi que você era homem resoluto, disse a moça a Luís
Alves, que, assentado, a escutava.
- Resoluto e ambicioso, ampliou Luís Alves sorrindo; você
deve ter percebido que
sou uma e outra coisa.
- A ambição não é defeito.
- Pelo contrario, é virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de
fazê-la vingar. Não
me fio só na mocidade e na força moral; fio-me também
em você, que há de ser para mim uma força nova.
- Oh! sim! exclamou Guiomar.
E com um modo gracioso continuou:
- Mas que me dá você em paga? um lugar na câmara? uma
pasta de ministro?
- O lustre do meu nome, respondeu ele.
Guiomar, que estava de pé defronte dele, com as mãos presas
nas suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas
ambições trocaram o ósculo fraternal. Ajustavam-se
ambas, como se aquela luva tivesse sido feita para aquela mão.
MINISTÉRIO DA CULTURA
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