As
Jóias da Coroa
Raul Pompéia
Capítulo VI
Três dias depois da conferência com o guarda-livros
do rico ourives, realizava-se o contrato de Manuel de
Pavia com o criado Inácio, e os dois cúmplices
encontraram-se fora de horas para levar a efeito o
projetado roubo.
Certificado de que a pessoa que tinha em frente era
na verdade Inácio, Manuel de Pavia, com a voz comprimida
por precaução, perguntou-lhe:
- Fez tudo o que eu lhe disse?...
- Fiz...
- Tem os formões? O macete forrado de pano? Tirou a
corda que eu deixei no meu jardim, perto da cancela?...
- Não esqueci nenhuma de suas considerações...
Quando saí de sua casa, fui à sala do armário, sem
que se
notasse a minha entrada no palácio... O armário é muito
fácil de se arrombar, como bem me disse o senhor... A
porta do jardim, abrindo-se o trinco por dentro, não
oferece resistência... Só mesmo o seu dinheiro e as suas
promessas poderiam fazer um sujeito depositar uma fortuna
daquelas em tal lugar...
Pavia riu-se orgulhosamente da observação de Inácio:
- Quando eu o aconselhei a ter toda a confiança em
mim, bem sabia por que falava...
- Pois eu, antes de ir deitar-me, abri o trinco da
porta, certo de que o particular do duque, não sabendo do
imprudente depósito das jóias, e apressado em ir dormir
com a família, não se demoraria a examinar... Fui deitar-
me muito calado... Ainda há pouco, saí do meu quarto, subi
à sala grande, puxei a porta do jardim... não custou
muito... Deu um pequeno estalo que ninguém devia ter
ouvido... Aberta a porta, saí para o parque... fui ao seu
jardim... tirei a corda que estava escondida no mato e
aqui está na minha mão... Ah! ia-me esquecendo... Fui ali
às obras que se estão fazendo perto da entrada da quinta,
apanhei este formão e este macete... Nessa ocasião quase
acordei um sujeito que ali dorme para vigiar as
ferramentas...
- Guarneceu de pano o macete?...
- Aqui o tem preparadinho...
- Portou-se muito bem... Podemos principiar a
coisa...
Os dois ladrões dirigiram-se, pé ante pé, para uma
escadinha de pedra que conduz a um jardim, graciosamente
plantado sobre a muralha junto da qual estivera Pavia
esperando; saltaram uma pequena grade de ferro; subiram a
escada e foram até a porta do palácio, aberta pelo criado.
A porta estava apenas encostada... Pavia empurrou-a
e entrou. Inácio entrou depois dele. A porta tornou a
fechar-se.
A sala do palácio estava de uma escuridão
impermeável.
O menor ruído provocava a ressonância imponente dos
lugares grandes e vazios. Os dois atrevidos criminosos
sentiam-se impressionados com aquela escuridão e aquela
ressonância de catacumba.
- É preciso luz - disse Pavia baixinho.
As palavras, ressoando frouxamente nos ângulos da
sala, zumbiram-lhe aos ouvidos por muito tempo...
- Eu me esqueci da vela - objetou Inácio.
- Eu a trouxe...
E Pavia, como que temendo iluminar o seu crime,
tirou com a mão trêmula uma caixa de fósforos e uma
vela
de que se munira, mas hesitou em ferir fogo...
- Não achou a vela? -informou-se o criado do duque.
- Achei... aqui tem... segure, para eu riscar o
fósforo.
Inácio tateou pelo ar até encontrar a mão de Pavia
e
tomou a vela. Pavia riscou o fósforo. O fósforo falhou.
- Diabo! Estou trêmulo...
Pavia riscou de novo. Riscou terceira vez. Toda a
escuridão da sala fugiu à explosão do fulminante.
Os ladrões tinham certeza de que aquela porção do
palácio devia estar sem viva alma. O particular do duque,
que habitava um compartimento vizinho da sala do armário,
achava-se fora. Os criados alojavam-se no pavimento
inferior. Não havia, pois, quem ouvisse os rumores feitos
na sala.
Entretanto, quando a chama do fósforo brilhou, os
bandidos estremeceram como que de susto e lançaram
instintivamente um rápido olhar indagador aos quatro lados
da sala.
Era um espaçoso aposento sem utilidade especial.
Parecia servir apenas de passagem para o jardim. Não tinha
móveis ao centro. Filas de cadeiras de grandes encostos,
espichando para o teto uns florões medievais, antigos como
a genealogia dos Bragantinas, bordavam as paredes,
afetando altivamente a sua imobilidade nobre, estúpida,
militar. Da ombreira das portas desabavam reposteiros
verdes, pesados como chumbo.
No ar pairavam cheiros de mofo e de pó; no teto,
revoluteavam uns dourados de mau gosto, como serpentes
amarelas, enroscadas pelos estuques... Pavia e Inácio
viram que não havia, além deles, pessoa alguma no lugar.
No fundo da sala, havia um grande armário
envidraçado por dois largos espelhos. Aí, estavam as
desejadas preciosidades.
Pavia imaginava estar vendo as pedrarias estrelando
o fundo de um bonito cofre de madeira lavrada... ali ao
alcance da mão.
Ao receio de uma surpresa sucedera um íntimo prazer
avarento, à vista de um montão de riquezas...
A vela refletia-se no espelho do armário... Pavia
espantou-se... Pareceu-lhe que havia gente lá dentro...
- Que poltrão! - disse ele -. Estou com medo de mim
mesmo.
E os dois chegaram ao depósito do tesouro...
Estava ali o sonho... e não havia dragões a
guardarem-no.
Os ladrões começaram.
Manuel de Pavia sabia que as jóias estavam num
escaninho à direita.
- Elas estão por aqui... Quebrar o espelho é fazer
muito barulho e... depois, a madeira é fraca...
Enquanto falava, Pavia bateu com a mão no ângulo
direito do armário como que avaliando a espessura da
tábua. Pediu em seguida o formão a Inácio, tomou o
macete
e encostou o corte do seu instrumento no armário.
Começaram então umas pancadinhas abafadas pelo pano
que envolvia o macete... A sala enchia-se de sonoridades
surdas como as de um tambor em que se toca levemente.
O trabalho foi demorado.
Afinal, um grito alegre como a detonação de um
foguete escapou dos lábios de Pavia:
- Entrou! - exclamou ele com as feições alargadas na
mais expansiva satisfação.
Tinha entrado o formão.
Deste momento em diante, todo o trabalho consistia
em fazer rachar-se a tábua do armário.
Pavia calcou sobre o formão como sobre uma alavanca.
A madeira estalou... Inácio substituiu a Pavia no
trabalho; meteu as mãos na abertura que o companheiro
fizera e completou a obra.
Estava feita a passagem.
Manuel de Pavia apanhou a vela que o cúmplice
deixara no soalho e iluminou o interior do armário. Mal
chegou a chama à abertura do arrombamento, mil cintilações
brilharam...
- O cofre!...
Os dois ladrões sentiram-se chocados. Toda a emoção
traduziu-se-lhes por um silêncio absoluto.
Inácio quis retirar o cofre... Pavia, com medo
talvez de ser roubado pelo companheiro, desviou-lhe as
mãos do buraco do armário.
Inácio cravou-lhe um olhar afiado, terrível. Dir-se-
ia que passava pelo espírito do criado um meio muito
simples de assenhorear-se daquilo que o cúmplice queria
para si.
Pavia tirou o cofre e, voltando-se para Inácio:
- Está feito o mais difícil! Agora convém... convém...
disfarçar a coisa...
- Será para isso que quer esta corda?
- Para isso mesmo!... Vamos abrir os trinchos de
várias janelas para se acreditar que houve descuido do
fechador... De uma das janelas atiraremos a corda por cima
da hera da parede... Se houver indagações da polícia,
esta
corda pode fazer uma embrulhada... A polícia é estúpida...
dirá que o ladrão veio de fora... tanto que serviu-se de
uma corda... A questão é achar onde se prenda um nó...
Vamos ver...
Pavia, seguido pelo companheiro, afastou-se do
armário, sobraçando o cofre e atravessou a sala em direção
às janelas.
Abriram cuidadosamente algumas. Espiaram para fora e
examinaram.
- Esta serve! - disse Pavia, à terceira janela
aberta... - Não dá para o jardim... E tem aqui um bom
gancho...
Havia de fato no peitoril da janela um gancho de
ferro, destinado naturalmente a sustentar um globo de
luminária. Não era forte, mas servia para quem quisesse
arriscar-se. E os ladrões arriscam-se.
Atando-se ao gancho a corda, era possível escorregar
até embaixo da muralha que sustentava o jardim, de sorte
que parecia que os ladrões não tinham passado pela porta
da sala.
Pavia amarrou uma das pontas da corda e atirou a
outra para o parque...
- Bem - disse depois. - Agora eu vou ver se ponho a
salvo o cofre... Você deixe cerradas estas três janelas...
Feche cuidadosamente a porta, fazendo entrar a lingüeta e
prendendo os trincos... E... vá para o seu quarto...
Quando levantar-se... levante-se cedo como costuma...
quando sair da cama venha logo a esta sala e dê sinal de
alarma, faça barulho...
- E depois...
- Eu respondo, pelo resto... Apareça ou não a
polícia, asseguro-lhe que não nos sucederá coisa alguma...
Neste negócio a polícia há de fechar os olhos... Você
verá... E, para tranqüiliza-lo de todo... Eu sou um homem
indispensável ao duque... Ele não me fará mal algum,
por
conseguinte não fará aos meus companheiros de pândega...
Fique sossegado...
E Manuel de Pavia, sempre como o seu cofre, saiu
para o jardim, deixando Inácio na sala. Quando este ia
fechar a porta, o ladrão inclinou-se para ele e disse, à
meia-voz:
- Não haverá nada... O homem tem medo de mim.
Capítulo VII
Não tivemos ainda a honra, nem a ocasião de
apresentar ao leitor o milionário senhor da quinta de
Santo Cristo, o sr.duque de Bragantina.
Agora que vamos encontrá-lo figurando ativamente nas
meadas da nossa narrativa, apressamo-nos em fazer a
necessária cerimônia.
Atravessemos, embalados maciamente na arfagem
sonolenta de uma barca a vapor, as ondulações bonançosas
da vasta e serena baía de Paranaguá.
Galguemos a encosta daquelas montanhas alterosas,
denteadas, que mordem o firmamento ao longe. Penetremos os
cerrados de floresta que aveludam de verde o esqueleto
rude, vulcânico, daquelas cordilheiras.
Quando estivermos perto daqueles vapores que vestem-
se de ouro a romper do dia e que choram sangue ao fugir da
tarde: logo que sentirmos a frescura invernal das serras
penetrar-nos o tecido da roupa; quando sentirmos
intensamente o perfume da mataria a deliciar-nos o olfato,
subindo das grotas no meio de lufadas de nevoeiro como do
fundo de enormes turíbulos... nessa ocasião, atravessemos
um olhar por entre os arvoredos, que havemos de lobrigar,
estendida no meio de um vale, no lugar onde devera existir
antes a fita cristalina de um regato, sorrindo aos ventos
que a bafejam e às flores que as matas atiram sobre ela,
havemos de ver um retiro de prazeres, que se chama uma
cidade.
É aí Anatópolis.
Um outro parque de Santo Cristo. Anatópolis é a
continuação da quinta do duque de Bragantina. Quando há
muito calor no palácio da quinta, o duque de Bragantina
passa a baía de Paranaguá e vai buscar refrigério em
Anatópolis.
Ao tombar do dia ou pela manhã, um homem aparece, em
tempos de verão, a passear pelas arejadas ruas da cidade.
Vai todo de branco, coberto por um amplo chapéu de
Chile, fresco como o vestuário. É de uma estatura bonita e
excepcional. É velho. As barbas envolvem-lhe o rosto em
flocos admiráveis de nevada brancura. O rosto possui ainda
uns matizes róseos de mocidade. Tem os olhos pequenos e
azuis e usa óculos, uns veneráveis óculos de grossos
aros
de tartaruga.
Ao redor desse homem, apertam-se muitos amigos,
desfazendo-se em cortesias e obséquios.
Se a um destes o leitor perguntar quem é aquele
velho, ele dirá espantado:
- Oh, não conhece! É o senhor duque de Bragantina!
É o duque exatamente. Vai caminhando pela rua
satisfeito, dirigindo aos que o cercam gracejos e
pilhérias, com a voz aflautinada que o caracteriza.
Quando passa por alguma rapariguinha gentil que lhe
sorri de uma janela, ele faz-lhe um cumprimento bem
desenhado, vai dissertando sobre um assunto qualquer. Ou
seja a explicação pela física da propriedade que tem
a
água de molhar, ou a virtus dormitiva do ópio. Não
gosta
dos assuntos transcendentais nem de objeções
impertinentes; discute para conversar, só para isso. E os
amigos o compreendem, não o contrariam.
Por alguns momentos de observação pode-se saber quem
é o duque de Bragantina. A roda de amigos que o envolve
diz-nos que ele é rico e poderoso; o cumprimento galante à
rapariguinha da janela indica-nos que ele é inclinado ao
sexo das belas; a sua conversa mostra-nos, pelo objeto,
que ele gosta da ciência; pela dissertação, que ele
não a
cultiva; pelo ar de imposição com que fala, conhece-se que
ele não admite obstáculo diante de si.
E tudo é verdade. Herdeiro do sangue orgulhoso de
uma extensa cadeia genealógica de requintada fidalguia ,
nasceu o duque da Bragantina com todas as predisposições
para o mando. Seu pai foi um cavalheiro educado nas
páginas dos Lusíadas; lera o poema dos lusos e decorara o
canto nono; daí a vida que levara de bravuras épicas e
galantes e fora um Leonardo que nunca deixara escaparem
Efires.
Filho de tal pai e continuador de tais fidalguias,
era impossível que no caráter do duque de Bragantina não
se fundissem os arrojos, as sensualidades paternas com as
arrogâncias da raça.
Na idade de quatorze anos, tendo perdido o pai aos
cinco, depois de uma educação viciada pela flexibilidade
bajulatória de alguns dos seus eduvadores e pela violência
ofensiva de outros, que deram ao menino uma duplicidade de
gênio, ora arrogante para uns, ora humilde para outros,
começou a imiscuir-se o jovem fidalgo na gerência da sua
vida e dos seus haveres.
A fortuna do duque era colossal. Facilitava-lhe uma
vida principesca. Conseguindo libertar-se dos tais
educadores impertinentes, viu-se o moço entregue à própria
natureza e às adulações dos seus áulicos.
Brilhante correu-lhe a existência. Fortaleceram-se
os sentimentos despóticos que lhe haviam plantado nalma
as adulações corruptoras dos seus primeiros mestres, ao
passo que não desaparecia o gérmen da falsidade que se
criara da necessidade de iludir aqueles a quem o duque
temia em pequeno.
Qual foi a conseqüência?
A conseqüência foi que derramaram-se precoces as
alvuras do encanecimento por sobre a cabeça do duque; e,
quando, em momento de rápida meditação, o fidalgo se
concentrava para fazer um exame de si mesmo, reconhecia-se
vazio dos recursos de que necessitava para apresentar-se
em rodas ilustradas, onde queria figurar, ao mesmo passo
que, pensando na vida, achava-se intimamente parecido com
o retrato moral de seu pai que lhe pintavam as tradições
de família, exceção feita das aventuras heróicas
e dos
rasgos de franqueza.
Por isso é que contavam à boca pequena uns episódios
grotescos do duque de Bragantina em várias sociedades
científicas e literárias, onde costumava apresentar-se;
por isso, também, o arrabalde de Santo Cristo ressoava
surdamente com os boatos tímidos das façanhas amorosas de
certo homem de barbas brancas.
Por felicidade do duque ele unira a sua existência à
de uma generosa fidalga, que sabia amargar em silêncio
todas as brincadeiras do esposo e distraía-se dos
sofrimentos domésticos, entregando-se de corpo e alma à
mais antiga prática da caridade para com os que
necessitavam dela.
Os moradores da pequena aldeia consagravam à duquesa
uma verdadeira adoração. Raro era aquele que não a
tinha
visto à sua porta, indagando do estado de qualquer
enfermo, aconselhando o uso de um medicamento, ou dando
disfarçadamente uma esmola...
Esta santa senhora esforçava-se por contrabalançar
com as suas virtudes os excessos do duque.
Em atenção a ela, algumas pessoas de consideração
permaneciam na roda perigosa do marido. Por essa razão, os
amigos do duque não eram todos da ordem dos alegres
companheiros de passeio pelas ruas de Anatópolis.
A estes, costumava o grande fidalgo dar a honra da
sua companhia durante o verão. Aos sábados, porém,
vinha
só, ou com a duquesa, visitar a quinta de Santo Cristo.
Na época que começavam os sucessos da nossa
história, apesar do estio, não se achava o duque em
Anatópolis.
Viera de lá por um dos sábados.
Tinha de voltar na segunda-feira e já o povo
anatopolitano se preparava para recebê-lo, entre regozijos
e foguetes. Mas o duque, não apareceu. Era uma grave
contrariedade para aqueles felizes desocupados. Tinham
talvez de passar uma semana sem ver na rua a esplêndida e
branca figura do fidalgo de chapéu Chile.
Um desgosto para eles e um motivo de tristeza para a
cidade.
Faltar aos seus habituais não era regra do duque.
Pelo contrário. Ele era o que se pode chamar a
pontualidade em pessoa. A pontualidade, porém, possui um
sério inimigo que, aliás, não é incompatível
com ela: o
capricho.
O duque era um homem caprichoso. Ainda uma
conseqüência do servilismo dos maus educadores.
Como homem caprichoso, não era de admirar que
deixasse uma vez de se apresentar em Anatópolis conforme o
costume.
O duque de Bragantina tivera na verdade um dos seus
caprichos.
Tinha dito na quinta que, depois do baile do marquês
de ***, em cujo palácio passaria a noite, iria diretamente
a Anatópolis, sem voltar a Santo Cristo. Um motivo
qualquer ou mesmo motivo nenhum o fizera resolver o
contrário.
Parece que o capricho explicava-se por uma
incumbência de que o duque encarregara o seu íntimo Manuel
de Pavia...
Por um motivo ou outro, o fato era que, no dia
seguinte ao baile do marquês de ***, às dez horas da
manhã, subia o duque as avenidas do palácio de Santo
Cristo, contra toda a expectativa.
Nessa manhã, gravíssimas coisas se haviam passado.
O palácio do duque era um inferno. Uma atividade
doentia se apoderara da mordomia, da criadagem, de todos
os que residiam no palácio ou na quinta.
Viam-se os criados correndo pelos corredores. O
particular do duque, que saíra do palácio na véspera,
fora
chamado a toda pressa. Os habitantes da aldeia situada ao
norte do parque afluíam às portas do palácio. Perguntava-
se, procurava-se, indagava-se, discutia-se, contrariava-
se; havia exacerbações, impertinências, iras, temores,
dúvidas, interrogações.
O palácio era um inferno, dissemos.
Imagine-se.
Acabava de ser invadido pela polícia.
Haviam comparecido delegados, inspetores, a polícia
toda, simbolizada pelo ativo e enérgico sr. dr. Louro
Trigueiro. A invasão do palácio não se fizera, porém,
em
nome da lei, contra a vontade de seus moradores. Muito
diverso disso. As autoridades tinham sido chamadas pela
gente da casa.
Apenas assomou ao portão o duque de Bragantina,
correram a ele, brancos, lívidos de contrariedade, de
receio e de indecisão, todos os que estavam na quinta. O
mordomo vinha tremendo como um gotoso; os criados vinham
pálidos como se caminhassem para uma guilhotina; o
particular não teve ânimo de apresentar-se. Ficou
prostrado em um dos aposentos.
À frente da multidão, que foi encontrar o duque,
notavam-se o chefe de polícia e o marquês dEtu, filho
único do duque de Bragantina.
O chefe de polícia era o dr. Trigueiro, a quem já
nos temos referido; o marquês de dEtu era o proprietário
de um belo palácio no pitoresco arrabalde das Bananeiras e
de numerosas coleções de quartos para morada de pobres, às
quais se dá geralmente o nome de cortiços.
Se aludimos a estas propriedades do marquês é porque
falar no filho do duque de Bargantina, sem tocar nos tais
cortiços, fora deixar incompleto um retrato.
O marquês dEtu era apelidado o príncipe dos
cortiços pela maledicência dos círculos aristocráticos.
Em
verdade a mofa da alcunha era justiceira. O marquês era um
produto abortivo do tronco dos Bragantinas. Um gentilhomme
profundamente bourgeois. Mas o seu burguesismo dava
somente para atribuir maior importância a uma conta de
açougue, com alguns tostões de menos, do que a quantos
documentos nobiliárquicos em regra fossem necessários para
ligá-lo à família dos Bragantinas.
Estes instintos de avareza não se enquadravam
perfeitamente com as orgulhosas liberdades do duque. Em
razão disso, pouco aparecia o marquês dEtu na quinta
do
Santo Cristo. O pai e o filho não alimentavam estreitas
relações. E, só uma causa séria podia levar
o marquês ao
palácio do seu ilustre pai.
Tinha, por conseguinte, uma importante significação
a presença do marquês em Santo Cristo.
Demais, o marquês, um homem de boas cores e militar
que se gloriava de alguns contestados mais brilhantes
feitos bélicos, dirigia-se ao encontro do duque com o
rosto desfeito, o olhar desorientado e alguma umidade
lacrimosa pelas pálpebras. Pobre soldado!
O duque de Bragantina achou esquisito aquele bando
de gente que se aproximava dele.
Aquele monte de librés verdes manchadas de amarelo,
botões azinhavrados, sobrecasacas pretas, jaquetas
rústicas; aquelas caras amedrontadas, a maneira de andar
daquela gente, a gesticulação desesperada do marquês
dEtu, a presença extraordinária deste fidalgo em sua
casa, o ar atrapalhado, cheio de risos verdes, azuis,
brancos e amarelos do chefe de polícia... aquela multidão,
aquelas fisionomias, tudo tão fora do comum... Para um
homem como o duque, que vivia bocejando nos grandes salões
e na monotonia dos dias da quinta, aquele aspecto
extraordinário causava um íntimo prazer. A curiosidade,
aguçada pela presença do filho, que havia muito não
o
visitava, pela presença da polícia, pelo rebuliço daquele
povo à sua chegada, causava-lhe gostosas titilações
no
espírito.
O duque, entretanto, amestrado proficientemente na
arte de fingir, aparentou simplesmente admiração.
- Que quer dizer esta revolução? - perguntou, como
se falasse consigo mesmo.
- Houve alguma coisa no palácio - disse, arregalando
os olhos, um amigo que ia ao lado do duque.
- Que há de ser, meu Deus? -murmurou assustada a
duquesa, que seguia apoiada no braço do marido...
Quem chegou primeiro foi o marquês dEtu. À medida
que adiantava-se, o marquês precipitava os passos. Por
fim, lançou-se para o pai, gritando:
- Roubado! Roubado!...
O príncipe dos cortiços esqueceu-se de saudar a
duquesa e de apertar a mão do duque.
- Roubado! - exclamava, com os lábios esticados e o
peito arquejante.
- Bom-dia, marquês! - disse-lhe friamente o duque.
- Roubado! - repetiu inconscientemente o marquês.
- O que explica a sua agradável presença em nossa
casa?... Então...
- Roubado! - insistia o príncipe.
- Acalme-se, marquês! - aconselhou pausadamente o
sr. de Santo Cristo. - Conversemos em primeiro lugar.
Depois...
- Fui roubado!
- Prenderam o ladrão?
- Sr. duque.
- Oh! Sr. dr. Louro!... explique-me o motivo por que
o vejo aqui hoje... Que negócio de roubo é este?...
- Roubaram-me! - interrompeu, fora de si, o marquês
dEtu.
- Sr. dEtu, tranqüilize-se, havemos de descobrir...
- Sr. duque - começou o chefe de polícia.
- Roubaram-me - cortou o marquês -, roubaram o anel
de minha mulher!
- Conte, dr. Louro... - pediu o duque.
- Dr. Trigueiro, conte - repetiu o marquês.
- Dr. Louro, estou curioso...
- Dr. Trigueiro, estou desesperado...
- Ora, sr. marquês... - disse com impertinência o
duque - sossegue! Deixe-me conversar com o doutor chefe de
polícia... Havemos de achar o anel.
- Um anel de quinhentos mil réis!... - gemeu
prolongadamente o marquês.
- Sr. marquês - disse o chefe de polícia -, as jóias
hão de se encontrar.
- As jóias? - interrogou o duque. - Então não se
trata só do anel do sr. marquês?
- De minha mulher! - corrigiu o marquês dEtu, no
seu tom lamuriante.
- Sr. duque, o negócio é muito mais grave - disse o
chefe de polícia.
O fidalgo coçou o queixo com o indicador,
mergulhando a mão nas alvas barbas e disse,
distraidamente:
- Sim?!...
E, voltando-se para um criado, que estava por trás
dele, perguntou:
- O cocheiro já entrou com o carro?...
- Como o sr. duque disse que queria subir a pé...
- Já sei... Já sei... Diga-me se ele já recolheu o
carro...
- Sim, senhor!
- Previna-lhe então para que não se esqueça de ver
por que está mancando aquele cavalo...
O lacaio fez uma continência e retirou-se
apressadamente.
O duque, do alto da sua estatura, deitou majestosamente
por cima da cabeça dos circunstantes um vagaroso
olhar para os gramados do parque verdejante à luz
da formosa manhã; depois de algum tempo, voltou-se para o
filho e para o chefe de polícia e disse-lhes muito
friamente:
- Se o negócio é grave, é melhor conversarmos dentro
de casa...
O chefe de polícia, meio enfiado por ver o pouco
caso com que o duque tratava um negócio considerado grave
pela polícia, teve de abrir passagem para o senhor de
Bragantina, que, havendo parado com a chegada do marquês
dEtu, punha-se de novo a caminho para o palácio.
O príncipe dos cortiços, sempre exaltado e nervoso,
teve de interromper umas coisas que dizia vivamente o dr.
Trigueiro, para igualmente deixar seguir o duque.
Formou-se logo uma espécie de caravan imensa, que se
foi alongando na direção da morada do duque de Bragantina.
À vanguarda, caminhavam os senhores da quinta, o
marquês dEtu, o dr. Louro Trigueiro, o mordomo do palácio
e o amigo inseparável do duque, o seu médico, o dr.
Jassey. Seguiam-se dois delegados de polícia, soldados,
criados e trabalhadores e, no extremo da marcha, um bando
de mulheres, tagarelando muito, com uns filhinhos redondos
e sujos enganchados ao quadril e outros agarrados às
saias.
Por cima da procissão, nadava um zumzum enorme e
confuso.
O duque caminhava em silêncio, olhando tranqüilamente
para o arvoredo do parque, acompanhando com a vista as
linhas caprichosas que as andorinhas traçavam no céu.
A duquesa, com a dificuldade própria dos anos,
aumentada pelos padecimentos, suspendia-se aos braços do
esposo e olhava para o chão, seguindo calada como o duque.
No pórtico do palácio a caravan dividiu-se: os que
iam à frente entraram no palácio. Os da retaguarda ficaram
quase todos parados em grupos, diante das escadarias do
edifício.
Havia lacaios do duque, jardineiros do parque e
moradores da aldeola da quinta.
Falavam muito, mas à meia-voz, como em respeito ao
palácio.
- Digam lá o que bem quiserem... Para mim, o ladrão
das jóias é gente da casa - afirmava uma mocetona robusta
e feia, remexendo os ombros e as gordas cadeiras...
- Eu também acho - concordava receosamente outra
mulher de seus quarenta anos, com as mãos cruzadas sobre o
ventre e um lenço amarrado à cabeça.
- Mas a corda da janela? - objetou de mau humor um
lacaio.
- Ora, a corda! - replicou a mocetona. - A corda
está lá porque a penduraram!
- Quem pendurou? Não foi quem teve necessidade de
subir pela janela aberta?
- Ora qual, seu José, então de dentro não se podia
atirar a corda?... Até aquele nó que lá está,
não era
possível que se desse, sem se achar muito à vontade
debruçado na janela.
- Mas quem lhe disse, sua bruxa...
- Bruxa... Olha lá, hein!...
- Quem lhe disse que o ladrão deu o nó, estando cá
embaixo?... Antes de dar o nó forte, ele atirou a corda,
que é bem comprida, passou uma das pontas por cima do
gancho, deu uma laçada com as duas porções, para a
corda
não escorregar; trepou até o peitoril...
- É uma história muito bonita, é; mas eu não
acredito nada.
- Ao menos foi a explicação que deu o Inácio, quando
descobriu o roubo - disse um velho jardineiro, entrando na
conversa.
- Eu não quero falar mal dos outros - replicou ainda
a teimosa mocetona - mas isto até faz desconfiar que um
ladrão de fora havia de saber onde estavam as jóias?
- Isto lá não - contestou a mulher de lenço na
cabeça, com o seu ar toleirão -, isso lá não...
os ladrões
sempre sabem onde estão as coisas; a prova é que
roubam... Isso lá não
- Isso, isso, o quê, minha tola? - interrompeu a
mocetona. - Você não sabe o que está dizendo... Não
se
meta aqui...
- Ah! sinhá Chica, não seja tão malcriada com a
gente...
- Pois eu tenho culpa de que você seja idiota?...
- Idiota, não!... Por causa de umas sirigaitas sem
coração é que a pobre da Emília está
lá para morrer...
Todo o mundo também a chamava de idiota... mas eram os
malvados...
- Ora, é muito boa! - tornou a sinhá Chica, pondo as
mãos na cintura como as asas de uma jarra. - É muito boa a
Emília estar atrapalhada com a sua tísica! Não sei
como se
há de culpar os outros...
- Você não se lembra daquela vez que ela chorou por
causa da Conceição?...
- Pois a Conceição veio cá com desaforos comigo...
apanhou...
- É! É!... Mas se o seu Januário não fosse um
pobre
velho, você não havia de fazer mal à criança...
- Vejam só!... ah! ah!... O seu Januário é o
primeiro a xingar a nora de maluca e a descompor a
Conceição... Demais, a Conceição não
tem nada com a
Emília... Não é filha... Não é sobrinha...
Ainda se eu
desse no menino...
- Está bom! Está bom!... Não quero questões
com a
senhora...
- Que me importa!...
Enquanto as duas mulheres discutiam a sua questão
pessoal, em outros grupos ainda se debatia vivamente o
negócio do roubo.
A crença geral era que o ladrão das jóias não
viera
do exterior.
Contra esta suposição protestavam, irritados, os
lacaios do palácio. Ninguém, todavia, deixava-se levar
pelos seus argumentos em defesa da classe, os quais se
reduziam todos mais ou menos à história da corda explicada
por Inácio, o descobridor do crime.
- Nada! Nada! - diziam. - Como é que um ladrão da
rua poderia saber que o lacaio que saiu do palácio do
marquês de ***, depois da reunião, levava uma riquíssima
porção de jóias? E, caso soubesse, por que não
lhe havia
tomado o cofre, aproveitando a falta de polícia de
qualquer esquina sombria.
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