O
Livro Derradeiro, Cruz e Sousa
BOCA IMORTAL
Abre a boca
mordaz num riso convulsivo
Ó fera sensual, luxuriosa fera!
Que essa boca nervosa, em riso de pantera,
Quando ri para mim lembra um capro lascivo.
Teu olhar dá-me
febre e dá-me um brusco e vivo
Tremor as carnes, que eu, se ele em mim reverbera,
Fico aceso no horror da paixão que ele gera,
Inflamada, fatal, dum sangue rubro e ativo.
Mas a boca produz
tais sensações de morte,
O teu riso, afinal, é tão profundo e forte
E tem de tanta dor tantas negras raízes;
Rigolboche do
tom, ó flor pompadouresca!
Que és, para mim, no mundo, a trágica e dantesca
Imperatriz da Dor, entre as imperatrizes!
PSICOLOGIA
HUMANA
A Santos Lostada
Por trás
de uns vidros d'óculos opacos
Muita vez um leão e um tigre rugem,
E como um surdo temporal estrugem
Os ódios dos covardes e dos fracos.
Partir pudesses,
ó poeta, em cacos,
Vidros que ocultam almas de ferrugem,
Que espumam de ira, tenebrosas mugem,
Mugem como de dentro de uns buracos.
Que essas sombrias,
dúbias almas foscas
Que parecem, no entanto, como moscas,
Inofensivas, babam como as lesmas.
Mas tu, em vão,
tais vidros partirias,
Pois que no mundo, eternamente, as frias
Almas humanas serão sempre as mesmas!
OS MORTOS
Ao menos junto
dos mortos pode a gente
Crer e esperar n'alguma suavidade:
Crer no doce consolo da saudade
E esperar do descanso eternamente.
Junto aos mortos,
por certo, a fé ardente
Não perde a sua viva claridade;
Cantam as aves do céu na intimidade
Do coração o mais indiferente.
Os mortos dão-nos
paz imensa à vida,
Dão a lembrança vaga, indefinida
Dos seus feitos gentis, nobres, altivos.
Nas lutas vãs
do tenebroso mundo
Os mortos são ainda o bem profundo
Que nos faz esquecer o horror dos vivos.
FLORIPES
Fazes lembrar
as mouras dos castelos,
As errantes visões abandonadas
Que pelo alto das torres encantadas
Suspiravam de trêmulos anelos.
Traços
ligeiros, tímidos, singelos
Acordam-te nas formas delicadas
Saudades mortas de regiões sagradas,
Carinhos, beijos, lágrimas, desvelos.
Um requinte
de graça e fantasia
Dá-te segredos de melancolia,
Da Lua todo o lânguido abandono...
Desejos vagos,
olvidadas queixas
Vão morrer no calor dessas madeixas,
Nas virgens florescências do teu sono.
O CEGO DO
HARMONIUM
Esse cego do
harmonium me atormenta
E atormentando me seduz, fascina.
A minh'alma para ele vai sedenta
Por falar com a sua alma peregrina.
O seu cantar
nostálgico adormenta
Como um luar de mórbida neblina.
O harmonium geme certa queixa lenta,
Certa esquisita e lânguida surdina.
Os seus olhos
parecem dois desejos
Mortos em flor, dois luminosos beijos
Fanados, apagados, esquecidos...
Ah! eu não
sei o sentimento vário
Que prende-me a esse cego solitário,
De olhos aflitos como vãos gemidos!
HORAS DE
SOMBRA
Horas de sombra,
de silêncio amigo
Quando há em tudo o encanto da humildade
E que o anjo branco e belo da saudade
Roga por nós o seu perfil antigo.
Horas que o
coração não vê perigo
De gozar, de sentir com liberdade...
Horas da asa imortal da Eternidade
Aberta sobre tumular jazigo.
Horas da compaixão
e da clemência,
Dos segredos sagrados da existência,
De sombras de perdão sempre benditas.
Horas fecundas,
de mistério casto,
Quando dos céus desce, profundo e vasto,
O repouso das almas infinitas.
ALELUIA!
ALELUIA!
Dentre um cortejo
de harpas e alaúdes
Ó Arcanjo sereno, Arcanjo níveo,
Baixas-te à terra, ao mundanal convívio...
Pois que a terra te ajude, e tu me ajudes.
Que tu me alentes
nas batalhas rudes,
Que me tragas a flor de um doce alívio
Aos báratros, às brenhas, ao declívio
Deste caminho de ânsias e ataúdes...
Já que
desceste das regiões celestes,
Nesse clarão flamívomo das vestes,
Através dos troféus da Eternidade
Traz-me a Luz,
traz-me a Paz, traz-me a Esperança
Para a minh'alma que de angústias cansa,
Errando pelos claustros da Saudade!
ROSA NEGRA
Nervosa Flor,
carnívora, suprema,
Flor dos sonhos da Morte, Flor sombria,
Nos labirintos da tu'alma fria
Deixa que eu sofra, me debata e gema.
Do Dante o atroz,
o tenebroso lema
Do Inferno a porta em trágica ironia,
Eu vejo, com terrível agonia,
Sobre o teu coração, torvo problema.
Flor do delírio,
flor do sangue estuoso
Que explode, porejando, caudaloso,
Das volúpias da carne nos gemidos.
Rosa negra da
treva, Flor do nada,
Dá-me essa boca acídula, rasgada,
Que vale mais que os corações proibidos!
VOZINHA
Velha, velhinha,
da doçura boa
De uma pomba nevada, etérea, mansa.
Alma que se ilumina e se balança
Dentre as redes da Fé que nos perdoa.
Cabeça
branca de serena leoa,
Carinho, amor, meiguice que não cansa,
Coração nobre sempre como a lança
Que não vergue, não fira e que não doa.
Olhos e voz
de castidades vivas,
Pão ázimo das Páscoas afetivas,
Simples, tranqüila, dadivosa, franca.
Morreu tal qual
vivera, mansamente,
Na alvura doce de uma luz algente,
Como que morta de uma morte branca.
NO EGITO
Sob os ardentes
sóis do fulvo Egito
De areia estuosa, de candente argila,
Dos sonhos da alma o turbilhão desfila,
Abre as asas no páramo infinito.
O Egito é
sempre o amigo, o velho rito
Onde um mistério singular se asila
E onde, talvez mais calma, mais tranqüila
A alma descansa do sofrer prescrito.
Sobre as ruínas
d'ouro do passado,
No céu cavo, remoto, ermo e sagrado,
Torva morte espectral pairou ufana...
E no aspecto
de tudo em torno, em tudo,
Árido, pétreo, silencioso, mudo,
Parece morta a própria dor humana!
OCASOS
Morrem no Azul
saudades infinitas
Mistérios e segredos inefáveis...
Ah! Vagas ilusões imponderáveis,
Esperanças acerbas e benditas.
Ânsias
das horas místicas e aflitas,
De horas amargas das intermináveis
Cogitações e agruras insondáveis
De febres tredas, trágicas, malditas.
Cogitações
de horas de assombro e espanto
Quando das almas num relevo santo
Fulgem de outrora os sonhos apagados.
E os bracos
brancos e tentaculosos
Da Morte, frios, álgidos, nervosos,
Abrem-se pare mim torporizados.
REPOUSO
A cabeça
pendida docemente
Em sonhos, sonha o sonhador inquieto,
Repousa e nesse repousar discreto
É sempre o sonho o seu bordão clemente.
Cego desta Prisão
impenitente
Da Terra e cego do profundo Afeto,
O sonho é sempre o seu bordão secreto
O seu guia divino e refulgente.
Nem no repouso
encontra a paz que espera,
Para lhe adormecer toda a quimera,
Os círculos fatais do seu Inferno.
Entre a calma
aparente, a estranha calma,
O seu repouso é sempre a febre d'alma,
O seu repouso é sonho, e sonho eterno.
REQUIESCAT...
Grande, grande
Ilusão morta no espaço,
Perdida nos abismos da memória,
Dorme tranqüila no esplendor da glória,
Longe das amarguras do cansaço...
Ilusão,
Flor do sol, do morno e lasso
Sonho da noite tropical e flórea,
Quando as visões da névoa transitória
Penetram na alma, num lascivo abraço...
Ó Ilusão!
Estranha caravana
de águias, soberbas, de cabeça ufana,
De asas abertas no clarão do Oriente.
Não me
persiga o teu mistério enorme!
Pelas saudades que me aterram, dorme,
Dorme nos astros infinitamente...
DOCE ABISMO
Coração,
coração! a suavidade,
Toda a doçura do teu nome santo
É como um cálix de falerno e pranto,
De sangue, de luar e de saudade.
Como um beijo
de mágoa e de ansiedade,
Como um terno crepúsculo d'encanto,
Como uma sombra de celeste manto,
Um soluço subindo a Eternidade.
Como um sudário
de Jesus magoado,
Lividamente morto, desolado,
Nas auréolas das flores da amargura.
Coração,
coração! onda chorosa,
Sinfonia gemente, dolorosa,
Acerba e melancólica doçura.
HARPAS ETERNAS
Hordas de Anjos
titânicos e altivos,
Serenos, colossais, flamipotentes,
De grandes asas vívidas, frementes,
De formas e de aspectos expressivos.
Passam, nos
sóis da Glória redivivos,
Vibrando as de ouro e de Marfim dolentes,
Finas harpas celestes, refulgentes,
Da luz nos altos resplendores vivos
E as harpas
enchem todo o imenso espaço
De um cântico pagão, lascivo, lasso,
Original, pecaminoso e brando...
E fica no ar,
eterna, perpetuada
A lânguida harmonia delicada
Das harpas, todo o espaço avassalando.
DUPLA VIA-LÁCTEA
Sonhei! Sempre
sonhar! No ar ondulavam
Os vultos vagos, vaporosos, lentos,
As formas alvas, os perfis nevoentos
Dos Anjos que no Espaço desfilavam.
E alas voavam
de Anjos brancos, voavam
Por entre hosanas e chamejamentos...
Claros sussurros de celestes ventos
Dos Anjos longas vestes agitavam.
E tu, já
livre dos terrestres lodos,
Vestida do esplendor dos astros todos,
Nas auréolas dos céus engrinaldada
Dentre as zonas
de luz flamo-radiante,
Na cruz da Via-Láctea palpitante
Apareceste então crucificada!
TITÃS
NEGROS
Hirtas de Dor,
nos áridos desertos
Formidáveis fantasmas das Legendas,
Marcham além, sinistras e tremendas,
As caravanas, dentre os céus abertos...
Negros e nus,
negros Titãs, cobertos
Das bocas vis das chagas vis e horrendas,
Marcham, caminham por estranhas sendas,
Passos vagos, sonâmbulos, incertos...
Passos incertos
e os olhares tredos,
Na convulsão de trágicos segredos,
De agonias mortais, febres vorazes...
Têm o
aspecto fatal das feras bravas
E o rir pungente das legiões escravas,
De dantescos e torvos Satanases!...
ENTRE CHAMAS...
Sonhei que de
astros no Infinito presa
Vagavas, brandamente adormecida,
Nas chamas siderais resplandecida,
A carne, em chamas, no Infinito, acesa...
E eu pasmava
de encanto e de surpresa
Vendo a constelação indefinida
Da tua carne flamejando vida,
Dentre os íris radiantes da beleza...
E o teu corpo,
nas chamas palpitando,
Os astros em redor maravilhando,
Por entre a auréola dos clarões cantava...
Então,
de sonho em sonho, absorto, mudo,
Eu senti alastrar, vibrar por tudo
Toda a infinita sensação da lava!...
O ANJO DA
REDENÇÃO
Soberbo, branco,
etereamente puro,
Na mão de neve um grande facho aceso,
Nas nevroses astrais dos sóis surpreso,
Das trevas deslumbrando o caos escuro.
Portas de bronze
e pedra, o horrendo muro
Da masmorra mortal onde estás preso
Desce, penetra o Arcanjo branco, ileso
Do ódio bifronte, torso, torvo e duro.
Maravilhas nos
olhos e prodígios
Nos olhos, chega dos azuis litígios
Desce à tua caverna de bandido.
E sereno, agitando
o estranho facho,
Põe-te aos pés e a cabeça, de alto a baixo,
Auréolas imortais de Redimido!
SALVE! RAINHA!...
Ó sempre
virgem Maria, concebida
sem pecado original, desde o
primeiro instante do teu ser...
Mãe de
Misericórdia, sem pecado
Original, desde o primeiro instante!
Salve! Rainha da Mansão radiante,
Virgem do Firmamento constelado...
Teu coração
de espadas lacerado,
Sangrando sangue e fel martirizante,
Escute a minha Dor, a torturante,
A Dor do meu soluço eternizado.
A minha Dor,
a minha Dor suprema,
A Dor estranha que me prende, algema
Neste Vale de lágrimas profundo...
Salve! Rainha!
por quem brado e clamo
E brado e brado e com angústia chamo,
Chamo, através das convulsões do mundo!...
[SONETO]
Brancas Aparições,
Visões renanas,
Imagens dos Ascetas peregrinos,
Hinos nevoentos, neblinosos hinos
Das brumosas igrejas luteranas.
Vago mistério
das regiões indianas,
Sonhos do Azul dos astros cristalinos,
Coros de Arcanjos, claros sons divinos
Dos Arcanjos, nas tiorbas soberanas.
Tudo ressurge
na minh'alma e vaga
Num fluido ideal que me arrebata e alaga,
No abandono mais lânguido mais lasso...
Quando lá
nos sacrários do Cruzeiro
A lua rasga o trêmulo nevoeiro,
Magoada de vigílias e cansaço...
VIOLINOS
Pelas bizarras,
góticas janelas
De um tempo medieval o sol ondula:
Nunca os vitrais viram visões mais belas
Quando, no ocaso, o sol os doura e oscula...
Doces, multicores
aquarelas
Sobre um saudoso céu que além se azula...
Calma, serena, divinal, entre eras,
A pomba ideal dos Ângelus arrula...
Rezam de joelhos
anjos de mãos postas
Através dos vitrais, e nas encostas
Dos montes sobe a claridade ondeando...
É a lua
de Deus, que as curves meigas
Foi ondular pelos vergéis e veigas
Magnólias e lírios desfolhando...
GUERRA JUNQUEIRO
Quando ele do
Universo o largo supedâneo
Galgou como os clarões -- quebrando o que não serve,
Fazendo que explodissem os astros de seu crânio,
As gemas da razão e os músculos da verve;
Quando ele esfuziou
nos páramos as trompas,
As trompas marciais -- as liras do estupendo,
Pejadas de prodígios, assombros e de pompas,
Crescendo em proporções, crescendo e recrescendo;
Quando ele retesou
os nervos e as artérias
Do verso orbicular -- rasgando das misérias
O ventre do Ideal na forte hematemese.
Clamando --
é minha a luz, que o século propague-a,
Quando ele avassalou os píncaros da águia
E o sol do Equador vibrou-lhe aquelas teses!
CAMPESINAS
AO AR LIVRE
A Virgílio Várzea
Tu trazes agora
o peito
Como essas urnas sagradas,
Repleto de gargalhadas,
Sonoro, bom, satisfeito.
Por dentro cantam
assombros
E causAs esplendorosas
Como latadas de rosas
Dos muros entre os escombros.
Quando o ideal
nos alaga,
Embora as lutas do mundo,
Levanta-se um sol fecundo
Do peito em cada uma chaga.
Voltou-se a
seiva de outrora,
De outro, mais forte e destro,
Iluminado maestro,
Das harmonias da aurora.
Fulgurem por
isso as musas,
As belas musas, por isso...
Voltou-te o passado viço,
Foram-se as mágoas, confusas.
Agora, quando
eu dirijo
Meus passos, à tua porta,
Sinto-te um bem que conforta,
Vejo-te alegre e mais rijo.
Porque afinal
pela vida
Nem tudo se desmorona
Quando se vaga na zona
Da mocidade florida.
Gostas de ver
pelos ramos
Das verdes árvores novas,
A chocalhar umas trovas,
Coleiros e gaturamos.
Já podes
bem comer frutas,
Os teus simpáticos jambos,
E ouvir alguns ditirambos
Da natureza nas grutas.
Podes olhar
as esferas,
Com ar direito e seguro,
De frente para o futuro,
De lado para as quimeras.
Não tenhas
cofres avaros
De santos -- na luz te afoga,
E a alma arremessa e joga
Por esses páramos claros.
Reúne
os sonhos dispersos
Como andorinhas vivaces
E o colorido das faces
Ao coberto dos versos.
Como uns lábaros
vermelhos,
Contente como os lilazes,
As crenças dos bons rapazes
Tem prismas como os espelhos.