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Luzia Homem, de Domingos Olímpio

 


CAPÍTULO XIX

Teresinha voltou, no dia seguinte, ao beco da Gangorra, à hora da revista, quando os soldados estavam reunidos no quartel, estabelecido em uma velha casa fronteira à cadeia. No sobressalto de quem se esconde, esgueirando-se para evitar a curiosidade da vizinhança, entrou no quarto, e se fechou por dentro. O silêncio aumentava-lhe o susto. Foi preciso repoisar para adquirir coragem.

A porta, que dava para o quintal, estava entreaberta, como ficara na véspera. O caixão velho lá estava, regurgitando de traços, lavado de luz intensa, um contraste da penumbra do aposento, sem o menor sinal de haver sido desviado, ou da presença de ser humano naquele sítio.

Com o peito ofegante, pálida de aflição, o ouvido atento ao menor ruído, a moça ajoelhou, e, com um esforço sobreposse, ergueu um dos ângulos do caixão, muito pesado, muito cheio; e, sustentando-o de encontro ao ombro, fendeu com mão trêmula, o espaço entre o fundo e o chão. Seus dedos crispados experimentaram repugnante contacto. Retirou, rapidamente, a mão, como se a houvesse passado pela polpa ascorosa de um réptil. Um calefrio varou-lhe os membros, as forças abandonaram-na, e o caixão caiu, percutindo o solo com um som cavo.

Transida de pavor, ela esperou alguns momentos, imóvel e atenta, sempre de joelhos, apoiada ao muro. Recobrado o ânimo limpou com a fímbria da saia o copioso suor que lhe inundava o rosto, respirou agoniada, como se lhe faltasse ar; abanou-se com o vestido, movendo de um para outro lado a cabeça, quase desfalecida. A bolsa de Crapiúna estava ali. Não havia dúvida; ela havia sentido o contacto eletrizante dos pêlos do coiro de onça. Aguilhoada pela curiosidade de examinar-lhe o conteúdo, não ousou de fazê-lo: seus músculos flácidos e fatigados não poderiam repetir a exploração. Além disso, começou a sentir a dolorosa junção inguinal e o aperto do peito, que a acometia toda vez que era assaltada por fortes abalos.

- Ah!... Se eu fosse mulher de talento, como Luzia - murmurou, desalentada, erguendo-se a custo.

Certa da permanência da prova do crime, restava escolher meio de utilizá-la. Seria necessário surpreender Crapiúna ali, quando voltasse em busca de dinheiro e obter o auxílio de um homem bravo e forte, capaz de entestar com o soldado, prendê-lo e conduzi-lo à presença da autoridade. Lembrou-se de Raulino Uchoa que era vigoroso e arrojado, quando menos pela brava fascinação das histórias que contava da vida aventurosa. Era, demais disso, amigo de Alexandre e devotado a Luzia, que o salvara dos chifres do toiro sanhudo. Era, porém, indispensável que ela e ele ficassem escondidos de tocaia, esperando, horas, talvez dias inteiros, a ocasião propícia.

Ocorreu-lhe, então, procurar o sargento Carneviva, que ela o sabia em excesso rigoroso para com os soldados, e andar muito prevenido com Belota e Crapiúna, por serem jogadores incorrigíveis. A essa idéia, duma felicidade que farte, ela vibrou de júbilo, ela vibrou de cólera, misturados, na mesma expansão impetuosa, os nobres anelos de vitória e antegozo cruel da vingança.

- Hás de Pagar o novo e o velho - exclamou ela, com ameaças, e triunfante - Hei de mostrar, ladrão safado, quem é tábua de bater roupa e quanto vale esta cachorra!...

E partiu em busca do sargento.

A essa hora, estava Luzia trabalhando na oficina de costuras do morro do curral do Açougue.

Confiara-lhe Dona Inacinha a superintendência das meninas taludas, depois de verificar a sua perícia, o seu exemplar procedimento, o recato de maneiras e linguagem, tão raros naquela quadra de carência de nutrição física e moral. Seria ela um exemplo vivo para aquelas pobrezinhas, condenadas à mendicidade, órfãs ou abandonadas pelos pais, expostas ao contágio da infecção, que diluía as baixas camadas da sociedade, desfibradas pelo inominado flagelo.

Entre elas estava Quinotinha, um futuro de formas, em cujas linhas, ainda angulosas, se debuxavam, nuns longes de curvas graciosas, os primeiros sinais da puberdade. Luzia acolheu-a com simpatia; e, quando soube que era a menina libertada por Alexandre da sanha monstruosa de Crapiúna, dedicou-lhe os mais carinhosos cuidados. Fruía deliciosa sensação ao contacto dela, ao exercitar-lhe as pequeninas mãos delicadas no manejo da agulha e no ajustamento das peças de costura, sensação de mãe testemunhando a florescência da força e da inteligência nos tenros rebentos do seu ser. Ela a distinguia das outras meninas, desasseadas, esgrouvinhadas, como pombas privadas do arminho das penas cândidas, de olhos toldados, como se por eles já houvesse passado a sombra funestra do crime; muitas indiferentes às carícias, aos conselhos, de grandes olhos parados, ardendo num brilho fulvo de febre, e sempre voltados para o telheiro onde roncavam, fumegando, os enormes caldeirões de comida. Quase todas pareciam esgalhos enfezados, condenadas ao estiolamento precoce, a se consumirem, varas estéreis, na coivara de vícios, que se ia alastrando, como incêndio em matagal ressequido, e mais não era outra coisa essa massa de famílias, erradicadas dos lares, desagregadas e descompostas.

Contemplando Quinotinha a trabalhar, Luzia se embebia no enlevo de um sonho, onde se dissolviam as amarguras, as tristezas do presente, e surgia, entre resplendores suaves de aurora, o desejo da maternidade, dar-lhe Deus uma filha assim, formosa e sadia. E já considerava, num gozo, em toda a sua sublimidade, esse prazer inefável de mãe, quando a estrelava ao seio fremente, lhe amimava os cabelos de menina e a beijava com afã, com a meiguice, o doce frenesi das mães amorosas.

Evolava-se o sonho, e ela considerava que a rapariguinha poderia servir de companheira à mãe enferma e a ela mesma, como irmã caçula, se os tempos não fossem tão ruins; poderia repartir, com ela, a sua pobreza, o seu quinhão parco, como fizera com Alexandre. Chegou mesmo a falar-lhe nisso, mas Quinotinha respondeu-lhe que era a mais idosa de oito irmãos, uma escadinha de meninos que terminava num de peito, e não podia abandonar a mãe, coitada, já abandonada pelo marido.

Depois disso, Luzia lhe teve mais amor, e mesmo mais sorrisos, e mesmo mais cuidados. Havia, entre ambas, a solidariedade do mesmo infortúnio, de sentimentos idênticos, dedicação e amor filial, com a diferença de ser a menina uma criatura ingênua e feliz, pela inconsciência da miséria, e ela mulher rebelada contra a sorte, assaltada de absurdas aspirações, tendo o coração apertado entre mágoas, dissabores, esperanças desfeitas, murchas como os cravos rubros de Alexandre.

Uma tarde, terminada a tarefa, Quinotinha saiu acompanhada de Luzia, que lhe notava algo estranho no semblante, de ordinário tranquilo e risonho.

Caminharam em silêncio, algum tempo.

- Há muitos dias - disse a menina, enteada e hesitante que ando para lhe dizer uma coisa.

- Você?! - exclamou Luzia, com interesse, com surpresa.

- Sim, eu mesma...

- Vamos lá... Diga...

- Vosmecê conhece seu Alexandre? Aquele moço que está preso por causa do furto da Comissão?...

- Conheço, sim.

- Quero muito bem a ele... Sa Luzia também gosta dele? Luzia não respondeu; e a menina continuou:

- Todo o mundo gosta daquele homem...

- Mas... a que vem isso?

- Eu lhe conto. Sa Luzia sabe onde é a casa de Chica Seridó? Pois fui lá, outro dia, buscar um remédio, que a mamãe mandou pedir e estava esperando entretida com a Gabrina, aquela mocinha bonita, que também gosta de seu Alexandre, quando ela me largou de repente, e foi para o terreiro conversar com uma pessoa. Espiei para fora e fiquei tremendo de medo: era o Crapiúna, aquele soldado que de uma feita, quase se pegou com seu Alexandre... Fiquei quieta e, então, ouvi ele falar muito zangado: ralhava tanto, que fiquei com pena de Gabrina. Ele dizia: - Você não tem palavra. Ficou de ir lá em casa e me enganou! Ela respondeu por aqui assim: - A Chica estava com os olhos em riba de mim, que não me deixou um instante. - Você está mentindo, menina - tornou ele a dizer-lhe com muita má-criação. - Nem por eu lhe dar o par de brincos de ouro e os cortes de chita... - Mas eu não fiz o que você disse? - respondeu a rapariga, também com maus modos. Não fui jurar em casa do Delegado? ...

- Vamos. Conte-me tudo - irrompeu Luzia, ansiosa e alvorotada, devorando a menina com o olhar em fogo. - Vamos, diga a verdade.

- Não estou mentindo - balbuciou, Quinotinha, espavorida pelo gesto ardente da mestra - Creia-me por esta luz...

- Não tenho receio. É para bem dele, do pobre, que está penando inocente...

- Espere. Deixe-me lembrar. Ela disse mais: - "Que queria você, seu Crapiúna?" - "O que, me prometeu... Olha, diabinho, tu me tens custado os olhos da cara e se não fosse porque..." - Aqui, ela fastou pra trás, e disse-lhe: - "Se é por causa da porqueira destes brincos e daqueles molambos, pode levar tudo. Basta a dor de consciência de ter alevantado um falso... Ainda quer mais?!..." - Crapiúna, estava-se vendo, ficou fulo de raiva e em termos de arremeter para ela...

- Está bem certa do que dizes, Quinotinha?!...

- Eu? Como em Deus estar no céu... Por sinal que ele abandonou, quando ela disse que, se duvidasse, não se dava de contar tudo; que mentira por pique, para se vingar de Alexandre... que não fazia caso dela... O soldado ficou calado um instantinho e pediu-lhe que não fosse mazinha, que se falasse, seria presa com ele, desgraçando-se os dois para fazerem benefício a um homem que, além de tudo, a desprezava por causa de outra mulher. Se ficasse quieta e fizesse o que ele queria, poderiam viver, sem ninguém desconfiar, como Deus com os anjos. - "Olhe - disse ele por fim - se eu fosse malvado, poderia encalacrá-la... Mas não faço isso, porque você é o meu único amor da minha alma." Continuaram a conversar, mas tão baixinho, que não pude ouvir, até que a Chica Seridó gritou lá de dentro por ela... Então, eu disse comigo: Que gente malvada! Vou contar tudo a sa Luzia. Não contei logo, porque tive medo que ralhasse comigo por eu andar escutando conversa de gente grande...

- Ralhar contigo?!... Pois se foi Deus quem te colocou ali para seres testemunha da verdade... Fizeste muito bem, Quinotinha; assim é que faz uma menina bem-ensinada. Nem podes imaginar o bem que fazes a duas criaturas: a ele e a mim. A mim, que libertaste de um grande peso que me esmagalhava o coração.

E enlaçou a menina nos braços robustos; conchegou-a ao peito, convulso, que arfava, com alvoroço, desesperadamente beijou-a em febril transporte de ternura, como beijam aos filhos as mães amorosas.

- Agora - disse a menina, libertando-se dos afagos de Luzia - deixe-me ir que é tarde... Não diga nada., nem que lhe contei...

- Vai descansada...

Quinotinha partiu a correr, e Luzia continuou o caminho para casa.

A lucidez da narrativa, duma segurança minuciosa, atestava a sinceridade da menina. Alexandre, pensava Luzia radiante, está salvo, salvo da infâmia e reabilitado para ela, por sua vez libertada das sombras cruéis da suspeita. Ele ressuscitara, e, da prisão nojenta, ascendia para o céu das suas aspirações, aureolado pelo sofrimento. E ela abençoava a voz demoníaca, aquela voz sedutora e íntima, que lhe falava com a sonoridade mística de um canto angelical, e a impelia docemente para o mártir, repetindo: "Vai, curva-te como escrava e culpada, unge as suas mãos generosas com as tuas lágrimas, porque o amas."

Se Alexandre a amasse, ele perdoar-lhe-ia; ela era, agora, culpada de haver desconfiado, por mesquinho impulso de despeito, por ter recusado ao pobre a consolação da sua presença, a caridosa visita diária à prisão, e por não resistir, à crueldade pueril de devolver-lhe as pobres flores murchas, símbolo triste de afetos mortos.

CAPÍTULO XX

Teresinha conversava com a tia Zefinha, numa rútila impaciência de olhos alegres, quando Luzia chegou a casa. Falava de Alexandre, amaldiçoando a justiça que o conservava na cadeia, havia mais de um mês, por causa de imputes feitos pelo hediondo soldado, de parceria com a Gabrina, doidivanas, positivamente, quase a despencar-se no mundo, arrastada pela falta de juizo e os péssimos exemplos, porque a morada da Chica Seridó era lugar de reunião de gente mal reputada, fregueses de suas mezinhas e feitiçarias.

O semblante claro e, claramente, expansivo de Luzia, denunciou-lhe a vontade que lhe alvoroçava o coracão.

- Como vem mudada! - exclamou Teresinha - Você parece que viu passarinho verde?

- É porque tenho de quê, respondeu Luzia, beijando as mãos descarnadas da mãe.

- Vamos lá. Conte-nos isso, que também tenho boas novidades.

- Já sei quem é o ladrão...

- Ora! Isso é velho para mim, como a serra dos Cocos.

- Sabia então?...

- Olé! Não sabia, mas suspeitava.

- Pois eu sei. Foi mesmo uma coisa mandada por Deus.

E repetiu, sem reservas, a revelação de Quinotinha.

- Franqueza por franqueza - disse - Teresinha, resoluta - Eu também tenho muito que dizer, coisas que me andam embuchando há muitos dias. Primeiro que tudo, fiquem sabendo: Crapiúna está preso...

- Preso?!... - exclamaram, a um tempo, Luzia e a velha.

- A onça deste pasto está muito bem guardada no xilindró... E quem conseguiu isso?

- Esta sua criada - afirmou Teresinha, com ênfase, batendo no peito, com largo gesto de contentamento.

Contou, então, como descobrira o esconderijo do dinheiro, as aflições suportadas com heroísmos fanfarroneou a coragem, o sangue frio, apesar de fraca, não era mofina, e, mais não morrera de terror quando se viu a sós com o malfazejo soldado, e passear a narrar a entrevista com o sargento Carneviva.

- Que quer você? - disse ele, apurado, riscando com proficiência grave, mapas e tabelas.

- Vim aqui dar parte... - respondeu, perturbada pela severidade do homem de má cara, muito barbada e muito fechada.

- Anda depressa, que estou muito ocupado. Comando o destacamento na ausência do tenente, que foi fazer uma diligência, e não tenho tempo para trelas.

Teresinha, muito sobressaltada, denunciou-lhe a cena do jogo em casa de Belota e a briga de Crapiúna com os paisanos.

- Bem desconfiava eu que aqueles malandros tinham casa de jogo na Gangorra - rebentou o sargento, com cólera, cheio de censura disciplinar - Deixa estar essa corja que os arranjarei... É só isso?

Logo que a moça começou a narrar o episódio de ter descoberto o dinheiro no quintalzinho do seu quarto, o sargento, em crescente interesse, largou a régua, tirou cautelosamente o tira-linhas da boca, onde o sustinha atravessado, e pejado de tinta, e cravou indagadores olhos na delatora.

- Como é isso? - inquiriu, com surpresa - Então aquele homem que está preso?...

- Inocente, meu senhor; limpo como saiu da barriga da mãe...

- Dele - atalhou, rapidamente, Carneviva, que não queria dúvidas - Veja o que está dizendo mulher...

- Vossa senhoria, se quiser, pode ver com os seus próprios olhos... Depois, eu não tenho necessidade de mentir...

- Lá isso é história. De enredos de mulheres estou farto. Vocês, quando têm raiva dos soldados inventam e mentem como deslambidas. Enfim, vou indagar o caso da jogatina. Oh! Cabecinha!...

- Pronto, seu cadete.

- Que é do Crapiúna?

- Está na guarda da cadeia.

- E o Belota?

- Também.

- Mande rendê-los e que venham já à minha presença.

Cabecinha partiu, e Teresinha fez um movimento para retirar-se e evitar a acareação com os soldados.

- Não senhora - ordenou Carneviva - Fique para deslindarmos já esse negócio.

- Poucos minutos decorreram. Crapiúna entrou primeiro, e não pôde disfarçar a surpresa de encontrar, na sala do sargento, a moça, transida de susto pelo vexame. Belota chegou, depois, com ares humildes, tímidos.

- Que história foi essa - perguntou-lhe Carneviva - do jogo em sua casa? Já lhe não havia dito que, à primeira denúncia, você, seu Belota, ajustava comigo novos e velhos?

- Saberá vossa senhoria - balbuciou Belota - que é menas verdade... Até tenho andado doente...

- Qual doente!... Você quando faz maroteira, dá-lhe logo na fraqueza...

- Por Deus, seu cadete...

- Vamos lá. Quero saber tudo... E, se mentir, arranco-lhe com a chibata, o coiro do lombo...

- Vossa senhoria me perdoe... Foi, foi... uma brincadeira... a... a leite de pato...

- Bom. E o senhor? - perguntou o sargento, voltando-se para Crapiúna, que dardejava sobre Teresinha, olhos ferozes.

- Eu não sei nada respondeu ele, secamente, e sem hesitação.

- Ah!... Então você não esteve jogando em casa de Belo a com os vagabundos Zoião, Candinho e Vicente da Henriqueta?

- Vossa senhoria não ande atrás de histórias desta mulher, que mente como uma cadela vadia.

- Então o senhor - atalhou Teresinha, pulando, irritada pela injúria - não esteve quase se pegando com os outros? Não foi aqui o seu Belota, quem apartou a briga!?... Não é verdade que, quando eles foram embora, saltou para o meu quintal paredes-meias?...

O sargento impôs-lhe silêncio, com um gesto rápido e enérgico. Crapiúna empalideceu, e Belota, espantado, sem atinar com a significação da palavra da moça, interrogava o camarada com o olhar.

- Vamos seu Belota - ordenou o sargento - Bote para fora o que sabe. Vamos que temos panos para mangas...

Belota, sempre cheio da intransigência das ameaças do sargento, acobardou-se e contou o caso, amenizando-o com disparatadas justificativas. Fora uma brincadeira de amigo, uma coisa à-toa, que terminara num bate-boca.

- E aqui este mestre?

Crapiúna olhava, de soslaio, para Belota.

- Saberá vossa senhoria - respondeu este - que o seu Crapiúna não estava...

- Você está mentindo seu diabo...

- Quero dizer... sim senhor... Não estava não, senhor...

- Veja bem o que está dizendo.

- Não estava no... no... princípio: chegou; quase no fim... Mas, juro que não vi ele saltar o muro...

- Bom. Chegou no fim, hem!?

- É menas verdade - interrompeu Crapiúna, num ímpeto de audácia insolente - Este homem diz isto para se desenrascar.

- Não negue, seu Crapiúna - retorquiu Belota - O senhor estava. Eu, mesmo contra mim, falo a verdade como homem. Se porém, eu disser que vi você saltar o muro, minto porque deixei o senhor sozinho em minha casa, e fui ao quartel.

- E você, seu Crapiúna, o que foi fazer ao quintal vizinho?...

- Já disse a vossa senhoria que é mentira dessa língua danada.

- Também será mentira que tirou debaixo de um caixão, uma bolsa de coiro de onça?...

Crapiúna ficou lívido, e atirou, desesperadamente, um gesto de ameaça a Teresinha.

- A bolsa? - exclamou ele, maquinalmente, tomado de pasmo.

- Sim, senhor - afirmou o sargento, com ironia. - A bolsa onde guarda o seu dinheiro, a sua botija encantada.

Traído pela inesperada revelação e irritado pelos contínuos gestos afirmativos de Teresinha, Crapiúna, a custo, sofreava os estos da cólera, que lhe queimava o coração.

Eu sei lá dessa história de bolsas... - respondeu, aparentando serenidade - É verdade que cheguei no fim do divertimento; tive uma turra com o Zoião, uma bobage... Mas...

Carneviva levou o apito à boca, e tirou dele três trilos agudos e violentos. Apareceram imediatamente, quatro soldados.

- Bem. Vamos pôr isso em pratos limpos. Ah! Eu bem suspeitava que havia falcatrua... Todos os dias uma queixa. Furtinho para aqui, gatunagem para acolá... Cambada que é a vergonha da farda!... Corja de ordinários...

Depois, pondo à cinta uma garrucha, ordenou aos soldados:

- Vamos! Acompanhem-me com estes dois homens: desarmem a esses coisas ruins.

À aproximação dos camaradas, Crapiúna recuou, e levou imediatamente a mão ao sabre: mas, o sargento lho arrebatou com um movimento rápido, com um movimento enérgico.

- Olha lá!... Não se engrace comigo, seu Crapiúna... Observou ele - Vamos e muito direitinho... Comigo não se brinca, vocês sabem...

Partiram em escolta, acompanhados por magotes de pessoas, no trajeto pela rua. Chegando ao quarto de Teresinha, Carneviva ordenou que se afastassem, e entrou com os soldados ficando à porta uma sentinela. Nessa ocasião, chegou o subdelegado, atraído pelo ajuntamento e informado da ocorrência, passou a dar a busca.

A bolsa foi retirada debaixo do caixão e aberta. Havia nela dinheiro, jóias e alguns fragmentos de papel-escrito, versos de canções populares e o rascunho de uma carta a Luzia.

O subdelegado inquiriu, então, Crapiúna: - De quem é esta bolsa?

- Não sei - respondeu o soldado, impávido de furor. - Pergunte a essa mulher que é a dona da casa...

Os camaradas presentes afirmaram que a bolsa era muito conhecida; pertencia a Crapiúna.

- Bem - concluiu a autoridade - Vou levar o fato ao conhecimento do delegado, a quem está entregue o inquérito, para lavrar o auto. O senhor sargento terá a bondade de mandar recolher os homens incomunicáveis, e comparecer com as testemunhas na delegacia.

Luzia e a mãe ouviram a narrativa, num enlevo de alegria, num enlevo de pasmo, com as almas nos olhos, como se lhes revelassem casos fabulosos, casos sobre-humanos. Era possível que Teresinha houvesse realizado tão assombrosa façanha?

- Vocês não imaginam - continuou ela - como tinha povo na rua. Parecia procissão, quando levaram os soldados para o xadrez. E a cara do Crapiúna?... Ficou verde, amarelo, encarnado como lama pimenta; botava-me uns olhos ensanguentados que me varavam... Eu, que vi o bicho bem seguro, ferrei também os olhos nele como quem diz - arre diabo!... Quando passou por mim, resmungou: - "Deixa estar sua aquela, que me pagará... Diz à tua pareceira Luzia-Homem, que não hei de ficar toda a vida preso..." Senti um frio no coração, quando o malvado disse isto.

- E agora - perguntou Luzia - vão soltar já Alexandre?

- Sei lá... Disserarn-me que comparecesse amanhã na delegacia para a trapalhada de depoimentos e não sei que mais.

- Ah! Teresinha - gritou Luzia, com um abraço veemente, radiante - Você é um anjo, um anjo!

- Que anjo, que nada!... Sabe o que sou? Mulher e bem mulher, de cabelo na venta. Ninguém mais faz, que não pague com língua de palmo. Chegou o meu dia... com dois proveitos num saco: Crapiúna preso e Alexandre limpo de pena e culpa... Foi uma sorte! Viva o glorioso Santo Antônio! Ah!... se eu tivesse foguetes! Xii... tô... tó!... Viva Santo Antônio!... Vivô... Vivô!...

E, lestes, escarnicando do celerado, saciada de vingança, fazendo piruetas que lhe agitavam os seios, contorciam os quadris e enrolavam, em espirais, as saias em torno do corpo esbelto, desnudando as pernas ágeis, toda ela palpitando, toda ela a se mexer em requebros sensuais de dança, com sapateados frenéticos, e vastas chibanças de triunfo, e rindo e cantando, numa alegria louca, a sua figurinha escanzelada de retorta providencial se destacava, evidente, no fundo iluminado pelo rubro disco da luz cheia, a surgir, lentamente, em magnífica ascensão.

CAPÍTULO XXI

Propagou-se, rapidamente, a notícia da prisão de Crapiúna, como verdadeiro autor do roubo do armazém da Comissão de socorros. Não havia dúvida. Um conjunto de provas esmagadoras: a bolsa reconhecida por todos os camaradas; as declarações de Belota que, insistindo em ignorar o fato, confessava causar-lhe admiração o dispor ele de tanto dinheiro para perder ao jogo grandes somas e fazer prodigalidades com raparigas e pagodes; o depoimento de Teresinha, confirmado, de uma irrefutabilidade minuciosa; o rascunho da carta ameaçadora, entregue por Luzia ao delegado, no dia da prisão de Alexandre, e os testemunhos de Chica Seridó e Gabrina, encerraram o soldado numa culpa evidente, indiscutível.

Seridó confessou que nutrira sempre instintiva repugnância ao soldado, por seus modos atrevidos com as mulheres, muita falta de respeito, caçoadas inconvenientes; nunca, porém, lhe passara pela cabeça que ele fosse capaz de tão feia ação, como essa de levantar um impute que clamava aos céus e - o que lhe parecia ainda mais grave - reduzir uma rapariga inocente e bestalhona, como Gabrina, para ajudá-lo na obra nefanda de culpar um inocente.

- A pobrezinha fez isso - dizia ela ao delegado, na sala de audiência da câmara municipal, apinhada de curiosos - sem maldade; e (para que hei de estar com histórias mal contadas?) porque andava inclinada para seu Alexandre, depois dos benefícios que dele recebeu. Ponha o caso em si, meu senhor. Vossa senhoria sabe que mulher, quando vira a cabeça, é capaz de tudo. Quem quer bem não toma conselhos; não enxerga desgraças, nem se importa com perigos. Ela tinha no coração aquele amor encoberto e não me disse nada. Esta bichinha que aqui vê, esta não-sei-que-diga disfarçou tão bem que eu, macaca velha, nada maldei. Metia a mão no fogo por ela, creia-me... Aquele malvado homem, percebendo que a pobre estava enciumada, seduziu-a, com promessas de mimos, a tomar uma vingança do moço. Eu sabia que seu Crapiúna gostava de Luzia-Homem, tanto assim que, uma noite, me pediu para ir fazer uma reza, na casa dela para abrandar-lhe o coração. Fui com ele e mais o seu Belota, muito contra a minha vontade; mas (para que hei de negar?) fui e não pudemos fazer nada, porque estiveram acordadas até fora de horas. Saberá vossa senhoria que sou mulher de propósito; mesmo contra mim, falo a verdade. Fui fazer a reza, mas não há mal nisso. É com as minhas orações e mezinhas que arranjo o bocado para a boca, sem ser pesada a ninguém, Deus louvado.

- Que oração forte era essa? - perguntou-lhe o Promotor.

- Se eu disser sem ser rezando, mesmo de verdade e com fé, ela perde a virtude.

- E acredita nela?

- Ah! seu doutô, queria ter de anjos para acompanharem minha alma, as pessoas beneficiadas por ela. Não foi uma nem duas... Muita senhora dona de família e consideração...

Enquanto a Seridó falava, Gabrina, de pé, ao lado dela, cravava os olhos sombrios na fímbria do casaco de cassa, cujas rendas enrolava e destorcia maquinalmente, entre os dedos hirtos. Os músculos do seu rosto, lindamente oval e duma cor lindamente morena, emoldurados em cabelos negros e crespos, não traíam abalos violentos: estavam imóveis, e apenas se percebia pelas narinas dilatadas e palpitantes, a sua respiração entrecortada de suspiros abafados.

Contemplavam todos a mocinha de formas flexíveis e delicadas, apenas livres das linhas incompletas da infância e desdobrando-se em contornos graciosos; e, lastimando achar-se ela complicada no crime, todos a envolviam numa atmosfera de simpatia que os impulsos passionais despertam.

Por fim, perguntou-lhe o Promotor:

- É verdade o que diz esta senhora?

- É, sim senhor - respondeu com voz que mais parecia um sopro.

- Foi Crapiúna quem lhe insinuou esta calúnia?

- Foi, sim senhor...

- Por que não resistiu?

Gabrina ficou calada.

- A senhora amava Alexandre?

Como se o coração, muito tímido, lhe despejasse no seio a repoisada torrente de lágrimas, ela prorrompeu em convulso pranto, escondendo o rosto no seio da Seridó, que a amparou, que a enlaçou nos braços, com maternal carícia.

- Bem, bem - concluiu o Promotor - Não a martirizarei mais. Sossegue...

E, voltando-se ao Delegado, disse-lhe, em voz baixa:

- Realizaram-se as minhas previsões. Temos a eterna história, um drama de amor...

Nesse momento, entrou Alexandre no recinto, fechado por uma balaustrada, e destinado aos jurados. Seu olhar aceso de febre, luzindo na sombra das pálpebras roixeadas, fixou-se piedoso na febril rapariga; e, no rosto macilento, assomou um ligeiro sorriso amargurado.

- Aproxime-se - ordenou o Delegado.

Ele deu alguns passos vacilantes para a frente, perturbado pelas mal contidas exclamações de dó, que chegavam aos seus ouvidos sequiosos, naquele instante, do caricioso eco de vozes amigas. Os que ali estavam eram todos curiosos, enviscados pelo escândalo, ou indiferentes e desocupados, procurando diversão no desenlace do inquérito policial, à exceção de Teresinha, que o contemplava silenciosa, sentada a um canto.

Muitos comentavam os estragos que a infecta enxovia produzira na saúde do moço.

- Senhor Alexandre - disse-lhe o Promotor, a voz sonora e grave - um conjunto, de indícios, de elementos de prova bem acentuados e persuasivos, determinou o vexame que sofreu. Ia sendo vítima de um desses erros que, infelizmente, não são raros na história dos tribunais e que, por lamentável lacuna, não encontram nas leis, meios completos de reparação. Órgão da justiça, lamento, sinceramente, fosse recolhido por infundadas suspeitas de tão grave imputação; teve, porém, a ventura de sair ileso dessa provacão suportada com heroísmo. O verdadeiro criminoso está descoberto. Nada inipede, agora, que a justiça proclame a sua honra restaurada com a liberdade que, neste momento, lhe é concedida.

Perpassou pelo ambiente, um sussurro de aprovação unânime, porque, desmascarado o ardil do soldado, ninguém nutria dúvidas sobre a autoria do crime.

Não era possível que um moço bem procedido e de abonados precedentes fosse capaz de tão vil ação. Por outro lado, todos confessavam, então, justificados suspeitas contra Crapiúna, quando não fosse por qualquer motivo definido, nela má cara do homem, seus costumes dissolutos, ou por mero palpite. Não fora, entretanto, o feliz acaso de surpreender Teresinha o esconderijo do dinheiro, ou, como ela afirmava sinceramente, a intervenção do glorioso Santo Antônio, o inocente seria denunciado, processado e condenado. E toda aquela gente aprovaria, com igual entusiasmo, a justiça inexorável.

O Delegado, voltou-se para o Carcereiro e, indicando-lhe a Seridó e Gabrina, ordenou:

- Recolha aquelas mulheres.

- O quê?!... - exclamou a Seridó apavorada - Pois eu sou presa por falar a verdade? Que culpa tenho, seu Delegado, do malefício dos outros? Eu, que não matei, não roubei, que nunca fiz, mal a ninguém... que não tenho rabo de palha!...

Gabrina olhava em torno espantada, como se despertasse atordoada pelo nevoeiro de mau sonho. Estancaram-se-lhe as lágrimas e sucederam-lhes violentos soluços.

Quando o Carcereiro se aproximou, e a intimou com a frieza fulminante do ofício, dizendo: "Vamos", acometeu-a o terror da prisão. E enquanto a Seridó implorava piedade, justificando-se com protestos de inocência, lamentos e súplicas, ela, com desenvoltura de criança que se refugia no seio paterno, agarrou-se a Alexandre.

- Perdoe-me, seu Alexandre - suplicava, com gritos vibrantes - Não deixe que me levem presa! Que vergonha!... Não, não é possível!... Peça por mim; valha-me pelo amor de Deus!... Ai!... ai!... que eu morro!... Quem me acode!... Minha gente, tenha pena de mim, de uma pobre filha sem mãe?... Ah! seu Alexandre da minha alma, pelo leite que mamou, peça por mim que lhe quero tanto bem... Valha-me, valha-me por tudo quanto há de mais sagrado. Peço por alma de sua mãezinha, pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo... Sim, por tudo, pela luz dos seus olhos, pela vida de... de... Luzia!...

Esgotadas, nesse esforço sobre-humano, as derradeiras energias, a pobre inteiriçou-se; seus braços froixos penderam dos ombros de Alexandre; a cabeça, escondida nos cabelos desgrenhados, inclinou-se sobre o seio e ela caiu ernborcada, como um corpo desarticulado e morto, aos pés do moço, transido de espanto e piedade.

Acercaram-se da mísera algumas mulheres e a Seridó, que pedia um caneco dágua, um capucho de algodão queimado, e a esfregava, com força, sobre o peito.

Alexandre dirigiu-se ao Promotor:

- Se lhe mereço alguma coisa, seu, doutô, tenha compaixão daquela pobre. Ela não soube o que fez... É quase uma criança...

- Tem razão - observou o Promotor, convindo docemente - É possível evitar... Demais seria uma violência inútil.

CAPÍTULO XXII

Para se arrancar à comoção forte daquela cena que o amolecia, e apertava o seu tão chupado organismo, Alexandre deixou o salão das audiências, seguindo-o, de perto, Teresinha, muito zangada pelo ato de generosidade que ele praticara em favor de Gabrina.

- Com aquela carinha de enfinta, - murmurava ela - de alfenim, que com qualquer coisa se derrete, não me engano. É muito mazinha de bofes. Com aquela parte de gostar de você, não se lhe dava de ser causa do muito que penou na cadeia. O amor deu-lhe pra maldade. Era bem-feito que ela fosse gemer e chorar no xadrez para saber se é bom levantar falso testemunho aos outros. Não há nada melhor que a gente ser fingida: faz quanta perversidade há e no fim de contas, basta se derreter em choro e ter um vágado para ser perdoada. Eu, não me importa de dizerem que tenho más entranhas. Quem me fizer paga, tão certo como dois e dois serem quatro. E então a Chica Seridó? Como ficou piedosa e inocente, ela que é a alma danada de tudo... Aquilo tem mais artes e ronhas que diabos nas profundas do inferno... Fosse comigo, ficavam as duas ensinadas para toda a vida.

Alexandre não se justificou. Continuaram a caminhar: ele silencioso, ela resmoneando a censura. Quase ao pé do armazém da Comissão, ele perguntou, inesperadamente:

- E Luzia?

- Foi trabalhar - respondeu Teresinha, amuada.

- Por que não veio com você?

- Porque teve vergonha de se expor diante de tanta gente. Disse-me que estava alcançado o que desejava: a sua liberdade; nada mais tinha que fazer. Não pregou olhos a noite inteira, esperando que amanhecesse o dia de hoje. A tia Zefinha não cessava de agradecer a Deus. Se visse como a pobre alminha estava contente... Nem parecia a enferma que conhecemos, engelhada, encolhida, cortada de dores...

- Coitadinha! E... Luzia? Ainda está zangada comigo?

- Que zangada!... Aquilo foi um repiquete de ciúmes. Quis, à fina força, fingir de coração duro e forte, mas desenganou-se. Uma penca de corações não vale um grão de milho. Deu-lhe a paixão na fraqueza, e aquela criatura, forte como um boi, entrou a fazer coisas de criança: ficou logo meia lesa e capionga; deu-lhe para maginar, olhando para o tempo e querendo sustentar capricho, mesmo depois de haver sabido, pela Quinotinha, do aleive da Gabrina.

- E... depois?

- Depois?... Entrou a repetir que nada tinha feito em seu favor, que a mim, somente a mim, se devia tudo, quando foi ela que me deu o dinheiro para a Rosa Veado rezar o respônsio.

- Que pretende ela fazer agora?

- Diz que espera poder ir, em breve, para as praias, logo que a mãe possa viajar.

- Sempre essa idéia.

- Teimosa é ela. Isso é verdade.

- Sabe, Teresinha? Ainda estou meio encandeado e parece um sonho estar livre daquele inferno. Toda essa gente a andar aqui pela rua, a me olhar espantada, causa-me tonturas. Como que me falta o chão debaixo dos pés.

- Isso passará...

- Tenho, aqui no nariz, o fedor da cadeia, a inhaca dos presos. Que horror! Cem anos que eu viva, nunca esquecerei esses dias de martírio.

Alexandre falava lentamente, falava fatigado, com profunda impressão de mágoa no rosto macilento, que a barba crescida e inculta tornava ainda mais triste. Queixou-se de dores ao lado direito, debaixo da costela mindinha, de falta de ar e de uma tosse seca que o acometia quando respirava, mesmo a curto fólego.

- Aquela cadeia - dizia ele - matou-me. Nunca mais hei de ter saúde.

A Comissão de socorros o recebeu com demonstração de compassivo afeto, lamentando os vexames sofridos pela infame imputação. Foi-lhe pago o ordenado integral: e, como reparação, teve acesso para o posto de administrador dos depósitos de víveres, percebendo, além da ração, sessenta mil-réis em dinheiro, uma riqueza naqueles apertados tempos.

Teresinha comentava o fato, os males que vêm para bem, e, logo, achou muito justo esse procedimento da Comissão; e, todavia, observava que o dinheiro lhe não pagaria as ruínas da saúde, os incômodos e, mais que tudo, a vergonha de ser apontado como ladrão, como um infame que havia roubado o de-comer dos pobres famintos, para saciar vícios abjetos, tudo por causa de suspeitas que ela, mulher ignorante, mal sabendo ler por cima e assinar o nome, repelira desde o primeiro momento, porque o coração lhe dizia que ele não tinha cara de se sujar com o alheio. Admirava como os homens da justiça, que sabiam ler em grandes livros de letras embaraçadas, homens de óculos, que sabem tudo, não tinham logo percebido que o criminoso não era outro senão Crapiúna. Quantos inocentes não estariam pagando culpas alheias por causa da cegueira da justiça! Quantos não ficam livres de pena e culpa, apesar de autores de crimes escandalosos, perpetrados perante Deus e o mundo, à luz do dia, como aquele nefasto Bentinho que matara Berto, como quem mata um cão, e apenas ficou recolhido alguns dias à sala livre, por ser capitão e filho do maioral da terra!

E suspirou entristecida, sucumbida à dolorosa recordação do bárbaro amante, arrastado pelo cavalo desembestado, deixando nos tocos, pedras e cardos, farrapos sangrentos do corpo esfacelado.

Aglomeravam-se retirantes à porta do armazém para verem Alexandre, cujo prestígio de mártir aumentava com as novas atribuições de administrador. Uns, sinceramente, lamentavam o fato; outros o adulavam com fingidas lamúrias, para serem preferidos na distribuição de rações bem medidas, com lavagem, como eles dizigm, porque outros empregados de coração duro mediam farinha e feijão sem caculo, rapando a boca do litro, poupando, como usurários, os dinheiros do Governo e o de-comer que a Rainhal mandara dar de esmola aos pobres.

Alexandre procurou fugir à curiosidade da multidão, recolhendo-se ao fundo do armazém, onde ficou, apesar dos insistentes rogos de Teresinha para irem juntos à casa de Luzia, que estaria ansiosa por vê-lo; e, como ele recusasse obstinadamente, ela se despediu, enfadada, dizendo-lhe:

- Vou embora. Já que teima em não me acompanhar, irei sozinha. Direi a Luzia que você está doente e aparecerá amanhã. Não falte, não negue essa consolação àquela pobre criatura que, abaixo de Deus, só pensa em você, seu ingrato. Capricho não se fez só para mulheres.

- Pobre de mim.

- Pobre, não. Bata na boca. Diga rico, bem rico, porque uma prenda igual a ela só encontram os afortunados. Você fala de farto. Os homens todos são assim, cheios de luxos e desdéns quando são queridos. A demora é saberem que a gente gosta deles: começam logo a botar cafangas.

- Diga o que quiser, Teresinha. Está no seu direito. Não me zango com isso, nem exijo nada; basta o muito que tem feito por mim. Mas, não posso acreditar que Luzia me queira, como você diz. Que faria no lugar dela?

- Cada um sabe de si e Deus de todos. Eu faria o que sempre fiz, e por isso apanhei muito na minha ruim cabeça. Hoje, torço as orelhas, que não botam sangue. Ah! quem ama não tem tico de vergonha. É verdade que você, agora, está melhorado de sorte, quase rico...

- Prefiro o trabalho na Ladeira da Meruoca, às vantagens que tenho aqui.

- Deixe-se de luxos. Veja se é ou não como eu digo: este quer se meter no cafundó da serra, a outra só pensa em sumir-se para o lado das praias.

Histórias!... O que vocês querem sei eu... Deixa-me ir que é quase de noite... Até amanhã... Veja bem, seu Alexandre, o que me prometeu!... Até amanhã... Agora vá fazer feio comigo...

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Capítulo VI à Capítulo VIII
Capítulo IX à Capítulo XI
Capítulo XII à Capítulo XV
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Capítulo XIX à Capítulo XXII
Capítulo XXIII e Capítulo XXIV
Capítulo XXV e Capítulo XXVI
Capítulo XXVII e Capítulo XXVIII