As
Jóias da Coroa
Raul Pompéia
Capítulo XIII
Vejamos o que ia pela casa do velho Januário...
Por volta das duas horas da tarde, aparecera
Claudina, a filha de Pavia e camarada de Conceição
convidando a amiga a ir à casa dela. Januário exultou,
vendo que Pavia por seu lado trabalhava para facilitar o
negócio. Apressou-se em fazer Conceição sair, admirando-se
muito de não ser impedido pela resistência de Emília,
com
que contava. A nora mudara de modo de pensar... Conceição,
muito alegre por haver curado a boa Emília com seus
carinhos, achou muito a propósito um passeio à casa da
amiga Claudina...
Não se preocupou mais com a doença da nora de
Januário.
E foi-se, rindo de prazer, de mãos dadas com
Claudina, prelibando as agradáveis surpresas que
reservava-lhe o passeio...
Pelo resto do dia, Emília não sentia-se tão boa como
esperava. Começou a sentir uma debilidade que dizia-lhe
que as melhoras experimentadas haviam sido fictícias...
Não quis admitir. A fraqueza progredia e ela resistia-lhe
com todas as energias. Não quis afastar-se do serviço em
que auxiliava a velha sogra. Trabalhou. Mas a fraqueza
continuava, cada vez mais profunda, Reagiu ainda; não pôde
com a moléstia.
Ocultou, enquanto pôde, o mal que a prostrava.
Afinal sucumbiu.
- Precisava estar boa por amor da minha Conceição! -
murmurou ela, ao voltar para o leito...
Com a recaída de Emília, voltaram os cuidados da
mulher de Januário em relação ao peso do serviço
com que
se ia ver atrapalhada, caso morresse a sirigaita...
Tranqüilizou-se, porém, com esta reflexão:
- A Conceição já foi... o dinheiro está seguro...
Teremos quem nos sirva...
À tardinha, a caridosa duquesa, visitando os
moradores da aldeia da quinta, foi bater à porta dos
velhinhos do beco.
A mulher de Januário correu a buscar um xale novo e
veio pressurosa abrir, enquanto o velho marido ia preparar
uma fatiota mais asseada. A duquesa entrou sem repugnância
no casebre dos velhos, respondendo com generosas palavras
às cortesias que lhe dirigiam os moradores do pardieiro,
que elevavam-na à categoria de santa...
- Onde está a senhora Emília? - perguntou logo que
os cumprimentos acabaram.
A duquesa sempre se interessara pela pobre Emília.
Conhecia-a de muito tempo e não se lembrava de tê-la visto
sorrir, senão por triste cortesia, ou em resposta a
qualquer coisa amável que se lhe dissesse. Adivinhava que
aquela mulher sofrera muito e sofria ainda essa espécie de
indiferença dolorida que fica depois dos longos
padecimentos morais. Desejava conhecer o segredo daquela
melancolia, para ver se podia consolar. Emília tinha, em
compensação, uma profunda amizade à generosa fidalga.
Sempre que a duquesa apresentava-se era ela a primeira a
ir recebê-la e beijar-lhe as mãos.
A ausência de Emília foi que provocou a pergunta da
senhora de Bragantina.
- Ah!... a pobre Emília!... Está muito doente, minha
boa senhora - respondeu a mulher de Januário. - Levantou-
se hoje incomodada, melhorou um pouco durante o dia, mas à
tarde recaiu.
- Quero vê-la - disse a duquesa.
- Com licença...
- Qual, não é preciso arrumar coisa alguma... Sabem
que eu não reparo, mesmo porque, com os anos, vai-se
ficando cega... Diga-me onde está a Emília...
E assim falando, a duquesa, que não se sentara
ainda, foi-se dirigindo para o interior da casa. A mulher
de Januário precedeu-a e foi mostrando o caminho, fechando
portas, para ocultar os quartinhos mal arranjados.
Emília estava acondicionada em uma pequena alcova
que dava para a sala de jantar. A escuridão do crepúsculo
valia de noite na alcova.
- Acenda uma vela - disse baixinho a duquesa a
Januário.
Com o brilho da luz, Emília moveu-se na cama onde
jazia.
Estava com o rosto para a parede. O cuidado com que
todos entraram no quarto fê-la crer que só entrara na
alcova a sogra.
Vendo luz acesa, quis verificar quem era.
De um olhar, reconheceu a duquesa...
- Senhora duquesa! - disse com visível espanto.
- Como vai a senhora? - perguntou docemente a
fidalga penalizada de ver o estado da pobre mulher.
Emília tentou erguer-se para saudar a duquesa, mas o
esforço perdeu-se-lhe pelo delgado colchão da enxerga...
- Não se incomode! não se incomode! - pediu a
duquesa, dando a mão à doente.
Emília, com um movimento custoso, tomou aquela mão e
cerrou-a contra os lábios. Uma pequena lágrima
imperceptível nasceu no canto das pálpebras da duquesa...
A senhora de Bragantina sentiu que as mãos de
Emília, secas como o pergaminho, queimavam como brasa, e
os lábios estavam frios.
O quarto de Emília era um insignificante aposento
atulhado de caixas e móveis, mais ou menos inválidos. Aqui
uma cadeira sem encosto, ali um banco com três pernas, a
um canto uma cômoda macróbia, pilhas de caixas e caixões
recheados de quanto farrapo pode a miséria acumular... As
paredes eram simplesmente caiadas; o tempo e a fumaça
tinham-nas pintado de negro. Havia um asseio relativo no
lugar. Por uma grande janela, cuja vidraça estava meio
suspensa, calçada por uma garrafa vazia, entrava a viração
da noite.
Por uma rápida inspeção a duquesa reconheceu que
Emília estava mal. Depois de sentar-se numa cadeira que
lhe haviam colocado ao pé da cama, a senhora de Bragantina
conversou com a mulher de Januário sobre o incômodo que a
doente sentira pela manhã.
- É necessário chamar um médico - disse no fim da
conversa...
- Não, senhora - disse Emília - para que chamar
médico?... Eu não sofro nada...
Depois acrescentou:
- É só esta fraqueza... esta fraqueza...
- É por causa desta fraqueza mesmo - disse a
duquesa.
E fez um gesto a Januário para que fosse ver o
médico.
- Chame-o em meu nome - disse.
Januário saiu e foi à casa de um médico que tinha
grande clínica na quinta.
- Então? Não está-me parecendo que a tal minha nora
bate a bota?! - disse ele em caminho - Tenho visto muita
gente acabar assim...
- Desde quando sofre esta fraqueza? - perguntou a
senhora de Bragantina a Emília.
- Ih!... é coisa velha - disse Emília com uma voz
suspirosa e suave. - Há muitos anos que padeço este
abatimento, esta perda progressiva de forças... Hoje,
depois do acesso da madrugada, que me prostrou muito...
hoje foi o dia que melhor tenho passado, de um certo tempo
para cá... Passei mesmo muito bem hoje... Acreditei até
que estava completamente boa... Não sei por que motivo...
aí pela tarde adiante, comecei a sentir um cansaço... que
não pude mais... Tanto que desejava conversar com a
senhora duquesa...
- Comigo?... Sobre o quê?...
- Sobre coisas muito graves...
- Graves...
À duquesa pareceu lobrigar uma pontinha erguida do
segredo da melancolia de Emília.
- São gravíssimas... Eu pretendia dirigir-me a
V.Exa., logo que soubesse da sua chegada de Anatópolis...
Soube que não tinha partido hoje, mas não me foi possível
sair... Deus quis que a caridade de V.Exa. a trouxesse ao
nosso casebre...
- Vim passear...
- ... Não quero guardar comigo um segredo que pode
causar uma desgraça terrível... A minha fraqueza me faz
recear...
A duquesa, até então interessada por uma curiosidade
simplesmente generosa, sentiu-se presa de uma necessidade
imprescindível de conhecer o segredo de Emília...
A sua imaginação desprendida pôs-se a criar castelos
de sangue, mistérios trágicos, crimes ocultos, coisas
hediondas de que fora vítima, ou quem sabe? autora aquela
mulher calada e sombria...
A duquesa teve medo; mas sentia ao mesmo tempo a
vertigem da curiosidade, que arrastava-a para aquele
segredo formidável... Além disso, que desgraça era
esta
que a doente temia?... Seria tudo aquilo delírio. Mas não!
A enferma apresentava uma firmeza de idéias que não fazia
supor que delirasse...
- A senhora revela o segredo... não é? - perguntou a
duquesa, para ver se a resposta da doente destoava das
suas primeiras palavras.
- Revelo, senhora duquesa - respondeu serenamente
Emília - mas somente quando aqui não houver gente
demais...
A mulher de Januário não ouviu o que disse a
enferma, ou fez-se desentendida...
A duquesa voltou-se para ela e disse:
- Tenha a bondade de retirar-se, porque a senhora
Emília precisa falar-me em particular...
- Pois não! pois não, senhora duquesa!... Já que ela
não quer que esta pobre velhinha lhe conheça os
segredos...
- Estamos agora sós - falou a duquesa, vendo sair a
velha -, pode contar...
Emília fez um grande esforço e sentou-se na cama.
- Quero falar sentada, sim.
A duquesa amontoou alguns travesseiros, e a doente
encostou-se neles, olhando para a janela. Esteve por
momentos perdida numa espécie de abstração, sem dar
mostras de que lhe fosse pelo cérebro o menor pensamento
tempestuoso.
A duquesa encarava religiosamente aquela mulher de
faces lívidas, escavernadas, e olhos cheios de um brilho
forte, mas calmo como o luar. Parecia-lhe que ia ouvir uma
moribunda. A sra. de Bragantina aguardou em silêncio que
Emília quisesse começar...
A doente sorriu, como se ouvisse alguma palavra
agradável, e perguntou:
- A sra. duquesa não ignora talvez, que há nesta
casa uma linda mocinha, afilhada de meus sogros...
- Sei... A Conceição? não?... E onde está ela?...
não a
via hoje...
- Está fora... V.Exa. não simpatiza com ela?... Oh!
Aquela menina é uma pérola... tão boazinha!... tão
alegre... Leva sempre a rir... alegrando a gente... Pois
não há quem saiba a verdadeira origem desta criança
encantadora...
- Ninguém?!...
- Ninguém... menos eu e um indivíduo que mora aí na
quinta... Ai! meu Deus, aquilo não é um homem, é pior
do
que o sapo, é pior do que a víbora...
Emília passou a mão pela fronte e continuou:
- Ninguém mais sabe; ninguém mais pode saber!... É
o
segredo de uma vergonha... É uma história que arrasta na
lama o nome de uma miserável...
A duquesa percebeu que Emília se fatigava,
falando...
- Olhe... a senhora está se cansando... não fale
mais... quando estiver melhor, a senhora conta...
- Não, sra. duquesa... não paro... Vou contar toda a
história... Não me canso, porque, juro-lhe que o peso do
meu segredo é mil vezes maior... Quero revelá-lo para ver
se durmo... se fico ao menos aliviada... Há mais de
quatorze anos que esta história esmaga-me a vida dia por
dia, hora por hora...
... Havia em ***, uma moça, filha de pais
remediados, donos de um pequeno sítio fora da cidade... Um
dia passou pelo lugar um grande fidalgo cuja chegada foi
ansiosamente esperada na cidade, e chegou no meio de
festas e foguetaria... Era um grande fidalgo
brilhantemente acompanhado... Um homem maduro, forte,
corado de vida, ardente como um mancebo... Uma jovem de
populaça, uma louquinha sorriu para o fidalgo ao vê-lo
passar na cidade... julgou-se feliz, vendo que não ficara
sem ser notado o seu sorriso...
Emília fez uma pausa, e respirou largamente como
quem acaba de escalar um monte. Depois, prosseguiu:
... Essa louquinha era a filha dos donos do
sítio... Fora à cidade por causa da festa... Não me
demorarei nas minúcias... Na mesma noite da chegada do
fidalgo a moça teve um sonho horrível... Fora deitar-se
pensando na atenção que lhe dera o fidalgo... Muita gente
dizia-lhe que ela era bonita... aquela atenção parecia
confirmar... A vaidade da pobrezinha fora lisonjeada...
Adormeceu...: via no sono dois olhos do fidalgo fitando-a
como de dia na cidade, fitando com uns olhos que pareciam
bocas abertas para devorar...
De súbito, percebeu que suspendiam por fora a
vidraça de uma janela do quarto, que dava para o telheiro
de uma estrebaria. Por não sei que circunstâncias as abas
da janela estavam abertas... A noite estava escura como
breu, o quarto tinha a luz indecisa de uma lamparina... A
moça viu além da vidraça vultos movendo-se... O medo
fê-la
enrelegar-se no leito... De um momento para outro... a
desgraçada viu dois homens embuçados em grandes capas
negras, chapéus enormes na cabeça; silenciosos como
cadáveres, próximos da cama... ameaçadores... Teve
medo;
atirou-se para fora do leito... Os dois homens, rápidos
como demônios, prenderam-na... Dedos rijos como tenazes
seguraram-lhe a garganta... Os gritos de socorro ficaram
estrangulados... Então, um dos homens, uma espécie de
gigante muito barbado, apoderou-se dela e disse ao
companheiro:
- Deixe-a comigo...
A infeliz reagiu, bracejou, arcou com o gigante,
cravou-lhe os dentes, deu-lhe com as mãos no rosto,
segurou-lhe as barbas, tudo em vão... As dentadas não
passaram da lã do capote, e o gigante agarrou a vítima
pelos dois braços, vergou-a, torceu-a como se a fosse
partir!... Foi um sonho horrível!... A moça, antes de
poder soltar um grito, viu-se arremessada sobre o leito
donde fugira... Foi então uma brutalidade!... A
desventurada sentiu faltar-lhe a respiração, e, sufocada,
mordida, contusa, esmagada, macerada com se a houvessem
arrastado por cima de um chão pedregoso, desfaleceu num
estado miserável... miserável, sra. duquesa!...
Neste ponto da narrativa, Emília inclinou a cabeça
para o peito. Uns soluços convulsivos, sem lágrimas,
subiram-lhe do peito com uma violência atroz e ferveram-
lhe na garganta, imprimindo fortes estremecimentos a todo
o corpo como vascas de dor.
A duquesa, sem poder articular uma palavra, cobriu
os olhos com um lenço...
Passaram-se alguns momentos.
- Ai meu Deus! - disse Emília com a voz cansada. -
Tenho medo de não poder chegar... ao fim... Estou me
sentindo muito mal... Faltam-me as forças... é
esquisito... parece que estou muito pior...
- Tranqüilize-se, minha filha - disse comovida a
duquesa. - Tranqüilize-se... não se morre assim...
Um sorriso angélico, que não significava alegria,
passou como um relâmpago pelos lábios de Emília...
Já havia acabado a exaltação que a fizera soluçar.
Com a serenidade ligeiramente queixosa que revelara no
princípio a doente recomeçou:
- Dentro de pouco tempo as coisas se encaminharam
por tal forma que a vítima daquele horrendo sonho teve de
fugir... fugir de casa corrida de vergonha e de infâmia...
Um cartão que tinha gravado um nome poderoso e uma coroa
ilustre, encontrado casualmente pela moça, era a sua única
esperança. Este cartão continha uns oferecimentos que
fariam corar, se o caso não fosse extremo... A pobre
fugitiva recorreu àquela imunda salvação... Graças
ao
cartão... a filha dos proprietários do sítio de ***,
a
vítima daquele sonho brutal, a mísera criatura, que fugia
diante da sua vergonha, fez uma longa viagem e veio ter ao
palácio de Santo Cristo...
A duquesa estava como que atordoada, sofria
duramente com a narração de Emília...
- ... veio ao palácio de Santo Cristo, porque a
coroa do cartão era uma coroa de duque e o nome era o do
senhor de Bragantina... porque era este senhor o fidalgo
viajante que dera à mocinha do povo que sorrira... porque
o gigante feroz do sonho fora ainda o senhor de
Bragantina...
- O duque?!...
- Ah! minha boa senhora, ela merece o seu perdão,
recorreu ao seu marido porque ia ser mãe. Não tinha
direito de afogar um filho em qualquer pântano,
suicidando-se... Veio pedir abrigo... Teve um cochilo aí
no arrabalde...
...Passados tempos, contratava-se o seu casamento
com um sujeito de ínfima classe... Era a proteção generosa
do sr. duque... O tal sujeito recebeu indiferentemente a
carga que lhe atiravam e uma criaturinha recém-nascida que
a mulher que lhe davam criava com muito afeto e cuja
proveniência ordenaram-lhe que não indagasse...
Essa criaturinha, improvisada pelo sr. duque de
Bragantina, essa excrescência no lar para um indivíduo que
não passava de seu humilde lacaio, essa coisa estranha,
essa verruga, era a linda Conceição, que a sra. duquesa
conhece e a esposa que se dava ao lacaio era eu!...
- A Conceição - exclamou a duquesa - é, portanto,
filha...
- Da minha vergonha - murmurou Emília...
A pobre nora de Januário sentiu um desfalecimento
profundo. Ao pronunciar a última palavra escorregou pelos
travesseiros a que se arrimava e caiu no leito como
morta...
A duquesa acudiu assustada. Verificou que fora uma
conseqüência da debilidade da enferma...
- Quer ficar deitada, ou deseja que eu a sente como
estava?
- Rogo-lhe que me sente - respondeu Emília, com a
voz balbuciante. - Tenho ainda a dizer alguma coisa...
quero morrer tranqüila... Não peço que mande chamar um
padre... porque não chegaria a tempo... E é preciso
aproveitar os momentos que me restam... prevenir a
desgraça... prevenir a fatalidade...
A duquesa, que se esquecera das primeiras palavras
de Emília, por causa da sua curiosa narrativa, lembrou-se
de que tudo o que se dissera não passava de preâmbulo ao
assunto grave...
- Não quero que se chame um padre - continuava a
doente - porque seria perder grandes momentos... sra.
duquesa, rogo-lhe que me ouça bem... Sou uma pobre
moribunda... Vou confiar-lhe a miserável herança...
Recomendo-lhe a minha Conceição, a linda bastardinha
inocente... Tenho um filho, o filho do meu infame
casamento... É pequenino, mas tem os avós que o adoram...
A desamparada é Conceição... É a filha da minha
vergonha,
mas tem um grande sangue nas veias... Não! não é a
filha
de um lacaio que aceita por servilismo uma vagabunda sem
honra... Nunca admiti que chamassem minha filha, porque eu
era a mulher de um miserável... Conceição é
a relíquia da
minha pureza despedaçada... Eu adorei-a sempre... Agora
vou morrer... Não pensava que fosse tão cedo, mas adivinho
que não falta muito... Vou deixar a vida... não quero que
ela me vá cuspir na cova por eu ter sido a autora da sua
desgraça. Aproxime-se bem de mim, sra. duquesa... A voz me
vai... faltando de todo... não perca uma palavra...
Sentia-se uma transformação no semblante da
moribunda. Percebia-se-lhe nos olhos alguma coisa de fazer
calafrios, como se a morte estivesse a espiar por eles.
- Preciso de ar... levante ali a janela...
A duquesa correu à vidraça e suspendeu-a, voltando
para junto de Emília.
O ar impregnado de perfumes campestres entrou em
turbilhões, fazendo vacilar a luz da vela que clareava o
quarto e agitando os cabelos desgrenhados e secos da
moribunda...
- Está bom o fresco - disse Emília sorrindo
tristemente...
Depois, com grande espanto da duquesa, perguntou
cheia de gravidade:
- Conhece Manuel de Pavia?...
- Conheço este desgraçado.
- Diz bem... um desgraçado... Este homem que foi
cúmplice do duque na minha ruína... Ah! eu bem o
reconheci... Este homem acaba de comprar ao meu sogro a
honra de minha filha para oferecê-la ao duque...
A duquesa apertou a fronte entre as mãos para que
não arrebentasse. O coração palpitava-lhe com uma
violência mortal...
- Ah! sra. duquesa, é um belo presente para um
pai!...
- Perdoe-me, pobre senhora! perdoe-me! - exclamou a
duquesa abraçando e cobrindo de lágrimas a moribunda.
Desatinava como se fosse enlouquecer...
- Mas o duque!... - exclamou com a voz angustiada,
sem saber o que falar.
- O duque - disse a doente -, o duque ignora... O
perigo é enorme. Rogo-lhe que salve minha filha... Ela
está em casa de Pavia... Foi hoje... deixei-a ir, porque
enquanto o duque estiver ausente... Salve-a... Entrego-
lha.
- Ah! meu Deus! meu Deus! - exclamou a duquesa...
Acabava de ver um tremor agitar os olhos de Emília e
a cabeça tombar-lhe para os seios, em toda a flacidez da
inércia.
A mãe de Conceição lançara o derradeiro olhar
ao
retalho de noite que se via pela janela aberta e, fitando
saudosamente uma estrela, inclinara a cabeça ao peso da
morte.
Na estrela que viu por último, deixou escrito um
adeus para aqueles que havia quatorze anos não sabiam
dela.
Capítulo XIV
A chegada de Conceição casa de Pavia foi uma festa.
Houve tanto prazer que ninguém acreditaria que o
chefe daquela família fora preso. É que Manuel de Pavia
dissera à mulher coisas tranqüilizadoras...
Cada um cuidava apenas em fazer agrados à
companheira de Claudina. As horas correram
insensivelmente. Houve um jantar que surpreendeu a
Conceição. Iguarias nunca vistas; vinhos nunca sonhados.
Foi notável o interesse com que a mulher de Pavia
serviu de bebidas a linda hóspede. Conceição, com a
sua
rusticidade descerimoniosa, foi provando de tudo que lhe
davam.
Ao fim do jantar, sentiu-se presa de uma sonolência
estranha. Quis retirar-se. Todos protestaram, dizendo que
ela não iria para sua casa, senão no dia seguinte.
Conceição ficou.
Muito cedo começou a família de Pavia a preparar-se
para dormir.
Conceição foi conduzida pela dona da casa ao
esplêndido aposento que lhe era destinado. Um Éden de
perfumes e tapeçaria. Clareava-o brandamente uma pequena
lâmpada de porcelana, a desferir luares rosados para os
largos espelhos que adornavam o quarto, nos intervalos de
luxuosos móveis de toilette. Duas grande janelas, veladas
sob alvíssimos panos de renda pendentes de maçanetas
douradas, davam passagem às aragens frescas que circulavam
por fora. Erguendo-se estas cortinas, viam-se, a entrar
pelas janelas, debruçados indiscretamente sobre o
peitoril, frondosos ramos de jasmineiros, que alastravam
de flores o peitoril e desprendiam aromas, nocivos talvez
àquela hora, mas de uma doçura celestial, enervante. Era
indescritível a luta silenciosa mas renhida, desses aromas
com a perfumaria dos frascos perdidos pelo boudoir.
Conceição, ao entrar, sentiu-se atordoada por aquela
orquestra viva de fragrâncias. Morta de sono, como se
achava, não levou grande tempo a reparar nos esplendores
do ninho que entregavam. Procurou a cama. Era um prodígio
de marcenaria que nem de longe recordava o seu leito da
casa de Januário. Conceição não gastou um momento
de
admiração daquelas rosetas de madeira lavrada, daquele
precioso cortinado escapando-se de uma elegante cúpula de
cetim azul e derramando à farta torrentes de vaporozas
gazes por volta da cama...
Depois que a mulher de Pavia despiu-a e adormou-a
sedutoramente com uma impalpável camisinha de cambraia cor
de neve, a moça deixou-se cair sobre o colchão fofo, que
fugia-lhe sob o corpo ao menor movimento, e formava-lhe
sempre um berço cavado muito macio, desafiando sonhos
etéreos, fazendo-a supor-se balançada numa rede de nuvens
entre as estrelas.
Conceição volveu-a durante algum tempo, provando com
o corpo a frescura dos lençóis; depois, cedeu ao sono.
Mergulhou segundo seu hábito, os braços debaixo do
travesseiro e ficou imóvel.
Quando a mulher de Pavia veio ao aposento, trazendo
à hóspede uma xícara de chá com biscoitos, achou
Conceição
dormindo a sono solto...
Não a despertou. Demorou sobre ela um olhar e um
sorriso misterioso e foi-se para o seu quarto, tendo o
cuidado de deixar aberta, numa saleta contígua ao aposento
da hóspede, uma porta por onde se entrava do jardim.
A necessidade desta providência era a visita do
senhor de Bragantina, que viria à sua entrevista, sem
incomodar os que dormiam em outros aposentos.
Quando o relógio que fazia parte dos adornos do
dormitório da moça tilintou meia-noite no tímpano oculto
por trás de uma requebrada Psique, toda risonha da sua
nudez lustrosa de bronze, nessa hora de caminhadas
românticas à cata do ideal vedado, surgiu o duque de
Bragantina à porta do ninho de Conceição.
Vinha trêmulo de sensualidade. Penetrou no seu pomar
de luxúria, medroso como um menino perdido no bosque. Os
perfumes do ambiente embriagaram-no.
A luz lasciva da lamparina não iluminava coisa
alguma distintamente. Todos os objetos pareciam feitos de
nuvem. A meia-sombra, carregada pelo azul-escuro do papel
das paredes, aumentava as proporções do lugar,
emprestando-lhe uns ares de imensidade.
Envolvido naquele mundo de coisas fantásticas,
impregnado, até o âmago dos pulmões de cheiros
inebriantes, o duque julgava-se como que suspenso numa
alvorada... O seu olhar ia direto a um ponto e absorvia-se
todo, sem deixar um relance para sentir a realidade...
Ela estava a dormir... Os lençóis cercavam-na como
um ninho de édredon. Além de pequenina, ela encolhia-se
com uma timidez infantil. Cabia toda num beijo. A
respiração, compassada pelo tique-tique do relógio
de
bronze, fugia-lhe tranqüilamente pelas narinas, soando no
meio do silêncio da noite como o adejo afastado de um
beija-flor. Através da cambraia da camisa que a cobria
como uma lâmina transparente de neve sentia-se passar o
fogo de um vulcão de puberdade. Pela gola rendada saía até
a raiz dos pequenos seios, um busto fidiano de mármore
cor-de-rosa, animado pela circulação ardente que
formigava-lhe nos veios.
À beira daquele abismo de juventude e sedução, o
duque cambaleava de vertigem...
Cada passo que dava era um arrependimento e uma
vontade de fugir. A posição inocente da mocinha adormecida
causava-lhe terror. Não era seu hábito porém tanta
candura
fazia-lhe medo. Era pavorosa aquela virgindade.
Mas cada vacilação de fidalgo era um recuo de maré
crescendo. Fugia da virgindade, e a sedução arrastava-o.
Marchava para a frente como um soldado covarde, aguilhoado
pela disciplina. A atração do precipício era irresistível.
O duque chegou até a cama. Inclinou-se para a
frente, eriçado como uma hiena. Era terrível aquele velho,
inflamado de voracidade. Todo ele estremecia como se
houvesse lavas a ferverem-lhe no íntimo. A violência da
respiração arquejante ouvia-se-lhe como o chiar
interrompido da válvula de uma caldeira. As narinas
abriam-se-lhe e baixavam, recolhendo todas as emanações
cálidas que subiam do leito...
Contemplou assim, por momentos, a moça adormecida.
Em seguida ajoelhou-se na pele de onça, estendida
como um tapete aos pé da cama, pousou os cotovelos no
chão, cruzou as mãos e sobre elas deitou as barbas. Era
cruel para consigo mesmo. Queria prolongar, isto é,
multiplicar a própria ansiedade.
Os cabelos soltos da moça esparramavam-se abundantes
pelos travesseiros emoldurando-lhe em ébano o rosto níveo,
vagamente risonho.
Este rosto estava voltado para fora, na beirinha do
leito, quase pendente, assim como um fruto que vai cair de
maduro. Juntinho deste semblante, castamente fechado como
certas flores que se contraem durante a noite, estava a
fisionomia esbraseada do ardente fidalgo. Era já um
delícia incalculável para o duque a respiração
morna
daquele sono.
Entretanto, uma pessoa que penetrara no quarto muito
antes do duque e, sentada num dos ângulos da sala, vira-o
chegar, sem que o duque desse pela sua presença, levantou-
se da cadeira que ocupava e aproximou-se silenciosamente
dele.
O êxtase do fidalgo não o deixou perceber a pessoa
que fizera ficar de pé por trás dele.
No momento em que o duque, sem mais poder conter-se,
levantava-se do tapete, sentiu um peso sobre os ombros e
tornou a cair de joelhos.
- Não te levantes - ordenou-se uma voz meio contida,
mas ferozmente enérgica.
Aterrado, o sr. de Bragantina levantou a cabeça...
Era a duquesa!
- Não te levantes - dizia ela nervosamente. - Pede
perdão a tua filha.
- Minha filha! - gaguejou o duque, fulminado pela
aparição da mulher.
- Sim, tua filha, desgraçado!... a mãe acaba de
morrer miseravelmente, viúva de um dos teus lacaios...
Daí a sete dias, dava-se liberdade a Manuel de Pavia
e aos indivíduos suspeitos do crime.
A língua do boato murmurava que, no dia seguinte ao
da descoberta do crime, o duque se levantara acabrunhado
como um doente; que recebera a visita do dr. Louro
Trigueiro; que começara-se a dizer então que as jóias
tinham sido encontradas.
Era o caso, que o chefe de polícia, visitando Pavia
na casa de detenção, ameaçara-o com a energia do duque,
que o reduziria à última miséria, se não revelasse
o lugar
onde estavam depositadas as jóias. O criminoso, exigindo
garantias de impunidade, confessou tudo e declarou que o
tesouro da coroa estava enterrado num lugar que ele
mostraria... Senhor destas disposições de Pavia, dr.
Trigueiro correu a comunica-las ao duque.
Encontrou o fidalgo de mau humor como nunca lhe
encontrara. Com as novidades do chefe de polícia, o duque
ficou mais sereno. É que o sr. de Bragantina,
profundamente abalado com a surpresa que tivera em casa de
Pavia, temia que a permanência deste em detenção desse
lugar a comentários, os quais, somando-se aos murmúrios
necessariamente provocados pelo procedimento da duquesa,
levantariam um rumor terrível ao redor do seu nome...
- Participe ao Pavia - disse rapidamente o duque ao
chefe de polícia - que, daqui a sete dias, ele está livre
e virá desenterrar as jóias... É só o tempo
de se buscar
provas de culpabilidade e inocência... Isto é o que o
senhor dirá, se por acaso algum estranho perguntar por que
estiveram presos tão pouco tempo... Por fim de contas, não
foram as provas que fizeram conhecer-se o criminoso... Foi
uma suspeita que ninguém teria o direito de levantar... A
polícia fui eu. Depois... o negócio acabou
maravilhosamente... Para dar algum colorido
característico, eu expulso de meu serviço o particular e o
Inácio... Ao patife do Pavia, o mais que posso fazer-lhe é
deixá-lo no ofício para que um dia um cacete honesto
esmague-lhe a nuca, aí em qualquer esquina do arrabalde...
Veja que sou justo...
Tempos mais tarde, apresentou-se na quinta um
caixeiro, procurando sequiosamente pelo sr. Manuel de
Pavia e apresentando um cartão de visita com o nome de
Aleixo de tal...
Mais tarde ainda, numa pequena festa que houve na
aldeola da quinta, por ocasião de um casamento de um
lacaio do duque de Bragantina, a noiva, uma mocetona
rechonchuda e corada, conversando com as amigas sobre o
roubo das jóias da coroa, remexia os olhos e os ombros, a
falar:
- O meu minguinho não me enganou... Eu assegurava
que o negócio havia de dar em muita porcaria ou em muito
silêncio... Digam lá vocês se no palácio mexe-se
mais no
negócio dos ladrões... Depois da morte de sinhá Emília,
que Deus guarde na sua glória... Coitada, morreu nos
braços da sra. duquesa, que fugiu da casa da Gertrudes
como uma doida... só muito depois disso é que me contaram
em segredo que as jóias tinham sido achadas no quintal de
seu Mané de Pavia e que o sr. marquês dEtu andou muito
contente abraçando os inquilinos dos cortiços feito
maluco...
Eu bem dizia... eu bem dizia...
FIM
As Jóias da Coroa
Raul Pompéia
Fonte:
POMPÉIA, Raul. As Jóias da Coroa. 1ª ed. São Paulo:
Nova
Alexandria, 1997.
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
<http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
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