O Homem que sabia Javanês e outros contos
Lima Barreto
Manuel Capineiro
QUEM CONHECE a Estrada Real de Santa Cruz? Pouca gente do Rio de
Janeiro. Nós todos vivemos tão presos à avenida,
tão adstritos à Rua do Ouvidor, que pouco ou nada
sabemos desse nosso vasto Rio, a não ser as coisas clássicas
da Tijuca, da Gávea e do Corcovado.
Um nome tão
sincero, tão altissonante, batiza, entretanto, uma pobre
azinhaga, aqui mais larga, ali mais estreita, povoada, a espaços,
de pobres casas de gente pobre, às vezes, uma chácara
mais assim ali. mas tendo ela em todo o seu trajeto até Cascadura
e mesmo além, um forte aspecto de tristeza, de pobreza e
mesmo de miséria. Falta-lhe um debrum de verdura, de árvores,
de jardins. O carvoeiro e o lenhador de há muito tiraram
os restos de matas que deviam bordá-la; e, hoje, é
com alegria que se vê, de onde em onde, algumas mangueiras
majestosas a quebrar a monotonia, a esterilidade decorativa de imensos
capinzais sem limites.
Essa estrada
real, estrada de rei, é atualmente uma estrada de pobres;
e as velhas casas de fazenda, ao alto das meias-laranjas, não
escaparam ao retalho para casas de cômodos.
Eu a vejo todo
dia de manhã, ao sair de casa e é minha admiração
apreciar a intensidade de sua vida, a prestança do carvoeiro,
em servir a minha vasta cidade.
São carvoeiros
com as suas carroças pejadas que passam; são os carros
de bois cheios de capim que vão vencendo os atoleiros e os
"caldeirões", as tropas e essa espécie de
vagabundos rurais que fogem à rua urbana com horror.
Vejo-a no Capão
do Bispo, na sua desolação e no seu trabalho; mas
vejo também dali os Órgãos azuis, dos quais
toda a hora se espera que ergam aos céus um longo e acendrado
hino de louvor e de glória.
Como se fosse
mesmo uma estrada de lugares afastados, ela tem também seus
"pousos". O trajeto dos capineiros, dos carvoeiros, dos
tropeiros é longo e pede descanso e boas "pingas"
pelo caminho.
Ali no "Capão",
há o armazém "Duas Américas" em que
os transeuntes param, conversam e bebem.
Pára
ali o "Tutu", um carvoeiro das bandas de Irajá,
mulato quase preto, ativo, que aceita e endossa letras sem saber
ler nem escrever. É um espécime do que podemos dar
de trabalho, de iniciativa e de vigor. Não há dia
em que ele não desça com a sua carroça carregada
de carvão e não há dia em que ele não
volte com ela, carregada de alfafa, de farelo, de milho, para os
seus muares.
Também
vem ter ao armazém o Senhor Antônio do Açougue,
um ilhéu falador, bondoso, cuja maior parte da vida se ocupou
em ser carniceiro. Lá se encontra também o "Parafuso",
um preto, domador de cavalos e alveitar estimado. Todos eles discutem,
todos eles comentam a crise, quando não tratam estreitamente
dos seus negócios.
Passa pelas
portas da venda uma singular rapariga. É branca e de boas
feições. Notei-lhe o cuidado em ter sempre um vestido
por dia, observando ao mesmo tempo que eles eram feitos de velhas
roupas. Todas as manhãs, ela vai não sei onde e traz
habitualmente na mão direita um bouquet feito de miseráveis
flores silvestres. Perguntei ao dono quem era. Uma vagabunda, disse-me
ele.
"Tutu"
está sempre ocupado com a moléstia dos seus muares.
O "Garoto" está mancando de uma perna e a "Jupira"
puxa de um dos quartos. O "Seu" Antônio do Açougue,
assim chamado porque já possuiu um muito tempo, conta a sua
vida, as suas perdas de dinheiro, e o desgosto de não ter
mais açougue. Não se conforma absolutamente com esse
neg6cio de vender leite; o seu destino é talhar carne.
Outro que lá
vai é o Manel Capineiro. Mora na redondeza e a sua vida se
faz no capinzal, em cujo seio vive, a vigiá-lo dia e noite
dos ladrões, pois os há, mesmo de feixes de capim.
O "Capineiro" colhe o capim à tarde, enche as carroças;
e, pela madrugada, sai com estas a entregá-lo à freguesia.
Um companheiro fica na choupana no meio do vasto capinzal a vigiá-lo,
e ele vai carreando uma das carroças, tocando com o guião
de leve os seus dois bois - "Estrela" e "Moreno".
Manel os ama
tenazmente e evita o mais possível feri-los com a farpa que
lhes dá a direção requerida.
Manel Capineiro
é português e não esconde as saudades que tem
do seu Portugal, do seu caldo de unto, das suas festanças
aldeãs, das suas lutas a varapau; mas se conforma com a vida
atual e mesmo não se queixa das cobras que abundam no capinzal.
- Ai! As cobras!...
Ontem dei com uma, mas matei-a .
Está
aí um estrangeiro que não implica com os nossos ofídios
o que deve agradar aos nossos compatriotas, que se indignam com
essa implicância.
Ele e os bois
vivem em verdadeira comunhão. Os bois são negros,
de grandes chifres, tendo o "Estrela" uma mancha branca
na testa, que lhe deu o nome.
Nas horas do
ócio, Manel vem à venda conversar, mas logo que olha
o relógio e vê que é hora da ração,
abandona tudo e vai ao encontro daquelas suas duas criaturas, que
tão abnegadamente lhe ajudam a viver.
Os seus carrapatos
lhe dão cuidado; as suas "manqueiras" também.
Não sei bem a que propósito me disse um dia:
- Senhor fulano,
se não fosse eles, eu não saberia como iria viver.
Eles são o meu pão.
Imaginem que
desastre não foi na sua vida, a perda dos seus dois animais
de tiro. Ela se verificou em condições bem lamentáveis.
Manel Capineiro saiu de madrugada, como de hábito, com o
seu carro de capim. Tomou a estrada pra riba, dobrou a Rua José
dos Reis e tratou de atravessar a linha da estrada de ferro, na
cancela dessa rua.
Fosse a máquina,
fosse um descuido do guarda, uma imprudência de Manel, um
comboio, um expresso, implacável como a fatalidade, inflexível,
inexorável, veio-lhe em cima do carro e lhe trucidou os bois.
O capineiro, diante dos despojos sangrentos do "Estrela"
e do "Moreno", diante daquela quase ruína de sua
vida, chorou como se chorasse um filho uma mãe e exclamou
cheio de pesar, de saudade, de desespero:
- Ai mô
gado! Antes fora eu !...
Era Nova, Rio,
21-8-1915.
Lima Barreto
Milagre do Natal
O BAIRRO DO ANDARAÍ é muito triste e muito úmido.
As montanhas que enfeitam a nossa cidade, aí tomam maior
altura e ainda conservam a densa vegetação que as
devia adornar com mais força em tempos idos. O tom p1úmbeo
das árvores como que enegrece o horizonte e torna triste
o arrabalde.
Nas vertentes
dessas mesmas montanhas, quando dão para o mar, este quebra
a monotonia dó quadro e o sol se espadana mais livremente,
obtendo as cousas humanas, minúsculas e mesquinhas, uma garridice
e uma alegria que não estão nelas, mas que sê
percebem nelas. As tacanhas casas de Botafogo se nos afigura assim;
as bombásticas "vilas" de Copacabana, também;
mas, no Andaraí, tudo fica esmagado pela alta montanha e
sua sombria vegetação.
Era numa rua
desse bairro que morava Feliciano Campossolo Nunes, chefe de secção
do Tesouro Nacional, ou antes e melhor: subdiretor. A casa era própria
e tinha na cimalha este dístico pretensioso: "Vila Sebastiana".
O gosto da fachada, as proporções da casa não
precisam ser descritas: todos conhecem um e as outras. Na frente,
havia um jardinzinho que se estendia para a esquerda, oitenta centímetros
a um metro, além da fachada. Era o vão que correspondia
à varanda lateral, quase a correr todo o prédio. Campossolo
era um homem grave, ventrudo, calvo, de mãos polpudas e dedos
curtos. Não largava a pasta de marroquim em que trazia para
a casa os papéis da repartição com o fito de
não lê-los; e também o guarda-chuva de castão
de ouro e forro de seda. Pesado e de pernas curtas, era com grande
dificuldade que ele vencia os dous degraus dos "Minas Gerais"
da Light, atrapalhado com semelhantes cangalhas: a pasta e o guarda
chuva de " ouro". Usava chapéu de coco e cavanhaque.
Morava ali com
sua mulher mais a filha solteira e única, a Mariazinha.
A mulher, Dona
Sebastiana, que batizara a vila e com cujo dinheiro a fizeram, era
mais alta do que ele e não tinha nenhum relevo de fisionomia,
senão um artificial, um aposto. Consistia num pequeno pince-nez
de aros de ouro, preso, por detrás da orelha, com trancelim
de seda. Não nascera com ele, mas era como se tivesse nascido,
pois jamais alguém havia visto Dona Sebastiana sem aquele
adendo, acavalado no nariz. fosse de dia, fosse de noite. Ela, quando
queria olhar alguém ou alguma cousa com jeito e perfeição,
erguia bem a cabeça e toda Dona Sebastiana tomava um entono
de magistrado severo.
Era baiana,
como o marido, e a Única queixa que tinha do Rio cifrava-se
em não haver aqui bons temperos para as moquecas, carurus
e outras comidas da Bahia, que ela sabia preparar com perfeição,
auxiliada pela preta Inácia, que, com eles. viera do Salvador,
quando o marido foi transferido para São Sebastião.
Se se oferecia portador, mandava-os buscar; e. quando, aqui chegavam
e ela preparava uma boa moqueca, esquecia-se de tudo, até
que estará muito longe da sua querida cidade de Tomé
de Sousa.
Sua filha, a
Mariazinha, não era assim e até se esquecera que por
lá nascera: cariocara-se inteiramente. Era uma moça
de vinte anos, fina de talhe, poucas carnes, mais alta que o pai,
entestando com a mãe, bonita e vulgar. O seu traço
de beleza eram os seus olhos de topázio com estilhas negras.
Nela, não havia nem invento, nem novidade como - as outras.
Eram estes os
habitantes da "Vila Sebastiana" , além de um molecote
que nunca era o mesmo. De dous em dous meses, por isso ou por aquilo,
era substituído por outro, mais claro ou mais escuro, conforme
a sorte calhava.
Em certos domingos,
o Senhor Campossolo convidava alguns dos seus subordinados a irem
almoçar ou jantar com eles. Não era um qualquer. Ele
os escolhia com acerto e sabedoria. Tinha uma filha solteira e não
podia pôr dentro de casa um qualquer, mesmo que fosse empregado
de fazenda.
Aos que mais
constantemente convidava, eram os terceiros escriturários
Fortunato Guaicuru e Simplício Fontes, os seus braços
direitos na secção. Aquele era bacharel em Direito
e espécie de seu secretário e consultor em assuntos
difíceis; e o último chefe do protocolo da sua secção,
cargo de extrema responsabilidade, para que não houvesse
extravio de processos e se acoimasse a sua subdiretoria de relaxada
e desidiosa. Eram eles dous os seus mais constantes comensais, nos
seus bons domingos de efusões familiares. Demais, ele tinha
uma filha a casar e era bom que...
Os senhores
devem ter verificado que os pais sempre procuram casar as filhas
na classe que pertencem: os negociantes com negociantes ou caixeiros;
os militares com outros militares; os médicos com outros
médicos e assim por diante. Não é de estranhar,
portanto, que o chefe Campossolo quisesse casar sua filha com um
funcionário público que fosse da sua repartição
e até da sua própria secção.
Guaicuru era
de Mato Grosso. Tinha um tipo acentuadamente índio. Malares
salientes, face curta, mento largo e duro, bigodes de cerdas de
javali, testa fugidia e as pernas um tanto arqueadas. Nomeado para
a alfândega de Corumbá, transferira-se para a delegacia
fiscal de Goiás. Aí, passou três ou quatro anos,
formando-se, na respectiva faculdade de Direito, porque não
há cidade do Brasil, capital ou não, em que não
haja uma. Obtido o título, passou-se para a Casa da Moeda
e, desta repartição, para o Tesouro. Nunca se esquecia
de trazer o anel de rubi, à mostra. Era um rapaz forte, de
ombros largos e direitos; ao contrário de Simplício
que era franzino, peito pouco saliente, pálido, com uns doces
e grandes olhos negros e de uma timidez de donzela.
Era carioca
e obtivera o seu lugar direitinho, quase sem pistolão e sem
nenhuma intromissão de políticos na sua nomeação.
Mais ilustrado,
não direi; mas muito mais instruído que Guaicuru,
a audácia deste o superava, não no coração
de Mariazinha, mas no interesse que tinha a mãe desta no
casamento da filha. Na mesa, todas as atenções tinha
Dona Sebastiana pelo hipotético bacharel:
- Porque não
advoga? perguntou Dona Sebastiana, rindo, com seu quádruplo
olhar altaneiro, da filha ao caboclo que, na sua frente e a seu
mando, se sentavam juntos.
- Minha senhora,
não tenho tempo...
- Como não
tem tempo? O Felicianinho consentiria - não é Felicianinho?
Campossolo fazia
solenemente :
- Como não,
estou sempre disposto a auxiliar a progressividade dos colegas.
Simplício,
à esquerda de Dona Sebastiana, olhava distraído para
a fruteira e nada dizia. Guaicuru, que não queria dizer que
a verdadeira . razão estava em não ser a tal faculdade
"reconhecida", negaceava:
- Os colegas
podiam reclamar.
Dona Sebastiana
acudia com vivacidade :
- Qual o que
. O senhor reclamava, Senhor Simplício?
Ao ouvir o seu
nome, o pobre rapaz tirava os olhos da fruteira e perguntava com
espanto:
- O que, Dona
Sebastiana ?
- O senhor reclamaria
se Felicianinho consentisse que o Guaicuru saísse, para ir
advogar?
- Não.
E voltava a
olhar a fruteira, encontrando-se rapidamente com os olhos de topázio
de Mariazinha. Campossolo continuava a comer e Dona Sebastiana insistia:
- Eu, se fosse
o senhor ia advogar.
- Não
posso. Não é só a repartição
que me toma o tempo. Trabalho em um livro de grandes proporções.
Todos se espantaram.
Mariazinha olhou Guaicuru; Dona Sebastiana levantou mais a cabeça
com pince-nez e tudo; Simplício que, agora, contemplava esse
quadro célebre nas salas burguesas, representando uma ave,
dependurada pelas pernas e faz pendant com a ceia do Senhor - Simplício,
dizia, cravou resolutamente o olhar sobre o colega, e Campossolo
perguntou:
- Sobre o que
trata?
- Direito administrativo
brasileiro.
Campossolo observou:
- Deve ser uma
obra de peso.
- Espero.
Simplício
continuava espantado, quase estúpido a olhar Guaicuru. Percebendo
isto, o mato-grossense apressou-se:
- Você
vai ver o plano. Quer ouvi-lo ?
Todos, menos
Mariazinha, responderam, quase a um tempo só:
- Quero.
O bacharel de
Goiás endireitou o busto curto na cadeira e começou:
- Vou entroncar
o nosso Direito administrativo no antigo Direito administrativo
português. Há muita gente que pensa que no antigo regímen
não havia um Direito administrativo. Havia. Vou estudar o
mecanismo do Estado nessa época, no que toca a Portugal.
V ou ver as funções dos ministros e dos seus subordinados,
por intermédio de letra-morta dos alvarás, portarias,
cartas régias e mostrarei então como a engrenagem
do Estado funcionava; depois, verei como esse curioso Direito público
se transformou, ao influxo de concepções liberais;
e, como ele transportado para aqui com Dom João VI, se adaptou
ao nosso meio, modificando-se aqui ainda, sob o influxo das idéias
da Revolução.
Simplício,
ouvindo-o falar assim dizia com os seus botões: "Quem
teria ensinado isto a ele?"
Guaicuru, porém,
continuava:
- Não
será uma seca enumeração de datas e de transcrição
de alvarás, portarias, etc. Será uma cousa inédita.
Será cousa viva.
Por aí,
parou e Campossolo com toda a gravidade disse:
- V ai ser uma
obra de peso.
- Já
tenho editor!
- Quem é?
perguntou o Simplício.
- É o
Jacinto. Você sabe que vou lá todo o dia, procurar
livros a respeito.
- Sei; é
a livraria dos advogados, disse Simplício sem querer sorrir.
- Quando pretende
publicar a sua obra, doutor? perguntou Dona Sebastiana.
- Queria publicar
antes do Natal. porque as promoções serão feitas
antes do Natal, mas...
- Então
há mesmo promoções antes do Natal, Felicianinho
?
O marido respondeu:
- Creio que
sim. O gabinete já pediu as propostas e eu já dei
as minhas ao diretor.
- Devias ter-me
dito, ralhou-lhe a mulher.
- Essas cousas
não se dizem às nossas mulheres; são segredos
de Estado, sentenciou Campossolo.
O jantar foi.
acabando triste, com essa história de promoções
para o Natal.
Dona Sebastiana
quis ainda animar a conversa, dirigindo-se ao marido:
- Não
queria que me dissesses os nomes, mas pode acontecer que seja o
promovido o doutor Fortunato ou... O "Seu" Simplício,
e eu estaria prevenida para a uma "festinha".
Foi pior. A
tristeza tornou-se mais densa e quase calados tomaram café.
Levantaram-se
todos com o semblante anuviado, exceto a boa Mariazinha, que procurava
dar corda à conversa. Na sala de visitas, Simplício
ainda pôde olhar mais duas vezes furtivamente os olhos topazinos
de Mariazinha, que tinha um sossegado sorriso a banhar-lhe a face
toda; e se foi. O colega Fortunato ficou, mas tudo estava tão
morno e triste que, em breve, se foi também Guaicuru.
No bonde, Simplício
pensava unicamente em duas cousas: no Natal próximo e no
"Direito" de Guaicuru. Quando pensava nesta .' perguntava
de si para si: "Quem lhe ensinou aquilo tudo? Guaicuru é
absolutamente ignorante" Quando pensava naquilo, implorava:
"Ah! Se Nosso Senhor Jesus Cristo quisesse..."
Vieram afinal
as promoções. Simplício foi promovido porque
era muito mais antigo na classe que Guaicuru. O Ministro não
atendera a pistolões nem a títulos de Goiás.
Ninguém
foi preterido; mas Guaicuru que tinha em gestação
a obra de um outro, ficou furioso sem nada dizer.
Dona Sebastiana
deu uma consoada à moda do Norte. Na hora da ceia, Guaicuru,
como de hábito, ia sentar-se ao lado de Mariazinha, quando
Dona Sebastiana, com pince-nez e cabeça, tudo muito bem erguido,
chamou-o:
- Sente-se aqui
a meu lado, doutor, aí vai sentar-se o "Seu" Simplício.
Casaram-se dentro
de um ano; e, até hoje, depois de um lustro de casados ainda
teimam.
Ele diz:
- Foi Nosso
Senhor Jesus Cristo que nos casou.
Ela obtempera:
- Foi a promoção.
Fosse uma cousa
ou outra, ou ambas, o certo é que se casaram. É um
fato. A obra de Guaicuru, porém, é que até
hoje não saiu...
Careta, Rio,
24-12-1921.
Lima Barreto
Quase ela deu o "sim"; mas...
JOÃO CAZU era um moço suburbano, forte e saudável,
mas pouco ativo e amigo do trabalho.
Vivia em casa
dos tios, numa estação de subúrbios, onde tinha
moradia, comida, roupa, calçado e algum dinheiro que a sua
bondosa tia e madrinha lhe dava para os cigarros.
Ele, porém,
não os comprava; "filava-os" dos outros. "Refundia"
os níqueis que lhe dava a tia, para flores a dar às
namoradas e comprar bilhetes de tômbolas, nos vários
"mafuás", mais ou menos eclesiásticos, que
há por aquelas redondezas.
O conhecimento
do seu hábito de "filar" cigarros aos camaradas
e amigos, estava tão espalhado que, mal um deles o via, logo
tirava da algibeira um cigarro; e, antes de saudá-lo, dizia:
-Toma lá
o cigarro, Cazu.
Vivia assim
muito bem, sem ambições nem tenções.
A maior parte do dia, especialmente a tarde, empregava ele, com
outros companheiros, em dar loucos pontapés, numa bola, tendo
por arena um terreno baldio das vizinhanças da residência
dele ou melhor: dos seus tios e padrinhos.
Contudo, ainda
não estava satisfeito. Restava-lhe a grave preocupação
de encontrar quem lhe lavasse e engomasse a roupa, remendasse as
calças e outras peças do vestuário, cerzisse
as meias, etc., etc.
Em resumo: ele
queria uma mulher, uma esposa, adaptável ao seu jeito descansado.
Tinha visto
falar em sujeitos que se casam com moças ricas e não
precisam trabalhar; em outros que esposam professoras e adquirem
a meritória profissão de "maridos da professora";
ele, porém, não aspirava a tanto.
Apesar disso,
não desanimou de descobrir uma mulher que lhe servis convenientemente.
Continuou a
jogar displicentemente, o seu football vagabundo e a viver cheio
de segurança e abundância com os seus tios e padrinhos.
Certo dia, passando
pela porteira da casa de uma sua vizinha mais ou menos conhecida,
ela lhe pediu:
- "Seu"
Cazu, o senhor vai até à estação?
- Vou, Dona
Ermelinda.
- Podia me fazer
um favor?
- Pois não.
- É ver
se o "Seu" Gustavo da padaria "Rosa de Ouro",
me pode ceder duas estampilhas de seiscentos réis. Tenho
que fazer um requerimento ao Tesouro, sobre coisas do meu montepio,
com urgência, precisava muito.
- Não
há dúvida, minha senhora.
Cazu, dizendo
isto, pensava de si para si: ,'É um bom partido. Tem montepio,
é viúva; o diabo são os filhos!" Dona
Ermelinda, à vista da resposta dele, disse:
- Está
aqui o dinheiro.
Conquanto dissesse
várias vezes que não precisava daquilo - o dinheiro
- o impenitente jogador de football e feliz hóspede dos tios,
foi embolsando os nicolaus, por causa das dúvidas.
Fez o que tinha
a fazer na estação, adquiriu as estampilhas e voltou
para entregá-las à viúva.
De fato, Dona
Ermelinda era viúva de um contínuo ou cousa parecida
de uma repartição pública. Viúva e com
pouco mais de trinta anos, nada se falava da sua reputação.
Tinha uma filha
e um filho que educava com grande desvelo e muito sacrifício.
Era proprietária
do pequeno chalet onde morava, em cujo quintal havia laranjeiras
e algumas outras árvores frutíferas.
Fora o seu falecido
marido que o adquirira com o produto de uma "sorte" na
loteria; e, se ela, com a morte do esposo, o salvara das garras
de escrivães, escreventes, meirinhos, solicitadores e advogados
"mambembes", devia-o à precaução
do marido que comprara a casa, em nome dela.
Assim mesmo,
tinha sido preciso a intervenção do seu compadre,
o Capitão Hermenegildo, a fim de remover os obstáculos
que certos " águias" começavam a pôr,
para impedir que ela entrasse em plena posse do imóvel e
abocanhar-lhe afinal o seu chalézito humilde.
De volta, Cazu
bateu à porta da viúva que trabalhava no interior,
com cujo rendimento ela conseguia aumentar de muito o módico,
senão irrisório montepio, de modo a conseguir fazer
face às despesas mensais com ela e os filhos.
Percebendo a
pobre viúva que era o Cazu, sem se levantar da máquina,
gritou:
- Entre, "Seu"
Cazu.
Estava só,
os filhos ainda não tinham vindo do colégio. Cazu
entrou.
Após
entregar as estampilhas, quis o rapaz retirar-se; mas foi obstado
por Ermelinda nestes termos:
- Espere um
pouco, "Seu" Cazu. Vamos tomar café.
Ele aceitou
e, embora, ambos se serviram da infusão da "preciosa
rubiácea" , como se diz no estilo "valorização".
A viúva,
tomando café, acompanhado com pão e manteiga, pôs-se
a olhar o companheiro com certo interesse. Ele notou e fez-se amável
e galante, demorando em esvaziar a xícara. A viuvinha sorria
interiormente de contentamento. Cazu pensou com os seus botões:
"Está aí um bom partido: casa própria,
montepio, renda das costuras; e além de tudo, há de
lavar-me e consertar a roupa. Se calhou, fico livre das censuras
da tia..."
Essa vaga tenção
ganhou mais corpo, quando a viúva, olhando-lhe a camisa,
perguntou:
- "Seu
" Cazu, se eu lhe disser uma cousa, o senhor fica zangado?
- Ora, qual,
Dona Ermelinda?
- Bem. A sua
camisa está rasgada no peito. O senhor traz " ela"
amanhã, que eu conserto "ela".
Cazu respondeu
que era preciso lavá-la primeiro; mas a viúva prontificou-se
em fazer isso também. O player dos pontapés, fingindo
relutância no começo, aceitou afinal; e doido por isso
estava ele, pois era uma " entrada" , para obter uma lavadeira
em condições favoráveis.
Dito e feito:
daí em diante, com jeito e manha, ele conseguiu que a viúva
se fizesse a sua lavadeira bem em conta.
Cazu, após
tal conquista, redobrou de atividade no football, abandonou os biscates
e não dava um passo, para obter emprego. Que é que
ele queria mais? Tinha tudo...
Na redondeza,
passavam como noivos; mas não eram, nem mesmo namorados declarados.
Havia entre
ambos, unicamente um " namoro de caboclo", com o que Cazu
ganhou uma lavadeira, sem nenhuma exigência monetária
e cultivava-o carinhosamente.
Um belo dia,
após ano e pouco de tal namoro, houve um casamento na casa
dos tios do diligente jogador de football. Ele, à vista da
cerimônia e da festa, pensou: "Porque também eu
não me caso? Porque eu não peço Ermelinda em
casamento? Ela aceita, por certo; e eu..."
Matutou domingo,
pois o casamento tinha sido no sábado; refletiu segunda e,
na terça, cheio de coragem, chegou-se à Ermelinda
e pediu-a em casamento.
- É grave
isto, Cazu. Olhe que sou viúva e com dois filhos!
- Tratava "
eles" bem; eu juro!
- Está
bem. Sexta-feira, você vem cedo, para almoçar comigo
e eu dou a resposta.
Assim foi feito.
Cazu chegou cedo e os dous estiveram a conversar. ela, com toda
a naturalidade, e ele, cheio de ansiedade e, apreensivo.
Num dado momento,
Ermelinda foi até à gaveta de um móvel e tirou
de lá um papel.
- Cazu - disse
ela, tendo o papel na mão - você vai à venda
e à quitanda e compra o que está aqui nesta "nota".
É para o almoço.
Cazu agarrou
trêmulo o papelucho e pôs-se a ler o seguinte:
1 quilo de feijão
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 600 rs.
1/2 de farinha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
1/2 de bacalhau . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . 1.200 rs.
1/2 de batatas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 360 rs.
Cebolas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .200
rs.
Alhos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100
rs.
Azeite . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 300
rs.
Sal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
100 rs.
Vinagre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200
rs.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3.260
rs.
Quitanda:
Carvão
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 280 rs.
Couve . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
Salsa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 rs.
Cebolinha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 rs.
tudo: . . . . . . . . . . . 3.860 rs.
Acabada a leitura,
Cazu não se levantou logo da cadeira; e, com a lista na mão,
a olhar de um lado a outro, parecia atordoado, estuporado.
- Anda Cazu,
fez a viúva. Assim, demorando, o almoço fica tarde...
- É que...
- Que há
?
- Não
tenho dinheiro.
Mas você
não quer casar comigo? É mostrar atividade meu filho!
Dê os seus passos... Vá! Um chefe de família
não se atrapalha... É agir !
João
Cazu, tendo a lista de gêneros na mão, ergueu-se da
cadeira, saiu e não mais voltou...
Careta, Rio,
29-1-1921.
Lima Barreto