Luzia
Homem, de Domingos Olímpio
CAPÍTULO
XII
A velha dormia
tranqüilamente, e as duas moças continuavam a conversar
no alpendre.
Queria você
muito bem ao Cazuza? - perguntou Luzia a Teresinha, de súbito
emergindo de um vago cismar.
- Se queria!...
- respondeu-lhe ela, com saudoso suspiro. Por ele larguei pai, mãe
e irmã de quem eu era um ai-Jesus! Era o seu tudo e sentia-me
tão feliz com ele que, desde o dia em que Deus o levou, fiquei
insensível como uma pedra, vivendo por viver, rolando à
toa pelo mundo...
- Nunca teve
inclinação para outro?
- Eu, não.
Vendo-me sozinha e desacostumada a trabalhar para comer, não
tive remédio senão me resignar à minha sorte
e estar por tudo. Quando algum homem se engraçava de mim,
eu fingia gostar dele. Encontrei um desalmado que me queria como
uma fera; tinha maus bofes e me trazia, ciumento como o demônio,
que nem negra cativa. Aquilo não era homem; era o cão
em figura de gente. Por qualquer suspeita ficava danado como se
me quisesse comer viva. De uma feita, arranchou-se na casa em que
morávamos como marido e mulher, um moço rico e bonito,
que se pós a olhar muito para mim; e eu, ao levar-lhe o café,
cai na asneira de sorrir para ele. Ah! Luzia, se você me visse
naquele tempo!... Não é por me gabar, alva como uma
imagem, com duas rosas nas faces e carnes rijas como pau!... Meus
cabelos pareciam de oiro e meus olhos eram azuis e claros como duas
contas. O mundo e a pobreza estragam a gente. Hoje, veja como estou
murcha, engelhada, cheia de sardas... Mas, para encurtar razões,
quando o moço foi embora, o homem pôs-me de confissão;
e, não sabendo eu o que lhe dizer para me desculpar de falta
que não me passara pela cabeça, disse-me uma porção
de desaforos porcos, nomes de mãe; chamou-me sem-vergonha,
safada, deslambida, e, agarrando-me pelos cabelos, deu-me tabefes...
- E você?
- perguntou Luzia, indignada.
- Eu chorei
muito; lamentei a minha desgraça; jurei por todos os santos
do céu, que era inocente, até que ele, com um pontapé,
me atirou para dentro da camarinha, berrando possesso: "Anda,
peste!... Amanhã não me ficas aqui em casa; ponho-te
fora na estrada, onde te apanhei como uma cachorra vadia... "E
fechou, com estrondo, a porta. Fiquei na escuridão, maginando
no que faria de mim, quando amanhecesse. Ao mesmo tempo que me fervia
o coração, estava contente com ver-me livre de semelhante
bruto; mas tive medo de apanhar outra vez, e esperei quieta o que
desse e viesse. - Que me importa - disse comigo - Hei de achar quem
me queira ... E, pensando no moço causador daquela desgraceira,
peguei no sono, deitada numa rede velha que ali estava armada. Quando
os galos estavam amiudando, ouvi bulir na porta; levantei-me de
um pulo; fui deitar-me no mesmo lugar onde havia caído e
pus-me a soluçar baixinho. Abriu-se a porta, e a claridade
do copiar, alumiado por uma vela, deu em cheio sobre mim. Eu estava
derreada, no chão, sustendo o corpo com a mão esquerda,
enquanto tapava os olhos com as costas da direita, olhando por baixo.
O desalmado entrou devagarinho; chegou perto de mim; ficou alguns
minutos parado e disse-me, depois, em voz sumida e zangada: "Vá
se deitar no seu quarto... " Eu não respondi, nem me
mexi; entrei a soluçar mais forte. Tocou-me, então,
de mansinho, no braço, dizendo, já com outra voz,
manhosa e adocicada - "Teresa, você está zangada
comigo?" Repeli o agrado com um safanão do cotovelo.
Ele continuou, procurando abraçar-me: - "Este meu gênio!...
Às vezes faço coisas!... Veja: estou arrependido...
do que fiz..." Estava quase acocorado junto de mim. "Só
o que falta - resmunguei, soluçando mais forte - é
mandar-me surrar pelos seus vaqueiros com um nó de peia."
- "Perdoa, coração - continuou, tentando ainda
me abraçar - Eu não sou mau, mas o ciúme me
tira o juízo. Esqueça tudo, minha cunhãzinha
da minha alma... Prometo nunca mais te ofender. Pede o que quiseres,
benzinho; serei teu escravo..." E, suspendendo-me do chão,
levou-me ao colo como uma criança... Todo ele tremia; eu
sentia-lhe o baticum do coração; suava e bufava como
um novilho... Eu, nem como coisa: zangada, gemendo e soluçando.
No outro dia, enquanto ele se derretia e se babava em agrados e
promessas, eu maginava no moço e no Cazuza que, lá
do céu, me pedia vingança...
- Você
não abandonou logo esse malvado?!...
- A falar a
verdade, não era de todo mau. Fiquei por medo e por não
ter coragem de começar a vida de novo... Já tinha
padecido tanto, que mais um pouco não me fazia mossa. Mal
com ele, pior sem ele, que, tirante as venetas de cíúme,
era bom para mim; dava-me tudo: era só pedir por boca, como
dona de casa... Maridos, casados na igreja, batem nas mulheres,
quanto mais... Ora, deixei-me estar, mas pensando sempre que o meu
adorado Cazuza nunca me havia maltratado, e que eu devia, mais cedo
ou mais tarde, tomar desforra; porque, apesar de franzina, ninguém
mas faz, que não as pague, tão certo como Deus estar
no céu.
- Vingou-se
então?...
- Ora, ora,
ora!... Eu lhe conto. Seu Berto (ele se chama Bartolomeu, mas tcdos
o tratavam assim) foi em fins d'águas fazer a ferra em uma
fazenda dos Crateús. O outro parece que soube disso, e se
apresentou uma tarde, debaixo de um pé d'água, que
se diria vir o céu abaixo. Eram relâmpagos e trovões
de encandear e ensurdecer a gente. Aboletou-se e passou a noite.
Soube, então, que era um tal capitão Bentinho, de
família muito rica e poderosa. Trajava bem, gibão,
guarda-peito, e perneiras de coiro de capoeiro, muito macio, bordados
de flores, pospontadas à sovela, com abotoadura e esporas
de prata. Não imagina como tinha a cor fina e branca, e uma
barba parecida, comparando mal, com a de Jesus Cristo. Como estou
falando com o coração aberto, não tenho vergonha
de confessar que me engracei dele, acho que por capricho ou por
ser em tudo diferente do outro. De madrugada, ainda chuviscando
e antes que a gente da casa acordasse, arrumei algumas peças
de roupa e meti-as em sacos com alguns patacões dados pelo
Berto; e fugimos: ele montado num possante quartau pedrez, eu à
garupa. Arre! que foi uma viagem de arrebentar. Tivemos de atravessar
muitas léguas de sertão, passando rios a nado, dormindo
no mato e comendo de alforje até chegarmos a uma povoação,
perto da fazenda onde moravam os pais dele. Aí fui aboletada
em casa de uma velha. Passamos três dias como noivos: ele,
fino como seda; eu, cheia de denguices e manhas, como rapariga donzela.
E contudo, Luzia, você não é capaz de acreditar
que, amimada pelo Bentinho, todo delicadezas e cerimônias,
tinha saudades do Berto com o seu sangue na gueira, aqueles olhos
devoradores, aquela brutalidade...
- É possível?!...
Pai do céu!...
- Você
não sabe de quanto o bicho mulher é capaz, quando
vira a cabeça.
- Anda; conta
o resto.
- Eu fazia idéia
da fúria, da danação dele, quando deu por falta
de mim, da cunhãzinha russa. Imaginei os berros, os despropósitos,
as pragas, que me irrogou, as ameaças de desforra, pois sabia
que não era homem para se conformar com o roubo da mulher.
Meu dito, meu feito. Um dia chegou Bentinho muito assustado, recomendando
que me escondesse, porque lhe haviam inculcado gente do Berto nos
arredores da povoação. Fiquei mais morta do que viva.
Não me podia levar para a fazenda, porque a família,
que tudo ignorava, não consentiria nisso. A velha que quase
não dava fé de mim e vivia muito ocupada na criação,
entrou a tomar precauções para ninguém suspeitar
a minha estada em sua casa. Um dia, era dia de, feira, e eu tinha
um desejo doido de ver a reunião de gente de uma redondeza
de vinte léguas, vendendo legumes, farinha, rapadura e outras
produções da lavoura; mas a megera não consentiu
que eu botasse o nariz de fora. Ali por volta de meio-dia, ouvimos
tiros de bacamarte e uma algazarra dos demônios, um bate-boca
desadorado. Pouco depois soubemos que houvera um pega entre cangaceiros,
desconhecidos no lugar, e a gente do Bentinho, e que já havia
morrido um homem... Que seria?... Fiquei numa aflição,
tremendo de susto, mas experimentava uma secreta satisfação
que fosse por minha causa a briga e o sangue derramado.
- Que horror!...
- Estava num
pé e noutro para ter notícias certas do barulho, quando,
entrou, de repente, Bentinho. Vinha muito amarelo, com a mão
enrolada em um pano e acompanhado por dois cabras, armados até
os dentes. - Que foi? - perguntei-lhe assustada - "Nada, um
arranhão no pulso, respondeu com voz sacudida - amarre-me,
endireite-me isto, sa Quitéria." Enquanto a velha punha
mezinha na ferida, um talho que ia da palma da mão esquerda
ao meio do braço, Bentinho, forá do seu natural, com
os olhos espantados, a voz surda e seca, ainda trêmulo de
raiva, contou-me que, chegando à feira, fora desfeiteado
por uns cabras, novatos na terra, já muito encachacados e
intimando com todo o mundo. Chamou a gente para amarrá-los,
mas um deles, saltando como um gato sobre o ginete, disse-lhe: -
Você pensa, seu alvarinto, que amarrar homem é furtar,
à traição, mulher alheia? Nisto chegou, à
toda, o João Brincador com três homens escolhidos,
e eu disse-lhe: - Amarra essa cambada de desordeiros. - Em cima
das minhas palavras, riscou o Berto, e foi dizendo: Você,
pode amarrá-los seu filho desta, filho daquela, mas depois
de ne pagar e ajustarmos as contas. - Eu e os meus demos de rédea
para sairmos do meio do povo; eles, rente, atrás da nossa
poeira. A certa distância rodamos sobre os pés os animais,
e os cabras que também estavam bem montados, quase esbarram
em riba de nós. - Agüenta, rapazes! - disse ao João,
que me respondeu sorrindo: Não há novidade, capitão.
Deixe eles para nós. Palavras não eram ditas, o Berto
papocou-me fogo. Abaixei-me, e a bala tirou um taco da beira do
chapéu do João -O cabra mata seu Bentinho! - gritou
ele - Os outros cangaceiros atiraram, e os meus responderam com
uma descarga. O cavalo de um deles empinou-se e rodou morto por
cima do cavaleiro, também ferido. O Berto, então,
veio seco em cima de mim, e correu dois palmos de faca do Pasmado
- Tenha mão, capitão Berto - disse-lhe eu, aparando
o golpe, com a minha parnaíba - Tenha mão que se desgraça.
Mas o homem estava roxo de raiva; espumava como um touro feroz.
Avançou outra vez num ímpeto, que não era para
graças. Suspendi o russo-pombo passarinhando como um gato;
salto pra aqui; pulo pra acolá, e o homem decidido atravessando-se
na minha frente, com o cavalo preto e ligeiro que nem um tigre.
Na terceira investida, meteu-me o ferro com vontade. Rebati com
a mão; mas quando senti o aço ranger-me na carne e
o sangue espirrar, saquei da garrucha. O homem estava cego, arremeteu
de novo e meteu-me o ferro outra vez aqui na aba do gibão.
Vendo, então, que o diabo me matava mesmo, e que eu não
podia com vantagem brigar com ele a ferro frio, perdi as cerimônias,
e lasquei-lhe fogo... O homem soltou um berro; abriu os braços
como se quisesse abraçar o vento, e derreou pra trás.
O cavalo, sentindo falta de rédea, deu quatro galões
e meio, como um poldro brabo e desembestou desapoderado, arrastando
Berto enganchado no estribo. Morreu?!... - perguntei, tiritando
de frio, e batendo os dentes como se tivesse sezões. "Não
sei. Foi batendo por troncos e barrancos até desaparecer
de nossa vista com os dois cabras restantes metidos em uma nuvem
de poeira. Dois dos dele ficaram no barro. Da minha rapaziada,,
o Chico Pintado levou uma bala aqui na coxa - lá nele -;
o Borburema perdeu o gibão, e foi ferido com um pontaço
nas cruzes; o Brincador ficou com o chapéu, novo em folha,
estragado. Todo o mundo sabe que ele tem o corpo fechado. Enquanto
brigávamos, o povo fazia um barulho medonho. Todos viram
que me defendi o mais que pude, negaceando, para lhe poupar a vida.
O diabo do ferro cortava como navalha. O talho está doendo
de verdade. "E voltando-se para mim, disse: - "Não
chores, Teresa. Isto, com sumo de angico ou de maçã
de algodão, sara depressa.... É uma arranhadura de
nada." Supunha que eu chorava por ele; mas, naquela ocasião,
meu pensamento acompanhava Berto, desfigurado pelos encontrões,
coberto de sangue e pó, arrebatado pelo Moleque, cavalo de
estimação que eu bem conhecia. Minha vontade era correr
atrás do pobre, apanhar os pedaços da sua carne, arrancados
pelos tocos e pedras. Talvez o encontrasse ainda vivo para pedir-lhe
perdão... Desde esse dia, ficou decretada a minha desgraça.
Bentinho me achava sempre triste e sucumbida. Eu tinha repugnância
daquele homem manchado com o sangue do outro. Não era já
a mesma mulher... Ele parece que percebeu isso, e foi também
esfriando, até que me participou o seu casamento com uma
prima bonita e rica. Eu respondi que lhe fizesse bom proveito...
Deu-me um maço de dinheiro e não voltou mais a casa
da velha Quitéria.
Luzia, embebida
nas palavras de Teresinha, acompanhava a narrativa com intenso interesse,
intenso abalo.
- E... depois?
- perguntou.
- Depois? Enquanto
durou o dinheiro, quase um ano, fiquei com a tal velha que foi a
minha asa-negra. Tomou conta de mim como de uma besta de carga;
fazia de mim o que queria; mandava e eu me sujeitava, calejada,
estando por tudo sem protestar, sem me aborrecer. A. velha, que
era toda agrados enquanto eu estava rica, virou para me insultar
e, uma vez por outra, me atirava à cara que era necessário
ganhar com que pagar o pirão que eu comia, porque não
era minha escrava...
- Não
prenderam Bentinho?...
- Qual prisão,
qual nada!... Ficou solto, e respondeu o jurado quando muito bem
quis. O pai dele, o coroné Manel Fernandes era o maioral
dono da terra.
- Ficou um ano,
dizia você...
- Pouco mais
ou menos, contando do dia da briga, até quando a velha morreu
de um nó na tripa. Dei graças a Deus por me haver
livrado de semelhante bruxa, e resolvi voltar para a casa de meu
pai, embora ele, que era teimoso e ríspido, me matasse; mas,
em caminho, tentou-me o demônio e fui rolando de um lado para
outro, de povoação em povoação, até
que a seca me apanhou. E aí está, minha camarada,
como vim bater aqui.
Ela, com efeito,
peregrinara pelo vasto sertão, de miséria em miséria,
rastolhando, perdida como um pedaço de pau arrastado pela
correnteza do rio, caindo nas cachoeiras, mergulhando nos rebojos,
surgindo adiante, para bater de novo sobre pedras, tornando a ser
arrebatado, até que, ao baixar das águas, pára,
coberto de paul e ervas secas, garranchos e flores, que transportou
de longe, esperando a enchente na próxima estação,
e continuando a trágica jornada, até apodrecer em
ribas desoladas, ou perder-se na imensidade do oceano.
É essa
a história da peregrinação mundana das desgraçadas,
que se desterram no seio amigo da família, quebrando o suporte
dos afetos puros, e vagando sem rumo, na ebriedade de gozos efêmeros,
à mercê da fatalidade intangível e cega.
CAPÍTULO
XIII
Esteve-se Luzia
absorta, fitando em Teresinha demorado olhar aceso de admiração,
como se lhe ela se revelasse sob a forma estranha e sugestiva de
uma heroína provada nos mais rudes lances da luta pela vida,
e conservando ainda o coracão sensível aos nobres
impulsos de ternura, de dedicação e piedade do infortúnio
alheio. Os episódio romanescos, que ouvira num enlevo de
surpresa e espanto, como as criancas ouvem, tímidas, maravilhosas
histórias de fadas e princesas encantadas, ou as proezas
de lobisomem e cavalos sem cabeça, vagando pelos campos,
nas noites tétricas em que os jacurutus sinistros piam à
beira dos rios; todos aqueles casos da paixão dominadora
arrastando, lentamente, para a voragem, a rapariga franzina, indiferente
ao perigo, sem saudades da casa paterna e sem remorso da culpa que
a poluíra, incapaz de resistir, e reincidindo no pecado como
um vicioso na absorção de licores capitosos que o
intoxicam, flutuando na embriaguez da volúpia e despertando
maculada e resignada à própria vergonha, assumiam,
na sua imaginação excitada, proporções
gigantescas de feitos valorosos, extraordinárias façanhas
de uma criatura forte, disfarçada sob ilusórias aparências
de debilidade doentia. Disseram-lhe que o sofrimento embotava as
delicadas fibras do coração; que o pecado o esterilizava,
como o sol esteriliza a terra, e estiolava as florações
sadias da semente do bem; entretanto, Teresinha era a negação
viva dessas verdades afirmadas por uma moral de convenção,
sentimental e absurda. Tinha a superioridade da mulher contente
de sofrer pelo seu amor, como um crente pela sua fé, o martírio
ultrajante do desprezo, o vilipêndio de viver execrada; aceitara,
com resignação de forte, as conseqüências
todas do primeiro passo, dado no enlevo de um sonho delicioso, para
o declive fatal, onde ninguém mais se detém e se equilibra.
Deveriam ser fortes, admiráveis, as mulheres que sobrevivessem
às provações do opróbio, com a alma
imaculada; e Luzia, apesar de seus músculos exuberantes,
se sentia aniquilada, ao pensar em ser colhida por um só
dos incidentes da pitoresca vida de Teresinha; morreria extenuada
como um pássaro cativo na arapuca. Seria horrível
ver morrer o homem amado, o abandono, o ser surrada pelo amante,
brutalmente sensual, e, todavia, lamentar-lhe a morte... Seria horrível,
seria monstruosa essa escravidão da mulher desbriada ao senhor
do seu corpo, essa passividade de animal, de coisa a mudar de dono.
Ocorria-lhe, então, que não havendo experimentado
essa abjeção, não tinha direito de maldizer
da sua sorte, incomparavelmente mais propícia que a de Teresinha,
a heróica rapariga que se não queixava.
Surgia no horizonte
o Cruzeiro rutilante, reclinado nos coxins nebulosos da Via-Láctea
e a bafagem morna da madrugada parecia o arfar da terra extenuada,
sucumbida de cansaço, quando, interrompendo a conversa, as
duas se entreolharam espantadas: tinham percebido algo de suspeito,
estalidos de galhos secos, rumor de passos precavidos, vozes abafadas,
sumidas, muito perto da casa, na direção das touceiras
de mandacarus que defendiam, com intransponível cerca de
espinhos, o pequeno quintal abandonado.
- Ouviu? - perguntou
Luzia.
- É talvez
- respondeu Teresinha, que escutava atenta - o barulho do terral
nos galhos, algum animal roendo o mandacaru.
- Não
é a primeira vez que ouço esses passos furtados, fora
de horas, ali pela cerca e no terreiro... Parece que alguém
nos espia.
- Tens medo,
fracalhona?...
- Não
tenho medo, não; mas é melhor irmos lá para
dentro.
- Pois sim.
Não se me dava de ver o que é.
Recolheram ao
quarto. Luzia abeirou -se da rede onde, encolhida como uma criança,
a velha ressonava tranquila. Teresinha ficou a espreitar, cozida
à porta entreaberta em estreita fenda; com um aceno de alvoroço,
chamou a outra, e viram, ao lusco-fusco, um grupo.
- Parece que
são soldados - observou-lhe Teresinha.
- Talvez a ronda...
- balbuciou Luzia.
Não:
são dois homens e uma mulher. Espera... Olha: estão
conversando...
Então,
muito juntas e apavoradas, ouviram:
- Eu não
dizia que estão dormindo?!...
- Qual - teimou
uma voz feminina - estão acordadas. Juro que ouvi, ainda
agorinha, falação de gente no alpendre...
- Também
ouvi - afirmou outra voz mais clara e forte - Deixemos de histórias.
É melhor não teimar. Elas botam a boca no mundo e
estamos perdidos... Nada. Aquilo, aquela bruta, não é
mulher de brincadeira...
O conselho foi
aceito pelo grupo, que se esgueirou sorrateiro, apressadamente.
- O diabo roncou-lhe
na tripa - disse Teresinha triunfante, mostrando a Luzia, a lâmina
nua do grande canivete de mola Era tocarem na porta, eu fisgar logo
um deles, para não ser atrevido.
- Parece que
ouvi a voz de Crapiúna.
- Pode ser;
mas não estava fardado. Só queria saber quem foi a
safada que veio com eles...
- Que intenções
teriam? Olha, Teresinha, não é a primeira vez que
ouço esses passos suspeitos. Há muito tempo, desconfio
que andam rondando a nossa casa.
- Também
ouvi, mas não maginei que fosse gente. Não maldei
nada.
- São
capazes de tudo.
- Lá
isso é verdade.
- Várias
noites, Crapiúna e Belota andaram a cantar fora de horas,
aqui por perto...
- Só
me dá que pensar a mulher... Será possível
que viessem botar feitico? E... não é outra coisa;
é mandinga...
- Outro dia,
quando abri a porta de manhã cedo, topei, mesmo na soleira,
um saquinho com penas de galinha pretas arrepiadas...
- E não
o abriu para ver o que continha?...
- Deus me livre.
Eu não. Tive nojo e varri tudo com o cisco para dentro daquele
buraco, cheio de carrapateiras e que foi barreiro.
- Pois eu não
resistia. Havia de revistar tudo, pegasse-me, embora, o malefício.
- E você
acredita nisso?...
- Não
sei o que é, se feitiço ou obra do cão; mas,
tenho visto casos de pôr tonto o juízo da gente. Há
malefício para abrandar coração, curar ciúmes
e até para produzir moléstias. Lá em casa havia
um velho, que curava bicheiros dos bezerros pelo rasto...
- Abusões...
- Busões?!...
Conheci um moço que foi enfeitiçado por uma rapariga,
embelezada por ele. A criatura, de repente, ficou toda torta, como
se lhe desse o ar... Ave-Maria; foi murchando, secando até
ficar pele e osso. Parecia mais um defunto em pé, que gente
viva. Desenganado de remédios de botica, foi se receitar
ao padre João Crisóstomo; chupou chave de sacráriol
do Santíssimo, mandou fazer orações fortes...
Foi bobage... A felicidade dele foi topar uma cigana, que lhe deu
contra-feitiço, uns poses para beber com leite de peito...
Santo remédio, menina! ... Uma coisa é ver outra é
dizer, como ele se levantou, já tendo os pés na cova.
- Bem, fecha
a porta e vamos dormir que é quase de madrugada.
- É mesmo...
E eu que estou moída... Parece que levei uma surra...
Fechada a porta
com precaução para não despertar a doente,
Teresinha despiu-se rapidamente; coçou o vinco do cordão
das saias na cintura; enrolou, espreguiçando-se, em gestos
felinos, os cabelos; persignou-se e derreou-se na esteira.
Lentas passaram
as horas para Luzia, sentada na rede, estremecendo ao menor ruído
do vento nas folhas da latada, e aguardando, ansiosa, o quebrar
das barras, com os primeiros fulgores da aurora. Seu olhar compassivo
flutuava entre a doente, a moça adormecida e a candeia a
crepitar melancólica, no caritó enfumarado.
Renascia-lhe,
no coração, a esperança de melhoras da mãe
adorada; e, ao mesmo tempo, suspeitava que aquele prolongado sono
fosse efeito de dormideiras, que lhe houvesse dado o médico.
Meditava na tranquilidade angélica de Teresinha, seminua,
apenas coberta por uma leve camisa de esguião, preciosa relíquia
de antiga abastança, e acreditava que lhe houvera Deus perdoado
as culpas, porque era boa na essência, e as purgara neste
mundo. Entretanto, ela, que nunca havia feito mal a ninguém,
que não abandonara os pais, nem traíra, nem ocasionara
a morte de homens que a amassem, ela que tudo sacrificara, aspirações
de moça e prazeres, que resistira aos instintos de mulher,
para manter, em meio do paul, a sua pureza imaculada, ali estava,
acabrunhada de pensamentos tristes, cruciantes como remorsos, com
a alma inquieta e o coração latejando de susto, à
previsão de perigos tremendos.
Que havia feito
para sofrer tanto? Que funesta influência exercia sobre as
pessoas que lhe queriam? Fora, talvez, ela que trouxera desgraça
a Alexandre. Bastou que ele lhe desse os cravos rubros, crestados
ao calor de seu seio, para lhe imputarem um crime infamante e ser
preso como um réprobo.
Teria má
sina, mau olhado?... Seria dessas criaturas fatídicas, cujo
contacto desorganiza e destrói? Conhecera uma formosa moça,
em cujas mãos, ovos batidos para mal-assadas, não
cresciam e desandavam em aguadilha choca; talhava o leite; definhava
e morria a planta de que ela colhesse uma flor, ou matava com o
olhar ninhadas de pintos espertos e lindos, como macias borlas de
veludo? Havia, então, criaturas, predestinadas para o bem
e para o mal?... Nasciam umas para o sofrimento, outras para o gozo,
da mesma forma que as havia destinadas ao céu ou ao inferno?...
E Deus, Deus, pai de misericórdia, permitia isso, essa iniquidade
revoltante?!...
E o seu espírito,
flutuando à mercê de noções incompletas
do bem e do mal, das causas e efeitos reguladores da vida, se rebelava,
em assomos impotentes, contra as injustiças do destino cego
e louco.
CAPÍTULO
XIV
Uma surpresa
auspicicsa assinalara o amanhecer: a velha enferma erguera-se, sozinha,
da rede; e, escorada a um pequeno cacete de cocão, envernizado
pelo uso, apareceu à porta do quarto.
- Deus seja
louvado - exclamou Luzia, em gárrula expansão alvoroçada.
- Seja bem-vinda,
tia Zefinha!... - disse Teresinha, com largos ademanes maneirosos
- Abanque-se aqui, no alpendre, que está mais fresco. Ora,
até que enfim... Não há mal que sempre dure...
- É a
minha promessa a São Francisco das Chagas, de Canindê
- observou a enferma - que me restituiu a saúde... Eu tinha
uma fé...
E o seu rosto
de pergaminho, retalhado de rugas e dobras, se dilatava em meigo
sorriso.
- Olhem - continuou,
caqueando no seio do cabeção, bordado de cacundês,
onde imergiam confundidos, entrelaçados, os rosários,
bentinhos e medidas de santos, que lhe pendiam do pescoço;
e mostrando uma caçoila com a imagem do milagroso padroeiro
em péssima gravura, cujos milagres admiráveis atraíam
os fiéis, vindos de longínquas paragens, em contínua
romaria à sua bela igreja cheia de ex-voto, pernas, braços,
mãos e cabeças, modelados em cera, ou toscamente esculpidos
em madeira, viscosamente coloridos e marcados de chagas hediondas,
muito sarapintados de sangue e arrouxeados de equimoses e alguns
verdadeiros aleijões, monstruosidades repugnantes; muletas
e ligaduras de pano velho, duras de sânie embebida; todas
essas relíquias de piedade, penduradas, em simetria, às
paredes da nave, rememorando curas, obtidas pela intercessão
do santo, a quem Jesus Cristo concedera a graça de marcar
com o estigma das cinco chagas.
Também
fizera uma promessa a São Gonçalo da Serra dos Cocos
e a outros patronos celestiais, não menos afamados pelo prestígio
de sarar enfermos, desesperados da saúde. Estava em verdadeiro
apuro para dar conta de todas elas; mas, o padre Antônio Fialho,
ouvindo-a em confissão, lhas comutara em leve penitência,
impondo-lhe a obrigação de rezar algumas coroas, terços
e o ofício de Nossa Senhora, hino mirífico, que, quando
é cantado na terra, os anjos se ajoelham no céu. Nas
horas de alívio, ela se penitenciava debulhando, entre vagos
fulgores de esperança, as contas luzidias de um rosário
bento pelo santo missionário frei Vidal.
- Não
sinto quase o puxado, minhas filhas, e aquele entalo, que me sufocava,
também desapareceu. Dormi, que nem um passarinho, louvado
Deus.
- Eu bem lhe
dizia, tia Zefinha, que o remédio, abaixo de Deus, havia
de ser a sua salvação.
- Agora - observou
Luzia - é continuar com ele: estamos de viagem.
- E tu a dar-lhe,
filha. Espera mais um pouco. Estou tão afeita a sofrer que,
se não fosse falta de fé, desconfiava ser isso visita
da saúde...
- Qual, vosmecê
vai arribar mesmo - afirmou Teresinha, com muita convicção.
A velha sentou-se,
acariciada pela filha, que lhe endireitou as dobras da saia e o
lenço da cabeça, enquanto Teresinha preparava o chá
de erva-cidreira, que ela tomava todas as manhãs.
- Agora, disse
a velha, com um suspiro de alívio - vocês podem cuidar
do trabalho, que ficarei tomando conta da casa. Se não fosse
esta pobreza, tomaria uma menina para fazer-me companhia, varrer
o terreiro, dar-me um caneco d'água, enquanto estivessem
fora labutando... Já passei, aqui, dias e dias sem ver vivalma,
até que a Luzia voltasse da obra... Que dias compridos!...
- Dias que não
voltarão, tia Zefa, porque aqui estou eu, que a não
largo mais...
- Se houvesse
por aí - continuou a velha - uma pasta de algodão,
fiaria um novelo para não estar banzando sem fazer nada...
e só pensando na moléstia ...
Às nove
horas Luzia, ansiosa por saber o que lhe começara a contar
Alexandre, a revelação interrompida pela sobrevinda
insolente de Crapiúna, partia com o almoço para o
desconsolado preso, que, mal terminada a refeição,
lhe perguntou se sabia alguma coisa de novo; e, pois lhe a rapariga
respondesse com simples gesto negativo, disse, à puridade,
suspeitar da interferência maligna de algum interessado em
desgraçá-lo.
- Sabe o que
me fizeram - continuou, amargurado - Levantaram-me uma calúnia...
Você conhece a Gabrina, aquela moça morena, que perdeu
a mãe, há pouco tempo?... Pois não inventaram
que eu lhe havia dado dinheiro e dois cortes de vestido?...
- O quê?!...
- exclamou Luzia, franzindo os sobrolhos, e encarando no moço.
- Eu que nunca
alevantei meus olhos para semelhante criatura senão para
salvá-la, quando nos encontrávamos no trabalho.
- Quem disse
isso?
- Há
gente para tudo, até para levantar falsos contra os seus
semelhantes.
- Mas... quem
inventou esse aleive?... Ela?!... É possível que uma
rapariga tão moça tenha maldade para tanto?...
- Disse que
eu andava há muito tempo atrás dela, seduzindo-a com
promessas de casamento e que, sozinha no mundo, sem ter quem se
doesse dela, não se lhe dera de consentir... Veja que mulherzinha
mais desalmada... E eu, disse ela, lhe dera os mimos para que ela
saísse logo de casa comigo...
- E você
jura que isso é mentira?...
- Eu?... Eu
não preciso jurar; basta, Luzia, que lhe afirme...
- Por certo...
Demais, que tenho eu com os seus particulares?... Você não
tem necessidade de negar... Mentira ou verdade, é livre,
desimpedido, senhor da sua vontade para empregar o bem-querer em
quem for do seu agrado. Isto não é da minha conta...
- Mas... queria
explicar...
- Para quê?
São desnecessárias para mim essas explicações.
Deve dá-las ao Delegado...
- Luzia - continuou
Alexandre, fitando-lhe uns olhos pisados de mágoa - Você
tem sido, abaixo de Deus, minha protetora, meu anjo da guarda nesta
desgraça, que me apanhou. Não tenho outra pessoa que
puna por mim... se me abandonar...
- Abandonar!...
Não penso em semelhante ingratidão. Além disso,
é obrigação fazer o que tenho feito pelo senhor
e ainda mais, se necessário for, muito embora, depois de
solto, satisfaça o capricho do seu coração.
Serei sempre a mesma, somente não estou para levar fama sem
proveito, como já me tem acontecido...
- Sei quanto
tem sofrido por minha causa...
- Não
vale a pena. Fui eu quem lhe truxe caiporismo. Mas, só peço
a Deus que me ajude a tirá-lo desta cadeia. Depois, o senhor
toma o seu rumo e eu o meu. Será melhor assim para ambos...
Houve prolongada
pausa. Alexandre, conturbado àquelas palavras secas e cruéis,
contemplava, num misto de espanto e mágoa, a figura da moça,
enteada, e de olhos cerrados, quase absorta em torturantes pensamentos.
Rompeu ele, a custo, o oprimente silêncio.
- Que rumo tomarei,
Luzia, senão o seu? Para onde for, hei de acompanhá-la
como a minha estrela, a minha guia, segui-la como o cachorro vai
atrás do dono que o abandonou e o despreza. Se eu entulho
o seu caminho, se quer ver-se livre de mim, não me tire daqui;
não empregue mal os seus passos... Deixe-me entregue à
minha sorte, apodrecendo nesta sepultura de vivos, infamado... esquecido
como um malfazejo, que nem compaixão merece. Só lhe
peço a esmola de não desconfiar da minha inocência...
Caiu-me em cima uma infelicidade que não sei explicar, uma
vingança de mulher, de inimigos miseráveis; mas não
sou ladrão... Nunca!...
- Vingança
de mulher!... - murmurou Luzia, num grande entono de cólera
indomável.
- Atenda-me.
Essa, Gabrina, além de má, é ingrata. Quando
a mãe caiu doente e foi desenganada, foi comigo que se achou
para arranjar remédios e um caldo chilro para a infeliz.
Eu sabia que a filha era uma doida, que apressara a morte da mãe
com desgostos, arrebates e más respostas, por isso tive somente
em mira fazer obra de caridade para não a deixar morrer à
míngua. Você sabe que morreu mesmo; e, então,
a filha foi para a companhia da Chica Seridó; e nunca mais
me ocupei com a vida de semelhante desmiolada... É verdade
que não faltou quem atribuísse os meus atos a embelezamento
pela moça, que dava cabo ao machado, inculcando-se...
- Já
lhe disse que nada tenho com isso, nem desconfio do senhor...
- Então
por que me ameaça com a separação?...
- Quen, sou
eu?... Quero evitar as más línguas, que não
me poupam. Em homem nada pega, mas, em moça, tudo tisna.
Eu confio em Deus acabar os meus dias, limpa como nasci do ventre
da minha mãe... A pobreza não me afronta, porque tenho
forças para trabalhar e ainda não cansei de sofrer.
Sabe o que temo? Que façam pouco de mim, que me frechem com
dictérios e caçoadas. Às vezes, tenho ímpetos
de estraçalhar uma dessas criaturas perversas que me olham
pelo rabo do olho, rindo pelo canto da boca, como se eu fora uma
ridícula... Quando o senhor for para a sua banda e eu para
a minha, tudo acabará ...
- Como acabaria,
se nos casássemos.
- É impossível...
Nasci, com má sina...
- Bem, Luzia...
Vejo que me suspeita, embora não o diga francamente... Paciência...
Será como for do seu agrado.
- Luzia amarrou,
lentamente, a toalha com os pratos da refeição, que
Alexandre mal encetara. Havia nos seus gestos, aparências
de calma fria, resoluta. Toda ela, entretanto, vibrava com o abalo
estranho, indefinido, que a invadira como um frio pérfido
de moléstia.
- Até
amanhã - disse ela, secamente.
- Não
venha mais, Luzia... - murmurou o preso - Não vale a pena
fazer mais sacrifícios por mim... Arranjarei aqui mesmo o
de-comer. Basta. Não mereco tamanha dedicação...
Deixe-me de mão, já que não quer ser ridícula...
Ela não
lhe respondeu. Retirou-se, de manso, com o andar lento e fatigado
de quem vai a contragosto. Alexandre acompanhou-a, com os olhos
desvairados, até que ela dobrou a esquina do João
Padeiro, e desapareceu no beco do Coronel Braga. Pungia-lhe o coração
imensa saudade, o pressentimento de nunca mais tornar a vê-lo,
remorso de haver provocado a separação com o excesso
de brio, ressumante nas palavras cruéis com as quais se desonerara
da piedosa tarefa de visitá-lo todos os dias, para levar-lhe,
talvez, o melhor quinhão da magra despensa de pobre, o precioso
quinhão do pobre, que se priva do apenas suficiente para
não morrer à fome. Súbito, ele estremeceu de
pasmo, de dolorosa surpresa, ao fitar a parede, onde se fincavam
os vergalhões de ferro da dupla grade... Estavam ali, entre
migalhas da comida, murchos e ressequidos, os cravos rubros que
ele havia dado a Luzia...
CAPÍTULO
XV
Tão preocupada
regressara Luzia da cadeia, que não reparou em Dona Matilde,
debruçada sobre uma das janelas da casa do Promotor. Foi
preciso que a formosa senhora a chamasse para arrancá-la
da funda meditação absorvente, em que imergira o espírito,
como num antro caliginoso.
- Aonde vai
tão apressada, Luzia?...
- Desculpe-me,
dona - respondeu ela, estacando, confusa e enteada, como se lhe
houvessem surpreendido a tortura moral - Estava tão atarantada
que não vi vosmecê, quando era minha intenção
falar com o seu doutô a respeito do processo.
- Entre. Estou
com saudades dos meus bonitos cabelos...
- Aqui estão
sempre bem tratados e muito mais cuidados do que quando eram meus
- disse Luzia, libertando a opulenta cabeleira do pente que a sustinha.
- Que lindos!...
- exclamou Matilde, acariciando, com mimo, as bastas madeixas -
Como estão macios... Oh! nunca vi coisa igual...
Luzia agradecia,
com um sorriso contrafeito de melancolia.
- Você
- continuou a senhora - parece contrariada... Que lhe aconteceu?...
Sua mãezinha vai melhor?...
- Muito melhor...
- E Alexandre?...
- Como preso,
quase sem esperança de se ver livre da enxovia...
- Tenho grande
dó de você, Luzia, moça capaz, merecedora de
melhor sorte. Mas, que significa esse ar sombrio, esses olhos amortecidos?...
Luzia não
respondeu.
- Diga-me -
continuou a senhora, com meiguice quer muito a Alexandre?...
- Por que me
pergunta?
- A sua dedicação
ilimitada àquele infeliz só pode ser inspirada por
um grande afeto, desses que não esmorecem ante os maiores
sacrifícios.
- Não
sei se lhe quero muito... Sei que lhe devo muita gratidão
por ter sido bom para nós, o protetor e amigo, que nos ajudou...
- E é
somente por gratidão, que o defende com tanta dedicação?...
- Só
por gratidão. Por que, então, havia de ser?...
Luzia respondia
com esforço. As palavras irrompiam de seus lábios,
ásperas, aos pedaços, com uma falaz aparência
de calma e indiferença.
- Você
não é sincera, Luzia; não confia, talvez, em
mim. Ninguém é superior ao próprio infortúnio;
e mais humano, mais nobre, é confessá-lo que o sufocar
ou esconder. Sofre-se mais no repúdio à consolação
e ao lenitivo... É possível que não tenha consciência
do estado do seu coração, ou não saiba explicar
o que, nele, se passa? Não é crime amar, e Deus abençoa
o amor das criaturas honestas, como um sagrado impulso da natureza,
tanto mais forte quanto mais contrariado. Você é mulher
forte. Os seus afetos devem ser mais intensos e impetuosos que os
das outras, frágeis e passivas, entre quem vive deslocada,
sempre como estranha, porque não foi feita para nascer e
viver entre essa gente. Nisto consiste a sua infelicidade. Você
sente que, em volta, entre os seus amigos e conhecidos, ninguém
a compreende e a estima como merece. Daí, é fácil
imaginar quanto sofreria se viesse a amar algum indigno de você...
É um desastre que, vulgarmente, acontece, causando desgraças
irremediáveis...
- Por que me
diz isto?
- Sabe que,
nesse trama, contra Alexandre, aparece uma rapariga que o acusa?
- A Gabrina...
- Como soube?...
- Alexandre,
ainda há pouco, contou-me tudo...
- Ah!... Ele
lhe falou nisso?!... E você?...
- Que importa...
Tanto se me dá que ele queira bem a ela como a outra qualquer...
- Empenha-se
ainda em libertá-lo?...
- Por certo.
Não penso noutra coisa...
- Admirável!...
- Puno por ele
porque me diz o coração que está inocente.
Ainda que fosse culpado, confessasse o crime, eu não era
capaz de abandoná-lo na desgraça...
- Mesmo tendo
cometido o crime por causa de outra mulher?
- Que tem isso?...
Ele é senhor do seu coração, pode dá-lo
a quem quiser. Demais, querer bem não é obrigação.
Eu não poderia exigir que ele me pagasse alguns serviços
de amizade, ligando-se a mim, ele um moço branco, eu uma
pobre mulher de cor, sem eira nem beira, com à mãe
doente às costas, neste tempo de seca e carestia de tudo.
Além disso, ninguém gostaria de casar com uma criatura,
que tem o apelido de Luzia-Homem, como esse que o meu fado ruim
me deu...
- De homem só
tem a força; é bem bonita rapariga... Que pretende,
então, fazer?...
- Quando Alexandre
for solto, pego em minha mãe, que está melhor, e marcho
para a praia, como os outros retirantes.
- Você
é uma extraordinária criatura, Luzia. Cada vez mais
interesse me desperta...
- Reconheço
que faz isso por bondade de santa... Só lhe peço que
se empenhe com seu doutô para acabar esse tal de inquérito,
para libertar Alexandre e a mim, que não devo me arredar
daqui, enquanto ele padecer...
- Fique descansada.
Farei o possível... Aqui para nós... Meu marido não
acredita na história da tal Gabrina; desconfia mesmo que
ela foi insinuada...
- Ah! Não
acredita, não é?!.. acudiu Luzia, com estranha vivacidade,
iluminado o rosto, num fulgor de vitória.
- Pobre coração,
que te atraiçoas - observou dona Matilde, sorrindo, deliciosamente
irônica.
- Gabrina é
ingrata e vingativa como uma cobra...
- Meu anelo
é que você e meu marido tenham razão, mas desconfiarei
até verificar a verdade... Oh! os homens...
- A senhora
é ciumenta?...
- Como uma leoa,
como toda a mulher apaixonada até à loucura...
Luzia espetara
na bela senhora, os olhos espavoridos, onde havia algo de surpresa
e prazer, ante a revelação, que estalou vibrante.
- Deve ser assim
- murmurou como se monologasse - Raiva de onça contra quem
lhe bole na carniça, ou lhe rouba os filhos... Fui má;
ofendi Alexandre. Agora é tarde... O que está feito
não está mais por fazer...
- Não
desespere, Luzia. É bem possível que tudo acabe do
melhor modo e você seja recompensada de tantas aflições
e cuidados. Tenha coragem. Não se amofine. Não quero
que os meus belos cabelos embranqueçam por muito apurar o
juízo em coisas tristes...
- A senhora
é do céu, dona Matilde.
- Vá
sossegada que, hoje mesmo, à tardinha, cuidarei da sua causa.
- Faça
isso. Será obra de caridade, que não cairá
no chão.
Luzia, retendo
as lágrimas, rorejantes nos negros olhos ansios, e muito
grata, beijou-lhe as mãos brancas, duma maciez fina de camurça,
e partiu.
Na rua, atravancada
por enorrnes e pesados carros toscos, arrastados por muitas juntas
de bois magros, escapados da devastação do gado, carros
de pesadas rodas inteiriças e oblongas para que as excrescências
do círculo, os tombadores, diminuíssem o esforço
da tração, sobrecarregados de fardos, caixas de víveres
e mercadorias, amarradas entre os altos fueiros; por entre eles
e os bois, deitados, rendidos de fadiga, e ruminando tranqüilos,
sonolentos, e os lábios cinzentos, lubrificados de baba espessa,
deslizava a intérmina torrente de retirantes andrajosos,
esquálidos, torpemente sórdidos, parando de porta
em porta, a mendigarem uma migalha, ossos, membranas intragáveis,
os resíduos destinados a repasto de cães.
No largo da
feira, a aglomeração asfixiava em redor das vendas
ambulantes de mantimentos, expostos em caixões, sacos, sob
os tamarineiros, trapiás frondosos, à sombra de toldos
de estopa, manchada de largos remendos variegados.
Magotes de crianças
nuas, de hedionda magreza de esqueleto, de grandes ventres, obesos
e lustrosos como grandes cabaças, lançavarn olhares,
terríveis de avidez, sobre pilhas de rapaduras, grandes medidas
de quarta, desbordantes de farinha e feijão, pencas de bananas,
rimas de beijus, alvíssimas tapiocas, montes de laranjas
pequeninas e vermelhas, colhidas na véspera, nos pomares
murchos da Meruoca.
Os míseros
pequenos, estatelados ao tantálico suplício da contemplação
dessas gulodices, atiravam-se às cascas de frutas lançadas
ao chão, e se enovelavam, na disputa desses resíduos
misturados com terra, em ferozes pugilatos. Era indispensável
ativa vigilância para não serem assaltadas e devoradas
as provisões à venda, pela horda de meninos, que não
falavam; não sabiam mais chorar, nem sorrir, e cujos rostos,
polvilhados de descamações cinzentas, sem músculos,
tinham a imobilidade de coiro curtido. Quando contrariados ou afastados
pelos mercadores aos empuxões e pontapés, rugiam e
mostravam os dentes roídos de escorbuto. Eram órfãos
quase todos, ou abandonados pelos pais; não sabiam os próprios
nomes, nem donde vinham. Privados de memória, bestificados
pela carência de carinhos, anestesiados pelo contínuo
sofrer, eram esses pequeninos mendigos gravetos de uma floresta
morta, despedaçados pelos vendavais, destroços de
famílias, dispersadas pela ruptura de todos os laços
de interesses e afetos.
Às vezes,
a morte os surpreendia durante o sono, junto de um tronco ou na
soleira de uma porta. Trespassavam como pássaros, sem contorções,
sem estertor, sem um gemido, silenciosos, tranqüilos, num sossego
de morte, num sossego de liberdade.
Luzia atravessou,
rapidamente, o largo da feira, evitando o contacto e desviando os
olhos dos grupos de mendigos nauseabundos, pois se ainda não
habituara ao pungente espetáculo da miséria ínfima,
degradada e feroz. Empolgada pela comoção da entrevista
com Alexandre, pelas palavras de conforto da sua adorável
protetora, rememorando o que esta lhe dissera sobre o amor e o ciúme,
quase esbarrou em Crapiúna, que a saudou cortês; e,
bamboleando em ademanes amáveis, arriscou:
- Adeus, feitiço...
A moça
estremeceu de susto, fez um gesto de cólera, e seguiu mais
depressa.
- Você
não tirou ainda o juizo da Luzia-Homem? - perguntou a Crapiúna
o Cabecinha, que fazia com ele, o serviço de policiar a feira.
- Qual o quê!...
- respondeu o soldado, carregando a caraça, muito despeitado
- Aquilo é uma fera, braba como cascavel; mas hei de amansá-la
por bem ou por mal...
- Aquela mesma
não cai com duas razões...
- Há
de ser como as outras: muita soberba, muito luxo... tudo bobages.
A demora é a gente teimar e esperar com paciência.
Já lhe teria dado uma ensinadela se o estupor do Delegado
não estivesse atravessado comigo...
- Eu acho que
você faz mal em se meter com a vida daquela mulher...
- Já
agora é impossível recuar. Por causa daquela não-sei-que-diga
tenho perdido noites de sono, maginando na raiva que ela tem de
mim, só poroue me engracei dela...
- Só
faltava dar o Crapiúna, em namorado sem ventura.
- Não
caçoe, Cabecinha. Há mulheres mandingueiras, que põem
na gente um veneno que só elas podem tirar. Fica-se tomado
por dentro de uma dor que não dói, mas sofre-se sem
saber porquê; não se tem onde botar o corpo; não
há cama nem rede, que caiba a gente; finge-se não
fazer caso; procura-se distrair com outras mulheres, como quem se
embebeda para ficar valente, ou para esquecer... Tudo peta... O
veneno vai queimando o sangue, faz febre, dor de cabeça e
fastio. E o coração vai inchando, crescendo, até
que estoira...
- Você,
então, cabra velho, está mesmo ervado?... Tibes! Que
cobra te mordeu!...
- Não
tenho a vida para negócio; nem conheço a cor do medo;
nunca fiz caso da morte, e queria ter de anjos para acompanharem
a minha alma, as vezes que tenho visto boca de bacamarte e faca
de ponta em cima de mim ... mas, fico mesmo mole diante dessa mulher
encantada; fico sem ação e aluado, quando ela passa
por mim, e me repuna...
- O melhor,
já lhe disse, seu Crapiúna, é pensar noutra
coisa.
- Isso é
bom de dizer... Nem que queira não posso. É urna desgraça.
A você, que é amigo, posso falar a verdade. Tenho feito
tudo para reduzi-la. Lembrei-me até de botar dormideira na
jarra d'água...
- E se ficar
doente; se morrer?!
- Não
há perigo. A Joana Cangati sabe fazer a mandinga. Mas o diabo
da velha Zefinha não dorme; passa a noite tossindo e gemendo;
e, agora, havia a Teresinha de se meter de gorra com elas para me
atrapalhar. Tem-me dado vontade de torcer o pescoço daquela
galinha...
- Você
está se metendo numa rascada...
- Saberei manobrar
para me desapertar, quando for preciso. Agora, estou esperando que
ela se desengane do ladrão do Alexandre...
- Qual! Mulher,
quando principia a querer bem, fica viciada: larga um, arranja outro.
- Aquela não
é dessas. Luza é séria...
- Ora, adeus,
seu Crapiúna. Quando dorme...
- E honrada...
- Só
se for na testa.
- Já
lhe disse.
- Está
bom; está bom!... Não vale se zangar por tão
pouco. Nada tenho com isso. Você mesmo é quem está
puxando conversa... Arrume-se com a sua donzela, ruim de amansar,
e seja muito feliz. Faça-lhe bom proveito aquela jóia.
- Também
maldei que aquilo tudo era soberba, luxo ou aleijão da natureza,
mas entrei a especular a vida, os particulares dela, e, verifiquei
que é mesmo dura como pedra. Quanto mais certeza tenho, de
ser ela bem procedida, mais o diacho da rapariga se me encravilha
na cabeça. Eu não gosto de mulher que me azucrine,
mas também refugar como aquela é da gente desesperar.
- Por que não
lhe prometes casamento?
- Se ela não
me quer ver nem pintado... Além disso, por mal dos meus pecados,
sou casado.
- E a mulher?...
- Sei lá.
Não combinava com o meu gênio, nem pegava do meu jeito...
Era um demônio em figura de gente, rezinguenta e respondona.
Um dia, brigamos mesmo de verdade: dei-lhe uns pescoções,
e o diabinho anoiteceu e não amanheceu. Levantei as mãos
para o céu. Boi solto, lambe-se todo...
- Por essas
e outras, é que nunca fiz semelhante asneira. Para peso,
basta a granadeira e a mochila.
- Deixe lá...
Sempre é bom ter quem pregue botões na farda, engome
as calças, a tempo e à hora.
- Se contas
com aquela, ficas desabotoado toda a vida. Tome o meu conselho,
seu Crapiúna. Quem me avisa, meu amigo é. Deixe a
Luzia de mão. Olhe que lhe acontece desgraça, quando
menos pensar. Você tem sangue na guelra e o coração
perto da goela. Tome cuidado.
- Sei o que
hei de fazer, e ando de rédeas tesas. Quando a vejo, ardo
por dentro; dá-me vontade de reinar, mas fico quieto e mudo
como cascavel de tocaia, esperando a minha vez para dar bote certo.
Então nem reza de cigano, nem oração de padre
velho a livra de mim. Eu cá sou homem de tenência.
Quando viro a cabeça para uma banda, nem o diabo a endireita...
Crapiúna
sacou da ilharga uma grande faca, fina e pontiaguda, e pôs-se
a cortar um pedaço de fumo mapinguim para fazer um cigarro.
- Que bonita
faca! - observou Cabecinha.
- Pasmado verdadeiro.
Traspassa uma moeda de dois vinténs - disse Crapiúna,
fazendo vibrar com a unha o gume afiado. - Ah! se este ferro falasse!...
- Vamos ali,
ao Antônio Benvindo, tomar uma terça?
- Vamos lá,
mas só tomo zinebra.
- Está
feito.
Os dois soldados
se dirigiram para a bodega, continuando a conversar.
O sol dardejava,
a pino, intensa luz sobre o largo da feira, coalhado de gente. Redemoinhos
intermitentes revolviam o pó cálido, que se elevava
em espirais, envolvendo retirantes e mercadores em bulcões
amarelados e sufocantes.