O
Livro Derradeiro, Cruz e Sousa
ILUSÕES MORTAS
A Virgílio Várzea
Os meus amores
vão-se mar em fora,
E vão-se mar em fora os meus amores,
A murchar, a murchar, como essas flores
Sem mais orvalho e a doce luz da aurora.
E os meus amores
não virão agora,
Não baterão as asas multicores,
Como as aves mansas -- dentre os esplendores
Do meu prazer, do meu prazer de outrora.
Tudo emigrou,
rasgando a esfera branca
Das ilusões, -- tudo em revoada franca
Partiu -- deixando um bem-estar saudoso
No fundo ideal
de toda a minha vida,
Qual numa taça a gota indefinida
De um bom licor antigo e saboroso.
O SONHO DO
ASTRÓLOGO
As fulgurosas,
rútilas estrelas
Como mundos de mundos seculares,
Formando uns arquipélagos, uns mares
De luz -- como eu deslumbro o olhar ao vê-las.
Ah! se como
eu sei compreendê-las,
Sentir-lhes os seus filtros salutares,
Pudesse, da amplidão fria dos ares
Arrancá-las, na mão sempre trazê-las;
Que vagalhões
de assombros palpitantes
Não me viriam perpassar, faiscantes,
Dentro do ser, nuns doutros murúrios.
Eu saberia muito
mais a causa
Da evolução que nunca teve pausa,
Que é uma audácia transbordando em rios.
CRISTO
Cristo morreu,
ó tristes criaturas,
Era matéria como vós, morreu;
E quando a noite sepulcral desceu
Gelou com ele o oceano das ternuras.
Nunca outro
sol de irradiações mais puras
Subiu tão alto e tanto resplendeu,
Nunca ninguém tão firme combateu
Da humanidade todas as torturas.
Morreu, que
se ele, o Deus, ressuscitasse,
Limpa de sangue e lágrimas a face,
Os seus olhos tranqüilos, virginais,
Dons inefáveis,
corações piedosos,
Tinham de abrir-se muito dolorosos,
Também chorando quando vós chorais!
FRUTAS DE
MAIO
Maio chegou
-- alegre e transparente
Cheio de brilho e música nos ares,
De cristalinos risos salutares,
Frio, porém, ó gota alvinitente.
Corre um fluido
suave e odorescente
Das laranjeiras, como dos altares
O incenso -- e, como a gaze azul dos mares,
Leve -- há por tudo um beijo, docemente.
Isto bem cedo,
de manhã -- adiante
Pela tarde um sol calmo, agonizante,
Põe no horizonte resplendentes franjas.
Há carinhos,
da luz em cada raio,
Filha -- e eu que adoro este frescor de maio
Muito, mas muito -- trago-te laranjas.
ETERNO SONHO
Quelle est donc cette femme?
Je ne comprendrai pas.
Félix Arvers
Talvez alguém
estes meus versos lendo
Não entenda que amor neles palpita,
Nem que saudade trágica, infinita
Por dentro dele sempre está vivendo.
Talvez que ela
não fique percebendo
A paixão que me enleva e que me agita,
Como de uma alma dolorosa, aflita
Que um sentimento vai desfalecendo.
E talvez que
ela ao ler-me, com piedade,
Diga, a sorrir, num pouco de amizade,
Boa, gentil e carinhosa e franca:
-- Ah! bem conheço
o teu afeto triste...
E se em minha alma o mesmo não existe,
É que tens essa cor e é que eu sou branca!
RISADAS
Às criaturas alegres
Fantasia, ó
fantasia, tropo ardente
Da aurora alegre undiflavando as bandas
Do adamascado e rúbido oriente,
Ó fantasia, águia das asas pandas.
Tu que os clarins
do sonho mais fulgente
Das Julietas, feres, nas varandas,
Ó fantasia dos Romeus, ó crente,
Por que países meridionais tu andas?!
Vem das esferas,
entre os sons que vibras.
Vem, que desejo emocionar as fibras,
Quero sentir como este sangue impulsas.
Noiva do sol
que os sóis preclaros gozas
Para rimar umas canções de rosas,
Como risadas de cristal, avulsas...
AVE! MARIA...
Ave! Maria das
Estrelas, Ave!
Cheia de graça do luar, Maria!
Harmonia de cântico suave,
Das harpas celestiais branda harmonia...
Nuvem d'incensos
através da nave
Quando o templo de pompas irradia
E em prantos o órgão vai plangendo grave
A profunda e gemente litania...
Seja bendito
o fruto do teu ventre,
Jesus, mais belo dentre os astros e entre
As mulheres judaicas mais amado...
Ó Luz!
Eucaristia da beleza,
Chama sagrada no Evangelho acesa,
Maravilha do Amor e do Pecado!
IMPASSÍVEL
Teu coração
de mármore não ama
Nem um dia sequer, nem um só dia.
Essa inclemente natureza fria
Jamais na luz dos astros se derrama.
Mares e céus,
a imensidade clama
Por esse olhar d'estrelas e harmonia,
Sem uma névoa de melancolia,
Do amor nas pompas e na vida chama.
A Imensidade
nunca mais quer vê-lo,
Indiferente às comoções, de gelo
Ao mar, ao sol, aos roseirais de aromas.
Ama com o teu
olhar, que a tudo encantas,
Ou se antes de pedra, como as santas,
Mudas e tristes dentro das redomas.
VERÔNICA
Não a
face do Cristo, a macilenta
Face do Cristo, a dolorosa face...
O martírio da Cruz passou fugace
E este Martírio, esta Paixão é lenta.
Um vivo sangue
a face te ensangüenta,
Mais vivo que se o Deus o derramasse;
Porque esta vã paixão, para que passe,
É mister dos Titãs a luta incruenta.
Se tu, Visão
da Luz, Visão sagrada
Queres ser a Verônica sonhada,
Consoladora dessa dor sombria
Impressa ficara
no teu sudário
Não a face do Cristo do Calvário
Mas a face convulsa da Agonia!
SÍMILES
(Desterro)
Pedro traiu
a fé do Apostolado.
Madalena chorou de arrependida;
E nessa mágoa triste e indefinida
Havia ainda uns laivos de pecado.
Tudo que a Bíblia
tinha decretado,
Tudo o que a lenda humilde e dolorida
De Jesus Cristo apregoou na vida,
Cumpriu-se à risca, foi executado.
O filho-Deus
da cândida Maria,
Da flor de Jericó, na cruz sombria
Os seus dias amáveis terminou.
Pedro traiu
a fé dos companheiros.
Madalena chorou sob os olmeiros
Jesus Cristo sofreu e... perdoou.
EXILADA
Bela viajante
dos países frios
Não te seduzam nunca estes aspectos
Destas paisagens tropicais -- secretos,
-- Os teus receios devem ser sombrios.
És branca
e és loura e tens os amavios
Os incógnitos filtros prediletos
Que podem produzir ondas de afetos
Nos mais sensíveis corações doentios.
Loura Visão,
Ofélia desmaiada,
Deixa esta febre de ouro, a febre ansiada
Que nos venenos deste sol consiste.
Emigra destes
cálidos países,
Foge de amargas, fundas cicatrizes,
Das alucinações de um vinho triste...
SONETOS
Do som, da luz
entre os joviais duetos,
Como uma chusma alada de gaivotas,
Vindos das largas amplidões remotas,
Batem as asas todos os sonetos.
Vão --
por estradas, por difíceis rotas,
Quatorze versos -- entre dois quartetos
E duas belas e luzidas frotas
Rijas, seguras, de mais dois tercetos.
Com a brunida
lâmina da lima,
Vão céus radiosos, horizontes acima,
Pelas paragens límpidas, gentis,
Atravessando
o campo das quimeras,
Aberto ao sol das flóreas primaveras,
Todo estrelado de áureos colibris.
DECADENTES
Richepin, Rollinat!
gritos sangrentos
Da carne alvoroçada de desejos,
Mosto de risos, lágrimas e beijos,
Estertores de abutres famulentos.
Desesperado
frêmito dos ventos,
De harpas, sutis, fantásticos harpejos,
Clarins de guerra, e cânticos e adejos
De aves -- todos os vivos elementos.
Tudo flameja
e nas estrofes canta,
Estruge, zune, em borbotões levanta
Noites, luares, fulgurantes dias.
Mas nessa ideal
temperatura forte
Tudo isso é triste como a flor da morte
Que brota dentro das caveiras frias...
OLAVO BILAC
Vim afinal para
o solar dos astros,
De irradiações puríssimas e belas,
Numa viagem de alterosos mastros,
Numa viagem de saudosas velas...
Das alegrias
nos febris enastros
Que as almas prendem para percebê-las,
Vim cantando e feliz, fugindo aos rastros
Da terra de onde vi e ouvi estrelas.
E por aqui,
nas lúcidas paisagens,
Vestido das mais fluídicas roupagens
Tecido de ouro, nos clarões imersos...
Ando a gozar,
entre lauréis e palmas,
O que cantei na terra, junto às almas,
Na eterna florescência dos meus versos.
DOENTE
As unhas perigosas
da bronquite
Nas tuas carnes sensuais e moles
Não deixarão que o teu amor palpite
Nem que os olhares pelos astros roles.
É fatal
a moléstia. Só permite
Que te acabes por fim e que te estioles.
Sem que em teu peito o coração se agite,
Sem que te animes, sem que te consoles.
Vai se extinguindo
a polpa dessas faces...
Mas se ainda hoje em mim acreditasses,
Como no tempo virginal de outrora,
Tu curar-te-ias
com pequeno esforço
Das serranias através do dorso,
Pela saúde dos vergéis afora.
DOENTE [variação]
As unhas perigosas
da bronquite
Nas tuas carnes flácidas e moles,
Não deixarão que o teu amor palpite,
Nem que os olhares pela esfera roles...
É fatal
a moléstia -- só permite
Que te acabes por fim, e que te estioles,
Sem que em teu peito um coração se agite,
Sem que te animes, sem que te consoles.
Vai-se extinguindo
a polpa dessas faces!
Mas se ainda hoje em mim acreditasses,
Como no tempo musical de outrora,
Me seguirias
com pequeno esforço,
Das serranias através do dorso,
Pela saúde dos vergéis afora!
LIRIAL
Vens com uns
tons de searas,
De prados enflorescidos
E trazes os coloridos
Das frescas auroras claras.
E tens as nuances
raras
Dos bons prazeres servidos
Nos rostos enlourecidos
Das parisienses preclaras.
Chapéu
das finas elites,
De roses e clematites,
Chapéu Pierrette -- entre o sol
Passando, esbelta
e rosada,
Pareces uma encantada
Canção azul do Tirol.
TO SLEEP,
TO DREAM
Dormir, sonhar
-- o poeta inglês o disse...
Ah! Mas se a gente nunca mais sonhasse
Ah! Mas se a gente nunca mais dormisse
E a ilusões não mais acalentasse?
E o que importava
que o futuro risse
De um visionário que tal cousa ideasse;
Se não seria o único que abrisse
Uma exceção da vida humana à face?...
Se os imortais
filósofos modernos
Que derrubaram todos os infernos,
Que destruíram toda a teogonia.
Orientando a
triste humanidade,
Deixaram, mais e mais, a piedade
Inteiramente desolada e fria?
NO CAMPO
Acordo de manhã
cedo
Da luz aos doces carinhos:
Que rosas pelos caminhos!
Que rumor pelo árvoredo!
Para o azul
radioso e ledo
Sobe, de dentro dos ninhos,
O canto dos passarinhos
Cheio de amor e segredo.
Dentre moitas
de verdura
Voam as pombas nevadas,
Imaculadas de alvura.
Pelas margens
das estradas
Que penetrante frescura
Que femininas risadas!
FRUTAS E FLORES
Laranjas e morangos
-- quanto às frutas,
Quanto às flores, porém, ah! quanto às flores,
Trago-te dálias rubras, d'essas cores
Das brilhantes auroras impolutas.
Venho de ouvir
as misteriosas lutas
Do mar chorando lágrimas de amores;
Isto é, venho de estar entre os verdores
De um sítio cheio de asperezas brutas,
Mas onde as
almas -- pássaros que voam --
Vivem sorrindo às músicas que ecoam
Dos campos livres na rural pobreza.
Trago-te frutas,
flores, só apenas,
Porque não pude, irmã das açucenas,
Trazer-te o mar e toda a natureza!
VISÃO
MEDIEVA
Quando em outras
remotas primaveras,
Na idade-média, sob fuscos tetos,
Dois amantes passavam, mil aspectos
Tinham aquelas medievais quimeras.
Nas armaduras
rígidas e austeras,
Na aérea perspectiva dos objetos
Andavam sonhos e visões, diletos
Segredos mortos nas extintas eras.
O fantasma do
amor pelos castelos
Mudo vagava entre os luares belos,
Dos corredores nas paredes frias.
Não raro
se escutava um som de passos,
Rumor de beijos, frêmito de abraços
Pelas caladas, fundas galerias.
RECORDAÇÃO
Foi por aqui,
sob estes árvoredos,
Sob este doce e plácido horizonte,
Perto da clara e pequenina fonte
Que murmura lá baixo os seus segredos...
Recordo bem
todos os cantos ledos
Da passarada -- e lembro-me da ponte
Por sobre a qual via-se além, de fronte,
O mar azul batendo nos penedos.
Sinto a impressão
ainda da paisagem,
Do trêmolo (...)* da folhagem,
Das culturas rurais, do sítio agreste.
A luz do dia
vinha então morrendo...
Foi por aqui que eu pude ficar crendo
O quanto pode o teu olhar celeste.
* Rasurado