O Homem que sabia Javanês e outros contos
Lima Barreto
O Pecado
Quando naquele dia São Pedro despertou, despertou risonho
e de bom humor. E, terminados os cuidados higiênicos da manhã,
ele se foi à competente repartição celestial
buscar ordens do Supremo e saber que almas chegariam na próxima
leva.
Em uma mesa
longa, larga e baixa, em grande livro aberto se estendia e debruçado
sobre ele, todo entregue ao serviço, um guarda-livros punha
em dia a escrituração das almas, de acordo com as
mortes que Anjos mensageiros e noticiosos traziam de toda extensão
da terra. Da pena do encarregado celeste escorriam grossas letras,
e de quando em quando ele mudava a caneta para melhor talhar um
outro caráter caligráfico.
Assim páginas
ia ele enchendo, enfeitadas, iluminadas em os mais preciosos tipos
de letras. Havia no emprego de cada um deles, uma certa razão
de ser e entre si guardavam tão feliz disposição
que encantava o ver uma página escrita do livro. O nome era
escrito em bastardo, letra forte e larga; a filiação
em gótico, tinha uma ar religioso, antigo, as faltas, em
bastardo e as qualidades em ronde arabescado.
Ao entrar São
Pedro, o escriturário do Eterno, voltou-se, saudou-o e, à
reclamação da lista d'almas pelo Santo, ele respondeu
com algum enfado (endado do ofício) que viesse à tarde
buscá-la.
Aí pela
tardinha, ao findar a escrita, o funcionário celeste (um
velho jesuíta encanecido no tráfico de açúcar
da América do Sul) tirava uma lista explicativa e entregava
a São Pedro a fim de se preparar convenientemente para receber
os ex-vivos no dia seguinte.
Dessa vez ao
contrário de todo o sempre, São Pedro, antes de sair,
leu de antemão a lista; e essa sua leitura foi útil,
pois que se a não fizesse talvez, dali em diante, para o
resto das idades - quem sabe? - o Céu ficasse de todo estragado.
Leu São Pedro a relação: havia muitas almas,
muitas mesmo, delas todas, à vista das explicações
apensas, uma lhe assanhou o espanto e a estranheza. Leu novamente.
Vinha assim:
P. L. C., filho
de..., neto de..., bisneto de... - Carregador, quarenta e oito anos.
Casado. Casto. Honesto. Caridoso. Pobre de espírito. Ignaro.
Bom como São Francisco de Assis. Virtuoso como São
Bernardo e meigo como o próprio Cristo. É um justo.
Deveras, pensou
o Santo Porteiro, é uma alma excepcional; como tão
extraordinárias qualidades bem merecia assentar-se à
direita do Eterno e lá ficar, per saecula saeculorum, gozando
a glória perene de quem foi tantas vezes Santo...
- E porque
não ia ? deu-lhe vontade de perguntar ao seráfico
burocrata.
- Não
sei, retrucou-lhe este. Você sabe, acrescentou, sou mandado...
- Veja bem
nos assentamentos. Não vá Ter você se enganado.
Procure, retrucou por sua vez o velho pescador canonizado.
Acompanhado
de dolorosos rangidos da mesa, o guarda-livros foi folheando o enorme
Registro, até encontrar a página própria, onde
com certo esforço achou a linha adequada e com o dedo afinal
apontou o assentamento e leu alto:
- P. L. C.,
filho de..., neto de..., bisneto de... - Carregador. Quarenta e
oito anos. Casado. Honesto. Caridoso. Leal. Pobre de espírito.
Ignaro. Bom como São Francisco de Assis. Virtuoso como São
Bernardo e meigo como o próprio Cristo. É um justo.
Levando o dedo
pela pauta horizontal e nas "Observações",
deparou qualquer coisa que o fez dizer de súbito:
- Esquecia-me...
Houve engano. É ! Foi bom você falar. Essa alma é
a de um negro. Vai para o purgatório.
Revista Souza
Cruz, Rio, agosto 1924.
Lima Barreto
Um Que Vendeu a Sua Alma
A ANEDOTA QUE lhe vou contar, tem alguma cousa de fantástica
e pareceria que, como homem de meu tempo, eu não devia dar-lhe
crédito algum. Entra nela o Diabo e toda a gente de certo
desenvolvimento mental está quase sempre disposta a acreditar
em Deus, mas raramente no Diabo.
Não sei
se acredito em Deus, não sei se acredito no Diabo, porque
não tenho as minhas crenças muito firmes.
Desde que perdi
a fé no meu Lacroix; desde que me convenci da existência
de muitas geometrias a se contradizerem nas suas definições
e teoremas mais vulgares; desde então deixei que a certeza
ficasse com os antropologistas, etnólogos, florianistas,
sociólogos e outros tolos de igual jaez.
A horrível
mania da certeza de que fala Renan, já a tive; hoje, porém,
não. De modo que posso bem à vontade contar-lhes uma
anedota em que entra o Diabo.
Se os senhores
quiserem acreditem; eu, cá por mim, se não acredito,
não nego também.
Narrou-me o
amigo:
- Certo dia,
uma manhã, estava eu muito aborrecido a pensar na minha vida.
O meu aborrecimento era mortal. Um tédio imenso invadia-me.
Sentia-me vazio. Diante do espetáculo do mundo, eu não
reagia. Sentia-me como um toco de pau, como qualquer coisa de inerte.
Os desgostos
da minha vida, os meus excessos, as minhas decepções,
me haviam levado a um estado de desespero, de aborrecimento, de
tédio, para o qual. em vão, procurava remédio.
A Morte não me servia. Se era verdade que a Vida não
me agradava, a Morte não me atraía. Eu queria outra
Vida. Você se 1embra do Bossuet, quando falou por ocasião
de Mlle de la Vallière tomar o véu ?
Respondi:
- Lembro-me.
- Pois sentia
aquilo que ele disse e censurou: queria outra vida.
E então
só me daria muito dinheiro.
Queria andar,
queria viajar, queria experimentar se as belezas que o tempo e o
sofrimento dos homens acumularam sobre a terra, despertavam em mim
a emoção necessária para a existência,
o sabor de viver.
Mas dinheiro!
- como arranjar? Pensei meios e modos: Furtos, assassinatos, estelionatos
- sonhei-me Raskólnikoff ou cousa parecida. Jeito, porém,
não havia e a energia não me sobrava.
Pensei então
no Diabo. Se ele quisesse comprar-me a alma?
Havia tanta história popular que contava pactos com ele que
eu, homem céptico e ultramoderno apelei para o Diabo, e sinceramente!
Nisto bateram-me
a porta. - Abri.
- Quem era ?
- O Diabo.
- Como o conheceste
?
- Espera. Era
um cavalheiro como qualquer, sem barbichas, sem chavelhos, sem nenhum
atributo diabólico. Entrou como um velho conhecimento e tive
a impressão de que conhecia muito o visitante. Sem cerimônia
sentou-se e foi perguntando: "Que diabo de spleen é
esse?" Retorqui: " A palavra vai bem mas falta-me o milhão."
Disse-lhe isso sem reflexão e ele sem se espantar, deu umas
voltas pela minha sala e olhou um retrato. Indagou: "E tua
noiva?" Acudi: "Não. É um retrato que encontrei
na rua. Simpatizei e..." "Queres vê-la já?"
perguntou-me o homem. "Quero" , respondi. E logo, entre
nós dois sentou-se a mulher do retrato. Estivemos conversando
e adquiri certeza de que estava falando com o Diabo. A mulher foi-se
e logo o Diabo inquiriu: "Que querias de mim?" "Vender-te
minha alma", disse-lhe eu.
E o diálogo
continuou assim :Diabo - Quanto queres por ela?
Eu - Quinhentos
contos.
Diabo - Não
queres pouco.
Eu - Achas caro?
Diabo - Certamente.
Eu - Aceito
mesmo a cousa por trezentos.
Diabo - Ora
! Ora !
Eu - Então,
quanto dás?
Diabo - Filho.
não te faço preço. Hoje, recebo tanta alma
de graça que não me vale a pena comprá-las.
Eu - Então
não dás nada?
Diabo - Homem!
Para falar-te com franqueza. simpatizo muito contigo, por isso vou
dar-te alguma cousa.
Eu - Quanto?
Diabo - Queres
vinte mil-réis ?
E logo perguntei
ao meu amigo:
- Aceitaste?
O meu amigo
esteve um instante suspenso, afinal respondeu:
- Eu... Eu aceitei.
A Primavera,
Rio, julho 1913.
Lima Barreto
Carta de um Defunto Rico
"MEUS CAROS amigos e parentes. Cá estou no carneiro
n.º 7 ..., da 3.ª quadra, à direita, como vocês
devem saber, porque me puseram nele. Este Cemitério de São
João Batista da Lagoa não é dos piores. Para
os vivos, é grave e solene, com o seu severo fundo de escuro
e padrasto granítico. A escassa verdura verde-negra das montanhas
de roda não diminuiu em nada a imponência da antiguidade
da rocha dominante nelas. Há certa grandeza melancólica
nisto tudo; mora neste pequeno vale uma tristeza teimosa que nem
o sol glorioso espanca... Tenho, apesar do que se possa supor em
contrário, uma grande satisfação; não
estou mais preso ao meu corpo. Ele está no aludido buraco,
unicamente a fim de que vocês tenham um marco, um sinal palpável
para as suas recordações; mas anda em toda a parte.
Consegui afinal,
como desejava o poeta, elevar-me bem longe dos miasmas mórbidos,
purificar-me no ar superior e bebo, como um puro e divino licor,
o fogo claro que enche os límpidos espaços.
Não tenho
as dificultosas tarefas que, por aí, pela superfície
da terra, atazanam a inteligência de tanta gente.
Não me
preocupa, por exemplo, saber se devo ir receber o poderoso imperador
do Beluchistã com ou sem colarinho; não consulto autoridades
constitucionais para autorizar minha mulher a oferecer ou não
lugares do seu automóvel a príncipes herdeiros - coisa,
aliás, que é sempre agradável às senhoras
de uma democracia; não sou obrigado, para obter um título
nobiliárquico, de uma problemática monarquia, a andar
pelos adelos, catando suspeitas bugigangas e pedir a literatos das
ante-salas palacianas, que as proclamem raridades de beleza, a fim
de encherem salões de casas de bailes e emocionarem os ingênuos
com recordações de um passado que não devia
ser avivado.
Afirmando isto,
tenho que dizer as razões. Em primeiro lugar, tais bugigangas
não têm, por si, em geral, beleza alguma; e, se a tiveram
era emprestada pelas almas dos que se serviram delas. Semelhante
beleza só pode ser sentida pelos descendentes dos seus primitivos
donos.
Demais, elas
perdem todo o interesse, todo o seu valor, tudo o que nelas possa
haver de emocional, desde que percam a sua utilidade e desde que
sejam retiradas dos seus lugares próprios. Há senhoras
belas, no seu interior, com os seus móveis e as costuras;
mas que não o são na rua, nas salas de baile e de
teatro. O homem e as suas criações precisam, para
refulgir, do seu ambiente próprio, penetrado, saturado das
dores, dos anseios, das alegrias de sua alma; é com as emanações
de sua vitalidade, é com as vibrações misteriosas
de sua existência que as coisas se enchem de beleza.
É o sumo
de sua vida que empresta beleza às coisas mortais; é
a alma do personagem que faz a grandeza do drama, não são
os versos, as metáforas, a linguagem em si, etc., etc. Estando
ela ausente, por incapacidade do autor, o drama não vale
nada.
Por isso, sinto-me bem contente de não ser obrigado a caçar,
nos belchiores e cafundós domésticos, bugigangas,
para agradar futuros e problemáticos imperantes, porque teria
que dar a elas alma, tentativa em projeto que, além de inatingível,
é supremamente sacrílego.
De resto, para
ser completa essa reconstrução do passado ou essa
visão dele, não se podia prescindir de certos utensílios
de uso secreto e discreto, nem tampouco esquecer determinados instrumentos
de tortura e suplício, empregados pelas autoridades e grão-senhores
no castigo dos seus escravos.
Há, no
passado, muitas coisas que devem ser desprezadas e inteiramente
eliminadas, com o correr do tempo, para a felicidade da espécie,
a exemplo do que a digestão faz, para a do indivíduo,
com certas substâncias dos alimentos que ingerimos...
Mas... estou
na cova e não devo relembrar aos viventes coisas dolorosas.
Os mortos não
perseguem ninguém; e só podem gozar da beatitude da
superexistência aqueles que se purificam pelo arrependimento
e destroem na sua alma todo o ódio, todo o despeito, todo
o rancor.
Os que não
conseguem isso - ai deles!
Alonguei-me
nessas considerações intempestivas, quando a minha
tenção era outra.
O meu propósito
era dizer a vocês que o enterro esteve lindo. Eu posso dizer
isto sem vaidade, porque o prazer dele, da sua magnificência,
do seu luxo, não é propriamente meu, mas de vocês;
e não há mal algum que um vivente tenha um naco de
vaidade, mesmo quando é presidente de alguma coisa ou imortal
da Academia de Letras.
Enterro e demais
cerimônias fúnebres não interessam ao defunto;
elas são feitas por vivos para vivos.
É uma
tolice de certos senhores disporem nos seus testamentos como devem
ser enterrados. Cada um enterra seu pai como pode - é uma
sentença popular, cujo ensinamento deve ser tomado no sentido
mais amplo possível, dando aos sobreviventes a responsabilidade
total do enterro dos seus parentes e amigos.
tanto na forma como no fundo.
O meu, feito
por vocês, foi de truz. O carro estava soberbamente agaloado;
os cavalos bem paramentados e empenachados; as riquíssimas
coroas, além de ricas, eram lindas. Do Haddock Lobo, daquele
casarão que ganhei com auxílio das ordens terceiras,
das leis, do câmbio e outras fatalidades econômicas
e sociais que fazem pobres a maior parte dos sujeitos e a mim me
fizeram rico; da porta dele até o portão de São
João Batista, o meu enterro foi um deslumbramento. Não
havia, na rua, quem não parasse para contemplá-lo,
descobrindo-se ritualmente; não havia quem não perguntasse
quem ia ali.
Triste destino
o meu, esse de, nos instantes do meu enterramento, toda uma população
de uma vasta cidade querer saber o meu nome e dali a minutos, com
a última pá de terra deitada na minha sepultura, vir
a ser esquecido, até pelos meus próprios parentes.
Faço
esta reflexão somente por fazer, porque, desde muito, havia
encontrado, no fundo das coisas humanas, um vazio absoluto.
Essa convicção
me veio com as meditações seguidas que me foram provocadas
pelo fato de meu filho Carlos, com quem gastei uma fortuna em mestres,
a quem formei, a quem coloquei altamente, não saber nada
desta vida, até menos do que eu.
Adivinhei isto
e fiquei a matutar como é que ele gozava de tanta consideração
fácil e eu apenas merecia uma contrariedade? Eu, que...
Carlos, meu
filho, se leres isto, dá o teu ordenado àquele pobre
rapaz que te fez as sabatinas por "tuta-e-meia". e contenta-te,
com o que herdaste do teu pai e com o que tem tua mulher! Se não
fizeres... ai de ti!
Nem o Carlos
nem vocês outros, espero, encontrarão nesta última
observação matéria para ter queixa de mim.
Eu não tenho mais amizade, nem inimizade.
Os vivos me
merecem unicamente piedade; e o que me deu esta situação
deliciosa em que estou, foi ter sido, às vezes, profundamente
bom. Atualmente, sou sempre...
Não seria,
portanto, agora que, perto da terra, estou, entretanto, longe dela,
que havia de fazer recriminações a meu filho ou tentar
desmoralizá-lo. Minha missão, quando me consentem,
é fazer bem e aconselhar o arrependimento.
Agradeço
a vocês o cuidado que tiveram com o meu enterro; mas, seja-me
permitido, caros parentes e amigos, dizer a vocês uma coisa.
Tudo estava lindo e rico; mas um cuidado vocês não
tiveram. Porque vocês não forneceram librés
novas aos cocheiros das caleças, sobretudo, ao do coche,
que estava vestido de tal maneira andrajosa que causava dó?
Se vocês
tiverem que fazer outro enterro, não se esqueçam de
vestir bem os pobres cocheiros, com o que o defunto, caso seja como
eu, ficará muito satisfeito. O brilho do cortejo será
maior e vocês terão prestado uma obra de caridade.
Era o que eu
tinha a dizer a vocês. Não me despeço, pelo
simples motivo de que estou sempre junto de vocês. É
tudo isto do
José Boaventura da Silva.
N. B. - Residência,
segundo a Santa Casa: Cemitério de São João
Batista da Lagoa; e, segundo a sabedoria universal, em toda a parte.
- J. B. S."
Posso garantir
que trasladei esta carta para aqui, sem omissão de uma vírgula.
A.B C, Rio,
22-1-1921.
Lima Barreto
Um Especialista
A BASTOS TIGRE
ERA HÁBITO dos dous, todas as tardes, após o jantar,
jogar uma partida de bilhar em cinqüenta pontos, finda a qual
iam, em pequenos passos, até ao Largo da Carioca tomar café
e licores, e, na mesa do botequim, trocando confidências,
ficarem esperando a hora dos teatros, enquanto que, dos charutos,
fumaças azuladas espiralavam preguiçosamente pelo
ar.
Em geral, eram
as conquistas amorosas o tema da palestra; mas, às vezes;
incidentemente, tratavam dos negócios, do estado da praça
e da cotação das apólices.
Amor e dinheiro,
eles juntavam bem e sabiamente.
O comendador
era português, tinha seus cinqüenta anos, e viera para
o Rio aos vinte e quatro, tendo estado antes seis no Recife. O seu
amigo, o Coronel Carvalho, também era português, viera,
porém, aos sete para o Brasil, havendo sido no interior,
logo ao chegar, caixeiro de venda, feitor e administrador de fazenda,
influência política; e, por fim, por ocasião
da bolsa, especulara com propriedades, ficando daí em diante
senhor de uma boa fortuna e da patente de coronel da Guarda Nacional.
Era um plácido burguês, gordo, ventrudo, cheio de brilhantes,
empregando a sua mole atividade na gerência de uma fábrica
de fósforos. Viúvo, sem filhos, levava a vida de moço
rico. Freqüentava cocottes; conhecia as escusas casas de rendez-vous,
onde era assíduo c considerado; o outro, o comendador, que
era casado, deixando, porém, a mulher só no vasto
casarão do Engenho Velho a se interessar pelos namoricos
das filhas, tinha a mesma vida solta do seu amigo e compadre.
Gostava das
mulheres de cor e as procurava com o afinco e ardor de um amador
de raridades.
À noite,
pelas praças mal iluminadas, andava catando-as, joeirando-as
com olhos chispantes de lubricidade e, por vezes mesmo, se atrevia
a seguir qualquer mais airosa pelas ruas de baixa prostituição.
- A mulata,
dizia ele, é a canela, é o cravo, é a pimenta;
é, enfim, a especiaria de requeime acre e capitoso que nós,
os portugueses, desde Vasco da Gama, andamos a buscar, a procurar.
O coronel era
justamente o contrário: só queria às estrangeiras;
as francesas e italianas, bailarinas, cantoras ou simplesmente meretrizes,
era o seu fraco.
Entretanto havia
já quinze dias, que não se encontravam no 1ugar aprazado
e a faltar era o comendador, a quem o coronel sabia bem por informações
do seu guarda-livros.
Ao acabar a
segunda semana dessa ausência imprevista, o coronel, maçado
e saudoso, foi procurar o amigo na sua loja à Rua dos Pescadores.
Lá o encontrou amável e de boa saúde. Explicaram-se;
e entre eles ficou assentado que se veriam naquele dia, à
tarde, na hora e lugar habituais.
Como sempre,
jantaram fartamente e regiamente regaram o repasto com bons vinhos
portugueses. Jogaram a partida de bilhar e depois, como encarrilhados,
seguiram para o café de costume no Largo da Carioca.
No princípio,
conversaram sobre a questão das minas de Itaoca, vindo então
à baila a inépcia e a desonestidade do governo; mas
logo depois, o Coronel que "tinha a pulga atrás da orelha",
indagou do companheiro o motivo de tão longa ausência.
- Oh! Não
te conto! Foi um "achado", a cousa, disse o comendador,
depois de chupar fortemente o charuto e soltar uma volumosa baforada;
um petisco que encontrei... Uma mulata deliciosa, Chico ! Só
vendo o que é, disse a rematar, estalando os beiços.
- Como foi isso?
inquiriu o coronel pressuroso. Como foi? Conta lá!
- Assim. A Ultima
vez que estivemos juntos, não te disse que no dia seguinte
iria a bordo de um paquete buscar um amigo que chegava do Norte?
- Disseste-me.
E daí?
- Ouve. Espera.
Cos diabos isto não vai a matar! Pois bem, fui a bordo. O
amigo não veio... Não era bem meu amigo... Relações
comerciais... Em troca...
Por essa ocasião
rolou um carro no calçamento. Travou em frente ao café
e por ele adentro entrou uma gorda mulher, cheia de plumas e sedas,
e para vê-la virou-se o comendador, que estava de costas,
interrompendo a narração. Olhou-a e continuou depois:
- Como te dizia:
não veio o homem, mas enquanto tomava cerveja com o comissário,
vi atravessar a sala uma esplêndida mulata; e tu sabes que
eu...
Deixou de fumar
e com olhares canalhas sublinhou a frase magnificamente.
- De indagação
em indagação, soube que viera com um alferes do Exército;
e murmuravam a bordo que a Alice (era seu nome, soube também)
aproveitara a companhia, somente para melhor mercar aqui os seus
encantos. Fazer a vida... Propositalmente, me pareceu, eu me achava
ali e não perdia vaza, como tu vais ver.
Dizendo isto,
endireitou o corpo, alçou um tanto a cabeça, e seguiu
narrando:
- Saltamos juntos,
pois viemos juntos na mesma lancha - a que eu alugara. Compreendes?
E, quando embarcamos num carro, no Largo do Paço, para a
pensão, já éramos conhecimentos velhos; assim
pois...
- E o alferes?
- Que alferes?
- O alferes
que vinha com a tua diva, filho? Já te esqueceste ?
- Ah! Sim! Esse
saltou na lancha do Ministério da Guerra e nunca mais o vi.
- Está
direito. Continua lá a cousa.
- E... e...
Onde é que estava? Hein?
- Ficaste: quando
ao saltar, foram para a pensão.
- É isto
! Fomos para a Pensão Baldut, no Catete; e foi, pois, assim
que me apossei de um lindo primor - uma maravilha, filho, que tem
feito os meus encantos nestes quinze dias - com os raros intervalos
em que me aborreço em casa, ou na loja, já se vê
bem.
Repousou um
pouco e, retomando logo após a palavra, assim foi dizendo:
- É uma
cousa extraordinária! Uma maravilha! Nunca vi mulata igual.
Como esta, filho, nem a que conheci em Pernambuco há uns
vinte e sete anos! Qual! Nem de longe !. Calcula que ela é
alta, esguia, de bom corpo; cabelos negros corridos, bem corridos:
olhos pardos. É bem fornida de carnes, roliça; nariz
não muito afilado, mas bom! E que boca, Chico! Uma boca breve,
pequena, com uns lábios roxos, bem quentes... Só vendo
mesmo! Só! Não se descreve.
O comendador
falara com um ardor desusado nele; acalorara-se e se entusiasmara
deveras, a ponto de haver na sua fisionomia estranhas mutações.
Por todo ele havia aspecto de um suíno, cheio de lascívia,
inebriado de gozo. Os olhos arredondaram-se e diminuíram;
os lábios se haviam apertado fortemente e impelidos pra diante
se juntavam ao jeito de um focinho; o rosto destilava gordura; e,
ajudado isto pelo seu físico, tudo nele era de um colossal
suíno.
- O que pretendes
fazer dela? Dize lá.
- É boa...
Que pergunta ! Prová-la, enfeitá-la, enfeitá-la
e "lançá-la" E é pouco?
- Não!
Acho até que te excedes. Vê lá, tu!
- Hein? Oh!
Não! Tenho gasto pouco. Um conto e pouco... Uma miséria!
Acendeu o charuto
e disse subitamente, ao olhar o relógio:
- Vou buscá-la
de carro, porquanto vamos ao cassino, e tu me esperas lá,
pois tenho um camarote. Até já.
Saindo o seu
amigo, o coronel considerou um pouco, mandou vir água Apolináris,
bebeu e saiu também.
Eram oito horas
da noite.
Defronte ao
café, o casarão de uma ordem terceira ensombrava a
praça parcamente iluminada pelos combustores de gás
e por um foco elétrico ao centro. Das ruas que nela terminavam,
delgados filetes de gente saíam e entravam constantemente.
A praça era como um tanque a se encher e a se esvaziar eqüitativamente.
Os bondes da Jardim semeavam pelos lados a branca luz de seus focos
e, de onde em onde, um carro, um tílburi, a atravessava célere.
O coronel esteve
algum tempo olhando o largo, preparou um novo charuto, acendeu-o,
foi até à porta, mirou um e outro transeunte, olhou
o céu recamado de estrelas, e, finalmente, devagar, partiu
em direção à Lapa.
Quando entrou
no cassino, ainda o espetáculo não havia começado.
Sentou-se a
um banco no jardim, serviu-se de cerveja e entrou a pensar.
Aos poucos,
vinham chegando os espectadores. Naquele instante entrava um. Via-se
pelo acanhamento, que era um estranho às usanças da
casa. Esmerado no vestir, no calçar, não tinha em
troca o desembaraço com que se anuncia o habitué.
Moço, moreno, seria elegante se não fosse a estreiteza
de seus movimentos. Era um visitante ocasional, recém-chegado,
talvez, do interior, que procurava ali uma curiosidade, um prazer
da cidade.
Em seguida,
entrou um senhor barbado, de maçãs salientes, rosto
redondo, acobreado. Trazia cartola, e pelo ar solene, pelo olhar
desdenhoso que atirava em volta, descobria-se nele um legislador
da Cadeia Velha, deputado, representante de algum Estado do Norte,
que, com certeza, há duas legislaturas influía poderosamente
nos destinos do país com o seu resignado apoiado. E assim,
um a um, depois aos magotes, foram entrando os espectadores. Ao
fim, na cauda, retardados, vieram os freqüentadores assíduos
- pessoas variegadas de profissão e moral que com freqüência
blasonavam saber os nomes das cocottes, a proveniência delas
e as suas excentricidades libertinas. Entre os que entravam naquele
momento, entrara também o comendador e o " achado"
.
A primeira parte
do espetáculo correra quase friamente.
Todos, homens
e mulheres, guardavam as maneiras convencionadas de se estar em
público. Era cedo ainda.
Em meio, porém,
da segunda, as atitudes mudaram. Na cena, uma delgadinha senhora
(chanteuse à diction - no cartaz) berrava uma cançoneta
francesa. Os espectadores, com batidos das bengalas nas mesas, no
assoalho, e com a voz mais ou menos comprometida, estribilhavam-na
doidamente. O espetáculo ia no auge. Da sala aos camarotes
subia um estranho cheiro - um odor azedo de orgia.
Centenas de
charutos e cigarros a fumegar enevoavam todo ambiente.
Desprendimentos
do tabaco, emanações alcoólicas, e, a mais,
uma fortíssima exalação de sensualidade e lubricidade,
davam à sala o aspecto repugnante de uma vasta bodega.
Mais ou menos
embriagado, cada um dos espectadores tinha para com a mulher com
quem bebia, gestos livres de alcova. Francesas, italianas, húngaras,
espanholas, essas mulheres, de dentro das rendas, surgiam espectrais,
apagadas, lívidas como moribundas. Entretanto, ou fosse o
álcool ou o prestígio de peregrinas, tinham sobre
aqueles homens um misterioso ascendente. A esquerda, na platéia,
o majestoso deputado da entrada coçava despudoradamente a
nuca da Dermalet, uma francesa; em frente o doutor Castrioto, lente
de uma escola superior, babava-se todo a olhar as pernas da cantora
em cena, enquanto em um camarote defronte, o Juiz Siqueira apertava-se
à Mercedes, uma bailarina espanhola, com o fogo de um recém-casado
à noiva.
Um sopro de
deboche percorria homem a homem.
Dessa forma
o espetáculo desenvolvia-se no mais fervoroso entusiasmo
e o coronel, no camarote, de soslaio, pusera-se a observar a mulata.
Era bonita de fato e elegante também. Viera com um vestido
creme de pintas pretas, que lhe assentava magnificamente.
O seu rosto
harmonioso, enquadrado num magnífico chapéu de palha
preta, saía firme do pescoço roliço que a blusa
decotada deixava ver. Seus olhos curiosos, inquietos, voavam de
um lado a outro e a tez de bronze novo cintilava à luz dos
focos. Através do vestido se lhe adivinhavam as formas; e,
por vezes, ao arfar, ela toda trepidava de volúpia...
O comendador
pachorrentamente assistia ao espetáculo e fora do costume,
pouco conversou. O amigo, pudicamente não insistiu no exame.
Quando saíram
de permeio à multidão, acumulada no corredor da entrada,
o coronel teve ocasião de verificar o efeito que fizera a
companheira do amigo. Ficando mais atrás, pôde ir recolhendo
os ditos e as observações que a passagem deles ia
sugerindo a cada um.
Um rapazola
dissera:
- Que "mulatão"!
Um outro refletiu:
- Esses portugueses
são os demônios para descobrir boas mulatas. É
faro. Ao passarem os dois, alguém, a quem ele não
viu, maliciosamente observou:
- Parecem pai
e filha.
E essa reflexão
de pequeno alcance na boca que a proferiu, calou fundo no ânimo
do coronel.
Os queixos eram
iguais, as sobrancelhas, arqueadas, também; o ar, um não
sei quê de ambos assemelhavam-se... Vagas semelhanças,
concluiu o coronel ao sair à rua, quando uma baforada de
brisa marinha lhe acariciou o rosto afogueado.
Já o
carro rolava rápido pela rua quieta - quietude agora perturbada
pelas vozes esquentadas dos espectadores saídos e pelas falsas
risadas de suas companheiras - quando o comendador, levantando-se
no estrado da carruagem, ordenou ao cocheiro que parasse no hotel,
antes de tocar para a pensão. A sala sombria e pobre do hotel
tinha sempre por aquela hora uma aparência brilhante. A agitação
que ia nela; as sedas roçagantes e os chapéus vistosos
das mulheres; a profusão de luzes, o irisado das plumas,
os perfumes requintados que voavam pelo ambiente; transmudavam-na
de sua habitual fisionomia pacata e remediada. As pequenas mesas,
pejadas de pratos e garrafas, estavam todas elas ocupadas. Em cada,
uma ou duas mulheres sentavam-se, seguidas de um ou dous cavalheiros.
Sílabas breves do francês, sons guturais do espanhol,
dulçorosas terminações italianas, chocavam-se,
brigavam.
Do português
nada se ouvia, parecia que se escondera de vergonha.
Alice, o comendador
e o coronel, sentaram-se a uma mesa redonda em frente à entrada.
A ceia foi lauta e abundante. A sobremesa, os três convivas
repentinamente animados, puseram-se a conversar com calor. A mulata
não gostara do Rio; preferia o Recife. Lá sim ! O
céu era outro; as comidas tinham outro sabor, melhor e mais
quente. Quem não se recordaria sempre de uma frigideira de
camarões com maturins ou de um bom feijão com leite
de coco?
Depois, mesmo
a cidade era mais bonita; as pontes, os rios, o teatro, as igrejas.
E os bairros
então? A Madalena, Olinda... No Rio, ela concordava, havia
mais povo, mais dinheiro; mas Recife era outra cousa, era tudo...
- Você
tem razão, disse o comendador; Recife é bonito, e
muito mais . .
- O senhor,
já esteve lá ?
- Seis anos;
filha, seis anos; e levantou a mão esquerda à altura
dos olhos, correu-a pela testa, contornou com ela a cabeça,
descansou-a afinal na perna e acrescentou: comecei lá minha
carreira comercial e tenho muitas saudades. Onde você morava?
- Ultimamente
à Rua da Penha, mas nasci na de João de Barro, perto
do Hospital de Santa Águeda...
- Morei lá
também, disse ele distraído.
- Criei-me pelas
bandas de Olinda, continuou Alice, e por morte de minha mãe
vim para a casa do doutor Hildebrando, colocada pelo juiz...
Há muito
que tua mãe morreu? indagou o coronel.
- Há
oito anos quase, respondeu ela.
- Há
muito tempo, refletiu o coronel; e logo perguntou: que idade tens?
- Vinte e seis
anos, fez ela. Fiquei órfã aos dezoito. Durante esses
oito anos tenho rolado por esse mundo de Cristo e comido o pão
que o diabo amassou. Passando de mão em mão, ora nesta,
ora naquela, a minha vida tem sido um tormento. Até hoje
só tenho conhecido três homens que me dessem alguma
coisa; os outros Deus me livre deles! - só querem meu corpo
e o meu trabalho. Nada me davam, espancavam-me, maltratavam-me.
Uma vez, quando vivia com um sargento do Regimento de Polícia,
ele chegou em casa embriagado, tendo jogado e perdido tudo, queria
obrigar-me a lhe dar trinta mil-réis, fosse como fosse. Quando
lhe disse que não tinha e o dinheiro das roupas que eu lavava,
só chegava naquele mês para pagar a casa, ele fez um
escarcéu. Descompôs-me. Ofendeu-me. Por fim, cheio
de fúria agarrou-me pelo pescoço, esbofeteou-me, deitou-me
em terra, deixando-me sem fala e a tratar-me no hospital. Um outro
- um malvado em cujas mãos não sei como fui cair -
certa vez, altercamos, e deu-me uma facada do lado esquerdo, da
qual ainda tenho sinal.! Tem sido um tormento... Bem me dizia minha
mãe: toma cuidado, minha filha, toma cuidado. Esses homens
só querem nosso corpo por segundos, depois vão-se
e nos deixam um filho nos quartos, quando não nos roubam
como fez teu pai comigo...
- Como?... Como
foi isso? interrogou admirado o coronel.
- Não
sei bem como foi, retrucou ela. Minha mãe me contava que
ela era honesta; que vivia na cidade do Cabo com seus pais, de cuja
companhia fora seduzida por um caixeiro português que lá
aparecera e com quem veio para o Recife. Nasci deles e dous meses,
ou mais depois do meu nascimento, meu pai foi ao Cabo liquidar a
herança (um sítio, uma vaca, um cavalo) que coubera
à minha mãe por morte de seus pais. Vindo de receber
a herança, partiu dias depois para aqui e nunca mais ela
soube notícias dele, nem do dinheiro, que, vendido o herdado,
lhe ficara dos meus avós.
- Como se chamava
teu pai? indagou o comendador com estranho entono.
- Não
me 1embra bem; era Mota ou Costa... Não sei... Mas o que
é isso? disse ela de repente, olhando o comendador. Que tem
o senhor ?
- Nada... Nada...
retrucou o comendador experimentando um sorriso. Você não
se 1embra das feições desse homem? interrogou ele.
- Não
me 1embra, não. Que interesse! Quem sabe que o senhor não
é meu pai? gracejou ela.
O gracejo caiu
de chofre naqueles dous espíritos tensos, como uma ducha
frigidíssima. O coronel olhava o comendador que tinha as
faces em brasa; este, àquele; por fim depois de alguns segundos
o coronel querendo dar uma saída à situação,
simulou rir-se e perguntou:
- Você
nunca mais soube alguma cousa... qualquer cousa ? Hein ?
- Nada... Que
me 1embre, nada... Ah ! Espere... Foi... É. Sim! Seis meses
antes da morte de minha mãe, ouvi dizer em casa, não
sei por quem, que ele estava no Rio implicado num caso de moeda
falsa. É o que me 1embra, disse ela.
- O que? Quando
foi isso? indagou pressuroso o comendador.
A mulata, que
ainda não se havia bem apercebido do estado do comendador,
respondeu ingenuamente:- Mamãe morreu em setembro de 1893,
por ocasião da revolta... Ouvi contar essa história
em fevereiro. É isso.
O comendador
não perdera uma sílaba; e, com a boca meio aberta,
parecia querê-las engolir uma e uma; com as faces congestionadas
e os olhos esbugalhados, a sua fisionomia estava horrível.
O coronel e
a mulata, extáticos, estuporados, entreolhavam-se.
Durante um segundo
nada se lhes antolhava fazer. Ficaram como idiotas; em breve, porém,
o comendador, num supremo esforço, disse com voz sumida:-
Meu Deus! É minha filha!
Lima Barreto