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LIVRO DE UMA SOGRA
Aluísio de Azevedo
 


CAPÍTULO XVIII

Com orgulho e com prazer declaro que a vida conjugal de minha filha ia por adiante, desenrolando-se feliz. Meu genro continuava a morar sozinho em Botafogo e nós duas no bairro de Laranjeiras. Ao fim de vinte meses de casados, Leandro era para a sua adorada Palmira o mesmo amante dos primeiros dias.
Mas é que nunca se aproximou dela nos período em que a Bíblia manda que o homem se afaste da mulher - por imunda; nem jamais demorada promiscuidade deu-lhes margem e vagar a que se estudassem em silêncio, no enojo de bocejados lazeres, ao lado um do outro na mesma cama, quando o corpo, cansado de amar, deixa que só o pensamento trabalhe por sua conta própria, enquanto ele repousa. Nunca enfim tiveram ocasião de enfastiar-se juntos, consorcialmente, porque o tempo de que dispunham nas suas desejadas entrevistas era pouco para os interesses de seu amor e para o muito que cada um, de parte a parte, tinha para dizer ao companheiro, com respeito à felicidade de ambos.
Eram felizes. Contudo, mais de uma vez, tentou Leandro imbecilmente revoltar-se contra mim, queixando-se com amargura da suposta falsa posição que eu lhe impusera ao lado da esposa. Chamei-o à razão e ao bom desempenho de sua palavra de honra, sem lhe dar todavia segura explicação do meu modo de proceder, porque me não convinha ainda que ele alcançasse por inteiro o secreto espírito das minhas intenções. Palmira também, a princípio, não parecia muito disposta a conformar-se com o meu regime estabelecido, mas tal carinho pus no que lhe disse, e tal eloqüência emprestou a meu amor de mãe as minhas palavras, que se ela em verdade não se deu por convencida, pelo menos entregou-me os pulsos resignada.
Não me desgostava ouvir-lhe as queixas; sinal era de que amava fisicamente o marido, virtude esta que se vai fazendo rara em nossos dias.
- Olha, minha filha, disse-lhe uma vez, enquanto costurávamos à mesma mesa - o que não poderás negar são as vantagens, que tens sobre as outras esposas, com esse sistema de vida conjugal que te arranjei... O casamento, longe de roubar-te aos prazeres que dantes desfrutavas na sociedade, veio trazer-te novos, sem falar no inestimável gozo de satisfação do amor instintivo que ainda não conhecias. Continuas a ter hoje, em minha companhia, os teus bailes, os teus passeios e os teus teatros, como no tempo de solteira; teu marido, sempre enamorado de ti, nunca falta aos pontos onde saiba que estejas. Entre os homens que te galanteiam é sempre ele o mais solícito em merecer-te as graças, em reqüestar-te, em perseguir-te como verdadeiro apaixonado.
Ora, quero que me digas quantas senhoras casadas encontras tu por aí nestas condições a respeito dos competentes maridos?...
Nenhuma.
Pudessem eles e nunca em público compareceriam ao lugar onde elas se acha, ainda mesmo quando as amem.
E isso por quê? porque sabe cada qual de antemão que, ao recolher-se à casa, há de invariavelmente encontrar a mulher à sua espera, e que terá a sua companhia por toda a noite, e por todo o dia seguinte, e pelo outro depois, e por todos os que seguirem, e enfim por toda a vida! "Estamos unidos para sempre!" suspira o desgraçado. E vê, minha filha, repara quanto esta frase é terrivelmente assustadora! repara como é ela em tudo oposta a essa outra frase, que teu marido repete todas as vezes que tão amargamente se queixa de mim: "Nunca estou com minha mulher todo o tempo que desejo!" sem se lembrar, o ingrato! que nisso consiste justamente o segredo da felicidade de vocês dois! Vamos, confessa qual das duas esposas é a mais feliz - aquela, cujo marido se preocupa com a irremediável eternidade da sua união; ou tu, minha tolinha, cujo marido lamenta a cada instante que as horas passadas contigo nunca são tantas e tão largas quanto ele desejava?...
— Mas, observou Palmira - eu amo tanto meu marido!... Não me cansaria em estar ao lado dele...
— É o que te parece agora, como a todo o sujeito, atormentado pelo apetite, parece que se não cansaria de comer! Estivessem vocês sempre e sempre juntos, e haverias de dar razão às minhas palavras...
— Ora, mamãe, não há de ser tanto assim... murmurou ela.
— E, se não podes responder por ti, quanto mais por ele!...
— Oh! Ele me ama deveras! Disso tenho eu certeza!
— E eu também. E justamente para que essa bela chama não se extinga, dou-me ao cuidado de reformar-lhe o combustível.
Palmira soltou uma risada e não insistiu no assunto. Mas, à noite desse mesmo dia, a questão voltou com mais força. Meu genro, quando veio para jantar, trazendo como de costume, flores para a mulher e uma pequena lembrança literária para mim, (creio que dessa vez foi um livro de Olavo Bilac) percebeu logo, pela conversa travada entre nós duas, que ele essa noite iria para Botafogo, pois havia já três seguidas que ficava com Palmira.
Não protestou logo, apenas franziu o nariz. À sobremesa, porém, começou a lamentar-se sozinho em casa - e que, com franqueza, antes não tivesse casado - e que era preferível não amar a esposa como ele a amava - e não sei que muitas frases deste gênero.
Fingi não perceber a sua rabugice e, para mudar de conversa, falei-lhe de interesses comerciais, atirando-lhe perguntas sobre perguntas, a que tinha ele de responder a todas. Mas Leandro, que se conservava ao lado da mulher não descia da sua preocupação e, por meias palavras em segredo a gestos dissimulados, instigava Palmira a protestar contra o meu arbítrio. Palmira, a furto, olhava-me suplicante.
Findo o jantar fomos jogar o pôquer, e ele durante o jogo parecia cada vez mais contrariado. Ao chá mostrou-se ainda carinhoso com minha filha, não obstante ir visivelmente se agravando o seu mau humor à medida que se aproximava a hora da separação. E depois do chá deixou-se ficar conversando, sem se resolver a tomar o chapéu e a bengala.
Levantei-me e chamei o criado para dizer-lhe que se preparasse para apagar as luzes e fechar a casa, porque o senhor Leandro ia sair. Palmira então veio ter comigo com o ar embaraçado, as mãos um tanto frias; deu-me um beijo, e pediu-me, hesitante, comovida, e em segredo que eu consentisse ao marido passar com ela ainda aquela noite.
Durante isto, meu genro, sem abalar donde estava, sacudia com impaciência a perna que tinha dobrada sobre a outra. E olhava-me à esconsa.
— Não! não! respondi à minha filha.
— Mamãe!...
— Ele já cá ficou três noites seguidas... É preciso que se vá embora.
Palmira ia insistir a fazer-me novas carícias, mas o marido interrompeu-a secamente, erguendo-se.
— Não insistas! disse. Para quê?... Deixa lá tua mãe! Ela não quer! Acabou-se!
Não dei palavra. E ele acrescentou, sem se poder conter: - Ora! afinal isto é humilhante e ridículo para mim! Não sei agora que me parece ser preciso andar eu solicitando, como um grande favor, uma coisa que no fim de contas é do meu direito!
Era a primeira vez que meu genro me falava com semelhante aspereza. Até aí sempre me guardara respeito, fugindo até a discutir comigo. Produziram-me pois má impressão o tom e a forma do seu protesto; mas, no íntimo dos meus interesses maternais, ria de gozo por ver aquele desespero com que o pobre rapaz disputava mais uma noite ao lado da esposa, e a comoção e ardor com que esta o acompanhava nesse empenho.
Definitivamente o suspirado milagre do amor matrimonial tinha-o eu realizado em benefício de minha filha!
Mas Leandro prosseguiu entredentes:
— Afinal, por menos que se pareçam as sogras, hão de ser sempre sogras!
- Que quer meu genro dizer com isso?... perguntei; agora ressentida, a despeito de tudo.
Aquela terrível palavra "Sogra", tão mal reputada e tão corrompida pelo mau gosto dos zombeteiros da imprensa, lançada assim à queima-roupa, produziu-me o efeito do mais feio insulto.
Ele respostou:
- Ora, que quero dizer!... Quero dizer que a senhora minha sogra abusa do pacto feito entre nós quando me casei! E abusa da sua posição de minha benfeitora, contrariando-me e torturando-me só pelo gostinho de ser sogra!
Palmira interveio a favor dele, mas em tom modesto.
- Leandro tem razão, mamãe! Que mal faz que ele fique hoje comigo? Ele é meu marido!...
- E a senhora que gosta tanto de citar a Bíblia, reforçou meu genro, devia saber que ela manda à mulher deixar pai e mãe para seguir o marido.
- É, mamãe! A Bíblia manda!... confirmou minha filha com uma carinha brejeira. Lembre-se de que Deus Nosso Senhor disse a Eva para obedecer a Adão e acompanhá-lo por todo lugar onde ele fosse!
- Mas, observei-lhe, Eva não tinha mãe, a seu lado, que, se a tivesse, não daria ouvidos à serpente...
- Oh! exclamou Leandro agastado. Dir-se-ia que a senhora me chamou "Serpente!" Serpente! Tem graça!... Eu é que sou a serpente!... Pois minha senhora, se aqui temos pomo de discórdia, não sou eu com certeza que o promovo. E, quanto ao fato de Eva não ter mãe, digo-lhe então, francamente, que Adão, esse é que era deveras um felizardo, porque não tinha sogra! Ouviu, minha senhora? - Não tinha sogra!
E depois de passear agitado pela sala, respingou ainda, enquanto eu, assentada junto à mesa, percorria as páginas de uma ilustração:
— Serpente! Ora esta! - Serpente!
- Eu lhe não chamei serpente, homem de Deus! disse afinal, fitando-o através das minhas lunetas. O senhor não tem razão! Creio que até agora ainda não exorbitei dos meus direitos ajustados antes do casamento! O senhor é que se está excedendo, meu genro!
E tornei ao meu jornal.
E serenou um pouco e prosseguiu depois, sem deixar de espacear pela sala:
- Mas enfim, queria que me dissessem que mal viria ao mundo, se eu ficasse hoje ao lado da Palmira!...
E parou defronte de mim, para me falar em voz mais baixa: - Quer que lhe diga então uma coisa, Sr.a D. Olímpia? A senhora, com essas suas exigências, faz-me ter idéias que me repugnam! Eu amo muito minha mulher; sou homem, sinto-me comovido ao lado dela; desejo-a; (E creio que com isso não cometo um crime!) mas, depois de jantarmos juntos e juntos passarmos algumas horas, tenho de retirar-me e meter-me sozinho em casa! Ora diga-me: parece-lhe que seria muito censurável, se eu, ao sair daqui, fosse procurar onde não tenho direito as consolações de que a senhora me priva ao lado da única mulher que legitimamente mas pode dar?...
- Leandro! Leandro, não digas isso! exclamou minha filha, correndo a lançar-se nos braços do marido. Ouça, mamãe! ouça o que ele está dizendo!...
- Não te podes queixar de mim, filhinha! respondeu meu genro, triunfante com o seu estratagema. Queixa-te de tua própria mãe!
- Não! protestou ela, passando-lhe os braços em volta do pescoço e beijando-º Não quero que digas isso, mesmo sabendo que serias incapaz de semelhante deslealdade!
E correndo de novo para mim, já com as lágrimas a quebrarem-lhe a voz: - Vamos, mamãe, diga-lhe por amor de Deus que fique! Bem vê que estas coisas me põem nervosa! - E batendo com o pé: - Eu não consinto que Leandro vá hoje daqui sozinho! Se mamãe não o deixa ficar, sou eu que me vou com ele! Sozinho já o não deixo hoje!
- Pois fiquem juntos! fiquem! respondi finalmente, erguendo-me, disposta a retirar-me para o quarto. Vocês no fim de contas não passam de duas crianças, e fazem-me a mim também criança!
Palmira pôs-se a saltar, batendo palmas; e, assim aos saltos, veio até a mim, apanhou-me o rosto com ambas as mãos e cobriu-me de beijos estalados.
Leandro, cuja fisionomia fora a pouco e pouco se abrindo e alegrando, chegou-se também para despedir-se de mim.
Notei, no seu olhar, que ele me agradecia sinceramente aquela concessão.
- Vá! Vá! disse-lhe eu, batendo-lhe uma amigável palmada no ombro. Mas fica para outra vez prevenido desde já de que, quanto mais longe forem as suas ameaças, tanto pior para o senhor... Deus lhe dê muito boa noite!
Apertei-lhe a mão, beijei inda uma vez Palmira e retirei-me para o meu quarto.
Bem ouvi ainda resmungar meu genro com a mulher. Queixava-se de mim, naturalmente. Compreendi que nesse momento estava sendo amaldiçoada por ele, mas sentia-me radiante, porque tinha ampla convicção de que minha filha, apesar de casada havia já quase dois anos, ia ser feliz, muito feliz, nos braços do esposo.
Recolhida, depois da minha habitual oração, em que pedia a Deus continuasse a dar-nos, a ela a felicidade e a mim forças para poder zelar por esta, deitei-me e adormeci, com a alma nadando em júbilo.
Tinha eu conseguido boa parte do meu ideal. À custa daqueles dúbios enfados e arrufos passageiros, a grande ilusão do amor instinto, a deliciosa quimera da felicidade sensual, mantinha-se equilibrada, sem cair por terra como desalada mentira, nem perder-se no vago como desvairado sonho.


* * *

Mas, dentro em pouco, uma grande ocorrência vinha alterar nossa vida, tão custosamente bem feita, e revolucionar-nos a casa, abrindo entre minha filha e meu genro uma cena cruel, cena de lágrimas e soluços, agora verdadeiros, de verdadeira dor.


CAPÍTULO XIX

Manifestaram-se em Palmira os sintomas de gravidez. Isto, que em outra família seria motivos de regozijo, lá conosco foi razão de sérias lutas por mim travadas contra meu genro e minha filha.
Declarei logo que ela, desde esse dia, deixava de coabitar com o marido, e que este seguiria no primeiro paquete a sair para a Europa, ou partiríamos nós duas. Se ele fosse, todas as despesas da sua viagem correriam por minha conta, mas Leandro só tornaria a ver a mulher, quando esta pudesse apresentar-lhe nos braços o filhinho, já dignamente livre dos cueiros e das cuecas, todo enfeitado, coberto de rendas e fitas e cheirando como um botão de rosa.
Uma bomba de dinamite não causaria maior explosão do que este meu decreto. Foi fulminante: minha filha quase perde os sentidos ao recebê-lo; meu genro, que acabava de almoçar conosco, enterrou o chapéu na cabeça e desgalgou de casa como um raio, exclamando que fugia - para não fazer ali mesmo uma loucura.
Eu, porém, estava resolvida a não ceder um passo. E não cedi.
Em vão minha filha recorreu a todos os modos da súplica; em vão chorou e jurou que morreria se tivesse o filho longe de Leandro; em vão ameaçou-me de que seria capaz de um infanticídio para não sofrer aquela minha exigência - assim tão dura, tão desumana e tão ridícula.
- Nunca pensei, mamãe, disse-me ela, que a senhora levasse tão longa a sua mania de separar-me de meu marido! Nem parece que vosmecê é mãe e já esteve grávida, porque então devia saber que uma mulher, quando está neste estado e tem de dar à luz, o primeiro filho principalmente, quem mais deseja perto de si é o esposo!...
- É justamente porque já estive grávida; é porque te dei à luz; é porque sou mãe; e é porque também fiz grande questão em que teu pai acompanhasse todo o período da minha gravidez, e assistisse, do começo ao fim, o parto donde nasceste - que agora não consinto, por forma nenhuma, suceda contigo a mesma coisa! Sei o que faço, minha filha! E, desde já, previne teu marido de que, se se opuser às minhas determinações, não conte ele comigo para mais nada, a não ser perseguição e vingança!
Desta vez não fui pedir à Bíblia o outro versículo do Levítico, em que o Senhor, muito expressamente, dá a Moisés e Aarão, para que a transmitam aos filho de Israel, a lei especial do afastamento durante o nojo da parturição e da prenhez. Já me não animava a citar a Bíblia; tal firmeza mostrei porém na minha vontade, que meu genro compreendeu a inutilidade de abrir luta, a não ser com um rompimento completo e brusco.
O pobre rapaz ficou aflito, bem o vi, e na realidade causava-me pena. Parecia ter perdido a cabeça; não se animava a romper comigo por uma vez, nem se queria resignar tampouco à minha inflexível ditadura de sogra; não que o preocupasse a sua declaração escrita, creio eu, mas porque um rompimento comigo seria a sua desgraça comercial, ou pelo menos violento golpe dardejado na sua nova carreira até aí tão próspera.
Reconheci que desta vez o sacrifício imposto ao coração de ambos era, com efeito, muito mais sério que das outras, e por isso procurei suavizá-lo não m agastando com as impertinências dele, nem com os ressentimentos de minha filha. A tudo resisti serenamente, e, com boas palavras e maneiras calmas, fiz ver a meu genro que ao lado de sua mulher - ficava eu; e ao lado da enferma - ficava um bom médico, que era o Dr. César.
Ele pois que embarcasse tranqüilo e confiante; a competência profissional do meu velho amigo e os meus desvelos de mãe não deixariam sentir a nossa Palmira a falta dos seus cuidados.
Leandro começou daí por diante a evitar a minha presença; a falar-me secamente e o menos que podia; começou a não me tratar senão por "Minha sogra", dando a esta palavra uma expressão tão agressiva e tão dura, que por fim já me doía e magoava bem cruelmente.
Urgia contudo não perder tempo. Era preciso que meu genro partisse quanto antes, e, uma vez que ele me não queria falar, fui ter humilhada ao seu encontro. Animei-o, como a um filho malcriado e caprichoso, e, apesar da ofensiva secura com que me ouviu, achei meios de dizer-lhe que não visse no meu ato uma ridícula pirraça de velha rabugenta, dominada pelo espírito de contradição; fiz-lhe sentir que, se ele dentro de poucos dias não despregasse do Rio de Janeiro, nos obrigava, a mim e a minha filha, duas senhoras - uma idosa e a outra pejada, a aventurarmo-nos numa viagem, onde Palmira não encontraria decerto o conforto e os socorros que o seu estado reclamava. Além disso, da Europa ele apenas mal conhecia Londres, através de um colégio. Precisava agora vê-la e estudá-la como homem. Que melhor ocasião para fazer esse passeio?... Iria descansar um pouco, espairecer, instruir-se, ganhar novas idéias e novos pontos de vista, cujos bons frutos seriam aproveitados em favor da sua profissão comercial e em favor da educação de seu filho.
- Sim, replicou Leandro, desejo ir à Europa, e muito, mas em companhia de minha mulher!
- Irá depois com ela... correspondi - e eu mesma os acompanharei, e mais o nosso herdeirozinho... É até muito mais conveniente que o senhor primeiro realiza sozinho essa viagem, para poder ensinar depois sua mulher a ver e apreciar aquilo que o senhor já tenha visto. É mais correto! Num casal bem constituído, o chefe deve sempre levar vantagens sobre a esposa, tanto no seu grau de cultura intelectual, como no seu conhecimento prático da vida e do mundo...
— Mas abandonar minha mulher quando a vejo naquele estado?!
- O senhor não a abandona, meu genro; o senhor a deixa entregue aos meus desvelos e ao meu amor de mãe. Quanto ao estado dela - não queira também exagerar as coisas! a gravidez e o parto, em boa normalidade de circunstâncias, são funções naturais e quase tão simples como o próprio amor que os produziu.
— Mas é o primeiro parto!
- O que lhe não impedirá de ser muito benigno, porque o filho foi concebido nas melhores condições que é possível desejar. Fique certo, meu genro, que em geral - os filhos gerados com todo o amor e com todo o desejo, nem só são os únicos perfeitos, como ainda são os que nascem com a maior e mais lisonjeira facilidade. É preciso desconfiar sempre da harmonia e boa ventura doméstica de um casal, cujos filhos encontrem dificuldade em entrar na vida, a não ser que haja vício orgânico por parte da mulher ou vício de sangue por parte do homem. Entre os dois instintos garantidores da vida - o amor e a fome, existem as mais estreitas analogias: Da mesma forma que - comer sem apetite produz má digestão, conceber sem amor - produz má gravidez e mau parto; quando não produz o aborto, que é a legítima indigestão do amor. Meu neto há de ter um nascimento feliz, sou eu quem lho assegura! E imagine agora o prazer que lhe está reservado para a sua volta, meu amigo! Prefigure-se tornando à casa depois de alguns meses de ausência e vindo encontrar o seu filhinho nos braços da nossa Palmira! Hein? não lhe parece que o prazer da volta compensa um pouco os sacrifícios da ausência?
— Ausência de quase um ano!...
- Qual! Ela está grávida de três meses, creio. Ponhamos um para a viagem - quatro! Ao senhor basta demorar-se lá seis ou sete, quando muito... Ora, seis meses passam depressa, principalmente em passeio pelo Europa, vendo coisas bonitas!...
- Bonitas! Bonito será se, daqui em diante, mal perceba que minha mulher está grávida, tenha de entrouxar as malas a toda a pressa e fugir para a Europa!
- Ora deixe lá o futuro, que a Deus pertence, meu filho, e cuidemos do presente, que é a nossa obrigação. E já não fazemos pouco!


* * *

Quando nos separamos essa noite, depois do chá, meu genro estava resignado a fazer a viagem. Faltava-me, porém, a outra, que me parecia mais difícil de ceder, sem ficar prostrada pelo sacrifício.
E, com efeito, maior resistência encontrei em Palmira do que em Leandro. Mas com prazer descobri logo que semelhante reação não vinha tanto dos seus terrores do parto, como dos seus mal disfarçados ciúmes pelo marido, que se ia ausentar assim por tanto tempo.
Desde que percebi isto, tinha por ganha a vitória.
Fiz ver-lhe logo que aquela ausência de Leandro, longe de ser desfavorável à esposa, era uma nova garantia para o amor e para a felicidade de ambos. Deixando-o ir agora, surpreendido assim violentamente no auge do seu enlevo amoroso, ela podia ficar segura de que o marido iria resguardado pela saudade e nada cometeria que pudesse ser lesivo ao ente estremecido que ele deixava tão distante. Leandro honraria o seu voto sagrado e guardaria fidelidade, justamente por se achar então a contragosto separado da sua "pobre e querida mulherzinha".
- Ficando aqui, disse-lhe eu, vendo-te ele todos os dias, sem aliás poder aproximar-se de ti para o matrimônio, haveria de trair-te, fatalmente, durante os resguardos da prenhez e do parto, porque a consciência lhe descobriria absolvição para tal delito nas supostas necessidades do seu organismo de homem e na tua acidental inutilidade de mulher. Ser-te-ia infiel, convencido de que com isso não cometeria baixeza, nem maldade, porque havia de resgatar a sua culpa junto à tua cama de doente, à força de constante dedicação, à força de desvelos de enfermeiro e pequeninos cuidados de bom amigo. Ao passo que, por mim arrancado barbaramente dos teus braços e repelido para longe, hão de a ausência e a saudade envolver-te, à proporção que os dias se passarem, num prestigioso véu de poesia e desgraça; há de dar-te irresistível e fascinante auréola de vítima resignada, a quem seria baixa perfídia enganar traiçoeiramente.
A tua ausência será pois a garantia do seu amor e da sua fidelidade. Ele terá medo de pecar, porque já saberá de antemão que a sua consciência lhe não perdoará semelhante injustiça. Aquilo mesmo que aqui, ao teu lado, seria por ele admitido como fatal conseqüência do resguardo da crise puerperal, lá atingirá no seu foro íntimo às negras proporções de torpe covardia. Lá, sem elementos de resgate do crime, para fazer calar a consciência, sem poder de resto prestar socorros à tua gravidez, nem poder consolar-te do teu estado, ele não terá ânimo de faltar à fé conjugal, porque todo o seu coração será pouco para se lembrar de ti! Todo ele, minha filha, será pouco para ter um só ideal - tornar a ver-te, e beijar o filho! Todo o seu corpo só terá um desejo, uma preocupação constante, uma necessidade expansiva: - o de cair-te nos braços, soluçando palavras de amor, e matar com os teus beijos a grande saudade que o devorava longe da tua ternura e longe do teu corpo!
E, vamos lá... acrescentei, tomando as mãos de minha filha, que me escutava imobilizada, com o olhar ferrado num só ponto. Falemos com franqueza: achas tu que as coisas correriam deste modo, continuando ele aqui ao teu lado? Sabes tu, porventura como permanecerás gravada no seu espírito durante a ausência necessária à tua parturição?... ficarás gravada como ele te veja pela última vez, no momento do beijo da despedida; aparecer-lhe-ás no espírito como te tenho agora defronte dos meus olhos - com o corpo ainda não deformado como estará daqui a poucos meses. Por enquanto, Palmira, a gravidez te não prejudicou a beleza, ao contrário: vai bem ao teu rosto essa cor misteriosa e pálida e essa tristeza de sorrir; não te fica mal ainda essa languidez no andar, como essa vaga expressão que tens nos olhos e nos gestos. Mas, quando o teu feto atingir ao seu último período de gestação, sabes tu, minha filha, como estarás diferente e como serás outra? - abatida, desbotada, sem cintura, com os pés inchados, a cara intumescida, as pernas trôpegas, o ventre enorme, e o estômago em revolta, o que seguro te produzirá engulhos e mau hálito!...
Palmira interrompeu o seu silêncio, sem interromper o seu olhar, para responder com um suspiro profundo:
- Ora! meu marido me amará de qualquer modo!... Não faço questão de ser bonita para ele!...
- Então para quem fazes tu questão de ser bonita, se não é para teu marido? A mim é que agradarás do mesmo modo em qualquer estado, porque sou tua mãe; mas a ele, e só a ele, te convém seduzir como mulher. E acredita, minha Palmira, que nesse erro consiste boa parte das comuns infelicidades domésticas! Em geral, por aí, a esposa só se enfeita e faz bonita, para sair à rua, quando dentro de sua casa, é que ela precisa ser sedutora, porque é dentro de sua casa que ela tem um homem a quem agradar por toda a vida!
- Sim, mas a gravidez também não dura eternamente. Eu voltaria a ser o que era dantes...
- Não! Para teu marido nunca mais, depois do parto, volverias a ser o que dantes foras! Dantes foste o que agora continuas ainda a ser no espírito de Leandro - a encantadora e mimosa criatura que se fez mulher nos braços dele; e depois do parto serias e continuarias a ser para sempre - a mulher que nos seus braços se fez mãe! Todos os teus encantos feminis, todas as graças da tua mocidade em flor, desapareceriam, para só ficar o ventre sagrado, que se abriu defronte de seus olhos e lhe despejou um filho nos braços! Bem vês que não é a mesma coisa!
— Não deve ser tanto assim! Mamãe exagera com certeza!
- Exagero?! Sabes lá que impressão deixa um parto ao homem que o assiste?... Impressão que escandaliza os olhos, os ouvidos e o olfato! Sangrento drama, que comove e repugna! que faz dó e faz náuseas! Nele a mulher perde inconscientemente a noção do seu mais cativante e natural instinto, a sua única superioridade sobre o homem, o seu único meio de dominá-lo e prendê-lo - o pudor!
No parto, em presença do esposo amado, o pudor, como todas as outras seduções da mulher, desfazem-se-lhe na lama infecta e generosa do seu sangue de mãe, para só prevalecer o filho que, de um salto, imediatamente, se apodera do principal lugar até aí ocupado por ela no coração do marido. E este, embriagado com a felicidade daquele novo amor, começa desde então a viver só em reviver no entezinho recém-nascido e melindroso, que é agora todo o encantamento do seu lar; enquanto a mulher, ainda mesmo que recupere as graças primitivas, fica, nos intervalos de resfriado matrimônio, encostada a um canto, esquecida como uma máquina em descanso.
Palmira soltou um suspiro mais longo que o outro, e continuou a fixar o mesmo ponto, com os olhos imóveis.
Eu prossegui:
- E depois!... logo depois do parto?... Enquanto o filho, nos seus primeiros dias de vida, com o seu primeiro choro, vai roubando à mãe todos os carinhos sensuais do marido dela, o que é a mulher?... É uma pouca de carne dolorida e mole que ali está sobre a cama! E é preciso defumar o quarto, mudar constantemente as roupas sujas! Ela, coitada! num resguardo absoluto, sem se poder lavar completamente, nem pentear-se, nem desinfetar os cabelos e o corpo, só vive para a sua recente maternidade e para o gozo animal do seu estado de alívio, depois que despejou a carga que a oprimia por tantos meses e que lhe fazia sofrer dores físicas e sobressaltos morais. Dos beijos de compaixão e de reconhecimento que o esposo lhe dá durante esse período do cheiro de alfazema, nasce entre os dois uma doce amizade, uma respeitosa estima de bons companheiros, um sentimento muito bonito, muito sério, muito duradouro, mas que é o inimigo mortal do amor genésico.
A sexualidade que entre eles vier depois, já nada tem que ver com o poderoso instinto, que os arrastou abraçados ao leito conjugal, e será mero produto do hábito, uma preguiçosa permuta de carícias frouxas, obra quase inconsciente da matéria, sem o menor concurso do espírito ou da imaginação, donde faz entretanto o amor fecundo a sua gloriosa força.
Não! não! não, minha filha! teu esposo não te verá de ventre crescido, não te sentirá mau hálito, não ouvirá teus gemidos e gritos de parturiente, nem assistirá a sair-te das entranhas, entre as viscosas esponjosidades da placenta e a nauseante fedentina dos humores puerperais, um ensangüentado feto, uma posta vermelha de lodo vivo! Teu esposo, não te verá amolentada, entre mornos travesseiros, impregnada de cheiro de alfazema, parida! Não! não há de ver! Não quero!
Ela soltou um novo suspiro e mudou de mira, sem alterar a fixidez dos olhos.
- Não! arrematei. Hás de conservar-te integralmente sedutora na imaginação de teu marido! Quero que ele te deixe fresca e bonita, como ainda estás agora, e te venha encontrar depois, ainda mais interessante do que te deixou, com uma linda e cheirosa criancinha ao colo. O teu parto não há de inutilizar aos seus olhos a mulher que ele em ti ama. Não quero que ele se converta no teu amigo extremoso; quero enfim que Leandro se não desiluda contigo, como homem, para que ele não precise nunca substituir-te secretamente por outra mulher!
E, depois de uma pausa, terminei carinhosamente com estas palavras: - Ora aí tens tu, minha filha, a razão do meu procedimento. Agora a ti compete apreciá-lo bem ou mal...
Palmira levantou-se, beijou-me, e caiu soluçando nos meus braços.
— Minha boa mãe!... disse ela.
A pobre criança tinha compreendido tudo, e a sua singela frase pagou-me nesse instante de todos os desgostos que sofri e de todos os desvelos que por seu amor mantive até aí com tanta luta.
- De hoje em diante, segredei-lhe eu, enxugando-lhe as lágrimas, dormirás comigo no meu quarto, meu amor, ao lado de mim, na mesma cama, até à volta de teu marido. Está dito?
— Sim, sim, mamãe!

Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo VII
Capítulo VIII à Capítulo X
Capítulo XI à Capítulo XIII
Capítulo XIV à Capítulo XVII
Capítulo XVIII e Capítulo XIX
Capítulo XX à Capítulo XXII
Capítulo XXIII à Capítulo XXV