O
Livro Derradeiro, Cruz e Sousa
CELESTE
Aos corações ideais
Lembra-me ainda
-- ao lado de um repuxo,
Pela brancura de um luar de agosto,
O teu maninho, um loiro pequerrucho
Brincava, rindo, te afagando o rosto...
Lembra-me ainda
-- as sombras do sol posto,
Numa saleta sem brasões de luxo,
De alguns bordados de fineza e gosto
Delineavas o gentil debuxo...
E o gás
que forte e cintilante ardia,
Te iluminava, te alagava... ria...
Da luz ficavas no imponente abrigo.
E agora... deixa
que ao cair da noite,
Esta lembrança dentro de mim se acoite,
Como a andorinha no telhado amigo!
[ ESTAS RISADAS]
Estas risadas
límpidas e frescas
Que Pan trauteia em cálamos maviosos
Nesta amplidão dos campos verdurosos,
Nestas paisagens flóreas, pitorescas;
Toda esta pompa
e gala principescas
Destas searas, destes altanosos
Montes e várzeas, prados vigorosos,
Louros -- talvez como as visões tudescas;
Este luxuoso
e rico paramento,
Feito de luz e de deslumbramento
-- Do grande altar da natureza imensa.
Aguarda o poeta
sacerdote augusto,
Para cantar no seu missal robusto,
A nova Missa da razão que pensa...
AOS MORTOS
Oh! não
é bom rir-se de um morto -- brusca
Pois deve ser a sensação que aumenta
Desoladora, vagarosa, lenta
Da negra morte tétrica velhusca...
Tudo que em
vida, como um sol, corusca,
Que nos aquece, que nos acalenta,
Tudo que a dor e a lágrima afugenta,
O olhar da morte nos apaga e ofusca...
Nunca se deve
desprezar os mortos...
Nos regelados e sombrios portos,
Onde a matéria se transforma e urge
Exuberar na
planturosa leiva,
Vivem os mortos no vigor da seiva,
Porque dão vida ao que da vida surge!...
LUAR
Pelas esferas,
nuvens peregrinas,
Brandas de toques, encaracoladas,
Passam de longe, tímidas, nevadas,
Cruzando o azul sereno das colinas.
Sombras da tarde,
sombras vespertinas
Como escumilhas leves, delicadas,
Caem da serra oblonga nas quebradas,
Vão penumbrando as coisas cristalinas.
Rasga o silêncio
a nota chã, plangente,
Da Ave-Maria, -- e então, nervosamente,
Nuns inefáveis, espontâneos jorros
Esbate o luar,
de forma admirável,
Claro, bondoso, elétrico, saudável,
Na curvilínea compridão dos mortos.
MOCIDADE
Ah! esta mocidade!
-- Quem é moço
Sente vibrar a febre enlouquecida
Das ilusões, da crença mais florida
Na muscular artéria de Colosso...
Das incertezas
nunca mede o poço...
Asas abertas -- na amplidão da vida,
Páramo a dentro -- de cabeça erguida,
Vê do futuro o mais alegre esboço...
Chega a velhice,
a neve das idades
E quem foi moço, volve, com saudades,
Do azul passado, o fulgido compêndio...
Ai! esta mocidade
palpitante,
Lembra um inseto de ouro, rutilante,
Em derredor das chamas de um incêndio!
SONETO
Vão-se
de todo os pardacentos nimbos...
Chovem da luz as nítidas faíscas
E no esplendor de irradiações mouriscas,
Abrem-se as flores em gentis corimbos.
Muito mais lestas
do que amigos fimbos,
Do Azul cortando as bordaduras priscas,
Pombas do mato esvoaçando, ariscas,
Do céu se perdem nos profundos limbos.
A natureza pulsa
como a forja...
Pássaros vibram no clarim da gorja,
As retumbantes, fortes clarinadas.
A grande artéria
dos assombros pula...
E do oxigênio, a força que regula
Enche os pulmões a largas baforadas.
NA FONTE
Bem ao lado
da gruta a fonte corre
Trepidamente, as águas encrespando,
Em murmúrios crebos, levantando
Uns chamalotes prateados -- morre
No monte o sol
que a luz no oceano escorre
E ainda eu vejo, as sombras afrontando,
Uma mulher que lava, mesmo quando
O sol mais rubro, mais vermelho jorre.
-- É
num sítio afastado, um sítio ermo...
Pássaros cortam vastidões sem termo,
Borboletas azuis roçam nas águas.
-- E a mulher
lava, enrubescida a face;
Lava, cantando, como se lavasse
As suas tristes e profundas mágoas.
[SONETO]
A fonte de águas
cristalinas corre
Chamalotes de prata levantando,
E através de arvoredos murmurando,
Entre arvoredos murmurando morre...
No ocaso, o
sol, a luz no oceano escorre
E sempre vejo, as sombras afrontando,
Uma mulher que canta e ri, lavando,
Mesmo que o sol muito abrasado jorre.
É verde
o campo, deleitável e ermo.
Pássaros cortam vastidões sem termo,
Borboletas azuis roçam nas águas.
E cantando,
a mulher, a rir a face,
Lava cantando como se lavasse
As suas grandes e profundas mágoas.
CEGA
Parece-me que
a luz imaculada
Que vem do teu olhar, todo doçuras,
Não verte no meu ser aquelas puras
Delícias de outra era já passada.
Eu creio que
essa pálpebra adorada
Não mais um flóreo empíreo de venturas
Descobre-me -- na noite de amarguras,
De dúvidas intérminas cortada.
Não olhas
como olhavas, rindo, outrora,
Não abres a pupila, como a aurora
Nascendo, abre, feliz, radiosa e calma.
A sombra, nos
teus olhos, funda, existe!...
Tu'alma deve ser bem negra e triste
Se os olhos são, decerto, o espelho d'alma.
ERMIDA
Lá onde
a calma e a placidez existe,
Sobre as colinas que o vergel encobre,
Aquela ermida como está tão pobre,
Aquela ermida como está tão triste.
A minha musa,
sem falar, assiste,
Do meio-dia ante o aspecto nobre,
O vago, estranho e murmurante dobre
Daquela ermida que aos trovões resiste
E as gargalhadas
funéreas, sombrias,
Dos crus invernos e das ventanias,
Do temporal desolador e forte.
Daquela triste
esbranquiçada ermida,
Que me recorda, me parece a vida
Jogada às magoas e ilusões da sorte.
ÁGUA-FORTE
Do firmamento
azul e curvilíneo
Cai, fecundando as trêmulas raízes
Dos laranjais, dos pâmpanos, das lizes,
A luz do sol procriador, sanguíneo.
Pelo caminho
agreste e retilíneo,
Da tarde aos brandos, triunfais matizes,
A criançada, a chusma dos felizes,
Esse de auroras perfumado escrínio,
Volta da escola,
rindo muito, aos saltos,
Trepando, em bulha, aos árvoredos altos
Enquanto o sol desce os outeiros longos...
Vai dentre alados
madrigais risonhos,
Do abecedário juvenil dos sonhos,
A soletrar os principais ditongos.
ALMA QUE CHORA
A João Saldanha
Em vão
do Cristo aos olhos dulçurosos
Onde há o sol do bem e da verdade,
Cheios da luz eterna de saudade,
Como dois mansos corações piedosos,
Em vão
do Cristo os olhos lacrimosos
E aquela doce e pura suavidade
Do seu semblante, casto, de bondade,
Cor do luar dos sonhos venturosos,
Servem de exemplo
a dor escruciante
Que te apunhala e fere a cada instante,
A punhaladas ríspidas, austeras!
Viste partir
a tua irmã, se, viste,
Como num céu enévoado e triste
O bando azul das fúlgidas quimeras...
CHUVA DE OURO
A Rainha desceu
do Capitólio
Agora mesmo -- vede-lhe o regaço...
Como tem flores, como traz o braço
Farto de jóias, como pisa o sólio
Triunfantemente,
numa unção, num óleo
Mais santo e doce que essa luz do espaço...
E como desce com bravura de aço...
Pois se a Rainha, como um rico espólio,
O seu brioso
coração foi dando
Aos pobrezinhos, que inda estão gozando
Bênçãos mais puras qu'os clarões diurnos,
Por certo que
há de vir descendo a escada
Do Capitólio da virtude -- olhada
Pelos Albergues infantis, noturnos!
PRIMAVERA
A FORA
Escute, excelentíssima:
-- Que aragens
Traz do árvoredo a fresca romaria;
Como este sol é rubro de alegria,
Que tons de luz nas límpidas paisagens.
Pois beba este
ar e goze estas viagens
Das brancas aves, sinta esta harmonia
Da natureza e deste alegre dia
Que resplandece e ri-se nas ervagens.
Deixe lá
fora estrangular-se o mundo...
Encare o céu e veja este fecundo
Chão que produz e que germina as flores.
Vamos, senhora,
o braço à primavera,
E numa doce música sincera,
Cante a balada eterna dos amores...
25 DE MARÇO
(Recife, 1885)
Em Pernambuco para o Ceará
Bem como uma
cabeça inteiramente nua
De sonhos e pensar, de arroubos e de luzes,
O sol de surpreso esconde-se, recua,
Na órbita traçada -- de fogo dos obuses.
Da enérgica
batalha estóica do Direito
Desaba a escravatura -- a lei cujos fossos
Se ergue a consciência -- e a onda em mil destroços
Resvala e tomba e cai o branco preconceito.
E o Novo Continente,
ao largo e grande esforço
De gerações de heróis -- presentes pelo dorso
À rubra luz da glória -- enquanto voa e zumbe.
O inseto do
terror, a treva que amortalha,
As lágrimas do Rei e os bravos da canalha,
O velho escravagismo estéril que sucumbe.
NINHO ABANDONADO
À distinta família Simas, pela morte de seu chefe,
o Ilmo. Sr. João da Silva Simas.
O vosso lar
harmônico e tranqüilo
Era um ninho de luz e de esperanças
Que como abelhas iriadas, mansas,
Nos vossos corações tinham asilo.
Havia lá
por dentro tanta crença
E tanto amor puríssimo, cantando,
Que parecia um largo sol faiscando
Por majestosa catedral imensa.
Agora o ninho
está desamparado!
Sumiu-se dele o pássaro adorado,
O mais ideal dos pássaros do ninho.
Não se
ouve mais a música sonora
Da sua voz -- dentro do ninho, agora,
Paira a saudade como um bom carinho.
CRENÇA
Filha do céu,
a pura crença é isto
Que eu vejo em ti, na vastidão das cousas,
Nessa mudez castíssima das lousas,
No belo rosto sonhador do Cristo.
A crença
é tudo quanto tenho visto
Nos olhos teus, quando a cabeça pousas
Sobre o meu colo e que dizer não ousas
Todo esse amor que eu venço e que conquisto.
A crença
é ter os peregrinos olhos
Abertos sempre aos ríspidos escolhos;
Tê-los à frente de qualquer farol
E conservá-los,
simplesmente acesos
Como dois fachos -- engastados, presos
Nas radiações prismáticas do sol!
CRISTO E A
ADÚLTERA
(Grupo de Bernardelli)
Sente-se a extrema
comoção do artista
No grupo ideal de plácida candura,
Nesse esplendor tão fino da escultura
Para onde a luz de todo o olhar enrista.
Que campo, ali,
de rútila conquista
Deve rasgar, do mármore na alvura,
O estatuário -- que amplidão segura
Tem -- de alma e braço, de razão e vista!
Vê-se
a mulher que implora, ajoelhada,
A mais serena compaixão sagrada
De um Cristo feito a largos tons gloriosos.
De um Nazareno
compassivo e terno,
D'olhos que lembram, cheios de falerno,
Dois inefáveis corações piedosos!
ÊXTASE
DE MÁRMORE
À grande atriz Apolônia.
O mármore
profundo e cinzelado
De uma estátua viril, deliciosa;
Essa pedra que geme, anseia e goza
Num misticismo altíssimo e calado;
Essa pedra imortal
-- campo rasgado
A comoção mais íntima e nervosa
Da alma do artista, de um frescor de rosa,
Feita do azul de um céu muito azulado;
Se te visse
o clarão que pelos ombros
Teus, rola, cai, nos múltiplos assombros
Da Arte sonora, plena de harmonia;
O mármore
feliz que é muito artista
Também -- como tu és -- à tua vista
De humildade e ciúme, coraria!
INVERNO
Amanheceu --
no topo da colina
Um céu de madrepérola se arqueia
Limpo, lavado, reluzindo -- ondeia
O perfume da selva esmeraldina.
Uma luz virginal
e cristalina,
Como de um rio a transbordante cheia,
Alaga as terras culturais e arreia
De pingos d'ouro os verdes da campina.
Um sol pagão,
de um louro gema d'ovo,
Já tão antigo e quase sempre novo
Surge na frígida estação do inverno.
-- Chilreiam
muito em árvores frondosas
Pássaros -- fulge o orvalho pelas rosas
Como o vigor no espírito moderno.
FALANDO AO
CÉU
Falas ao Céu,
Amor! Em vão tu falas!
Mas o céu, esse é velho, esse é velhinho,
Todo ele é branco, faz lembrar o linho
Dos leitos alvos onde tu te embalas.
A alma do céu
é como velhas salas
Sem ar, sem luz, como lares sem vinho
Sem água e pão, sem fogo e sem carinho,
Sem as mais toscas, as mais simples galas.
Sempre surdo,
hoje o céu é mudo, é cego...
Jamais o coração ao céu entrego,
Eu que tão cego vou por entre abrolhos.
Mas se queres
tornar jovem e louro
Dá-lhe o bordão do teu amor um pouco
Fala e vista, com a vida dos teus olhos...
GLORIOSA
A Araújo Figueredo
Pomba! dos céus
me dizes que vieste,
Toda c'roada de astros e de rosas,
Mas há regiões mais que essas luminosas.
Não, tu não vens da região celeste
Há um
outro esplendor em tua veste,
Uma outra luz nas tranças primorosas,
Outra harmonia em teu olhar -- maviosas
Cousas em ti que tu nunca tiveste.
Não,
tu não vens das célicas planuras,
Do Éden que ri e canta nas alturas
Como essa voz que dos teus lábios tomba.
Vens de mais
longe, vens doutras paragens,
Vens doutros céus de místicas celagens,
Sim, vens de sóis e das auroras, pomba.
O CHALÉ
É um
chalé luzido e aristocrático,
De fulgurantes, ricos arabescos,
Janelas livres para os ares frescos,
Galante, raro, encantador, simpático.
O sol que vibra
em rubro tom prismático,
No resplendor dos luxos principescos,
Dá-lhe uns alegres tiques romanescos,
Um colorido ideal silforimático.
Há um
jardim de rosas singulares,
Lírios joviais e rosas não vulgares,
Brancas e azuis e roxas purpúreas.
E a luz do luar
caindo em brilhos vagos,
Na placidez de adormecidos lagos
Abre esquisitas radiações sulfúreas.
DELÍRIO DO SOM
O Boabdil mais
doce que um carinho,
O teu piano ebúrneo soluçava,
E cada nota, amor, que ele vibrava,
Era-me n'alma um sol desfeito em vinho.
Me parecia a
música do arminho,
O perfume do lírio que cantava,
A estrela-d'alva que nos céus entoava
Uma canção dulcíssima baixinho.
Incomparável,
teu piano -- e eu cria
Ver-te no espaço, em fluidos de harmonia,
Bela, serena, vaporosa e nua;
Como as visões
olímpicas do Reno,
Cantando ao ar um delicioso treno
Vago e dolente, com uns tons de lua.