Luzia
Homem, de Domingos Olímpio
CAPÍTULO
XVI
Desde esse dia,
cessaram as visitas de Luzia à cadeia. Teresinha tomou a
si, com prazer, a piedosa incumbência de levar comida ao prisioneiro,
que a recusou tenazmente.
- Deixe-se de
asneiras, seu Alexandre - disse-lhe ela - Isto até parece
desfeita. A Luzia não vem afetiva como dantes, porque não
pode mais faltar ao serviço; e, agora, que a tia Zefinha
vai melhor, não há mais desculpa para estar recebendo
a ração sem trabalhar. Poderia vir à tarde,
mas você sabe que, depois das quatro horas, não deixam
mais falar com os presos.
- Não
me iludo - respondeu-lhe o moço, em tom de funda tristeza
- Luzia desconfiou de mim. Acreditou, talvez, na história
da Gabrina, ou supõe que tenho alguma coisa com aquela grande
mal-agradecida.
- Não
suponha que ela esteja amuada... Qual o quê!... Aquela não
se afoga em poucas águas, e a prova é que continua
a fazer o possível para obter a sua soltura...
- Sei; mas somente
para mostrar agradecimento e não por merecimento meu. Sinto
que está tudo acabado entre nós. Luzia é decidida,
e bem percebi que não tinha mais nada que esperar quando
me disse, francamente, aí, nesse lugar em que você
está agora: - quando for solto, cada um de nós tomará
o seu rumo.
- Mas, por isso,
não deve recusar o de-comer, que ela mesma preparou com tanto
gosto.
- Não
há mais razão para repartir comigo a porção,
que mal chega para ela e a mãe.
- Pensei que
só nós, mulheres, éramos caprichosas.
Desenganada
de vencer a formal recusa de Alexandre, Teresinha distribuiu a comida
pelos meninos, que estavam ali de visita aos pais presos, generosidade
que lhe valeu agradecimentos de uns e, de outros.
Luzia voltara,
com efeito, a trabalhar na penitenciária do rnorro do Curral
do Acougue.
As paredes mestras
estavam quase concluídas: trabalhava-se com afinco no madeiramento
da coberta, e já estava em construção a muralha
em volta do edifício, formando um recinto, onde os sentenciados
pudessem trabalhar ao ar livre, ou sob telheiros destinados às
oficinas. Nas barracas improvisadas moirejavam carpinteiros, de
troncos nus e suarentos, no preparo das grandes vigas das amendoeiras
e tacanieas do tabuado para o soalho e portas e da obra de esquadria.
Ao ruído das enxós, falquejando o rijo pau-d'arco,
ao sibilar das plainas e cepilhos raspando das pranchas de cedro,
longas espirais encaracoladas e cheirosas, misturavam-se a dos malhos
nas bigornas sonoras, onde grossos vergalhões de ferro, candentes
nas extremidades, disparavam chispas de encontro aos aventais de
coiro dos ferreiros, enegrecidos de fumaça e carvão,
fabricando grades invencíveis, junto dos grandes foles ofegantes,
como pulmões de um monstro.
A negra torrente
de retirantes operários deslizava pela encosta áspera,
em marcha de cobra, conduzindo materiais. Era o mesmo vai e vem
ininterrupto de homens, mulheres e crianças envoltos em rolos
de pó subtil, magros e andrajosos, insensíveis à
fadiga, ao calor de culminar passarinhos, taciturnos uns, os semblantes
deformados por traços denunciadores de íntima revolta
impotente; outros, resignados, como heróis, vencidos pela
fatalidade; muitos, alegres e sorridentes, cantavam e brincavam,
como criaturas felizes de encontrarem refúgio do assédio
angustioso da fome, da miséria, da morte.
Quando Luzia
se apresentou ao apontador, houve um movimento geral de surpresa
e curiosidade. Ninguém a esperava ver de novo; era considerado
morto ou emigrado o trabalhador que desaparecia da obra. Notavam
que estava mais esbelta, graciosa, a cor rnais clara pelo repoiso
de alguns dias. Havia misteriosa alteração no seu
semblante. As vigorosas linhas de energia máscula se contraíam
em curvas melancólicas, e, nos olhos meigos, flutuava a sombra
do ideal morto entre chispas fulvas de anelos incontentados. As
atitudes lânguidas e os gestos lentos denunciavam fadiga moral,
ou a preguiça voluptuosa das felinas amorosas. Dir-se-ia
que se lhe haviam atenuado os tons varonis, e, da crisálida
Luzia-Homem, surgira a mulher com a doçura e fragilidade
encantadora do sexo em plena florescência suntuosa. Irradiavam
dela fluidos de simpatia, empolgando os companheiros de infortúnio,
como prestigiosa transfiguração. Estes não
experimentavam já a repulsa que lhes causava a moça
bisonha, arredia, taciturna, sempre enrolada no amplo lençol
de mandapolão branco.
- Como está
mudada! - murmuravam as mulheres.
- E não
é que a Luzia está ficando bonita! - diziam os rapazes,
mutuando olhares sensuais.
- Parece que
esteve doente.
- Só
se foi de mal de amores.
- Quem sabe?
Amor não mata, mas maltrata.
- Qual, mulher!
Aquilo é o cansaço de estar fazendo quarto à
mãe, que estava vai-não-vai. Não há
nada para escangalhar uma criatura como labutar com doentes...
- Ela é
um tanto soberba, mas é boa filha até ali.
- Quem é
bom filho, é bom em tudo o mais - observou um velho.
Os comentários
chegavam aos ouvidos de Luzia, como ecos do murmúrio de maldição,
que a perseguia por toda a parte, até na igreja, no trabalho,
quando atravessava a multidão de retirantes.
E ela, que antes
os afrontava em retraimentos de cólera mal contida, estremecia,
agora, pálida e tímida, em angustioso sobressalto
de consciência perturbada por inteira e desconhecida mácula,
estranha sombra de homem projetando-se no vácuo, que a inocência
lhe deixara no coração, como a pegada de um crime,
ou o espectro de um remorso. Devia ser assim cruciante, o primeiro
momento após o pecado: a alma escondida, envergonhada e temerosa,
nos mais íntimos refolhos das entranhas profanadas, aguilhoadas
pelos instintos insaciados, agueados pelo gozo revelado, traída
por eles, delatores impudicos e implacáveis. Através
do corpo diáfano, penetrariam depois olhares da turba, compassivos
ou rancorosos, devassando as peripécias e os destroços
da secreta luta, e condenando a vítima, que não pudera
vencer.
Luzia só
se confessava culpada de haver perdido a energia inflexível,
que a preservara até então, como invulnerável
coiraça, sem a qual não tinha já integridade
moral para resistir a si mesma, varrer do coração
essa indelével imagem de homem, libertar-se do tormento de
senti-la transfundida no seu ser, misturada com o seu sangue e os
seus pensamentos. Ímpetos de rebeldia, assomos de reação
esmoreciam na delícia de capitular, e sucumbir aniquilada.
E se lhe figurava que toda a gente em derredor, amigos, indiferentes,
adversários maliciosos, grandes e pequenos, testemunhavam
os seus impotentes esforços, de passarinho fascinado pela
cobra, a luta desigual, o prazer com que ela se deixava vencer,
apoucada e débil.
O administrador
da obra, seu protetor, percebera a transformação por
que passara, designando-a para trabalhar com as costureiras.
- Sabe, Luzia
- disse-lhe ele - A senhora do Promotor pediu-me que não
lhe desse serviços braçais. Ela se interessa muito
por você, como eu, como todos que a conhecem. Era também
intenção minha deixá-la repousar. Está-se
vendo quanto a fatigaram os cuidados, os vexames sofridos pela saúde
de sua mãe.
Luzia baixou
os olhos, e corou humilhada. Preferira à ocupação
sedentária de costureira, continuar na faina de carregar
água nos grandes potes, que estavam servindo de depósito,
conduzir telhas em companhia daqueles infelizes, que vergavam ao
peso de uma dúzia delas, ir às caieiras longínquas
buscar tijolos nas altas tulhas, que ao Paulo, francês, se
haviam afigurado paredes na cabeça de uma mulher, rolar pesados
madeiros, grandes pedras, trabalhos que lhe exercitassem os músculos
e lhe produzissem o atordoamento da fadiga.
Acudiu-lhe,
então, à memória, a quadra da infância,
passada no Ipu, em casa da mestra que lhe ensinara ler; os cocorotes
e castigos sofridos por não resistir ao sono, quando condenada
a ficar dias inteiros sentada diante de uma almofada a trocar bilros
crepitamos, entretecendo delicadas rendas e curtindo a nostalgia
do ar livre e puro nos campos verdejantes e floridos da fazenda
Ipueiras.
Mas... era forçoso
submeter-se à ordem do administrador, tão bom e compassivo,
que lhe dera muitos dias de licença para tratar a pobre mãe
enferma.
Na maioria das
barracas, em forma de meia-água, coberta de folhas de carnaubeira,
Dona Inacinha, que, desde as missões do padre Ibiapina, renunciara
os efêmerosgozos mundanos, para se fazer beata professa, distribuía
o serviço de agulha em tarefas. A Luzia, coube um enrolado
de algodãozinho, onde estava cravada uma agulha, atravessando
um molho de linha e sustentando, subposto, um dedal de cobre.
- Cosam com
muito cuidado - recomendou ela às costureiras - que isto
é trabalho especial para a comissão de senhoras, que
me mandou seis peças de fazenda para desmancharmos em roupa.
Não quero obra de carregação como a dos sacos.
Vejam que as mãos estejam bem lavadas, pois tenho singular
implicância com a costura suja.
Luzia ocupou
o primeiro lugar vago, distanciada das outras, surpreendidas com
o vê-la ali, quando trabalhava sempre com os homens; enfiou
a linha na agulha e estava muito atrapalhada com o adaptar e alinhavar
peças já cortadas, quando Dona Inacinha se acercou,
como sempre, enfezada e rabugenta.
- Você
parece que nunca viu costura - rosnou, em tom de áspero remoque
- Tamanha mulher, e não sabe por onde há de começar
um par de ceroulas de homem.
Luzia sentiu
subir-lhe ao rosto, impetuosa onda de sangue.
- Olhe - continuou
a beata, armando sobre o nariz rubro e adunco, grandes óculos
de latão com as hastes ligadas em torno da cabeça
por um cadarço preto, lustroso de banha - primeiro as pernas
pospontadas e sobrecosidas; depois o gavião em separado,
terminando nesta tira que serve de cós. Você ajunta
as duas pernas, cosendo-as no gavião com as preguinhas que
forem necessárias para dar certo. No meu tempo, dava conta
de duas por dia sem me cansar.
As companheiras
de trabalho sorriam, ironicamente, da lição e do desazo
de Luzia, confusa e amesquinhada, injustamente, porque sabia coser
bem e depressa, mas não estava habituada a fazer roupas masculinas.
Aquela tarefa,
escolhida ao acaso, era um prolongamento da obsessão que
a torturava; avivava-lhe, a cada ponto da agulha, a lembrança
do prisioneiro a pungir-lhe o coração com o remorso
de o haver abandonado num ímpeto de despeito, ciúme
ou capricho pueril que ela tentava em vão justificar com
o pretexto de preservá-lo da influência funesta com
que a marcava o destino. Causava-lhe, também, imenso dó
o haver deixado, com desdém, no parapeito da grade da cadeia,
os cravos vermelhos, emurchecidos nos seus cabelos, ao calor do
seu seio, onde os guardara carinhosamente, como um talismã
prestigioso.
E assim passou
o dia, até que o martelo do mestre da obra anunciou a terminação
do trabalho, batendo, rijo, cadenciados golpes secos, vibrantes,
sobre uma das tábuas dos andaimes.
Luzia ergue-se
aliviada, entregou a tarefa concluída, e partiu, ansiosa
por ver a mãe e Teresinha, que lhe daria notícias
de Alexandre, notícias más porque ele devera ficar
magoado, vendo-se tratado com tanto rigor por quem lhe devia, pelo
menos, favores inestimáveis, desses que impõem o suave
jugo de gratidão imperecível.
Justificando-se,
ela ponderava que, em consciência, o reconhecimento não
a obrigava ao extremo passo de consagrar-se para sempre a um homem
preso, sob a imputação de um crime grave, envolto
em densa atmosfera de suspeita, quando ela tinha outros deveres
sagrados que cumprir, velar pela mãe e conservar a própria
vida, ameaçada pelo assédio cada vez mais apertada
de privações e miséria. Estava pagando a dívida
de gratidão com o empenho sincero em libertá-lo. Demais,
não se expusera, todos os dias, ao vexame de encontrar o
soldado maldito? não repartira com ele o seu pão minguado?
não chegava ao extremo sacrifício de afrontar a vergonha
de vender os cabelos por causa dele?
Não,
a consciência não a acusava,, mas outra vez, mais forte,
vibrava dentro de seu peito, em acentos dolorosos, exprobando-lhe
a covardia cruel de só haver abandonado o desditoso moço,
quando, entre os dois, surgiu a figura odiada da mulher delatora,
amante impudica, que apregoava a própria infâmia, carícias
pagas com o produto do crime, e se vangloriava de haver provocado
a ruína de um homem de bem. E a sinistra voz, que a vergastava,
prosseguia em tom mais brando e carinhoso: Seja ele, embora, culpado;
tenha sucumbido à tentação em momento de síncope
do senso moral; ame outra menos digna; é um desgraçado,
cuja sorte está ligada à tua por laços fatais,
inquebrantáveis. O teu lugar seria junto dele, consorte do
infortúnio, ajudando-o a carregar, o peso da sua falta, a
arrastar a calceta, deprimente... porque o amas... Entretanto, Alexandre
é inocente e sofre duplamente, porque lhe infringiste a tua
desconfiança. Vai, mulher caprichosa e bárbara, prostra-te
aos seus pés; unge-lhe as mãos impolutas com o bálsamo
das tuas lágrimas, com os teus beijos de virgem, e pede-lhe
perdão da tua fraqueza vil. Não lutes, debalde, contra
o destino inexorável. Aquelas pobres flores murchas se radicaram
no teu duro coração, como o cardo à rocha,
e revivem enseivadas com o suor da tua angústia, coloridas
com o teu sangue, envenenando-te com o filtro mágico e inebriante,
que destila emanações de fragância suavíssima.
Luzia acelerou
a marcha para chegar a casa, encontrar pessoas amigas e evitar a
sugestão daquela voz íntima e eloqüente, que
lhe derrubava todos os meios de defesa, engendrados para resistir
ao secreto impulso, preservá-la da sorte de Teresinha, pranteando
o homem cruel que a maltratava e relembrando, com saudade, a sua
sensualidade, impetuosa e brutal como a dos toiros bravios; para
ficar livre de eleger, oportunamente, aquele que deveria completá-la,
que lhe abriria as portas do céu às aspirações
de moça; ou o homem que ela empolgaria num atrevido lance
poderoso, como o dos gaviões arrebatando a presa, conquistando-o
vitoriosa.
No seu espírito
inculto, essas idéias se chocavam em confusão, aterrando-a;
sobre o tumulto, ardido fragor de peleja encarniçada, permanecia,
dominando-o, inconfundível como um clangor de clarim, a sedutora,
a máscula voz do demônio tentador...
CAPÍTULO
XVII
O beco da Gangorra
terminava na várzea, que o rio Acaracu inundava nas cheias,
em um renque de casas velhas habitadas por michelas e soldados do
destacamento. Belota ocupava uma delas, paredes-meias com o quarto
de Teresinha, que só ali aparecia, raramente, para mudar
de roupa, ou, consoante ela dizia, vigiar os seus teréns,
um baú tauxiado de pregos doirados, uma pequena mesa desconjuntada,
o pote d'água e alguns objetos de cozinha.
A porta de Belota,
quase ao escurecer, Romana, Joana Cangati e Maria Caiçara
conversavam acocoradas e cigarreando, muito desenvoltas e palradeiras.
Romana, sempre roliça, com os cabelos duros de pomada cheirosa,
aljofrada de empolas de suor adiposo, a ponta do nariz curto e arrebitado,
e mostrando os dentes pontiagudos, contava casos escandalosos, que
as outras contestavam, ou ampliavam e comentavam com insinuações
picantes e grosseiras, ou se espraiavam em mexericos triviais sobre
a crônica da ralé. Joana Cangati, a mais séria
das três, metida a rezas e bruxarias, desde que por uma praga,
irrogada pela mãe, ficara com o útero escangalhado
de um aborto, obra do demônio, porque a consciência
não a acusava de haver feito por onde, dava-se certo recato
e modos de mulher séria, muito temente a Deus. Maria Caiçara,
bem conformada, galante rapariga, a qualquer graçola de Romana,
despejava o riso em gargalhadas estrídulas.
- Então
- dizia Romana - o tal Alexandre está cada vez mais embrulhado.
- Não
sei - observa a Cangati - Quem havera de dizer?! Eu, meu Deus perdoai-me,
não vi ele furtar; por isso não digo nada; mas há
coisas que só pintadas pelo cão...
- Qual o quê!
- continuou Romana - a Gabrina que o diga. Quando soube que ele
estava todo babado pela Luzia-Homem, desembuchou e contou tudo...
- O que ciúme
não fizer...
- E fez muto
bem, sa Joaninha. Você, comparando mal, quer bem a um homem,
tem confiança nele, nas suas promessas, se ele não
lhe corresponde e atraiçoa, não tem mais obrigação
de guardar fidelidade. Não é?... Não faltava
mais que estar empatando a rapariga com outra de olho e já
de casamento tratado. Iam embora juntos e, muito que bem: a Gabrina
que ficasse com os beijos com que mamou ou com cara de besta...
- Pois eu -
atalhou a Caiçara - só quero quem me quer. Entojou
de mim?... Melhor!... Homens não faltam.
- É porque
você, mulher, nunca teve paixão de fazer a gente perder
noites de sono...
- Paixão
é bobage, sa Joana...
- Então
você não sabe que a Gabrina queria bem ao Alexandre,
calada, sem dar demonstração. Andava atrás
dele bebendo ares; ficava horas esquecidas na porta do armazém
da Comissão, olhando pra ele com olhos melados de piedade
que parecia quererem engolir vivo o moço?...
- Histórias...
- É o
que lhe digo, por esta luz. Deus dê muitos anos de vida a
quem ela pediu uma oração forte, a do "Santo
Amâncio te amanse", para amolgar coração
de homem ingrato.
- E aquela bestalhona
acredita na virtude dessas bruxarias?
- Bruxarias?!...
Bata na boca, Romana, para não ser castigada. Com santo não
se faz mangação.
E a Cangati
entrou a contar casos assombrosos, que não conseguiram dominar
o cepticismo de Romana.
- Mas - ponderou
Caiçara - se ela estava mesmo caída pelo Alexandre,
como é que foi contar a história do dinheiro e dos
cortes de vestido dados por ele, e agora anda toda derrengada com
o Crapiúna?
- Tudo por pique.
Ciúme faz reinação do demônio, e torna
uma pessoa boa malvada como uma cascavel. Depois ela e Crapiúna
se entendem; sofrem do mesmo mal; andam os dois com o juízo
entornado: ela pelo Alexandre, ele pela Luzía-Homem. Não
sei como isso acabará. Talvez nalguma desgraça...
- Qual desgraça,
qual nada. É uma coisa que se vê todos os dias. Desenganados,
cada um vai para a sua banda cuidar em outra coisa... Amor desencontrado.
- É porque
você não conhece o Crapiúna, nem a Gabrina.
Ele é o que se sabe, capaz de tudo, até de mandar
gente desta para melhor; ela, uma bichinha teimosa como uma mosca,
e ruinzinha que faz dó. Não se me dava de jurar que
ela inventou aquela história para desgraçar Alexandre...
Ronha não lhe falta.
- O quê?!...
- Cala-te boca...
Não está mais aqui quem falou... Façam de conta
que não ouviram nada.
- Você
que diz isso, sa Joana, é porque sabe alguma coisa.
- Não
sei nada. É uma cisma que tenho.
- Ela não
tinha astúcia para inventar uma história tão
bem contada, tão cheia de circunstâncias. Se não
foi do furto, quem lhe deu dinheiro para comprar um par de brincos
de ouro?
- Sei lá!
Não quero esmiuçar a vida dela, nem a de ninguém;
mas vocês não a conhecem, repito: é capaz de
dizer que Deus não é Deus e não há ninguém
mais manhosa debaixo daquela sonsidão de menina!
- O quê,
sa Joana; você parece que inticou com a rapariga!
- É muito
arrebitada e mal-ensinada; mas eu até gosto dela...
- Olhem quem
está ali - exclamou Maria Caiçara, apontando para
Teresinha, que abria a porta do quarto.
- Bons olhos
a vejam - disse a Cangati, com modos amáveis. - Por isso
é que a tarde está tão bonita!...
- Boas tardes
- respondeu Teresinha, secamente.
- Por onde tem
andado, que mal pergunto?
- Por aí
mesmo... - tornou Teresinha, entrando para evitar bisbilhotices,
e dar trela às três vadias, muito do seu conhecimento
como catanas, que nada poupavam.
Belota mantinha
tavolagem, frequentada por parceiragem de ínfima condição
e mal-afamada, Zé Zoião, Cândido da Bertolina,
exímios artistas da vermelhinha, operosos contribuintes da
estatistica criminal e heróis de todos os distúrbios
que agitavam a paz da cidade. Eles se encarregavam de atrair as
vítimas: comboieiros e matutos ingênuos; e, depois,
como viciosos de raça, repartiam, ao jogo, as quotas das
extorsões.
Crapiúna
era freqüentador assíduo, principalmente quando se jogava
o monte, partida de sua predileção.
Os outros parceiros
não se davam bem com ele, por ser muito rezinguento. Por
qualquer pretexto, armava barulho e, muita vez, estivera a pique
de fazer água suja, inconveniente aos créditos da
casa.
Desde que tomara
a peito quebrar o encanto de Luzia-Homem, andava-lhe a sorte arrevesada.
Perseguia-o um caiporismo incessante, que o tornava ainda mais irritadiço
e trêfego, principalmente quando Belota, chasqueando, insinuava
que ele estava contra o sentido do rifão, sendo infeliz no
jogo e no amor, e atribuía as perdas consideráveis,
que ele sofria, ao fato de andar com o juizo passeando, em vez de
fixá-lo nas cartas ensebadas e sujas do baralho, recurvado
em forma de telha pela pressão do partir, repetindo-lhe a
cada pexotada, que jogador não guarda cabras.
Nessa tarde,
o jogo fervia lá dentro, e as três mulheres continuavam
a grasnar, aguardando as gorjetas dos afortunados, e fazendo de
vigias para avisarem aos jogadores a aproximação do
sargento Carneviva, que era um duende para os soldados. Em achando
banca armada, podiam os viciosos contar com os mais severos castigos,
o serviço dobrado com mochila às costas em ordem de
marcha e sarilho, quando não eram esfregados com surra de
espada de prancha, ou de cipó de raposa.
Crapiúna
estava num dos seus piores dias. Perdera já quantia tão
avultada, que os parceiros procuravam, surpreendidos, atinar onde
arranjara ele tanto dinheiro. Os prejuízos montavam a vinte
que haviam passado, suavemente, para os bolsos do Zoião e
do Cândido, nos quais Crapiúna encarava desconfiado,
atribuindo a batota, em que eram useiros e vezeires, tamanha fortuna.
- O Senhor -
disse-lhe Zoião, cravando-lhe, de esguelha, os grandes olhos
esbugalhados - parece que está maldando de nós!
- Não
estou maldando - resmungou Crapiúna - mas tanta sorte junta
é de fazer a gente desconfiar...
- Pois se desconfia
- avançou o Vicente, em jeitos arrogantes - o remédio
é não jogar mais nós. Veja o seu Belota se
se queixa...
Cândido,
velhaco e pouco expansivo, não falava, exasperando com um
sorriso irônico, o soldado infeliz.
- Não
me queixo - observou Belota - porque estou com o juízo no
jogo. Você, Crapiúna, não tem razão.
Estou com um olho no padre e outro na missa, e não admitiria
trapaça... principalmente em minha casa.
- Nem nós
seríamos capazes de abusar... - acrescentaram, quase ao mesmo
tempo, os outros parceiros, com uma vasta exibição
de escrúpulo.
- Vocês
são capazes de tudo! - tornou Crapiúna, irritado.
- Veja como fala!
- Tenho visto
o que fazem com os matutos. Comigo fia mais fino... Se eu perceber
qualquer tramóia...
Foi-se azedando
a discussão até falarem todos, em tumulto, trocando
injúrias e doestos, apesar da intervenção conciliadora
de Belota, para evitar um conflito.
Teresinha, que
fechara a porta da rua para mudar de roupa, foi atraída pelo
rumor e não resistiu à curiosidade de saber donde
provinha. Dirigiu-se, cautelosamente, ao pequeno quintal; e, firmando
os pés nas fendas dos tijolos carcomidos, guindou-se acima
do muro que dava para a casa vizinha. Daí descortinou a tumultuosa
cena, a fúria de Crapiúna, as ameaças dirigidos
aos parceiros venturosos, às réplicas destes, cheias
de malícia irônica, audaciosos, porque, aliados como
estavam, não se arreceavam do insolente soldado, nem eram
homens que morressem de caretas, mesmo das mais pintadas.
Chegou o momento
em que esteve iminente a conflagração. Vicente, sempre
calmo, sempre sorridente, considerava, que tanto direito tinha Crapiúna
de desconfiar deles quanto estes; entretanto não o faziam,
porque não queriam cascavilhar na vida alheia.
- Para saber
- atalhou o Cândido - onde você desenterrou botija para
ter tanto dinheiro para perder.
- Olhe - acrescentou
Zoião - se eu quisesse falar era capaz de o desgraçar...
Crapiúna
estremeceu, e levou, de repente, a destra ao cabo da faca, escondida
debaixo da farda.
- Pois fale,
seu miserável - bradou ele, ganindo de raiva que te hei de
obrigar a morder a língua danada.
- Olha Zoião,
meu amigo Crapiúna - implorava Belota, entre os dois. - Nós
somos todos amigos velhos. Para que este baticum de boca... Daqui
a nada ouvem lá fora... Pelo amor de Deus... Seu Candinho,
você que é mais moderado tenha mão no Zoião,
mais no Vicente...
- Pois então,
seu Belota - ajuntou Zoião, com os olhos faiscantes - era
o que faltava, um indivíduo...
- Depois digam
que sou eu quem está intimando!...
- Que - continuou
Zoião - não pode levantar a cabeça diante de
homens de mãos limpas, querer ter voz altiva para insultar
os outros!... Tenha mão nele, que é soldado como você
e deve respeitar a farda...
Crapiúna
rosnava, acovardado, como fera acuada, subjugado pela serenidade
do adversário. Lívido, de olhar fulvo, ensangüentado,
resmoneava surdas ameaças, e Zoião, com inquebrantável
energia, continuava:
- Não
pense que digo isto por estar em companhia e aqui na casa de Belota...
Sou homem para o senhor em toda a parte, e como quiser. Se tem Pasmado,
eu tenho Pajeú, ferro de qualidade que nunca me envergonhou...
Se o seu já quebrou o preceito, o meu também não
está em jejum...
- Pelo amor
de Deus - suplicou o Belota, com lágrimas na voz - Basta!...
Basta!... Está acabado por hoje, meus amiguinhos da minh'alma...
Vocês parecem crianças...
- Olha, cabra,
toma a bênção ao Belota...
Depois desta
ameaça, Zoião deixou-se conduzir pelo Cândido,
que chofrou esta pilhéria:
- Até
mais ver, seu Crapiúna, quando quiser a desforra... Damos
lambuje...
Teresinha, espiando
ansiosa, por cima do muro, lamentava o desenlace pacífco
da contenda.
- Você
sempre arma cada rascada, seu Crapiúna - observou Belota,
ainda agitado.
- Aquele homem
é um precipício - murmurou o soldado - Se não
fosse você... Deixe estar que os desaforos não caíram
no chão...
- O melhor é
você não fazer caso...
Belota, com
maneiras manhosas de consumado velhaco, tinha enorme predomínio
no camarada, que tanto era agressivo e rixoso, quanto cobarde, quando
entestava um adversário considerável. Isto sucedera
no caso da Quinotinha, a que o Alexandre defendera, com uma coragem
evidente, bonita...
Depois de muitos
conselhos e exortações, Belota pretextou necessidade
de ir ao corpo da guarda, prometendo voltar sem demora.
Vendo que Crapiúna
se dirigia para o quintal, Teresinha desceu, ligeiro, do posto de
observação, e correu. Mal teve tempo de chegar à
porta, atrás da qual se escondeu, trêmula de terror.
O soldado, destro
como um gato, saltou por cima do muro, e dirigindo-se para o fundo,
suspendeu um velho caixão, atulhado de coisas imprestáveis,
tirou de sob o qual uma bolsa de coiro de onça, cheia de
dinheiro.
Enquanto o soldado
contava, umedecendo os dedos na língua, as notas miúdas,
dilaceradas e sórdidas, Teresinha, no esconderijo, procurava,
em vão, conter as pernas vacilantes, quase a vergarem. Pelos
seus olhos espavoridos, passou a visão do responsório,
em casa de Rosa Veado. Uma das sombras, aquela que, com esgares
de louco, a arrebatava em volteios macabros pelo ar, em nuvens de
fumaça sufocante, estava ali corporizada, bem nítida,
contando o dinheiro furtada. O glorioso Santo Antônio operara
o milagre. Por precaução criminosa, talvez para arriscá-la,
Crapiúna escondera o furto, denunciá-la-ia mais tarde,
e ela seria, como cúmplice de Alexandre, vítima de
uma prova esmagadora.
Entre o terror
de se achar a sós com o soldado em tão estreito espaço,
ser por ele pressentida e descoberta, testemunhando o terrível
segredo, e o prazer de haver colhido certeza da autoria do crime,
Teresinha vacilava na resolução por tomar, sem se
embaraçar nas malhas da rede, em que pretendia apanhar o
criminoso. Teve ímpetos de gritar, de surpreendê-lo
em flagrante, e arrastá-lo à presença do delegado.
Isso, porém, seria perder-se, sacrificar-se, inutilmente,
porque Crapiúna seria capaz de eliminá-la, estrangulá-la,
sem piedade. Ela não poderia lutar, frágil como era
e aberta dos peitos, contra um homem vigoroso e armado de uma faca
hedionda, cujo cabo de chifre, incrustado de arabescos de oiro,
surgia-lhe da ilharga. Ah! se tivesse os músculos de Luzia!
As pernas lhe
tremiam, cada vez mais bambas; os dentes se chocavam com estalidos
secos, toda ela tiritava inundada de suor gelado, que lhe empapava
os cabelos na fronte, e lhe corria pelo dorso, como vermes pegajosos.
A cabeça andava-lhe à roda; e, na visão perturbada,
o soldado se afigurava desdobrado em outros iguais e pequeninos,
que avançavam para ela com trejeitos de palhaços.
A mísera debatia-se para fugir, implorar socorro, como na
angústia de um pesadelo.
Os rápidos
instantes que se ali demorara o soldado lhe pareceram infindáveis;
e quando recobrou a posse de si mesma, saindo do esconderijo, pé
ante pé, com meticulosas precauções, lívida,
espavorida, viu que o quintal estava deserto. Nada denunciava a
presença dele: o caixão estava no mesmo lugar, onde
permanecia, havia muito tempo; não viu pegadas no chão,
nem o mais leve vestígio.
E a bolsa?...
Ela não ousava verificar se fora reposta onde a vira.
- Seria realidade
ou sonho? - ínquiria ela, procurando despertar a memória,
fixar idéias e recompor o fato, em todas as suas minúcias
- Teria, na verdade, visto Crapiúna transpor o muro, suspender
o caixão e contar o dinheiro?...
Seria a revelação
efeito da intervenção do Santo?...
Nessa dolorosa
incerteza, esgotadas as forças, com os quadris doloridos,
como se os houvesse traspassado a faca do soldado, marchou trôpega,
para o interior do aposento, então quase escuro, e, subjugada
de inelutável torpor, derreou-se na rede, armada a um canto.
Era quase noite.
Não se ouvia mais o grazinar das três mulheres, que
haviam partido para a delícia de um gozo, fariscando, numa
insaciedade, a fortuna dos jogadores.
CAPÍTULO
XVIII
O relógio
da Matriz dava oito horas, quando Teresinha despertou sobressaltada,
tomando pela claridade da aurora, o luar que se coava pelas frestas
do telhado. Seu primeiro movimento foi para erguer-se, ir ter com
Luzia, dar-lhe, como costumava, notícias de Alexandre, e
contar-lhe a excelente novidade. Mas, o corpo enlanguescido de tão
violentas comoções, do torpor do sono, recusou obedecer.
Ela permaneceu encastoada na rede, encadeando idéias dispersas,
e fixando bem, na memória, o episódio que duvidava
ainda fosse sonho, ou realidade. Por fim, assaltou-a o medo de estar
só na penumbra do quarto, povoado de fantasmas, rumores suspeios
que se lhe figuravam passos de homem aproximando-se, hálitos
ansiosos, como a sua própria respiração ofegante.
Com esforço
voluntarioso ergueu-se, espreguiçou-se para distender as
articulações entorpecidas, e abriu, de manso, a porta.
O beco estava
deserto, banhado de luz intensa, suavemente argentina. Na casa fronteira,
alumiada pela froixa luz de uma vela de carnaúba, chorava,
em magoados vagidos, uma criança enferma, acalentada pela
mãe, que murmurava monótonas cantigas, cortadas de
suspiros. Era a angústia do coração a estoirar
de pranto.
Teresinha espreitou
todos os lados; fechou a porta sem estrépito, e partiu, dirigindo-se
para a várzea, por uma estreita senda, cavada no solo, ladeado
de cisqueiros, farejados, afocinhados de cães magros e murchos,
que se esgueiravam desconfiados. Ela passou, depois, cosida aos
altos muros do fundo dos quintais, até chegar à encruzilhada
das ruas, cheias de escravos, retirantes, gente ,suja, gente esquálida,
carregando potes d'água, colhida nas cacimbas abertas na
areia do rio, a conversar, rezingando, em voz alta, com rasgadas
desenvolturas de chufas, de arregaços obscenos, com risos
estridentes de malícia.
Ao chegar à
rua, suspirou libertada do pavor aflitivo; e, outra vez, gozando
uma doce serenidade d'ânimo, seguiu na direção
da igreja do Rosário, relembrando os incidentes daquela tarde,
a cena do jogo, a cobardia no esconderijo, e o terror que lhe não
permitia verificar se Crapiúna deixara a bolsa de coiro de
onça debaixo do caixão. Em todo caso, estava satisfeita
com o haver logrado a certeza do verdadeiro criminoso, indicado
pelo infalível, pelo glorioso Santo Antôniol, e a convicção
de concorrer para a libertação de Alexandre e a felicidade
inteira de Luzia. E reputava-se engrandecida por essa boa ação,
renovada do passado de culpas, de crimes talvez, dos quais fora
responsável inconsciente, e, sobretudo, a principal vítima.
Entidade diminuída e inútil, flutuando sobre uma suja
torrente de vícios incontinentes, sentia-se valorizada, sentia-se
forte e sentia-se prestante. Duas criaturas, pelo menos, neste mundo
de ingratidão, de perfídia e de miséria, seriam
reconhecidas à sua dedicação.
Enlevada no
doce conforto do beco, Teresinha foi subindo a rua do Rosário
até ao largo. Em redor do Cruzeiro, erguido defronte da igreja,
sobre um sólido pedestal de alvenaria, crentes, ajoelhados,
rezavam padre-nossos, ave-marias e o terço, murmurado, nuns
tons soturnos de devota cadência.
Do piedoso burburinho,
sobressaía a voz de Dona Inacinha, ao recitar, com solenidade
de padre, o gloria-patris, respondido pelos fiéis, numa algaravia,
um mistifório de latim e português: - Os que perderem
em princípio, agora im sempre por todos os séculos,
seculoro. Amém, Jesus.
A moça
prostrou-se, comovida, abeirando-se do grupo, pouco e pouco engrossado
pelos transeuntes, de uma reverência grave, na maioria mulheres,
de alvos mantos, a espalharem ao luar, claro como o dia. Havia muito,
seus lábios se não entreabriam à floreseêneia
da prece consoladora, nem despertava, aos eflúvios puríssimos
da fé, sua alma agrilhoada ao pecado. Dos hábitos
piedosos da infância, apenas conservava o de persignar-se
antes de dormir, antes de tomar banho. Não se recordava da
última vez que rezara, a não ser a oração
sacrílega em casa da Rosa Veado.
Terminados os
mistérios do terco, Dona Inacinha entoou, com pompa, numa
voz fanhosa e áspera, o canto de contrição,
- "Oh! Senhor Deus bem-amado...", acompanhado por todos
os devotos, com uma dissonância aparatosa, irremediável.
Aos derradeiros versículos, houve uma contrita, houve uma
longa pausa. Recolheram-se todos com Deus, curvados e humildes,
preparando-se para o solene epílogo do ato religioso, a súplica
comovente de misericórdia. Quando, esta ecoou, entoada pela
beata, em acentos plangentes, as pessoas, afastadas da igreja, reunidas
em roda, na calçada, tanto que ouviam a súplica, ajoelhavam
e batiam também nos peitos, repetindo, em leve, em sentido
balbucio, a invocação à misericórdia
divina. Teresinha curvou-se, compungida, e pediu a Deus, sinceramente,
perdão dos seus pecados.
Ergueram-se
os devotos, como um rebanho de ovelhas, espantado na malhada noturna,
e debandaram em todas as direções, depois de beijarem
o pedestal da grande cruz negra, que o luar destacava,,com melancólicos
fulgores.
Ao toque de
nove horas, desmancharam-se as rodas de confabulação
amistosa; trocaram-se saudações habituais e arrastaram-se
as cadeiras para o interior das casas, cujas portas se fechavam
com estrépito.
Naquele tempo,
terminavam a tal hora, com exceção das raras casas
da fidalguia da terra, as visitas, fossem de cerimônia, fossem
íntimas. É considerável esta nota.
Luzia passeava,
impaciente, sob a latada, cujas palhas, muito secas, farfalhavam
ao violento embate das rajadas tépidas.
- Que horas
são estas?! - exclamou, avistando Teresinha.
- Fui ao meu
quarto - respondeu esta - mudar a roupa e peguei no sono...
- Pensei que
te havia acontecido desgraça... Tardaste tanto... Estava
num pé e noutro ansiosa... E ... Alexandre?...
- Na mesma.
Poucas palavras e muito sucumbido... Mete dó vé-lo,
coitado!
- Perguntou
por mim?
- Não.
Eu é que falei de você. Disse-me que não lhe
podia pagar o que tem feito por ele; entrou a repetir que já
está desesperado... Sempre a mesma ladainha.
- Tem razão.
Há quase um mês que padece...
- Deixe estar
que, mais dias, menos dias, se descobre a verdade. Deus há
de permitir que isso seja breve, talvez amanhã...
- Amanhã?!...
Dessa esperança estou farta.
- Não
desespere, Luzia. Quem espera sempre alcança. Você
nem pode adivinhar o que vai acontecer.
- Sabe, então,
alguma novidade?...
- Não.
É um palpite.
- Um palpite
à-toa?...
- Lembra-se,
Luzia da minha alma, lembra-se do respônsio?
- Sim. E depois?...
- Não
lhe dizia eu que tinha fé no milagre? Pois é por ter
fé que prevejo a próxima libertação
de Alexandre. Diz-me o coração que ele está
ali e está na rua. Ainda há instantinho rezei o terço
no cruzeiro do Rosário, e uma voz interior dizia-me, com
segurança: Deus tarda, mas não falha...
- Então
ele nem perguntou por mim!?
Luzia prescrutava,
com olhares insistentes, o pensamento de Teresinha, suspeitando
que ela lhe ocultasse a verdade, ou que soubesse algo que, por compaixão,
lhe não queria revelar. Essa reserva mental devera influir
naquele ar de mistério, velado de ironia, palavras vagas,
em completa discordância do gênio expansivo e alegre
da rapariga, uma deleitosa criatura sem aspirações,
resignada ao seu quinhão minguado da partilha das coisas
boas deste mundo, feita pela Providência. Entretanto, ela
testemunhava, com funda mágoa, a ansiedade, o desconcerto
de Luzia.
Esteve a pique
de revelar-lhe o descobrimento do dinheiro; mas, por um justo egoísmo,
desejava reservar para si, exclusivamente, a caridosa iniciativa
da libertação do prisioneiro, se bem que não
houvesse ainda atinado como tirar partido do que vira, ou tornar
valioso o seu testemunho único, porque não ousara
verificar se a bolsa ficara no lugar onde Crapiúna a escondera.
Era por medo,
por cobardia indesculpável que se não houvera assegurado
dessa circunstância importante, ela que tinha afrontado perigos
e estava calejada de suportar as vicissitudes da vida? E se ele
houvesse tirado o dinheiro? Tornar-se-iam inúteis o descobrimento,
o tormento daqueles angustiados, daqueles inolvidáveis instantes,
porque nada valeriam as suas afirmações.
Seria possível
que assim se desvanecessem as esperanças da iminente vitória
da verdade à calúnia, urdida contra o pobre moço!...
Luzia por sua
vez, meditava, com os claros olhos fitos na clara lua, a librar-se
no céu, de um fino e doce azul. Seu pensamento adejava em
redor de Alexandre, que, indiferente, não perguntara por
ela, merecedora do castigo desse desdém, e rendida à
voz diabólica que, das entranhas, lhe bradava, com insistência
lancinante: "és, culpada pelo teu excessivo amor-próprio,
pela tua soberba!..."
Seguia-se a
revolta, com assomos fanfarrões de defesa inconsistente,
fútil.
- Não
quer saber de mim? - pensava ela - Melhor. Fosse eu outra, faria
o mesmo. Deixá-lo-ia entregue à sua sorte, desobrigando-me
de tamanha canseira, pois muito tenho feito para demonstrar-lhe
a minha gratidão. Talvez isso lhe conviesse para desembaraçar-se
do compromisso de ligar à sua vida, uma mulher pobre com
a mãe doente, duas bocas a reclamarem de comer, neste tempo
de carestia, e maior soma de trabalho. Seria uma loucura pensar
em casamento em semelhante crise. Ele, sozinho, poderia suportar
privações, vencê-las ou sucumbir consolado de
não fazer falta a ninguém, como defunto sem choro...
E Gabrina?...
- Não iria esta ou outra igual ocupar, no coração
vazio, o lugar que Luzia abandonara? Não procuraria ele,
na triste conjunção do naufrágio das suas esperanças,
uma afeição que o consolasse, um refúgio carinhoso,
embora impuro de lascívia, onde se abrigasse para espairecer,
como quem se intoxica de bebidas capitosas para curar dissabores,
ou se afoga na vasa infecta de um pântano?
Seria horrível.
E Luzia estremecia, sob um pavor, como se fora ameaçada do
espólio de um bem inestimável, de coisa a que tinha
direito sagrado, coisa que ela criara, e à qual transmitira
parte da sua alma, planta que tratara com desvelado carinho, regada
com o suor das suas aflições e o orvalho das suas
lágrimas, ameaçada de ser desarraigado por mão
criminosa, quando lhe desabrochavam, pujantes de viço, coloridas
e perfumosas, as primeiras flores. Não tinha energias varonis,
músculos poderosos para defender o seu bem querido, e esmagar
o espoliador!?... Não tinha o indeclinável dever de
lutar pelo que era seu, e constituía, já, elemento
essencial da sua existência, como se defendesse a própria
vida, o património inexaurível dos tesoiros do coração,
o precioso quinhão da inefável ventura que, neste
mundo, só no amor se encontra?
Como puas lancinantes,
esse egoísmo, que é a suma de todos os instintos da
espécie, tanto mais veementes e indomáveis quanto
menos culto é o espírito da mulher, não contaminada
de pecado, na exuberante razão do organismo sadio, assanhava-lhe
as iras, a lhe morderem como cobras, o coração, que
lhe projetava nas veias uma torrente abrasada de ódio a Gabrina,
a todas as mulheres que lhe disputassem a presa adorada, contra
si mesma, que o abandonara, contra as coisas que a cercavam, testemunhando
o seu penar, contra aquele astro radiante a iluminar a luta travada
no âmbito escuro da sua alma, como lâmpada tristonha
a revelar o monstro de paixão acuado na caverna das entranhas,
latejantes de desejos...
Passava-lhe,
então, pela mente alucinada, a torva idéia de vingar-se,
rebaixando-se, de poluir-se, de atolar-se no charco da lascívia,
saciando-se até à embriaguez, ao primeiro encontro,
fora embora cúmplice do imundo crime, o mais hediondo dos
homens. Crapiúna, outro qualquer, ainda mais vil e detestável,
contanto que a sua depravação, com requintes de despejo,
fizesse sofrer Alexandre, o desalmado, o frio homem, que não
perguntara por ela, a Teresinha.
E a voz diabólica,
vibrando em místicas melodias, de um tom angélico,
e dominando o tumulto da sua alma atribulada, repetia: "Por
que te golpeias assim? por que te maceras nessa luta mortíficante
e estéril, frágil criatura?...
Vai; curva-te,
como escrava, aos pés do ente adorado, beija-lhe as mãos,
unge-as com o bálsamo do teu pranto, porque o amas... Uma
exortação de alto romantismo, a dessa voz de anjo
e diabo...
Despertou-a
do cismar torturante, a voz de Teresinha:
- Que bonito
luar, Luzia. Dá vontade à gente de passar a noite
em claro. Como está bem visível! São Jorge
e o cavalo empinado. Dizia-me um tapuio velho da Serra Grande que
a lua protege a quem quer bem. Quando uma tapuia gentia tinha saudades
do marido ausente, olhava para ela, e lá lhe aparecia o retrato
da criatura querida, ou nela casavam, conduzidos pelos olhares,
as almas do par, separado por léguas de distância.
Luzia, maquinalmente,
olhou para a lua a navegar serena no céu nítido, e
pensou que, àquele momento, Alexandre também a contemplava,
triste e só, por entre as grades do cárcere infecto.
- A lua - continuou
Teresinha. com melancolia - leva recados e juras dos noivos, e amolece
o corpo da gente. E o tapuio dizia que ela era mãe da terra,
das coisas e das criaturas vivas; protegia as plantações,
mandando chuva e orvalho, aquecia os ninhos chocos, dava cheiro
às flores em botão e cio aos animais. Também
tirava o juizo à gente, quando se zangava... Ah! que saudades
me faz o luar! Foi por uma noite destas, que conheci o Cazuza pela
primeira vez... Ai, ai... Deus... meu pai...
E ela se esticava,
num grande bocejo de volúpia, deitada sobre a esteira, desalinhadas,
pelo vento, as roupas leves, os olhos quase cerrados à imortal
saudade do primeiro amor, sempre vivo no inquieto coração
devastado.
- Tomara que
já amanheça - continuou, bocejando - Como custa a
passar a noite!... Em que está você tão embebida,
Luzia?
- Eu!... Estou
maginando na minha triste vida...
- Arre lá
com tanto disfarce! Você, minha negra, não se abre
comigo. Estava, mas era longe daqui, rezando à lua como as
tapuias.
- Você
tem coisas, Teresinha!?...
- Não
chorei na barriga da minha mãe, mas adivinho. Por que não
diz logo que está com o juizo em Alexandre?
- Como hei de
pensar em quem não faz caso de mim!... Nem perguntou a você,
por mim...
- Não
perguntou por quê?... Porque você, por pique, não
foi mais à cadeia. Você é caprichosa, ele também...
Mas não se me dava de apostar como ambos e dois estão
arrependidos...
- Acha, então,
que depois do que houve, eu deveria entreter uma... coisa sem fundamento,
sem esperança?
- Qual o quê!
A gente faz de um argueiro um cavaleiro, fica amuada, jura por quantos
santos, faz finca-pé... É o mesmo que nada. Quem quer
bem não tem vergonha. Eu, ralada neste mundo, que o diga.
- E a história
da Gabrina?
- Mentira, tudo
mentira. Não duvido que ela levantasse, com aquela cara de
santa, toda denguices e inocências, o falso testemunho. É
uma rapariga bem-paxecida, bem feita de corpo, mas tem a alma deste
tamanhinho. A Chica Seridó tem comido candeias, desde que
tomou conta dela. É capaz de tudo, meu Deus perdoai-me. Não
duvido que tenha feito esse malefício por ciúme...
- Por ciúme?...
- Pensa que
todos os homens se babam por ela, e, como Alexandre não lhe
deu trela...
- Demais, que
tenho eu com isso? Tanto se me dá que ela goste dele, como
que não goste. Só me empenho para ele ser livre. O
mais... está acabado...
- Que soberbia,
Luzia! Você ainda é castigada.
- Por quê?
Se não faço mal a ninguém...
- Deixe estar.
Quem for vivo verá... Não há mal que sempre
dure... Amanhã!... Ali! miserável; tenho aqui o fio
da meada!
Teresinha, como
se falasse a um ente miserável, estendeu, com ar triunfante,
o punho cerrado.
- Bem dizia
eu - exclamou Luzia - que você sabe alguma coisa...
- Ora se sei...
Vai ver... Amanhã, se Deus quiser... Não; o melhor
é não dar à língua... Espere...
E Teresinha,
muito lenta, muito lânguida, entrou a murmurar, baixinho,
com uma ternura tiritante, uma canção, da qual Luzia
distinguiu bem esta quadra:
A traição,
meu bem, ature:
Diga que é
cega e não sabe,
Não há
mal que sempre dure,
Nem bem que
nunca se acabe ...