AUTOMÓVEIS
BANCOS
CELEBRIDADES
CHAT
COLUNISTAS
COMUNIDADES
CRIANÇAS
CULINÁRIA
ENTRETENIMENTO
EDUCAÇÃO
ESPORTES
ECONOMIA
HORÓSCOPO
GAMES
INTERNET
MÚSICA
MULHERES
NOTÍCIAS
POSTAIS
SAÚDE
SERVIÇOS
SEXUALIDADE
SHOPPING
TEENS
TEMPO
TRÂNSITO
VIAGEM
  BUSCA
digite a palavra
 

  MAIL
nome:

senha

   
LIVRO DE UMA SOGRA
Aluísio de Azevedo
 


CAPÍTULO V

Jurara pois a mim mesma, e à memória de meu marido, que minha filha seria feliz. Mas como realizar esse ideal?
Eis a questão. Vejamos:
Dar-lhe um marido, quando chegasse à idade do amor?...
Mas, se o meu, que fora tão bom, tão leal, e tão justo, não conseguira proporcionar-me a felicidade?
Dar-lhe um amante?
Mas, sobre ser, debaixo do ponto de vista social, imoralíssimo o fato, em que poderiam afinal consistir as vantagens de um amante sobre um marido?
Não seria o amante nada mais do que um marido ilegítimo, que trouxesse à mulher todas as desvantagens domésticas do casamento e nenhuma das suas vantagens sociais?
Para o homem, sim, a amante parece incontestavelmente preferível à esposa, porque a mulher de posição só aceita um homem para seu concubinário quando o ama fervorosamente; ao passo que pode tomar marido, ou só porque os seus interesses de vida social assim o exijam, ou só porque a sua vida particular não tenha outro meio de manter-se.
O marido é sempre para a mulher uma garantia do presente e uma garantia do futuro; o amante é nada mais do que um incidente arriscado. O marido é uma conquista social; o amante é um sacrifício feito ao amor. A mulher que não tem posição social, conquista-a com o casamento; e aquela que já a tinha, perde-a tomando um amante. Por conseguinte o casamento eleva e o concubinato rebaixa.
No casamento o escravizado é o marido; no outro caso a escravizada é a mulher. O casamento é o sacrifício de um homem em proveito da sociedade; o concubinato é o sacrifício de uma mulher feito a um homem. A mulher casada vê no "seu" marido uma propriedade sua; e, para manter a felicidade burguesa do seu lar e para não perturbar a suposta tranqüilidade da sua vida conjugal, quer que ele, ao entrar casado na câmera nupcial, despeje para sempre o coração de todos os seus sonhos de glória; quer que ele abdique, em proveito do seu novo estado, de todas as suas ambições brilhantes, de todo o seu ideal de conquistas na vida pública. E desse dia em diante, tudo o que nele for pessoal e de alcance exterior encontrará nela um inimigo terrível. No triunfo individual dele ela verá uma perene ameaça aos seus direitos de proprietária conjugal. A felicidade particular dele, posto que de caráter moral, será por ela considerada um roubo, um atentado cometido contra a solidariedade do casal. Que ele seja um "Bom marido" é o essencial, é quanto basta; é tudo o que ela exige dele e é só o que ela consente que ele ambicione.
E para ser um "Bom marido" convém que ele seja caseiro, metódico, pacato, previdente; que disponha de recursos para manter a família, e não tenha a menor ambição de nome. O que por aí se chama "Bom marido" é um ser genérico e coletivo, que, por si só, particularmente, nada representa, e que não pode ser aproveitado, na cadeia dos interesses gerais da vida humana, senão como simples e obscuro elemento de procriação. Um bom marido é útil somente porque produz filhos.
Para ser um bom marido não pode o indivíduo ser um "homem de ação", como não pode ser um "contemplativo". Não pode ser um conquistador, um revolucionário ou um grande empreendedor, como não pode ser um poeta, um artista ou um sábio. E como são essas as duas únicas ordens em que se divide a humanidade produtora, da soma de cujo esforço de ação ou de pensamento tira a evolução histórica a sua grande força de impulso e de aperfeiçoamento geral, segue-se que o "Bom marido", na comunhão da vida inteligente e na obra do progresso do mundo, não tem lugar como homem, mas só como animal, e seu esforço só poderá ser aproveitado como passivo instrumento da vontade alheia.
Por isso um bom marido deve ser única e exclusivamente um bom marido, e nisso limitar todas a sua aspiração. Um bom marido não deve ter pátria, nem idéias. A sua pátria é a casa, e o programa de todo o seu pensamento é o seguinte: ter ou obter meios para a regulada subsistência da família; não perturbar nunca a paz burguesa do lar; atrair à casa, de vez em quando, amigos sérios e respeitadores dos princípios estabelecidos; promover partidas de dança, em que a mulher se divirta, em que as filhas, se já estiverem desenvolvidas, possam namorar para obter marido; não faltar nunca ao lado da esposa com o provimento sexual de que ela, conforme o seu temperamento, careça para o seu bem-estar e perfeita sinergia do organismo; e nunca, nunca, dar ou promover escândalos, sejam estes de ordem política, artística, amorosa, doméstica, ou sejam de simples e inocente folguedo.
Para o satisfatório desempenho desta última parte do programa, deve o bom marido abster-se de escrever, com assinatura, artigos em jornais e livros principalmente; não deve ter senão as obras que possa dar também a ler à sua família; não deve expor ao público e à venda qualquer produção artística de sua lavra, mas reservá-las para ornamento da sua sala de visitas ou de jantar; no seu modo de vestir nunca trazer a roupa muito à moda, nem muito fora da moda; deve, enfim, nisto, como em tudo absolutamente, escolher sempre o meio-termo, o regular, o médio, porque a mediocridade deve ser o seu nível. Razão esta para que evite, escrupulosamente, aperfeiçoar-se em qualquer ramo de conhecimento científico ou artístico, que da perfeição pode, mesmo sem querer, cair no sucesso e aplauso público o que lhe não convém de modo algum, por ser escandaloso. Todo o sucesso é um escândalo, e o bom marido deve temer o escândalo antes de tudo.
E mais: o bom marido deve recolher-se à casa sempre cedo; não sair para o passeio ou para o teatro sem levar a família; evitar a convivência mundana com todo o indivíduo que for popular e apontado a dedo. Não lhe convém igualmente, e nem por sombra, a menor relação de amizade com os agitadores de idéias e com os artistas reformadores. O seu círculo, além da família, só pode estender-se um bocadinho às circunspectas classes conservadoras; o seu nome não deve figurar nunca senão em listas oficiais e graves. O bom marido deve ser, nos seus atos e nas suas funções, inalterável como uma pêndula: - Da casa para o trabalho e do trabalho para casa. Qualquer desvio do movimento estabelecido pode alterar a marcha do relógio, que é o lar.
Logicamente, quem deveria perder o nome com o casamento e adotar o do cônjuge era o homem e não a mulher, porque se o casamento for o que se chama "regular" e o marido sair "um bom marido", é ele quem desaparece engolido pela família; ao passo que ela, até aí escondida atrás dos parentes, sem ter mesmo até então o direito de pensar, casando-se, surge desassombradamente à tona social e forma à direita do esposo um novo elo na grande cadeia.
E não há mulher que não deseje que seu marido seja um "Bom marido". No seu indefectível egoísmo, os interesses privados do lar impõem-se antes de tudo. Não admitirá ela nunca que seu marido pertença a qualquer outra coisa ou idéia que não seja o próprio casamento.
Algumas não amam o esposo, mas nem por isso deixam de pesquisar-lhe a vida inteira, até os mais pequeninos atos da existência. Esse vivo e feminil emprenho de perquisição não vem do interesse carinhoso que ele inspira à mulher, mas do gozo de desfrutar um direito, o direito de zelar e governar o que lhe pertence, o que é só dela e de mais ninguém; pois que, na maior parte dos casos, a mulher não faz questão de que o marido seja este ou aquele, desde que o sujeito preencha os já citados requisitos de bom marido.
E o que recebe o pobre do bom marido em troca de tudo o que dá à esposa? Só recebe uma recompensa - a felicidade de ser pai. Só esta resiste: tudo mais que ele, de longe, nas ilusões do desejo, supunha constituir um mundo de venturas, desfaz-se em tédio e obrigações maçantes. A mulher deixa em breve de ser a esposa para ser "A minha companheira - a minha velha - a madama". Deixam ambos de ser marido e mulher para serem "Feijão com carne-seca", como eles lá dizem, os imbecis! O lar deixa de ser o ninho da paz e do descanso para ser "a obrigação da casa". E em obrigação, e obrigação acabrunhadora, transforma-se toda a vida do homem, desde a mesa da comida até à cama, só lhe ficando intacta a consolação de ser pai.


* * *


Com a amante sucede precisamente o contrário. O homem a quem ela se entregou impôs-se ao seu coração por uma irresistível fatalidade do amor. Essa ligação não entrava no programa da sua vida, como o casamento entrava no da vida da outra; essa ligação veio como conseqüência inevitável de uma fascinação imprevista. Em vez de investigar se o homem a quem se "deu" tinha as qualidades e requisitos necessários para tomar mulher, o que ela quis saber, só, foi se ele a amava tanto quanto era amado por ela; e, justamente ao inverso do que faz a mulher na ocasião de arranjar marido, em vez de dizer:
"Aceito este ou aquele contanto que dê de si um bom marido", o que a amante pensou foi o seguinte: "só este me convém e quero, só este me pode servir para amante, ainda mesmo que ele não disponha das necessárias qualidades para ser um bom amante". E ela assim pensa e faz, porque ama, e como o seu amor visa certo e determinado indivíduo, só esse, tenha ele as qualidades ou defeitos que tiver, poderá ser o seu homem.
E, como, unindo-se a esse homem, ela em vez de subir, apeou-se da sua posição social, todo o seu empenho, depois de unidos, se transforma em desejar vê-lo crescer e elevar-se no conceito público, porque, quanto maior for ele, tanto mais desculpável será a queda da mulher que lhe pertence.
Ainda ao contrário do que sucede no casamento, aqui a tranqüilidade e a íntima bem-aventurança do lar são sacrificadas aos interesses exteriores do amante, se este tiver ambições de caráter público, quer como artista, quer como homem de ação. A paz doméstica, os gozos do amor, tudo isso é rapidamente atirado para o lado se a honra ou o interesse abstrato da glória reclamam o sacrifício do homem amado.
Quando, nos grandes momentos decisivos para a vida pública de um homem, tenha este, sem hesitação, de arriscar tudo num lance resoluto, num rasgo de coragem, e, ou galgar de assalto a vitória completa, ou cair vencido para sempre; se ele é casado, a mulher agarra-o com ambas as mãos, grita, chora, enlaça-o nas suas saias e não o deixa sair de junto dela, reclamando egoisticamente que o infeliz é seu marido e que ela não pode consntir que ele se exponha, porque seria expor também a segurança do seu lar e da sua família; e, se o homem não for casado, enquanto a esposa faz aquilo, o que faz a amante?
A amante, esquecendo a sua felicidade privada pelas conveniências públicas do seu amado, e tendo pouco de si mesma que arriscar, porque tudo por ele próprio já arriscou e não temendo cair em posição falsa, porque falsa já é a sua posição, é a primeira a empurrá-lo para o seu posto de honra e a instigar-lhe os brios, gritando-lhe que não perca um instante e cumpra resoluto o seu dever, sejam quais forem as conseqüências.
Ele pode morrer! - Embora! Mas é preciso que vá, que se não desonre, porque, se assim acontecer, ela terá perdido de um modo mais triste ainda a sua felicidade de mulher, porque terá perdido a sua ilusão de amor, porque terá perdido moralmente o seu amante.
Que vá! Que vá! Antes morto que desonrado!
E nisto consiste a grande vantagem que leva o concubinato sobre o casamento. Se eu, em vez de uma filha, tivesse um filho, não hesitaria em aconselhar-lhe que preferisse tomar uma concubina a tomar uma esposa.
Mas, na inversão do caso; quer dizer: sob o ponto de vista do interesse da mulher, o amante será preferível ao marido?
Vejamos:


CAPÍTULO VI

À primeira vista parece que não; parece que o amante, longe de levar vantagem sobre o marido, fica-lhe muito inferior, sob o ponto de vista dos interesses da mulher. A princípio parece que um amante traz todas as desvantagens de um marido vulgar e nenhuma das vantagens morais.
Já ficou estabelecido que o marido é o escravo e que o amante é o senhor.
Mas, sob o ponto de vista dos interesses domésticos e da verdadeira felicidade privada de uma mulher, não estará justamente nesse fato de ser senhor e não escravo a superioridade do amante sobre o marido? Qual será mais apto para fazer a felicidade de uma mulher - um homem que a ame como senhor, ou um homem que a ame como escravo?
Dir-me-ão talvez que, tanto um como outro, não preenchem o ideal da mulher, e que o melhor partido é o de um homem que a ame de igual para igual.
Não. Essa igualdade é bonita, mas é impossível e, se fosse possível, seria inconveniente. A mulher, já pela sua especial constituição física e intelectual, já pelo seu natural estado de passividade, não pode em caso algum ser a igual do homem com que vive.
O raro caso da absoluta superioridade da mulher é uma anomalia que traz fatalmente o desequilíbrio no casal.
É justamente dessa desigualdade perfeita, desse contraste de aptidões físicas e morais, que nasce a sublime harmonia do amor. É com a variedade de competências e de necessidades de cada um, que os dois se completam.
Pois se até na idade e na estatura física é conveniente, para o bom equilíbrio de um casal, que haja certa inferioridade da parte da mulher! No que precisa haver identidade é no ponto de educação social e no grau de colocação na escala etnológica. E, ainda neste particular, caso não seja possível obter a igualdade, dada a circunstância de que uma das partes do casal tenha de ser, na raça ou na condição, inferior à outra, é preferível, para todas as conveniências e efeitos, que a parte inferior na raça ou na condição seja a mulher e não o homem. É mais natural e aceitável ver um branco casado com uma mulata ou um mulato com uma preta, do que ver uma branca ligada a um preto ou a um mulato; pela simples razão de que, na apuração e aperfeiçoamento da casta, a mulher só entra em concorrência como passivo auxiliar.
A mulher, regularmente constituída, não quer para sócio na procriação, nem só um indivíduo que lhe seja etnogenicamente inferior, como não quer um homem organicamente tão ou mais fraco do que ela, nem quer também um que lhe seja igual na falta de energia e de ação, mas sim quer um ente superior, que lhe sirva de firme garantia à sua fraqueza e a seu pudor; quer um homem que lhe possa dar conselhos e amparo, e, se tanto for preciso, até o próprio castigo.
Sim, o castigo. - Um bom e verdadeiro amante é sempre um pouco pai da mulher amada.
O marido, esse é que nunca é mais do que o par de sua mulher, e com ela discute de igual para igual, com ela dueliza e luta, como um sócio disputando sobre os seus interesses com o outro sócio que o quer lograr. Ela não teme desgostá-lo com as suas palavras duras e injuriosas, porque não tem receio que ele lhe fuja - o cabresto do casamento é rijo e apertado.
Desde que a mulher reconheça no amante a indispensável superioridade, não pode, como aquela, ver nele o seu escravo, mas o seu dono, o dono da sua vontade e do seu corpo; e, no passivo enternecimento de julgar-se um objeto dele, reside a sua felicidade de mulher que ama e é amada.
A mulher, creiam todos, sente prazer em reconhecer-se passiva, em ver em si um ente fraco e por isso mesmo digno de respeito; goza com sentir indispensável o apoio moral e físico do homem a quem se entregou toda inteira, toda confiante, de olhos fechados. Se ama deveras o seu concubinário, pode este fazer dela o que quiser, uma heroína de abnegação e bondade, como pode fazer o mais perverso dos facínoras. Dele tudo depende, porque nela é ele quem manda, ele é o senhor e governa.
As romanas antigas, talvez se divertissem menos, porém deviam ser muito mais felizes no interior do lar do que as nossas esposas modernas; e eram mais felizes porque eram mais mulher, e os seus homens eram mais homem.
Ao inverso do que sucede no comum dos casamentos de pura conveniência burguesa, a mulher mais ama o seu amante quanto mais este avulta e cresce no conceito público, por conseguinte mais o ama quanto mais ela diminui ao lado dele, até reduzir-se às ínfimas proporções de simples fêmea amorosa. E só então é verdadeiramente feliz no amor.
Isto, já se vê, só se pode dar no caso do amante e nunca do esposo, porque é justamente da prática do oposto desse fato que nasce o invencível desconcerto entre os casados e o fatal desequilíbrio da vida conjugal. É que a mulher casada quer, geralmente, emparelhar com o marido e acompanhá-lo nas regalias da consideração pública e na glória das conquistas sociais, sem se lembrar de que, se ele cresce, é pelo talento, ou pela bravura, ou pelas virtudes enérgicas, ou simplesmente pela atividade na intriga política; cresce enfim pela ação ou pela produção intelectual; cresce porque luta e vence. Ao passo que ela ambiciona acompanhá-lo no mesmo vôo, substituindo aquelas asas fortes de que ele dispõe, por uma coisa única - o amor; quando não é pela simples circunstância ridícula de ser esposa dele. Mas, valha-me Deus! o amor físico é uma função material e privada, é um instinto, é o instinto da conservação da espécie, como a fome é o instinto da conservação pessoal - nada mais! E, se o fato de ser mulher de um homem ilustre lhe desse a ela os mesmos direitos por ele conquistados pelo talento ou pela ação, seria isso uma distinção adquirida sem esforço e por conseguinte sem mérito e até odiosa.
Estou farta de ver todos os dias na imprensa o nome de certas senhoras figurando com indecorosa insistência à frente de subscrições públicas, de programas de festas patrióticas, de manifestações de vários gêneros, e até como título de estabelecimentos de instrução ou de caridade, e tudo isso só porque são casadas com homens postos em evidência pela política do momento ou pela alta soma de seus haveres. Ora, tinha vontade de saber se essas esposas, que tão afoitamente emparelham com os maridos nos seus prósperos vôos de glória, estariam também dispostas a acompanhá-los ao patíbulo, ou a cumprir a pena de galés perpétuas, se a tais fossem eles condenados.
E nada, todavia, seria mais justo, porque - quem come a carne deve roer os ossos!
O que fatalmente acontece, no caso vulgar dessa tentativa de emparelhamento no vôo da ambição do homem público, é que a mulher não consegue subir com o esposo, nem fica também no ponto onde nunca devia ter saído - o lar, que é o seu posto de honra, e onde, tanto mais ela cresce quanto mais se afunda.
Daí o desequilíbrio doméstico e a infelicidade de parte a parte, quando no casamento o marido é um homem notável ou ambicioso.
E se a mulher tem elementos individuais para subir também, tanto pior para os dois, porque nesse caso marido e mulher já não representam um casal, que se ama e se constituiu para procriar, mas tão-somente dois êmulos, ávidos de glória, disparados em carreira, a disputarem o passo um ao outro.
Nessa hipótese, o convênio conjugal desaparece totalmente, sem deixar vestígios. Observe-se para exemplo a vida dos artistas, principalmente cantores e atores, que se casam entre si.
Se a felicidade conjugal fosse coisa possível no casamento como ele é entre nós, o único tipo de esposo, ainda assim capaz de proporcioná-la à mulher, seria o pacóvio que lá para trás ficou etiquetado com o rótulo de "Bom marido", ou então, o que infelizmente deve ser muito difícil de acontecer, quando a mulher, por uma feliz intuição do seu destino, fizesse do próprio esposo o seu amante e tomasse corajosamente, não à sua direita, mas à sua esquerda, a posição subalterna de uma amiga apaixonada.
A estatura moral da mulher em relação ao seu homem dever ser como a sua estatura física - ela não deve ficar-lhe nunca abaixo do coração, nem tão alto que chegue a nivelar a sua cabeça com a dele. O casamento seria talvez suportável, se a esposa compreendesse esta verdade, mas em geral a mulher casada, nem só pretende alcançar a estatura oficial do marido, como ainda quer excedê-la na consideração pública. Nada há mais intoleravelmente ridículo do que a mulher de um homem ilustre possuída da sua alta posição, quer dizer, da posição que lhe reflete o marido, porque ela só por si nada representa. E, ah! quanto isto é freqüente nesta nossa sociedade! quanto é freqüente o orgulho em pobres criaturas casadas com altos indivíduos, que todavia são, pelo sue lado, o mais singelo exemplo da modéstia!
Com a amante não há receio que aconteça o mesmo. Esta, não podendo acompanhar o amigo nos vôos empreendidos pela conquista da glória, porque a sociedade não lho permite, deixa-se ficar cá embaixo, no lar, reduzida ao papel de caseira, e com isso tem garantido a sua felicidade e a dele.
Conclui-se pois que um amante é mais apto que um marido para fazer a felicidade da mulher; e então, uma vez que minha filha não tivesse de viver eternamente só, seria preferível dar-lhe um amante.
Mas, e a sociedade?...

* * *

Sim, teria eu a coragem de afrontar com inabaláveis e velhos preconceitos estabelecidos até hoje?... Só o casamento, segundo os nossos ilógicos costumes, tão injustos para o meu sexo, dá à mulher o livre exercício de seus direitos naturais e só dele podemos receber a consagração da maternidade, que é o ato capital e mais transcendente no destino genérico de nós todas.
Substituir o marido por um amante é fácil de dizer aqui nestas páginas, mas, na vida real, é coisa delicadamente difícil de pôr em obra.
E minha filha, que não foi criada fora da sociedade, estaria disposta a consentir nisso? Não se julgaria lesada na substituição e eternamente ferida no seu decoro? E afinal, no fundo, qual de nós duas teria razão e bom senso: eu em dar-lhe um amante; ou ela em rejeitá-lo? E quem me diz que, assegurando-lhe a felicidade doméstica, não iria por outro lado fazê-la muito mais desgraçada, privando-a dos gozos e das regalias, que o casamento proporciona à mulher, fora dos limites do leito, e do quarto, e que a sociedade nega formalmente a toda e infeliz que lhe não é endossada por um representante legítimo?... As quatro paredes de uma alcova de amor podem conter um vasto paraíso de intérminas esperanças e um mundo de venturas; o pequeno espaço de uma cama é, entre todas as vastidões da terra, o campo mais largo e mais importante no destino do homem - é aí que ele morre. Sim senhor! tudo isso é verdade e em tudo isso eu creio; mas não entrarão também, como requisitos de felicidade na vida de uma mulher de hoje - os bailes, o lírico, a estação em Petrópolis, as águas de Caxambu, os domingos de corrida, o jogo, os jantares diplomáticos, a palestra e a convivência enfim com o escol da sociedade?...
E, o que é mais sério, um amante, por melhor escolhido por mim, faria com efeito a felicidade de Palmira? ou, quem sabe, se a razão do tédio e das dolorosas falhas da vida conjugal não residiriam particularmente na forma da ligação, mas em qualquer outro fato que tanto entrasse na esfera da ligação legítima como na da ilegítima!...
Sim, porque meu marido foi em algum tempo também meu amante; uniu-se comigo porque me amava e era fervorosamente correspondido; eu reconhecia nele um ente superior e sentia-me feliz em precisar da sua proteção. E tudo isso não impediu, apesar de nossa lealdade de conduta, que Virgílio se sentisse farto de mim e eu dele igualmente; o que fez de nós, até nos separarmos para sempre, dois desgraçados que amaldiçoavam, cada um no segredo da sua íntima miséria, a existência de galés que arrastávamos ao lado um do outro.
Ah! minha filha, minha filha! inda uma vez te digo que em verdade só tu foste a minha consolação e a minha ventura; n]ao quero que mais tarde possas, por tua vez, dizer o mesmo, porque a maternidade, só por si, não constitui, ou não deve constituir, a felicidade completa de uma mulher.
Não! Hás de desfrutar todo inteiro o quinhão que te toca no banquete da vida! hás de gozar o que a natureza generosamente criou para o conforto da tua alma e do teu corpo! Fruirás todas as delícias de que for capaz a poesia do teu amor; terá todos os beijos que te pertencem; terás a realização de todos os teus castos e voluptuosos sonhos de moça! E terás também, ao lado disso, todos, todos os prazeres, que a sociedade em que nasceste proporciona dentro do seu orgulho e dentro da sua vaidade!


CAPÍTULO VII

A promessa estava sinceramente feita, mas qual seria o meio de a cumprir? Onde estaria afinal a misteriosa causa de se não poder obter essa felicidade que parece à primeira vista tão simples, tão natural e tão justa? Qual seria o meio de tornar, não só possível, mas deliciosa, a vida em comum de dois entes, que se amem e queiram viver eternamente um para o outro?
Como conseguir a vida reta de um casal, sem a privação do amor, que é a base de todas as felicidades da mulher perfeita, mas também sem essas intermitências do tédio, sem os tristes desfalecimentos do entusiasmo de parte a parte? Como descobrir para a minha Palmira uma existência larga, completa, boa e fecunda, sem as misérias do casamento e sem as misérias da mancebia; sem os beijos hipócritas, sem os vergonhosos recursos do fingimento conjugal, que fazem dos casados verdadeiros cabotinos do amor; mas igualmente sem as decepções amargas, e as dores escondidas, e as melancolias da exclusão social e o estéril arrependimento dos casais ilegalmente constituídos?
Oh! Era impossível que não houvesse recurso para obter um ideal lógico e tão humano! Era impossível que não pudesse eu evitar para minha filha o grande mal que me estragou toda a vida! Era impossível que não houvesse um meio de salvar a pobre criança da desgraça que a esperava; um meio de evitar que ela naufragasse como eu naufraguei, apesar da minha virtude e apesar do amor e das boas intenções de meu marido!
Sim, sim! o meio havia de existir, e eu havia de descobri-lo!


* * *

E desde esse momento, não descansei mais um instante. Dediquei todo o meu pensamento, todo o meu coração de mãe, todo o meu esforço, em descobrir o meio salvador.
Principiei por estudar-me a mim mesma; estudei-me longa e pacientemente, dissecando, um a um, todos os grandes e pequenos fatos que encheram a minha vida conjugal, e procurei descobrir quais deles marcavam as épocas divisórias dos três estados que conheci ao lado de meu marido; a saber: 1º) o estado de completa e franca felicidade moral e fisiológica; 2º) o estado de transição, estado de dúvida, de tristeza sobressaltada e vago ansiar por uma felicidade, que eu não podia determinar qual fosse, mas que me fazia muita falta à vida e me tornava inconsolável como mulher. Foi durante esse segundo período que nasceu, e começou logo a acentuar-se, a minha indiferença genésica por meu marido. Foi também nesse período que acabei de amamentar Palmira; 3º) o estado de crescente hipocondria, depois tédio e cansaço, e afinal repugnância absoluta pela vida matrimonial, o que transformava em verdadeiro sacrifício, sacrifício insuportável, a existência em contacto com meu esposo, a quem todavia continuava a estimar muito, não tanto quanto a minha filha, nem também em segundo lugar, mas logo em terceiro. O segundo lugar na minha afeição cabia já ao homem, que até hoje ficou sendo o meu amigo e o meu verdadeiro amado, o Dr. César Veloso, de quem lá para adiante terei muito que dizer. Só o conheci já em meio deste terceiro período, e desde então minha alma foi, a pouco e pouco, se chegando para ele... mas não é disso que se trata por enquanto. Vamos ao que importa:
O primeiro estado começou na minha época de noiva, e sustentou-se até quase ao termo da aleitação de Palmira. Esse período feliz foi apenas falhado por alguns senões da lua-de-mel, como explicarei depois; coisas de grande alcance, mas de possível correção, quando se tratasse do casamento de minha filha. O segundo estado durou quatro anos, e o terceiro três, até à minha definitiva separação de Virgílio.
Voltemos ao primeiro: Com a puberdade, como que se abriu defronte de meus nascentes desejos um mundo de misteriosas delícias, um vasto caminho de ternura e de esperanças, verde, alegre, risonho, todo iluminado de um sol novo e desconhecido para mim, que me embriagava a alma. E esse desejado caminho perdia-se infinitamente pelos meus sonhos de donzela, por entre uma cheirosa alameda de laranjeiras em flor.
Como suspirei estendendo o meu casto desejo por esse longo e misteriosos caminho desejado! Como eu então, pobre de mim! supunha que o meu destino fosse uma indefinida cadeia de satisfações de todo o meu ser; e que este, sob o fecundo eflúvio do amor de meu noivo, iria desabotoar amplamente, como uma rosa ao sol, transbordante de seiva e de aroma! A idéia de um filho me vinha já ao espírito, mas na poética imagem de um pequenino botão de flor ao lado de outra flor maior, plenamente desabrochada, que era eu.
Dores, decepções, fastios e tédios, não entravam jamais no cantante programa da minha felicidade. E note-se que eu não era, à semelhança de muitas das minhas amigas, o que se pode chamar uma moça romântica. Não sonhei nunca para meu noivo algum príncipe encantado, nem algum singular e formoso aventureiro, que viesse de longínquas paragens, galgando precipícios e vendendo insuperáveis escolhos, para chegar até a mim e depor a meus pés o seu coração de poeta enamorado e a sua gloriosa espada de cavalheiro.
Não, e acho que essas donzelas, que sonham assim torto, são verdadeiras aleijadas do coração, deformidade conseqüente de uma moléstia que grassava muito quando eu tinha dezoito anos - a infecção romântica, com caráter pernicioso e acompanhada de crises agudas de delírio e perturbações cerebrais. O que eu via no casamento, graças a Deus o digo, em boa consciência e com orgulho do meu bom senso, era o legítimo direito de uma felicidade natural e honesta. Sonhava um noivo razoável e verosímil; sonhava um rapaz de gravata e fraque, sadio, inteligente, ativo, honrado e bem-parecido.
Era ainda sonhar muito, mas, apesar disso, encontrei o ideal dos meus sonhos.
Quando encarei com Virgílio pela primeira vez, meu coração disse-me baixinho: "Ei-lo aí está, o invasor! Prepara-te, pobre fortaleza, que vais ser tomada de assalto e conquistada!" Rendi-me logo ao primeiro ataque - o seu primeiro olhar venceu-me. Não sei o que me segredou estar ali naquele moço, tão sério e tão amável, quem devia ser o meu companheiro no risonho mundo, que os olhos da minha alma, e os meus sentidos ainda mal acordados, pressentiam com frêmitos de felicidade.
Eu era um bom partido: além do dote, havia de herdar muito de minha avó; já não tinha pai nem mãe. Esta última desgraçada circunstância era ainda considerada uma vantagem pelos burgueses mal-educados, que vêem na sogra e no sogro os principais inimigos da sua tranqüilidade; como se a tranqüilidade absoluta fosse coisa possível no casamento comum.
O casamento é quase sempre um duelo, em que um dos dois adversários tem de ser vencido; os sogros nada mais são que as testemunhas oficiais, imediatamente interessadas na luta.
O meu dote tirava-me pois da ridícula situação em que se acham muitas moças, coitadas! que não podem, como eu podia, escolher noivo. Virgílio, pelo seu lado, era também um excelente partido; de sorte que nenhum de nós dois teve de representar, nas salas em que nos encontramos e namoramos, o triste e odioso papel de caçador ou de caça.
Meu coração não me enganara quando mo apontou como o ente destinado a iniciar-me na vida sexual. Desde o nosso primeiro encontro, senti logo que ele pensaria em mim com insistência, e comecei a associá-lo a todos os meus devaneios de donzela; comecei a amá-lo.
A flor da minha cândida feminilidade expandia-se enamorada, ao idílico frêmito das asas de outro, que lhe esvoaçavam em torno.
Caía então em longas cismas deliciosas, suspirava sem saber por quê, dormindo, abraçava-me aos travesseiros, estendendo os lábios à procura dos beijos de alguém, que meus braços e meu colo reclamavam com impaciência.
E era sempre e só com Virgílio que eu tinha desses sonhos. Quando ele me pediu em casamento, passei a noite inteira a chorar de alegria. Toda eu palpitava ao anelo daquelas núpcias. Os seus meses de nosso namoro pareceram-me séculos de invariáveis mágoas, tanto eu morria por poder confiar-lhe toda a minha ternura e dar-lhe toda a minha dedicação. Sentia-me ansiosa para lhe mostrar, para lhe provar, quanto eu era meiga, pura, casta; para lhe provar quanto e quanto o amava; para lhe mostrar por palavras, e por atos, e por ações de todo o instante, e por toda, toda a vida, tudo aquilo que eu sentia e que até aí não me permitira o pudor que lhe dissesse ou demonstrasse.
Oh! Que loucura apressar essa época feliz!
E amei-o, amei-o com todo o entusiasmo de minha alma desejando-o mais e mais de dia para dia, vendo nele o melhor, o mais perfeito dos homens, o único digno de ser amado, o único que eu amaria sempre.


* * *

E quanto é belo o amor de uma virgem! Quanto ele é mais forte, mais sincero e mais corajoso que o primeiro amor do homem! O adolescente só vê o seu primeiro sonho de amor através do prisma da poesia; todo o homem é poeta nos arroubos da puberdade; não deseja possuir a mulher que ama, quer ao contrário divinizá-la, fazer dela um ídolo sagrado, diante do qual se ajoelhe compungido e contrito, sem lábios, e sem voz, e sem mãos, senão ára a divina prece; sem olhos senão para as estrelas confidentes do seu enlevo. E ela - não! a mulher desde o seu primeiro amor de donzela, já é a mulher, já é a carne, já é o pecado. Menos dominada pela poesia ideal, volta-se mais para o paraíso dos céus. Não vê no homem desejado e amado um ídolo venerando, mas nele vê o senhor e dono do todo o seu ser.
O ideal existe sempre, apenas o dela é mais natural e humano.
O homem na puberdade, ama só com o espírito; a manifestação do seu amor é um transbordamento de resíduos de leituras romanescas e reminiscências poéticas. O seu primeiro amor nunca aproveita para a geração. É muito raro, é raríssimo, encontrar um homem que constituísse casal com o seu primeiro amor; em geral todo o pai, todo o chefe de família, tem, guarda, e conserva, depois do casamento, escondido aos olhos da mãe de seus filhos, a saudade e o culto daquela a quem ele consagrou, na puberdade, as poéticas e suspirosas primícias do seu coração. E a virgem, essa ama logo com todo o seu ser, com todo o seu corpo imaculado. E goza em sentir-se pronta a dar esse mimoso corpo, todo inteiro, ao carnal despotismo do seu amante; goza em senti-lo ameaçado pelas mãos sensuais que se estendem avidamente para ele; goza em abandoná-lo, vencida, e deixá-lo invadir, rasgar, e deixá-lo alterar todo transformando-o de um corpo de virgem em um corpo de mulher.
Ela prevê que o homem não se modificará fisicamente com o novo estado que começa no leito nupcial; ele era já um homem e continua a ser um homem como dantes. E ela? ela vai transformar-se toda, invadida pelo amor até às entranhas; ela sabe já que os seus delicados pomos virginais avultarão, adquirindo novas curvas; que os seus estreitos quadris de donzela ganharão voluptuosas protuberâncias; que o seu fino pescoço de criança vai carnear-se, formando uma garganta cheia de ondulações misteriosas e sedutoras, um branco e tépido ninho para os beijos dele; e que seus olhos se rasgarão, banhados de novos fluidos de volúpias, e que seus olhares serão outros e outros os seus sorrisos, depois do amor consumado; e que seu ventre enfim vai ser consagrado pela maternidade, e seu sangue transformar-se em leite e seu amor transformar-se em vida.
Oh! Pertence-lhe o amor muito mais do que ao homem! O amor no homem é um incidente e nela é um destino, é a missão principal de sua vida. O amor pode nascer ou não no homem e pode abandoná-lo sem deixar sinal de raízes; na mulher apodera-se de todo o seu ser, invade-lhe as entranhas, e nelas cresce, enfolha, floreja e frutifica. E por isso, porque nesse amor de uma donzela entra já a idéia do sacrifício de todo o seu corpo; por isso que ele é mais da terra, mais natural e mais humano; por isso esse amor é sem dúvida melhor que o amor do homem, pois que este precisa para manter-se dos socorros da ilusão e do ideal.
E é por isso ainda que nós mulheres amamos, relativamente, com mais igualdade e mais firmeza que o homem. Em qualquer casal é sempre ele o que primeiro afrouxa de entusiasmo no amor, sendo aliás quem principia com mais intensidade e com mais ímpeto; ao passo que a mulher, passiva desde o berço, escrava por natureza, só chega, em geral, a enfastiar-se do seu companheiro, quando este já não preenche, como homem, os requisitos de sedução, que no mister procriador a natureza exige em benefício do filho.
Esta última razão é um dos pontos capitais da insignificância do casamento como ele está instituído. O encanto, que namora, que aproxima dois indivíduos de sexo oposto, empenhados inconscientemente na formação de um novo ser, é coisa muito mais importante do que parece à primeira vista.
Para que o filho saia um ente perfeito - forte, inteligente e belo - é indispensável que venha em conseqüência de um perfeito amor. A natureza, sempre amiga e previdente, prepara o terreno para os amantes que têm de pagar o delicioso tributo da reprodução - dá à juventude os atrativos da beleza e a sedução da força e da inocência, como dá à flor o brilhante matiz, a frescura e o perfume, com que ela chama o trêfego inseto condutor do pólen. Mas, quando assim não seja, quando mulher ou homem não tenha algum deles verdadeiros atrativos e reais encantos, o amor, isto é, o instinto da conservação da espécie, substitui no espírito do outro, com a imaginação, os sedutores atributos que faltam na pessoa amada.
"Quem o feio ama, bonito lhe parece", diz o provérbio, e diz a verdade.
Não é, pois, indispensável, para a perfeição do filho, que a mulher seja deveras formosa e o homem um perfeito ideal do amor; indispensável é que eles se amem de fato, porque, se assim acontecer, no momento capital da irresistível atração de um para o outro, ela representa para ele a primeira mulher do mundo, a mais sedutora, a mais terna, a mais amável, e ele representa para ela o melhor dos homens, o mais nobre, o mais apaixonado e o mais digno do seu amor.
Nestas condições, o filho será por força de regra, não como são os pais, mas um ente tão perfeito como eles mutuamente se julgavam, convictos, na providencial ilusão do seu desejo. Donde se conclui que a formação de um filho, rigorosamente perfeito, isto é, que a garantia da seleção humana e o aperfeiçoamento da espécie, dependem mais da imaginação dos pais do que das suas verdadeiras virtudes e das suas qualidades físicas.
Mas, pergunto eu agora, essa ilusão pode existir sempre, entre os dois mesmos indivíduos, durante toda a sua existência íntima de casados? Depois do nascimento e da amamentação do primeiro filho, o homem continuará a ver na esposa a mais desejável de todas as mulheres, e ela continuará a ver no marido o melhor e superior de todos os varões?
Não! Para isso seria preciso a possibilidade de um novo período de fascinação amorosa, de namoro, e uma nova expectativa de lua-de-mel. Para isso seria preciso que os dois se desejassem de novo como se desejaram da primeira vez, e que se atirassem de novo nos braços um do outro, com o mesmo primitivo entusiasmo, com o mesmo ardor, com a mesma ilusão.
Ora, como não é possível obter de novo essa ilusão, todo o casal, depois de criado o primeiro filho, compõe-se de dois desiludidos.
Mas, se, para que o filho seja perfeito, é indispensável aquele conjunto de circunstâncias auxiliares, e, se o destino fisiológico do homem é procriar, aperfeiçoando a sua espécie, segue-se que - ter um segundo filho, com a mulher inutilizada pelo primeiro - é um crime perante as conveniências gerais da espécie, e é um crime perante os interesses particulares do segundo filho, que será injustamente lesado, que será privado das regalias e das vantagens naturais de seu irmão mais velho. Mas isto é a execrável lei dos vínculos e morgadios prevalecendo ainda fisiologicamente na família! O segundo filho, concebido já dentro do período da desilusão dos cônjuges, é um brutal atentado contra a natureza!
Entretanto, essa mesma mulher, agora inapta para despertar no pai de seu filho aquelas favoráveis ilusões que, aos olhos dele, faziam dela a mais desejável das mulheres, pode ainda acordar noutro homem, com quem nunca viveu na intimidade procriadora, os mesmos fortes desejos, o mesmo ardor, a mesma febre de posse carnal, que dantes levantara no primeiro. E este, que já não serve para encher de sonhos de amor a fantasia da mãe de seus filhos, e talvez nesse momento o objeto dos anelos de outra mulher, que o ronda enamorada, e nele vê o ente escolhido pelo seu desejo, o eleito da sua carne, o único colaborador que lhe convém para a sua missão reprodutora.
A sociedade, porém, não quer que se aproveitem esses dois indivíduos, ainda tão úteis à geração, e obriga-os a ficarem perniciosamente ao lado um do outro, contra todas as leis da natureza.
Ora se tudo aquilo que for contra a natureza é imoral e vicioso, o nosso casamento e, passada a crise do primeiro filho, nada menos do que uma condenável imoralidade.

Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo VII
Capítulo VIII à Capítulo X
Capítulo XI à Capítulo XIII
Capítulo XIV à Capítulo XVII
Capítulo XVIII e Capítulo XIX
Capítulo XX à Capítulo XXII
Capítulo XXIII à Capítulo XXV