Luzia
Homem, de Domingos Olímpio
CAPÍTULO
XXV
Com irrepressível
impaciência, esperou Luzia que algum dos raros conhecidos
lhe trouxesse as últimas notícias dos acontecimentos
do dia. A cada momento, se lhe afiguravam vultos de homem, esboçados
nos cúmulos da poeira, que o vento rijo da tarde revolvia,
em redemoinhos, pela estrada, como um sinal do vento baixo, rasteiro,
sinal de seca. Talvez Alexandre livre, remido da infâmia,
radiante de ternura a lhe sorrir com amor. Tinha estremecimentos
de júbilos comedidos; a efêmera visão fugia
com as colunas de pó desfeitas, e a pobre recaía desiludida
numa dolorosa apatia de quem espera em vão.
Ninguém
aparecia. Alexandre, cheio de brio, magoado pela crueza com que
ela o tratara, não viria, contido pelo mesmo propósito
que a condenava a estar ali, a estorcer-se em voluntário
suplício, estimulada de fútil obstinação
em resistir ao impulso de correr a recebê-lo no limiar do
cárcere.
Nem vivalma.
Estavam todos, àquela hora, recebendo, em ração,
o salário da semana, pago aos sábados, nos postos
de distribuição de socorros, ou na obra da penitenciária.
Ela via as suas meninas amadas, Quinotinha e outras da tenda de
costuras, sobraçando saquinhos cheios de víveres;
as suas companheiras de trabalho aguardando a chamada, a tagarelarem
com a garridice de maracanãs nos roçados; outras tristes,
desconsoladas, recebendo os quinhões que deveriam passar
às mãos de atravessadores, em paga de adiantamentos
usurários; muitas agrupadas em torno da figura hercúlea,
vermelha e ruiva de Raulino Uchoa, com a distinção
de tipo de outra raça, entre os ouvintes, emaciados de privações,
minados pelos tóxicos das raizes de mucunã, de pau-mocó,
esboroadas em farinha. Ele costumava matar o tempo com a narrativa
pinturesea das façanhas inverossímeis de amansador
de animais bravios, orelhudos que nunca tinham visto gente, as áfricas
de vaqueiro de fama, temido dos barbatões mais ferozes das
catingas e carrascões impenetráveis, as proezas de
caçadas de onças acuadas em furnas sombrias, onde
ele as agredia, armado de uma simples azagaia. Contava das viagens
extraordinárias, aventurosas pelo sertão inundado,
da intrepidez com que afrontava o ímpeto dos rios desbordantes,
nadando em cavaletes de molungu no tempo - até parecia sonho
- em que Deus ainda se lembrava, piedoso, do Ceará, para
dar-lhe chuvas copiosas e fertilizadoras dos campos, trombas d'água
devastadoras, rotas nas cumeadas das serras, descendo em catadupas
raivosas, invencíveis, pelos telhados, encostas verdejantes,
arrastando rochedos, árvores, plantações, até
se espraiarem na planície, à maneira de um mar, arrombando
açudes, soterrando bebedores, cavados durante a seca. Descrevia
com a linguagem fantasiosa, ardente, de vigoroso colorido, com as
imagens vivas, sugestivas do rude estilo sertanejo, o fragor das
correntes raivosas de concerto com o ribombo ininterrupto da trovoada,
o relampear das nuvens negras e maciças, es ziguezagues fulvos
a riscarem o céu, com letras cabalísticas, ameaçadoras,
traçadas pela ira de Deus; o estrondo horrível dos
coriscos, o pavor do gado, haurindo, a largos sorvos; o ar saturado
de ozonona, reunido, em magotes, nos cômoros da planície
encharcada.
Fresos aos lábios
do narrador imaginoso, os retirantes mal continham lágrimas,
ouvindo-o evocar, entre episódios da vida sertaneja, fatos
e coisas, dons do céu, para sempre perdidos, água,
verdura, roçados, safras opimas, alegria e fartura, cortados
os corações pela amarga saudade de recordar tempos
felizes.
Luzia meditava,
fitos os olhos, com uns gestos de sufocado pranto, nas rubras chamas
vacilantes, desprendidas dos tições, quase apagados,
espevitadas pelo vento e crepitando nuns feixes de centelhas intermitentes.
- Ninguém
- murmurou ela, magoada pelo abandono - Nem vivalma! E Teresinha?
Que será feito daquela cabeça de vento? Onde se meteria?
Nem pensa em mim, que a espero... Ah! se ela soubesse... Qual...
está com ele, e eu, coitada de mim...
Cada vez mais
espessa, a nebrina da tarde, com uns restos de calor, entrava a
redondeza. Casas, árvores mortas confundiam-se desconformes,
no esboço da paisagem, esfumada em claro-escuro. As manchas
das sombras alastravam, como um líquido negro, devorando
os tons luminosos. No céu, puríssimo, piscavam, espertas,
álacres, como uns pequeninos olhos, estrelas e constelações.
Papa-ceial, o astro da melancolia, librava-se no poente ainda claro,
como lúcida lágrima, mensageira da dor ignota, oculta
nas profundezas misteriosas do espaço, tremeluzia prateada
como pólo das esperanças e das mágoas dos tristes,
e parecia vacilar atraída pelo sol, atufado em nuvens purpúreas.
Pela estrada,
abeirada à casa, passavam mulheres e meninos conduzindo as
rações. Vinham da cidade ou do morro do curral do
Açougue; deviam de saber de Alexandre e Teresinha, mas Luzia
não ousou interrogá-los. Apareceu, depois, Romana
à frente do grupo de bandoleiras desenvoltas. A roliça
cabocla, de dentes aculeados não ria dessa vez. Lamentava,
com as outras, a sorte de Crapiúna, que se desgraçara,
apanhado na arapuca armada ao outro. Metia-lhes intenso dó
o Belota, tão bom para elas, uma vítima da amizade,
ou das más companhias. Nada diziam em defesa de Crapiúna;
consideravam, entretanto, injustiça prenderem o outro, homem
incapaz de fazer mal e sempre, bem procedido no serviço.
Só tinha o defeito de jogar, mas o Governo devia saber que
ele não se podia manter com o reles soldo; era homem como
os paisanos. Ninguém vive enchendo a barriga de vento como
os camaleões.
- Olha a Luzia!
- observou uma - Nem parece que o homem dela foi solto!
- Vote! - atalhou
outra - A modos que estaria mais alegre se ele ficasse na cadeia
toda a vida.
- Qual o quê!
- ponderou Romana. - Aquilo é soberbia. Quer mostrar que
não faz caso de nada neste mundo. Impáfia ali é
mata. Deixa estar que há de ser castigada.
- Aquilo, mulher,
é calibre do sangue. Nem o demônio tira. Por isso é
que vive sempre apartada das outras, metida com ela cheia de coisas
como se fora uma senhora dona.
- Conheço
muitas mais melhores que não se desprezam de tratar bem e
falar com a gente.
- Só
a Teresinha lhe caiu em graça. As duas se entendem. Deus
as fez...
Esses comentários
eram feitos em voz alta, para que Luzia os ouvisse; esta, porém,
minada embora de rancor surdo a Romana que não a poupava
com insinuações perversas, duma ironia picante, e
passava por ali de propósito para molestá-la, fingia
não ouvir, resistindo ao impulso de assaltá-la, arrancar-lhe
a língua danada, esmagá-la aos pés, como réptil
nojento e venenoso.
O grupo desapareceu.
Passaram depois desconhecidos que, confundidos ao lusco-fusco, a
saudavam com boa noite.
A velha mãe
reclamava os seus cuidados, para iluminar o quarto e dar-lhe o remédio,
que, abaixo de Deus, a salvara.
- Tiveste notícias
de Alexandre? - perguntou-lhe ela, interrompendo o terço,
rezado a meia voz.
- Não
- respondeu Luzia, com fingida indiferença - Depois de saber
que estava solto, fiquei descansada... tirei dele o juizo...
- E Teresinha?
- Sei lá!...
- Estou tão
acostumada com ela, que já lhe sinto a falta quando se demora...
- Ainda é
cedo. Virá quando a lua sair...
- Sabes que
mais, filha? Acho-te hoje tão mudada!
- É que
estou maginando no que devemos fazer, agora que não temos
já obrigação de velar por ele. O coração
me pede que vamos embora; mas não podemos. Não há
remédio senão ficarmos. Será como Deus quiser.
Eu terei sempre forças para trabalhar e viver... sem ser
pesada a ninguém, apesar de me desprezarem e fazerem pouco
de mim.
- Não
fales assim, filha. Os fortes também enfraquecem quando Deus
os desampara.
- Deus! Deus
já não se lembra de nós, que somos cristãos,
que o adoramos e amamos...
- Tem fé
nele, que é pai de misericórdia.
- Para falar
a verdade, mãezinha, eu, às vezes, não acredito
em nada. A desgraça endurece o coração. Por
causa dela, os pais abandonam os filhos; maridos desprezam as mulheres
e as criaturas viram bichos, ou ficam piores que eles. Para o fim
do mundo, só falta que as mulheres não tenham mais
filhos, pois já ninguém ama.
- E eu que pensava...
- Em quê?
- Não
te quero pôr de confissão, mas... sempre desejava saber
se Alexandre nunca te falou em casamento.
- A mim?
- Pensei que
se engraçara de ti. Fiquei com a mosca na orelha desde aquele
mimo dos cravos.
- Os cravos!
É verdade que, um dia, ele me disse: "se casássemos,
iríamos viver juntos em uma casinha da ladeira da Mata-fresca."
Não respondi sim, nem não. Depois apareceu o impute,
e foi preso. Sofri mais com essa desgraça do que ele; até
parecia que todos me olhavam como ladra, e só o abandonei
quando suspeitei que era igual aos outros homens, queria bem a outra
e me enganava cruelmente. A última vez que vi ele, deixei-lhe
os cravos na grade da cadeia. Essas pobres flores, guardadas no
meu seio, como um breve milagroso, não podiam mais ficar
comigo. Ele que as desse a outra. Mais tarde arrepeiidi-me: revoltei-me
contra esse ciúme à-toa, que não me envergonhava,
porque as mulheres ricas também se enciumam; mas era uma
fraqueza. Tive ímpetos de pedir-lhe perdão. Uma voz,
que vinha daqui, do coração, aconselhava que eu quebrasse
a teima de abandoná-lo e fugir dele... Seria rebaixar-me,
fazer como essas que continuam a querer bem ao homem que as despreza,
surra e maltrata; seria contra o meu gênio de não dar
braço a torcer, de não dar parte de fraca, de sofrer
calada.
- E é
por isso que tens andado capionga? Ah! coração de
mãe adivinha.
- Era ...
- Pois foi muito
feia ação desconfiar dele.
- A gente não
suspeita por querer.
- Quando se
quer de verdade, não há suspeita que entre no coração.
Eu nunca maldei do defunto teu pai, quando ele passava meses ausente,
comprando garrotes no Piauí. Só pensava que poderia
apanhar moléstias, morrer sem confissão e em não
estar eu a seu lado para tratar dele.
- Era seu marido.
Alexandre não é nada meu. Ninguém me tira da
cabeça que, agora, limpo de pena e culpa e por ser bom, caridoso
e bonito homem, todas as mulheres querem bem a ele. Homem que sofre
é, comparando mal, como Jesus Cristo. As mulheres andam atrás
dele.
Houve, então,
longa pausa. Nos pequeninos olhos parados da velha, desanimados,
demorava uma funda impressão de surpresa, com um brilho gasto
de mágoa.
- Além
disso - continuou Luzia, com um ligeiro movimento, dos ombros -
Elas têm o mesmo direito que eu. Mas não me conformo...
Pode mais do que a minha vontade essa suspeita, que me põe
o coração escuro e mau... Sabe, mãezinha, em
que estou pensando agora?... Um horror, que até tenho vergonha
de dizer... Antes uma boa morte que descobrir a outra pessoa o que
me passa pela mente... Olhe...
E sussurrou,
com voz soturna, como um sopro de cansaço, ao ouvido da velha:
- Imagino que,
neste momento ele está com Teresinha...
- Credo! filha!
- É um
horror, não é?... Parece que estou vendo eles juntos,
alegres e satisfeitos. Ele todo agradecimentos; ela cheia de si...
Sim, porque se está solto a ela o deve... Ela tem direito
à recompensa. É justo que não se lembrem de
mim...
- Que maldade,
filha de minha alma...
- Sim, como
não hei de ser má, de ter más entranhas, se
uma cobra venenosa me morde o coração! E sou culpada
de tudo por ser desconfiada... soberba... maldita... Luizia-Homem
é o que eu sou... uma bruta desalmada...
- Que coisa
sem pé nem cabeça? Estou estranhando isso... Sossega...
Teresinha, tão boa para nós, não tarda aí,
quando a lua nascer.
- Veja aquele
clarão... Já está fora.
- Ela foi cheia
tresantonte. Aquilo é fogo no pasto.
Havia, com efeito,
no horizonte, um clarão de incêndio, onde surgia, lentamente,
um enorme disco.
- Qual - exclamou
Luzia, com uns gestos violentos, e um amargo tom de sarcasmo - Aquela
mesma? Onde está, está muito bem... gozando o que
muito lhe custou ganhar... Não se me dava de apostar...
- Não
faças juizo à toa - disse a velha, com energia - maldando
da outra...
- Não
maldo por querer. É uma coisa que me vem à cabeça
e que me tira o juizo... Ah! Eu não era assim. Não
era. Em nada pensava, nada tinha, que me afligisse ou me tirasse
noites de sono. Não fora o seu puxado, vivia sossegada, pensando
somente no dia d'amanhã, em ganhar a vida. Era feliz, consolada
com a minha sorte.
- Não
eras, não. Nunca te vi assim... São repiquetes de
mau gênio que passam depressa. Agora, se não te dás
bem aqui, se te sentes mal, iremos, como querias, para as praias.
Raulino irá conosco...
- Para a praia!
Não vou mais, não... posso. Hei de ficar aqui até
quando Deus permitir... Até... morrer. Quem sabe?
- Aí
está! Não te entendo. Há bocadinho, falavas
nessa viagem que não te saía da cabeça... Agora...
- Pensei melhor.
- Qual, filha!
Andas tão atarantada que já não pensas coisa
com coisa.
- É mesmo,
mãezinha. Até parece que estou lesa. Ah! se eu pudesse
esquecer tudo como se fora um sonho, desses que a gente dá
graças a Deus e cria alma nova, quando se acabam... ou se
desperta...
- Tu estás,
mas é muito alterada. Vem dormir, anda, que Teresinha rebenta
por aí sem demora, e as duas vão levar a noite grazinando
como duas amigas.
A velha Josefa
benzeu-se ao terminar o terço, interrompido pelo diálogo
com a filha. Ergueu-se apoiada ao portal, e gemendo, tanto lhe custava
distender as articulações emperradas; e, arrastando
as grandes chinelas, dirigiu-se, claudicante, para a rede. O quarto
estava iluminado pela candeia mortiça, crepitando na cantoneira,
asseado, muito arrumado; as malas encostadas à parede, duas
redes armadas nos ângulos, e, no chão, a esteira de
Teresinha, a pele de carneiro, um simples tapete para se não
resfriarem os pés da enferma. De uma corda, pendiam várias
peças de roupa.
- Deixa-me -
disse a velha, arfando de fadiga e afastando a filha que pretendia
ajudá-la. - Deixa-me andar sozinha para experimentar as minhas
forças. Se me acostumo a estar sentada e a andar pelas mãos
dos outros, fico mesmo enferrujada de todo... Ah! Se Nossa Senhora
me tirasse esta canseira, podia eu dizer que estava sarada... Isto
vai devagarinho... Moléstia é como preaca de frecha:
entra no corpo de repente, e custa a sair.
- Tenho fé
- disse Luzia, mais calma e com meiguice, abrindo a rede para que
ela se sentasse - isto vai passar.
Quem a viu e
quem a vê, nota logo grande melhora.
- Tenho esperança
de rolar mais alguns dias por este mundo, e só peço
a Deus que me não faça sofrer, quando chegar a minha
hora. Bem sei que não hei de ficar para semente... Tu, que
és o meu sangue, tomarás o meu lugar, sendo o que
eu fui, uma mulher de bem, trabalhadeira e temente a Deus.
- Não
fale nisso.
- Como não
fala!, se não me sai da cabeça o pensamento de morrer,
deixando-te sozinha, sem encosto, sem proteção.
- Quando tal
acontecesse, quando Deus me castigasse com essa desgraça,
eu teria coragem para suportá-la. O trabalho não mete
medo a Luzia-Homem.
- Bate na boca,
filha. Luzia, mulher e bem mulher, fraca como as outras, é
o que tu és.
Ela sentia a
verdade das palavras da mãe. A ansiedade, as dúvidas,
as suspeitas cruéis em tumulto absurdo e monstruoso comprovavam
a sua debilidade de mulher amorosa. Compreendia, então, a
perversidade de Gabrina, vingando-se de Alexandre por meio da declaração
falsa; compreendia por que havia mulheres criminosas, que se rebaixavam
satisfeitas, que se depravavam despudoradas, arrojadas, por impulsos
de paixão irresistivel, fora da senda do dever, olvídando
honra, família e o decoro, que é o esmalte das almas
boas para tombarem, desfigurados o coipo e a alma, até à
lama do enxurro humano, como nojentos dejetos do vicio.
Havia, entre
essas míseras, culpadas por depravação moral,
desviadas pela educação, contaminadas pelo contágio
do exemplo. A maioria, porém, era de inconscientes, sem imputação,
dignas de perdão como pensava ela, que não podia expungir
do coração os maus instintos, que o dominavam e ali
grelavam, como ervas daninhas, à sombra propícia da
suspeita e do despeito. E Luzia que padecera pela prisão
do homem amado, que sentira nas próprias carnes o estigma
com que o pretendiam marcar, que seria capaz de fazer por ele o
extremo sacrifício da própria vida, seria capaz de
estrangulá-lo, de arrancar-lhe as entranhas, de cevar-se
no seu sangue, à simples idéia de vê-lo nos
braços de outra mulher.
- Eu morreria
descansada - disse a mãe, suspirando - se te deixasse casada
com Alexandre, que seria incapaz de te dar má vida.
- Casada! -
retrucou a filha, arrancada, de súbito, às tristes
idéias. - Quem quererá se casar comigo?...
- Não
digas semelhante coisa, tamanhas asneiras... A mim, me palpita o
coração que amanhã terás vergonha dessas
suspeitas, porque Alexandre virá e tudo passará, como
se nada houvesse acontecido. Tu, então, arrependida, reconhecerás
que, quando moça está influída para casar,
não tem o juizo assente; vê tudo pelo avesso, de pernas
para o ar, e fica mouca aos conselhos. No meu tempo, as raparigas
não pensavam nisso; quando davam fé estavam na igreja
com o moço escolhido pelos pais. Hoje, está tudo mudado...
Meninas. que ainda cheiram a cueiros, já têm opinião
e caprichos como qualquer mulher feita. Deus louvado, sempre foste
muito bem procedida e obediente. Veio-te, agora, essa influência
de querer bem... Já não veio sem tempo... já
tardava e não tem nada de mal; mas, é preciso ter
juizo para não desmanchar o que esta tão bem principiado.
Vê bem o que te digo; deixa-te de histórias e teimas.
Se procurares com uma candeia, não encontrarás outro
tão do meu gosto.
- E se ele não
me falar mais em casamento?
- Paciência!
É porque não tinha de ser.
- E eu?...
- Tu!... Pois
não és mulher forte, capaz de viver sozinha, sem ser
pesada a ninguém, trabalhando para comer?... Não és
Luzia-Homem?...
- Eu não
sou nada - murmurou Luzia, abraçando a mãe e escondendo-a
quase na onda de cabelos revoltos. - Sou uma infeliz, que está
sendo castigada, sou uma doida, que não sabe o que faz...
Perdoe-me, mãezinha da minha alma...
- Ai que me
tiras o fôlego - gemeu a velha, sufocada pela veemente carícia
da filha. - Não reparas que só tenho de gente a figura
com a pele sobre os ossos? Deixa estar que tudo há de sair
bem, se Deus não mandar o contrário... Dá-me
outra colher de remédio. Quero ver se pego no sono. Fecha
a porta e vem dormir.
- E Teresinha?
- Deixa estar
que ela não se perde. Sabe de olhos fechados o caminho da
casa.
- Tem razão,
mãezinha. O melhor é esperar sossegada o que tem de
acontecer.
Depois de dar
o remédio à mãe e acomodá-la para passar
a noite, Luzia saiu ao terreiro a passear em roda da casa, a contemplar
a lua, que ascendia em pleno esplendor. Interrogou o céu
e a terra, silenciosos, impassíveis; espreitou em todas as
direções, até aonde a sua vista alcançava,
e prescrutou os mais leves rumores que a viração lhe
trazia em rajadas violentas. Nada correspondia à sua ansiedade.
A solidão lhe recusava alento às débeis esperanças
e conforto às mágoas, que os conselhos maternais não
conseguiram aplacar de todo. Entretanto, a confidência à
mãe idolatrada, fora um transbordamento salutar, e ela experimentava
a sensação de desafogo, como se o coração,
libertado de cruciante aperto, pudesse pulsar sem se, contentar
em estreito âmbito. Ligeiro torpor lhe invadia os membros
que ela tentava em vão estimular, distendendo-os em contorções
preguiçosas a lhe desenharem, com harmonioso relevo, as linhas
vigorosas, exuberantes de graça.
- Não
teimes em esperar, filha - observou a mãe - até fora
de horas. - Anda, e fecha bem a porta. Eu não descanso enquanto
estiveres aí a rondar de um lado para outro, como quem está
rnalucando.
- Amanhã
é domingo, mãezinha. O luar está tão
bonito que a gente tem pena de se deitar. Parece dia...
- Que horas
são?
- O Setestrelo
já está alto e as Três Marias estão descambando.
Ainda agorinha tive um susto! Correu uma zelação,
que parecia uma tocha.
- Deus a guie.
É sinal de desgraça. Anda, anda, vem para dentro,
que a friagem te pode fazer mal.
Luzia obedeceu.
Depois de fechar a porta, tomou a bênção à
mãe; e, desatando os cordões da saia branca, estirou-se,
extenuada, na esteira, onde Teresinha dormira tantas noites. E,
todavia, mole de fadiga, não pôde conciliar, calmamente,
o sono. Torcia-se, mudava de postura, como se o seu corpo robusto
excedesse ao molde ali deixado pela amiga ausente, cuja recordação,
engastada em seu cérebro, era o carvão da suspeita,
comburente, agora, em brasa de remorso.
Ela imitava
as desenvolturas da outra, da criatura dedicada, que renunciara
a todos os seus hábitos para participar, com a placidez de
uma consciência satisfeita, da pobreza e das tristezas daquele
mísero lar. Julgava ouvir passos cautelosos, abafados pelo
ruído das folhas agitadas pelo vento, e Teresinha e Alexandre
lhe apareciam como espectros, exprobando-lhe a injusta desconfiança,
e exigindo reparação. Acusada por si mesma, Luzia
não se podia defender; a culpa era demasiado evidente. Abandonada
pelas energias musculares, que eram o seu estigma, oberada de vergonha,
ela suplicou, em atrição, lhe perdoassem; e, como
se um filtro purificador lhe lavasse a alma da mácula do
cruel pecado, adormeceu no delicioso enlevo de um sonho de ventura
inefável.
CAPÍTULO
XXVI
Não acabara
Luzia de pentear os cabelos que, depois de vendidos eram tratados
com maior carinho, quando chegou Raulino, conduzindo a troixa de
mantimentos e uma grande cabaça d'água.
- Muito bom
dia, sa Luzia!
- Bom dia, seu
Raulino. Você vem hoje carregado.
- É que
aumentei a troixa com a cabaça e contrapeso que lhe mandaram.
- Para mim?
- Sinharsim.
Meti os pés da rede quando vinham quebrando as barras e maginei
que vosmecês estariam carecidas d'água. Como estou
morando, agora, na cadeia nova, para botar sentido nas obras, de
noite, enchi a cabaça na jarra e fui à cidade receber
as rações porque as do armazém da Comissão
são melhores e medidas com lavagem. Foi uma lembrança
mandada por Deus, porque, chegando lá, topei na porta o Alexandre...
- Alexandre!
- Em carne e
osso. Depois de dar-lhe mão de amigo, pedi-lhe que me aviasse
depressa para poder eu chegar aqui cedinho. Ele, meio banzeiro,
perguntou por vosmecê, pela tia Zefinha e pelos outros conhecidos.
Coitado! Está branco, com a cara encerada, que mete dó
ver, tão desfeita uma criatura, que vendia saúde...
- Está
doente?
- Como quem
passou obra de um mês enterrado naquela prisão porca
e fedorenta que mais parece um chiqueiro que morada de cristãos.
- É horrível!
- Mas a demora
foi dar notícias de vosmecê, ficou ligeiro e alegre
que não parecia o mesmo. Mediu... Mediu é um modo
de falar: fez a olho, as rações. Era o que a mão
dava. Ele por uma banda e eu pela outra. E não fomos mais
longe porque já era uma dor de consciência. O homem
quer bem a vosmecês mesmo de verdade. Fez perguntas e reperguntas;
quis saber do puxado da tia Zefinha; se sa Luzia ainda estava na
obra, se passou lá trabalhando o dia de ontem, um horror
de coisas que fui respondendo só para dar-lhe gosto. Agora
está como quer. Há males que vêm para bem. Melhorou
no emprego e recebeu uma dinheirama de coiro e cabelo.
Luzia desembrulhava
os gêneros e os arrumava, aparentando indiferença à
loquacidade de Raulino, que falava pelos cotovelos. Os sertanejos
ladinos são, em geral, admiráveis narradores, de imaginação
acesa, fecundos em descrição, cujos menores incidentes
são debuxados com vigor.
- Que é
isto? - perguntou Luzia, indicando um guardanapo de linho amarrado
nas quatro pontas.
- Isto é
pães - respondeu Raulino. - Quando eu vinha vindo, a dona
do Promotor chamou-me e deu-me essa frouxinha, dizendo por aqui
assim: "Leve isto para Luzia, seu Raulino, diga-lhe que estou
muito agradecida pelo trabalho da roupa para os pobres, uma perfeição
de costura. Diga-lhe mais que apareça: desejo muito ver os
meus bonitos cabelos."
Luzia baixou
os olhos, e estremeceu ligeiramente.
- Ora, - continuou
o sertanejo - eu não entendi bem o que a dona queria dizer,
mas fiquei malinando que também gosta, como todo o mundo,
dessa sua cabeleira, comparando mal, parecida com as das mães-d'águas
encantadas, lavando-se na lagoa em noite de luar, com os cabelos
de vara e meia boiando e embaraçando-se nos aguapés
cheirosos, como eu vi com estes olhos, que a terra fria há
de comer, de uma feita, que eu estava de tocaia, esperando patarrões
brabos. A noite estava clara que nem dia. Cansado de esperar e resfriado
pela fresca do sereno, passei por uma modorra.
Quando dei fé,
ouvi o barulho de um corpo espalhando a água; levei a lazarina
à cara, e, pensando que eram os patos, ia papocar fogo. Divulguei,
então, o corpo de uma mulher, luzindo molhado e nadando como
uma marreca. Ainda fico frio quando me lembro dessa visagem. Os
meus cabelos se arrepiam como espinho de cuandu. Quis gritar, mas
tinha um nó na garganta. Passou-me uma névoa pelos
olhos e deixei cair a espingarda. Quando dei acordo de mim, afirmei
bem a vista para ver o que era. A lagoa estava serena como um espelho.
Tudo quieto. Só ouvia sapos ateimando: foi, não foi,
e os cururus roncando. Não quis mais saber de histórias;
apanhei a arma e meti o pé na carreira. Só tomei fôlego
quando avistei a casa. Sa Luzia a modos que não me acredita?
Luzia sorriu,
com branda ironia.
- Pois fique
sabendo - continuou Raulino, com muita convicção -
que não foi só a mim que ela apareceu. O Isidro, rapaz
destemido e caçador de fama, também viu a mãe-d'água
de uma feita que estava tarrafeando curimatãs. Por sinal
que não apanhou uma triste piaba naquela lagoa, que tinha
mais peixe do que água. Voltou da pescaria com as mãos
abanando, capiongo, meio leso e contou o caso à noiva, moça
(falando com o devido respeito) bonita como uma imagem. Ela ficou
desconfiada e quis, por fina força, ir, fora de horas, à
lagoa. O rapaz fez todo o possível para tirar-lhe da cabeça
semelhante doidice; disse-lhe que era um perigo porque as mães-d'água
são ciumentas das moças que estão para casar,
que houvera muita desgraça por causa disso; pediu, rogou
por tudo quanto havia de mais sagrado. Ela prometeu não ir,
mas cada vez mais desconfiada teimou, porque mulher, quando malda,
não chega ao moirão com duas razões. Fugiu
de casa quando estavam todos recolhidos e foi à lagoa. Não
lhe conto nada. Ao amanhecer, deram por falta da moça. Foi
um Deus-nos-acuda. Ninguém dava notícias dela. O noivo
ficou como um doido; mas, lembrando-se da história da mãe-d'água,
pôs-se a rastejar e encontrou o rasto da chinelinha da infeliz,
bem marcado no caminho orvalhado.
Acompanhou-o
com outras pessoas, também rastejadoras, e foram bater na
beira d'água. Estavam maginando no que teria acontecido,
quando ouviram uma risada de mangação. Pensaram que
era a moça escondida para zombar deles. Bateram o mato em
redor, o pacoval, cheio de ninhos de azulões e papa-arroz.
Nada. Os passarinhos fugiam espavoridos, e um bando de garças,
alvas como capuchos de algodão, voava remando no ar. Os homens
olharam uns para os outros sem saberem o que fizessem. O Isidro,
mais morto do que vivo, numa aflição de meter dó,
encarou n'água como se quisesse ver-lhe o fundo. Quem dera
a risada? Aonde fora a moça parar? Onde se escondera? O rasto
ali estava provando que ela não voltara para trás...
- Mas... é
verdade isso? - inquiriu Luzia, com terror.
- Acredite,
como se estivesse vendo. Eu não sou homem de inventar, nem
de dizer uma coisa por outra. Ouça o resto. Um vaqueiro velho
foi buscar uma cuia, pregou dentro uma vela acesa e largou-a em
cima d'água. A cuia vagou à toa, de um lado para outro,
conforme assoprava o vento; foi, depois, seguindo para o centro,
até que ficou parada, obra de cinquenta braças de
distância. Nisto, o Isidro, num abrir e fechar d'olhos, tirou
o gibão de coiro e largou o braço n'água. Chegando
ao lugar, onde a cuia estava parada, mergulhou, e... Que horror!...
Nem gosto de me lembrar... Num instantinho, voltou à flor
d'água; tomou fôlego e mergulhou outra vez... Quando
deram fé, ele surgiu com um corpo nos braços e nadou
para a terra como um desesperado. Vinha como um bicho feroz, arquejando,
enlameado, coberto de ervas e raizes encharcadas. Os outros foram
ao seu encontro para ajudá-lo. Trazia a noiva morta. Os olhos
azuis da defunta estavam esbugalhados e vidrados. A boca meia aberta,
parecia querer falar. Tinha as mãos juntas sobre o peito,
aqui, lá nela, e amarradas em nó cego, com as duas
tranças de cabelos loiros, compridos como os seus, sa Luzia...
- Que desgraça!
Credo! Morreu de ciúmes!...
- Que ciúmes!
Foi afogada pela mãe-d'água. A malvada amarrou-lhe
as mãos para que a pobre se não pudesse salvar, pois
nadava como uma piaba. Era dela a risada que ouviram; ria da sua
obra maldita... Depois dessa tragédia, os comboieiros, que
navegam para aquelas bandas e passam de noite pela beira da lagoa,
ouviram arrepiados de medo, aquela risada medonha.
- Isso é
busão! - disse do quarto a velha, atenta à história.
- Ah! tia Zefa,
vosmecê estava acordada?
- Desde madrugada.
- Busão
ou não - ponderou Raulino - o caso é verdadeiro. Quando
a gente não pode explicar as coisas diz que é busão;
mas o fato é que há no oco deste mundo velho muita
coisa, que nem doutores, nem padres conhecem. E, com esta, vou andando.
Habituada às
histórias extraordinárias do imaginoso sertanejo,
Luzia experimentou, todavia, forte abalo, ouvindo a reprodução
da lenda, sempre viva nas recordações da infância,
dura quadra despercebida, de gozos facilmente olvidados, porque
é bem verdade que só o sofrimento tem o poder de cavar
na memória sulcos indeléveis. É por isso que
há estranho encanto, espécie de amargura e de saudade
em exumar tristezas, em reviver lances de desgraça, como
narrar crises de moléstia, lutas entre a vida e a morte,
os dissabores, as desilusões, as mágoas suportadas
com resignação, com heroismo, que se nos afiguram
obstáculos transpostos, vitórias alcançados
contra a fatalidade, os cruéis ínimigos ocultos, intangíveis,
à maneira das tiranias onipotentes das forças misteriosas
que engendram, nas terríveis profundezas do infinito, as
calamidades, os cataclismos e os assombrosos fenômenos que
assinalam o eterno combate entre o que destrói e o que produz.
- Espere pelo
café, seu Raulino - disse Luzia.
- Estava quase
requerendo - tornou o sertanejo. Por essa bebida, sou como macaco
por banana. No tempo da fartura, eu era capaz de tomar uma canada
de café por dia.
- Não
viu, por ai, Teresinha?
- Nharnão,
pensei que ela estava aqui.
- Esperei-a
toda a noite.
- Deixe estar
que aquela não se perde com duas razões.
- Sempre estou
com cuidado nela.
- O Alexandre
disse-me que ela esteve com ele desde que foi solto até à
tardinha, quando o deixou com promessa de se encontrarem aqui hoje.
- Aqui! - exclamou
Luzia, alvoroçada.
- Sinharsim.
Pelo menos, foi o que ouvi da própria boca dele - afirmou
Raulino, tirando uma grande pitada de caco do corrimboque de chifre
de carneiro.
- É para
dar que pensar - observou a velha.
- O mais certo
- considerou Raulino - é ter ela ficado no quarto da Gangorra,
pensando, talvez, que, preso Crapiúna, vosmecês não
precisassem mais de companhia. Poderiam dormir descansadas sem receio
de alguma traição do excomungado.
- Se soubesse
onde era a casa, iria buscá-la, tanta falta me faz... Coitada!
Aquilo só é ruim para si.
- É pena,
sa Luzia, porque ela teve bons princípios e foi bem afamilhada.
Mas, caiu-lhe em cima a desgraça. Eu também tive a
mesma sorte. Meus avós eram gente de consideração,
bem arranjada; e, como me vê, poderia comer em pratos de ouro,
se não... Para que lembrar tristezas que não pagam
dívidas? Tive currais cheios de vacas de leite; apanhava
meus oitenta bezerros por ano; possuía bons cavalos de sela,
e o demônio, em figura de mulher, levou tudo. Hoje, ando a
trabalhar para não morrer de fome, com vergonha de me dar
a conhecer à parentalha que tenho aqui mesmo em Sobral. Fui
nascido e criado na ribeira do Jaguaribe. Ainda é do meu
sangue essa gente de Xerez. Somos todos Furnas...
- Que feio nome?
- É meio
esquisito, mas é de gente muito graúda, de muitas
posses e honrarias, espalhada por estes sertões numa parentalha,
que nunca mais se acaba, como a gente dos Olhos-d'Agua do Pajé,
os Rochas e os Cavalcantes...
Agora, vou mesmo
que já tocou a primeira vez da missa do dia.
- Se mãezinha
tivesse com quem ficar, iria também à missa.
- Não
seja essa a dúvida, filha - observou a enferma. - Basta que
me deixes ao alcance da mão um caneca d'água.
- E vou mesmo.
Há muito que não piso na igreja. É mesmo um
pecado...
Raulino despediu-se,
sorvendo, com estrépito, outra pitada, e partiu no seu passo
de andarilho, bamboleando num chouto mole, miúdo, o corpo
erecto e musculoso.
Preparada a
refeição da mãe, Luzia ataviou-se, com o seu
melhor vestido, um roupão de cassa lisa, que, amarrado à
cintura, lhe desenhava as formas graciosas, e saiu na direção
da cidade.
Não era
a missa um pretexto para sair; mas, ao profundo sentimento religioso
se aliava a casquilhice inocente de exibir os belos vestidos, as
últimas fantasias da arte decorativa da mulher, importadas
do Recife, uns trajes vaporosos de renda e cambraia, feitos com
requintes convencidos de elegância, com raro gosto, pelas
adoráveis criaturas que os vestiam. Nada havia de censurável
em que as moças da cidade, metidas durante toda a semana
em casa, ocupadas ern trabalhos sedentários de renda e labirinto,
se desforrassem desse retraimento nas festas religiosas, celebradas,
sempre, com extraordinário esplendor. Imitando à gente
rica, Luzia, além do intuito de cumprir um piedoso dever,
nutria a esperança de encontrar Teresinfia ou Alexandre,
obter notícias deles, ou, pelo menos, encurtar a distância
que os separava.
Ao passar pela
rua do Menino Deus, ela esmorceu a marcha; aproximou-se do armazém
da Comissão e olhou atentamente para dentro, erguendo-se
nas pontas dos pés, para ver, através da multidão
de indigentes, aglomerados à porta, a criatura querida.
Quando avistou
a cadeia, cujas grades negras estavam cheias de presos amaciados
e lívidos, sentiu-se a moca cortada de terror. Crapiúna
estava ali dentro, como fera cativa, devorando-a, talvez, naquele
momento, com os olhos injetados por uma congestão de cobiça
e raiva impotente.
- Moça,
ó! moça! - disse um menino que se aproximou dela correndo.
- Ali tem um preso que quer falar com vosmecê.
Luzia repeliu,
com um gesto enérgico de negação, o esperto
pequeno, que insistia no chamado, e apressou o passo para distanciar-se
da sinistra prisão, onde uma voz rouca e vibrante, como um
rugido, a voz de Crapiúna, bradava suplicante, e amaldiçoava:
- Luzia, Luzia!...
Meu coração, meu amor da minha alma, tem pena de mim!
Perdoa-me pelo amor de Deus! Vem! É um instantinho... Não
te farei mal. Vem! Só duas palavras!... Ah! Não me
ouves; não queres saber de mim!... Mulher do diabo!... Deixa
estar, safada, amaldiçoada, que não ficarei preso
toda a vida... Nem que tu vás para o inferno...
O soldado gritava,
estorcia-se delirante, agarrado às enormes barras de ferro
do portão, brandindo-as, abalando-as com inútil esforço
para quebrá-las, arrancá-las dos gonzos chumbados
ao portal de granito.
Perseguida pelo
eco dos brados de insânia desesperada, ela penetrou no templo,
como num abrigo inexpugnável, defeso à maldade humana,
à curiosidade vexatória daquela gente que, lá
fora, a considerava criatura impassível de coração,
e se apiedava do prisioneiro, cuja dor feroz lembrava a simpatia
dos grandes infortúnios.
A imensa nave
da matriz desbordava de fiéis, amontoados, em confusa massa
inquieta, alumiada pelos jorros de crua luz, que se projetavam das
arcadas laterais, recentemente rasgadas nas formidáveis paredes
de pedra e cal, sobre os mantos alvíssimos das mulheres ajoelhadas.
No fundo resplendia a capela-mor, o tabernáculo, esculpido
pelo cinzel do mestre João Francisco, o entalhador, com duas
séries de elegantes colunas coríntiasl, enleadas de
parreira, a vinha do Senhor, e rematadas de folhas de acanto, todas
brancas, de figos doirados e sustendo a arquitrave e a curva do
arco que emoldurava a grande tela de Bindsay, a Assunção
de Nossa Senhora. Mais abaixo, dominando a banquete de prata maciça
e os bustos dos Apóstolos, emergia, dentre palmas, dentre
flores, a imagem da Virgem da Conceição, a padroeira
da cidade, coroada de oiro, de palrarias, quase escondida no amplo
manto de veludo azul, marchetado de estrelas, bordado com carinho
pelas órfãs da Casa de Caridade. As chamas dos círios
esmoreciam na suntuosa claridade da manhã, como pálidas
placas, dissolvendo-se em ténues fios de fumo, a sumirem-se
no ambiente saturado de incenso e de um odor agro de cera derretida.
Luzia, sobressaltada
pela imprecação minaz do soldado, cujas palavras brutais
lhe contundiam o cérebro, pensara encontrar na casa de Deus,
aos pés da Mãe Santíssima, refúgio e
conforto à sua alma atribulada. Mas, ali mesmo a perseguia
a protérvia da multidão. De pé, hesitante na
escolha do lugar para ajoelhar-se, era alvo de olhares, que a lapidavam,
trocados entre as mulheres, que desembuchavam a malícia atroz
dos ruins sarcasmos. Uma crispação de surpresa, de
curiosidade assanhada agitou a onda viva que a cercava. Raparigas
e meninas, matronas e velhas, fitaram-na com insistência,
imobilizadas de pasmo, e de boca em boca perpassou ininterrupto
murmúrio, cochichado de todos os lados:
- É a
Luzia!... A Luzia-Homem!...
Prostrada à
meia-sombra de um confessionário de jacarandá, salientemente
adornado de arabeseos estranhos, absorta em sincera prece, ela ouviu
a missa, celebrada pelo vigário Vicente Jorge de Sousa, cuja
voz sonora e forte, recitando as orações do ritual,
dominava os pigarros, as tosses incontinentes e o choro clássico
das crianças que aguardavam o batismo, ocultas sob os lençóis
das mães, que ali mesmo, as amamentavam. Rezou pela mãe
entrevada, por Teresinha; rendeu graças a Deus pela libertação
de Alexandre; e quando se ergueu a Hóstia, ao ruído
de peitos percutidos, do som argentino da campainha, tangida pelo
sacristão, José Fialho, um velho doce e respeitável,
pediu ao Deus sofredor e resignado, ao Deus de amor e misericórdia,
como Jesus pedira ao pai celestial perdão para os algozes
que o flagelaram e o crucificaram, se apiedasse do infeliz soldado,
vítima da insânia de uma paixão brutal. E, como
se esse generoso impulso rompesse os diques à inefável
caudal de consolação, sentiu-se alvoroçada
de suavíssima alegria, desse gozo incomparável da
alma purificado, expungida das sombras do remorso. Seus olhos, fitos
no doce semblante da imagem da Virgem, ,e aljofraram de pranto,
lágrimas de reconhecimento, porque Deus se compadecera de
Luzia-Honlem, ouvira a sua prece.
As últimas
palavras do sacerdote, recitando, de cor, o evangelho de São
João, os fiéis se ergueram com sussurro, espraiaram-se
pelo patamar, sob um sol intenso, e se dispersaram em todas as direções,
descendo pelo suave declive do cúmulo, onde se ergue o templo,
acrópole da cidade.
No átrio,
do lado da pia d'água benta, bela concha de lioz, erecta
no centro da pequena capela consagrada a São João
Batista, dezenas de mães piedosas esperavam o batismo dos
filhinhos, crianças sadias, nédias, sorridentes, espantadas,
pequeninos seres informes, moribundos, esqueléticos e arroxeados,
mal podendo emitir lamentoso vagido. Do outro lado, reunidos em
grupos, estavam os nubentes, rapazes e moças, de olhos baixos,
confusos, vexados como delinqüentes de amores criminosos, vindo
pedir absolvição ao sacramento.
Luzia permaneceu,
no recinto sagrado, ajoelhada, até que se esvaziou a imensa
nave; e, quando se dispunha a sair, foi atraída pelo choro
das crianças e pelo doloroso contraste das mães venturosas
e das mães aflitas: umas, radiantes de amor; outras, tristes.
acabrunhadas de mágoa, animando, desenganadas, as inocentes
vítimas, para as quais a água lustral seria a extrema-unção.
- Se lhe fosse
dado - pensava ela - casar como aquelas ditosas moças, realizando
o supremo anelo da mãe doente; se o seu amor fosse, como
o daquelas mães, matronas beneméritas, sorrindo aos
filhos vigorosos, abençoado por Deus, experimentarei o inefável
júbilo de sentir-se mulher, humanizada, completa e fecunda.
Não temeria que os seus filhos definhassem: defendê-los-ia
contra as moléstias traiçoeiras e as intempéries,
inimigas das criaturas tenras, as flores e as crianças. Dos
seus seios de Pomona correria perene manancial de vida, que as pequeninas
bocas rosadas sorveriam, sôfregas. E as suas entranhas virginais
latejavam em alvoroço. Havia dentro dela, a insurreição
dos gérmens da vida sofreados, e um clamor de instintos,
entoando o hino de glória à maternidade vitoriosa.
- Vamos aos
batizados - disse o vigário, chegando ao átrio, revestido
de roquete rendilhado e cingindo estola roxa, de finíssimo
lavor. - Os noivos não têm pressa, que esperem - acrescentou,
atirando por cima dos óculos de ouro, um olhar de ironia
aos grupos do outro lado.
Ao começar
a cerimônia, Luzia se esgueirou e saiu, buscando a casa pelo
caminho mais longo e afastado da cadeia, onde Crapiúna imprecava,
ameaçador e furioso.
A mãe
se arrastara até à porta do quarto, onde vigiava a
panela fumegante, sobre a trempe de pedras, e ouvia Quinotinha ler,
muito devagar, e por vezes soletrando, no jornal O Sobralense, a
notícia dos episódios da audiência da véspera.
- Tudo isso
- inquiriu a velha - está escrito aí?
- Está,
sim, senhora - respondeu a rapariguinha - Aqui no fim tem um pé,
que diz: "Alexandre, a vítima da perversa aleivosia
do soldado, que, assim, desdoira a farda dos bravos heróis
do Paraguai, companheiros de jornada gloriosa dos lendários
Sampaio e Tibúrcio, é noivo de Luzia-Homem, a extraordinária
mulher, que é uma das melhores operárias da construção
da penitenciária."
Luzia ouviu
o último tópico, e prorrompeu indignada:
- 0 quê?
Pois falam de mim nas folhas?... Era só o que me faltava.
- Sim - afirmou
Quinotinha sorridente - Veja!...
E as duas repetiram
a leitura; a menina transbordante de alegria; ela, confusa, quase
não acreditando nos seus olhos, diante dos quais dançavam
as colunas e letras do jornal, mal impresso na tipografia Miragaia,
a primeira estabelecida em Sobral.
- Só
vim aqui mostrar isto a vosmecês. Agora, vou indo que saí
quase fugida - disse Quinotinha, partindo a correr.
- Vai, anda,
levadinha - murmurou a velha sorrindo. - Essa menina é uma
capeta. Sabe ler letra redonda! Vejam só!... Agora que chegaste,
deixa-me descansar um pouco na rede, enquanto me preparas um caldo.
Luzia conduziu
a mãe, e voltou a cuidar da cozinha. Atordoada ainda pela
leitura do jornal, ficou algum tempo pensativa, percebendo, então,
por que toda a gente a contemplava no trajeto para a igreja, por
que tanto se arrebatava Crapiúna, e os cochichos das mulheres
durante a missa. Era uma vergonha estar na folha com aquele horrível
nome - Luzia-Homem, tanto se lhe agarrara o cruel estigma. Ao emergir
desse cismar, olhou, de soslaio, para o caminho, e, divisando um
vulto de homem que se aproximava devagar, correu para o quarto com
a tigela de caldo para a mãe.
Era Alexandre
que se aproximava, a passo indeciso e lento.
- Ó!
da casa!
- É voz
conhecida - observou a velha.
- É...
é... - balbuciou Luzia comovida.
- Ó!
de fora! Quem é? - respondeu a enfe,rma, falando com esforço.
- Sou eu...
tia Zefa.
- Eu quem?
- O Alexandre.
- Ah! meu filho!
Não te dizia, Luzia?... Vai ter com ele.
Alexandre, fora
do alpendre, raspava com a unha a casca seca de um dos esteios de
pau branco. Deparando-se-lhe a moça, parada, indecisa, à
porta do quarto, avançou para ela e a saudou com ligeiro
sorriso.
- Adeus, sa
Luzia.
- Adeus, seu
Alexandre.
- As duas mãos
geladas, hirtas, mãos de autômatos, apenas se tocaram.
- Como está?
- perguntou Luzia, de olhos baixos.
- Eu! Melhor
de ontem para hoje, como quem saiu da prisão.
- É horrível!...
- Nem pode fazer
idéia do que é...
- Abanque-se...
- Estou bem.
A demora é pouca.Vinha saber como está tia Zefa e
vosmecê.
- Boas, graças
a Deus.
Houve pausa
cruciante de enleio e vexame para ambos. Muito pálidos, muito
comovidos, não sabiam mais que dizer. Luzia, por fim, rompeu
o silêncio:
- O senhor viu
por aí Teresinha?
- Esteve, ontem,
comigo, à tardinha. Prometeu estar aqui hoje...
- Não
veio desde ontem.
- É esquisito.
- É.
Não acha? O senhor não quer falar com mãezinha?
Pode entrar.
Alexandre entrou
no quarto, e Luzia ficou só no alpendre, inteiriçada,
imóvel, contemplando o céu, em êxtase. E assim
ouviu as ruidosas manifestações da alegria da mãe,
as perguntas precipitadas que ela dirigia a Alexandre, as palavras
de consolação, afetuosas, sinceras, embebidas de maternal
carinho.
Venha sempre
ver a gente - suplicava a velha, sorrindo.
Virei, sim.
Virei amanhã, se Deus quiser. Só tenho medo de importunar
- respondeu Alexandre, com ligeiro tom de mágoa.
Sentindo Alexandre
a seu lado, quando ele saiu do quarto, Luzia, arrancada de súbito
à meditação, fez um gesto de susto. A atitude
do moço era a de quem hesita em dizer alguma coisa, de abrir-lhe
o coração, sufocado de ternura. Vencendo, por fim,
o enleio, ele tirou do bolso os cravos murchos, e, como criança
medrosa recitando um recado, murmurou:
- Aqui estão
estas flores, que a senhora esqueceu no baldrame da grade da cadeia...
Adeus... Até outra vez...
- Até...
- suspirou ela arquejante, guardando as flores no seio, e apertando-as
contra o peito, em frenético amplexo, enquanto ele lhe voltava
as costas, e partia.
- Seu Alexandre!...
O moço
estacou ansioso, não ousando encarar nela.
- Quero pedir-lhe
uma coisa - disse a moça, caminhando para ele, vagarosa e
humilhada. - Não repare... no que tenho feito... Sou má
de nascença... Minha sorte é fazer os outros padecerem...
Tenha dó de mim... Peço... Peço-lhe que me
perdoe...
- Luzia! - exclamou
ele, numa explosão de ternura, estendendo-lhe os braços
para ampará-la, porque ela vacilava.
- Perdoe-me
- repetiu a mísera, vencida, com voz angustiada, quase à
surdina, estacando diante de Alexandre, que sorria.