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Luzia Homem, de Domingos Olímpio

 


CAPÍTULO XXV

Com irrepressível impaciência, esperou Luzia que algum dos raros conhecidos lhe trouxesse as últimas notícias dos acontecimentos do dia. A cada momento, se lhe afiguravam vultos de homem, esboçados nos cúmulos da poeira, que o vento rijo da tarde revolvia, em redemoinhos, pela estrada, como um sinal do vento baixo, rasteiro, sinal de seca. Talvez Alexandre livre, remido da infâmia, radiante de ternura a lhe sorrir com amor. Tinha estremecimentos de júbilos comedidos; a efêmera visão fugia com as colunas de pó desfeitas, e a pobre recaía desiludida numa dolorosa apatia de quem espera em vão.

Ninguém aparecia. Alexandre, cheio de brio, magoado pela crueza com que ela o tratara, não viria, contido pelo mesmo propósito que a condenava a estar ali, a estorcer-se em voluntário suplício, estimulada de fútil obstinação em resistir ao impulso de correr a recebê-lo no limiar do cárcere.

Nem vivalma. Estavam todos, àquela hora, recebendo, em ração, o salário da semana, pago aos sábados, nos postos de distribuição de socorros, ou na obra da penitenciária. Ela via as suas meninas amadas, Quinotinha e outras da tenda de costuras, sobraçando saquinhos cheios de víveres; as suas companheiras de trabalho aguardando a chamada, a tagarelarem com a garridice de maracanãs nos roçados; outras tristes, desconsoladas, recebendo os quinhões que deveriam passar às mãos de atravessadores, em paga de adiantamentos usurários; muitas agrupadas em torno da figura hercúlea, vermelha e ruiva de Raulino Uchoa, com a distinção de tipo de outra raça, entre os ouvintes, emaciados de privações, minados pelos tóxicos das raizes de mucunã, de pau-mocó, esboroadas em farinha. Ele costumava matar o tempo com a narrativa pinturesea das façanhas inverossímeis de amansador de animais bravios, orelhudos que nunca tinham visto gente, as áfricas de vaqueiro de fama, temido dos barbatões mais ferozes das catingas e carrascões impenetráveis, as proezas de caçadas de onças acuadas em furnas sombrias, onde ele as agredia, armado de uma simples azagaia. Contava das viagens extraordinárias, aventurosas pelo sertão inundado, da intrepidez com que afrontava o ímpeto dos rios desbordantes, nadando em cavaletes de molungu no tempo - até parecia sonho - em que Deus ainda se lembrava, piedoso, do Ceará, para dar-lhe chuvas copiosas e fertilizadoras dos campos, trombas d'água devastadoras, rotas nas cumeadas das serras, descendo em catadupas raivosas, invencíveis, pelos telhados, encostas verdejantes, arrastando rochedos, árvores, plantações, até se espraiarem na planície, à maneira de um mar, arrombando açudes, soterrando bebedores, cavados durante a seca. Descrevia com a linguagem fantasiosa, ardente, de vigoroso colorido, com as imagens vivas, sugestivas do rude estilo sertanejo, o fragor das correntes raivosas de concerto com o ribombo ininterrupto da trovoada, o relampear das nuvens negras e maciças, es ziguezagues fulvos a riscarem o céu, com letras cabalísticas, ameaçadoras, traçadas pela ira de Deus; o estrondo horrível dos coriscos, o pavor do gado, haurindo, a largos sorvos; o ar saturado de ozonona, reunido, em magotes, nos cômoros da planície encharcada.

Fresos aos lábios do narrador imaginoso, os retirantes mal continham lágrimas, ouvindo-o evocar, entre episódios da vida sertaneja, fatos e coisas, dons do céu, para sempre perdidos, água, verdura, roçados, safras opimas, alegria e fartura, cortados os corações pela amarga saudade de recordar tempos felizes.

Luzia meditava, fitos os olhos, com uns gestos de sufocado pranto, nas rubras chamas vacilantes, desprendidas dos tições, quase apagados, espevitadas pelo vento e crepitando nuns feixes de centelhas intermitentes.

- Ninguém - murmurou ela, magoada pelo abandono - Nem vivalma! E Teresinha? Que será feito daquela cabeça de vento? Onde se meteria? Nem pensa em mim, que a espero... Ah! se ela soubesse... Qual... está com ele, e eu, coitada de mim...

Cada vez mais espessa, a nebrina da tarde, com uns restos de calor, entrava a redondeza. Casas, árvores mortas confundiam-se desconformes, no esboço da paisagem, esfumada em claro-escuro. As manchas das sombras alastravam, como um líquido negro, devorando os tons luminosos. No céu, puríssimo, piscavam, espertas, álacres, como uns pequeninos olhos, estrelas e constelações. Papa-ceial, o astro da melancolia, librava-se no poente ainda claro, como lúcida lágrima, mensageira da dor ignota, oculta nas profundezas misteriosas do espaço, tremeluzia prateada como pólo das esperanças e das mágoas dos tristes, e parecia vacilar atraída pelo sol, atufado em nuvens purpúreas.

Pela estrada, abeirada à casa, passavam mulheres e meninos conduzindo as rações. Vinham da cidade ou do morro do curral do Açougue; deviam de saber de Alexandre e Teresinha, mas Luzia não ousou interrogá-los. Apareceu, depois, Romana à frente do grupo de bandoleiras desenvoltas. A roliça cabocla, de dentes aculeados não ria dessa vez. Lamentava, com as outras, a sorte de Crapiúna, que se desgraçara, apanhado na arapuca armada ao outro. Metia-lhes intenso dó o Belota, tão bom para elas, uma vítima da amizade, ou das más companhias. Nada diziam em defesa de Crapiúna; consideravam, entretanto, injustiça prenderem o outro, homem incapaz de fazer mal e sempre, bem procedido no serviço. Só tinha o defeito de jogar, mas o Governo devia saber que ele não se podia manter com o reles soldo; era homem como os paisanos. Ninguém vive enchendo a barriga de vento como os camaleões.

- Olha a Luzia! - observou uma - Nem parece que o homem dela foi solto!

- Vote! - atalhou outra - A modos que estaria mais alegre se ele ficasse na cadeia toda a vida.

- Qual o quê! - ponderou Romana. - Aquilo é soberbia. Quer mostrar que não faz caso de nada neste mundo. Impáfia ali é mata. Deixa estar que há de ser castigada.

- Aquilo, mulher, é calibre do sangue. Nem o demônio tira. Por isso é que vive sempre apartada das outras, metida com ela cheia de coisas como se fora uma senhora dona.

- Conheço muitas mais melhores que não se desprezam de tratar bem e falar com a gente.

- Só a Teresinha lhe caiu em graça. As duas se entendem. Deus as fez...

Esses comentários eram feitos em voz alta, para que Luzia os ouvisse; esta, porém, minada embora de rancor surdo a Romana que não a poupava com insinuações perversas, duma ironia picante, e passava por ali de propósito para molestá-la, fingia não ouvir, resistindo ao impulso de assaltá-la, arrancar-lhe a língua danada, esmagá-la aos pés, como réptil nojento e venenoso.

O grupo desapareceu. Passaram depois desconhecidos que, confundidos ao lusco-fusco, a saudavam com boa noite.

A velha mãe reclamava os seus cuidados, para iluminar o quarto e dar-lhe o remédio, que, abaixo de Deus, a salvara.

- Tiveste notícias de Alexandre? - perguntou-lhe ela, interrompendo o terço, rezado a meia voz.

- Não - respondeu Luzia, com fingida indiferença - Depois de saber que estava solto, fiquei descansada... tirei dele o juizo...

- E Teresinha?

- Sei lá!...

- Estou tão acostumada com ela, que já lhe sinto a falta quando se demora...

- Ainda é cedo. Virá quando a lua sair...

- Sabes que mais, filha? Acho-te hoje tão mudada!

- É que estou maginando no que devemos fazer, agora que não temos já obrigação de velar por ele. O coração me pede que vamos embora; mas não podemos. Não há remédio senão ficarmos. Será como Deus quiser. Eu terei sempre forças para trabalhar e viver... sem ser pesada a ninguém, apesar de me desprezarem e fazerem pouco de mim.

- Não fales assim, filha. Os fortes também enfraquecem quando Deus os desampara.

- Deus! Deus já não se lembra de nós, que somos cristãos, que o adoramos e amamos...

- Tem fé nele, que é pai de misericórdia.

- Para falar a verdade, mãezinha, eu, às vezes, não acredito em nada. A desgraça endurece o coração. Por causa dela, os pais abandonam os filhos; maridos desprezam as mulheres e as criaturas viram bichos, ou ficam piores que eles. Para o fim do mundo, só falta que as mulheres não tenham mais filhos, pois já ninguém ama.

- E eu que pensava...

- Em quê?

- Não te quero pôr de confissão, mas... sempre desejava saber se Alexandre nunca te falou em casamento.

- A mim?

- Pensei que se engraçara de ti. Fiquei com a mosca na orelha desde aquele mimo dos cravos.

- Os cravos! É verdade que, um dia, ele me disse: "se casássemos, iríamos viver juntos em uma casinha da ladeira da Mata-fresca." Não respondi sim, nem não. Depois apareceu o impute, e foi preso. Sofri mais com essa desgraça do que ele; até parecia que todos me olhavam como ladra, e só o abandonei quando suspeitei que era igual aos outros homens, queria bem a outra e me enganava cruelmente. A última vez que vi ele, deixei-lhe os cravos na grade da cadeia. Essas pobres flores, guardadas no meu seio, como um breve milagroso, não podiam mais ficar comigo. Ele que as desse a outra. Mais tarde arrepeiidi-me: revoltei-me contra esse ciúme à-toa, que não me envergonhava, porque as mulheres ricas também se enciumam; mas era uma fraqueza. Tive ímpetos de pedir-lhe perdão. Uma voz, que vinha daqui, do coração, aconselhava que eu quebrasse a teima de abandoná-lo e fugir dele... Seria rebaixar-me, fazer como essas que continuam a querer bem ao homem que as despreza, surra e maltrata; seria contra o meu gênio de não dar braço a torcer, de não dar parte de fraca, de sofrer calada.

- E é por isso que tens andado capionga? Ah! coração de mãe adivinha.

- Era ...

- Pois foi muito feia ação desconfiar dele.

- A gente não suspeita por querer.

- Quando se quer de verdade, não há suspeita que entre no coração. Eu nunca maldei do defunto teu pai, quando ele passava meses ausente, comprando garrotes no Piauí. Só pensava que poderia apanhar moléstias, morrer sem confissão e em não estar eu a seu lado para tratar dele.

- Era seu marido. Alexandre não é nada meu. Ninguém me tira da cabeça que, agora, limpo de pena e culpa e por ser bom, caridoso e bonito homem, todas as mulheres querem bem a ele. Homem que sofre é, comparando mal, como Jesus Cristo. As mulheres andam atrás dele.

Houve, então, longa pausa. Nos pequeninos olhos parados da velha, desanimados, demorava uma funda impressão de surpresa, com um brilho gasto de mágoa.

- Além disso - continuou Luzia, com um ligeiro movimento, dos ombros - Elas têm o mesmo direito que eu. Mas não me conformo... Pode mais do que a minha vontade essa suspeita, que me põe o coração escuro e mau... Sabe, mãezinha, em que estou pensando agora?... Um horror, que até tenho vergonha de dizer... Antes uma boa morte que descobrir a outra pessoa o que me passa pela mente... Olhe...

E sussurrou, com voz soturna, como um sopro de cansaço, ao ouvido da velha:

- Imagino que, neste momento ele está com Teresinha...

- Credo! filha!

- É um horror, não é?... Parece que estou vendo eles juntos, alegres e satisfeitos. Ele todo agradecimentos; ela cheia de si... Sim, porque se está solto a ela o deve... Ela tem direito à recompensa. É justo que não se lembrem de mim...

- Que maldade, filha de minha alma...

- Sim, como não hei de ser má, de ter más entranhas, se uma cobra venenosa me morde o coração! E sou culpada de tudo por ser desconfiada... soberba... maldita... Luizia-Homem é o que eu sou... uma bruta desalmada...

- Que coisa sem pé nem cabeça? Estou estranhando isso... Sossega... Teresinha, tão boa para nós, não tarda aí, quando a lua nascer.

- Veja aquele clarão... Já está fora.

- Ela foi cheia tresantonte. Aquilo é fogo no pasto.

Havia, com efeito, no horizonte, um clarão de incêndio, onde surgia, lentamente, um enorme disco.

- Qual - exclamou Luzia, com uns gestos violentos, e um amargo tom de sarcasmo - Aquela mesma? Onde está, está muito bem... gozando o que muito lhe custou ganhar... Não se me dava de apostar...

- Não faças juizo à toa - disse a velha, com energia - maldando da outra...

- Não maldo por querer. É uma coisa que me vem à cabeça e que me tira o juizo... Ah! Eu não era assim. Não era. Em nada pensava, nada tinha, que me afligisse ou me tirasse noites de sono. Não fora o seu puxado, vivia sossegada, pensando somente no dia d'amanhã, em ganhar a vida. Era feliz, consolada com a minha sorte.

- Não eras, não. Nunca te vi assim... São repiquetes de mau gênio que passam depressa. Agora, se não te dás bem aqui, se te sentes mal, iremos, como querias, para as praias. Raulino irá conosco...

- Para a praia! Não vou mais, não... posso. Hei de ficar aqui até quando Deus permitir... Até... morrer. Quem sabe?

- Aí está! Não te entendo. Há bocadinho, falavas nessa viagem que não te saía da cabeça... Agora...

- Pensei melhor.

- Qual, filha! Andas tão atarantada que já não pensas coisa com coisa.

- É mesmo, mãezinha. Até parece que estou lesa. Ah! se eu pudesse esquecer tudo como se fora um sonho, desses que a gente dá graças a Deus e cria alma nova, quando se acabam... ou se desperta...

- Tu estás, mas é muito alterada. Vem dormir, anda, que Teresinha rebenta por aí sem demora, e as duas vão levar a noite grazinando como duas amigas.

A velha Josefa benzeu-se ao terminar o terço, interrompido pelo diálogo com a filha. Ergueu-se apoiada ao portal, e gemendo, tanto lhe custava distender as articulações emperradas; e, arrastando as grandes chinelas, dirigiu-se, claudicante, para a rede. O quarto estava iluminado pela candeia mortiça, crepitando na cantoneira, asseado, muito arrumado; as malas encostadas à parede, duas redes armadas nos ângulos, e, no chão, a esteira de Teresinha, a pele de carneiro, um simples tapete para se não resfriarem os pés da enferma. De uma corda, pendiam várias peças de roupa.

- Deixa-me - disse a velha, arfando de fadiga e afastando a filha que pretendia ajudá-la. - Deixa-me andar sozinha para experimentar as minhas forças. Se me acostumo a estar sentada e a andar pelas mãos dos outros, fico mesmo enferrujada de todo... Ah! Se Nossa Senhora me tirasse esta canseira, podia eu dizer que estava sarada... Isto vai devagarinho... Moléstia é como preaca de frecha: entra no corpo de repente, e custa a sair.

- Tenho fé - disse Luzia, mais calma e com meiguice, abrindo a rede para que ela se sentasse - isto vai passar.

Quem a viu e quem a vê, nota logo grande melhora.

- Tenho esperança de rolar mais alguns dias por este mundo, e só peço a Deus que me não faça sofrer, quando chegar a minha hora. Bem sei que não hei de ficar para semente... Tu, que és o meu sangue, tomarás o meu lugar, sendo o que eu fui, uma mulher de bem, trabalhadeira e temente a Deus.

- Não fale nisso.

- Como não fala!, se não me sai da cabeça o pensamento de morrer, deixando-te sozinha, sem encosto, sem proteção.

- Quando tal acontecesse, quando Deus me castigasse com essa desgraça, eu teria coragem para suportá-la. O trabalho não mete medo a Luzia-Homem.

- Bate na boca, filha. Luzia, mulher e bem mulher, fraca como as outras, é o que tu és.

Ela sentia a verdade das palavras da mãe. A ansiedade, as dúvidas, as suspeitas cruéis em tumulto absurdo e monstruoso comprovavam a sua debilidade de mulher amorosa. Compreendia, então, a perversidade de Gabrina, vingando-se de Alexandre por meio da declaração falsa; compreendia por que havia mulheres criminosas, que se rebaixavam satisfeitas, que se depravavam despudoradas, arrojadas, por impulsos de paixão irresistivel, fora da senda do dever, olvídando honra, família e o decoro, que é o esmalte das almas boas para tombarem, desfigurados o coipo e a alma, até à lama do enxurro humano, como nojentos dejetos do vicio.

Havia, entre essas míseras, culpadas por depravação moral, desviadas pela educação, contaminadas pelo contágio do exemplo. A maioria, porém, era de inconscientes, sem imputação, dignas de perdão como pensava ela, que não podia expungir do coração os maus instintos, que o dominavam e ali grelavam, como ervas daninhas, à sombra propícia da suspeita e do despeito. E Luzia que padecera pela prisão do homem amado, que sentira nas próprias carnes o estigma com que o pretendiam marcar, que seria capaz de fazer por ele o extremo sacrifício da própria vida, seria capaz de estrangulá-lo, de arrancar-lhe as entranhas, de cevar-se no seu sangue, à simples idéia de vê-lo nos braços de outra mulher.

- Eu morreria descansada - disse a mãe, suspirando - se te deixasse casada com Alexandre, que seria incapaz de te dar má vida.

- Casada! - retrucou a filha, arrancada, de súbito, às tristes idéias. - Quem quererá se casar comigo?...

- Não digas semelhante coisa, tamanhas asneiras... A mim, me palpita o coração que amanhã terás vergonha dessas suspeitas, porque Alexandre virá e tudo passará, como se nada houvesse acontecido. Tu, então, arrependida, reconhecerás que, quando moça está influída para casar, não tem o juizo assente; vê tudo pelo avesso, de pernas para o ar, e fica mouca aos conselhos. No meu tempo, as raparigas não pensavam nisso; quando davam fé estavam na igreja com o moço escolhido pelos pais. Hoje, está tudo mudado... Meninas. que ainda cheiram a cueiros, já têm opinião e caprichos como qualquer mulher feita. Deus louvado, sempre foste muito bem procedida e obediente. Veio-te, agora, essa influência de querer bem... Já não veio sem tempo... já tardava e não tem nada de mal; mas, é preciso ter juizo para não desmanchar o que esta tão bem principiado. Vê bem o que te digo; deixa-te de histórias e teimas. Se procurares com uma candeia, não encontrarás outro tão do meu gosto.

- E se ele não me falar mais em casamento?

- Paciência! É porque não tinha de ser.

- E eu?...

- Tu!... Pois não és mulher forte, capaz de viver sozinha, sem ser pesada a ninguém, trabalhando para comer?... Não és Luzia-Homem?...

- Eu não sou nada - murmurou Luzia, abraçando a mãe e escondendo-a quase na onda de cabelos revoltos. - Sou uma infeliz, que está sendo castigada, sou uma doida, que não sabe o que faz... Perdoe-me, mãezinha da minha alma...

- Ai que me tiras o fôlego - gemeu a velha, sufocada pela veemente carícia da filha. - Não reparas que só tenho de gente a figura com a pele sobre os ossos? Deixa estar que tudo há de sair bem, se Deus não mandar o contrário... Dá-me outra colher de remédio. Quero ver se pego no sono. Fecha a porta e vem dormir.

- E Teresinha?

- Deixa estar que ela não se perde. Sabe de olhos fechados o caminho da casa.

- Tem razão, mãezinha. O melhor é esperar sossegada o que tem de acontecer.

Depois de dar o remédio à mãe e acomodá-la para passar a noite, Luzia saiu ao terreiro a passear em roda da casa, a contemplar a lua, que ascendia em pleno esplendor. Interrogou o céu e a terra, silenciosos, impassíveis; espreitou em todas as direções, até aonde a sua vista alcançava, e prescrutou os mais leves rumores que a viração lhe trazia em rajadas violentas. Nada correspondia à sua ansiedade. A solidão lhe recusava alento às débeis esperanças e conforto às mágoas, que os conselhos maternais não conseguiram aplacar de todo. Entretanto, a confidência à mãe idolatrada, fora um transbordamento salutar, e ela experimentava a sensação de desafogo, como se o coração, libertado de cruciante aperto, pudesse pulsar sem se, contentar em estreito âmbito. Ligeiro torpor lhe invadia os membros que ela tentava em vão estimular, distendendo-os em contorções preguiçosas a lhe desenharem, com harmonioso relevo, as linhas vigorosas, exuberantes de graça.

- Não teimes em esperar, filha - observou a mãe - até fora de horas. - Anda, e fecha bem a porta. Eu não descanso enquanto estiveres aí a rondar de um lado para outro, como quem está rnalucando.

- Amanhã é domingo, mãezinha. O luar está tão bonito que a gente tem pena de se deitar. Parece dia...

- Que horas são?

- O Setestrelo já está alto e as Três Marias estão descambando. Ainda agorinha tive um susto! Correu uma zelação, que parecia uma tocha.

- Deus a guie. É sinal de desgraça. Anda, anda, vem para dentro, que a friagem te pode fazer mal.

Luzia obedeceu. Depois de fechar a porta, tomou a bênção à mãe; e, desatando os cordões da saia branca, estirou-se, extenuada, na esteira, onde Teresinha dormira tantas noites. E, todavia, mole de fadiga, não pôde conciliar, calmamente, o sono. Torcia-se, mudava de postura, como se o seu corpo robusto excedesse ao molde ali deixado pela amiga ausente, cuja recordação, engastada em seu cérebro, era o carvão da suspeita, comburente, agora, em brasa de remorso.

Ela imitava as desenvolturas da outra, da criatura dedicada, que renunciara a todos os seus hábitos para participar, com a placidez de uma consciência satisfeita, da pobreza e das tristezas daquele mísero lar. Julgava ouvir passos cautelosos, abafados pelo ruído das folhas agitadas pelo vento, e Teresinha e Alexandre lhe apareciam como espectros, exprobando-lhe a injusta desconfiança, e exigindo reparação. Acusada por si mesma, Luzia não se podia defender; a culpa era demasiado evidente. Abandonada pelas energias musculares, que eram o seu estigma, oberada de vergonha, ela suplicou, em atrição, lhe perdoassem; e, como se um filtro purificador lhe lavasse a alma da mácula do cruel pecado, adormeceu no delicioso enlevo de um sonho de ventura inefável.

CAPÍTULO XXVI

Não acabara Luzia de pentear os cabelos que, depois de vendidos eram tratados com maior carinho, quando chegou Raulino, conduzindo a troixa de mantimentos e uma grande cabaça d'água.

- Muito bom dia, sa Luzia!

- Bom dia, seu Raulino. Você vem hoje carregado.

- É que aumentei a troixa com a cabaça e contrapeso que lhe mandaram.

- Para mim?

- Sinharsim. Meti os pés da rede quando vinham quebrando as barras e maginei que vosmecês estariam carecidas d'água. Como estou morando, agora, na cadeia nova, para botar sentido nas obras, de noite, enchi a cabaça na jarra e fui à cidade receber as rações porque as do armazém da Comissão são melhores e medidas com lavagem. Foi uma lembrança mandada por Deus, porque, chegando lá, topei na porta o Alexandre...

- Alexandre!

- Em carne e osso. Depois de dar-lhe mão de amigo, pedi-lhe que me aviasse depressa para poder eu chegar aqui cedinho. Ele, meio banzeiro, perguntou por vosmecê, pela tia Zefinha e pelos outros conhecidos. Coitado! Está branco, com a cara encerada, que mete dó ver, tão desfeita uma criatura, que vendia saúde...

- Está doente?

- Como quem passou obra de um mês enterrado naquela prisão porca e fedorenta que mais parece um chiqueiro que morada de cristãos.

- É horrível!

- Mas a demora foi dar notícias de vosmecê, ficou ligeiro e alegre que não parecia o mesmo. Mediu... Mediu é um modo de falar: fez a olho, as rações. Era o que a mão dava. Ele por uma banda e eu pela outra. E não fomos mais longe porque já era uma dor de consciência. O homem quer bem a vosmecês mesmo de verdade. Fez perguntas e reperguntas; quis saber do puxado da tia Zefinha; se sa Luzia ainda estava na obra, se passou lá trabalhando o dia de ontem, um horror de coisas que fui respondendo só para dar-lhe gosto. Agora está como quer. Há males que vêm para bem. Melhorou no emprego e recebeu uma dinheirama de coiro e cabelo.

Luzia desembrulhava os gêneros e os arrumava, aparentando indiferença à loquacidade de Raulino, que falava pelos cotovelos. Os sertanejos ladinos são, em geral, admiráveis narradores, de imaginação acesa, fecundos em descrição, cujos menores incidentes são debuxados com vigor.

- Que é isto? - perguntou Luzia, indicando um guardanapo de linho amarrado nas quatro pontas.

- Isto é pães - respondeu Raulino. - Quando eu vinha vindo, a dona do Promotor chamou-me e deu-me essa frouxinha, dizendo por aqui assim: "Leve isto para Luzia, seu Raulino, diga-lhe que estou muito agradecida pelo trabalho da roupa para os pobres, uma perfeição de costura. Diga-lhe mais que apareça: desejo muito ver os meus bonitos cabelos."

Luzia baixou os olhos, e estremeceu ligeiramente.

- Ora, - continuou o sertanejo - eu não entendi bem o que a dona queria dizer, mas fiquei malinando que também gosta, como todo o mundo, dessa sua cabeleira, comparando mal, parecida com as das mães-d'águas encantadas, lavando-se na lagoa em noite de luar, com os cabelos de vara e meia boiando e embaraçando-se nos aguapés cheirosos, como eu vi com estes olhos, que a terra fria há de comer, de uma feita, que eu estava de tocaia, esperando patarrões brabos. A noite estava clara que nem dia. Cansado de esperar e resfriado pela fresca do sereno, passei por uma modorra.

Quando dei fé, ouvi o barulho de um corpo espalhando a água; levei a lazarina à cara, e, pensando que eram os patos, ia papocar fogo. Divulguei, então, o corpo de uma mulher, luzindo molhado e nadando como uma marreca. Ainda fico frio quando me lembro dessa visagem. Os meus cabelos se arrepiam como espinho de cuandu. Quis gritar, mas tinha um nó na garganta. Passou-me uma névoa pelos olhos e deixei cair a espingarda. Quando dei acordo de mim, afirmei bem a vista para ver o que era. A lagoa estava serena como um espelho. Tudo quieto. Só ouvia sapos ateimando: foi, não foi, e os cururus roncando. Não quis mais saber de histórias; apanhei a arma e meti o pé na carreira. Só tomei fôlego quando avistei a casa. Sa Luzia a modos que não me acredita?

Luzia sorriu, com branda ironia.

- Pois fique sabendo - continuou Raulino, com muita convicção - que não foi só a mim que ela apareceu. O Isidro, rapaz destemido e caçador de fama, também viu a mãe-d'água de uma feita que estava tarrafeando curimatãs. Por sinal que não apanhou uma triste piaba naquela lagoa, que tinha mais peixe do que água. Voltou da pescaria com as mãos abanando, capiongo, meio leso e contou o caso à noiva, moça (falando com o devido respeito) bonita como uma imagem. Ela ficou desconfiada e quis, por fina força, ir, fora de horas, à lagoa. O rapaz fez todo o possível para tirar-lhe da cabeça semelhante doidice; disse-lhe que era um perigo porque as mães-d'água são ciumentas das moças que estão para casar, que houvera muita desgraça por causa disso; pediu, rogou por tudo quanto havia de mais sagrado. Ela prometeu não ir, mas cada vez mais desconfiada teimou, porque mulher, quando malda, não chega ao moirão com duas razões. Fugiu de casa quando estavam todos recolhidos e foi à lagoa. Não lhe conto nada. Ao amanhecer, deram por falta da moça. Foi um Deus-nos-acuda. Ninguém dava notícias dela. O noivo ficou como um doido; mas, lembrando-se da história da mãe-d'água, pôs-se a rastejar e encontrou o rasto da chinelinha da infeliz, bem marcado no caminho orvalhado.

Acompanhou-o com outras pessoas, também rastejadoras, e foram bater na beira d'água. Estavam maginando no que teria acontecido, quando ouviram uma risada de mangação. Pensaram que era a moça escondida para zombar deles. Bateram o mato em redor, o pacoval, cheio de ninhos de azulões e papa-arroz. Nada. Os passarinhos fugiam espavoridos, e um bando de garças, alvas como capuchos de algodão, voava remando no ar. Os homens olharam uns para os outros sem saberem o que fizessem. O Isidro, mais morto do que vivo, numa aflição de meter dó, encarou n'água como se quisesse ver-lhe o fundo. Quem dera a risada? Aonde fora a moça parar? Onde se escondera? O rasto ali estava provando que ela não voltara para trás...

- Mas... é verdade isso? - inquiriu Luzia, com terror.

- Acredite, como se estivesse vendo. Eu não sou homem de inventar, nem de dizer uma coisa por outra. Ouça o resto. Um vaqueiro velho foi buscar uma cuia, pregou dentro uma vela acesa e largou-a em cima d'água. A cuia vagou à toa, de um lado para outro, conforme assoprava o vento; foi, depois, seguindo para o centro, até que ficou parada, obra de cinquenta braças de distância. Nisto, o Isidro, num abrir e fechar d'olhos, tirou o gibão de coiro e largou o braço n'água. Chegando ao lugar, onde a cuia estava parada, mergulhou, e... Que horror!... Nem gosto de me lembrar... Num instantinho, voltou à flor d'água; tomou fôlego e mergulhou outra vez... Quando deram fé, ele surgiu com um corpo nos braços e nadou para a terra como um desesperado. Vinha como um bicho feroz, arquejando, enlameado, coberto de ervas e raizes encharcadas. Os outros foram ao seu encontro para ajudá-lo. Trazia a noiva morta. Os olhos azuis da defunta estavam esbugalhados e vidrados. A boca meia aberta, parecia querer falar. Tinha as mãos juntas sobre o peito, aqui, lá nela, e amarradas em nó cego, com as duas tranças de cabelos loiros, compridos como os seus, sa Luzia...

- Que desgraça! Credo! Morreu de ciúmes!...

- Que ciúmes! Foi afogada pela mãe-d'água. A malvada amarrou-lhe as mãos para que a pobre se não pudesse salvar, pois nadava como uma piaba. Era dela a risada que ouviram; ria da sua obra maldita... Depois dessa tragédia, os comboieiros, que navegam para aquelas bandas e passam de noite pela beira da lagoa, ouviram arrepiados de medo, aquela risada medonha.

- Isso é busão! - disse do quarto a velha, atenta à história.

- Ah! tia Zefa, vosmecê estava acordada?

- Desde madrugada.

- Busão ou não - ponderou Raulino - o caso é verdadeiro. Quando a gente não pode explicar as coisas diz que é busão; mas o fato é que há no oco deste mundo velho muita coisa, que nem doutores, nem padres conhecem. E, com esta, vou andando.

Habituada às histórias extraordinárias do imaginoso sertanejo, Luzia experimentou, todavia, forte abalo, ouvindo a reprodução da lenda, sempre viva nas recordações da infância, dura quadra despercebida, de gozos facilmente olvidados, porque é bem verdade que só o sofrimento tem o poder de cavar na memória sulcos indeléveis. É por isso que há estranho encanto, espécie de amargura e de saudade em exumar tristezas, em reviver lances de desgraça, como narrar crises de moléstia, lutas entre a vida e a morte, os dissabores, as desilusões, as mágoas suportadas com resignação, com heroismo, que se nos afiguram obstáculos transpostos, vitórias alcançados contra a fatalidade, os cruéis ínimigos ocultos, intangíveis, à maneira das tiranias onipotentes das forças misteriosas que engendram, nas terríveis profundezas do infinito, as calamidades, os cataclismos e os assombrosos fenômenos que assinalam o eterno combate entre o que destrói e o que produz.

- Espere pelo café, seu Raulino - disse Luzia.

- Estava quase requerendo - tornou o sertanejo. Por essa bebida, sou como macaco por banana. No tempo da fartura, eu era capaz de tomar uma canada de café por dia.

- Não viu, por ai, Teresinha?

- Nharnão, pensei que ela estava aqui.

- Esperei-a toda a noite.

- Deixe estar que aquela não se perde com duas razões.

- Sempre estou com cuidado nela.

- O Alexandre disse-me que ela esteve com ele desde que foi solto até à tardinha, quando o deixou com promessa de se encontrarem aqui hoje.

- Aqui! - exclamou Luzia, alvoroçada.

- Sinharsim. Pelo menos, foi o que ouvi da própria boca dele - afirmou Raulino, tirando uma grande pitada de caco do corrimboque de chifre de carneiro.

- É para dar que pensar - observou a velha.

- O mais certo - considerou Raulino - é ter ela ficado no quarto da Gangorra, pensando, talvez, que, preso Crapiúna, vosmecês não precisassem mais de companhia. Poderiam dormir descansadas sem receio de alguma traição do excomungado.

- Se soubesse onde era a casa, iria buscá-la, tanta falta me faz... Coitada! Aquilo só é ruim para si.

- É pena, sa Luzia, porque ela teve bons princípios e foi bem afamilhada. Mas, caiu-lhe em cima a desgraça. Eu também tive a mesma sorte. Meus avós eram gente de consideração, bem arranjada; e, como me vê, poderia comer em pratos de ouro, se não... Para que lembrar tristezas que não pagam dívidas? Tive currais cheios de vacas de leite; apanhava meus oitenta bezerros por ano; possuía bons cavalos de sela, e o demônio, em figura de mulher, levou tudo. Hoje, ando a trabalhar para não morrer de fome, com vergonha de me dar a conhecer à parentalha que tenho aqui mesmo em Sobral. Fui nascido e criado na ribeira do Jaguaribe. Ainda é do meu sangue essa gente de Xerez. Somos todos Furnas...

- Que feio nome?

- É meio esquisito, mas é de gente muito graúda, de muitas posses e honrarias, espalhada por estes sertões numa parentalha, que nunca mais se acaba, como a gente dos Olhos-d'Agua do Pajé, os Rochas e os Cavalcantes...

Agora, vou mesmo que já tocou a primeira vez da missa do dia.

- Se mãezinha tivesse com quem ficar, iria também à missa.

- Não seja essa a dúvida, filha - observou a enferma. - Basta que me deixes ao alcance da mão um caneca d'água.

- E vou mesmo. Há muito que não piso na igreja. É mesmo um pecado...

Raulino despediu-se, sorvendo, com estrépito, outra pitada, e partiu no seu passo de andarilho, bamboleando num chouto mole, miúdo, o corpo erecto e musculoso.

Preparada a refeição da mãe, Luzia ataviou-se, com o seu melhor vestido, um roupão de cassa lisa, que, amarrado à cintura, lhe desenhava as formas graciosas, e saiu na direção da cidade.

Não era a missa um pretexto para sair; mas, ao profundo sentimento religioso se aliava a casquilhice inocente de exibir os belos vestidos, as últimas fantasias da arte decorativa da mulher, importadas do Recife, uns trajes vaporosos de renda e cambraia, feitos com requintes convencidos de elegância, com raro gosto, pelas adoráveis criaturas que os vestiam. Nada havia de censurável em que as moças da cidade, metidas durante toda a semana em casa, ocupadas ern trabalhos sedentários de renda e labirinto, se desforrassem desse retraimento nas festas religiosas, celebradas, sempre, com extraordinário esplendor. Imitando à gente rica, Luzia, além do intuito de cumprir um piedoso dever, nutria a esperança de encontrar Teresinfia ou Alexandre, obter notícias deles, ou, pelo menos, encurtar a distância que os separava.

Ao passar pela rua do Menino Deus, ela esmorceu a marcha; aproximou-se do armazém da Comissão e olhou atentamente para dentro, erguendo-se nas pontas dos pés, para ver, através da multidão de indigentes, aglomerados à porta, a criatura querida.

Quando avistou a cadeia, cujas grades negras estavam cheias de presos amaciados e lívidos, sentiu-se a moca cortada de terror. Crapiúna estava ali dentro, como fera cativa, devorando-a, talvez, naquele momento, com os olhos injetados por uma congestão de cobiça e raiva impotente.

- Moça, ó! moça! - disse um menino que se aproximou dela correndo. - Ali tem um preso que quer falar com vosmecê.

Luzia repeliu, com um gesto enérgico de negação, o esperto pequeno, que insistia no chamado, e apressou o passo para distanciar-se da sinistra prisão, onde uma voz rouca e vibrante, como um rugido, a voz de Crapiúna, bradava suplicante, e amaldiçoava:

- Luzia, Luzia!... Meu coração, meu amor da minha alma, tem pena de mim! Perdoa-me pelo amor de Deus! Vem! É um instantinho... Não te farei mal. Vem! Só duas palavras!... Ah! Não me ouves; não queres saber de mim!... Mulher do diabo!... Deixa estar, safada, amaldiçoada, que não ficarei preso toda a vida... Nem que tu vás para o inferno...

O soldado gritava, estorcia-se delirante, agarrado às enormes barras de ferro do portão, brandindo-as, abalando-as com inútil esforço para quebrá-las, arrancá-las dos gonzos chumbados ao portal de granito.

Perseguida pelo eco dos brados de insânia desesperada, ela penetrou no templo, como num abrigo inexpugnável, defeso à maldade humana, à curiosidade vexatória daquela gente que, lá fora, a considerava criatura impassível de coração, e se apiedava do prisioneiro, cuja dor feroz lembrava a simpatia dos grandes infortúnios.

A imensa nave da matriz desbordava de fiéis, amontoados, em confusa massa inquieta, alumiada pelos jorros de crua luz, que se projetavam das arcadas laterais, recentemente rasgadas nas formidáveis paredes de pedra e cal, sobre os mantos alvíssimos das mulheres ajoelhadas. No fundo resplendia a capela-mor, o tabernáculo, esculpido pelo cinzel do mestre João Francisco, o entalhador, com duas séries de elegantes colunas coríntiasl, enleadas de parreira, a vinha do Senhor, e rematadas de folhas de acanto, todas brancas, de figos doirados e sustendo a arquitrave e a curva do arco que emoldurava a grande tela de Bindsay, a Assunção de Nossa Senhora. Mais abaixo, dominando a banquete de prata maciça e os bustos dos Apóstolos, emergia, dentre palmas, dentre flores, a imagem da Virgem da Conceição, a padroeira da cidade, coroada de oiro, de palrarias, quase escondida no amplo manto de veludo azul, marchetado de estrelas, bordado com carinho pelas órfãs da Casa de Caridade. As chamas dos círios esmoreciam na suntuosa claridade da manhã, como pálidas placas, dissolvendo-se em ténues fios de fumo, a sumirem-se no ambiente saturado de incenso e de um odor agro de cera derretida.

Luzia, sobressaltada pela imprecação minaz do soldado, cujas palavras brutais lhe contundiam o cérebro, pensara encontrar na casa de Deus, aos pés da Mãe Santíssima, refúgio e conforto à sua alma atribulada. Mas, ali mesmo a perseguia a protérvia da multidão. De pé, hesitante na escolha do lugar para ajoelhar-se, era alvo de olhares, que a lapidavam, trocados entre as mulheres, que desembuchavam a malícia atroz dos ruins sarcasmos. Uma crispação de surpresa, de curiosidade assanhada agitou a onda viva que a cercava. Raparigas e meninas, matronas e velhas, fitaram-na com insistência, imobilizadas de pasmo, e de boca em boca perpassou ininterrupto murmúrio, cochichado de todos os lados:

- É a Luzia!... A Luzia-Homem!...

Prostrada à meia-sombra de um confessionário de jacarandá, salientemente adornado de arabeseos estranhos, absorta em sincera prece, ela ouviu a missa, celebrada pelo vigário Vicente Jorge de Sousa, cuja voz sonora e forte, recitando as orações do ritual, dominava os pigarros, as tosses incontinentes e o choro clássico das crianças que aguardavam o batismo, ocultas sob os lençóis das mães, que ali mesmo, as amamentavam. Rezou pela mãe entrevada, por Teresinha; rendeu graças a Deus pela libertação de Alexandre; e quando se ergueu a Hóstia, ao ruído de peitos percutidos, do som argentino da campainha, tangida pelo sacristão, José Fialho, um velho doce e respeitável, pediu ao Deus sofredor e resignado, ao Deus de amor e misericórdia, como Jesus pedira ao pai celestial perdão para os algozes que o flagelaram e o crucificaram, se apiedasse do infeliz soldado, vítima da insânia de uma paixão brutal. E, como se esse generoso impulso rompesse os diques à inefável caudal de consolação, sentiu-se alvoroçada de suavíssima alegria, desse gozo incomparável da alma purificado, expungida das sombras do remorso. Seus olhos, fitos no doce semblante da imagem da Virgem, ,e aljofraram de pranto, lágrimas de reconhecimento, porque Deus se compadecera de Luzia-Honlem, ouvira a sua prece.

As últimas palavras do sacerdote, recitando, de cor, o evangelho de São João, os fiéis se ergueram com sussurro, espraiaram-se pelo patamar, sob um sol intenso, e se dispersaram em todas as direções, descendo pelo suave declive do cúmulo, onde se ergue o templo, acrópole da cidade.

No átrio, do lado da pia d'água benta, bela concha de lioz, erecta no centro da pequena capela consagrada a São João Batista, dezenas de mães piedosas esperavam o batismo dos filhinhos, crianças sadias, nédias, sorridentes, espantadas, pequeninos seres informes, moribundos, esqueléticos e arroxeados, mal podendo emitir lamentoso vagido. Do outro lado, reunidos em grupos, estavam os nubentes, rapazes e moças, de olhos baixos, confusos, vexados como delinqüentes de amores criminosos, vindo pedir absolvição ao sacramento.

Luzia permaneceu, no recinto sagrado, ajoelhada, até que se esvaziou a imensa nave; e, quando se dispunha a sair, foi atraída pelo choro das crianças e pelo doloroso contraste das mães venturosas e das mães aflitas: umas, radiantes de amor; outras, tristes. acabrunhadas de mágoa, animando, desenganadas, as inocentes vítimas, para as quais a água lustral seria a extrema-unção.

- Se lhe fosse dado - pensava ela - casar como aquelas ditosas moças, realizando o supremo anelo da mãe doente; se o seu amor fosse, como o daquelas mães, matronas beneméritas, sorrindo aos filhos vigorosos, abençoado por Deus, experimentarei o inefável júbilo de sentir-se mulher, humanizada, completa e fecunda. Não temeria que os seus filhos definhassem: defendê-los-ia contra as moléstias traiçoeiras e as intempéries, inimigas das criaturas tenras, as flores e as crianças. Dos seus seios de Pomona correria perene manancial de vida, que as pequeninas bocas rosadas sorveriam, sôfregas. E as suas entranhas virginais latejavam em alvoroço. Havia dentro dela, a insurreição dos gérmens da vida sofreados, e um clamor de instintos, entoando o hino de glória à maternidade vitoriosa.

- Vamos aos batizados - disse o vigário, chegando ao átrio, revestido de roquete rendilhado e cingindo estola roxa, de finíssimo lavor. - Os noivos não têm pressa, que esperem - acrescentou, atirando por cima dos óculos de ouro, um olhar de ironia aos grupos do outro lado.

Ao começar a cerimônia, Luzia se esgueirou e saiu, buscando a casa pelo caminho mais longo e afastado da cadeia, onde Crapiúna imprecava, ameaçador e furioso.

A mãe se arrastara até à porta do quarto, onde vigiava a panela fumegante, sobre a trempe de pedras, e ouvia Quinotinha ler, muito devagar, e por vezes soletrando, no jornal O Sobralense, a notícia dos episódios da audiência da véspera.

- Tudo isso - inquiriu a velha - está escrito aí?

- Está, sim, senhora - respondeu a rapariguinha - Aqui no fim tem um pé, que diz: "Alexandre, a vítima da perversa aleivosia do soldado, que, assim, desdoira a farda dos bravos heróis do Paraguai, companheiros de jornada gloriosa dos lendários Sampaio e Tibúrcio, é noivo de Luzia-Homem, a extraordinária mulher, que é uma das melhores operárias da construção da penitenciária."

Luzia ouviu o último tópico, e prorrompeu indignada:

- 0 quê? Pois falam de mim nas folhas?... Era só o que me faltava.

- Sim - afirmou Quinotinha sorridente - Veja!...

E as duas repetiram a leitura; a menina transbordante de alegria; ela, confusa, quase não acreditando nos seus olhos, diante dos quais dançavam as colunas e letras do jornal, mal impresso na tipografia Miragaia, a primeira estabelecida em Sobral.

- Só vim aqui mostrar isto a vosmecês. Agora, vou indo que saí quase fugida - disse Quinotinha, partindo a correr.

- Vai, anda, levadinha - murmurou a velha sorrindo. - Essa menina é uma capeta. Sabe ler letra redonda! Vejam só!... Agora que chegaste, deixa-me descansar um pouco na rede, enquanto me preparas um caldo.

Luzia conduziu a mãe, e voltou a cuidar da cozinha. Atordoada ainda pela leitura do jornal, ficou algum tempo pensativa, percebendo, então, por que toda a gente a contemplava no trajeto para a igreja, por que tanto se arrebatava Crapiúna, e os cochichos das mulheres durante a missa. Era uma vergonha estar na folha com aquele horrível nome - Luzia-Homem, tanto se lhe agarrara o cruel estigma. Ao emergir desse cismar, olhou, de soslaio, para o caminho, e, divisando um vulto de homem que se aproximava devagar, correu para o quarto com a tigela de caldo para a mãe.

Era Alexandre que se aproximava, a passo indeciso e lento.

- Ó! da casa!

- É voz conhecida - observou a velha.

- É... é... - balbuciou Luzia comovida.

- Ó! de fora! Quem é? - respondeu a enfe,rma, falando com esforço.

- Sou eu... tia Zefa.

- Eu quem?

- O Alexandre.

- Ah! meu filho! Não te dizia, Luzia?... Vai ter com ele.

Alexandre, fora do alpendre, raspava com a unha a casca seca de um dos esteios de pau branco. Deparando-se-lhe a moça, parada, indecisa, à porta do quarto, avançou para ela e a saudou com ligeiro sorriso.

- Adeus, sa Luzia.

- Adeus, seu Alexandre.

- As duas mãos geladas, hirtas, mãos de autômatos, apenas se tocaram.

- Como está? - perguntou Luzia, de olhos baixos.

- Eu! Melhor de ontem para hoje, como quem saiu da prisão.

- É horrível!...

- Nem pode fazer idéia do que é...

- Abanque-se...

- Estou bem. A demora é pouca.Vinha saber como está tia Zefa e vosmecê.

- Boas, graças a Deus.

Houve pausa cruciante de enleio e vexame para ambos. Muito pálidos, muito comovidos, não sabiam mais que dizer. Luzia, por fim, rompeu o silêncio:

- O senhor viu por aí Teresinha?

- Esteve, ontem, comigo, à tardinha. Prometeu estar aqui hoje...

- Não veio desde ontem.

- É esquisito.

- É. Não acha? O senhor não quer falar com mãezinha? Pode entrar.

Alexandre entrou no quarto, e Luzia ficou só no alpendre, inteiriçada, imóvel, contemplando o céu, em êxtase. E assim ouviu as ruidosas manifestações da alegria da mãe, as perguntas precipitadas que ela dirigia a Alexandre, as palavras de consolação, afetuosas, sinceras, embebidas de maternal carinho.

Venha sempre ver a gente - suplicava a velha, sorrindo.

Virei, sim. Virei amanhã, se Deus quiser. Só tenho medo de importunar - respondeu Alexandre, com ligeiro tom de mágoa.

Sentindo Alexandre a seu lado, quando ele saiu do quarto, Luzia, arrancada de súbito à meditação, fez um gesto de susto. A atitude do moço era a de quem hesita em dizer alguma coisa, de abrir-lhe o coração, sufocado de ternura. Vencendo, por fim, o enleio, ele tirou do bolso os cravos murchos, e, como criança medrosa recitando um recado, murmurou:

- Aqui estão estas flores, que a senhora esqueceu no baldrame da grade da cadeia... Adeus... Até outra vez...

- Até... - suspirou ela arquejante, guardando as flores no seio, e apertando-as contra o peito, em frenético amplexo, enquanto ele lhe voltava as costas, e partia.

- Seu Alexandre!...

O moço estacou ansioso, não ousando encarar nela.

- Quero pedir-lhe uma coisa - disse a moça, caminhando para ele, vagarosa e humilhada. - Não repare... no que tenho feito... Sou má de nascença... Minha sorte é fazer os outros padecerem... Tenha dó de mim... Peço... Peço-lhe que me perdoe...

- Luzia! - exclamou ele, numa explosão de ternura, estendendo-lhe os braços para ampará-la, porque ela vacilava.

- Perdoe-me - repetiu a mísera, vencida, com voz angustiada, quase à surdina, estacando diante de Alexandre, que sorria.

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Capítulo XXIII e Capítulo XXIV
Capítulo XXV e Capítulo XXVI
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