LIVRO DE UMA
SOGRA
Aluísio de Azevedo
CAPÍTULO XX
E assim foi.
Durante os poucos dias que precederam a viagem de meu genro, minha
filha dormiu todas as noites comigo.
Imagine-se o que dele não tive de sofrer por semelhante fato.
Quando soube da minha resolução, desesperou-se; dessa
vez chegou a chamar-me "jararaca!" Mas Palmira estava
bem convencida das minhas razões e tanto me bastava, porque
era todo o meu empenho não lhe irritar os nervos, contrariando-a.
Quanto ao marido - que esbravejasse à vontade, contanto que
se pusesse ao largo.
Também era só o que faltava - que fosse eu agora impressionar-me
com o infantil egoísmo de meu genro! Procurava, é
exato, esconder aos olhos de Palmira a minha superioridade sobre
ele, fingindo até respeitá-lo e temê-lo, mas
só pelo receio de que a compreensão justa da verdade
viesse a prejudicar o juízo que minha filha mantinha com
respeito ao valor moral de seu marido. Em uma palavra - receava
que ele se amesquinhasse aos olhos dela.
Convém notar que Leandro, depois que aceitara, resmungando,
a minha ditadura de sogra intransigente, começou a ter impertinências
e rebugices de uma verdadeira criança. Ia ao ponto de fazer
manha, para que a mulher o consolasse com carinhos e se fizesse
zangada, de mentira, contra mim, fingindo-se revoltada e afetando
indignação nas suas palavras, como a ama que, para
engodar o bebê, diz injúrias à cadeira em que
ele por acaso deu uma pancada com o corpo.
Nestas coisas de dentro de casa, no segredo do cofre doméstico,
o marido quase sempre é muito mais pueril e piegas que a
mulher. Esta só aparenta infantilidade na rua ou na exibição
social, para se fazer inocente e cândida, porque assim dela
exige o público; e aquele, para o efeito contrário,
é aí que sustenta, ou simplesmente afeta, a rija linha
do seu sexo forte. Da porta da rua para fora, ela é criança
e ele é gente grande; mas, da porta da rua para dentro, é
o homem quem dá a nota infantil, ao passo que a mulher em
geral é quem garante a tranqüila seriedade do lar, com
a sua moral e o seu bom senso prático, com a sua perspicácia
e com a sua constância, resignação e força
de paciência.
Receosa de que semelhantes pieguices em meu genro viessem a deprimir
sobremaneira a ilusão do amor que minha filha consagrava,
tratei em tempo de providenciar neste sentido, mas dei logo pouco
depois pelo meu erro, percebendo que as mesmas pequenas separações
por mim impostas aos dois, como preservativo contra o tédio,
longe de extinguirem as infantilidades de Leandro, ainda mais lhes
davam vida. E acabei por convencer-me de que o fato era natural
e próprio do caráter mesmo do amor, e que por conseguinte
nunca poderia ser ele desagradável à mulher amada.
Parece, à primeira vista, que o homem, quando se faz piegas
e submisso ao lado de uma mulher, deve tornar-se ridículo
aos olhos dela e pois incompatível com o seu amor; assim
não acontece, porém, desde que tal pieguice e tal
humilhação sejam praticadas só e exclusivamente
com essa mulher e rigorosamente escondidas a todos os mais. E se
esse homem, assim pueril e mimalho para com essa mulher amada, for
opostamente para os outros, como muita vez sucede, um caráter
enérgico e um espírito respeitável, então
a coisa é completa no interesse do amor de ambos.
Está bem claro que tudo isso só se pode bem verificar
quando o casal goza a felicidade de ter parentes mais velhos que
o dominem, e contra os quais possa o esposo e a esposa queixarem-se
entre si. Esta é uma das vantagens de ter sogra; enquanto
o genro briga com a sobra não briga com a mulher; antes pelo
contrário mais se chega para esta; e os frescos e surdos
laços da conspiração que os reúne e
religa, conseguem em muitos e muitos casos o que os afrouxados laços
do instinto sexual já não podiam obter entre eles.
* * *
Bem diferente,
pois, é no homem o seu modo de amar comparado com o modo
de amar da mulher, como bem diferente são as manifestações
do amor de cada um.
O homem tem o jogo franco no amor; a mulher tem o jogo encoberto.
O homem, desde que ame deveras, não pode guardar segredos
para a mulher amada; tem, por uma lei congênita à sua
própria ternura, de abrir defronte dela o seu coração,
de par em par, como uma carteira, que ele todavia para outros trouxesse
avaramente oculta e bem fechada; tem de expor-lhe a alma toda nua,
e nu todo o seu mais recôndito pensamento. Não lhe
esconderá nada do que se passa dentro dele, cavando e desencerrando
até às mais íntimas e fundas circunstâncias,
ainda mesmo aquelas que possam ser deprimentes do seu caráter,
nocivas ao seu amor, e até mesmo desagradáveis e humilhantes
para a mulher que as ouve.
O homem, que ama sinceramente, começa logo por contar à
sua amada todas as particularidades de sua vida, chegando sempre
a ser ridículo pela insistência em despejar aos pés
dela todo o seco e frio bagaço do seu passado. Não
se esquece do menor episódio; diz-lhe tudo, tudo, tudo! E
a mulher suporta isto a sorrir, e recolhe o inútil despejo
com sua condescendência de que o homem não seria capaz
para com ela.
Ao passo que a mulher, por maior amor que consagre a um homem, nunca
lhe mostra a alma por inteiro, nunca lhe franqueia totalmente o
coração e nunca lhe confia de todo, nas suas confidências
mais íntimas, o resíduo do seu passado. A mulher é
amiga apaixonada do mistério, apesar de ser a eterna inimiga
do segredo.
A mulher ama sempre de emboscada, armando laços e esparrelas;
quer apanhar de surpresa o homem amado, sem que ele dê pela
armadilha e possa a tempo defender-se. E daí o ela conhecer
sempre tão profundamente o homem que ama e com quem vive;
fato de grande desvantagem para ele, porque não há
homem, por superior, capaz de resistir sem ridículo a semelhante
análise; o que ainda constituí, a meu ver, mais um
escolho para a convivência matrimonial.
Entretanto, o homem nunca chega a conhecer de todo a mulher que
lhe pertence, por mais que ela o ame. Assim sucede que muita vez,
na intimidade de um casal já de muitos anos constituído,
lá uma bela ocasião o esposo fica admirado de ouvir
falar à mulher de um fato, já velho na vida dela,
e no entanto perfeitamente desconhecido para ele.
- Como, diz o homem, pois isso aconteceu?... Não sabia! ignorava-o
até agora! Tu nunca mo disseste!...
- E por que havia de ter dito?... argumenta a mulher. Nunca tive
ocasião de falar-te em semelhante coisa... Nunca me perguntaste
nada a esse respeito...
E aqui está justamente a grande diferença no modo
de amar dos dois sexos. O homem diz - espontaneamente, e a mulher
confessa - interrogada.
Algumas há, casadas, que põem melindroso empenho em
nunca mentir ao marido, e, sem jamais mentir com efeito, escondem-lhe
tudo o que lhes convém ocultar, e às vezes coisas
que são a desonra dele. Mas não mentiram.
O homem em conclusão, dada mesmo a melhor hipótese
da sua altivez e energia de caráter, pode ser banal e piegas
no seu amor. E meu genro era assim, com a circunstância, porém,
de que a sua puerilidade era toda cariciadora e amorosa para minha
filha e era para mim só feita de impertinências e rabugens
de criança malcriada. Como, não obstante, eu sabia
pesar e dar o verdadeiro valor a tudo isso, não o responsabilizava
por tais misérias, e íamos vivendo. De resto, como
eu só o amava pelo efeito reflexivo do muito que eu queria
a Palmira, achava-o ridículo, sem contudo sentir por ele
ódio, nem desprezo, como nos sucede comumente acharmos ridículas,
nos outros, muitas coisas que são naturais e que observamos
em nós mesmos e em nós mesmos lhes reconhecemos a
utilidade.
Todavia, a sua partida comoveu-me bastante. Fomos levá-lo
a bordo. O Dr. César não pôde ir conosco, porque
tinha em casa a irmã muito mal com uma pneumonia aguda.
Era em abril, num belo dia de sol. Palmira estava encantadora; fiz-lhe
pôr, intencionalmente, um vestido preto enfeitado de rendas
valencianas, porque assim convinha à sua palidez, que se
agravara naquela última quinzena; o chapéu, muito
simples e também preto, guardava-lhe apenas uma parte da
cabeça, envolvido, com o rosto, num vaporoso véu cor-de-rosa,
que à luz da manhã fazia realçar o tom magoado
da sua formosura.
Na lancha, assentada ao lado do marido, com o busto destacando nitidamente
do fundo brilhante e verde do mar, parecia-me mais bonita do que
nunca. Durante a ida, Leandro conservou por toda a viagem uma das
mãos dela entre as suas, lançando sobre mim, de vez
em quando, olhares de feroz ressentimento. Eu fingia não
perceber o seu ódio, e era toda ouvidos para o que os dois
conversavam em voz baixa, esquecidos um no outro, num alheio egoísmo
de amantes sobressaltados.
Percebi que minha filha lhe murmurava dos ciúmes que ia sentir
por ele durante a ausência e ouvi distintamente a resposta
de meu genro:
- Se tu soubesse como levo este coração despedaçado,
não me falarias nisso... Maldita a hora em que empenhei minha
palavra!...
E, depois de desferir contra mim mais um olhar colérico,
tirou o lenço da algibeira, para esconder o rosto, resmungando
com azedume alguma coisa, no que senti ferir-me ainda a ponta de
uma desconhecida injúria.
Ora, coitado! pensei, julga-me mal e me não perdoa
o mal que me julga... Mais tarde me fará justiça!...
E larguei tudo isso de mão, para só pensar no valor
daquele vivo e palpitante ciúme de minha Palmira, tão
amada e tão desejada pelo esposo...
Ah! esse espetáculo fazia lembrar-me de que eu, infeliz que
fui! nunca tivera tido ciúmes de meu marido!
* * *
Há muita
gente que diz do ciúme o que os franceses ainda não
se lembraram de dizer contra os alemães, e eu mesma estou
de acordo em que, na maior parte dos casos, ele nada mais seja do
que uma grosseira manifestação do despeito e da vaidade.
Mas, quando em vez de vir do orgulho ou do amor-próprio,
ele vem objetivamente do nosso terno e vivedouro entusiasmo por
certo e determinado ente querido, é uma das mais legítimas
expansões do amor. Todo o indivíduo que ama de qualquer
modo, cerca de zelos vivos a pessoa amada.
Entre marido e mulher, como o casamento não é natural
nem lógico, o ciúme complica-se e torna-se ridículo.
Ao marido não assiste sequer o direito de mostrar ciúmes
pela esposa, porque, das duas uma: - ou ele tem razão para
revelá-los, ou não tem. Se tem razão não
deve contentar-se com expô-los, deve por dignidade romper
imediatamente os laços que a ela o prendem; e, se não
tem razão, para que pois ofender e ferir em cheio na honra
uma mulher inocente?
Sei, e posso afiançar, é que minha filha me fez inveja
inda uma vez. Eu nunca senti, nem causei ciúmes em toda a
minha existência; e isso faz muita falta na vida de uma mulher!
A nossa felicidade não é como a do homem, compõe-se
de um conjunto infinito de pequeninas alegrias e pequeninas mágoas.
A vida de uma mulher feliz é complicadíssimo mosaico
de lágrimas, beijos, suspiros e sorrisos; mas tudo isso ligeiro
e passageiro, que não chegue nunca a prostrar pelo sofrimento,
nem pelo gozo.
Eis o que me veio ao espírito, quando, já a bordo
do paquete inglês que tinha de levar Leandro, vi saltarem
dos olhos de Palmira as lágrimas que ela dava em sacrifício
da conservação do seu amor conjugal.
Ah! tomara eu aquelas lágrimas, na minha mocidade! Quem me
dera tê-las um dia chorado?...
Meu genro chorou também, e isso me comoveu, a despeito do
modo frouxo por que ele, por mera formalidade, me abraçou
em despedida. Antes assim, porém, do que ter abraços
seus bem apertados e sinceros sabendo que os outros, dados à
esposa, haviam de afrouxar em breve. Deplorável que és
tu, meu pobre coração de mulher! nesse momento, em
que meus olhos choravam tanto como os de Palmira, tive vontade de
chamar para meu peito de mãe aquele criançola resmungão
e aquietá-lo com carícias: No fim de contas, apesar
de tudo, era ele, sem consciência disso, o meu associado na
obra da felicidade de minha filha. E esta o amava tanto, que seria
impossível deixar de amá-lo eu também. Contudo,
Leandro me detestava, o ingrato!
E a dor forte daquela separação de minha filha e meu
genro, lembrou-me outra separação também entre
dois casados, quando meu marido se ausentou de mim por oito meses.
Éramos ainda bem moços e também choramos no
abraço da despedida, mas ai! as nossas lágrimas foram
bem diferentes daquelas, e não rescendiam àquele triste
e poético aroma de amor ainda cego!... foram lágrimas
de dois bons amigos incompatibilizados pelo casamento! Meu marido
antevia que a viagem, e depois o estádio num país
estranho, seriam alegre e salutar variante na sua existência
trabalhosa e monótona do Brasil; e eu por mim, confesso,
não fazia o menor sacrifício com aquele apartamento
de Virgílio. Já não nos amávamos sexualmente
- eis a verdade!
Palmira, ah! essa ficou inconsolável... Voltamos tristes
de bordo. Por longo tempo, da nossa lancha, agitamos os lenços
no ar, em resposta a uma pequenina asa branca que palpitava, lá
ao longe, no tombadilho do vapor.
Uma vez em terra, dentro do carro, mandei tocar com força
para Laranjeiras, compreendendo que Palmira, no seu silêncio
ameaçador, reprimia a explosão de soluços que
ameaçavam sufocá-la.
E a tempestade desencadeou-se com efeito, mal me recolhi à
casa com minha filha. Foi um longo transbordar de soluços,
que lhe sacudiam nervosamente o corpo inteiro. Ela não quis
almoçar, enfiou pelo quarto, arrojando o chapéu, as
luvas, a sombrinha, e atirou-se em seguida à cama, com o
rosto escondido nos braços e nos travesseiros, a chorar,
a chorar, a chorar!
E eu vi tudo, sorrindo no íntimo ao contemplar satisfeita
aquela cena transcendente. Deixei-a soluçar por longo tempo,
assim estendida sobre a cama, bela naquele desespero de saudade
Ah! - não se sustenta o amor sem o elemento dramático,
e não há drama sem lágrimas!
Mas, pouco a pouco, o temporal foi serenando, descaindo em longos
e espaçados suspiros de desabafo, e, quando à noite
nos recolhemos ao mesmo aposento, Palmira tomou-se o rosto entre
as mãos e, sem uma palavra, beijou-me as faces repetidas
vezes, e pousou depois a sua cabeça no meu ombro, abraçando-me
em silêncio.
Na oração que fizemos juntas antes de tomar o leito
agradeci a Deus ter-me concedido a realização daquele
milagre de amor conjugal, e pedi-lhe, do fundo da alma, que continuasse
a proteger a poética felicidade daquelas duas pobres criaturas,
que eu aninhava sob as asas da minha experiência de mulher
e do meu amor de mãe.
CAPÍTULO XXI
No dia seguinte
o assunto exclusivo da conversa de Palmira foi só o marido,
mas nos subseqüentes, sem se esquecer dele por um instante,
pensou também um pouco no filhinho esperado; até que,
daí a algumas semanas, a sua preocupação se
dividia por ambos em partes iguais. E o seu ventre foi tranqüilamente
crescendo, e ela foi cada vez mais se fazendo mãe, no meio
dos cuidados do enxoval, que a nós duas traziam ocupadas
de manhã até à noite. O Dr. César, agora
que supunha a irmã fora de perigo, aparecia-nos com mais
freqüência e ficava às vezes palestrando conosco
durante o serão, entre o jantar e o chá. A progressiva
marcha da gravidez de minha filha era fiscalizada por ele com especial
solicitude.
Chegou a primeira carta de Leandro. Que alegrão para nós
três! Não era uma carta de marido, era uma longa, sentida
e despejada confidência de amante infeliz; comovia a força
de expressão e de sinceridade, sem cair jamais no sentimentalismo
patético; era simples, forte e natural, como o mesmo amor
que a inspirava. Assim de longe sob o domínio absoluto de
uma dor verdadeira, meu genro volvia-se homem, e nem uma só
vez recorria às manhas e pieguices que tinha dantes ao lado
da família. Referia-se ao filho secamente, quase com azedume,
como se falasse de um importuno que viera intrometer-se na sua felicidade.
E não dizia nunca "meu filho" ou "nosso filho",
dizia "essa criança".
Isto perturbou-me um pouco. Teria eu, quem sabe? preparado com aquela
separação uma desgraça terrível, prejudicando
meu neto no seu direito de filho ao amor de seu pai?... Não
seria indispensável, para a boa formação, que
o pai acompanhasse de perto, lado a lado, todos os fenômenos
patológicos que na mulher precedem o nascimento do filho,
e os que ocorrem durante e depois da parturição?...
Não teria eu talvez, para conservar o amor de Leandro por
minha filha e impedir que se quebrasse entre estes o encanto do
desejo, roubado ao meu pobre netinho a parte que de direito lhe
tocava no coração de seu pai?... Não estaria
eu maquinando contra a pobre criaturinha uma tremenda maldade, com
fazer que ficasse todo inteiro o coração de meu genro
em posse da esposa?... Não estaria eu cometendo um crime?...
Consultei nesse sentido o Dr. César.
- Não! respondeu-me ele, sem hesitar. Não, minha amiga!
Afaste do juízo semelhante apreensão. O amor de pai
não se pronuncia antes do nascimento do filho e só
é formado e desenvolvido com a convivência entre os
dois. O amor materno, sim; existe desde a vida uterina do feto,
com ele cresce, avulta quando ele nasce, e vai aumentando sempre
na proporção do crescimento do filho. E está
nisto a razão por que o amor d mãe é sempre,
até que o filho atinja à puberdade, maior e mais intenso
que o amor paterno; é que ele, na sua carreira, sai com grande
avanço. O outro, quando acorda, encontra-o já vigoroso
e adiantado.
A natureza foi muito previdente na constituição destas
coisas: o filho só poderia ser privado do amor de sua mãe,
se alguém conseguisse de uma mulher fazê-la conceber
e dar à luz sem que ela tivesse consciência disso,
e ainda assim não conseguiria privá-lo dos desvelos
e dos cuidados maternais: a doida concebe e tem filhos sem sentir
por eles o menor vislumbre de amor, mas sem nunca aliás se
descuidar, guiada só pelo seu instinto de fêmea, de
prestar-lhe os socorros maternos. Faz tudo isso como qualquer bruto
- pare, corta com os dentes o cordão umbilical, prepara o
filho para a vida: assopra-lhe na boca, se for preciso dar-lhe aos
pulmões o primeiro ar; bate-lhe nas palmas dos pés
e das mãos; depois cria-o, e defende-o dos perigos materiais
que o ameacem; mas não o ama. Aquele bocado de carne viva
e palpitante é uma pouca da sua própria carne; e a
carne, essa nunca enlouquece! Considere agora, minha amiga, que,
pelo lado paterno, não há sequer esta circunstância
material do desdobramento do corpo, do desdobramento da carne. Na
mulher, aquele poderoso instinto animal, associado à razão
e à consciência não menos poderosas, produz
o que se chama o amor materno. E tudo isso se dá antes de
chegar o amor paterno, que pode até nunca chegar, se não
houver convivência entre o pai e o filho. Não é
banal que todo o homem é muito mais filho da mulher do que
do homem; o que me leva a sustentar que na sociedade ele devia apresentar-se
com o nome da mãe e não do pai!
Fiquei perfeitamente tranqüila com estas palavras e pus o coração
a larga.
Na segunda carta, Leandro enviava o retrato à mulher, e uma
poesia inspirada na saudade, acompanhando tudo um amor-perfeito
colhido em certo jardim, na ocasião em que, diziam os versos,
"no meio da alegria geral e do riso dos convivas - seu coração
sangrava o martírio daquela terrível ausência,
que o privava do estremecido objeto do seu amor..." Li e reli
essa composição poética; não era um
primor da arte, mas Palmira chorou de comoção ao lê-la.
E comparei mentalmente aquela carta do marido de minha filha com
as cartas que meu marido me escreveu na sua ausência dos oito
meses. Que diferença! Que contraste!
E vamos lá! tinha eu ou não razão para estar
orgulhosa com a minha obra? Qual é aí o marido que
até à presente data já escreveu versos de amor
à sua mulher, durante o desgracioso período da gravidez
ou da parturição? Qual é ele? Versos ao filho
conseqüente, sim, muitos o têm feito, esquecidos da pobre
criatura enfeada pelo parto, que jaz molemente sobre uma cama de
colchões mornos, entre mornos travesseiros, defumados de
alfazema!
Na carta, onde havia uma página, toda inteira, dedicada ao
Dr. César, que aliás da primeira remessa tinha já
recebido uma particularmente a ele dirigida, só uma fria
frase me cabia. Era esta: "Apresenta meus cordiais respeitos
a tua mãe e pede-lhe, em nosso nome, que me escreva por ti,
quando porventura já não possas fazer." A única
frase, pois, que ele me concedia fora ainda assim determinada pelo
amor de Palmira. Não me revoltei: Era o caso do doente que,
desvairado pela dor, morde a mão do médico que o opera.
Pois me mordesse! Que me mordesse quanto quisesse! Contanto que
aquela mesma boca, que me mordia a mão, continuasse no futuro
a beijar com duplicado ardor a boca de minha filha!
Não me agastei!, nem me senti menos feliz por isso.
* * *
A natureza é
boa amiga! Como sabe ela dar a todas as estações da
existência novos interesses de vida! novas dores e novos prazeres!
Nunca pensei que fosse tão intensa a felicidade de ser avó!...
À proporção todavia que se aproximava o grande
acontecimento, comecei a palpitar de impaciência e sobressalto.
Desfazia-me em pequenos cuidados com a enferma; afigurava-se-me
que era eu a única responsável pelo que viesse a suceder;
sentia-me tão dentro daquela situação, que
era como se eu fosse o pai e tivesse de ser a mãe daquele
filho! Talvez não acreditem, mas juro que me impressionei
ainda mais do que quando eu própria estive para dar à
luz pela primeira vez!
E agora, inesperadas apreensões vinham perturbar a confiança
que eu até aí depositava cegamente nas ótimas
circunstâncias em que fora aquele filho concebido. Não
descansava um instante, não me descuidava um momento da minha
Palmira. De madrugada era eu a primeira a levantar-me e vencer-lhe
a indolência, e obrigá-la a vestir-se e a sair comigo,
para os passeios matutinos. Arrependia-me agora de lhe ter falado
tão abertamente do parto, porque ia começando a descobrir
nela também receios e sobressaltos. Mas animava-a com tanto
carinho e habilidade, que a boa criança nunca se atreveu
a fazer-me a mais leve queixa, mesmo indireta, contra a ausência
do marido.
Minha gaveta da secretária estava cheia de livros de medicina,
concernentes ao assunto que inteiro me possuía. Sempre que
eu pilhava alguma folga, ou quando podia roubar algumas horas ao
sono, devorava o Traité de l'art des accouchements de Gazeaux,
e tomava notas para discutir depois com o Dr. César, que
nesses últimos tempos não nos deixava de visitar todos
os dias. Devia já parecer ridícula aos olhos do bom
médico com as fumaças de doutora que eu agora me dava
na conversa.
E a crise aproximava-se.
Eu já me não pertencia; não tinha a cabeça
no lugar; comia sem apetite; passava noites de insônia. Estava
tão abatida, ou mais, que minha própria filha, e juro
que dentro do meu coração palpitava o feto que ela
trazia no ventre.
Mas afinal chegou o dia supremo. A casa revolucionou-se. César
estava conosco, felizmente. Não posso afiançar que
sofresse eu as dores puerperais, mas sei que sofri muito e que não
abandonei minha filha um só instante, até receber
nos meus braços um belo menino, perfeito, forte, com o crânio
coberto já de cabelo preto.
Oh! Vitória! Vitória completa!
Saltaram-me as lágrimas dos olhos. Tive vontade de misturar
meus cansados soluços de avó com aquele angelical
vagido, que meu netinho me trazia do mistério da antevida,
alguma coisa de um balbuciar divino, que ainda não é
voz humana e também já não é simples
eco de puro cântico de anjos! Minha filha, quase morta de
prostração, branca e fria, como se todo o sangue e
toda a vida lhe tivessem escorrido pelo ventre aberto, gemia ainda,
devagarinho, e seus gemidos cortavam a alma.
Entreguei a criança ao médico e a uma parteira que
nos acompanhava, e dei-me toda aos cuidados da puérpera.
Não me despeguei mais do seu lado, até que ela serenou
de todo.
Ah! correu tudo muito bem: confirmou-se a minha convicção
de que o bom parto depende das boas circunstâncias de amor
em que o filho é concebido. Transbordava-me agora o coração
de alegria. Quando vi minha filha fora de perigo e prestados a meu
neto os primeiros cuidados, corri ao quarto do oratório,
ajoelhei-me defronte da Virgem-Mãe, e aí, com a alma
também parturiente e aliviada das ânsias e sobressaltos
que a pejavam, agradeci aos céus, entre lágrimas consoladoras,
a ventura que eles nos enviavam.
Mas tornei logo para junto da enferma. Tomei-lhe a cabeça
no regaço, e foi assim que Palmira adormeceu, como nos outros
tempos, quando eu era moça e ela pequenina.
CAPÍTULO XXII
Mês e
meio depois do nascimento de meu lindo netinho, recebia Leandro
na Europa uma carta que o chamava para junto da esposa.
Fomos buscá-lo a bordo e César foi conosco.
A mulher que restituí aos braços e aos lábios
sequiosos de meu genro era de novo a formosa criatura que ele deixara
oito meses antes; se não é que, com cumprir o seu
mais alto destino de mulher, ganhara em graça e sedução,
como certas plantas que só são verdadeiramente belas
e viçosas depois de darem o seu primeiro fruto.
Ele também vinha mais forte e bem disposto. Notei, no seu
primeiro olhar trocado comigo, depois que cobriu de beijos sôfregos
as faces, as mãozinhas e os pezinhos de seu filho, que Leandro
me não guardava rancor, e estive quase a acreditar que ele
já tivesse afinal chegado a compreender-me. Mas percebi logo
o meu engano: ainda era muito cedo para tanto. Um homem vulgar não
compreende assim tão facilmente as complicadas delicadezas
de um coração de mãe.
César, esse é que me compreendia bem e tomava parte
direta nas minhas alegrias e nas minhas vitórias. Com que
ar de satisfação acompanhou o meu bom amigo, essa
tarde, a reentrada de meu genro em casa da mulher, e com que sinceridade
de contentamento se tornaram a ver!
O nosso jantar foi uma festa. Houve brindes, dirigidos quase todos
ao pequerrucho, que compareceu à mesa nos braços da
ama, e que, valha a verdade, se portou muito incorretamente. Ainda
não vi criança para berrar tão forte, nem para
ensopar cueiros daquele modo!
À noite vieram visitas; tocou-se, cantou-se e dançou-se.
Atentando para uma das amigas de Palmira, acompanhada à nossa
casa pelo marido, a qual também, havia poucos meses antes,
tivera o seu primeiro filho, não me pude eximir de comparar
esse casal com o meu casal, e reconhecer quão diferente era
nos dois pares o modo por que se mantinha e conduzia cada um de
per si. No entanto, o casamento daqueles era sem dúvida muito
mais recente que o de Leandro com minha filha.
Não me contive e disse ao ouvido desta:
- Olha! ali tens uma infeliz, cujo parto foi com certeza fiscalizado
de perto pelo marido. Vê como os dois nunca se aproximam francamente
um do outro, e repara como só conversam quando há
uma terceira pessoa que forneça o assunto. - Estão
separados pelo filho!...
E, porque Palmira fizesse um vivo gesto de surpresa com esta última
frase, acrescentei em segredo, para bem lhe explicar minha sentença:
- O filho, desde que o pai assista ao seu nascimento, é um
traço de união moral, um laço de amizade, que
se estabelece entre os dois indivíduos donde ele nasce, mas
é ao mesmo tempo uma fria linha isoladora, que se cava para
sempre entre o corpo de um homem e o corpo de uma mulher, que sensualmente
até aí se amavam e se queriam.
Ela teve para mim um sorriso inteligente, em que lhe veio ao rosto
toda a sua gratidão pelos meus desvelos, e o seu sorriso
desabotoou-se num beijo que recebi na face. Quis detê-la ainda
um instante, Leandro, porém, acercou-se de nós, com
o seu ar de namorado feliz, passou-lhe o braço na cintura,
e os dois afastaram-se, rindo e conversando intimamente.
Sentia-me um pouco fatigada. As canseiras daqueles últimos
tempos deixaram-me abatida. Doíam-me as costas e o peito.
Levantei-me com intenção de ir lá dentro tomar
um copo de leite quente com uma gota de conhaque, quando um fato,
em extremo desagradável, veio interromper a nossa festa:
Acabava de chegar da casa do Dr. César um recado exigindo
que ele seguisse imediatamente para lá, porque a irmã,
que nesse dia se mostrara aliás muito melhor, fora, ao cair
da noite, acometida por uma terrível hemoptise e parecia
agora em perigo de vida.
O bom homem não esperou segunda ordem para tomar às
pressas o sobretudo, o chapéu e a bengala. Corri a ter com
ele e pedi-lhe, enquanto agitado me apertava a mão, que,
se o caso fosse com efeito grave, me mandasse prevenir logo ao chegar
à casa.
Infelizmente era. O mesmo cocheiro do nosso carro, em que fora o
Dr. César, voltou com a notícia de que D. Etelvina
agonizava. Entreguei logo a casa a meus filhos, agasalhei-me, tomei
o meu livro de orações, despedi-me das visitas, e
segui por minha vez, mandando puxar bem pelos cavalos.
* * *
César
morava na praia do Flamengo. Quando cheguei lá, a pobre senhora
expirava nos braços do irmão. Muito magra, muito descorada,
com os olhos imóveis e sem fito, a boca ressequida babando
sangue, o nariz laminoso e com um brilho sinistro, ela era apenas
uma fugitiva sombra humana, que se exinania em soluços de
morte.
Havia algumas pessoas presentes, mulheres e homens. Ajoelhei-me
ao lado da cabeceira da cama, abri o meu livro de orações
e pus-me a rezar em silêncio. A moribunda já não
dava acordo do que se passava em torno do seu aniquilamento. Um
colega de César, que com este lhe acompanhara a moléstia,
sacudia os ombros desanimado, pronto já para sair.
E ali, dentro daquele quarto, defronte dos nossos olhos, uma vida
apagou-se, deixando vazia e fria a quebradiça lâmpada
de argila. Ninguém dava palavra, e todos, em volta, contemplavam
o cadáver, como se a força de fitá-lo, procurassem
compreender alguma coisa daquele fato tão comum e sempre
tão extraordinário e tão comovedor.
Eu já não rezava, fitava-o também, como os
outros, pensando nesse misterioso destino de todos nós. E
lembrei-me de meu neto, que, com o mesmo mistério daquela
retirada, havia pouco antes entrado na vida. Um a chegar e outro
a sair!... Donde baixava ele?... e ela, para onde descia?... De
que vívido manancial e para que fundo e soturno depósito
- vinham e iam essas pobres almas, que vemos passar ruidosamente
no cenário da existência, entrando e saindo pelos bastidores
de treva?... O que haveria lá dentro, na misteriosa caixa
desse teatro, onde talvez não repercuta uma só gargalhada
ou um único soluço da comédia ou da tragédia
que representamos cá fora?... Por que seria que os atores
não voltavam nunca à cena, mesmo depois de muito aplaudidos?...
Ou quem sabe se voltariam, mas já descaracterizados e já
irreconhecíveis para aqueles que em vida os vitoriaram com
o seu amor ou com o seu ódio!...
Trevas e trevas!
Uma velha amiga da morta interrompeu o seu pranto, para pedir aos
homens que se retirassem dali: ia preparar-se o cadáver para
entrar na terra. Nessa ocasião, César encarregava
um amigo de cuidar do enterro. E nenhuma de nós descansou
um instante até que o corpo de Etelvina, depois de lavado,
vestido, penteado e calçado, foi posto sobre um sofá
da sala próxima, com as ósseas mãos cruzadas
sobre a carcaça do peito, e com o escaveirado queixo seguro
por um lenço de seda branca. E, à cabeceira do sofá,
armou-se uma mesa, coberta por uma toalha de rendas, com a imagem
de Cristo crucificado, entre duas velas de cera, que ardiam com
uma luz amarela e fumegante.
Então, assentaram-se todos em volta do cadáver, e
continuaram a contemplá-lo. E o silêncio foi de novo
se condensando, numa oprimidora harmonia com o frio da madrugada
e com o longínquo ladrar dos cães lá fora na
rua. E mais e mais pesada e úmida se foi fazendo a tristeza.
As velas, ao lado do crucifixo, pareciam chorar com aquelas suas
quentes e longas lágrimas de cera, a escorrerem-lhe em vagarosos
fios e a pingarem, gota a gota.
A primeira mosca pousou no lábio da defunta.
Em torno, numa desolação muda, ouvia-se de longe em
longe, um longo suspiro. E tristes figuras, negras de luto, permaneciam
imóveis, com o queixo apoiado na mão - a fitar o cadáver.
Eu também o fitava sempre, irresistivelmente, sem saber por
quê.
Serviu-se café. Tomei a chávena que me levaram e continuei
a encarar o cadáver... Mas, de súbito, uma idéia,
que nunca até então me viera ao espírito, atravessou-me
o coração de lado a lado, como com aquela mesma agulha
que eu vira pouco antes coser o lençol da defunta: "E
se a minha hora estivesse também a bater?... Sim, nada mais
natural!... Achava-me velha, fraca; sentia-me doente... podia pois
morrer de um momento para outro!... E minha filha?! ficaria para
sempre abandonada à imprevidência moral do marido,
sem ter quem lhes dirigisse a vida?... Mas assim, os dois acabariam
fatalmente por cair na vulgaridade do casamento e no tédio
da promiscuidade sexual!... E a minha obra, tão penosamente
levada ao ponto em que se achava, seria perdida, completamente perdida!..."
Esta idéia fez-me fechar os olhos, para não ver o
cadáver. Compreendi que outras pessoas que lá estavam
em redor dele e pareciam dormir, tinham apenas, como eu, fechado
os olhos, também para não ver a morte.
Como me sucedia sempre ao preocupar-me qualquer idéia sem
pronta solução, pensei em César, e lembrei-me
de que, havia talvez mais de duas horas, notara eu a sua ausência
da sala, e não tivera por conseguinte trocado com ele senão
algumas frases de pêsame oficial, em presença de estranhos;
e que, pois, não lhe havia recolhido ainda uma só
palavra de dor, quando aliás devia o meu pobre amigo estar
mortalmente ferido no coração: - Aquela sua irmã,
agora ali finda e putrescente, era toda a sua última família,
era a sua extinta comunhão doméstica!... E eu sabia
perfeitamente quão extremoso fora o amor que os ligara por
mais de vinte anos. Ainda não lhe tinha visto uma lágrima
- devia sofrer muito! Precisava ir para junto dele...
Levantei-me à sua procura. Talvez estivesse no seu gabinete
de trabalho. Fui ver.
O gabinete tinha luz e o reposteiro estava corrido. O pobre homem
lá se achava com efeito, sozinho, assentado à secretária,
o rosto escondido entre as mãos, de costas voltadas para
a porta de entrada. Os seus cabelos brancos, cortados à escovinha,
brilhavam argentinamente ao reflexo da luz do gás que lhes
batia de cima.
Posso entrar, César?...
Ele ergueu-se com sobressalto e veio receber-me. Tomou-me as mãos,
puxou-me para junto de si, fechou-me nos braços sobre o peito,
e desatou a soluçar, como se só esperasse por mim
para dar curso àquela explosão de desabafo.
Eu compreendi - cerrei-o forte no meu colo e pousei a cabeça
no seu peito generoso, procurando fazê-lo sentir, bem no fundo
do coração, que ainda lhe ficava neste mundo de misérias
- uma irmã, uma amiga, uma camarada fiel, para o amar estremecidamente
como a outra o amara durante a vida inteira.
E assim estivemos muito tempo, estreitados nos braços um
do outro, a chorarmos ambos, sem achar nenhum de nós uma
palavra, dele para mim, ou de mim para ele.
* * *
Ia, no entanto, naquela ocasião, decidir-se entre nós
dois o fato mais extraordinário de toda a nossa existência.