As
Jóias da Coroa
Raul Pompéia
Capítulo III
Entre os portais desenhou-se a figura encarquilhada
do velho que o leitor conhece, arrimado ao seu bastão,
como uma ruína à sua escora.
- Já está por aqui? - exclamou ele.
- Já aqui estou, sr. Januário... Não sou sujeito de
faltar às horas, nem aos compromissos...
- Entre, entre, sr. Pavia...
Pavia entrou e, amparando o velho, foi com ele tomar
lugar num sofá decrépito, que espreguiçava a sua idade
e
as suas palhas arrebentadas ao longo de uma das paredes da
sala.
Pavia rompeu a conversa:
- Estamos bem aqui?...
O velho compreendeu.
- Estamos - disse. - A família toda está-se
acomodando lá fora para os fundos... Foram deitar-se...
Eu, que durmo aí nessa alcova próxima, posso ficar na sala
sem causar-lhes estranheza... Podemos conversar... Um
pouco baixinho... por prudência...
- Diga-me... o que conseguiu?
- Tudo.
- Então ela vai?
- Está morta por ir...
- Bem lhe disse eu que, quando você falasse na
amizade de Claudina e em passar alguns dias com a minha
mulher, ela não se recusaria...
- Ah! os planos do sr. Pavia são sempre bem
feitos...
- A Conceição di-lo-á daqui a dias...
O vento da noite barafustava pela porta e lambia as
paredes da sala, fazendo estalitar alegremente as flâmulas
de papel pendentes. O fogo da vela que clareava o lugar,
agitava-se impaciente ao redor do pavio, dando uma luz
incerta...
- A menina - continuava Pavia - vai ser recebida na
palma das mãos; vai dormir num gabinete azul, todo cheio
de cortinas transparentes, no meio de perfumes que
provocam sonhos... Ao amanhecer, será visitada por minha
mulher ou minha filha... Será vestida como uma boneca,
penteada como uma rainha... Sairá a passeio e tal... E o
fim há de chegar insensivelmente...
- Uma pergunta... se não é ousadia... - disse
receosamente Januário - mas o senhor desculpará... Sabe
que eu quero bem à minha afilhada...
- O que deseja saber?...
- O sr. duque...
- Que tem o sr. duque?
- É... é...
- É o quê?...
- ... muito violento...
- Pelo contrário, é macio como pelica... É um pouco
ardente talvez, mas isso é quando já não há
necessidade do
contrário... O homem sabe insinuar-se.
- Olha que a Conceição é viva como cobra... e ele...
- Não se arreceie... ninguém resiste facilmente ao
sr. duque... Ele tem um olhar que penetra e imobiliza...
Não fala muito... Fitando, ele faz mais do que falando...
As crianças são tímidas em geral... E a Conceiçãozinha
é
um pouco criança ainda...
- Bem... eu faço o negócio com o senhor... não sei
se é coisa limpa... mas desde que à menina não resulte
mal...
- Deixa de partes, meu velho... vamos concluindo a
coisa... Aqui tem o cobre...
O vento continuava a penetrar na sala, e as flâmulas
de papel riam com risadinhas de Mefistófeles.
Januário estendeu a mão magra, comprida, branca,
trêmula, e recebeu um embrulho de papel que Pavia
apresentou-lhe. Não disse palavra. Misturou apenas aos
sulcos que os anos lhe haviam aberto na face as contrações
de um sorriso baixo.
- Veja se amanhã mesmo faz a Conceição aparecer por
lá...
- Já estava convencionado com ela... Há de ir...
- Apesar de tudo?...
- Apesar de coisa nenhuma... Quando conversamos,
outro dia, sobre este negócio, eu disse ao senhor que não
havia obstáculo...
- Talvez haja...
- Que obstáculo?... Não vejo...
- A sua nora...
- Ah! ah! Aquela idiota?!
- Idiota?!... Você é muito velho, não é muito
vivo... Não sabe quem é aquela santinha de cara chupada e
olhos de irmã de caridade.
- Eu sei que ela tem seu gênio; mas não usa dele...
No tempo do marido, ela às vezes tinha seus
arrebatamentos... Depois, tornou-se completamente mansa.
Aquele ar tristonho, que cobre-lhe a fisionomia desde o
casamento de meu filho, isto é, desde que eu a conheço,
não se modifica mais com as iras que lhe conheci há
tempos... Atualmente está branda, branda como uma
idiota...
- Mau sinal...
- Por quê?...
- Tenho medo das mulheres tristes...
- Qual! a minha nora é mais idiota do que triste...
- Portanto a menina não falta...
- Não falta. O sr. duque não terá o desgosto de ver
perdida uma esperança do seu coração...
- Seria a primeira...
- Não será... pode o senhor ficar sossegado...
- Perfeitamente... Vou tranqüilo...
Continuava o riso mefistofélico das flâmulas de
papel. E Pavia levantou-se. Foi até junto da vela,
consultou o relógio. Eram onze horas mais ou menos.
- Ainda é cedo, murmurou.
E, voltando-se para Januário, que se erguera depois
dele, disse-lhe:
- Até outra vez. Boa-noite.
O velho respondeu ao cumprimento, e viu-o mergulhar
na escuridão do beco.
Não havia ainda fechado a porta, quando sentiu-se
agarrado freneticamente pela gola do paletó:
- Miserável! - dizia a voz de uma mulher.
Essa voz tinha uma energia selvagem, e era ao mesmo
tempo comprimida na garganta de quem falava.
Januário sentiu o pescoço ferido pelas unhas de quem
o prendia. Puxaram-no. Ele perdeu o equilíbrio. Tentando
agrarrar-se à parede, abriu as mãos. A bengala escapou-lhe
e caiu no soalho, ressoando longamente pelos cantos da
casa o rumor da queda. As mãos não encontraram saliência
na parede, a que se agarrassem. Foi lançado ao chão.
Arrastaram-no...
Quando o desgraçado pôde respirar, viu-se frente a
frente com a nora.
A terrível mulher o levara de rastos até uma
cadeira, e ficara em pé diante dele.
- Miserável... eu vi o que acabaste de fazer.
- Emília!... Emília!...
- Velho bandalho! Patife que estás apodrecendo
debaixo desses cabelos brancos... Ainda cometer crimes...
Não te enforco...
- Emília!
- ... não te sufoco entre os meus dedos, porque Deus
te vai afogar em breve na lama de uma vala... Quantas
vezes vendestes tuas filhas?... Quanto recebeu-te o
negócio, velho desavergonhado?... Pois não repetirás
o
comércio!... O que fizestes aos teus não farás aos
dos
outros. Tinhas o direito de vender o teu; não venderás o
alheio!...
A nora de Januário falava com os punhos cerrados,
perto da cara do velho. As palavras saíam-lhe dos lábios
faiscantes e caíam chiando sobre a cabeça do sogro...
- Escute-me, Emília! - balbuciava ele. - Escute-me!
Mas Emília estava surda de ira.
Apenas vestindo uma saia curta e uma camisa larga,
que lhe fugia pelos seios abaixo; cabelos soltos, caindo-
lhe secos pelos olhos e pelas costas; braços nus,
clavículas à mostra, em toda a fealdade da magreza e da
tensão dos músculos, aquela mulher fazia medo. Os
impropérios ferviam-lhe na garganta e elas os soltava
sobre Januário.
O velho estava aturdido.
A atitude repentina e inesperada da nora fazia-lhe o
efeito de muitas cacetadas ao mesmo tempo.
Felizmente, a falta de resistência acalmou um pouco
os furores de Emília.
- Eu ouvi daquela alcova a negociação que fizeste
com o outro infame, aquele demônio barbado... Eu já
esperava por essa entrevista. Contava com a fatalidade.
Cá, na quinta, corre tudo como num matadouro: cada vitela
tem o seu dia de ver o machado sobre a nuca!... Tu não
tiveste, miserável, um pouco de coração, nem um pouco
de
vergonha... foste fazendo o negócio...
- É para o teu filho mesmo, Emília... o meu neto...
- Não digas... não digas... Meu filho não precisa do
preço de torpezas. Dá-me esse dinheiro, dá-me,
desgraçado... quero queimá-lo naquela chama... Estás
ouvindo? Este dinheiro nunca será para meu filho!
Januário apertava involuntariamente contra o peito o
dinheiro que recebera de Pavia e metera no bolso.
- Não mo dás? - vociferava Emília. - Guarda para tua
avareza. Come-o!... Quem vai perder é aquele demônio que
saiu daqui... Minha... minha Conceição não entrará
em casa
dele!... Come o dinheiro, se quiseres...
E, bruscamente, da mesma maneira por que entrara,
Emília retirou-se da sala.
Capítulo IV
No meio do populoso arrabalde de Santo Cristo, abre-
se uma espaçosa superfície de terreno coberta de arvoredo
e de grama, arrebicada de quantos prodígios possui a arte
e quantos esplendores a natureza pode ostentar.
Há por aí florestas escuras por onde circulam
virações perfumadas, ricas de oxigênio e de poesia;
avenidas de bambus por onde fogem amores e murmúrios
suaves de folhagens; cascatas e grutas que têm por
lambrequins os volumosos cones estalactíticos e por
telhado zimbórios de pedra e incrustações de cimento;
a
água corre com a serenidade dos sonhos gostosos e vai
insensivelmente passando por sob o arqueado das pontes.
O sol brinca como um menino nesses lugares. Recreia-
se brejeiramente no alto do arvoredo, requeimando os
brotos novos, e escorrega para o chão a dar cintilações
coloridas aos bichinhos e a aquecer os camaleões vivazes e
ariscos.
Se atira-se aos lagos, cobre-os de palhetas de luz;
se passa pela pulverização da chuva das cascatas, pinta
arco-íris no ar e leva o dia na faina.
À noite... se não há lua, uma treva compacta, cheia
de aromas acres, penetra os balcedos e derrama-se pelos
declives relvosos que se vão espalmando para a beira dos
lagos; formam-se pirâmides sombrias no lugar das
casuarinas e dos eucaliptos; avolumam-se negros maciços
nos bosquetes de mangueiras e nos cerrados de bambus.
Todas essas negruras, entretanto, têm vida. Quem alongar a
vista pelas várzeas, distinguirá sombras deslizando em
segredo através da noite. Quem escutar a voz das lezírias
ao pé dos agrupamentos de árvores há de perceber palavras
que voam deliciosamente por entre as begônias.
Dos antros trevosos das grutas escavadas na pedra
não partem rugidos dos monstros apocalípticos das
cavernas. De lá do fundo sobem ruídos semelhantes aos da
bolha de ar rebentando a flor das águas; parece estar-se
ouvindo o rumorejar de beijos. São umas trevas
encantadoras aquelas das noites sem lua, nessas paragens.
Se vem o luar... tudo se multiplica. Em vez de
negrores, flutua pelo espaço toda a transpiração da
terra
banhada de fosforescências argentinas. A meia-luz
deleitosa invade os recantos do jardim; passa devagarinho
como uma nuvem de sílfides por meio dos fustes das
palmeiras, voa por cima dos gramados, levando no vôo todas
as borboletas notívagas; estende as roupagens alvacentas
por entre os renques de coqueiros; balança indolências nos
liames de cipó recurvado em festões; entra nos riachos e
mostra aos céus a sua nudez casta e branca.
A floresta goza uns estremecimentos sensuais, que
passam-se em silêncio como o adejar das corujas. Os poucos
lampiões que se acendem por aí parecem olhos fitando com
inveja os poemas vivos que correm de todos os lados...
Também como nas noites escuras, estas noites claras
do parque não são vazias nem ermas. As ruas areentas,
desenroladas como alvos tapetes através do campo, não
estão desertas. Há casais passeando, com os olhos pregados
no céu e os braços em amplexo; as sedas roçam as
casimiras, produzindo choques magnéticos da eletricidade
de Cupido.
Nos bancos, escondidos, à sombra recôndita de
qualquer copa frondosa, repetem-se episódios do paraíso.
A vida real desses lugares é verdadeiramente à
noite. Os dias se passam, radiosos, iriados, entregues ao
sol e aos insetos; as noites correm no meio da escuridão
ou dos luares, entregues a Vênus e ao silêncio.
No âmago desse jardim vasto e delicioso levanta-se
sobre um oiteiro, como um templo antigo, o vulto
monumental de um palácio. A luz das auroras despedaça-se
de encontro aos vidros de suas mil janelas, envolvendo-o
pela manhã numa atmosfera rutilante; os seus torreões
empinam-se vitoriosos no cimo de largas muralhas
alastradas de heras, os seus pára-raios vão espetar as
nuvens como lanças enristadas para o infinito; o seu todo
é grande, imponente, majestático.
Muitas vezes, à noite, o palácio toma uma fisionomia
fantástica; ostenta as paredes de trevas e janelas de
fogo. Supõe-se que seja um incêndio. É um baile. Ao
clarão
de mil bicos de lustres rodam nas valsas reputações e
galanteios, marcham nas quadrilhas temeridades e
finanças...
Aí não mora Sardanapalo.
Esse parque e esse palácio pertencem ao duque de
Bragantina. O duque cede esses domínios aos prazeres da
numerosa roda de fidalguia que o cerca a todo instante.
É por isso que, quando o duque de Bragantina está
ausente, esmorece completamente a febre silenciosa e
fecunda das noites da quinta. Faltam os fidalgos.
Aos fundos do palácio, para a banda do norte, como
sabe o leitor, ficam as habitações da vassalagem imediata
do duque. Aí é que mora, pois, o velho Januário e sua
gente.
Deixando a casa de Januário, Manuel de Pavia
encaminhou-se para as proximidades do palácio do duque.
Não caminhava à toa. Seguia devagar, mas com um destino
certo.
Acompanhou a espécie de estrada margeada de
espaçados lampiões, que vai dar a um dos portões da
quinta, junto do qual está o famoso retiro reservado à
jovem afilhada de Januário, mas, antes de lá chegar,
dobrou para a direita e em linha reta para o palácio.
Na linha dos muros que guarnecem a colina sobre a
qual foi construído o edifício, o excursionário noturno
parou.
Examinou o lugar e murmurou:
- Não há ninguém... Mas é muito cedo... Ele
não pode
ter chegado... Também não há pressa...
Pôs-se então a passear ao longo dos muros, muito
preocupado com ocultar-se na sombra que a elevação deles
espalhava por volta.
Por fim sentiu passos. As estrelas davam luz
bastante para se ver o necessário. Pavia distinguiu o
vulto de um homem que se avizinhava.
Um vago sentimento de temor estremeceu-lhe o sistema
nervoso. Aquele vulto não podia ser ele.
Se não fosse ele, se fosse um inimigo, se Inácio o
tivesse traído?... Aquele vulto podia ser o espantalho de
sua fortuna. A riqueza fabulosa, que ali de cima mesmo,
daquelas janelas, parecia sorrir-lhe nos reflexos
luminosos das vidraças que dominavam o muro, ia talvez
fugir-lhe por causa daquele homem...
Manuel de Pavia, que não era suscetível de medrosas
palpitações, ao menos dentro dos limites da quinta, sentia
que o coração abria-se-lhe em violentos diástoles...
- Aqui estou - disse o vulto a pouca distância.
- Oh, Inácio! - disse Pavia.
Capítulo V
Era , de fato, Inácio, o criado do duque, que o
leitor viu no princípio desta narrativa a conversar com
Manuel de Pavia. O inescrupuloso arranjador do negócio da
Conceição conversara longamente com Inácio a respeito
de
umas jóias do duque de Brangantina. A primeira das
conseqüências dessa entrevista era o encontro alta noite,
à base dos muros que protegem o torreão do lance esquerdo
do palácio.
No ponto marcado, encontravam-se os dois.
Antes de darmos conta ao leitor do que se passou em
seguida ao encontro no lugar marcado, devemos informá-lo
de uma circunstância de alta monta.
Na rua. no. ... há uma grande loja de ourivesaria.
Três grandes vitrinas de cristal abrem-se para o público,
apresentando o mais ofuscante e precioso conjunto de ouro
e pedrarias que s e pode imaginar. Sobre luxuosos lençóis
de veludo de carregadas cores, amontoam-se incríveis
porções de esmeraldas, sem engaste, rubis, safiras,
diamantes espalhados como se fossem grãos de milho,
mostrando com orgulho as mais delicadas clivagens e as
mais finas cintilações prismáticas que a imaginação
concebe.
No interior da loja, luzem pelas prateleiras os mais
belos produtos de ourivesaria, jóias de um valor
inapreciável, fabulosas pratarias...
O dono desse Eldorado é um negociante forte.
Disfarçada, a um dos ângulos da loja, entre dois
belos armários de madeira preta recortada em flores, e
luzidamente lustrada, existe uma pequena porta que
apresenta à vista o aspecto de um espelho encostado à
parede. Entra-se por aí para os compartimentos íntimos da
loja. Logo depois da porta, encontra-se um pequeno
escritório, biombo de madeira em volta, mobiliado por uma
escrivaninha, algumas cadeiras e uma grande burra sólida,
pesada e impenetrável como um monólito egipciano.
Coa-se para esse lugar a claridade de uma área
próxima. A essa luz frouxa escreve o guarda-livros da
casa, agente de quase todos os negócios do proprietário do
estabelecimento e, nesse caráter, homem da mais provada
confiança para o ourives.
Enquanto este, trajando como um gentleman, saboreia
preciosos charutos no meio dos lúcidos efeitos das
mercadorias do seu aristocrático negócio, indolentemente
arrimando os cotovelos aos caixilhos envernizados dos
mostradores, ou ao tapete escovado dos balcões, crivando
de moderados apartes a conversação entusiasta do grupo de
políticos seus amigos, que vêm todos os dias palestrar-lhe
às soleiras... no escritório por trás da porta de espelho,
o guarda-livros entabula as suas negociações.
Este empregado é um sujeito prático, inteligente,
fino e, além de tudo, tem um curso bem acabado de
mineralogia. É de pequena estatura, nervoso, tendências
dominadoras, voz enérgica, linguagem rápida, acompanhada
de sons guturais, irônicos, significativos. É feio de
cara. Nariz fino, olhos pequenos e espertos, pouca barba.
Tipo, fuinha; espírito, raposa. Chama-se Aleixo de tal.
Em noite de 11 de março de 18... duas conversas
importantíssimas travaram-se na grande ourivesaria.
Junto dos mostradores a balava-se a golpe de
alevantada retórica o ministério do tempo. Muitas vezes
estremeceram de susto os castiçais de prata e as badejas,
os tinteiros de ouro, as medalhas com as iniciais de
brilhantes, as pulseiras, os colares, os brincos, as
abotoaduras, as alegres fantasias... Eram os murros da
eloqüência dos políticos esborrachados sobre o balcão,
por
não poderem chegar à cara de qualquer ministro ou chefe de
partido contrário ao do orador.
Os circunstantes ou riam estrondosamente daquela
energia caricata, ou protestavam contra as asserções que
se faziam.
No escritório do sr. Aleixo havia coisa mais
interessante. Conversava-se com tanto fogo como na loja;
porém as palavras não faziam estrépito.
A pouca distância da escrivaninha, Aleixo prestava
atenção ao que dizia um sujeito moreno muito barbado de
óculos azuis. O bico de luz que alumia o escritório deixa-
nos reconhecer o sujeito. É o nosso Manuel Pavia,
ligeiramente disfarçado. Ouçamos o que ele diz:
-... Assim , vê o senhor que não haverá dificuldade...Não
há muito risco para mim em levar a cabo a empresa e
nenhum para o senhor em prestar-me um serviço que lhe dará
tanto lucro.
Fez-se uma pausa, durante a qual se ouviu uma
gargalhada sonora dos políticos que discutiam na loja.
Depois Aleixo começou:
- Disse-me o senhor que conta absolutamente com o
auxílio de um criado que reside no palácio... o duque vai
ao baile, dorme, como costuma, no palacete do marquês, vai
depois, sem voltar ao palácio, para a quinta de verão de
Anatópolis. A duquesa acompanha-o, sem levar,
necessariamente, as jóias com que se apresentará no
baile... ficam as condecorações do duque, etc... Toda essa
riqueza vai provisoriamente para um armário antes de ser
guardada definitivamente na burra... muito bem... sabe que
o particular do duque pretende aproveitar a ausência deste
para estar algum tempo com a família, que não mora na
quinta... não é assim?...
- Sim, senhor.
- E o senhor aproveita-se da ausência dele... Acha
fácil a coisa... Mas ainda não refletiu nas averiguações
que há de fazer a polícia...
- Já pensei, já pensei...
- Olhe que o negócio não é o mesmo daquelas jóias
que filaste à Milica, quando ela perdeu as graças do duque
e foi para a rua...
- Isso sei eu melhor do que o senhor - interrompeu
Pavia, movendo o queixo num gesto nervoso e impaciente. -
Por isso, o senhor há de dar desta vez mais alguma coisa
pelas pedras do que deu pelas de Milica...
- Não seja esta a dúvida... a coisa é a polícia...
a
polícia.
- Não morra de temores da polícia. Asseguro-lhe que
ela não fará coisa alguma... Se aparecer, perderá seu
tempo. Ficará nas interrogativas. Terá suspeitas apenas...
Suspeitará de mim como suspeitará de vários outros...
mas
suspeita nunca foi base para uma condenação...
- Mas a casa que o senhor alugou na Tijuca é um
indício...
- Como?... Se eu não me retiro da quinta?! Conservo-
me nas mãos da polícia até que ela se convença
da minha
inocência?!... Quem será capaz de imaginar que as jóias
roubadas estão em casa de tal ourives... aqui em sua
casa... Se alguém tivesse reparado na minha entrada hoje
aqui, e alguém notar a minha saída, se as minhas barbas
tivessem a mesma cor das que eu trago, se estes óculos
azuis fossem de meu uso... seriam indicações possíveis
à
polícia, caso ela desconfiasse deste estabelecimento... o
que fora loucura!... Mas felizmente...
- Certamente tudo é favorável. Todavia, que lhe
garante que não haverá testemunhas no jardim do palácio?
- Isto é um caso possível, mas não é provável...
Quando o duque está fora... a quinta é pouco
freqüentada... Os que lá moram, recolhem-se todos e
abandonam o parque... não é provável... E se não
houver
testemunhas, se não se encontrarem vestígios dos objetos
subtraídos, o que se há de fazer?
- É fato...
- Demais, eu estou convencido de que, se, apesar de
todas as minhas precauções, a coisa transparecer, terei
por mim o duque, que não quer perder-me e aprecia-me... A
tal duquesa vota-me um ódio de morte... Talvez se lembre
de acusar-me, mas é uma velhinha que não tem voz ativa na
casa... Tem-me ódio, por ter ciúmes do marido.
O guarda-livros aplaudiu com a sua risadinha
habitual e observou:
- Na verdade, se o senhor conta com a proteção
infalível da sua própria vítima, eu sou o primeiro
a
responder pelos resultados da empresa...
- Deixe a coisa andar..
- Até desejo muito a sua felicidade, porque não sei
se se lembra de umas jóias que nos levou daqui, há dias,
para uma nova menina que andava em vésperas...
- Lembro-me. Ainda não as paguei, mas pago. Aí
está... Do dinheiro que o senhor me der, eu desconto...
- É exatamente o que queremos... é o que nos
convém...
- Deixe a coisa andar... - brejeirou Pavia.
- E há de andar como um patim, estou certo...
- Mande, pois, uma pessoa de confiança, ou vá
pessoalmente, na noite de 13 para 14, esperar pelo
resultado da minha campanha e pelas jóias...
- Hei de ir eu mesmo...
- Acho melhor assim... Não devemos envolver muita
gente... nem todos são discretos, e... não há também...
tanta riqueza que chegue para muitos... nada!... Se fosse
possível irmos só, os dois... dispensando auxílio de
criados...
- Se são imprescindíveis...
- ... não há remédio... - concluiu Pavia, estremecen-
do o queixo, segundo o seu frenético costume.
Na loja, ressoavam ainda as exclamações dos
conversadores.
- Estamos convencionados - disse Aleixo, como para
encerrar os tratos. - Depois damanhã vou postar-me
onde... Ainda não me disse o lugar, creio...
- É verdade... É preciso determinar um ponto.
- Mas, qualquer...
- No matadouro...
- Bem... Coloco-me junto de um dos pilares do
portão... espero pela sua chegada até o romper do dia...
Vê que tenho boa vontade... Avalio o tesouro com a
honradez que sabe... e, conforme os valores, arranjo um
negócio muito ao sabor dos nossos interesses...
- É rigorosamente o que eu desejo.
Depois desta frase de Manuel de Pavia, seguiu-se um
silêncio profundo. Pavia, com os olhos cravados no chão,
absorvia-se em meditações.
Passados alguns momentos, sorriu de um modo estranho
e levantou o olhar para o guarda-livros. Aleixo firmava a
vista naquele honrado depositário da confiança de um rico
e poderoso duque, e assistia às cambiantes de expressão
que davam-lhe à fisionomia os arroubos da meditação.
Quando Pavia ergueu a cara, o seu olhar e o de Aleixo
cruzaram-se faiscando como os floretes de dois dignos
adversários que medem distâncias.
Ambos os adversários, depois de se medirem, trocaram
risos que traduziam claramente a compreensão que tinham um
do outro.
- Não devo sair enquanto estiverem aí esses
maçantes...
- Eles não se demoram. Às nove, fecha-se a casa. São
oito e trinta e cinco... Daqui a pouco o patrão deita-os
no meio da rua...
- Quando forem fechar a porta, eu retiro-me...haverá menos
gente na rua...
Ouviu-se uma risada na loja. Aleixo deixou Pavia no
escritório e foi espiar à fechadura da porta de espelho.
- Já vão, já vão! - disse, voltando-se para
Pavia. -
Não!... Ainda ficou um... Que ostra!... Ora, até que
enfim... Lá se foi o último! Se quiser sair agora...
- Já vou - disse Pavia.
- Portanto, até depois damanhã... portão do
matadouro... lá para uma ou duas da madrugada.
- Sim.
E Aleixo passou com Pavia para a loja.
Pavia despediu-se dele, cumprimentou ligeiramente o
dono do estabelecimento, que estava em uma porta a olhar
para a rua com as mãos cruzadas sobre as abas do fraque, e
foi-se.
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