Luzia
Homem, de Domingos Olímpio
CAPÍTULO
XIX
Teresinha voltou,
no dia seguinte, ao beco da Gangorra, à hora da revista,
quando os soldados estavam reunidos no quartel, estabelecido em
uma velha casa fronteira à cadeia. No sobressalto de quem
se esconde, esgueirando-se para evitar a curiosidade da vizinhança,
entrou no quarto, e se fechou por dentro. O silêncio aumentava-lhe
o susto. Foi preciso repoisar para adquirir coragem.
A porta, que
dava para o quintal, estava entreaberta, como ficara na véspera.
O caixão velho lá estava, regurgitando de traços,
lavado de luz intensa, um contraste da penumbra do aposento, sem
o menor sinal de haver sido desviado, ou da presença de ser
humano naquele sítio.
Com o peito
ofegante, pálida de aflição, o ouvido atento
ao menor ruído, a moça ajoelhou, e, com um esforço
sobreposse, ergueu um dos ângulos do caixão, muito
pesado, muito cheio; e, sustentando-o de encontro ao ombro, fendeu
com mão trêmula, o espaço entre o fundo e o
chão. Seus dedos crispados experimentaram repugnante contacto.
Retirou, rapidamente, a mão, como se a houvesse passado pela
polpa ascorosa de um réptil. Um calefrio varou-lhe os membros,
as forças abandonaram-na, e o caixão caiu, percutindo
o solo com um som cavo.
Transida de
pavor, ela esperou alguns momentos, imóvel e atenta, sempre
de joelhos, apoiada ao muro. Recobrado o ânimo limpou com
a fímbria da saia o copioso suor que lhe inundava o rosto,
respirou agoniada, como se lhe faltasse ar; abanou-se com o vestido,
movendo de um para outro lado a cabeça, quase desfalecida.
A bolsa de Crapiúna estava ali. Não havia dúvida;
ela havia sentido o contacto eletrizante dos pêlos do coiro
de onça. Aguilhoada pela curiosidade de examinar-lhe o conteúdo,
não ousou de fazê-lo: seus músculos flácidos
e fatigados não poderiam repetir a exploração.
Além disso, começou a sentir a dolorosa junção
inguinal e o aperto do peito, que a acometia toda vez que era assaltada
por fortes abalos.
- Ah!... Se
eu fosse mulher de talento, como Luzia - murmurou, desalentada,
erguendo-se a custo.
Certa da permanência
da prova do crime, restava escolher meio de utilizá-la. Seria
necessário surpreender Crapiúna ali, quando voltasse
em busca de dinheiro e obter o auxílio de um homem bravo
e forte, capaz de entestar com o soldado, prendê-lo e conduzi-lo
à presença da autoridade. Lembrou-se de Raulino Uchoa
que era vigoroso e arrojado, quando menos pela brava fascinação
das histórias que contava da vida aventurosa. Era, demais
disso, amigo de Alexandre e devotado a Luzia, que o salvara dos
chifres do toiro sanhudo. Era, porém, indispensável
que ela e ele ficassem escondidos de tocaia, esperando, horas, talvez
dias inteiros, a ocasião propícia.
Ocorreu-lhe,
então, procurar o sargento Carneviva, que ela o sabia em
excesso rigoroso para com os soldados, e andar muito prevenido com
Belota e Crapiúna, por serem jogadores incorrigíveis.
A essa idéia, duma felicidade que farte, ela vibrou de júbilo,
ela vibrou de cólera, misturados, na mesma expansão
impetuosa, os nobres anelos de vitória e antegozo cruel da
vingança.
- Hás
de Pagar o novo e o velho - exclamou ela, com ameaças, e
triunfante - Hei de mostrar, ladrão safado, quem é
tábua de bater roupa e quanto vale esta cachorra!...
E partiu em
busca do sargento.
A essa hora,
estava Luzia trabalhando na oficina de costuras do morro do curral
do Açougue.
Confiara-lhe
Dona Inacinha a superintendência das meninas taludas, depois
de verificar a sua perícia, o seu exemplar procedimento,
o recato de maneiras e linguagem, tão raros naquela quadra
de carência de nutrição física e moral.
Seria ela um exemplo vivo para aquelas pobrezinhas, condenadas à
mendicidade, órfãs ou abandonadas pelos pais, expostas
ao contágio da infecção, que diluía
as baixas camadas da sociedade, desfibradas pelo inominado flagelo.
Entre elas estava
Quinotinha, um futuro de formas, em cujas linhas, ainda angulosas,
se debuxavam, nuns longes de curvas graciosas, os primeiros sinais
da puberdade. Luzia acolheu-a com simpatia; e, quando soube que
era a menina libertada por Alexandre da sanha monstruosa de Crapiúna,
dedicou-lhe os mais carinhosos cuidados. Fruía deliciosa
sensação ao contacto dela, ao exercitar-lhe as pequeninas
mãos delicadas no manejo da agulha e no ajustamento das peças
de costura, sensação de mãe testemunhando a
florescência da força e da inteligência nos tenros
rebentos do seu ser. Ela a distinguia das outras meninas, desasseadas,
esgrouvinhadas, como pombas privadas do arminho das penas cândidas,
de olhos toldados, como se por eles já houvesse passado a
sombra funestra do crime; muitas indiferentes às carícias,
aos conselhos, de grandes olhos parados, ardendo num brilho fulvo
de febre, e sempre voltados para o telheiro onde roncavam, fumegando,
os enormes caldeirões de comida. Quase todas pareciam esgalhos
enfezados, condenadas ao estiolamento precoce, a se consumirem,
varas estéreis, na coivara de vícios, que se ia alastrando,
como incêndio em matagal ressequido, e mais não era
outra coisa essa massa de famílias, erradicadas dos lares,
desagregadas e descompostas.
Contemplando
Quinotinha a trabalhar, Luzia se embebia no enlevo de um sonho,
onde se dissolviam as amarguras, as tristezas do presente, e surgia,
entre resplendores suaves de aurora, o desejo da maternidade, dar-lhe
Deus uma filha assim, formosa e sadia. E já considerava,
num gozo, em toda a sua sublimidade, esse prazer inefável
de mãe, quando a estrelava ao seio fremente, lhe amimava
os cabelos de menina e a beijava com afã, com a meiguice,
o doce frenesi das mães amorosas.
Evolava-se o
sonho, e ela considerava que a rapariguinha poderia servir de companheira
à mãe enferma e a ela mesma, como irmã caçula,
se os tempos não fossem tão ruins; poderia repartir,
com ela, a sua pobreza, o seu quinhão parco, como fizera
com Alexandre. Chegou mesmo a falar-lhe nisso, mas Quinotinha respondeu-lhe
que era a mais idosa de oito irmãos, uma escadinha de meninos
que terminava num de peito, e não podia abandonar a mãe,
coitada, já abandonada pelo marido.
Depois disso,
Luzia lhe teve mais amor, e mesmo mais sorrisos, e mesmo mais cuidados.
Havia, entre ambas, a solidariedade do mesmo infortúnio,
de sentimentos idênticos, dedicação e amor filial,
com a diferença de ser a menina uma criatura ingênua
e feliz, pela inconsciência da miséria, e ela mulher
rebelada contra a sorte, assaltada de absurdas aspirações,
tendo o coração apertado entre mágoas, dissabores,
esperanças desfeitas, murchas como os cravos rubros de Alexandre.
Uma tarde, terminada
a tarefa, Quinotinha saiu acompanhada de Luzia, que lhe notava algo
estranho no semblante, de ordinário tranquilo e risonho.
Caminharam em
silêncio, algum tempo.
- Há
muitos dias - disse a menina, enteada e hesitante que ando para
lhe dizer uma coisa.
- Você?!
- exclamou Luzia, com interesse, com surpresa.
- Sim, eu mesma...
- Vamos lá...
Diga...
- Vosmecê
conhece seu Alexandre? Aquele moço que está preso
por causa do furto da Comissão?...
- Conheço,
sim.
- Quero muito
bem a ele... Sa Luzia também gosta dele? Luzia não
respondeu; e a menina continuou:
- Todo o mundo
gosta daquele homem...
- Mas... a que
vem isso?
- Eu lhe conto.
Sa Luzia sabe onde é a casa de Chica Seridó? Pois
fui lá, outro dia, buscar um remédio, que a mamãe
mandou pedir e estava esperando entretida com a Gabrina, aquela
mocinha bonita, que também gosta de seu Alexandre, quando
ela me largou de repente, e foi para o terreiro conversar com uma
pessoa. Espiei para fora e fiquei tremendo de medo: era o Crapiúna,
aquele soldado que de uma feita, quase se pegou com seu Alexandre...
Fiquei quieta e, então, ouvi ele falar muito zangado: ralhava
tanto, que fiquei com pena de Gabrina. Ele dizia: - Você não
tem palavra. Ficou de ir lá em casa e me enganou! Ela respondeu
por aqui assim: - A Chica estava com os olhos em riba de mim, que
não me deixou um instante. - Você está mentindo,
menina - tornou ele a dizer-lhe com muita má-criação.
- Nem por eu lhe dar o par de brincos de ouro e os cortes de chita...
- Mas eu não fiz o que você disse? - respondeu a rapariga,
também com maus modos. Não fui jurar em casa do Delegado?
...
- Vamos. Conte-me
tudo - irrompeu Luzia, ansiosa e alvorotada, devorando a menina
com o olhar em fogo. - Vamos, diga a verdade.
- Não
estou mentindo - balbuciou, Quinotinha, espavorida pelo gesto ardente
da mestra - Creia-me por esta luz...
- Não
tenho receio. É para bem dele, do pobre, que está
penando inocente...
- Espere. Deixe-me
lembrar. Ela disse mais: - "Que queria você, seu Crapiúna?"
- "O que, me prometeu... Olha, diabinho, tu me tens custado
os olhos da cara e se não fosse porque..." - Aqui, ela
fastou pra trás, e disse-lhe: - "Se é por causa
da porqueira destes brincos e daqueles molambos, pode levar tudo.
Basta a dor de consciência de ter alevantado um falso... Ainda
quer mais?!..." - Crapiúna, estava-se vendo, ficou fulo
de raiva e em termos de arremeter para ela...
- Está
bem certa do que dizes, Quinotinha?!...
- Eu? Como em
Deus estar no céu... Por sinal que ele abandonou, quando
ela disse que, se duvidasse, não se dava de contar tudo;
que mentira por pique, para se vingar de Alexandre... que não
fazia caso dela... O soldado ficou calado um instantinho e pediu-lhe
que não fosse mazinha, que se falasse, seria presa com ele,
desgraçando-se os dois para fazerem benefício a um
homem que, além de tudo, a desprezava por causa de outra
mulher. Se ficasse quieta e fizesse o que ele queria, poderiam viver,
sem ninguém desconfiar, como Deus com os anjos. - "Olhe
- disse ele por fim - se eu fosse malvado, poderia encalacrá-la...
Mas não faço isso, porque você é o meu
único amor da minha alma." Continuaram a conversar,
mas tão baixinho, que não pude ouvir, até que
a Chica Seridó gritou lá de dentro por ela... Então,
eu disse comigo: Que gente malvada! Vou contar tudo a sa Luzia.
Não contei logo, porque tive medo que ralhasse comigo por
eu andar escutando conversa de gente grande...
- Ralhar contigo?!...
Pois se foi Deus quem te colocou ali para seres testemunha da verdade...
Fizeste muito bem, Quinotinha; assim é que faz uma menina
bem-ensinada. Nem podes imaginar o bem que fazes a duas criaturas:
a ele e a mim. A mim, que libertaste de um grande peso que me esmagalhava
o coração.
E enlaçou
a menina nos braços robustos; conchegou-a ao peito, convulso,
que arfava, com alvoroço, desesperadamente beijou-a em febril
transporte de ternura, como beijam aos filhos as mães amorosas.
- Agora - disse
a menina, libertando-se dos afagos de Luzia - deixe-me ir que é
tarde... Não diga nada., nem que lhe contei...
- Vai descansada...
Quinotinha partiu
a correr, e Luzia continuou o caminho para casa.
A lucidez da
narrativa, duma segurança minuciosa, atestava a sinceridade
da menina. Alexandre, pensava Luzia radiante, está salvo,
salvo da infâmia e reabilitado para ela, por sua vez libertada
das sombras cruéis da suspeita. Ele ressuscitara, e, da prisão
nojenta, ascendia para o céu das suas aspirações,
aureolado pelo sofrimento. E ela abençoava a voz demoníaca,
aquela voz sedutora e íntima, que lhe falava com a sonoridade
mística de um canto angelical, e a impelia docemente para
o mártir, repetindo: "Vai, curva-te como escrava e culpada,
unge as suas mãos generosas com as tuas lágrimas,
porque o amas."
Se Alexandre
a amasse, ele perdoar-lhe-ia; ela era, agora, culpada de haver desconfiado,
por mesquinho impulso de despeito, por ter recusado ao pobre a consolação
da sua presença, a caridosa visita diária à
prisão, e por não resistir, à crueldade pueril
de devolver-lhe as pobres flores murchas, símbolo triste
de afetos mortos.
CAPÍTULO
XX
Teresinha conversava
com a tia Zefinha, numa rútila impaciência de olhos
alegres, quando Luzia chegou a casa. Falava de Alexandre, amaldiçoando
a justiça que o conservava na cadeia, havia mais de um mês,
por causa de imputes feitos pelo hediondo soldado, de parceria com
a Gabrina, doidivanas, positivamente, quase a despencar-se no mundo,
arrastada pela falta de juizo e os péssimos exemplos, porque
a morada da Chica Seridó era lugar de reunião de gente
mal reputada, fregueses de suas mezinhas e feitiçarias.
O semblante
claro e, claramente, expansivo de Luzia, denunciou-lhe a vontade
que lhe alvoroçava o coracão.
- Como vem mudada!
- exclamou Teresinha - Você parece que viu passarinho verde?
- É porque
tenho de quê, respondeu Luzia, beijando as mãos descarnadas
da mãe.
- Vamos lá.
Conte-nos isso, que também tenho boas novidades.
- Já
sei quem é o ladrão...
- Ora! Isso
é velho para mim, como a serra dos Cocos.
- Sabia então?...
- Olé!
Não sabia, mas suspeitava.
- Pois eu sei.
Foi mesmo uma coisa mandada por Deus.
E repetiu, sem
reservas, a revelação de Quinotinha.
- Franqueza
por franqueza - disse - Teresinha, resoluta - Eu também tenho
muito que dizer, coisas que me andam embuchando há muitos
dias. Primeiro que tudo, fiquem sabendo: Crapiúna está
preso...
- Preso?!...
- exclamaram, a um tempo, Luzia e a velha.
- A onça
deste pasto está muito bem guardada no xilindró...
E quem conseguiu isso?
- Esta sua criada
- afirmou Teresinha, com ênfase, batendo no peito, com largo
gesto de contentamento.
Contou, então,
como descobrira o esconderijo do dinheiro, as aflições
suportadas com heroísmos fanfarroneou a coragem, o sangue
frio, apesar de fraca, não era mofina, e, mais não
morrera de terror quando se viu a sós com o malfazejo soldado,
e passear a narrar a entrevista com o sargento Carneviva.
- Que quer você?
- disse ele, apurado, riscando com proficiência grave, mapas
e tabelas.
- Vim aqui dar
parte... - respondeu, perturbada pela severidade do homem de má
cara, muito barbada e muito fechada.
- Anda depressa,
que estou muito ocupado. Comando o destacamento na ausência
do tenente, que foi fazer uma diligência, e não tenho
tempo para trelas.
Teresinha, muito
sobressaltada, denunciou-lhe a cena do jogo em casa de Belota e
a briga de Crapiúna com os paisanos.
- Bem desconfiava
eu que aqueles malandros tinham casa de jogo na Gangorra - rebentou
o sargento, com cólera, cheio de censura disciplinar - Deixa
estar essa corja que os arranjarei... É só isso?
Logo que a moça
começou a narrar o episódio de ter descoberto o dinheiro
no quintalzinho do seu quarto, o sargento, em crescente interesse,
largou a régua, tirou cautelosamente o tira-linhas da boca,
onde o sustinha atravessado, e pejado de tinta, e cravou indagadores
olhos na delatora.
- Como é
isso? - inquiriu, com surpresa - Então aquele homem que está
preso?...
- Inocente,
meu senhor; limpo como saiu da barriga da mãe...
- Dele - atalhou,
rapidamente, Carneviva, que não queria dúvidas - Veja
o que está dizendo mulher...
- Vossa senhoria,
se quiser, pode ver com os seus próprios olhos... Depois,
eu não tenho necessidade de mentir...
- Lá
isso é história. De enredos de mulheres estou farto.
Vocês, quando têm raiva dos soldados inventam e mentem
como deslambidas. Enfim, vou indagar o caso da jogatina. Oh! Cabecinha!...
- Pronto, seu
cadete.
- Que é
do Crapiúna?
- Está
na guarda da cadeia.
- E o Belota?
- Também.
- Mande rendê-los
e que venham já à minha presença.
Cabecinha partiu,
e Teresinha fez um movimento para retirar-se e evitar a acareação
com os soldados.
- Não
senhora - ordenou Carneviva - Fique para deslindarmos já
esse negócio.
- Poucos minutos
decorreram. Crapiúna entrou primeiro, e não pôde
disfarçar a surpresa de encontrar, na sala do sargento, a
moça, transida de susto pelo vexame. Belota chegou, depois,
com ares humildes, tímidos.
- Que história
foi essa - perguntou-lhe Carneviva - do jogo em sua casa? Já
lhe não havia dito que, à primeira denúncia,
você, seu Belota, ajustava comigo novos e velhos?
- Saberá
vossa senhoria - balbuciou Belota - que é menas verdade...
Até tenho andado doente...
- Qual doente!...
Você quando faz maroteira, dá-lhe logo na fraqueza...
- Por Deus,
seu cadete...
- Vamos lá.
Quero saber tudo... E, se mentir, arranco-lhe com a chibata, o coiro
do lombo...
- Vossa senhoria
me perdoe... Foi, foi... uma brincadeira... a... a leite de pato...
- Bom. E o senhor?
- perguntou o sargento, voltando-se para Crapiúna, que dardejava
sobre Teresinha, olhos ferozes.
- Eu não
sei nada respondeu ele, secamente, e sem hesitação.
- Ah!... Então
você não esteve jogando em casa de Belo a com os vagabundos
Zoião, Candinho e Vicente da Henriqueta?
- Vossa senhoria
não ande atrás de histórias desta mulher, que
mente como uma cadela vadia.
- Então
o senhor - atalhou Teresinha, pulando, irritada pela injúria
- não esteve quase se pegando com os outros? Não foi
aqui o seu Belota, quem apartou a briga!?... Não é
verdade que, quando eles foram embora, saltou para o meu quintal
paredes-meias?...
O sargento impôs-lhe
silêncio, com um gesto rápido e enérgico. Crapiúna
empalideceu, e Belota, espantado, sem atinar com a significação
da palavra da moça, interrogava o camarada com o olhar.
- Vamos seu
Belota - ordenou o sargento - Bote para fora o que sabe. Vamos que
temos panos para mangas...
Belota, sempre
cheio da intransigência das ameaças do sargento, acobardou-se
e contou o caso, amenizando-o com disparatadas justificativas. Fora
uma brincadeira de amigo, uma coisa à-toa, que terminara
num bate-boca.
- E aqui este
mestre?
Crapiúna
olhava, de soslaio, para Belota.
- Saberá
vossa senhoria - respondeu este - que o seu Crapiúna não
estava...
- Você
está mentindo seu diabo...
- Quero dizer...
sim senhor... Não estava não, senhor...
- Veja bem o
que está dizendo.
- Não
estava no... no... princípio: chegou; quase no fim... Mas,
juro que não vi ele saltar o muro...
- Bom. Chegou
no fim, hem!?
- É menas
verdade - interrompeu Crapiúna, num ímpeto de audácia
insolente - Este homem diz isto para se desenrascar.
- Não
negue, seu Crapiúna - retorquiu Belota - O senhor estava.
Eu, mesmo contra mim, falo a verdade como homem. Se porém,
eu disser que vi você saltar o muro, minto porque deixei o
senhor sozinho em minha casa, e fui ao quartel.
- E você,
seu Crapiúna, o que foi fazer ao quintal vizinho?...
- Já
disse a vossa senhoria que é mentira dessa língua
danada.
- Também
será mentira que tirou debaixo de um caixão, uma bolsa
de coiro de onça?...
Crapiúna
ficou lívido, e atirou, desesperadamente, um gesto de ameaça
a Teresinha.
- A bolsa? -
exclamou ele, maquinalmente, tomado de pasmo.
- Sim, senhor
- afirmou o sargento, com ironia. - A bolsa onde guarda o seu dinheiro,
a sua botija encantada.
Traído
pela inesperada revelação e irritado pelos contínuos
gestos afirmativos de Teresinha, Crapiúna, a custo, sofreava
os estos da cólera, que lhe queimava o coração.
Eu sei lá
dessa história de bolsas... - respondeu, aparentando serenidade
- É verdade que cheguei no fim do divertimento; tive uma
turra com o Zoião, uma bobage... Mas...
Carneviva levou
o apito à boca, e tirou dele três trilos agudos e violentos.
Apareceram imediatamente, quatro soldados.
- Bem. Vamos
pôr isso em pratos limpos. Ah! Eu bem suspeitava que havia
falcatrua... Todos os dias uma queixa. Furtinho para aqui, gatunagem
para acolá... Cambada que é a vergonha da farda!...
Corja de ordinários...
Depois, pondo
à cinta uma garrucha, ordenou aos soldados:
- Vamos! Acompanhem-me
com estes dois homens: desarmem a esses coisas ruins.
À aproximação
dos camaradas, Crapiúna recuou, e levou imediatamente a mão
ao sabre: mas, o sargento lho arrebatou com um movimento rápido,
com um movimento enérgico.
- Olha lá!...
Não se engrace comigo, seu Crapiúna... Observou ele
- Vamos e muito direitinho... Comigo não se brinca, vocês
sabem...
Partiram em
escolta, acompanhados por magotes de pessoas, no trajeto pela rua.
Chegando ao quarto de Teresinha, Carneviva ordenou que se afastassem,
e entrou com os soldados ficando à porta uma sentinela. Nessa
ocasião, chegou o subdelegado, atraído pelo ajuntamento
e informado da ocorrência, passou a dar a busca.
A bolsa foi
retirada debaixo do caixão e aberta. Havia nela dinheiro,
jóias e alguns fragmentos de papel-escrito, versos de canções
populares e o rascunho de uma carta a Luzia.
O subdelegado
inquiriu, então, Crapiúna: - De quem é esta
bolsa?
- Não
sei - respondeu o soldado, impávido de furor. - Pergunte
a essa mulher que é a dona da casa...
Os camaradas
presentes afirmaram que a bolsa era muito conhecida; pertencia a
Crapiúna.
- Bem - concluiu
a autoridade - Vou levar o fato ao conhecimento do delegado, a quem
está entregue o inquérito, para lavrar o auto. O senhor
sargento terá a bondade de mandar recolher os homens incomunicáveis,
e comparecer com as testemunhas na delegacia.
Luzia e a mãe
ouviram a narrativa, num enlevo de alegria, num enlevo de pasmo,
com as almas nos olhos, como se lhes revelassem casos fabulosos,
casos sobre-humanos. Era possível que Teresinha houvesse
realizado tão assombrosa façanha?
- Vocês
não imaginam - continuou ela - como tinha povo na rua. Parecia
procissão, quando levaram os soldados para o xadrez. E a
cara do Crapiúna?... Ficou verde, amarelo, encarnado como
lama pimenta; botava-me uns olhos ensanguentados que me varavam...
Eu, que vi o bicho bem seguro, ferrei também os olhos nele
como quem diz - arre diabo!... Quando passou por mim, resmungou:
- "Deixa estar sua aquela, que me pagará... Diz à
tua pareceira Luzia-Homem, que não hei de ficar toda a vida
preso..." Senti um frio no coração, quando o
malvado disse isto.
- E agora -
perguntou Luzia - vão soltar já Alexandre?
- Sei lá...
Disserarn-me que comparecesse amanhã na delegacia para a
trapalhada de depoimentos e não sei que mais.
- Ah! Teresinha
- gritou Luzia, com um abraço veemente, radiante - Você
é um anjo, um anjo!
- Que anjo,
que nada!... Sabe o que sou? Mulher e bem mulher, de cabelo na venta.
Ninguém mais faz, que não pague com língua
de palmo. Chegou o meu dia... com dois proveitos num saco: Crapiúna
preso e Alexandre limpo de pena e culpa... Foi uma sorte! Viva o
glorioso Santo Antônio! Ah!... se eu tivesse foguetes! Xii...
tô... tó!... Viva Santo Antônio!... Vivô...
Vivô!...
E, lestes, escarnicando
do celerado, saciada de vingança, fazendo piruetas que lhe
agitavam os seios, contorciam os quadris e enrolavam, em espirais,
as saias em torno do corpo esbelto, desnudando as pernas ágeis,
toda ela palpitando, toda ela a se mexer em requebros sensuais de
dança, com sapateados frenéticos, e vastas chibanças
de triunfo, e rindo e cantando, numa alegria louca, a sua figurinha
escanzelada de retorta providencial se destacava, evidente, no fundo
iluminado pelo rubro disco da luz cheia, a surgir, lentamente, em
magnífica ascensão.
CAPÍTULO
XXI
Propagou-se,
rapidamente, a notícia da prisão de Crapiúna,
como verdadeiro autor do roubo do armazém da Comissão
de socorros. Não havia dúvida. Um conjunto de provas
esmagadoras: a bolsa reconhecida por todos os camaradas; as declarações
de Belota que, insistindo em ignorar o fato, confessava causar-lhe
admiração o dispor ele de tanto dinheiro para perder
ao jogo grandes somas e fazer prodigalidades com raparigas e pagodes;
o depoimento de Teresinha, confirmado, de uma irrefutabilidade minuciosa;
o rascunho da carta ameaçadora, entregue por Luzia ao delegado,
no dia da prisão de Alexandre, e os testemunhos de Chica
Seridó e Gabrina, encerraram o soldado numa culpa evidente,
indiscutível.
Seridó
confessou que nutrira sempre instintiva repugnância ao soldado,
por seus modos atrevidos com as mulheres, muita falta de respeito,
caçoadas inconvenientes; nunca, porém, lhe passara
pela cabeça que ele fosse capaz de tão feia ação,
como essa de levantar um impute que clamava aos céus e -
o que lhe parecia ainda mais grave - reduzir uma rapariga inocente
e bestalhona, como Gabrina, para ajudá-lo na obra nefanda
de culpar um inocente.
- A pobrezinha
fez isso - dizia ela ao delegado, na sala de audiência da
câmara municipal, apinhada de curiosos - sem maldade; e (para
que hei de estar com histórias mal contadas?) porque andava
inclinada para seu Alexandre, depois dos benefícios que dele
recebeu. Ponha o caso em si, meu senhor. Vossa senhoria sabe que
mulher, quando vira a cabeça, é capaz de tudo. Quem
quer bem não toma conselhos; não enxerga desgraças,
nem se importa com perigos. Ela tinha no coração aquele
amor encoberto e não me disse nada. Esta bichinha que aqui
vê, esta não-sei-que-diga disfarçou tão
bem que eu, macaca velha, nada maldei. Metia a mão no fogo
por ela, creia-me... Aquele malvado homem, percebendo que a pobre
estava enciumada, seduziu-a, com promessas de mimos, a tomar uma
vingança do moço. Eu sabia que seu Crapiúna
gostava de Luzia-Homem, tanto assim que, uma noite, me pediu para
ir fazer uma reza, na casa dela para abrandar-lhe o coração.
Fui com ele e mais o seu Belota, muito contra a minha vontade; mas
(para que hei de negar?) fui e não pudemos fazer nada, porque
estiveram acordadas até fora de horas. Saberá vossa
senhoria que sou mulher de propósito; mesmo contra mim, falo
a verdade. Fui fazer a reza, mas não há mal nisso.
É com as minhas orações e mezinhas que arranjo
o bocado para a boca, sem ser pesada a ninguém, Deus louvado.
- Que oração
forte era essa? - perguntou-lhe o Promotor.
- Se eu disser
sem ser rezando, mesmo de verdade e com fé, ela perde a virtude.
- E acredita
nela?
- Ah! seu doutô,
queria ter de anjos para acompanharem minha alma, as pessoas beneficiadas
por ela. Não foi uma nem duas... Muita senhora dona de família
e consideração...
Enquanto a Seridó
falava, Gabrina, de pé, ao lado dela, cravava os olhos sombrios
na fímbria do casaco de cassa, cujas rendas enrolava e destorcia
maquinalmente, entre os dedos hirtos. Os músculos do seu
rosto, lindamente oval e duma cor lindamente morena, emoldurados
em cabelos negros e crespos, não traíam abalos violentos:
estavam imóveis, e apenas se percebia pelas narinas dilatadas
e palpitantes, a sua respiração entrecortada de suspiros
abafados.
Contemplavam
todos a mocinha de formas flexíveis e delicadas, apenas livres
das linhas incompletas da infância e desdobrando-se em contornos
graciosos; e, lastimando achar-se ela complicada no crime, todos
a envolviam numa atmosfera de simpatia que os impulsos passionais
despertam.
Por fim, perguntou-lhe
o Promotor:
- É verdade
o que diz esta senhora?
- É,
sim senhor - respondeu com voz que mais parecia um sopro.
- Foi Crapiúna
quem lhe insinuou esta calúnia?
- Foi, sim senhor...
- Por que não
resistiu?
Gabrina ficou
calada.
- A senhora
amava Alexandre?
Como se o coração,
muito tímido, lhe despejasse no seio a repoisada torrente
de lágrimas, ela prorrompeu em convulso pranto, escondendo
o rosto no seio da Seridó, que a amparou, que a enlaçou
nos braços, com maternal carícia.
- Bem, bem -
concluiu o Promotor - Não a martirizarei mais. Sossegue...
E, voltando-se
ao Delegado, disse-lhe, em voz baixa:
- Realizaram-se
as minhas previsões. Temos a eterna história, um drama
de amor...
Nesse momento,
entrou Alexandre no recinto, fechado por uma balaustrada, e destinado
aos jurados. Seu olhar aceso de febre, luzindo na sombra das pálpebras
roixeadas, fixou-se piedoso na febril rapariga; e, no rosto macilento,
assomou um ligeiro sorriso amargurado.
- Aproxime-se
- ordenou o Delegado.
Ele deu alguns
passos vacilantes para a frente, perturbado pelas mal contidas exclamações
de dó, que chegavam aos seus ouvidos sequiosos, naquele instante,
do caricioso eco de vozes amigas. Os que ali estavam eram todos
curiosos, enviscados pelo escândalo, ou indiferentes e desocupados,
procurando diversão no desenlace do inquérito policial,
à exceção de Teresinha, que o contemplava silenciosa,
sentada a um canto.
Muitos comentavam
os estragos que a infecta enxovia produzira na saúde do moço.
- Senhor Alexandre
- disse-lhe o Promotor, a voz sonora e grave - um conjunto, de indícios,
de elementos de prova bem acentuados e persuasivos, determinou o
vexame que sofreu. Ia sendo vítima de um desses erros que,
infelizmente, não são raros na história dos
tribunais e que, por lamentável lacuna, não encontram
nas leis, meios completos de reparação. Órgão
da justiça, lamento, sinceramente, fosse recolhido por infundadas
suspeitas de tão grave imputação; teve, porém,
a ventura de sair ileso dessa provacão suportada com heroísmo.
O verdadeiro criminoso está descoberto. Nada inipede, agora,
que a justiça proclame a sua honra restaurada com a liberdade
que, neste momento, lhe é concedida.
Perpassou pelo
ambiente, um sussurro de aprovação unânime,
porque, desmascarado o ardil do soldado, ninguém nutria dúvidas
sobre a autoria do crime.
Não era
possível que um moço bem procedido e de abonados precedentes
fosse capaz de tão vil ação. Por outro lado,
todos confessavam, então, justificados suspeitas contra Crapiúna,
quando não fosse por qualquer motivo definido, nela má
cara do homem, seus costumes dissolutos, ou por mero palpite. Não
fora, entretanto, o feliz acaso de surpreender Teresinha o esconderijo
do dinheiro, ou, como ela afirmava sinceramente, a intervenção
do glorioso Santo Antônio, o inocente seria denunciado, processado
e condenado. E toda aquela gente aprovaria, com igual entusiasmo,
a justiça inexorável.
O Delegado,
voltou-se para o Carcereiro e, indicando-lhe a Seridó e Gabrina,
ordenou:
- Recolha aquelas
mulheres.
- O quê?!...
- exclamou a Seridó apavorada - Pois eu sou presa por falar
a verdade? Que culpa tenho, seu Delegado, do malefício dos
outros? Eu, que não matei, não roubei, que nunca fiz,
mal a ninguém... que não tenho rabo de palha!...
Gabrina olhava
em torno espantada, como se despertasse atordoada pelo nevoeiro
de mau sonho. Estancaram-se-lhe as lágrimas e sucederam-lhes
violentos soluços.
Quando o Carcereiro
se aproximou, e a intimou com a frieza fulminante do ofício,
dizendo: "Vamos", acometeu-a o terror da prisão.
E enquanto a Seridó implorava piedade, justificando-se com
protestos de inocência, lamentos e súplicas, ela, com
desenvoltura de criança que se refugia no seio paterno, agarrou-se
a Alexandre.
- Perdoe-me,
seu Alexandre - suplicava, com gritos vibrantes - Não deixe
que me levem presa! Que vergonha!... Não, não é
possível!... Peça por mim; valha-me pelo amor de Deus!...
Ai!... ai!... que eu morro!... Quem me acode!... Minha gente, tenha
pena de mim, de uma pobre filha sem mãe?... Ah! seu Alexandre
da minha alma, pelo leite que mamou, peça por mim que lhe
quero tanto bem... Valha-me, valha-me por tudo quanto há
de mais sagrado. Peço por alma de sua mãezinha, pelas
cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo... Sim, por tudo, pela
luz dos seus olhos, pela vida de... de... Luzia!...
Esgotadas, nesse
esforço sobre-humano, as derradeiras energias, a pobre inteiriçou-se;
seus braços froixos penderam dos ombros de Alexandre; a cabeça,
escondida nos cabelos desgrenhados, inclinou-se sobre o seio e ela
caiu ernborcada, como um corpo desarticulado e morto, aos pés
do moço, transido de espanto e piedade.
Acercaram-se
da mísera algumas mulheres e a Seridó, que pedia um
caneco dágua, um capucho de algodão queimado, e a
esfregava, com força, sobre o peito.
Alexandre dirigiu-se
ao Promotor:
- Se lhe mereço
alguma coisa, seu, doutô, tenha compaixão daquela pobre.
Ela não soube o que fez... É quase uma criança...
- Tem razão
- observou o Promotor, convindo docemente - É possível
evitar... Demais seria uma violência inútil.
CAPÍTULO
XXII
Para se arrancar
à comoção forte daquela cena que o amolecia,
e apertava o seu tão chupado organismo, Alexandre deixou
o salão das audiências, seguindo-o, de perto, Teresinha,
muito zangada pelo ato de generosidade que ele praticara em favor
de Gabrina.
- Com aquela
carinha de enfinta, - murmurava ela - de alfenim, que com qualquer
coisa se derrete, não me engano. É muito mazinha de
bofes. Com aquela parte de gostar de você, não se lhe
dava de ser causa do muito que penou na cadeia. O amor deu-lhe pra
maldade. Era bem-feito que ela fosse gemer e chorar no xadrez para
saber se é bom levantar falso testemunho aos outros. Não
há nada melhor que a gente ser fingida: faz quanta perversidade
há e no fim de contas, basta se derreter em choro e ter um
vágado para ser perdoada. Eu, não me importa de dizerem
que tenho más entranhas. Quem me fizer paga, tão certo
como dois e dois serem quatro. E então a Chica Seridó?
Como ficou piedosa e inocente, ela que é a alma danada de
tudo... Aquilo tem mais artes e ronhas que diabos nas profundas
do inferno... Fosse comigo, ficavam as duas ensinadas para toda
a vida.
Alexandre não
se justificou. Continuaram a caminhar: ele silencioso, ela resmoneando
a censura. Quase ao pé do armazém da Comissão,
ele perguntou, inesperadamente:
- E Luzia?
- Foi trabalhar
- respondeu Teresinha, amuada.
- Por que não
veio com você?
- Porque teve
vergonha de se expor diante de tanta gente. Disse-me que estava
alcançado o que desejava: a sua liberdade; nada mais tinha
que fazer. Não pregou olhos a noite inteira, esperando que
amanhecesse o dia de hoje. A tia Zefinha não cessava de agradecer
a Deus. Se visse como a pobre alminha estava contente... Nem parecia
a enferma que conhecemos, engelhada, encolhida, cortada de dores...
- Coitadinha!
E... Luzia? Ainda está zangada comigo?
- Que zangada!...
Aquilo foi um repiquete de ciúmes. Quis, à fina força,
fingir de coração duro e forte, mas desenganou-se.
Uma penca de corações não vale um grão
de milho. Deu-lhe a paixão na fraqueza, e aquela criatura,
forte como um boi, entrou a fazer coisas de criança: ficou
logo meia lesa e capionga; deu-lhe para maginar, olhando para o
tempo e querendo sustentar capricho, mesmo depois de haver sabido,
pela Quinotinha, do aleive da Gabrina.
- E... depois?
- Depois?...
Entrou a repetir que nada tinha feito em seu favor, que a mim, somente
a mim, se devia tudo, quando foi ela que me deu o dinheiro para
a Rosa Veado rezar o respônsio.
- Que pretende
ela fazer agora?
- Diz que espera
poder ir, em breve, para as praias, logo que a mãe possa
viajar.
- Sempre essa
idéia.
- Teimosa é
ela. Isso é verdade.
- Sabe, Teresinha?
Ainda estou meio encandeado e parece um sonho estar livre daquele
inferno. Toda essa gente a andar aqui pela rua, a me olhar espantada,
causa-me tonturas. Como que me falta o chão debaixo dos pés.
- Isso passará...
- Tenho, aqui
no nariz, o fedor da cadeia, a inhaca dos presos. Que horror! Cem
anos que eu viva, nunca esquecerei esses dias de martírio.
Alexandre falava
lentamente, falava fatigado, com profunda impressão de mágoa
no rosto macilento, que a barba crescida e inculta tornava ainda
mais triste. Queixou-se de dores ao lado direito, debaixo da costela
mindinha, de falta de ar e de uma tosse seca que o acometia quando
respirava, mesmo a curto fólego.
- Aquela cadeia
- dizia ele - matou-me. Nunca mais hei de ter saúde.
A Comissão
de socorros o recebeu com demonstração de compassivo
afeto, lamentando os vexames sofridos pela infame imputação.
Foi-lhe pago o ordenado integral: e, como reparação,
teve acesso para o posto de administrador dos depósitos de
víveres, percebendo, além da ração,
sessenta mil-réis em dinheiro, uma riqueza naqueles apertados
tempos.
Teresinha comentava
o fato, os males que vêm para bem, e, logo, achou muito justo
esse procedimento da Comissão; e, todavia, observava que
o dinheiro lhe não pagaria as ruínas da saúde,
os incômodos e, mais que tudo, a vergonha de ser apontado
como ladrão, como um infame que havia roubado o de-comer
dos pobres famintos, para saciar vícios abjetos, tudo por
causa de suspeitas que ela, mulher ignorante, mal sabendo ler por
cima e assinar o nome, repelira desde o primeiro momento, porque
o coração lhe dizia que ele não tinha cara
de se sujar com o alheio. Admirava como os homens da justiça,
que sabiam ler em grandes livros de letras embaraçadas, homens
de óculos, que sabem tudo, não tinham logo percebido
que o criminoso não era outro senão Crapiúna.
Quantos inocentes não estariam pagando culpas alheias por
causa da cegueira da justiça! Quantos não ficam livres
de pena e culpa, apesar de autores de crimes escandalosos, perpetrados
perante Deus e o mundo, à luz do dia, como aquele nefasto
Bentinho que matara Berto, como quem mata um cão, e apenas
ficou recolhido alguns dias à sala livre, por ser capitão
e filho do maioral da terra!
E suspirou entristecida,
sucumbida à dolorosa recordação do bárbaro
amante, arrastado pelo cavalo desembestado, deixando nos tocos,
pedras e cardos, farrapos sangrentos do corpo esfacelado.
Aglomeravam-se
retirantes à porta do armazém para verem Alexandre,
cujo prestígio de mártir aumentava com as novas atribuições
de administrador. Uns, sinceramente, lamentavam o fato; outros o
adulavam com fingidas lamúrias, para serem preferidos na
distribuição de rações bem medidas,
com lavagem, como eles dizigm, porque outros empregados de coração
duro mediam farinha e feijão sem caculo, rapando a boca do
litro, poupando, como usurários, os dinheiros do Governo
e o de-comer que a Rainhal mandara dar de esmola aos pobres.
Alexandre procurou
fugir à curiosidade da multidão, recolhendo-se ao
fundo do armazém, onde ficou, apesar dos insistentes rogos
de Teresinha para irem juntos à casa de Luzia, que estaria
ansiosa por vê-lo; e, como ele recusasse obstinadamente, ela
se despediu, enfadada, dizendo-lhe:
- Vou embora.
Já que teima em não me acompanhar, irei sozinha. Direi
a Luzia que você está doente e aparecerá amanhã.
Não falte, não negue essa consolação
àquela pobre criatura que, abaixo de Deus, só pensa
em você, seu ingrato. Capricho não se fez só
para mulheres.
- Pobre de mim.
- Pobre, não.
Bata na boca. Diga rico, bem rico, porque uma prenda igual a ela
só encontram os afortunados. Você fala de farto. Os
homens todos são assim, cheios de luxos e desdéns
quando são queridos. A demora é saberem que a gente
gosta deles: começam logo a botar cafangas.
- Diga o que
quiser, Teresinha. Está no seu direito. Não me zango
com isso, nem exijo nada; basta o muito que tem feito por mim. Mas,
não posso acreditar que Luzia me queira, como você
diz. Que faria no lugar dela?
- Cada um sabe
de si e Deus de todos. Eu faria o que sempre fiz, e por isso apanhei
muito na minha ruim cabeça. Hoje, torço as orelhas,
que não botam sangue. Ah! quem ama não tem tico de
vergonha. É verdade que você, agora, está melhorado
de sorte, quase rico...
- Prefiro o
trabalho na Ladeira da Meruoca, às vantagens que tenho aqui.
- Deixe-se de
luxos. Veja se é ou não como eu digo: este quer se
meter no cafundó da serra, a outra só pensa em sumir-se
para o lado das praias.
Histórias!...
O que vocês querem sei eu... Deixa-me ir que é quase
de noite... Até amanhã... Veja bem, seu Alexandre,
o que me prometeu!... Até amanhã... Agora vá
fazer feio comigo...