Luzia
Homem, de Domingos Olímpio
CAPÍTULO XXVII
Dias depois,
soube Luzia do paradeiro de Teresinha.
Raulino contou-lhe
como a encontrara, sucumbida, em amarga tristeza, a se penitenciar
no serviço doméstico de uma família desconhecida.
- É possível
- exclamou Luzia - que aquela pobre esteja vivendo de aluguel? Por
que nos abandonou sem motivo?
- Eu não
sei dizer - observou Raulino. - O que sei é que ela está
servindo a uns retirantes ricos, aboletados na casa da fortaleza.
Não me disse porquê. Ali há coisa. Se vosmecê
se encontrar com ela, não a conhece.
- Coitadinha!
- Não
é mais aquela mulherzinha espevitada e alegre. Não
fala quase. A modos que lhe botaram mau olhado!
- Quem sabe
se não a intrigaram comigo?
- Não
duvido. Há gente para tudo. Quando eu lhe disse que íamos
trabalhar nas obras da ladeira da Mata-fresca, ela ficou calada,
maginando, e disse-me por aqui assim: "A Luzia é feliz;
vai sair deste inferno... Eu é que estou condenada por toda
a vida." E, como eu lhe inculcasse que devia abandonar aquela
gente, os patrões, para, vir conosco, abanou a cabeça,
desanimada que metia pena... Ah! Sa Luzia! Imagine que a pobre faz
todo o serviço; até trata de um burro velho, pele
e osso, sem préstimo para nada.
- Se seu Raulino
fosse comigo, iria vê-la.
- Ora, ora,
ora!... É já. Que não farei eu para servir
ao meu anjo da guarda? Olhe, benefício no meu coracão
pega de galho. Vamos por detrás do cemitério velho
e num instante, estamos lá. Pelo caminho continuaram a conversar,
Luzia marchava ligeira movendo o corpo com flexões de faceirice,
a cabeça erecta, e o semblante sereno, rebrilhando ao júbilo
de encontrar a amiga. Raulino aligeirava a travessia, contando,
com a avidez contumaz do sucesso, as suas maravilhas, as suas histórias.
- Sabe - disse
ela, abeirando ao assunto que a preocupava naqueles dias - que vamos
morar na ladeira?
- Já
sei. O Alexandre teimou em deixar o serviço da comissão.
Eu, no caso dele, não largava o certo pelo duvidoso. Empregado,
como está, não arranjará melhor arrumação.
Enfim, pode ser que melhore. Na serra, a gente está mais
à fresca, tem água com fartura.
- E vai para
longe desse povaréu de pobres, esfomeados que cortam o coracão...
Não é?
- Lá
isso é verdade. O doutô, engenheiro das obras pesque
é inglês ou alemão. Não sei bem que língua
ele fala. Bota o Alexandre no mesmo emprego que aqui tem, com uma
gratificação de três mil-réis por dia,
afora a ração. Quando é a viagem?
- Por estes
dias. Talvez, depois d'amanhã.
- E eu rente...
- Também
vai?
- Se estou nomeado
feitor!... De mais a mais, já resolvi não largar de
mão a gente que me quer bem. Comigo vai uma troça
de rapazes de primeira ordem; homens que são mouros no trabalho.
- E eu que tenho
pena de deixar aquela casinha, onde curti tantas amarguras!
- É assim
mesmo. A gente tem saudade quando abandona o poleiro antigo; mas,
ao depois, tendo junto os seus, se conforma depressa, e as saudades
voam como folhas secas tangidas por um pé de vento.
- Quero ver
se Teresinha também nos acompanha.
- Ela é
meia bandoleiro.
- Mas, tenho
certeza de que me quer muito bem.
- Não
digo o contrário. Experimente... E... a propósito...
Sabe que o Crapiúna fez, outro dia, na cadeia um rolo danado?
Estava como uma fera. Pensavam até que havia perdido o juizo.
Luzia sentiu
percorrer-lhe o corpo intensa crispação de terror.
- Mas eu - continuou
Raulino - disse logo que aquilo era cachaça.
- Quem sabe!...
Talvez não - arriscou Luzia.
Haviam chegado
ao renque de casas da Leonor, que terminava na casa mal-assombrada.
- E aqui - disse
Raulino, indicando o pardieiro desengonçado. - Abeiremos
às pedras da fortaleza, Teresinha deve estar nos fundos.
Junto dos rochedos
a prumo, havia uma latada de palhas de carnaúba, recentemente
construido para servir de abrigo ao burro, que ali estava de pé,
sonolento, espantando, devagar, com açoites da cauda pelada,
as moscas que erravam sobre as chagas da sarnelha e das espáduas,
quase cicatrizadas numas manchas negras, lubrificadas com azeite
de carrapato. Mais adiante, alguém lavava roupa, com um lânguido
bater cadenciado de pano molhado, algumas peças enxombradas,
arrumadas, em tulha, sobre um lajedo úmido.
- Teresinha!
- chamou Luzia.
Cessou o rumor
de lavagem, e Luzia insistiu.
- Teresinha,
sou eu, Luzia!...
E, avançando
de jacto, deparou-se-lhe a amiga, que se erguera, seminua, com uma
saia a tiracolo, molhada, colada ao corpo.
- Que é
isto? - exclamou Luzia, passando-lhe o braço nos ombros.
- Nada - suspirou
a amiga, baixando os olhos, quase opacos, de infinita tristeza.
- Estou pagando as minhas culpas...
- Ingrata! E
eu que esperei, que passei noites em claro, pensando em você.
- Para que afligir
os outros com a minha desgraça!
- Que desgraça!
Deus teve pena de nós.
E, com um meigo
gesto de ternura, conchegou-lhe a cabeça ao seio.
- Sou amaldiçoada
...
- Amaldiçoada?
Que maluquice! E por isso está servindo de negra cativa?
Como está você mudada, magra! Como ficou outra em tão
poucos dias!...
- Teresa, deixe,
minha filha; não te mates tanto - disse, dentro de casa,
uma voz carinhosa.
- Quem é?
- perguntou Luzia.
- É...
é... - balbuciou Teresinha, com os olhos trêmulos,
rasos de lágrimas - É... minha mãe...
- Tua mãe?!
- Sim, ela mesma.
E contou como
encontrara a família, contou as suas alegrias por se mais
não achar só no mundo, desprezada e vilipendiada,
alegrias que foram efêmeras, desfeitas pela cólera
do pai que lhe recusara a bênção, e a tratava
como estranha à família. Os carinhos da mãe,
o doce contacto da irmãzinha, a suave Maria da Graça,
que era um anjo de bondade, mal lhe leniam a rudez fulminante do
golpe, que lhe lascara o coração, e o expusera, retalhado,
à luz com as suas máculas, como chagas sangrentas,
descascados. Desde aquele momento, horrorizada de si mesma, obrigada
a baixar os olhos diante dos entes queridos, sabedores do seu grande
crime, e evitando o frio olhar paterno, se consagrara inteira à
redenção do passado nefando, pelo castigo cruel e
merecido.
- Tive ímpetos
- concluiu ela, aos soluços - de trepar naquelas pedras e
atirar-me de lá de cabeça para baixo, mas... não
tive coragem de morrer...
- Deixa-te disso
- acudiu Luzia, com ternura - Aqui estou eu para te ajudar, para
te pagar o muito que me fizeste, porque se sou feliz, a ti é
que devo e a Deus.
Vim atrás
de ti. Iremos juntos para a serra, onde vamos trabalhar.
- Não
posso... E meu pai?
- Teu pai, mãe,
irmã irão mais nós. Alexandre encontrará
meio de arrumar todos como uma família. Não é
possível que, depois de vivermos como duas amigas, nos separemos,
talvez para sempre.
- Se conseguisse
isso, seria um alivio para mim. Pelo menos, deixaríamos esta
casa maldita, onde não se pode pregar olhos toda a noite.
Já vivo com o corpo moído; doem-me as cadeiras que,
às vezes, não me atrevo a torcer-me; tenho nos ouvidos
um besouro a zunir sem parar. Quando consigo passar por uma modorra,
me vêm sonhos agoniados; sonho que me caem os dentes, o Cazuza
me arrasta pelos cabelos para me atirar num despenhadeiro, e acordo
em meio da queda. Esta noite senti mãos frias que me encalcavam
o peito, mãos de defunto a me sufocarem, e ouvi uma voz fanhosa
a dizer coisas sem pé nem cabeça. Despertei com o
coração a saltar pela goela. Vi, então, um
vulto branco que se desmanchava no ar, e com um gemido surdo e...
gritei... Mamãe, que passa a noite a rezar, correu a ver
o que era... Eu estava, como quem perdeu o juízo, apontando
para o fundo escuro do quarto... Ah! Luzia! Nem pode imaginar o
que tenho sofrido...
- Coitadinha!..
- Hoje de manhã,
quando mamãe contou o caso a meu pai, ele respondeu... Que
foi que ele disse? Deixa ver se me lembro... Ah!... Não se
amofine, mulher; é o remorso. Depois, acrescentou com voz
mais branda: Veja se arranja uma retirante limpa para certos serviços,
para que ela não se mate tanto... Dando casa e comida, não
falta quem queira trabalhar.
O burro, num
acesso de impaciência, orneou.
- Está
pedindo milho - observou Teresinha - Este malvado é os meus
pecados. Estava quase morto; não se dava nada por ele. Recobrou
as forças, comendo da minha mão; e, quanto mais o
trato, mais manhoso fica. Parece de propósito para judiar
comigo. Se o ponho a andar, empaca; fica como uma pedra; não
se mexe. Outro dia ao passar por ele, mordeu-me de furto... E é
só comigo que ele implica.
- Tem paciência,
minha negra. O que estás padecendo é bem recompensado
pela fortuna de haveres encontrado tua família.
Raulino, que
estivera à parte, examinando o animal enfermo, com olhares
magistrais de conhecedor, aproveitou o ensejo para encartar uma
das suas anedotas sobre astúcias e manhas de burros.
- Era por volta
da era de sessenta. Não me lembra bem o ano; só sei
que eu era rapazote; pelo tope dos doze. Andava por estes sertões
uma comissão de doutores, observando o céu com óculos
de alcance, muito complicados, tomando medida das cidades e povoações
e apanhando amostras de pedras, de barro, ervas e matos, que servem
para meizinhas, borboletas, besouros e outros bichos.
Os maiorais
dessa comissão eram homens de saber, Capanema, Gonçalves
Dias, Gabaglia, um tal de Freire Alemão, e um doutô
médico chamado Lagos e outros. Andavam encoirados como nós
vaqueiros; davam muita esmola e tiravam, de graça, o retrato
da gente, com uma geringonça, que parecia arte do demônio.
Apontavam para a gente o óculo de uma caixinha parecida gaita
de foles e a cara da gente, o corpo e a vestimenta saíam
pintados, escarrados e cuspidos, num vidro esbranquiçado
como coalhada. Uma tarde, chegaram, ao pôr-do-sol, à
fazenda do velho. Iam no rumo da gruta do Ubajarra. Aboletaram-se
no copiar, derrubando o comboio, que era um estandarte de malas,
instrumentos, espingardas, na casa dos passageiros. Depois de jantarem
um bom trassalho de carne de vaca gorda que parecia um leitão,
assada no espeto, algumas lingüiças e um chibarro aferventado
com pirão escaldado, armaram as redes nos esteios. Veio a
noite, clara como dia, sem uma nuvem no céu, liso como um
espelho. Convidava mesmo a gente a dormir na fresca do alpendre.
Ali pelas sete horas, disse a eles o velho: "Achava melhor
vossas senhorias passarem cá para dentro, porque vem aí
um pé d'água de alagar." Ora, os doutores, que
sabiam tudo e adivinhavam pelas estrelas as mudanças de tempo,
zombaram do aviso; saíram para o terreiro e olharam para
o céu, sempre limpo e claro, para verem o que diziam as estrelas.
O mais sábio deles, o doutô Capanema, disse que o velho
estava sonhando com chuva, mania de sertanejos, que não pensam
noutra coisa. Teimaram em ficar no alpendre, embora o velho continuasse
a assegurar que se arrependeriam. Quando estavam ferrados no sono,
ali pelas onze horas, acordaram debaixo d'água e correram
com a rede nas costas, em procura de abrigo dentro de casa, todos
admirados uns dos outros, como haviam mangado do velho. De manhã,
antes de deixarem o rancho, foram agradecer a hospedagem, e um deles
perguntou ao velho: "Como é que vossa senhoria percebeu
sinais de chuva, que escaparam a nós outros científicos,
envergonhados do quinau de mestre que nos deu?" O velho sorriu,
e respondeu: "É muito simples. Tenho ali, no cercado,
um burro velho que, quando se está formando chuva, rincha
de certo modo: é aquela certeza. A chuva vem sem demora.
Foi por isso que avisei a vossa senhoria." O tal de Goncalves
Dias, pequenino, muito ladino e esperto, começou a bulir
com os outros, dizendo a eles: "Estamos numa terra, onde burros
sabem mais que astrônomos." Foi gargalhada geral. Aí
está - concluiu Raulino - de quanto é capaz um burro
velho. Ninguém se fie em semelhante raça de bicho...
Dispunha-se
a contar outras histórias, quando apareceram Clara e Maria
da Graça, que já conheciam Luzia, por informações
de Teresinha.
- A Teresa -
disse Clara com voz lenta e meíga - quer muito bem à
senhora e eu já lhe quero também muito pelas ausências
que ela lhe fez.
- Esta é
a Luzia-Homem? - perguntou a ingênua Maria da Graça
- Pois é bonita moça. Não tem nada de homens...
Não é, mamãe?...
- É apelido
que lhe puseram, filhinha. Não digas mais semelhante palavra.
- Não
faz mal - observou Luzia, visivelmente enleada - É assim
que me tratam.
- Perdoe - balbuciou
a rapariga - Pensei que era mesmo o seu nome...
E, logo, houve
palestra cordial, como se fossem conhecidas de longa data. O projeto
da mudança para a Meruoca foi acolhido com entusiástica
alegria; mas faltava o essencial: o consentimento de Marcos. Não
ousando a mulher e a filha consultá-lo, Raulino e Luzia resolveram
procurá-lo para saberem a sua opinião.
Marcos estava
na sala da frente, sentado na rede branca, enfeitada a ponto de
marca, com vistosas ramagens vermelhas e largas varandas franjadas,
arrastando na esteira, onde ele deixara, em desalinho, um livro,
As Missões Abreviadas marcado com os óculos de oiro,
o lenço de ganga azul e uma caixa de rapé de tartaruga,
restos da abastança perdida. Com as largas mãos descarnadas,
eriçadas de pêlos, sustendo a cabeça, vergada
ao peso das idéias tristes que a povoavam, o velho meditava,
baloiçando-se lentamente.
Raulino chegou
à porta; Luzia após ele.
- Dá
licença, seu capitão Marcos - disse Raulino, cortesmente.
- Quem é?
- respondeu o velho tomado de surpresa.
- É de
paz.
- Queira entrar...
O velho ergueu-se;
examinou-os com os pequenos olhos azuis e profundos; demorou-os
sobre Luzia alguns instantes; e, indicando as malas que, com as
redes, davam a mobília da sala, principiou, com uma pausa
triste, a voz seca, penetrante e cava:
- Abanquem-se.
Não ignorem a desarrumação, pois somos com
boieiros de passagem.
- Eu e esta
moça somos muito camaradas de sua filha, dona Teresinha.
Marcos tornou-se
lívido. Raulino continuou, com a desenvoltura de homem despachado
e ladino:
- E sabemos
que a vossa senhoria não se lhe daria de achar uma arrumação...
- Ainda tenho
algumas migalhas - atalhou o velho - para não morrer à
fome...
- Sabemos; mas,
não seria mau ganhar alguma, ainda que só chegue para
o prato.
- Contanto que
seja serviço ao alcance de minhas forças... Eu já
não posso com trabalhos puxados...
- Não
há dúvida. É serviço nas posses de vossa
senhoria, nas obras do Governo...
- Onde é
isso?
- Na Meruoca...
- Já
lá estive, há muitos anos, em compra de farinha.
- Então
está feito? Nós ficamos muito agradecidos a vossa
senhoiria, que nos faz um favorão. Esta moça é
sa Luzia-Homem. Ela, estava com acanhamento de falar.
- Eu não
sou mau, dona - murmurou o velho, compungido. - Os desgostos me
puseram assim. Era feliz, na minha fazenda, uma situação
bem boa, que não me dava cabedais, mas produzia com que viver
sem ser pesado a ninguém. Entrou-me, um dia, de repente,
a desgraça em casa e fugiu-me para sempre, o sossego. Vi...
minha santa mulher envergonhada; ela e a filha caçula a chorarem,
escondidas pelos cantos para me não amargurarem. Eu mesmo,
tão ralado na vida, parecia oco, sem alma, como se me houvessem
roubado o coração. E saía atrás dele,
à toa pelo mato, como um desmiolado, em procura da filha
ingrata, que o levara. Dias e noites, passei na aflição
de sentir-me atolado na lama, estas barbas sujas, evitando os amigos
e conhecidos, que me procuravam. Eu tinha vergonha de encarar nos
próprios bichos, quanto mais em cristãos, que conheciam
a infâmia... Pedi a Deus que me matasse, e Deus não
me ouviu... Conservou-me a vida para castigo meu, para que eu ficasse
no mundo como um condenado... Depois, o tempo foi roendo o que me
restava de melindre. A negra chaga fechou por fora; mas continuou
alastrando por dentro... Afinal, a gente se acostuma a tudo... Rezei
por alma da ingrata e jurei que, dali em diante, só existiria
para mim a filha mais moça, essa inocente que não
tinha culpa da crueldade da outra...
A voz do velho
rangia-lhe na garganta, em vibrações metálicas;
tinha as modulações pungentes do estertor de uma alma
estrangulada pelo mais querido dos afetos.
- Moça
- continuou ele, erguendo-se e dirigindo-se a Luzia, que o contemplava,
comovida. - A senhora é mulher de bem; possui mãe,
tem pai?... Conserve a sua honra; defendas mesmo a preço
da própria vida... Há filhos que matam os pais...
Pois há piores monstros da natureza - as filhas que os desonram...
Os mortos deixam de sofrer; mas, os vivos, infamados de dor e vergonha,
ficam com a alma enferma para sempre...
- Teresinha
também tem sofrido tanto - observou, a medo, Luzia.
- Não
me falem nela, se querem que os acompanhe... Se a ela perdoasse,
era capaz de matar-me outra vez - murmurou o velho, cujos olhos
azuis fulgiram num relâmpago de cólera.
Clara ouvia
de longe, atrás duma porta, esse doloroso colóquio.
Não ousou entrar na sala para ajudar Luzia na defesa de Teresinha
tanto conhecia as crises terríveis daquela mágoa inextinguível;
mas os seus lábios trémulos, lábios doloridos
de mãe amantíssima, nuns estos brandos de ternura,
murmuravam, súplices, desconsolados:
- Pobre da minha
filhinha!...
Parece que açoitam
diante de mim, a minha filha do coração.
CAPÍTULO
XXVIII
O sol repontava
no horizonte, como um rubro e enorme disco. Surgindo de um lago
de oiro incandescente, quando o cortejo do êxodo se pôs
em marcha, pela estrada da serra.
Luzia percorreu,
com enternecimentos de saudade, os recantos da casa vazia, onde
ficavam o pilão, o jirau da latada, a trempe de pedra, os
tições extintos, enterrados sob tulhas mornas de cinza,
tristes vestígios dos habitantes que a abandonavam. Contemplou,
com lágrimas comovidas, o lar apagado, o terreiro, em torno,
limpo, varrido, as árvores mortas, os mandacarus carcomidos
até ao alcance dos dentes dos animais vorazes, a paisagem
triste, coisas mudas e mestas, que se lhe afiguravam companheiros
de infortúnio, dos quais se despedia para sempre. E partiu,
conduzindo, à cabeca, uma pequena troixa.
Seis possantes
rapazes e Raulino iam à frente, revezando-se na condução
da tia Zefa, estirada na rede, amarrada a um caibro longo e flexível.
A bagagem, duas malas e os cacarecos de serventia doméstica,
foi levada na véspera por outros trabalhadores e Alexandre,
que se adiantara para preparar a nova morada, o ninho da ventura
sonhada. A família de Marcos também partira com ele.
Ao passar a
rede pelas últimas casas da Lagoa do Junco, perguntavam as
mulheres debruçadas sobre as janelas:
- Vai vivo ou
morto?
- Bem viva,
graças a Deus, respondia Raulino.
- Deus a conserve.
Boa viagem!
Luzia lançou
demorado olhar ao morro do curral do Açougue, onde começava
de alvejar, de reboco, a penitenciária, enleada na floresta
de andaimes, quase pronta para receber a cumeeira. E ocorreu-lhe,
como recordação piedosa, a triste sina dos condenados
que ali ficavam, por toda a vida, encerrados, como em sepultura
de pedra e cal. Dentre eles, surgia o espectro minaz de Crapiúna,
cujos gritos terríveis de desespero ecoavam ainda no coração
dela, por mais que se esforçasse por varrê-los da memória,
e libertar-se da implacável obsessão, que lhe toldava
a serenidade do amor vitorioso.
Desviando os
olhos do morro sinistro, que fora o seu Calvário de vilipêndio,
compensado pela florescência dos instintos sagrados e do afeto
redentor de Luzia-Homem, ela resfolegou aliviada, como se dentro
daquelas paredes maciças, colossais, ficassem encarcerados
o passado, as mágoas, os dissabores dos opressivos dias de
miséria.
A estrada coleava
pelo terreno ondulado, cômoros calvos e vales cortados pelos
sulcos dos regatos extintos, e alteando insensivelmente, ao passo
que, com a montanha, se aproximavam, cada vez mais nítidos,
o arvoredo, as manchas peladas dos roçados estéreis,
as cintas de granito, os talhados a pique, em precipícios
medonhos, e grotões sombrios, destacados, num esmalte bronzeado
de nebrina vaporosa.
Madrugadores
serranos desciam para a cidade, dirigindo comboios de farinha, de
rapadura, o derradeiro produto da lavoira agonizante. Troteando
à cadência do ranger das cangalhas, eles saudavam aos
viajantes, repetindo a pergunta caridosa: "Vai vivo ou morto?"
- quando, tirando o chapéu, se afastavam para darem passagem
à rede da tia Zefa.
À margem
da estrada, dentre moitas de mofumbos ressequidos e juremas desgrenhadas,
uns fios de fumo azulado erguiam-se, em tênues espirais, dos
ranchos de retirantes, acordados àquela hora da manhã,
e pedindo, plangentes, uma esmolinha pelo amor de Deus.
Depois de duas
horas de marcha, interrompida a espaços, para descanso dos
carregadores, tornou-se o solo mais acidentado em sucessivas colinas
e contrafortes tortuosos, dilatados, como raizes colossais pelo
sertão, partido em vales profundos, refrescados pelas filtrações
da serrania, sombreados por vegetação da folhagem
pardacenta, retorcido e crestada. Mais longe, uma descida íngreme,
sobre estratificações da piçarra cortante,
os levou ao sopé da montanha, onde começava a ladeira,
e apareciam as primeiras árvores, os oitizeiros frondosos,
cedros, paus-d'arco e angicos em floração estiolada,
contornando o riacho da Mata-fresca, do qual restava intermitente
fio d'água a deslizar sobre lages, e gotejando de pedra em
pedra, como vagarosa lágrima. O séquito parou ao abrigo
de grandes rochedos, rolados e amontoados em confusão, por
esforço titânico. Forte aragem rumorejava encanada
pelo boqueirão, com um ruído de mar longínquo.
- Estamos quase
em casa! - exclamou Raulino. - Mas o rabo é o mais difícil
de esfolar. Ainda temos um pedaço de ladeira de suar topete.
Se pudéssemos ir pelo atalho, encurtaríamos metade
do caminho, mas a rede não pode passar na vereda cheia de
voltas, troncos e barrancos que é mesmo uma escada de demônios.
- Não
há dúvida, seu Raulino - observou um dos rapazes,
limpando, com o dedo, o suor que lhe perolava a fronte. - Nem que
fosse carga mais pesada; nós somos cabras de talento; vamos
bater lá num fôlego, quanto mais a tia Zefinha que
é leviana como uma pena.
- Vocês
são mas é uns prosas - tornou o sertanejo, ironicamente.
- Vejam como estão melados! Com qualquer forcinha ficam botando
a alma pela boca. Vamos ver se chegamos à Cova da Onça
sem arriar. Um trago da branca está esperando a gente lá
em riba. Vosmecé, sa Luzia, que é ligeira, vá
pelo atalho que é melhor. Quando chegar no primeiro cotovelo
da ladeira, quebre a mão esquerda por uma vereda trilhada,
que desce de cabeça abaixo; chega no fundo da grota; passa
entre dois muros de pedra; atravessa o riacho e sobe por dentro
de um bananal. Chegando na lombada do oiteiro, avista logo a casinha
no meio de laranjeiras.
- Você
já esteve aqui, seu Raulino? - inquiriu Luzia.
- Ora, ora,
ora! Eu conheço o oco do mundo. Oh! Aqui vai a Teresinha.
Veja o rasto dela, pequenino, delgado no meio que não toca
no chão. Se apertar o passo ainda a pega, porque ela vai
cansada. O rasto miúdo e encalcado mostra que vai devagar...
Eu rastejo, como se lesse no chão, até por cima da
pedra, folharal e até dentro d'água...
E, voltando-se
para os carregadores:
- Vambora! Pega
de jeito; acerta o passo, cabroeira mofina!... Vamo, vamo, que é
meio-dia... Agüenta o balanço! Aonde vocês botam
o pirão que comem? Até daqui a um tiquinho, sa Luzia...
E seguiram,
em festiva algazarra, estimulando-se com gritos, graçolas
que repercutiam, com fragor, nas quebradas do boqueirão.
Raulino os tangia com ordens de comando, emitidas no tom gutural
dos vaqueiros, voz retumbante, que ele pretendia fosse ouvida a
léguas.
Luzia foi subindo
após eles, sem esforço, lentamente, até à
primeira volta da ladeira, daí em diante cavada na aresta
das rochas, talhadas, a prumo, sobre o grotão profundo. Desse
sítio agreste, descortinou o panorama do sertão, cinzento
de mormaço, terminando no recorte azulado das serranias,
ao nascente, avultando, erectos, denteados e finos, como agulhas
de catedral gótica, os picos, que eriçam as crateras
extintas dos Olhos-d'Água do Pajé. Uma facha verde-escuro,
serpeando a perder-se no horizonte, assinalava o interminável
renque de oiticicas seculares, marcando o sulco do rio estanque;
depois espelhavam ao sol glorioso daquele dia abrasador, a cidade
em agrupamento informe, apenas esboçado, as casas das fazendas
abandonadas, ponteando, aqui e ali, a planície devastada
e quieta, como um imenso pântano.
Enternecida
na contemplação daquele espetáculo extraordinário,
na sua tristeza de paisagem morta, o sertão devastado como
a terra combusta do Profeta, ouvia o festivo alarido dos silvos
das cigarras escondidas nos troncos vetustos, e hauria o ar fresco
da montanha, embalsamado pelo capitoso perfume das imburanas, a
descascarem, numa exuberância magnífica de seiva.
Desse enlevo,
arrancou-a o brado longínquo de Raulino, gritando aos carregadores
da rede. Do outro lado do desfiladeiro, mais longe ainda, Alexandre,
do terreiro da casinha, respondia, radiante de alegria pela aproximação
dos entes queridos.
Obedecendo à
indicação do sertanejo, Luzia desceu pela tortuosa
ladeira, que ia no fundo da grota, e, sustendo-se nos arbustos das
margens para não escorregar, colhendo flores silvestres,
parando, a revezes, para desembaraçar as vestes dos espinhos
que a detinham, chegou à garganta, que Raulino designara
por dois muros de pedra, duplo dique donde se despenhava, em catadupas,
o riacho, quando Deus dava ao Ceará chuvas benfazejas e fecundantes.
Erguendo a saia, ela fruiu a delícia, havia muito não
gozada, de imergir n'água sussurrante, os pés pequeninos,
as pernas roliças e musculosas, adornadas de aveludada pelúcia
negra. Com as vestes presas ao joelho, curvou-se, colheu aljôfares
cristalinos nas palmas côncavas das mãos, e banhou
o rosto e os cabelos, polvilhados pela poeira do caminho.
Interrompeu-a
pavoroso grito, e uma voz, que ela, transida de terror, reconheceu,
rugiu:
- Foi o diabo
que te atravessou no meu caminho. É a última vez que
me empatas, peitica do inferno!...
Luzia, na confusão
da surpresa, tentou recuar, esconder-se nas fendas dos rochedos;
mas, vencendo o impulso de cobardia, e avançando, cautelosa,
deparou-se-lhe Teresinha, na outra margem da torrente, algemada
de terror, agitando, frenética, os braços, presa a
voz na garganta e as pernas paralisadas, chumbadas ao solo. Aquém,
arquejava Crapiúna em estos de cólera, tentando galgar
as pedras que os separavam.
- Desta vez
- grunhia o soldado - nem Deus te acode, ladra ordinária.
Fugi, durante a faxina da madrugada, para vir lavar o meu peito...
Ah!... Vais ver para quanto presto, cachorra!...
Em convulsão
de nervos enrijados, Teresinha estertorava agoniada, agitando, com
uns acenos epilépticos, as mãos desarticuladas.
- Deixe a rapariga,
seu Crapiúna - bradou Luzia, avançando, resoluta e
destemida.
O soldado voltou-se
como um tigre, ferido pelas ccstas.
Diante da moça,
em postura de firmeza impávida, magnífica de vigor
e de beleza, o soldado empalideceu, fez-se lívido, e recuou,
como se um prestígio sobre-humano lhe aplacasse os ímpetos
incoercíveis de cólera e de vingança.
- Luzia! - murmurou
ele, quase súplice - Não lhe quero fazer mal... Sou
um desgraçado, um miserável... Pedi-lhe outro dia,
pelo amor de Deus, um instantinho de atenção. Não
fez caso; não teve dó de mim... Agora vai se decidir
a minha sorte...
- Arrede-se;
deixe-me passar!... - intimou Luzia, com força, num tom imperativo,
breve e seco.
- Escute-me,
meu coração... Nenhum homem neste mundo lhe quer bem
como eu.
- Deixe-me passar!...
- Passar!?...
Luzia avançou
agressiva.
- Pensas - continuou
Crapiúna, recuando, transfigurado o rosto por diabólico
sorriso - Pensas que tenho medo de Luzia-Homem? Desgraça
pouca é bobage...
E atirou-se
de um salto sobre Luzia, que, empolgando-o quase no ar, o torceu,
e, atirando-o ao chão, subjugado, comprimiu-lhe o peito com
os joelhos.
O séquito
parara na Cova da Onça, cerca de cem metros de altura, donde
se viam, distintamente, os lutadores.
Crapiúna
gemia, espumava de raiva, medonho, sob a pressão inexorável
que o esmagava.
- Miserável,
miserável! - gritava Luzia, rubra de pudor, de cólera,
procurando deter as mãos crispadas do soldado a lhe rasgarem
o vestido - Alexandre!... Raulino!...
A voz vibrante
de angústia retumbou nas quebradas do boqueirão, como
um clangor de clarim, e a de Raulino Uchoa respondeu como um eco:
- Agüente;
tenha mão nesse malvado, que já vou!...
Aproveitando
um movimento da rapariga para compor o traje, Crapiúna ergueu-se,
e recuou de salto. Arquejava de cansaço, e da boca lhe borbulhava
sangrenta espuma. Os olhos, injetados, fulgiam de volúpia
brutal, louca, fixando-se desvairados em Luzia, desgrenhada, o seio
nu e as pernas esculturais a surgirem pelos rasgões das saias,
caídas em farrapos.
Ébrio
de luxúria, exasperado pela invocação de Alexandre,
o monstro, recobrado o alento, acometeu-a, rugindo.
Luzia conchegou
ao peito as vestes dilaceradas, e, com a destra, tentou lhe garrotear
o pescoço; mas, sentiu-se presa pelos cabelos e conchegada
ao soldado que, em convulsão horrenda, delirante, a ultrajava
com uma voracidade comburente de beijos. Súbito, ela lhe
cravou as unhas no rosto para afastá-lo e evitar o contacto
afrontoso.
Dois gritos
medonhos restrugiram na grota. Crapiúna, louco de dor, embebera-lhe
no peito a faca, e caía com o rosto mutilado, deforme, encharcado
de sangue.
- Mãezinha!...
- balbuciou Luzia, abrindo os braços e caindo, de costas,
sobre as lajes.
Raulino precipitara-se
no despenhadeiro. Agarrando-se aos arbustos encravados nos interstícios
dos rochedos, escorregando onde o penhasco se inclinava em rápido
declive, saltando com energia indômita por sobre as fendas,
pendurando-se nos cipós que entreteciam a floresta, atufando-se
nas frondes das árvores, passando de uma a outra com agilidade
de símio, ou deslizando pelos troncos nodosos, enleados de
orquídeas, chegou ao fundo da gruta.
Lá, em
cima, se ouviam os brados dos carregadores e os grandes gemidos
dilacerados da mãe angustiada:
- Meu Deus,
Mãe Santíssima, valei-a, salvai a minha filhinlia!...
Momentos depois,
o sertanejo surgiu do matagal, perto das pedras do riacho, ofegante
do esforço da fantástica descida, atassalhada a roupa,
escoriados os braços e pernas pelos espinhos, as mãos
feridas, ensanguentadas.
Luzia, hirta
e lívida, jazia seminua. Nos formosos olhos, muito abertos,
parecia fulgir ainda o derradeiro alento. Os cabelos, numa desordem,
escorriam pela rocha, forrada de lodo, e caíam no regato,
cuja água, correndo em murmúrio lâmure, brincava
com as pontas crespas das intonsas madeixas flutuantes. Na destra
crispada, encastoado entre os dedos, encravado nas unhas, extirpado
no esforço extremo da defesa, estava um dos olhos de Crapiúna,
como enorme opala, esmaltada de sangue, entre filamentos coralinos
dos músculos orbitais e os farrapos das pálpebras
dilaceradas. Sobre o seio, atravessado pelo golpe assassino, demoravam,
tintos de sangue, como se reflorissem cheios de seiva, cheios de
fragância, os cravos murchos que lhe dera Alexandre.
Raulino recuou,
cortado de terror, ante o cadáver; e, num turbilhão
de cólera, rugiu, arrepiado, apertando os dentes, e, com
uns gestos, que eram crispações medonhas de fera,
esquadrinhou o terreno, buscando e rebuscando o criminoso.
Crapiúna,
ganindo de dor, estorcia-se, erguia-se, nuns movimentos loucos,
comprimido, sob as mãos, o rosto mutilado; caía e
erguia-se de novo, até que rolando de pedra em pedra, se
sumiu no precípício...
Voltando, então,
para junto do corpo de Luzia, Raulino curvou-se compungido; apalpou-lhe
o peito, ainda morno; e, aproximando os lábios da divina
cabeça da heroína, gemeu com intensa amargura, as
palavras doloridas de unção aos moribundos:
- Jesus!...
Jesus!... Seja contigo!... Jesus, Maria e José!...
FIM
Fonte:
OLÍMPIO, Domingos. Luzia-Homem. Texto integral estabelecido
por Afrânio Coutinho e Maria Filgueiras;
9.ed., São Paulo: Ática, 1983. (Série Bom Livro).
Texto proveniente
de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado
por:
Alexandre Gallioto, Florianópolis - SC
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