AUTOMÓVEIS
BANCOS
CELEBRIDADES
CHAT
COLUNISTAS
COMUNIDADES
CRIANÇAS
CULINÁRIA
ENTRETENIMENTO
EDUCAÇÃO
ESPORTES
ECONOMIA
HORÓSCOPO
GAMES
INTERNET
MÚSICA
MULHERES
NOTÍCIAS
POSTAIS
SAÚDE
SERVIÇOS
SEXUALIDADE
SHOPPING
TEENS
TEMPO
TRÂNSITO
VIAGEM
  BUSCA
digite a palavra
 

  MAIL
nome:

senha

   
As Jóias da Coroa
Raul Pompéia
 




Capítulo IX

No movimento que abalou a aldeola situada nos
terrenos da quinta quando espalhou-se a notícia do roubo
do palácio não tomaram parte os moradores daquela casinha
do fim do beco, onde já esteve conosco o leitor.
Apenas a velha mulher de Januário esticara o
comprido pescoço rugoso por uma janela, para ver qual a
causa de tanto falatório, e a jovem Conceição perguntara a
uma companheira o que tinha sucedido.
Logo que tiveram uma vaga informação do sucesso
contentaram-se com isso. Havia em casa motivo de maior
preocupação para eles do que em todos os tumultos de fora.
Era o caso que naquela manhã aparecera gravemente
enferma a nora de Januário.
A pobre Emília padecia uma enfermidade que desde
muitos anos aniquilava-a lentamente.
Além da moléstia, uma dor violentíssima atormentava-
lhe o íntimo d’alma. A razão deste sofrimento era um
mistério.
Tinham-na visto, um dia, os mais antigos moradores
da aldeia, aparecer casada com um criado do duque de
Bragantina.
Já era aquela mulher triste e doentia.
Os anos que rodaram dessa época até os dias da nossa
narrativa não lhe furtaram mais que os últimos vestígios
de beleza e mocidade que ela trouxera.
Emília passava a existência mergulhada num eterno
desgosto.
Tinha, às vezes, uns sorrisos que entristeciam a
quem os visse.
Outras vezes, sem motivo aparente, cresciam-lhe as
lágrimas nos olhos, e a pobre Emília chorava como uma
louca.
Acontecia isto, em geral, quando ela fitava a
Conceição, a rir infantilmente por qualquer coisa, ou a
trabalhar muito animada na tarefa de crochet que lhe
marcava a madrinha.
Assim que Conceição percebia que estavam olhando
para ela, Emília voltava o rosto e disfarçava.
Na casa de Januário, pouca atenção davam ordinariamente
a Emília. O desespero com que ela se atirava ao
trabalho fazia com que a fossem considerando a criada
da casa; e, como criada, tratavam-na. Emília não
reparava. Demais, que importava isso à viúva de um
criado?...
Como tratavam bem ao seu filhinho e Conceição, de
quem gostava muito, Emília aturava todos os desprezos com
uma indiferença dolorosa, sem reações.
Foi, por isso, extraordinário o movimento de furor
com que a vimos no princípio desta história acometer o
velho Januário.
Com o ouvido atilado que ela tinha e a prevenção em
que andava, não lhe passaram despercebidos uns rumores
suspeitos na sala, seguidos do murmúrio de uma conversação
em voz baixa.
Emília estava já na cama. Levantou-se e foi, nas
pontinhas dos pés, escutar o que se dizia na sala.
Encostou-se a um dos portais da última porta do corredor,
e escutou...
Falavam dois homens.
Um, o velho Januário, o outro...
- O miserável... - murmurou ela com os dentes
cerrados.
Foi ouvindo a conversa.
Trançava-se uma infâmia.
Emília sentiu o peito inchar-se-lhe de indignação.
- Vão infamar uma inocente! - murmurou tremendo.
Cada palavra daquela conversa entrava-lhe no coração
como um punhal em brasa.
Era horrível o que aqueles miseráveis combinavam. Um
laço de perdição para um anjo. Vendia-se a dinheiro a
pureza de uma criança. Um comprava como se fosse uma ave
no mercado, e outro vendia, como se a mercadoria lhe
pertencesse. Não havia ali só infâmia; havia infâmia e
ladroeira. Tinha razão. O açougueiro não consulta a vitela
sobre as condições de venda. Torpeza. Não! Ela não podia
deixar de intervir...
A conversa acabou. Selaram-se as convenções e uma
das partes contratantes retirou-se, muito à vontade e
satisfeita com a transação.
Emília não se conteve um instante. Ardendo em febre
e em ódio, atirou-se como uma harpia e agarrou Januário
com as unhas...
Passou-se a cena violenta do nosso terceiro capítulo
e Emília retirou-se para o quartinho, onde dormia, jurando
que não se havia de fazer a vontade dos dois perversos.
Caiu na cama prostrada e soluçando. Um cansaço
enorme acabrunhava-a, conseqüência do esforço que
provocara a revolução da sua energia, por tanto tempo em
letargo.
Sentiu ao mesmo tempo que o fresco da noite fizera-
lhe mal.
Um calor intenso de febre escaldava-lhe o corpo.
Emília estirou-se os membros por entre os grosseiros
lençóis da sua marquesa e ficou a refletir na conversa que
ouvira. Repassou na memória cada uma daquelas frases, e a
recordação causava-lhe estremecimentos e provocava mais
lágrimas.
No meio da escuridão do cubículo, ouvia-se-lhe o
respirar ofegante e os soluços convulsivos...
Quando clareou o dia, ainda não conseguira dormir um
só instante.
Amanheceu abatida como uma moribunda.
Fez falta ao serviço da manhã. A mulher de Januário
foi ver o que ela tinha.
- Estou doente - respondeu Emília com voz cava e
fraca.
A pobre mulher tinha as feições cavernosas como um
rosto de caveira. Estava lívida e profundamente
acabrunhada. Nos olhos, entretanto, havia uns reflexos
vítreos, contrastando com o amortecimento do corpo.
A mulher de Januário não pôde conter um movimento de
contrariedade.
Doente Emília, ficava-lhe o peso do serviço e ela
era tão velha... Ah! Tinha Conceição... Mas Conceição
estava atualmente destinada a outro serviço absolutamente
indispensável... o diabo!... Era necessário tirar Emília
da cama quanto antes!
Por isso é que a moléstia da nora preocupava mais a
mulher de Januário que o roubo do palácio.
Conceição tinha uma simpatia especial por aquela
mulher a quem o vovô e a Dindinha chamavam de nora e
tratavam como escrava. Achava docemente atrativa a
tristeza eterna de Emília. As almas ingênuas agradam-se
facilmente das almas tristes. No meio de sua alegria
gárrula, involuntária, constante, tinha sempre um sorriso
especial para suavizar a tristeza dolorida de Emília.
Demais, além da simpatia, tinha motivos de gratidão.
Lembrava-se que, desde muito pequena, sempre
recebera afagos daquela mulher. Notava que só era
acariciada quando não havia testemunhas e que, quanto mais
ela crescia, tanto mais raros eram os testemunhos de
amizade que lhe dava Emília. Contudo, sentia que era a
mulher triste a única que amava-a, verdadeiramente.
Quando soube que Emília havia amanhecido incomodada,
correu a visitá-la.
A prostração da doente comoveu-a em extremo.
Conceição não pôde conter as lágrimas e sentou-se
junto do leito a contemplar entristecida o semblante de
Emília. A atitude da mocinha desgostou cruelmente a
enferma.
Conceição viu-a voltar-se na cama e apertar o rosto
nas dobras de um lençol. Pareceu-lhe que Emília chorava
desesperadamente.
Naquela ocasião, Emília e Conceição achavam-se sós
no quarto.
A mulher de Januário, atribuindo à fraqueza o
incômodo de Emília, fora preparar-lhe um caldo.
- Está chorando, mamãe?! - exclamou Conceição,
debruçando-se por cima do leito de Emília e cingindo-a
entre os braços. - É por minha causa que chora?...
Como que as exclamações de Conceição causaram um
prazer dulcíssimo a Emília!
A nora de Januário descobriu o rosto e enlaçou com
os ossos descarnados dos braços a cinturinha elegante da
donzela.
- Não estou chorando, pobre criança! - disse. - Veja
que estou me rindo...
No semblante cadavérico de Emília havia realmente a
luz doce de um sorriso, misturando-se às mais ardentes
lágrimas em iriações de uma alegria celeste...
Foi um abraço longo...
Emília sentia como um transbordamento do coração,
apertando contra o peito aquela mocinha.
Conceição reparou que nunca estivera tão alegre a
nora de Januário.
Orgulhava-se generosamente de ter causado tanto
prazer.
- Já não chora mais? - perguntou, sorrindo, à
doente.
- Agora estou ficando boa... - respondeu Emília,
que, depois do abraço, ficara segurando a mão da moça.
Conceição deu uma risadinha graciosa e acariciadora:
- Ah! Está ficando boa com o meu abraço?...
- Foi um santo remédio! - disse sorrindo a doente.
Na verdade era sensível o bem que aquela expansão de
amizade fizera a Emília. A voz tornou-se-lhe mais forte e
mais clara, um fortalecimento geral percorreu-lhe os
músculos.
Quando a mulher de Januário entrou com o caldo no
quarto, achou Emília sentada na cama.
- Já está boa, Dindinha! - gritou-lhe Conceição.
- Sim, senhora! Isto sim! - disse a velha com um
carinho fingido. - Beba este caldo e saia a passear, que
daqui a pouco está boazinha que nem eu...
Emília tomou o caldo e, meia hora depois, estava
fora da cama, a andar pela casa, um pouco fraca ainda,
porém, sentindo-se mais disposta.
Todos julgaram na boa e Emília mesmo sentiu-se sem a
opressão do peito, que tanto a atormentara durante a
noite. Tirou da cama o filho e foi à cozinha ajudar a
velha sogra, que, por uma grande generosidade, tomara a si
a parte mais pesada do serviço daquele dia.
Não fora só Emília que havia passado mal a noite.
Januário apenas pôde conciliar o sono pela madrugada.
Levara a pensar na agressão inesperada da nora.
Lembrou-se das palavras fatídicas de Manuel de
Pavia, quando dissera que tinha medo das mulheres tristes.
Depois começou a esgravatar nos recantos do seu velho
cérebro uma razão para o procedimento da nora.
De fato. Emília não mostrava grande amor à
Conceição. Ao menos ele nunca a vira fazer-lhe agrados...
Emília não gostava que Conceição a chamasse de mãe, e,
afinal de contas, a rapariga não passava de uma enjeitada,
trazida para casa pela generosidade de seu filho...
A que vinha a raiva daquela jararaca triste, por um
negócio que não lhe dizia respeito?...
Dava que pensar...
E Januário pensou toda a noite; e a madrugada veio
surpreendê-lo a pensar ainda...
Por isso acordou-se muito tarde.
Quando abriu os olhos e lembrou-se do acontecimento
da véspera, julgou que tivesse sido vítima de um pesadelo.
Depois de levantar-se, vendo na gaveta o dinheiro recebido
de Pavia certificou-se de que foram muito reais os
trambolhões que lhe dera a nora.
Ao sair de sua alcova mastigava nas desdentadas
gengivas um plano de vingança: mandar incontinenti a
rapariguinha à casa do Pavia...
- Hoje vosmecê levantou-se muito cedo, meu garoto -
disse-lhe a mulher em tom de chacota. - São horas de
almoço....



Capítulo X

Entretanto no palácio, recolheram-se os duques aos
seus aposentos...
Num espaçoso salão que abre as janelas para a
escadaria do edifício ficaram o marquês d’Etu, o chefe de
polícia, o dr. Jassey e todos os que haviam chegado com o
fidalgo de Santo Cristo.
Ao retirar-se, o duque de Bragantina, com certa
desatenção ostentosa, atirara-lhes uma única palavra:
- Esperem...
O marquês de d’Etu fez uma interessante careta de
desgosto, como achando a pílula amarga.
O dr. Louro Trigueiro sentiu o rosto crescer de
despeito e olhou com uma expressão idiota de enfiado para
os que o cercavam. Aquela palavrinha magra, de entonação
feminina, com um som desafinado de requinta, causou-lhe
cólica. Torceu-se o amor-próprio do chefe de polícia,
torceu-se a avareza do príncipe dos cortiços.
- É assim que este homem trata os negócios graves...
- murmurou insofridamente o dr. Trigueiro, dirigindo-se ao
marquês.
- Que quer?! É poderoso!... - responde este, batendo
o pé com impaciência.
O dr. Jassey e os outros adivinharam as frases dos
despeitados e trocaram entre si uns sorrisos cruéis.
O marquês devorou-os com o olhar.
Muito tempo esperaram, reunidos, dizendo pequenas
palavras, mascando, surdamente, impaciências. Quando
acharam demais, dispersaram-se pelo salão e cada um foi
para a sua janela contemplar o parque em falta de outra
distração.
Os pássaros recreavam-se ao belo sol da manhã,
pulando de galho em galho na ramagem dos pés de magnólia,
dando gritos miúdos e batendo céleres as pequenas asas
pardas; os beija-flores passavam como agulhas cintilantes,
riscando no ar um trilho de faíscas coloridas, ou pairavam
imóveis violando lubricamente o nectário das rosas.
E a gente da sala bocejava, menos o marquês, que se
desesperava em silêncio, fungando significativamente, e o
dr. Louro, que, descansando os cotovelos num peitoril,
olhava abstrato, engolfado na estupidez da mais bovina
resignação às agruras do seu cargo.
Entretanto, a chamado do sr. duque de Bragantina, um
homem viera ao palácio pela entrada dos fundos.
Barafustara familiarmente até os íntimos aposentos do
duque e fora encontrá-lo no seu gabinete.
Merece especial descrição esse compartimento do
palácio.
É uma pequena sala de quatro portas, uma em cada
parede, das quais duas comunicam com o museu e a
biblioteca do duque e as outras com o quarto de dormir e
uma sala de espera, por onde se passa para as peças
anteriores do edifício.
Tem um aspecto extravagante. As paredes são forradas
de papel cor de borra de vinho, semeado de grandes
desenhos da mesma cor, porém desmaiada, com uns traços de
ouro a esmo. Sobre as portas desdobram-se espessos
reposteiros da cor sombria do papel. Há pouca mobília: uma
grande mesa de escritório pesada e firme sobre quatro
bojudas pernas feitas a torno, uma cadeira de braços
girando em parafuso sobre uma sólida tripeça, formada por
três garras de leão em feixe, duas outras cadeiras comuns,
um armário envidraçado e uma longa espreguiçadeira
almofadada de peludos coxins com umas depressões marcadas
pelo seu uso freqüente.
Sobre a mesa amontoam-se papéis de várias naturezas,
jornais, livros; no meio, está uma escrivaninha de prata,
com a coroa e iniciais do duque gravadas num medalhão,
algumas canetas deitadas sobre ganchos de descanso e um
lápis vermelho entre as canetas.
Em cima das pilhas de papel vê-se uma caveira
denegrida pela idade; não tem a maxila inferior e crava a
dentuça proeminente no papel sobre que se acha, rindo-se
com as cavernas da face como uma estátua irônica da morte.
No meio dos papéis da mesa há um pequeno folheto de
capa amarela, de que se pode apenas ler metade do título:

... OS DIVINOS.

Pouco acima da mesa, há diversos papéis suspensos
por uma mãozinha dourada: o primeiro que aparece tem este
curioso e terrível dístico:

A DESMORALIZAR

seguido de uma lista de nomes. Inimigos do duque.
Em um dos ângulos do gabinete há dois ganchos. De um
deles pende uma enorme coleção de jornais de todos os
títulos; do outro ainda uma coleção de jornais, mas
ilustrados com caricaturas. O mais visível apresenta a
crítica dos episódios de uma viagem, em que o viajante cai
muitas vezes da cavalgadura.
A luz do dia entra maciamente pelo vidro fosco de
uma clarabóia no meio do teto, e abre um cone de branda
claridade por cima de tudo, desde a caveira tétrica, que
lembra o pulvis es, até a preguiçosa com os seus coxins
deliciosos amassados, como parece em convulsões de gozo.
Fora do alcance da luz mais forte, clareados, apenas
pelos reflexos que sobem do chão e pela difusão do dia,
circula pelas paredes do gabinete uma fileira de retratos,
entre os quais se vê um todo envolvido em crepe finíssimo,
através do qual se divisam as lindíssimas feições de uma
distinta moça.
Neste aposento, estava constantemente o duque,
quando se achava em Santo Cristo.
Gostava do seu gabinete. Ali ficava à vontade.
Ninguém penetrava naquele recinto senão o seu particular e
um único criado. A própria duquesa havia muitos anos que
não visitava o gabinete. Em compensação, algumas fidalgas
da intimidade do duque, e consideradas por ele,
conseguiam, de vez em quando, espiar o misterioso
aposento...
Manuel de Pavia também ali aparecia freqüentemente.
Naquele gabinete, onde o grande duque ocultava os
maiores dissabores e os seus prazeres medrosos, afogado em
eterno crepúsculo, no meio do qual se passam idílios
cheios de sorrisos e beijos, furores, cheios de
imprecações e ameaças, ouviam-se muitas vezes diálogos
interessantes travados entre o duque de Bragantina e o seu
íntimo Manuel de Pavia.
Foi a uma destas entrevistas que compareceu Pavia,
chamado pelo duque.
Pavia pediu licença por formalidade, à porta que
dava para o museu, e foi entrando.
- Sabe para o que o chamei? - perguntou o duque com
uma voz complacente.
- Suponho que sei, sr. duque...
- Deve saber... Lembra-se da sua promessa?
- Perfeitamente... Garanti que hoje começaria e de
fato comecei.
- Conseguiu?
- As suas ordens são executadas sempre, sempre,
apesar de tudo...
- Adiei a minha ida para Anatópolis, com o fim de
vê-la hoje mesmo - disse o duque, sem olhar para Pavia.
- Ela estará em nossa casa para receber...
- Vou visitá-la à noite...
- Quando queira... As portas estão abertas para V.
Exa. a qualquer hora...
Manuel de Pavia se tinha conservado de pé, a alguma
distância do duque. O fidalgo falava sem virar-se. À
última palavra de Pavia, fez girar a cadeira sobre o
parafuso e voltou-se de frente para o íntimo.
Pavia, quando se dispunha a pedir licença para
retirar-se, viu-o franzir a testa em rugas horizontais. O
duque ia fazer alguma pergunta. Pavia esperou, prevendo
alguma coisa grave.
O senhor de Bragantina, depois de um instante de
reflexão, dirigiu-lhe um olhar atravessado e perguntou de
modo irresistivelmente inquisitivo:
- Que história de roubo é essa que tanto barulho tem
feito hoje nesta casa?...
- Da burra?
- Creio que não; ali não entra qualquer mão como
numa gaveta e...
- Já sei... Não seria do armário, onde as jóias
ficam às vezes?
- Naturalmente... Não tenho certeza, porque até a
pouco estive em casa e, só quando vinha para aqui, me
deram a notícia...
O duque soltou uma pequena risada, levantou a cabeça
sorrindo, e encarou o íntimo. O olhar do fidalgo foi como
uma sonda até o fundo da alma de Manuel. O íntimo sentiu
um arrepio correr-lhe pela espinha dorsal, mas afrontou
heroicamente o olhar e sorriso do seu amo. Dir-se-ia que
na pele morena do rosto quebraram-se-lhe esse sorriso e
esse olhar, como duas lanças numa couraça.
- Então, sr. Manuel, o senhor não me pode
informar...
- Dentro de um minuto, posso alcan...
- Já sei... E se eu lhe disser que você, desde
ontem, sabe de tudo?
- Desde ontem?... Não compreendo o que V. Exa. quer
dizer...
- Eu quero dizer o que disse... você, desde ontem,
sabe de tudo...
- Juro que... nem vi chegar o homem que devia trazer
do palácio do sr. marquês de *** as jóias...
Nova risada esperta do duque.
- Não vejo motivos para o sr. duque supor que eu
minto...
- Ora... ora... Eu bem sei que você é a criatura
mais santa que o céu cobre...
- Lá isto, nem o sr. duque... - aventurou Pavia,
entre sorrisos.
O senhor de Bragantina não deu ouvido à insolência
açucarada do seu servidor...
- Pois eu digo que o sr. Manuel de Pavia, meu
veterano confidente de segredos, sabe de tudo, desde ontem
e, mais ainda, sabe onde estão as jóias desaparecidas...
- V. Exa. me chama simplesmente de ladrão...
- Ladrãozinho só - pilheriou o duque.
- Ladrão! - murmurou Pavia, afetando-se penalizado.
- Então, meu Pavia, você pensa que eu não o conheço?
- Se o sr. duque me conhece, por que deposita
confiança num ladrão?...
- Num ladrãozinho - retificou o duque, no tom de
chacota que assumira. - Depositei confiança em você,
porque... é preciso que haja gente para tudo...
- O sr. duque fala de mim como um limpador de
esgotos...
- Quase...
- Mas, sr. duque, perdoe-me a pergunta... Não tenho
sido o maior fiel servidor de V. Exa? Não tenho buscado
sempre satisfazer aos seus desejos? Não me tenho dedicado
ao serviço sem olhar perigos? Cegamente, devotadamente...
Não tenho até amargado vergonhas por causa de V. Exa?...
Quem será capaz de prestar-lhe os meus serviços com maior
limpeza e habilidade?
- Já sei!... Já sei! Mas a que vem isso?
- São títulos à confiança que mereço... Demais,
quando roubei? O que tenho roubado?
- Ora, Manuel, cale esse bico... Você canta muito
bem, mas não me ilude com os trinados... Lembre-se que eu
não o conheço de ontem... Diga-me lá que você é um bom
servidor... diga-me que sabe tratar as avezinhas como um
temível caçador... que o seu emprego o expõe a vergonhas e
sovas; diga-me enfim que os moleques dão um nome feio à
gentinha preciosa de seu ofício... deite todas as
cantinelas; mas não me pergunte o que roubou!... Você sabe
que sou rico e não me enfureço, como o marquês meu filho,
porque os ratos dão no saco de farinha... O que você tira
eu dou-lhe de presente... não brigo... mas não quero que
se faça de ingênuo... guarde a ingenuidade para enganar as
meninas tolas... não a gaste comigo... Quando quiser saber
o que tirou contra a vontade do dono, pergunte pelo piano
da duquesa, pergunte pelas jóias de uma mocinha...
- Sr. duque, o senhor está cobrindo-me de
insultos...
- Deixe-se de fingimentos, Manuel... Se estas coisas
o ofendessem, você não seria o mesmo homem e eu saberia
desde logo que você não servia para o emprego...
- Se tem necessidade de mim, aceite-me tal como sou,
porém não me lance em rosto.
Pavia falava queixosamente, mas deixando entrever a
ponta de uma ameaça.
- Eu o aceito tal e qual... Não pretendo reformá-lo,
acredite. Quero apenas mostrar que o conheço
profundamente... E, por isso, garanto que você sabe onde
estão as jóias...
- Fui eu, então, o ladrão?...
- Você o disse...
- Sr. duque, vejo-me forçado a retirar-me do serviço
de V. Exa.
- Quem o força?
- A minha honra...
- Palhaço! - exclamou o duque sorrindo de pouco
caso. - Honra de...
- Todos têm sua honra, sr. duque... não é privilégio
dos fidalgos, que aliás muitas vezes fazem dela vestimenta
de gala para os dias de festa...
- Escute, Manuel, com paciência e não recalcitre.
Quem se mete n’água tira a roupa. Cada um prepara-se
conforme as exigências daquilo que vai fazer. Eu bem sei
que todos têm amor à vida, entretanto, quem quer o soldo
e as medalhas de campanha põe de parte esse amor. Todos
têm sua honra, é verdade. Mas há serviços que não se dão
bem com ela. A roupa não deixa nadar; a honra impede...
- À vista disto... Sou mil vezes pior que um
limpador de esgotos...
O duque abriu uma gargalhada, que concluía
brilhantemente a argumentação desenvolvida contra o
íntimo, e que caiu-lhe no rosto como uma bofetada.
Manuel de Pavia não se indignou; considerou-se
apenas derrotado pela lógica e não repetiu a palavra
honra.
- Você deixará o meu serviço... para fugir... não
por...
- Fugir! - gritou Pavia seriamente zangado. - Fugir!
- Não me fale alto... Isto não lhe pode servir... A
polícia não está longe de nós...
- E eu tenho medo de polícia? Se o sr. duque
quiser, denuncie-me!... Entregue-me!
- Baixo...
- Falarei bem alto!
Pavia estava exaltado:
- O sr. duque entrega-me à polícia, mas eu entrego-o
ao público. Contarei as suas vergonhas... Partilhei-as,
conheço-as todas como cúmplice, mas eu não tenho um nome;
o sr. duque não se acha no meu caso! Não terei escrúpulos
por mim. Apontarei uma por uma as suas amantes; narrarei
as caçadas; darei conta das minhas incumbências; lançarei
à rua os mistérios do meu ofício como quem faz um despejo.
Cairei na lama, mas terei a satisfação de salpicar com o
baque a sua coroa de duque...
Venha a polícia... Hão de acorrentar-me os punhos e
os tornozelos, mas ninguém me soldará os lábios! Vossa
Excelência aponta-me à polícia, eu aponto-lhe as suas
misérias íntimas... Fui comparado ao homem dos esgotos...
pois o esgoto não cheira a rosas... eu arranco-lhe a
tampa! Contra a justiça que os duques compram a peso de
ouro, eu oponho somente uma força: a minha língua!...
Pavia bateu com o dedo numa pontinha de língua que
lhe saiu por entre os dentes, ameaçadora como um punhal
sangrento:
- O sr. duque faça o que entender - concluiu
pesadamente.
Durante a enxurrada de ameaças de Manuel, o duque
guardou uma serenidade enigmática, profunda. Tendo-se
voltado para a mesa, pusera-se a coçar o bigode, fitando
sem atenção as órbitas vazias da caveira, que lhe ficava
em frente.
Quando Pavia calou-se, o duque começou, sem mostrar
ressentimento, como se as palavras do íntimo não tivessem
sido dirigidas a ele:
- Por mais que você fale, Manuel, por mais que se
esforce, não poderá dar me uma nova amostra do que você
vale. Remexa, revolva e excrete tudo o que tem de
asqueroso nessa cabeça e nesse coração, que eu só direi no
fim: é exatamente o meu Manuel de Pavia!... Então supõe
que quando eu o achei com cara de servir-me, não sabia
perfeitamente que você se havia de acreditar poderoso, por
conhecer a minha vida secreta?! Não pense, entretanto, que
eu o julgo estúpido... É muito canalha para sê-lo... A
razão das suas ameaças, eu bem sei, é a esperança que você
tinha de amedrontar-me com um escândalo... Isto prova que
você não me conhece... Você não sabe que um duque de
Bragantina não pode ter medo de um lacaio? Está vendo
aquela lista de nomes ali... na parede? São os tolos que
se lembram de meter-se no meu caminho... cada um deles
conte-se como um homem esmagado. Pois, se eles não têm
força para resistir-me... um criado muito reles é que...
Olhe, Pavia, no dia em que a minha latrina se revoltar, eu
mando meter-lhe o machado nas tábuas...
A calma de esfinge com que o duque falava, fazia um
efeito terrível sobre Manuel de Pavia. O íntimo caíra
subitamente da sua alucinação ameaçadora. Como que sentia
na nuca o peso do calcanhar do duque. Por baixo da tez
morena espalhou-se-lhe uma fugitiva palidez de medo.
Pavia, que falara numa postura declamatória,
inclinou para o chão a cabeça e curvava-se como se se
fosse pôr de joelhos. Não achou réplica para as palavras
do duque.
- Sabe - concluiu o fidalgo, aproximando das
sobrancelhas o couro cabeludo, num ríctus formidável que
ele possuía para os momentos de amedrontar -, sabe,
Manuel, para que serviram as suas ameaças vis?... Valeram
uma denúncia... Verificou-se a minha suspeita... O ladrão
das jóias... é você!...
As últimas palavras do duque foram pronunciadas
secamente, rapidamente, pesadas como a fórmula de um
veredicto, o tom feminino da voz transformou-se-lhe nuns
sons enérgicos, agudos, penetrantes.
Pavia reuniu o que lhe restava de coragem, e
arriscou:
- Sr. duque, juro...
Não pôde continuar.
O duque levantou-se e cortou-lhe a palavra:
- Siga-me! - disse-lhe.
Pavia considerou-se perdido. Lembrou-se de confessar
o crime e pedir perdão, lembrou-se de correr pela porta do
museu e saltar de uma janela para fugir da quinta. Mas não
era possível. Faltavam certas providências que ele não
tomara, por não prever uma tão positiva e inesperada
acusação. Demais, uma espécie de magnetismo fatal o
impossibilitava de escapar.
- Siga-me! - repetiu fortemente o duque.
Pavia seguiu-o. E os dois saíram pela porta que dava
passagem para a frente do palácio.
No seu gabinete privado, entre aquela caveira
secular e aquela preguiçosa lasciva; nesse aposento
recatado, que era ao mesmo tempo gruta sombria e casta de
monge, pelo crânio, e alcova perfumosa e brilhante de
harém, pelos coxins; ali, à vista de Sócrates e de
Epicuro, o duque de Bragantina criou um tribunal por sua
conta e condenou Manuel de Pavia.
Veremos o peso desta condenação.
Depois da sua longa ausência, reapareceu o duque aos
que haviam ficado à espera, sem dar-lhes explicação nem
pedir desculpas...
- Graças a Deus!... - disse o marquês d’Etu ao
ouvido do chefe de polícia, vendo entrar o pai.
Logo em seguida ao duque apareceu Manuel de Pavia.
Todos se espantaram com isso. O que significava a
presença daquele indivíduo?
O duque explicou:
- Sr. dr. Louro - disse ele dirigindo-se ao chefe de
polícia -, entrego-lhe este homem. Tenho sérios motivos
para mandar prendê-lo. O senhor há de conhecê-los em
breve. Prenda-o, e cuidemos de verificar quais são os
culpados do roubo das jóias.
- Sr. dr. delegado - disse o chefe de polícia,
voltando-se para um dos delegados presentes -, queira
levar este homem para a detenção.
- Sr. doutor, mando vir o carro celular...
- É inútil! É inútil! - interveio o duque com a sua
vozinha fina. - Nada de escândalos aqui em casa...
Qualquer carro serve... Garanto-lhes que o preso não
tentará fugir... Ele sabe que, se quiser fugir deita tudo
a perder... pode levá-lo em qualquer veículo...
- A vontade do sr. duque será feita - respondeu o
delegado, curvando-se como um homem polido e como um
lacaio.
Encaminhou-se para Manuel de Pavia:
- Está preso! - disse, pousando-lhe a mão no ombro.
Vendo-se preso, o íntimo do duque de Bragantina não
reagiu. Não lhe passara sem reparo o modo singular por que
o duque pedira sua prisão. Refletiu que não estava de todo
perdido, como se supusera um momento.
- Das duas, uma - pensou ele. - Ou o duque, apesar
de todas as basófias, tem medo da minha língua, ou
pretende entrar em negociações comigo, certo como está de
que sou eu o ladrão do tesouro. Em qualquer dos casos,
estou muito bem. Deixemos a coisa correr... Demais, as
delícias que lhe reserva a minha conquista da Conceição,
hão de fazer-lhe pensar em mim... Não há perigo... A menos
que o Inácio ou o outro faça alguma asneira
comprometedora.
O duque se afastara de todos que o haviam rodeado
quando entrou na sala, e conversara em voz baixa com o
chefe de polícia.
Manuel de Pavia, em tom de súplica, pediu ao
delegado que perguntasse ao duque se permitia que ele
fosse despedir-se da família.
O delegado perguntou. O duque voltou-se para Pavia,
fitou-o longamente com um olhar cheio de desafios, e
disse:
- Vá...
E falando ao delegado:
- Não o perca de vista. As despedidas hão de ser
feitas em sua presença, embora dando-se ao preso a
liberdade de dizer o que quiser.
O delegado e Pavia retiraram-se do palácio.
Em frente à escadaria já não havia a multidão que aí
estivera a dar de língua a propósito do roubo. Pouco e
pouco, cada um se fora para sua casa ou para seu trabalho,
jurando consigo mesmo que o ladrão das jóias era um criado
qualquer do palácio, talvez mesmo aquele que havia dado
com o roubo e tanta bulha fizera com a descoberta.
A maliciosa mocetona gorda, que não dera crédito à
famosa explicação da corda, deixara todos irem, e ficara
perto de uma das colunas do edifício a conversar com um
lacaio que vivia namorando-a. Queria ver que valor tinha
um palpite que lhe viera à toa.
- Neste negócio - dissera ela - anda alguém um
poucochinho maior do que um criado. Tenho para mim que
toda essa baralhada vai acabar em muito segredo ou em
muita porcaria...
O lacaio, encantado pela voz do seu ídolo, nem
pensou nas palavras pronunciadas.
Logo que a mocetona viu sair Manuel de Pavia
acompanhado de um delegado, não quis fazer a menor
indagação; gingou grosseiramente com os ombros e disse
entusiasmada ao seu idólatra:
- Então?!... bem eu dizia, bem eu dizia!...
O lacaio, derretido com aquele arrebatamento,
revirou uns olhos idiotas, de namorado...
Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III à Capítulo V
Capítulo VI e Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX e Capítulo X
Capítulo XI e Capítulo XII
Capítulo XIII e Capítulo XIV