A MÃO E A LUVA
Machado de Assis
CAPÍTULO XI
Luís Alves
Durante uma inteira e comprida semana, deixou Estêvão de
aparecer no escritório onde trabalhava com Luís Alves; não
apareceu também em Botafogo. Ninguém o viu em todo esse
tempo nos lugares onde ele era mais ou menos assíduo. Foram seis
dias, não digo de reclusão absoluta, mas de completa solidão,
porque ainda nas poucas vezes que saiu, fê-lo sempre a horas ou
em direções que a ninguém via, e de ninguém
era visto.
Mas não fora essa crua e malfadada crise, e é quase certo
que ele meteria uma lança na África daqueles dias, que era
um ponto muito sério e grave, a questão magna da Rua do
Ouvidor e da casa do José Tomás, a ponderosa, crespa e complicada
questão de saber se a Stephanoni estrearia no Ernani. Esta questão,
de que o leitor se ri hoje, como se hão de rir os seus sobrinhos
de outras análogas puerilidades, esta pretensão a que se
opunha a Lagrua, alegando que o Ernani era seu, pretensão que fazia
gemer as almas e os prelos daquele tempo, era coisa muito própria
a espertar os brios do nosso Estêvão, tão marechal
nas coisas mínimas, como recruta nas coisas máximas.
Infelizmente ele não aparecia, não sabia sequer do conflito
e do debate, ocupado como estava em travar o áspero e sangrento
duelo do homem contra si mesmo, quando lhe falta o apoio, ou a consolação
dos outros homens. Todo ele era Guiomar; Guiomar era o primeiro e o último
pensamento de cada dia. A sombra da moça vivia ao pé dele
e dentro dele, no livro em que lia, na rua solitária onde acaso
transitava, nos sonhos da noite, nas estrelas do céu, nas poucas
flores de seu inculto jardim.
Um leitor perspicaz, como eu suponho que há de ser o leitor deste
livro, dispensa que eu lhe conte os muitos planos que ele teceu, diversos
e contraditórios, como é de razão em análogas
situações. Apenas direi por alto que ele pensou três
vezes em morrer, duas em fugir à cidade, quatro em ir afogar a
sua dor mortal naquele ainda mais mortal pântano de corrupção
em que apodrece e morre tantas vezes a flor da mocidade. Em tudo isto
era o seu espírito apenas um joguete de sensações
contínuas e variadas. A força, a permanência do afeto
não lhe bastava a dar seguimento e realidade às concepções
vagas de seu cérebro - enfermo, ainda quando estava de saúde.
A idéia do suicídio fincou-se-lhe mais adentro no espírito,
certa tarde em que ele saiu a espairecer, e viu um enterro que passava,
caminho do Caju. O préstito era triste - ainda mais triste pela
indiferença que se lia no rosto dos que iam piedosamente acompanhando
o morto. Estêvão descobriu-se e sinceramente desejou ir ali
dentro, metido naquelas estreitas tábuas de pinho, com todas as
suas dores, paixões e esperanças.
- "Não tenho outro recurso", pensou ele; é necessário
que morra. É uma dor só, e é a liberdade.
Ao voltar para casa, uma criança que brincava na rua, sem camisa,
com os pés na água barrenta da sarjeta, fê-lo parar
alguns instantes, invejoso daquela boa fortuna da infância, que
ri com os pés no charco. Mas a inveja da morte e a inveja da inocência
foram ainda substituídas pela inveja da felicidade, quando ao recolher-se
viu as janelas abertas de uma casa vizinha, e a sala iluminada, e uma
noiva coroada de flores de laranjeira, a sorrir para o noivo, que sorria
igualmente para ela, ambos com o sorriso indefinível e único
da ocasião.
Os cinco dias correram-lhe assim, travados de enojo, de desespero, de
lágrimas, de reflexões amargas, de suspiros inúteis,
até que raiou a aurora do sexto dia, e com ela - ou pouco depois
dela, uma carta de Botafogo. Estêvão quando viu o criado
da baronesa, à porta da sala, com uma carta na mão, sentiu
tamanho alvoroço, que não ouviu nada do que ele lhe disse.
Suporia que a carta era de Guiomar? Talvez; mas a ilusão durou
os poucos instantes que ele gastou em romper a sobrecarta e desdobrar
a folha de papel que vinha dentro.
A carta era da baronesa.
A baronesa perguntava-lhe graciosamente se ele havia morrido, e pedia
que fosse falar-lhe acerca da demanda que ela trazia. Estêvão
chegara já ao estado de só esperar um pretexto para transigir
consigo mesmo; não podia havê-lo melhor. Escreveu rapidamente
duas linhas de resposta, e à uma hora da tarde apeava-se de um
tílburi à porta da funesta e deliciosa casa, onde havia
passado as melhores e as piores horas da vida.
- Sabe por que razão lhe dei este incômodo, além do
prazer que tinha em vê-lo? perguntou a baronesa logo depois dos
primeiros cumprimentos.
- Disse-me que era por causa da demanda...
- Sim, precisamos assentar algumas coisas, antes da nossa partida.
- V. Exa. sai da Corte?
- Vamos para a roça.
Estêvão empalideceu. Na situação dele, aquela
viagem era a melhor coisa que lhe podia acontecer; contudo, fez-lhe mal
a notícia. A conversa que se seguiu foi toda sobre o assunto forense,
e durou uma longa hora, sem que aparecesse Guiomar. Ao despedir-se atreveu-se
Estêvão a perguntar por ela.
- Anda passeando, respondeu a baronesa.
Estêvão despediu-se da constituinte, que o acompanhou até
à portada sala, repetindo-lhe algumas recomendações,
que o advogado mal pôde ouvir e absolutamente lhe não ficaram
de memória.
A esperança de ver a moça levara-o, mais que tudo, àquela
casa; saía sem ter o gosto de a contemplar ainda uma vez; mais
do que isso, ameaçado de a não ver tão cedo, ou quem
sabe se nunca mais. Ia ele a refletir nisto e a aproximar-se da porta,
onde parava ao mesmo tempo um carro. Estêvão estremeceu naturalmente,
antes de ver quem ia apear-se; grudou-se ao portal, com os olhos fitos
na portinhola, que um lacaio abria apressadamente.
A primeira figura que desceu foi a nossa conhecida Mrs. Oswald, que o
fez, sem dar tempo a que Estêvão lhe oferecesse a mão.
O bacharel, desde que a vira, aproximara-se rapidamente da portinhola.
Guiomar desceu logo depois. A mão apertada na luva cor de pérola
pousou levemente na mão de Estêvão que estremeceu
todo. A moça fez-lhe um cumprimento risonho, murmurou um agradecimento
e recolheu-se com a inglesa. Era pouco; mas esse pouco alvoroçou
o bacharel, que enfiou dali para a cidade, em direção ao
escritório.
Luís Alves admirou-se de o ver; não foi com um espanto de
seis dias, como devera ser, mas de quarenta e oito horas, quando muito.
Que admira? A preocupação de Luís Alves por aqueles
dias era a candidatura eleitoral; a boa-nova devia chegar-lhe na primeira
mala do Norte. Ora, em boa razão, um homem que está prestes
a ser inscrito nas tábuas do parlamento, não pode cogitar
muito dos amores de um rapaz, ainda que o rapaz seja amigo e os amores
verdadeiros.
Estêvão não perdeu tempo em circunlóquios;
foi entrando e entornando a alma toda, aflita e consolada a um tempo,
no seio do velho amigo e companheiro. A cada trecho da confissão
plena que ele ali lhe fez, respondia um comento, ora sério, ora
gracioso de Luís Alves. Quando Estêvão porém
lhe deu notícia de que a família da baronesa ia para a roça,
Luís Alves recolheu o meio-riso que lhe pousava nos lábios
desde começo, e com a mais súbita e sincera admiração,
exclamou:
- Para a roça!
- Disse-o agora mesmo a baronesa.
- Mas...
Luís Alves não acabou; olhou ainda meio duvidoso para Estêvão,
e ficou algum tempo calado, a coçar o queixo com a faca de marfim
e a olhar para uma gravura que pendia na parede fronteira.
- Na situação em que estou, continuou Estêvão,
hás de dizer que a viagem é uma felicidade para mim. Pois
não é; não admito a viagem. Se ela sair da Corte,
eu saio também.
- Tu estás doido!
- Talvez.
Luís Alves saiu daquela natural indiferença com que o ouvia,
e lhe falava
sempre em tal assunto. Falou-lhe carinhoso - talvez pela primeira vez
na vida. O que lhe disse foi apenas uma edição aumentada
do que lhe havia dito em anteriores ocasiões - agora com maior
fundamento, porque depois do formal desengano de Guiomar, não havia
outro recurso mais que ir esquecê-la de todo.
- Oh! isso nunca! interrompeu Estêvão. Demais, não
sei, não estou certo se ela falava de coração naquela
tarde...
A candidez com que Estêvão disse isto era a fiel tradução
de seu espírito, e a razão de tais palavras, não
a procure o leitor em outra parte mais que não seja aquele sorriso
de há pouco, ao pé do carro, sorriso que lhe bailava no
cérebro, como raio de sol coado por entre nuvens negras de tempestade.
Luís Alves sacudiu a cabeça e enfiou os olhos pelas folhas
rabiscadas de uns autos que tinha diante, e que entrou a folhear vagarosamente.
Súbito, bateu uma pancadinha, com a mão espalmada sobre
os papéis, e levantou a cabeça:
- Há um meio talvez de saber tudo, disse ele, de saber se ela verdadeiramente
te ama, ou... Posso tentá-lo, com uma condição.
- Qual?
- A condição de eliminares as tuas pretensões. Que
diabo ganhas tu em nutrir uma paixão sem eficácia nem remédio?
Esta promessa era a mais dura que se podia arrancar de um coração,
em que as gerações de esperanças se sucediam quase
sem solução de continuidade; fê-la, todavia, Estêvão,
talvez com a secreta resolução de a trair.
Luís Alves ficou só, daí a alguns minutos. As últimas
palavras que disse ao colega foram duas ou três pilhérias
de rapaz; mas apenas ficou só tornou-se sério, e inclinando
o corpo para a frente, com os braços na secretária, e a
raspar as unhas com um canivete, ali esteve largo tempo, como a refletir,
longe de Estêvão, que aliás já não ia
perto, e ainda mais longe dos autos que tinha diante de si. Mas em que
pensava ele, se não era em Estêvão, nem nos autos,
nem também, por agora, nas suas esperanças eleitorais? Paciência,
leitor; sabê-lo-ás daqui a nada. Contenta-te com a notícia
de que, ao cabo de vinte minutos daquela abstração, Luís
Alves volveu a si, proferindo em alta voz esta simples palavra:
- Não há dúvida; é uma ambiciosa.
E descativado daquela preocupação, enterrou-se de todo na
leitura dos autos.
CAPÍTULO XII
A viagem
Mal recomeçara Luís Alves a leitura dos autos, entrou no
gabinete o criado apresentando-lhe um bilhete de visita.
* Que entre! disse o advogado lendo o nome do sobrinho da baronesa.
E logo se ouviu no corredor o passo medido e lento do mancebo, que daí
a nada assomava à porta do gabinete, fazendo uma cortesia, sisuda,
mas graciosa.
- Venho incomodá-lo, doutor? perguntou Jorge.
- Pelo amor de Deus! exclamou o advogado erguendo-se e indo buscá-lo
à porta. Não me incomodaria em caso nenhum; agora, sobretudo,
que a leitura de uns papéis me fatigou sobremaneira, a maior fortuna
que eu poderia desejar é a presença de um homem de espírito.
Jorge agradeceu este cumprimento um pouco enfático, e retribuiu-o
com outra lisonjaria muito mais extensa e de maior alcance. Quer dizer
que ele vinha pedir alguma coisa. Efetivamente, passados os minutos de
intróito e desfiadas as generalidades, Jorge empertigou-se mais
do que até ali estivera e desfechou esta pergunta abrupta:
- Sabe que venho pedir-lhe uma coisa grave?
Luís Alves inclinou-se.
- Grave e simples ao mesmo tempo, continuou o sobrinho da baronesa; mas
antes disso precisava saber se é tão amigo da nossa família,
como ela o é do senhor.
- Oh! decerto!
- O senhor é o menos assíduo, talvez, das pessoas que lá
vão, apesar de vizinho; só agora o vejo ali mais a miúdo;
entretanto é como flor que se trai pelo aroma; minha tia tem a
seu respeito a melhor opinião do mundo; acha-lhe uma gravidade,
e eu também a sinto, e nem compreendo que um homem possa ser outra
coisa. Os tais espíritos fúteis...
- São insuportáveis, concluiu Luís Alves ansioso
por chegar ao objeto da visita.
O objeto era a viagem da baronesa. Um comendador, amigo do finado barão,
e fazendeiro em Cantagalo, tinha promessa da viúva, havia dois
anos, de ir lá passar algum tempo. A baronesa esquivara-se sempre
a cumprir a palavra dada; agora porém, tal fora a insistência,
que se resolvera a ir. Ora, o que Jorge vinha propor era - expressões
dele - uma conjuração de amigos para dissuadir a tia daquele
projeto. Afiançava ao advogado que, ainda descoberta a conjuração,
teria ele a vida sã e salva.
Luís Alves supôs a princípio que aquilo era um simples
pretexto; mas, tendo observado que a bela Guiomar não era indiferente
ao rapaz, compreendeu que este tinha na conjuração proposta,
um interesse inteiramente pessoal. Enfim, Jorge chegou a confessar que,
se a tia insistisse em sair da Corte, ele não tinha remédio
senão acompanhá-la.
O acordo não foi difícil; ficou assentado que fariam todos
os esforços para dissuadir a baronesa. Jorge quis sair logo; reteve-o
Luís Alves algum tempo mais, com expressões de louvor habilmente
tecidas e mais habilmente encastoadas na conversação; e
também deixando-se ir à feição do espírito
dele, aceitando-lhe as idéias e os preconceitos, e aplaudindo-os
discretamente - sério, quando eles o eram ou pareciam ser - chocarreiro
quando vinham com ar de graça - respondendo enfim a todos os gestos
e meneios do outro, como faz o espelho por ofício e obrigação:
- toda a arte em suma de tratar os homens, de os atrair e de os namorar,
que ele aprendera cedo e que lhe devia aproveitar mais tarde na vida pública.
De noite foi Luís Alves à casa da baronesa, onde poucas
pessoas havia, todas de intimidade. A dona da casa, sentada na poltrona
do costume, tinha ao pé de si uma senhora da mesma idade que ela,
igualmente viúva, e defronte as suíças brancas e
aposentadas de um ex-funcionário público. Num sofá,
viam-se Mrs. Oswald e Jorge a conversarem em voz, ora muito baixa, ora
um pouco mais elevada. Adiante, dois moços contavam a duas senhoras
o enredo da última peça do Ginásio. Mais longe, uma
moça da vizinhança gabava a outra a tesoura de Mme. Bragaldi,
que pedia meças, dizia ela, ao pincel do cenógrafo, seu
marido. Enfim, junto a uma das janelas via-se uma mocinha, viva e bonita,
a dizer mil ninharias graciosas a outra pessoa, que era nada menos que
a nossa conhecida Guiomar. A conversa, assim dividida, tornava-se às
vezes geral, para recair logo no particularismo anterior; os grupos modificavam-se
também de quando em quando, do mesmo modo que o assunto, e assim
se iam matando agradavelmente as horas, que não resistiam, coitadas,
nem apressavam o passo um minuto sequer.
Luís Alves agregara-se ao grupo da baronesa, ao qual não
tardou juntar-se Jorge. O advogado teve a discrição de esperar
que o assunto viesse de si, se viesse, ou de o introduzir na conversa,
quando lhe parecesse de feição. Mas Jorge, que estava impaciente,
arrastou o assunto ao debate. Luís Alves mostrou-se fiel à
palavra dada; declarou amavelmente que se opunha à viagem, como
vizinho e amigo, que reclamaria em último caso o auxílio
de força pública; que era um erro e um crime deixar aquela
casa viúva da benevolência e da graça e do gosto e
de todas as mais qualidades excelentes que ali iam achar os felizes que
a freqüentavam; que, enfim, o mal era tamanho, que não deixaria
de ser pecado, posto não viesse apontado nos catecismos, e como
pecado, seria de força punido, com amargas penas, no outro século,
pelo que, e o mais dos autos, era sua decisão que a baronesa devia
ficar.
Todas estas razões foram ditas como deviam de ser, de um modo galante
e folgazão, a que a baronesa respondia igualmente, e que não
daria nada mais de si, se Luís Alves, mudando de estilo, não
fosse pôr o assunto em diferente terreno.
- Digamos a verdade, senhora baronesa, a viagem há de ser-lhe imensamente
incômoda, se for só isso; suas forças não são
decerto iguais às de seus primeiros anos; sua saúde é
melindrosa e não poderá sofrer tanta fadiga. Confesso que
falo em nome de certo interesse pessoal de amigo e de vizinho; mas a principal
razão não é essa. Se houvesse um motivo urgente,
bem; mas tratando-se apenas de uma promessa feita há tanto tempo,
seria crueldade da minha parte não insistir que ficasse.
A baronesa defendia-se, e Luís Alves não tardou em reconhecer
de si para si que ela não se defendia com o vigor de uma resolução
original e própria. A conversa, entretanto, tornara-se mais geral;
de todos os lados partiam votos de oposição.
Guiomar havia já alguns minutos que não atendia à
interlocutora; tinha o ouvido afiado e assestado sobre o grupo da madrinha.
Ninguém a observava; mas é privilégio do romancista
e do leitor ver no rosto de uma personagem aquilo que as outras não
vêem ou não podem ver. No rosto de Guiomar podemos nós
ler, não só o tédio que lhe causava aquela opinião
unânime contra o projeto da baronesa, mas ainda a expressão
de um gênio imperioso e voluntário.
- Estamos de acordo, creio eu? perguntou Luís Alves olhando alternadamente
para a baronesa e as outras pessoas.
- Não é possível, doutor, respondia a boa senhora.
- Decerto que não é possível, interveio Guiomar do
lugar onde estava. A viagem não oferece risco, nem minha madrinha
está inválida. Demais, é uma promessa feita; não
se pode deixar de cumprir.
Esta opinião, dita em tom seco e firme, ainda que a voz nada perdesse
do seu natural aveludado, equivaleu a um pouco de água fria lançada
na fervura triunfante dos ânimos.
- Guiomar tem razão, disse a baronesa; já agora é
preciso ir; são apenas três ou quatro meses.
Luís Alves olhou longamente para Guiomar, como a procurar ver-lhe
no rosto todas as antecedências da resolução da baronesa.
A oposição afrouxara; Jorge chamou em vão o advogado
em seu auxilio. A resolução da tia, se alguma vez fora abalada,
tornara-se outra vez firme.
Guiomar, entretanto, erguera-se e chegara ao grupo da madrinha. Jorge
fitou-a com uma expressão de vaidade e cobiça. Luís
Alves, que se achava de pé, recuou um pouco para deixá-la
passar. Os olhos com que a contemplou não eram de cobiça
nem de vaidade; a leitora, que ainda lembrará da confissão
por ele mesmo feita a Estêvão, suporá talvez que eram
de amor. Talvez - quem sabe? - amor um pouco sossegado, não louco
e cego como o de Estêvão, não pueril e lascivo, como
o de Jorge, um meio-termo entre um e outro - como podia havê-lo
no coração de um ambicioso.
- O Dr. Luís Alves defende causas más, disse Guiomar sorrindo
para ele; não se trata de uma coisa impossível. Quanto a
mim, Cantagalo só tem um inconveniente; será menos divertido
que a Corte; mas o tempo passa depressa...
- Nesse caso, disse Jorge suspirando, eu também dispenso teatros
e bailes; sacrifico-me à família.
- Queres ir conosco? perguntou a baronesa alegremente.
- Que dúvida!
Guiomar mordeu o lábio inferior, com uma expressão de despeito,
que pôde conter e abafar, sem que ninguém a percebesse, ninguém,
exceto Luís Alves. Um sorriso tranqüilo e perspicaz roçou
os lábios do advogado, enquanto a moça, para esconder a
impressão que lhe ficara, de novo se dirigiu à janela, onde
esteve alguns momentos sozinha, meia voltada para fora e meia guardada
pela sombra que ali fazia a cortina. Um rumor de passos fê-la voltar-se
para dentro. Era Luís Alves.
- Ah! disse ela fingindo-se tranqüila; agradeço-lhe não
haver insistido mais nos seus conselhos.
- A intenção era boa, respondeu Luís Alves em voz
baixa; mas será agora excelente; nem tudo está perdido:
eu me incumbo de salvar o resto.
Guiomar franziu a testa com o mais vivo e natural espanto; tal espanto
que parecia havê-la feito esquecer outro sentimento, igualmente
natural:- o do despeito que lhe ausaria aquela singular familiaridade.
Mas o assombro dominou tudo; Guiomar sentiu que ele lera nela a razão
da insistência e o desgosto do resultado.
A ruga desfez-se a pouco e pouco, mas a moça não retirou
logo os olhos. Havia neles uma interrogação imperiosa, que
a alma não se atrevia a transmitir aos lábios. Se há
nos do leitor alguma interrogação, esperemos o capítulo
seguinte.
CAPÍTULO
XIII
Explicações
Luís Alves compreendera toda a expressão dos olhos de Guiomar;
era, porém, homem frio, resoluto. Inclinou o busto com toda a graça
correta e de bom-tom, e disse-lhe na voz mais branda que lhe permitia
o seu órgão forte e severo:
- Parece-lhe que fui um pouco audaz, não é? Fui apenas sincero;
e ainda que a sua delicadeza me condene, estou certo de que há
em seu coração misericórdia de sobra...
Guiomar tinha readquirido toda a posse de si mesma.
- Está enganado, disse ela, não o condeno, pela simples
razão de que o não entendi.
- Tanto melhor, redargüiu Luís Alves sem pestanejar; o meu
delito nesse caso não passou da esfera da intenção.
- Mas... referia-se à viagem?
- Referia-me; perguntava quando iam.
Esta presença de espírito de Luís Alves ia muito
com o gênio de Guiomar; era um laço de simpatia. A moça
respondeu que o comendador viria buscá-las daí a quinze
ou vinte dias.
- Três meses apenas? perguntou o advogado.
- Três ou quatro.,
- Quatro meses não é a eternidade, mas Cantagalo, para uma
carioca da gema, há de ser um degredo, ou quase... Oxalá
- continuou Luís Alves, concluindo mais depressa do que queria,
ao ver que Jorge se aproximava da janela - oxalá não lhe
faça esse exílio esquecer o que solenemente lhe digo neste
momento: que a senhora tem uma alma grande e nobre, e que eu a admiro!
Jorge chegara; a conversa tinha de acabar ou tomar diferente rumo.
As últimas palavras de Luís Alves eram singularmente dispostas
para deixar sulco profundo na memória da moça. Não
era uma declaração de amor, nem uma cortesania de sala,
coisas todas que ela ouvira muita vez, que podiam lisonjeá-la,
e decerto a lisonjeavam; era mais que um cumprimento e não chegava
a Ser uma declaração. Comoção, não
a havia na voz do advogado; firmeza, sim, e um ar de convicção
profunda. Guiomar olhou para ele quase sem dar pela presença de
Jorge; mas Luís Alves voltara-se para o recém-chegado e
falava-lhe em tom jovial, bem diferente daquele que empregara pouco antes.
Se esse contraste era premeditado - não sei se o era - não
podia vir mais de feição ao espírito de Guiomar.
De quantos homens a moça tratara até ali, era o primeiro
que lhe inspirava curiosidade, e também, naquela ocasião,
a primeira pessoa que se compadecia dela. Veja o leitor: - curiosidade
e gratidão; - veja se há duas asas mais próprias
para arrojar uma alma no seio de outra alma - ou de um abismo, que é
às vezes a mesma coisa.
Eu disse - compadecia - e esta só palavra, desacompanhada de outra
coisa, pode fazer crer ao leitor que, durante aqueles dias em que a perdemos
de vista, tornara-se Guiomar uma criatura desditosa. Nada disso; a situação
era a mesma, não a mesma anteriormente à carta de Jorge,
mas a mesma da noite em que ela a recebeu, situação, decerto,
assaz sombria e carregada para um coração que receia ser
constrangido, mas não desesperada nem angustiosa.
A baronesa, se soubera dos fatos, ou se pudera ler na alma da moça,
seria a primeira a dar-lhe todas as consolações. Mas não
sabia. Seu desejo- ou antes o sonho da velhice, como ela dizia num dos
anteriores capítulos - era deixar felizes a afilhada e o sobrinho,
e entendia que o melhor meio de os deixar felizes era casá-los
um com o outro. A notícia que tinha do coração da
moça, a este respeito, era incompleta ou inexata; pintavam-lhe
como frieza o que era repugnância. Mrs. Oswald dava-lhe sempre esperanças
de êxito feliz e próximo, as cóleras da moça
não lhas contava nunca. Da carta de Jorge não soube, nem
da cena havida na alcova. O casamento continuava a aparecer-lhe com todas
as probabilidades de uma esperança realizável.
Dirá a leitora que o sobrinho não merecia tanto zelo nem
tão pertinaz esperança, e terá razão; mas
os olhos da baronesa não são os da leitora; ela só
lhe via o lado bom, - que era realmente bom - ainda que de uma bondade
relativa; mas não via o lado mau, não via riem podia ver-lhe
a frivolidade grave do espírito, nem o gênero de afeto que
se lhe gerava no coração.
Jorge era o seu único parente de sangue, - filho de uma irmã
que vivera infeliz e mais infelizmente morrera, não repudiada,
mas aborrecida do marido, circunstância que lhe tornava caro aquele
moço. Mais do que a afilhada, não; nem tanto, decerto; o
coração não chegaria para dividir-se igualmente em
tão grandes porções; queria-lhe, porém, muito,
quanto bastava para desejá-lo feliz, e trabalhar por fazê-lo.
Acrescentemos que o destino da irmã sempre lhe estava presente
ao espírito, e que ela receava igual sorte a Guiomar; em Jorge
parecia-lhe ver todos os dotes necessários para torná-la
venturosa.
Infelizmente, Mrs. Oswald, sabedora daqueles secretos desejos e mais ou
menos confidente dos sentimentos de Jorge, achara azada ocasião
esta para patentear toda a gratidão de que estava possuída
e a profunda amizade que a ligava à família da baronesa.
Interpor-se para servir aos outros, e mais ainda a si própria.
Viu a dificuldade, mas não desanimou; era preciso armar ao reconhecimento
da baronesa. Por isso não hesitou em confiar a Guiomar o desejo
da madrinha, exagerando-o, entretanto, porque nunca a baronesa dissera
que "tal casamento era a sua campanha", e Mrs. Oswald atribuiu-lhe
esta frase mortal para todas as esperanças e sonhos da moça.
Mas, se falava demasiado ao pé de uma, era muito mais sóbria
de palavras com a outra, e da exageração ou da atenuação
da verdade resultara aquele perene estado de luta abafada, de receios,
de indecisão e de amarguras secretas. Convém dizer, para
dar o último traço ao perfil, que esta Mrs. Oswald não
seguia só a voz do seu interesse pessoal, mas também o impulso
do próprio gênio, amigo de pôr à prova a natural
sagacidade, de tentar e levar a cabo uma destas operações
delicadas e difíceis, de maneira que, se houvesse uma diplomacia
doméstica - ou se se criassem cargos para ela, Mrs. Oswald podia
contar com um lugar de embaixatriz.
Vindo agora à narração dos sucessos da história,
cumpre que o leitor saiba, que a carta de Jorge não teve resposta
escrita nem verbal. No dia seguinte ao da entrega foi ele jantar a Botafogo;
mas Guiomar não saíra do quarto, a pretexto de uma dor de
cabeça; a baronesa passou o dia com ela; Jorge apenas conseguiu
saber, quando de lá saiu, que a moça ia melhor. Nos subseqüentes
dias nenhuma resposta foi às mãos do pretendente, nem ele
conseguiu haver uns cinco minutos de conversa solitária com a moça;
Guiomar esquivava-se sempre, com aquela arte suma da mulher que aborrece,
e que é nem mais nem menos igual à da mulher que ama.
Um dia, porém, não houve meio de fugir; e Jorge, que não
tinha nenhuma comoção na voz, porque não tinha muita
no coração, olhou para ela com olhos direitos e francamente
lhe pediu uma palavra de esperança ou de desengano. A moça
hesitou alguns segundos; contudo era preciso responder. Venceu a repugnância
dizendo-lhe com um frio sorriso:
- Nem uma nem outra coisa.
- Nem desengano? perguntou Jorge alvoroçado.
- Ninguém pode dar nem uma coisa nem outra, disse ela; costumamos
aceitá-las do nosso destino.
Não era responder, como vê o leitor; Jorge ia pedir uma decisão
mais transparente, mas a moça aproveitara-se da primeira impressão
e esquivara-se. Quando ele recobrou a voz não viu mais que a fímbria
do vestido, que se perdia na volta de uma porta.
Guiomar encurtou as rédeas à familiaridade que existia entre
ela e Jorge; mas, se o tratava com mais reserva, não o fazia com
sequidão nem frieza, nem deixava de ser polida e afável.
A dignidade natural que havia em toda a sua pessoa servia-lhe, além
disso, como de uma torre de marfim, onde ela se acastelava e mantinha
em respeito o pretendente.
Dos dois homens que lhe queriam, nenhum lhe falava à alma; ela
sentia que Estêvão pertencia à falange dos tíbios,
Jorge à tribo dos incapazes, duas classes de homens que não
tinham com ela nenhuma afinidade eletiva. Não igualava, decerto,
os dois pretendentes; um era simplesmente trivial, outro sentimental apenas;
mas nenhum deles capaz de criar por si só o seu destino. Se os
não igualava, também os não via com os mesmos olhos;
Jorge causava-lhe tédio, era um Diógenes de espécie
nova; através da capa rota da sua importância, via-se-lhe
palpitar a triste vulgaridade. Estêvão inspirava-lhe mais
algum respeito; era uma alma ardente e frouxa, nascida para desejar, não
para vencer, uma espécie de condor, capaz de fitar o sol, mas sem
asas para voar até lá. O sentimento de Guiomar em relação
a Estêvão não podia nunca chegar ao amor; tinha muito
de superioridade e perdão.
Com outra índole, aspirações diferentes e vivida
em diversa esfera, amá-lo-ia com certeza, do mesmo modo que ele
a amava. Mas a natureza e a sociedade deram-se as mãos para a desviar
dos gozos puramente íntimos. Pedia amor, mas não o quisera
fruir na vida obscura; a maior das felicidades da Terra seria para ela
o máximo dos infortúnios, se lha pusessem num ermo. Criança,
iam-lhe os olhos com as sedas e as jóias das mulheres que via na
chácara contígua ao pobre quintal de sua mãe; moça,
iam-lhe do mesmo modo com o espetáculo brilhante das grandezas
sociais. Ela queria um homem que, ao pé de um coração
juvenil e capaz de amar, sentisse dentro em si a força bastante
para subi-la aonde a vissem todos os olhos. Voluntariamente, só
uma vez aceitara a obscuridade e a mediania; foi quando se propôs
a seguir o ofício de ensinar; mas é preciso dizer que ela
contava com a ternura da baronesa.
CAPÍTULO XIV
Ex-abrupto
Já o leitor ficou entendendo que a viagem a Cantagalo era obra
quase exclusiva de Guiomar. A baronesa relutara a princípio, como
das outras vezes fizera, e o comendador pouca esperança tinha já
de a ver na fazenda. Mas o voto de Guiomar foi decisivo. Ela fortaleceu,
com as suas, as razões do comendador, alegando não só
a obrigação em que a madrinha estava de desempenhar a palavra
dada, mas ainda a vantagem que lhe podiam trazer aqueles três meses
de vida roceira, longe das agitações da Corte; enfim, invocou
o seu próprio desejo de ver uma fazenda e conhecer os hábitos
do interior.
Não havia tal desejo, nem coisa que se parecesse com isso; mas
Guiomar sabia que na balança das resoluções da madrinha
era de grande peso a satisfação de um gosto seu. O sacrifício
duraria três ou quatro meses; ela afrontaria, porém, dez
ou doze se tantos fossem necessários, para fugir algum tempo às
pretensões de Jorge, sem embargo de lhe repugnar todo o viver que
não fosse a vida fastosa e agitada da Corte. Eu, que sou o Plutarco
desta dama ilustre, não deixarei de notar que, neste lance, havia
nela um pouco de Alcibíades - aquele gamenho e delicioso homem
de Estado, a quem o despeito também deu forças um dia para
suportar a frugalidade espartana.
Infelizmente, Jorge reduziu todos esses cálculos a nada. Ela contava
com o seu demasiado apego aos regalos da Corte, não contava com
as sugestões de Mrs. Oswald, que percebera o plano, e torcera a
primeira resolução de Jorge, que era ficar e esperar. O
sacrifício da parte dele era compensado pela probabilidade da vitória,
a qual não consistia só em haver por esposa uma moça
bela e querida, mas ainda em tornar muito mais sumárias as partilhas
do que a baronesa deixaria por sua morte a ambos. Esta consideração,
que não era a principal, tinha ainda assim seu peso no espírito
de Jorge, e, sejamos justos, devia tê-lo: possuir era o seu único
ofício. Assim era que não só a moça deixava
de obter um bem, mas caía de um mal em outro maior; tê-lo
ao pé de si, onde as distrações seriam menos prontas
e variadas, equivalia a adoecer de fastio e morrer de inanição.
Imagine-se por isso em que estado lhe ficou o espírito depois da
declaração de Jorge. Não havia meio de fugir ao pretendente,
era preciso tragá-lo. Esta perspectiva abateu-lhe totalmente o
ânimo. Uma confidente, em tais situações, é
um presente do céu; mas Guiomar não a tinha, e se alguma
pessoa lhe merecesse tal confiança, é certo ou quase certo
que lhe não diria nada. Suas dores eram altivas, as tristezas de
seu coração tinham pudor. Espíritos desta casta ignoram
a consolação que há, nas horas de crise, em se repartirem
com outro; triste, mas feliz ignorância que lhes poupa muita vez
o contato de uma consciência aleivosa e ruim.
No meio do longo refletir, soaram-lhe na memória as palavras de
Luís Alves; ela ouviu-as de novo, tais quais ele as proferira,
desde a frase descortês até à expressão respeitosa.
Uma era o comentário da outra, e ambas podiam explicar-lhe o caráter
de Luís Alves, se tivesse alguns elementos mais para conhecê-lo;
em todo o caso, era a ponta do véu levantada. Embora se lhe não
pudesse ler no fundo do espírito, via-se desde já qual era
o seu método de ação.
Qualquer outro homem, depois do efeito produzido pela primeira declaração,
não se atreveria ou não lhe importaria tentar mais nada
para desfazer o projeto da viagem. Mas o espírito de Luís
Alves tinha a obstinação do dogue. Era-lhe necessário
que a família da baronesa não saísse da Corte; este
objeto havia de alcançá-lo a todo o transe. Ele espreitava
as ocasiões, aproveitava as circunstâncias, tinha a habilidade
de intercalar o pedido em qualquer retalho de conversação,
onde menos apropriado pareceria a qualquer outro. Jorge aplaudia-o com
as forças todas de que podia dispor o seu interesse. A baronesa
opunha às sugestões do advogado a resistência mole
e atada de quem deseja aquilo mesmo que recusa.
- O doutor é terrível, dizia ela. Em se lhe metendo uma
coisa na cabeça, ninguém mais o tira daí.
- Justamente, é uma idéia fixa. Sem idéia fixa não
se faz nada bom neste mundo.
Guiomar sustentava a resolução da madrinha, posto não
o fizesse amiúdo, nem no mesmo tom seco e imperioso da primeira
noite. Seu impulso era ser coerente; ao mesmo tempo não queria
parecer aos olhos de Luís Alves que lhe aceitava o concurso para
obter o que aliás desejava de todo o coração; seria
lavá-lo da primeira culpa.
O argumento que mais influía no ânimo de todos, o que devera
ter afastado a idéia de semelhante viagem, era o perigo de afrontar
o cólera-morbus que por aquele tempo percorria alguns pontos do
interior. Um dia de manhã soube-se que em Cantagalo havia aparecido
o terrível inimigo. Desta vez Luís Alves triunfou sem dizer
palavra; a baronesa recuou diante daquele fato brutal.
A viagem desfez-se pois, a contento de todos, salvo talvez de Mrs. Oswald,
que receava muito da mocidade casadeira da corte, e dos belos olhos castanhos
de Guiomar. Mrs. Oswald temia ver surgir a cada passo um novo inimigo
emboscado em algum teatro ou baile, ou quando menos na Rua do Ouvidor,
e não via que o inimigo novo podia ser que estivesse literalmente
ao pé da porta. A sagacidade da inglesa desta vez foi um tanto
míope. A razão é que Luís Alves, em todos
aqueles seus preliminares, houve-se com habilidade; longe de procurar
a moça, parecia nada haver alterado nos seus sentimentos, nem desejar
mudar a espécie de relações que até ali mantinha.
Guiomar, entretanto, não podia deixar de comparar aquela espécie
de atenciosa indiferença que havia dele para ela, com as palavras
que anteriormente lhe ouvira, e o resultado da comparação
não lhe parecia muito claro.
Na noite do mesmo dia em que ficou assentado diferir a viagem para melhores
tempos, achavam-se em casa da baronesa algumas pessoas de fora; Guiomar,
sentada ao piano, acabava de tocar, a pedido da madrinha, um trecho de
ópera da moda.
- Muito obrigada, disse ela a Luís Alves que se aproximara para
dirigir-lhe um cumprimento. Está alegre! Parece que é a
satisfação de me haver malogrado o maior desejo que eu tinha
nesta ocasião.
- Não fui eu, disse ele, foi a epidemia.
- Sua aliada, parece.
- Tudo é aliado do homem que sabe querer, respondeu o advogado
dando a esta frase um tanto enfática o maior tom de simplicidade
que lhe podia sair dos lábios.
Guiomar curvou a cabeça e esteve alguns instantes a perpassar os
dedos pelas teclas, enquanto Luís Alves, tirando de cima do piano
outra música, dizia-lhe:
- Podia dar-nos este pedaço de Bellini, se quisesse.
Guiomar pegou maquinalmente na música e abriu-a na estante.
- Era então vontade sua? perguntou ela continuando o assunto interrompido
do diálogo.
- Vontade certamente, porque era necessidade.
- Necessidade - tornou ela começando a tocar, menos por tocar que
por encobrir a voz; mas necessidade por quê?
-Por uma razão muito simples, porque a amo.
A música estacou. Guiomar erguera-se de um salto. Mas nem o gesto
da moça, nem a surpresa das outras pessoas perturbou o advogado;
Luís Alves inclinou-se para o mocho, como a consertá-lo,
e voltando-se para Guiomar, disse-lhe graciosamente:
-Pode sentar-se agora; está seguro.
Guiomar sentou-se outra vez muda, despeitada, a bater-lhe o coração
como nunca lhe batera em nenhuma outra ocasião da vida, nem de
susto, nem de cólera, nem... de amor, ia eu a dizer, sem que ela
o houvesse sentido jamais. Não se demorou muito tempo ali; com
a mão trêmula folheou a música que estava aberta na
estante, deixou-a logo e levantou-se.
Nestes derradeiros movimentos ninguém reparou; e se alguém
pudesse reparar em alguma coisa, a moça tomara a peito desvanecer
todas as suspeitas. A primeira impressão fora profunda, mas Guiomar
tinha força bastante para dominar-se e fechar todo o sentimento
no coração.
O que se passou depois, quando, livre de olhos estranhos, pôde entregar-se
a si mesma, isso ninguém soube, a não serem as paredes mudas
do quarto, ou o raio de lua coado pelo tecido raro das cortinas das janelas,
como a espreitar aquela alma faminta de luz. Soube-o, talvez, o seu espelho,
quando no dia seguinte lhe refletiu o rosto desfeito e os olhos quebrados.
Se foi a meditação noturna que os amoleceu e apagou, não
o perguntou ele, naturalmente porque o sabia; mas talvez advertiu consigo
que se eram assim mais belos, pediam outro rosto em que caíssem
melhor. O de Guiomar queria-os como eles eram, severos, firmes e brilhantes.
A baronesa também não deixou de ver que a afilhada não
acordara com o mesmo ar do costume; achou-a taciturna e distraída.
- Eu, madrinha? perguntou Guiomar simulando um sorriso de admiração.
- Será engano de meus olhos.
- Não é outra coisa; estou como sempre, como ontem, como
amanhã. Passei a noite um pouco mal, é verdade; mas o que
tive desapareceu inteiramente. A prova...
Guiomar parou neste ponto, chegou-se à madrinha e deu-lhe um beijo.
- A prova, continuou ela, é que ainda hoje me acha bonita, não
é?
- Criança! respondeu a baronesa, dando-lhe uma pancadinha na face.
A tranqüilidade da moça era simulada; apenas a madrinha voltou
as costas, cobriu-se-lhe o rosto com o mesmo véu. Ela aprendera
desde criança a disfarçar as suas preocupações.
Quanto a Luís Alves, posto houvesse contado com o seu método
cru e abrupto, saiu dali sem plena certeza do resultado. Esta incerteza
abalou-o mais do que ele supunha; e foi, sem dúvida, a primeira
ocasião em que sentiu que a amava deveras, ainda que o seu amor
fosse como ele mesmo: plácido e senhor de si. No dia seguinte,
Estêvão interrogou-o a respeito de Guiomar.
- Creio, disse ele depois de refletir alguns instantes - creio que por
ora não deves perder as esperanças todas.
CAPÍTULO XV
Embargos de terceiro
Durante três dias deixou Luís Alves de ir à casa da
baronesa, estando aliás a morrer por isso. Entrava porém
no plano esta ausência; era das instruções que ele
mesmo dera ao seu coração; não havia remédio
senão observá-las.
No quarto dia recebeu um bilhete da baronesa que o cumprimentava pela
eleição. A mala do Norte chegara, e com ela a notícia
da vitória eleitoral. Estava Luís Alves deputado; ia enfim
dar a sua demão no fabrico das leis. Estêvão foi o
primeiro que o felicitou; era o antigo companheiro dos bancos da academia;
tanto ou mais do que os outros devia aplaudir aquela boa fortuna. Não
lhe escondeu, entretanto, a inveja que ela lhe metia:
-Deputado! suspirou ele. Oh! eu também podia ser deputado.
Estêvão dizia isto, como a criança deseja o dixe que
vê no colo de outra criança - nada mais. Eram os seus sonhos
de outrora, que renasciam tais quais eram, inconsistentes, vagos, prestes
a dissiparem-se com o primeiro raio da manhã.
Luís Alves apressou-se a ir agradecer à baronesa a felicitação.
Guiomar teve um leve estremecimento quando o viu, mas recebeu-o tranqüila
e risonha, quase indiferente. O advogado era hábil; não
a perseguiu com os olhos; sobre acordar a atenção das demais
pessoas, era seguir o método comum. Ele não queria parecer-se
com os outros.
Guiomar, entretanto, observava-o a espaços, de revés, como
a querer surpreendê-lo; a pouco e pouco, porém, o seu olhar
foi sendo mais direito e firme. O de Luís Alves era natural e igual
como antes era, como era ainda agora com todos.
Ao sair, junto à porta de uma sala, onde acaso a topou, Luís
Alves teve ocasião de lhe dizer esta simples palavra:
- Perdoou-me?
A moça retirou a mão, que ele tinha presa na sua, e furtou
o corpo, ao mesmo tempo que lhe caíam as pálpebras.
- Perdoou-me? repetiu ele.
Guiomar retirou-se sem dizer palavra. Luís Alves esperou que ela
desaparecesse e saiu. A moça, entretanto, ficou irritada por nada
lhe ter respondido, sendo verdade que nada achou nem acharia talvez que
lhe responder; mas arrependeu-se e pensou longo tempo naquilo.
Quer dizer que o amava? Quer dizer que estava prestes a isso. A arraiada
branqueava o céu, tingiria depois o cimo dos montes, entornar-se-ia
enfim pela encosta abaixo, até aparecer o sol - o sol contemporâneo
de Adão, e do último homem que há de vir.
Dali a dias, entrando Luís Alves em casa da baronesa, teve a boa
fortuna de encontrar a moça sozinha, na sala do trabalho, donde
a baronesa se ausentara cinco minutos antes. Mrs. Oswald achava-se fora.
Era a hora da tardinha; o dia estava prestes a afogar-se no seio da noite.
Guiomar, molemente sentada numa cadeira baixa, tinha um livro aberto sobre
os joelhos e os olhos no ar. Luís Alves surpreendeu-a nessa atitude
meditativa, mais bela do que nunca, porque assim, e àquela hora,
e com o vestido meio escuro que lhe realçava a cor de leite da
face, tinha um quê de gracioso e severo, ao mesmo tempo, que parecia
buscado de propósito para recebê-lo.
- Minha madrinha já vem, disse Guiomar logo depois de lhe estender
a mão, que ele apertou e sentiu um pouco trêmula.
- Talvez daqui a cinco minutos, disse ele; é bastante para decidir
o meu destino. Duas vezes lhe perguntei se me perdoara; pela terceira
lhe peço que me responda; custa pouco uma única palavra;
custa menos ainda, um único gesto.
A moça olhou algum tempo para o livro que tinha diante de si. A
manhã, porém, era já alta no coração
de Guiomar, a claridade intensa, o sol quente e vivo, porque ela não
olhou muito tempo para o livro, nem hesitou mais do que era natural e
exigível naquela ocasião. Dois minutos depois fez o gesto,
um gesto só, mas ainda mais eloqüente do que se ela falasse
- estendeu-lhe a mão.
Luís Alves apertou-lha entre as suas.
A comoção era natural em ambos; ali estiveram alguns instantes
calados, ele com os olhos fitos nela, ela com os seus no chão.
As mãos tocavam-se e os corações palpitavam uníssonos.
Decorreram assim cinco breves minutos. Ela foi a primeira que rompeu o
silêncio.
- Um gesto, um só gesto, e é o meu destino que lhe entrego
com ele, disse Guiomar olhando em cheio para o moço.
- Ainda não. Se os nossos destinos se ligarem, estou convencido
de que o meu amor, pelo menos, terá a virtude de a tornar feliz.
Mas nada está feito ainda, e se eu fui breve e apressado na confissão,
não o desejo ser na consagração que lhe peço.
Luís Alves calara-se; a moça olhava para ele como buscando
entendê-lo.
- Sim, continuou ele; melhor é que não ceda a um instante
de entusiasmo. Minha vida é sua; todo o meu destino está
nas suas mãos... Contudo, não quero surpreender-lhe o coração
neste momento; no dia em que me julgar verdadeiramente digno de ser seu
esposo, ouvi-la-ei e segui-la-ei.
A resposta da moça foi apertar-lhe as mãos, sorrir, e embeber
os seus olhos nos dele. O passo da baronesa interrompeu esta contemplação.
Guiomar amava deveras. Mas até que ponto era involuntário
aquele sentimento? Era-o até o ponto de lhe não desbotar
à nossa heroína a castidade do coração, de
lhe não diminuirmos a força de suas faculdades afetivas.
Até aí só; daí por diante entrava a fria eleição
do espírito. Eu não a quero dar como uma alma que a paixão
desatina e cega, nem fazê-la morrer de um amor silencioso e tímido.
Nada disso era, nem faria. Sua natureza exigia e amava essas flores do
coração, mas não havia esperar que as fosse colher
em sítios agrestes e nus, nem nos ramos do arbusto modesto plantado
em frente de janela rústica. Ela queria-as belas e viçosas,
mas em vaso de Sèvres, posto sobre móvel raro, entre duas
janelas urbanas, flanqueado o dito vaso e as ditas flores pelas cortinas
de caxemira, que deviam arrastar as pontas na alcatifa do chão.
Podia dar-lhe Luís Alves este gênero de amor? Podia; ela
sentiu que podia. As duas ambições tinham-se adivinhado,
desde que a intimidade as reuniu.
O proceder de Luís Alves, sóbrio, direto, resoluto, sem
desfalecimentos, nem demasias ociosas, fazia perceber à moça
que ele nascera para vencer, e que a sua ambição tinha verdadeiramente
asas, ao mesmo tempo que as tinha ou parecia tê-las o coração.
Demais, o primeiro passo do homem público estava dado; ele ia entrar
em cheio na estrada que leva os fortes à glória. Em torno
dele ia fazer-se aquela luz, que era a ambição da moça,
a atmosfera que ela almejava respirar. Estêvão dera-lhe a
vida sentimental, - Jorge a vida vegetativa; em Luís Alves via
ela combinadas as afeições domésticas com o ruído
exterior.
Uma vez entendidos, é difícil que dois corações
se encubram, pelo menos aos olhos mais sagazes. Os de Mrs. Oswald eram
dos mais finos. A inglesa percebeu dentro de pouco tempo que entre eles
havia alguma coisa. Interrogar a moça era inútil, sobre
perigoso; seria ir, de coração leve, em busca de ódio,
talvez. Todavia se ainda fosse possível salvar tudo? Guiomar resistiria
dificilmente a um desejo da madrinha; era possível vencê-la
por esse lado.
Mrs. Oswald concebeu então um projeto insensato, que lhe pareceu
aliás excelente e de bom aviso. O desejo de servir a baronesa e
levar uma idéia ao fim tapou-lhe os olhos da razão. Ela
foi diretamente a Jorge.
- Sabe o que me está parecendo? disse ela. Parece-me que há
mouro na costa.
- Mouro na costa! exclamou Jorge com uma tal expressão de desgosto,
que era fácil compreender o fundo de suspeita já existente
em seu espírito.
-Nada menos, disse a inglesa; mas um mouro que se pode capturar.
E a inglesa expôs um plano completo que o sobrinho da baronesa ouviu
um
tanto perplexo. O plano consistia em ir Jorge pedir a moça à
baronesa, em presença dela própria. A baronesa, que nutria
o desejo de os ver casados, não deixaria de fazer pesar o seu voto
na balança, e era muito difícil que a gratidão de
Guiomar não decidisse em favor de Jorge.
- A gratidão... e o interesse, continuou ela. Devemos contar também
com o interesse, que é um grande conselheiro íntimo. Ela
não há de querer sacrificar a afeição da madrinha,
que para ela vale...
- Oh! que triste lembrança! interrompeu Jorge, recuando diante
da idéia de Mrs. Oswald.
A inglesa sorriu - e deixou por mão aquele argumento; firmou-se
porém no da afeição. Guiomar não se oporia
a um desejo da madrinha; era urgente dar-lhe o golpe. Jorge não
se atrevia a surpreender por esse meio a aquiescência da moça;
mas acreditava na eficácia dele, e sobretudo receava perder a causa.
Uma vez que a vencesse, tudo podia confiar do tempo e do seu amor.
O conselho foi seguido pontualmente. De noite, em presença da baronesa
à hora da despedida - porque ele hesitara a maior parte do tempo
- praticou Jorge aquele ato insensato de declarar à moça
que a amava e de lhe pedir a mão. A tia sorriu de contentamento,
mas teve a prudência de não proferir nada enquanto Guiomar,
empalidecendo, nada dizia, porque nada achava que dizer.
O silêncio durou cerca de três ou quatro minutos, um silêncio
acanhado e vexado, em que nenhum deles se atrevia a reatar a conversação.
A baronesa, pela sua parte, imaginava que os dois estavam enfim entendidos,
e que a declaração era autorizada pela moça.
O enleio de Guiomar não era dos que pudessem dar cabimento a esta
suposição; mas a boa senhora via com os olhos dos seus bons
desejos.
- Pela minha parte, declarou enfim a baronesa, não me oponho; estimaria
muito que acabassem por aí. Mas é negócio do coração;
devo esperar a resposta de Guiomar.
E voltando-se para a afilhada:
- Pensa e resolve, minha filha, disse ela; e se fores feliz, sê-lo-ei
ainda mais do que tu.
Duas vezes pairou a negativa nos lábios da moça; mas a língua
não se atrevia a repetir a palavra do coração. No
fim de alguns instantes:
- Refletirei, respondeu ela beijando a mão à madrinha; e
continuou voltando-se para Jorge: - Boa noite! Até amanhã.