AUTOMÓVEIS
BANCOS
CELEBRIDADES
CHAT
COLUNISTAS
COMUNIDADES
CRIANÇAS
CULINÁRIA
ENTRETENIMENTO
EDUCAÇÃO
ESPORTES
ECONOMIA
HORÓSCOPO
GAMES
INTERNET
MÚSICA
MULHERES
NOTÍCIAS
POSTAIS
SAÚDE
SERVIÇOS
SEXUALIDADE
SHOPPING
TEENS
TEMPO
TRÂNSITO
VIAGEM
  BUSCA
digite a palavra
 

  MAIL
nome:

senha

   
Luzia Homem, de Domingos Olímpio

 


CAPÍTULO XII

A velha dormia tranqüilamente, e as duas moças continuavam a conversar no alpendre.

Queria você muito bem ao Cazuza? - perguntou Luzia a Teresinha, de súbito emergindo de um vago cismar.

- Se queria!... - respondeu-lhe ela, com saudoso suspiro. Por ele larguei pai, mãe e irmã de quem eu era um ai-Jesus! Era o seu tudo e sentia-me tão feliz com ele que, desde o dia em que Deus o levou, fiquei insensível como uma pedra, vivendo por viver, rolando à toa pelo mundo...

- Nunca teve inclinação para outro?

- Eu, não. Vendo-me sozinha e desacostumada a trabalhar para comer, não tive remédio senão me resignar à minha sorte e estar por tudo. Quando algum homem se engraçava de mim, eu fingia gostar dele. Encontrei um desalmado que me queria como uma fera; tinha maus bofes e me trazia, ciumento como o demônio, que nem negra cativa. Aquilo não era homem; era o cão em figura de gente. Por qualquer suspeita ficava danado como se me quisesse comer viva. De uma feita, arranchou-se na casa em que morávamos como marido e mulher, um moço rico e bonito, que se pós a olhar muito para mim; e eu, ao levar-lhe o café, cai na asneira de sorrir para ele. Ah! Luzia, se você me visse naquele tempo!... Não é por me gabar, alva como uma imagem, com duas rosas nas faces e carnes rijas como pau!... Meus cabelos pareciam de oiro e meus olhos eram azuis e claros como duas contas. O mundo e a pobreza estragam a gente. Hoje, veja como estou murcha, engelhada, cheia de sardas... Mas, para encurtar razões, quando o moço foi embora, o homem pôs-me de confissão; e, não sabendo eu o que lhe dizer para me desculpar de falta que não me passara pela cabeça, disse-me uma porção de desaforos porcos, nomes de mãe; chamou-me sem-vergonha, safada, deslambida, e, agarrando-me pelos cabelos, deu-me tabefes...

- E você? - perguntou Luzia, indignada.

- Eu chorei muito; lamentei a minha desgraça; jurei por todos os santos do céu, que era inocente, até que ele, com um pontapé, me atirou para dentro da camarinha, berrando possesso: "Anda, peste!... Amanhã não me ficas aqui em casa; ponho-te fora na estrada, onde te apanhei como uma cachorra vadia... "E fechou, com estrondo, a porta. Fiquei na escuridão, maginando no que faria de mim, quando amanhecesse. Ao mesmo tempo que me fervia o coração, estava contente com ver-me livre de semelhante bruto; mas tive medo de apanhar outra vez, e esperei quieta o que desse e viesse. - Que me importa - disse comigo - Hei de achar quem me queira ... E, pensando no moço causador daquela desgraceira, peguei no sono, deitada numa rede velha que ali estava armada. Quando os galos estavam amiudando, ouvi bulir na porta; levantei-me de um pulo; fui deitar-me no mesmo lugar onde havia caído e pus-me a soluçar baixinho. Abriu-se a porta, e a claridade do copiar, alumiado por uma vela, deu em cheio sobre mim. Eu estava derreada, no chão, sustendo o corpo com a mão esquerda, enquanto tapava os olhos com as costas da direita, olhando por baixo. O desalmado entrou devagarinho; chegou perto de mim; ficou alguns minutos parado e disse-me, depois, em voz sumida e zangada: "Vá se deitar no seu quarto... " Eu não respondi, nem me mexi; entrei a soluçar mais forte. Tocou-me, então, de mansinho, no braço, dizendo, já com outra voz, manhosa e adocicada - "Teresa, você está zangada comigo?" Repeli o agrado com um safanão do cotovelo. Ele continuou, procurando abraçar-me: - "Este meu gênio!... Às vezes faço coisas!... Veja: estou arrependido... do que fiz..." Estava quase acocorado junto de mim. "Só o que falta - resmunguei, soluçando mais forte - é mandar-me surrar pelos seus vaqueiros com um nó de peia." - "Perdoa, coração - continuou, tentando ainda me abraçar - Eu não sou mau, mas o ciúme me tira o juízo. Esqueça tudo, minha cunhãzinha da minha alma... Prometo nunca mais te ofender. Pede o que quiseres, benzinho; serei teu escravo..." E, suspendendo-me do chão, levou-me ao colo como uma criança... Todo ele tremia; eu sentia-lhe o baticum do coração; suava e bufava como um novilho... Eu, nem como coisa: zangada, gemendo e soluçando. No outro dia, enquanto ele se derretia e se babava em agrados e promessas, eu maginava no moço e no Cazuza que, lá do céu, me pedia vingança...

- Você não abandonou logo esse malvado?!...

- A falar a verdade, não era de todo mau. Fiquei por medo e por não ter coragem de começar a vida de novo... Já tinha padecido tanto, que mais um pouco não me fazia mossa. Mal com ele, pior sem ele, que, tirante as venetas de cíúme, era bom para mim; dava-me tudo: era só pedir por boca, como dona de casa... Maridos, casados na igreja, batem nas mulheres, quanto mais... Ora, deixei-me estar, mas pensando sempre que o meu adorado Cazuza nunca me havia maltratado, e que eu devia, mais cedo ou mais tarde, tomar desforra; porque, apesar de franzina, ninguém mas faz, que não as pague, tão certo como Deus estar no céu.

- Vingou-se então?...

- Ora, ora, ora!... Eu lhe conto. Seu Berto (ele se chama Bartolomeu, mas tcdos o tratavam assim) foi em fins d'águas fazer a ferra em uma fazenda dos Crateús. O outro parece que soube disso, e se apresentou uma tarde, debaixo de um pé d'água, que se diria vir o céu abaixo. Eram relâmpagos e trovões de encandear e ensurdecer a gente. Aboletou-se e passou a noite. Soube, então, que era um tal capitão Bentinho, de família muito rica e poderosa. Trajava bem, gibão, guarda-peito, e perneiras de coiro de capoeiro, muito macio, bordados de flores, pospontadas à sovela, com abotoadura e esporas de prata. Não imagina como tinha a cor fina e branca, e uma barba parecida, comparando mal, com a de Jesus Cristo. Como estou falando com o coração aberto, não tenho vergonha de confessar que me engracei dele, acho que por capricho ou por ser em tudo diferente do outro. De madrugada, ainda chuviscando e antes que a gente da casa acordasse, arrumei algumas peças de roupa e meti-as em sacos com alguns patacões dados pelo Berto; e fugimos: ele montado num possante quartau pedrez, eu à garupa. Arre! que foi uma viagem de arrebentar. Tivemos de atravessar muitas léguas de sertão, passando rios a nado, dormindo no mato e comendo de alforje até chegarmos a uma povoação, perto da fazenda onde moravam os pais dele. Aí fui aboletada em casa de uma velha. Passamos três dias como noivos: ele, fino como seda; eu, cheia de denguices e manhas, como rapariga donzela. E contudo, Luzia, você não é capaz de acreditar que, amimada pelo Bentinho, todo delicadezas e cerimônias, tinha saudades do Berto com o seu sangue na gueira, aqueles olhos devoradores, aquela brutalidade...

- É possível?!... Pai do céu!...

- Você não sabe de quanto o bicho mulher é capaz, quando vira a cabeça.

- Anda; conta o resto.

- Eu fazia idéia da fúria, da danação dele, quando deu por falta de mim, da cunhãzinha russa. Imaginei os berros, os despropósitos, as pragas, que me irrogou, as ameaças de desforra, pois sabia que não era homem para se conformar com o roubo da mulher. Meu dito, meu feito. Um dia chegou Bentinho muito assustado, recomendando que me escondesse, porque lhe haviam inculcado gente do Berto nos arredores da povoação. Fiquei mais morta do que viva. Não me podia levar para a fazenda, porque a família, que tudo ignorava, não consentiria nisso. A velha que quase não dava fé de mim e vivia muito ocupada na criação, entrou a tomar precauções para ninguém suspeitar a minha estada em sua casa. Um dia, era dia de, feira, e eu tinha um desejo doido de ver a reunião de gente de uma redondeza de vinte léguas, vendendo legumes, farinha, rapadura e outras produções da lavoura; mas a megera não consentiu que eu botasse o nariz de fora. Ali por volta de meio-dia, ouvimos tiros de bacamarte e uma algazarra dos demônios, um bate-boca desadorado. Pouco depois soubemos que houvera um pega entre cangaceiros, desconhecidos no lugar, e a gente do Bentinho, e que já havia morrido um homem... Que seria?... Fiquei numa aflição, tremendo de susto, mas experimentava uma secreta satisfação que fosse por minha causa a briga e o sangue derramado.

- Que horror!...

- Estava num pé e noutro para ter notícias certas do barulho, quando, entrou, de repente, Bentinho. Vinha muito amarelo, com a mão enrolada em um pano e acompanhado por dois cabras, armados até os dentes. - Que foi? - perguntei-lhe assustada - "Nada, um arranhão no pulso, respondeu com voz sacudida - amarre-me, endireite-me isto, sa Quitéria." Enquanto a velha punha mezinha na ferida, um talho que ia da palma da mão esquerda ao meio do braço, Bentinho, forá do seu natural, com os olhos espantados, a voz surda e seca, ainda trêmulo de raiva, contou-me que, chegando à feira, fora desfeiteado por uns cabras, novatos na terra, já muito encachacados e intimando com todo o mundo. Chamou a gente para amarrá-los, mas um deles, saltando como um gato sobre o ginete, disse-lhe: - Você pensa, seu alvarinto, que amarrar homem é furtar, à traição, mulher alheia? Nisto chegou, à toda, o João Brincador com três homens escolhidos, e eu disse-lhe: - Amarra essa cambada de desordeiros. - Em cima das minhas palavras, riscou o Berto, e foi dizendo: Você, pode amarrá-los seu filho desta, filho daquela, mas depois de ne pagar e ajustarmos as contas. - Eu e os meus demos de rédea para sairmos do meio do povo; eles, rente, atrás da nossa poeira. A certa distância rodamos sobre os pés os animais, e os cabras que também estavam bem montados, quase esbarram em riba de nós. - Agüenta, rapazes! - disse ao João, que me respondeu sorrindo: Não há novidade, capitão. Deixe eles para nós. Palavras não eram ditas, o Berto papocou-me fogo. Abaixei-me, e a bala tirou um taco da beira do chapéu do João -O cabra mata seu Bentinho! - gritou ele - Os outros cangaceiros atiraram, e os meus responderam com uma descarga. O cavalo de um deles empinou-se e rodou morto por cima do cavaleiro, também ferido. O Berto, então, veio seco em cima de mim, e correu dois palmos de faca do Pasmado - Tenha mão, capitão Berto - disse-lhe eu, aparando o golpe, com a minha parnaíba - Tenha mão que se desgraça. Mas o homem estava roxo de raiva; espumava como um touro feroz. Avançou outra vez num ímpeto, que não era para graças. Suspendi o russo-pombo passarinhando como um gato; salto pra aqui; pulo pra acolá, e o homem decidido atravessando-se na minha frente, com o cavalo preto e ligeiro que nem um tigre. Na terceira investida, meteu-me o ferro com vontade. Rebati com a mão; mas quando senti o aço ranger-me na carne e o sangue espirrar, saquei da garrucha. O homem estava cego, arremeteu de novo e meteu-me o ferro outra vez aqui na aba do gibão. Vendo, então, que o diabo me matava mesmo, e que eu não podia com vantagem brigar com ele a ferro frio, perdi as cerimônias, e lasquei-lhe fogo... O homem soltou um berro; abriu os braços como se quisesse abraçar o vento, e derreou pra trás. O cavalo, sentindo falta de rédea, deu quatro galões e meio, como um poldro brabo e desembestou desapoderado, arrastando Berto enganchado no estribo. Morreu?!... - perguntei, tiritando de frio, e batendo os dentes como se tivesse sezões. "Não sei. Foi batendo por troncos e barrancos até desaparecer de nossa vista com os dois cabras restantes metidos em uma nuvem de poeira. Dois dos dele ficaram no barro. Da minha rapaziada,, o Chico Pintado levou uma bala aqui na coxa - lá nele -; o Borburema perdeu o gibão, e foi ferido com um pontaço nas cruzes; o Brincador ficou com o chapéu, novo em folha, estragado. Todo o mundo sabe que ele tem o corpo fechado. Enquanto brigávamos, o povo fazia um barulho medonho. Todos viram que me defendi o mais que pude, negaceando, para lhe poupar a vida. O diabo do ferro cortava como navalha. O talho está doendo de verdade. "E voltando-se para mim, disse: - "Não chores, Teresa. Isto, com sumo de angico ou de maçã de algodão, sara depressa.... É uma arranhadura de nada." Supunha que eu chorava por ele; mas, naquela ocasião, meu pensamento acompanhava Berto, desfigurado pelos encontrões, coberto de sangue e pó, arrebatado pelo Moleque, cavalo de estimação que eu bem conhecia. Minha vontade era correr atrás do pobre, apanhar os pedaços da sua carne, arrancados pelos tocos e pedras. Talvez o encontrasse ainda vivo para pedir-lhe perdão... Desde esse dia, ficou decretada a minha desgraça. Bentinho me achava sempre triste e sucumbida. Eu tinha repugnância daquele homem manchado com o sangue do outro. Não era já a mesma mulher... Ele parece que percebeu isso, e foi também esfriando, até que me participou o seu casamento com uma prima bonita e rica. Eu respondi que lhe fizesse bom proveito... Deu-me um maço de dinheiro e não voltou mais a casa da velha Quitéria.

Luzia, embebida nas palavras de Teresinha, acompanhava a narrativa com intenso interesse, intenso abalo.

- E... depois? - perguntou.

- Depois? Enquanto durou o dinheiro, quase um ano, fiquei com a tal velha que foi a minha asa-negra. Tomou conta de mim como de uma besta de carga; fazia de mim o que queria; mandava e eu me sujeitava, calejada, estando por tudo sem protestar, sem me aborrecer. A. velha, que era toda agrados enquanto eu estava rica, virou para me insultar e, uma vez por outra, me atirava à cara que era necessário ganhar com que pagar o pirão que eu comia, porque não era minha escrava...

- Não prenderam Bentinho?...

- Qual prisão, qual nada!... Ficou solto, e respondeu o jurado quando muito bem quis. O pai dele, o coroné Manel Fernandes era o maioral dono da terra.

- Ficou um ano, dizia você...

- Pouco mais ou menos, contando do dia da briga, até quando a velha morreu de um nó na tripa. Dei graças a Deus por me haver livrado de semelhante bruxa, e resolvi voltar para a casa de meu pai, embora ele, que era teimoso e ríspido, me matasse; mas, em caminho, tentou-me o demônio e fui rolando de um lado para outro, de povoação em povoação, até que a seca me apanhou. E aí está, minha camarada, como vim bater aqui.

Ela, com efeito, peregrinara pelo vasto sertão, de miséria em miséria, rastolhando, perdida como um pedaço de pau arrastado pela correnteza do rio, caindo nas cachoeiras, mergulhando nos rebojos, surgindo adiante, para bater de novo sobre pedras, tornando a ser arrebatado, até que, ao baixar das águas, pára, coberto de paul e ervas secas, garranchos e flores, que transportou de longe, esperando a enchente na próxima estação, e continuando a trágica jornada, até apodrecer em ribas desoladas, ou perder-se na imensidade do oceano.

É essa a história da peregrinação mundana das desgraçadas, que se desterram no seio amigo da família, quebrando o suporte dos afetos puros, e vagando sem rumo, na ebriedade de gozos efêmeros, à mercê da fatalidade intangível e cega.

CAPÍTULO XIII

Esteve-se Luzia absorta, fitando em Teresinha demorado olhar aceso de admiração, como se lhe ela se revelasse sob a forma estranha e sugestiva de uma heroína provada nos mais rudes lances da luta pela vida, e conservando ainda o coracão sensível aos nobres impulsos de ternura, de dedicação e piedade do infortúnio alheio. Os episódio romanescos, que ouvira num enlevo de surpresa e espanto, como as criancas ouvem, tímidas, maravilhosas histórias de fadas e princesas encantadas, ou as proezas de lobisomem e cavalos sem cabeça, vagando pelos campos, nas noites tétricas em que os jacurutus sinistros piam à beira dos rios; todos aqueles casos da paixão dominadora arrastando, lentamente, para a voragem, a rapariga franzina, indiferente ao perigo, sem saudades da casa paterna e sem remorso da culpa que a poluíra, incapaz de resistir, e reincidindo no pecado como um vicioso na absorção de licores capitosos que o intoxicam, flutuando na embriaguez da volúpia e despertando maculada e resignada à própria vergonha, assumiam, na sua imaginação excitada, proporções gigantescas de feitos valorosos, extraordinárias façanhas de uma criatura forte, disfarçada sob ilusórias aparências de debilidade doentia. Disseram-lhe que o sofrimento embotava as delicadas fibras do coração; que o pecado o esterilizava, como o sol esteriliza a terra, e estiolava as florações sadias da semente do bem; entretanto, Teresinha era a negação viva dessas verdades afirmadas por uma moral de convenção, sentimental e absurda. Tinha a superioridade da mulher contente de sofrer pelo seu amor, como um crente pela sua fé, o martírio ultrajante do desprezo, o vilipêndio de viver execrada; aceitara, com resignação de forte, as conseqüências todas do primeiro passo, dado no enlevo de um sonho delicioso, para o declive fatal, onde ninguém mais se detém e se equilibra. Deveriam ser fortes, admiráveis, as mulheres que sobrevivessem às provações do opróbio, com a alma imaculada; e Luzia, apesar de seus músculos exuberantes, se sentia aniquilada, ao pensar em ser colhida por um só dos incidentes da pitoresca vida de Teresinha; morreria extenuada como um pássaro cativo na arapuca. Seria horrível ver morrer o homem amado, o abandono, o ser surrada pelo amante, brutalmente sensual, e, todavia, lamentar-lhe a morte... Seria horrível, seria monstruosa essa escravidão da mulher desbriada ao senhor do seu corpo, essa passividade de animal, de coisa a mudar de dono. Ocorria-lhe, então, que não havendo experimentado essa abjeção, não tinha direito de maldizer da sua sorte, incomparavelmente mais propícia que a de Teresinha, a heróica rapariga que se não queixava.

Surgia no horizonte o Cruzeiro rutilante, reclinado nos coxins nebulosos da Via-Láctea e a bafagem morna da madrugada parecia o arfar da terra extenuada, sucumbida de cansaço, quando, interrompendo a conversa, as duas se entreolharam espantadas: tinham percebido algo de suspeito, estalidos de galhos secos, rumor de passos precavidos, vozes abafadas, sumidas, muito perto da casa, na direção das touceiras de mandacarus que defendiam, com intransponível cerca de espinhos, o pequeno quintal abandonado.

- Ouviu? - perguntou Luzia.

- É talvez - respondeu Teresinha, que escutava atenta - o barulho do terral nos galhos, algum animal roendo o mandacaru.

- Não é a primeira vez que ouço esses passos furtados, fora de horas, ali pela cerca e no terreiro... Parece que alguém nos espia.

- Tens medo, fracalhona?...

- Não tenho medo, não; mas é melhor irmos lá para dentro.

- Pois sim. Não se me dava de ver o que é.

Recolheram ao quarto. Luzia abeirou -se da rede onde, encolhida como uma criança, a velha ressonava tranquila. Teresinha ficou a espreitar, cozida à porta entreaberta em estreita fenda; com um aceno de alvoroço, chamou a outra, e viram, ao lusco-fusco, um grupo.

- Parece que são soldados - observou-lhe Teresinha.

- Talvez a ronda... - balbuciou Luzia.

Não: são dois homens e uma mulher. Espera... Olha: estão conversando...

Então, muito juntas e apavoradas, ouviram:

- Eu não dizia que estão dormindo?!...

- Qual - teimou uma voz feminina - estão acordadas. Juro que ouvi, ainda agorinha, falação de gente no alpendre...

- Também ouvi - afirmou outra voz mais clara e forte - Deixemos de histórias. É melhor não teimar. Elas botam a boca no mundo e estamos perdidos... Nada. Aquilo, aquela bruta, não é mulher de brincadeira...

O conselho foi aceito pelo grupo, que se esgueirou sorrateiro, apressadamente.

- O diabo roncou-lhe na tripa - disse Teresinha triunfante, mostrando a Luzia, a lâmina nua do grande canivete de mola Era tocarem na porta, eu fisgar logo um deles, para não ser atrevido.

- Parece que ouvi a voz de Crapiúna.

- Pode ser; mas não estava fardado. Só queria saber quem foi a safada que veio com eles...

- Que intenções teriam? Olha, Teresinha, não é a primeira vez que ouço esses passos suspeitos. Há muito tempo, desconfio que andam rondando a nossa casa.

- Também ouvi, mas não maginei que fosse gente. Não maldei nada.

- São capazes de tudo.

- Lá isso é verdade.

- Várias noites, Crapiúna e Belota andaram a cantar fora de horas, aqui por perto...

- Só me dá que pensar a mulher... Será possível que viessem botar feitico? E... não é outra coisa; é mandinga...

- Outro dia, quando abri a porta de manhã cedo, topei, mesmo na soleira, um saquinho com penas de galinha pretas arrepiadas...

- E não o abriu para ver o que continha?...

- Deus me livre. Eu não. Tive nojo e varri tudo com o cisco para dentro daquele buraco, cheio de carrapateiras e que foi barreiro.

- Pois eu não resistia. Havia de revistar tudo, pegasse-me, embora, o malefício.

- E você acredita nisso?...

- Não sei o que é, se feitiço ou obra do cão; mas, tenho visto casos de pôr tonto o juízo da gente. Há malefício para abrandar coração, curar ciúmes e até para produzir moléstias. Lá em casa havia um velho, que curava bicheiros dos bezerros pelo rasto...

- Abusões...

- Busões?!... Conheci um moço que foi enfeitiçado por uma rapariga, embelezada por ele. A criatura, de repente, ficou toda torta, como se lhe desse o ar... Ave-Maria; foi murchando, secando até ficar pele e osso. Parecia mais um defunto em pé, que gente viva. Desenganado de remédios de botica, foi se receitar ao padre João Crisóstomo; chupou chave de sacráriol do Santíssimo, mandou fazer orações fortes... Foi bobage... A felicidade dele foi topar uma cigana, que lhe deu contra-feitiço, uns poses para beber com leite de peito... Santo remédio, menina! ... Uma coisa é ver outra é dizer, como ele se levantou, já tendo os pés na cova.

- Bem, fecha a porta e vamos dormir que é quase de madrugada.

- É mesmo... E eu que estou moída... Parece que levei uma surra...

Fechada a porta com precaução para não despertar a doente, Teresinha despiu-se rapidamente; coçou o vinco do cordão das saias na cintura; enrolou, espreguiçando-se, em gestos felinos, os cabelos; persignou-se e derreou-se na esteira.

Lentas passaram as horas para Luzia, sentada na rede, estremecendo ao menor ruído do vento nas folhas da latada, e aguardando, ansiosa, o quebrar das barras, com os primeiros fulgores da aurora. Seu olhar compassivo flutuava entre a doente, a moça adormecida e a candeia a crepitar melancólica, no caritó enfumarado.

Renascia-lhe, no coração, a esperança de melhoras da mãe adorada; e, ao mesmo tempo, suspeitava que aquele prolongado sono fosse efeito de dormideiras, que lhe houvesse dado o médico. Meditava na tranquilidade angélica de Teresinha, seminua, apenas coberta por uma leve camisa de esguião, preciosa relíquia de antiga abastança, e acreditava que lhe houvera Deus perdoado as culpas, porque era boa na essência, e as purgara neste mundo. Entretanto, ela, que nunca havia feito mal a ninguém, que não abandonara os pais, nem traíra, nem ocasionara a morte de homens que a amassem, ela que tudo sacrificara, aspirações de moça e prazeres, que resistira aos instintos de mulher, para manter, em meio do paul, a sua pureza imaculada, ali estava, acabrunhada de pensamentos tristes, cruciantes como remorsos, com a alma inquieta e o coração latejando de susto, à previsão de perigos tremendos.

Que havia feito para sofrer tanto? Que funesta influência exercia sobre as pessoas que lhe queriam? Fora, talvez, ela que trouxera desgraça a Alexandre. Bastou que ele lhe desse os cravos rubros, crestados ao calor de seu seio, para lhe imputarem um crime infamante e ser preso como um réprobo.

Teria má sina, mau olhado?... Seria dessas criaturas fatídicas, cujo contacto desorganiza e destrói? Conhecera uma formosa moça, em cujas mãos, ovos batidos para mal-assadas, não cresciam e desandavam em aguadilha choca; talhava o leite; definhava e morria a planta de que ela colhesse uma flor, ou matava com o olhar ninhadas de pintos espertos e lindos, como macias borlas de veludo? Havia, então, criaturas, predestinadas para o bem e para o mal?... Nasciam umas para o sofrimento, outras para o gozo, da mesma forma que as havia destinadas ao céu ou ao inferno?... E Deus, Deus, pai de misericórdia, permitia isso, essa iniquidade revoltante?!...

E o seu espírito, flutuando à mercê de noções incompletas do bem e do mal, das causas e efeitos reguladores da vida, se rebelava, em assomos impotentes, contra as injustiças do destino cego e louco.

CAPÍTULO XIV

Uma surpresa auspicicsa assinalara o amanhecer: a velha enferma erguera-se, sozinha, da rede; e, escorada a um pequeno cacete de cocão, envernizado pelo uso, apareceu à porta do quarto.

- Deus seja louvado - exclamou Luzia, em gárrula expansão alvoroçada.

- Seja bem-vinda, tia Zefinha!... - disse Teresinha, com largos ademanes maneirosos - Abanque-se aqui, no alpendre, que está mais fresco. Ora, até que enfim... Não há mal que sempre dure...

- É a minha promessa a São Francisco das Chagas, de Canindê - observou a enferma - que me restituiu a saúde... Eu tinha uma fé...

E o seu rosto de pergaminho, retalhado de rugas e dobras, se dilatava em meigo sorriso.

- Olhem - continuou, caqueando no seio do cabeção, bordado de cacundês, onde imergiam confundidos, entrelaçados, os rosários, bentinhos e medidas de santos, que lhe pendiam do pescoço; e mostrando uma caçoila com a imagem do milagroso padroeiro em péssima gravura, cujos milagres admiráveis atraíam os fiéis, vindos de longínquas paragens, em contínua romaria à sua bela igreja cheia de ex-voto, pernas, braços, mãos e cabeças, modelados em cera, ou toscamente esculpidos em madeira, viscosamente coloridos e marcados de chagas hediondas, muito sarapintados de sangue e arrouxeados de equimoses e alguns verdadeiros aleijões, monstruosidades repugnantes; muletas e ligaduras de pano velho, duras de sânie embebida; todas essas relíquias de piedade, penduradas, em simetria, às paredes da nave, rememorando curas, obtidas pela intercessão do santo, a quem Jesus Cristo concedera a graça de marcar com o estigma das cinco chagas.

Também fizera uma promessa a São Gonçalo da Serra dos Cocos e a outros patronos celestiais, não menos afamados pelo prestígio de sarar enfermos, desesperados da saúde. Estava em verdadeiro apuro para dar conta de todas elas; mas, o padre Antônio Fialho, ouvindo-a em confissão, lhas comutara em leve penitência, impondo-lhe a obrigação de rezar algumas coroas, terços e o ofício de Nossa Senhora, hino mirífico, que, quando é cantado na terra, os anjos se ajoelham no céu. Nas horas de alívio, ela se penitenciava debulhando, entre vagos fulgores de esperança, as contas luzidias de um rosário bento pelo santo missionário frei Vidal.

- Não sinto quase o puxado, minhas filhas, e aquele entalo, que me sufocava, também desapareceu. Dormi, que nem um passarinho, louvado Deus.

- Eu bem lhe dizia, tia Zefinha, que o remédio, abaixo de Deus, havia de ser a sua salvação.

- Agora - observou Luzia - é continuar com ele: estamos de viagem.

- E tu a dar-lhe, filha. Espera mais um pouco. Estou tão afeita a sofrer que, se não fosse falta de fé, desconfiava ser isso visita da saúde...

- Qual, vosmecê vai arribar mesmo - afirmou Teresinha, com muita convicção.

A velha sentou-se, acariciada pela filha, que lhe endireitou as dobras da saia e o lenço da cabeça, enquanto Teresinha preparava o chá de erva-cidreira, que ela tomava todas as manhãs.

- Agora, disse a velha, com um suspiro de alívio - vocês podem cuidar do trabalho, que ficarei tomando conta da casa. Se não fosse esta pobreza, tomaria uma menina para fazer-me companhia, varrer o terreiro, dar-me um caneco d'água, enquanto estivessem fora labutando... Já passei, aqui, dias e dias sem ver vivalma, até que a Luzia voltasse da obra... Que dias compridos!...

- Dias que não voltarão, tia Zefa, porque aqui estou eu, que a não largo mais...

- Se houvesse por aí - continuou a velha - uma pasta de algodão, fiaria um novelo para não estar banzando sem fazer nada... e só pensando na moléstia ...

Às nove horas Luzia, ansiosa por saber o que lhe começara a contar Alexandre, a revelação interrompida pela sobrevinda insolente de Crapiúna, partia com o almoço para o desconsolado preso, que, mal terminada a refeição, lhe perguntou se sabia alguma coisa de novo; e, pois lhe a rapariga respondesse com simples gesto negativo, disse, à puridade, suspeitar da interferência maligna de algum interessado em desgraçá-lo.

- Sabe o que me fizeram - continuou, amargurado - Levantaram-me uma calúnia... Você conhece a Gabrina, aquela moça morena, que perdeu a mãe, há pouco tempo?... Pois não inventaram que eu lhe havia dado dinheiro e dois cortes de vestido?...

- O quê?!... - exclamou Luzia, franzindo os sobrolhos, e encarando no moço.

- Eu que nunca alevantei meus olhos para semelhante criatura senão para salvá-la, quando nos encontrávamos no trabalho.

- Quem disse isso?

- Há gente para tudo, até para levantar falsos contra os seus semelhantes.

- Mas... quem inventou esse aleive?... Ela?!... É possível que uma rapariga tão moça tenha maldade para tanto?...

- Disse que eu andava há muito tempo atrás dela, seduzindo-a com promessas de casamento e que, sozinha no mundo, sem ter quem se doesse dela, não se lhe dera de consentir... Veja que mulherzinha mais desalmada... E eu, disse ela, lhe dera os mimos para que ela saísse logo de casa comigo...

- E você jura que isso é mentira?...

- Eu?... Eu não preciso jurar; basta, Luzia, que lhe afirme...

- Por certo... Demais, que tenho eu com os seus particulares?... Você não tem necessidade de negar... Mentira ou verdade, é livre, desimpedido, senhor da sua vontade para empregar o bem-querer em quem for do seu agrado. Isto não é da minha conta...

- Mas... queria explicar...

- Para quê? São desnecessárias para mim essas explicações. Deve dá-las ao Delegado...

- Luzia - continuou Alexandre, fitando-lhe uns olhos pisados de mágoa - Você tem sido, abaixo de Deus, minha protetora, meu anjo da guarda nesta desgraça, que me apanhou. Não tenho outra pessoa que puna por mim... se me abandonar...

- Abandonar!... Não penso em semelhante ingratidão. Além disso, é obrigação fazer o que tenho feito pelo senhor e ainda mais, se necessário for, muito embora, depois de solto, satisfaça o capricho do seu coração. Serei sempre a mesma, somente não estou para levar fama sem proveito, como já me tem acontecido...

- Sei quanto tem sofrido por minha causa...

- Não vale a pena. Fui eu quem lhe truxe caiporismo. Mas, só peço a Deus que me ajude a tirá-lo desta cadeia. Depois, o senhor toma o seu rumo e eu o meu. Será melhor assim para ambos...

Houve prolongada pausa. Alexandre, conturbado àquelas palavras secas e cruéis, contemplava, num misto de espanto e mágoa, a figura da moça, enteada, e de olhos cerrados, quase absorta em torturantes pensamentos. Rompeu ele, a custo, o oprimente silêncio.

- Que rumo tomarei, Luzia, senão o seu? Para onde for, hei de acompanhá-la como a minha estrela, a minha guia, segui-la como o cachorro vai atrás do dono que o abandonou e o despreza. Se eu entulho o seu caminho, se quer ver-se livre de mim, não me tire daqui; não empregue mal os seus passos... Deixe-me entregue à minha sorte, apodrecendo nesta sepultura de vivos, infamado... esquecido como um malfazejo, que nem compaixão merece. Só lhe peço a esmola de não desconfiar da minha inocência... Caiu-me em cima uma infelicidade que não sei explicar, uma vingança de mulher, de inimigos miseráveis; mas não sou ladrão... Nunca!...

- Vingança de mulher!... - murmurou Luzia, num grande entono de cólera indomável.

- Atenda-me. Essa, Gabrina, além de má, é ingrata. Quando a mãe caiu doente e foi desenganada, foi comigo que se achou para arranjar remédios e um caldo chilro para a infeliz. Eu sabia que a filha era uma doida, que apressara a morte da mãe com desgostos, arrebates e más respostas, por isso tive somente em mira fazer obra de caridade para não a deixar morrer à míngua. Você sabe que morreu mesmo; e, então, a filha foi para a companhia da Chica Seridó; e nunca mais me ocupei com a vida de semelhante desmiolada... É verdade que não faltou quem atribuísse os meus atos a embelezamento pela moça, que dava cabo ao machado, inculcando-se...

- Já lhe disse que nada tenho com isso, nem desconfio do senhor...

- Então por que me ameaça com a separação?...

- Quen, sou eu?... Quero evitar as más línguas, que não me poupam. Em homem nada pega, mas, em moça, tudo tisna. Eu confio em Deus acabar os meus dias, limpa como nasci do ventre da minha mãe... A pobreza não me afronta, porque tenho forças para trabalhar e ainda não cansei de sofrer. Sabe o que temo? Que façam pouco de mim, que me frechem com dictérios e caçoadas. Às vezes, tenho ímpetos de estraçalhar uma dessas criaturas perversas que me olham pelo rabo do olho, rindo pelo canto da boca, como se eu fora uma ridícula... Quando o senhor for para a sua banda e eu para a minha, tudo acabará ...

- Como acabaria, se nos casássemos.

- É impossível... Nasci, com má sina...

- Bem, Luzia... Vejo que me suspeita, embora não o diga francamente... Paciência... Será como for do seu agrado.

- Luzia amarrou, lentamente, a toalha com os pratos da refeição, que Alexandre mal encetara. Havia nos seus gestos, aparências de calma fria, resoluta. Toda ela, entretanto, vibrava com o abalo estranho, indefinido, que a invadira como um frio pérfido de moléstia.

- Até amanhã - disse ela, secamente.

- Não venha mais, Luzia... - murmurou o preso - Não vale a pena fazer mais sacrifícios por mim... Arranjarei aqui mesmo o de-comer. Basta. Não mereco tamanha dedicação... Deixe-me de mão, já que não quer ser ridícula...

Ela não lhe respondeu. Retirou-se, de manso, com o andar lento e fatigado de quem vai a contragosto. Alexandre acompanhou-a, com os olhos desvairados, até que ela dobrou a esquina do João Padeiro, e desapareceu no beco do Coronel Braga. Pungia-lhe o coração imensa saudade, o pressentimento de nunca mais tornar a vê-lo, remorso de haver provocado a separação com o excesso de brio, ressumante nas palavras cruéis com as quais se desonerara da piedosa tarefa de visitá-lo todos os dias, para levar-lhe, talvez, o melhor quinhão da magra despensa de pobre, o precioso quinhão do pobre, que se priva do apenas suficiente para não morrer à fome. Súbito, ele estremeceu de pasmo, de dolorosa surpresa, ao fitar a parede, onde se fincavam os vergalhões de ferro da dupla grade... Estavam ali, entre migalhas da comida, murchos e ressequidos, os cravos rubros que ele havia dado a Luzia...

CAPÍTULO XV

Tão preocupada regressara Luzia da cadeia, que não reparou em Dona Matilde, debruçada sobre uma das janelas da casa do Promotor. Foi preciso que a formosa senhora a chamasse para arrancá-la da funda meditação absorvente, em que imergira o espírito, como num antro caliginoso.

- Aonde vai tão apressada, Luzia?...

- Desculpe-me, dona - respondeu ela, estacando, confusa e enteada, como se lhe houvessem surpreendido a tortura moral - Estava tão atarantada que não vi vosmecê, quando era minha intenção falar com o seu doutô a respeito do processo.

- Entre. Estou com saudades dos meus bonitos cabelos...

- Aqui estão sempre bem tratados e muito mais cuidados do que quando eram meus - disse Luzia, libertando a opulenta cabeleira do pente que a sustinha.

- Que lindos!... - exclamou Matilde, acariciando, com mimo, as bastas madeixas - Como estão macios... Oh! nunca vi coisa igual...

Luzia agradecia, com um sorriso contrafeito de melancolia.

- Você - continuou a senhora - parece contrariada... Que lhe aconteceu?... Sua mãezinha vai melhor?...

- Muito melhor...

- E Alexandre?...

- Como preso, quase sem esperança de se ver livre da enxovia...

- Tenho grande dó de você, Luzia, moça capaz, merecedora de melhor sorte. Mas, que significa esse ar sombrio, esses olhos amortecidos?...

Luzia não respondeu.

- Diga-me - continuou a senhora, com meiguice quer muito a Alexandre?...

- Por que me pergunta?

- A sua dedicação ilimitada àquele infeliz só pode ser inspirada por um grande afeto, desses que não esmorecem ante os maiores sacrifícios.

- Não sei se lhe quero muito... Sei que lhe devo muita gratidão por ter sido bom para nós, o protetor e amigo, que nos ajudou...

- E é somente por gratidão, que o defende com tanta dedicação?...

- Só por gratidão. Por que, então, havia de ser?...

Luzia respondia com esforço. As palavras irrompiam de seus lábios, ásperas, aos pedaços, com uma falaz aparência de calma e indiferença.

- Você não é sincera, Luzia; não confia, talvez, em mim. Ninguém é superior ao próprio infortúnio; e mais humano, mais nobre, é confessá-lo que o sufocar ou esconder. Sofre-se mais no repúdio à consolação e ao lenitivo... É possível que não tenha consciência do estado do seu coração, ou não saiba explicar o que, nele, se passa? Não é crime amar, e Deus abençoa o amor das criaturas honestas, como um sagrado impulso da natureza, tanto mais forte quanto mais contrariado. Você é mulher forte. Os seus afetos devem ser mais intensos e impetuosos que os das outras, frágeis e passivas, entre quem vive deslocada, sempre como estranha, porque não foi feita para nascer e viver entre essa gente. Nisto consiste a sua infelicidade. Você sente que, em volta, entre os seus amigos e conhecidos, ninguém a compreende e a estima como merece. Daí, é fácil imaginar quanto sofreria se viesse a amar algum indigno de você... É um desastre que, vulgarmente, acontece, causando desgraças irremediáveis...

- Por que me diz isto?

- Sabe que, nesse trama, contra Alexandre, aparece uma rapariga que o acusa?

- A Gabrina...

- Como soube?...

- Alexandre, ainda há pouco, contou-me tudo...

- Ah!... Ele lhe falou nisso?!... E você?...

- Que importa... Tanto se me dá que ele queira bem a ela como a outra qualquer...

- Empenha-se ainda em libertá-lo?...

- Por certo. Não penso noutra coisa...

- Admirável!...

- Puno por ele porque me diz o coração que está inocente. Ainda que fosse culpado, confessasse o crime, eu não era capaz de abandoná-lo na desgraça...

- Mesmo tendo cometido o crime por causa de outra mulher?

- Que tem isso?... Ele é senhor do seu coração, pode dá-lo a quem quiser. Demais, querer bem não é obrigação. Eu não poderia exigir que ele me pagasse alguns serviços de amizade, ligando-se a mim, ele um moço branco, eu uma pobre mulher de cor, sem eira nem beira, com à mãe doente às costas, neste tempo de seca e carestia de tudo. Além disso, ninguém gostaria de casar com uma criatura, que tem o apelido de Luzia-Homem, como esse que o meu fado ruim me deu...

- De homem só tem a força; é bem bonita rapariga... Que pretende, então, fazer?...

- Quando Alexandre for solto, pego em minha mãe, que está melhor, e marcho para a praia, como os outros retirantes.

- Você é uma extraordinária criatura, Luzia. Cada vez mais interesse me desperta...

- Reconheço que faz isso por bondade de santa... Só lhe peço que se empenhe com seu doutô para acabar esse tal de inquérito, para libertar Alexandre e a mim, que não devo me arredar daqui, enquanto ele padecer...

- Fique descansada. Farei o possível... Aqui para nós... Meu marido não acredita na história da tal Gabrina; desconfia mesmo que ela foi insinuada...

- Ah! Não acredita, não é?!.. acudiu Luzia, com estranha vivacidade, iluminado o rosto, num fulgor de vitória.

- Pobre coração, que te atraiçoas - observou dona Matilde, sorrindo, deliciosamente irônica.

- Gabrina é ingrata e vingativa como uma cobra...

- Meu anelo é que você e meu marido tenham razão, mas desconfiarei até verificar a verdade... Oh! os homens...

- A senhora é ciumenta?...

- Como uma leoa, como toda a mulher apaixonada até à loucura...

Luzia espetara na bela senhora, os olhos espavoridos, onde havia algo de surpresa e prazer, ante a revelação, que estalou vibrante.

- Deve ser assim - murmurou como se monologasse - Raiva de onça contra quem lhe bole na carniça, ou lhe rouba os filhos... Fui má; ofendi Alexandre. Agora é tarde... O que está feito não está mais por fazer...

- Não desespere, Luzia. É bem possível que tudo acabe do melhor modo e você seja recompensada de tantas aflições e cuidados. Tenha coragem. Não se amofine. Não quero que os meus belos cabelos embranqueçam por muito apurar o juízo em coisas tristes...

- A senhora é do céu, dona Matilde.

- Vá sossegada que, hoje mesmo, à tardinha, cuidarei da sua causa.

- Faça isso. Será obra de caridade, que não cairá no chão.

Luzia, retendo as lágrimas, rorejantes nos negros olhos ansios, e muito grata, beijou-lhe as mãos brancas, duma maciez fina de camurça, e partiu.

Na rua, atravancada por enorrnes e pesados carros toscos, arrastados por muitas juntas de bois magros, escapados da devastação do gado, carros de pesadas rodas inteiriças e oblongas para que as excrescências do círculo, os tombadores, diminuíssem o esforço da tração, sobrecarregados de fardos, caixas de víveres e mercadorias, amarradas entre os altos fueiros; por entre eles e os bois, deitados, rendidos de fadiga, e ruminando tranqüilos, sonolentos, e os lábios cinzentos, lubrificados de baba espessa, deslizava a intérmina torrente de retirantes andrajosos, esquálidos, torpemente sórdidos, parando de porta em porta, a mendigarem uma migalha, ossos, membranas intragáveis, os resíduos destinados a repasto de cães.

No largo da feira, a aglomeração asfixiava em redor das vendas ambulantes de mantimentos, expostos em caixões, sacos, sob os tamarineiros, trapiás frondosos, à sombra de toldos de estopa, manchada de largos remendos variegados.

Magotes de crianças nuas, de hedionda magreza de esqueleto, de grandes ventres, obesos e lustrosos como grandes cabaças, lançavarn olhares, terríveis de avidez, sobre pilhas de rapaduras, grandes medidas de quarta, desbordantes de farinha e feijão, pencas de bananas, rimas de beijus, alvíssimas tapiocas, montes de laranjas pequeninas e vermelhas, colhidas na véspera, nos pomares murchos da Meruoca.

Os míseros pequenos, estatelados ao tantálico suplício da contemplação dessas gulodices, atiravam-se às cascas de frutas lançadas ao chão, e se enovelavam, na disputa desses resíduos misturados com terra, em ferozes pugilatos. Era indispensável ativa vigilância para não serem assaltadas e devoradas as provisões à venda, pela horda de meninos, que não falavam; não sabiam mais chorar, nem sorrir, e cujos rostos, polvilhados de descamações cinzentas, sem músculos, tinham a imobilidade de coiro curtido. Quando contrariados ou afastados pelos mercadores aos empuxões e pontapés, rugiam e mostravam os dentes roídos de escorbuto. Eram órfãos quase todos, ou abandonados pelos pais; não sabiam os próprios nomes, nem donde vinham. Privados de memória, bestificados pela carência de carinhos, anestesiados pelo contínuo sofrer, eram esses pequeninos mendigos gravetos de uma floresta morta, despedaçados pelos vendavais, destroços de famílias, dispersadas pela ruptura de todos os laços de interesses e afetos.

Às vezes, a morte os surpreendia durante o sono, junto de um tronco ou na soleira de uma porta. Trespassavam como pássaros, sem contorções, sem estertor, sem um gemido, silenciosos, tranqüilos, num sossego de morte, num sossego de liberdade.

Luzia atravessou, rapidamente, o largo da feira, evitando o contacto e desviando os olhos dos grupos de mendigos nauseabundos, pois se ainda não habituara ao pungente espetáculo da miséria ínfima, degradada e feroz. Empolgada pela comoção da entrevista com Alexandre, pelas palavras de conforto da sua adorável protetora, rememorando o que esta lhe dissera sobre o amor e o ciúme, quase esbarrou em Crapiúna, que a saudou cortês; e, bamboleando em ademanes amáveis, arriscou:

- Adeus, feitiço...

A moça estremeceu de susto, fez um gesto de cólera, e seguiu mais depressa.

- Você não tirou ainda o juizo da Luzia-Homem? - perguntou a Crapiúna o Cabecinha, que fazia com ele, o serviço de policiar a feira.

- Qual o quê!... - respondeu o soldado, carregando a caraça, muito despeitado - Aquilo é uma fera, braba como cascavel; mas hei de amansá-la por bem ou por mal...

- Aquela mesma não cai com duas razões...

- Há de ser como as outras: muita soberba, muito luxo... tudo bobages. A demora é a gente teimar e esperar com paciência. Já lhe teria dado uma ensinadela se o estupor do Delegado não estivesse atravessado comigo...

- Eu acho que você faz mal em se meter com a vida daquela mulher...

- Já agora é impossível recuar. Por causa daquela não-sei-que-diga tenho perdido noites de sono, maginando na raiva que ela tem de mim, só poroue me engracei dela...

- Só faltava dar o Crapiúna, em namorado sem ventura.

- Não caçoe, Cabecinha. Há mulheres mandingueiras, que põem na gente um veneno que só elas podem tirar. Fica-se tomado por dentro de uma dor que não dói, mas sofre-se sem saber porquê; não se tem onde botar o corpo; não há cama nem rede, que caiba a gente; finge-se não fazer caso; procura-se distrair com outras mulheres, como quem se embebeda para ficar valente, ou para esquecer... Tudo peta... O veneno vai queimando o sangue, faz febre, dor de cabeça e fastio. E o coração vai inchando, crescendo, até que estoira...

- Você, então, cabra velho, está mesmo ervado?... Tibes! Que cobra te mordeu!...

- Não tenho a vida para negócio; nem conheço a cor do medo; nunca fiz caso da morte, e queria ter de anjos para acompanharem a minha alma, as vezes que tenho visto boca de bacamarte e faca de ponta em cima de mim ... mas, fico mesmo mole diante dessa mulher encantada; fico sem ação e aluado, quando ela passa por mim, e me repuna...

- O melhor, já lhe disse, seu Crapiúna, é pensar noutra coisa.

- Isso é bom de dizer... Nem que queira não posso. É urna desgraça. A você, que é amigo, posso falar a verdade. Tenho feito tudo para reduzi-la. Lembrei-me até de botar dormideira na jarra d'água...

- E se ficar doente; se morrer?!

- Não há perigo. A Joana Cangati sabe fazer a mandinga. Mas o diabo da velha Zefinha não dorme; passa a noite tossindo e gemendo; e, agora, havia a Teresinha de se meter de gorra com elas para me atrapalhar. Tem-me dado vontade de torcer o pescoço daquela galinha...

- Você está se metendo numa rascada...

- Saberei manobrar para me desapertar, quando for preciso. Agora, estou esperando que ela se desengane do ladrão do Alexandre...

- Qual! Mulher, quando principia a querer bem, fica viciada: larga um, arranja outro.

- Aquela não é dessas. Luza é séria...

- Ora, adeus, seu Crapiúna. Quando dorme...

- E honrada...

- Só se for na testa.

- Já lhe disse.

- Está bom; está bom!... Não vale se zangar por tão pouco. Nada tenho com isso. Você mesmo é quem está puxando conversa... Arrume-se com a sua donzela, ruim de amansar, e seja muito feliz. Faça-lhe bom proveito aquela jóia.

- Também maldei que aquilo tudo era soberba, luxo ou aleijão da natureza, mas entrei a especular a vida, os particulares dela, e, verifiquei que é mesmo dura como pedra. Quanto mais certeza tenho, de ser ela bem procedida, mais o diacho da rapariga se me encravilha na cabeça. Eu não gosto de mulher que me azucrine, mas também refugar como aquela é da gente desesperar.

- Por que não lhe prometes casamento?

- Se ela não me quer ver nem pintado... Além disso, por mal dos meus pecados, sou casado.

- E a mulher?...

- Sei lá. Não combinava com o meu gênio, nem pegava do meu jeito... Era um demônio em figura de gente, rezinguenta e respondona. Um dia, brigamos mesmo de verdade: dei-lhe uns pescoções, e o diabinho anoiteceu e não amanheceu. Levantei as mãos para o céu. Boi solto, lambe-se todo...

- Por essas e outras, é que nunca fiz semelhante asneira. Para peso, basta a granadeira e a mochila.

- Deixe lá... Sempre é bom ter quem pregue botões na farda, engome as calças, a tempo e à hora.

- Se contas com aquela, ficas desabotoado toda a vida. Tome o meu conselho, seu Crapiúna. Quem me avisa, meu amigo é. Deixe a Luzia de mão. Olhe que lhe acontece desgraça, quando menos pensar. Você tem sangue na guelra e o coração perto da goela. Tome cuidado.

- Sei o que hei de fazer, e ando de rédeas tesas. Quando a vejo, ardo por dentro; dá-me vontade de reinar, mas fico quieto e mudo como cascavel de tocaia, esperando a minha vez para dar bote certo. Então nem reza de cigano, nem oração de padre velho a livra de mim. Eu cá sou homem de tenência. Quando viro a cabeça para uma banda, nem o diabo a endireita...

Crapiúna sacou da ilharga uma grande faca, fina e pontiaguda, e pôs-se a cortar um pedaço de fumo mapinguim para fazer um cigarro.

- Que bonita faca! - observou Cabecinha.

- Pasmado verdadeiro. Traspassa uma moeda de dois vinténs - disse Crapiúna, fazendo vibrar com a unha o gume afiado. - Ah! se este ferro falasse!...

- Vamos ali, ao Antônio Benvindo, tomar uma terça?

- Vamos lá, mas só tomo zinebra.

- Está feito.

Os dois soldados se dirigiram para a bodega, continuando a conversar.

O sol dardejava, a pino, intensa luz sobre o largo da feira, coalhado de gente. Redemoinhos intermitentes revolviam o pó cálido, que se elevava em espirais, envolvendo retirantes e mercadores em bulcões amarelados e sufocantes.

Capítulo I à Capítulo III
Capítulo IV e Capítulo V
Capítulo VI à Capítulo VIII
Capítulo IX à Capítulo XI
Capítulo XII à Capítulo XV
Capítulo XVI à Capítulo XVIII
Capítulo XIX à Capítulo XXII
Capítulo XXIII e Capítulo XXIV
Capítulo XXV e Capítulo XXVI
Capítulo XXVII e Capítulo XXVIII