O Homem que sabia Javanês e outros contos
Lima Barreto
O Filho
de Gabriela
A ANTÔNIO NORONHA SANTOS
"Chaque
progrès, au fond, est un avortement
Mais l'échec même sert".
Guyau
ABSOLUTAMENTE
não pode continuar assim... Já passa... É todo
o dia! Arre! - Mas é meu filho, minh'ama.
E que tem isso?
Os filhos de vocês agora têm tanto luxo. Antigamente,
criavam-se à toa; hoje, é um deus-nos-acuda; exigem
cuidados, têm moléstias... Fique sabendo: não
pode ir amanhã!
- Ele vai melhorando,
Dona Laura; e o doutor disse que não deixasse de levá-lo
lá, amanhã...
- Não
pode, não pode, já lhe disse! O conselheiro precisa
chegar cedo à escola; há exames e tem que almoçar
cedo... Não vai, não senhora ! A gente tem criados
pra que? Não vai, não !
- Vou, e vou sim !... Que bobagem .!... Quer matar o pequeno, não
é? Pois sim... Está-se "ninando"...
- O que é
que você disse, hein?
- É isso
mesmo: vou e vou!
- Atrevida .
- Atrevida é
você, sua... Pensa que não sei...
Em seguida as
duas mulheres se puseram caladas durante um instante: a patroa -
uma alta senhora, ainda moça, de uma beleza suave e marmórea
- com os lábios finos muito descorados e entreabertos, deixando
ver os dentes aperolados, muito iguais, cerrados de cólera;
a criada agitada, transformada, com faiscações desusadas
nos olhos pardos e tristes. A patroa não se demorou assim
muito tempo. Violentamente contraída naquele segundo a sua
fisionomia repentinamente se abriu num choro convulsivo.
A injúria
da criada, decepções matrimoniais, amarguras do seu
ideal amoroso, fatalidades de temperamento, todo aquele obscuro
drama de sua alma, feito de uma porção de coisas que
não chegava bem a colher, mas nas malhas das quais se sentia
presa e sacudida, subiu-lhe de repente à consciência,
e ela chorou.
Na sua simplicidade
popular, a criada também se pôs a chorar, enternecida
pelo sofrimento que ela mesma provocara na ama.
E ambas, pelo
fim dessa transfiguração inopinada, entreolharam-se
surpreendidas, pensando que se acabavam de conhecer naquele instante,
tendo até ali vagas notícias uma da outra, como se
vivessem longe, tão longe, que só agora haviam distinguido
bem nitidamente o tom de voz próprio a cada uma delas.
No entendimento
peculiar de uma e de outra, sentiram-se irmãs na desoladora
mesquinhez da nossa natureza e iguais, como frágeis conseqüências
de um misterioso encadear de acontecimentos, cuja ligação
e fim lhes escapavam completamente, inteiramente...
A dona da casa,
à cabeceira da mesa de jantar, manteve-se silenciosa, correndo,
de quando em quando, o olhar ainda úmido pelas ramagens do
atoalhado, indo, às vezes, com ele até à bandeira
da porta defronte, donde pendia a gaiola do canário, que
se sacudia na prisão niquelada.
De pé,
a criada avançou algumas palavras. Desculpou-se inábil
e despediu-se humilde.
- Deixe-se disso,
Gabriela, disse Dona Laura. Já passou tudo; eu não
guardo rancor; fique! Leve o pequeno amanhã... Que vai você
fazer por esse mundo afora ?
- Não
senhora... Não posso... É que...
E de um hausto
falou com tremuras na voz:
- Não
posso, não minh'ama; vou-me embora!
Durante um mês,
Gabriela andou de bairro em bairro, à procura de aluguel.
Pedia lessem-lhe anúncios, corria, seguindo as indicações,
a casas de gente de toda a espécie. Sabe cozinhar? perguntavam.
- Sim, senhora, o trivial. - Bem e lavar? Serve de ama? - Sim, senhora;
mas se fizer uma coisa, não quero fazer outra. - Então,
não me serve, concluía a dona da casa. É um
luxo... Depois queixam-se que não têm aonde se empreguem...
Procurava outras
casas; mas nesta já estavam servidas, naquela o salário
era pequeno e naquela outra queriam que dormisse em casa e não
trouxesse o filho.
A criança,
durante esse mês, viveu relegada a um canto da casa de uma
conhecida da mãe. Um pobre quarto de estalagem, úmido
que nem uma masmorra. De manhã, via a mãe sair; à
tarde, quase à boca da noite, via-a entrar desconfortada.
Pelo dia em fora, ficava num abandono de enternecer. A hóspede,
de longe em longe, olhava-o cheia de raiva. Se chorava aplicava-lhe
palmadas e gritava colérica: " Arre diabo! A vagabunda
de tua mãe anda saracoteando... Cala a boca, demônio!
Quem te fez, que te ature..."
Aos poucos,
a criança torrou-se de medo; nada pedia, sofria fome, sede,
calado. Enlanguescia a olhos vistos e sua mãe, na caça
de aluguel, não tinha tempo para levá-lo ao doutor
do posto médico. Baço, amarelado, tinha as pernas
que nem palitos e o ventre como o de um batráquio. A mãe
notava-lhe o enfraquecimento, os progressos da moléstia e
desesperava, não sabendo que alvitre tomar. Um dia pelos
outros, chegava em casa semi-embriagada, escorraçando o filho
e trazendo algum dinheiro. Não confessava a ninguém
a origem dele; em outros mal entrava, beijava muito o pequeno, abraçava-o.
E assim corria a cidade. Numa destas correrias passou pela porta
do conselheiro, que era o marido de Dona Laura. Estava no portão,
a lavadeira, parou e falou-lhe; nisto, viu aparecer a sua antiga
patroa numa janela lateral. " - Bom dia minh'ama," - "Bom
dia, Gabriela. Entre." Entrou. A esposa do conselheiro perguntou-lhe
se já tinha emprego; respondeu-lhe que não. "Pois
olha, disse-lhe a senhora, eu ainda não arranjei cozinheira,
se tu queres..."
Gabriela quis
recusar, mas Dona Laura insistiu.
Entre elas,
parecia que havia agora certo acordo íntimo, um quê
de mútua proteção e simpatia. Uma tarde em
que Dona Laura voltava da cidade, o filho da Gabriela, que estava
no portão, correu imediatamente para a moça e disse-lhe,
estendendo a ma - o: "a bênção" Havia
tanta tristeza no seu gesto, tanta simpatia e sofrimento, que aquela
alta senhora não lhe pôde negar a esmola de um afago,
de uma carícia sincera. Nesse dia, a cozinheira notou que
ela estava triste e, no dia seguinte, não foi sem surpresa
que Gabriela se ouviu chamar.
- O Gabriela!
- Minh'ama.
- Vem cá.
Gabriela concertou-se
um pouco e correu à sala de jantar, onde estava a ama.
- Já
batizaste o teu pequeno? perguntou-lhe ela ao entrar.
- Ainda não.
- Porque? Com
quatro anos!
- Porque? Porque
ainda não houve ocasião...
- Já
tens padrinhos?
- Não,
senhora.
- Bem; eu e
o conselheiro vamos batizá-lo. Aceitas?
Gabriela não
sabia como responder, balbuciou alguns agradecimentos e voltou ao
fogão com lágrimas nos olhos.
O conselheiro
condescendeu e cuidadosamente começou a procurar um nome
adequado. Pensou em Huáscar, Ataliba, Guatemozim; consultou
dicionários, procurou nomes históricos, afinal resolveu-se
por "Horácio", sem saber porque.
Assim se chamou
e cresceu. Conquanto tivesse recebido um tratamento médico
regular e a sua vida na casa do conselheiro fosse relativamente
confortável, o pequeno Horácio não perdeu nem
a reserva nem o enfezado dos seus primeiros anos de vida. A proporção
que crescia, os traços se desenhavam, alguns finos: o corte
da testa, límpida e reta; o olhar doce e triste, como o da
mãe, onde havia, porém, alguma coisa a mais - um fulgor,
certas expressões particulares, principalmente quando calado
e concentrado. Não obstante, era feio, embora simpático
e bom de ver.
Pelos seis anos,
mostrava-se taciturno, reservado e tímido, olhando interrogativamente
as pessoas e coisas, sem articular uma pergunta. Lá vinha
um dia, porém, que o Horácio rompia numa alegria ruidosa;
punha-se a correr, a brincar, a cantarolar, pela casa toda, indo
do quintal para as salas, satisfeito, contente, sem motivo e sem
causa.
A madrinha espantava-se
com esses bruscos saltos de humor, queria entendê-los, explicá-los
e começou por se interessar pelos seus trejeitos. Um dia,
vendo o afilhado a cantar, a brincar, muito contente, depois de
uma porção de horas de silêncio e calma, correu
ao piano e acompanhou-lhe a cantiga, depois, emendou com uma ária
qualquer. O menino calou-se, sentou-se no chão e pôs-se
a olhar, com olhos tranqüilos e calmos, a madrinha, inteiramente
delido nos sons que saíam dos seus dedos. E quando o piano
parou, ele ainda ficou algum tempo esquecido naquela postura, com
o olhar perdido numa cisma sem fim. A atitude imaterial do menino
tocou a madrinha, que o tomou ao colo, abraçando-o e beijando-o,
num afluxo de ternura, a que não eram estranhos os desastres
de sua vida sentimental.
Pouco depois
a mãe lhe morria. Até então vivia numa semidomesticidade.
Daí em diante, porém, entrou completamente na família
do Conselheiro Calaça. Isso, entretanto, não lhe retirou
a taciturnidade e a reserva; ao contrário, fechou-se em si
e nunca mais teve crises de alegria.
Com sua mãe
ainda tinha abandonos de amizade, efusões de carícias
e abraços. Morta que ela foi, não encontrou naquele
mundo tão diferente, pessoa a quem se pudesse abandonar completamente,
embora pela madrinha continuasse a manter uma respeitosa e distante
amizade, raramente aproximada por uma carícia, por um afago.
Ia para o colégio calado, taciturno, quase carrancudo, e,
se, pelo recreio, o contágio obrigava-o a entregar-se à
alegria e aos folguedos, bem cedo se arrependia, encolhia-se e sentava-se,
vexado, a um canto. Voltava do colégio como fora, sem brincar
pelas ruas, sem traquinadas, severo e insensível. Tendo uma
vez brigado com um colega, a professora o repreendeu severamente,
mas o conselheiro, seu padrinho, ao saber do caso, disse com rispidez:
"Não continue, hein ? O senhor não pode brigar
- está ouvindo?"
E era assim
sempre o seu padrinho, duro, desdenhoso, severo em demasia com o
pequeno, de quem não gostava, suportando-o unicamente em
atenção à mulher - maluquices da Laura, dizia
ele. Por vontade dele, tinha-o posto logo num asilo de menores,
ao morrer-lhe a mãe; mas a madrinha não quis e chegou
até a conseguir que o marido o colocasse num estabelecimento
oficial de instrução secundária, quando acabou
com brilho o curso primário.
Não foi
sem resistência que ele acedeu, mas os rogos da mulher, que
agora juntava à afeição pelo pequeno uma secreta
esperança no seu talento, tanto fizeram que o conselheiro
se empenhou e obteve.
Em começo,
aquela adoção fora um simples capricho de Dona Laura;
mas, com o tempo, os seus sentimentos pelo menino foram ganhando
importância e ficando profundos, embora exteriormente o tratasse
com um pouco de cerimônia.
Havia nela mais
medo da opinião, das sentenças do conselheiro, do
que mesmo necessidade de disfarçar o que realmente sentia,
e pensava.
Quem a conheceu
solteira, muito bonita, não a julgaria capaz de tal afeição;
mas, casada, sem filhos, não encontrando no casamento nada
que sonhara, nem mesmo o marido, sentiu o vazio da existência,
a inanidade dos seus sonhos, o pouco alcance da nossa vontade; e,
por uma reviravolta muito comum, começou a compreender confusamente
todas as vidas e almas, a compadecer-se e a amar tudo, sem amar
bem coisa alguma. Era uma parada de sentimento e a corrente que
se acumulara nela, perdendo-se do seu leito natural, extravasara
e inundara tudo.
Tinha um amante
e já tivera outros, mas não era bem a parte mística
do amor que procurara neles. Essa, ela tinha certeza que jamais
podia encontrar; era a parte dos sentidos tão exuberantes
e exaltados depois das suas contrariedades morais.
Pelo tempo em
que o seu afilhado entrara para o colégio secundário,
o amante rompera com ela; e isto a fazia sofrer, tinha medo de não
possuir mais beleza suficiente para arranjar um outro como "aquele".
e a esse desastre sentimental não foi estranha a energia
dos seus rogos junto ao marido para admissão do Horácio
no estabelecimento oficial.
O conselheiro,
homem de mais de sessenta anos, continuava superiormente frio, egoísta
e fechado, sonhando sempre uma posição mais alta ou
que julgava mais alta. Casara-se por necessidade decorativa. Um
homem de sua posição não podia continuar viúvo;
atiraram-lhe aquela menina pelos olhos, ela o aceitou por ambição
e ele por conveniência. No mais, lia os jornais, o câmbio
especialmente, e, de manhã passava os olhos nas apostilas
de sua cadeira - apostilas por ele organizadas, há quase
trinta anos, quando dera as suas primeiras lições,
moço, de vinte e cinco anos, genial nas aprovações
e nos prêmios.
Horácio,
toda a manhã, ao sair para o colégio, lá avistava
o padrinho atarraxado na cadeira de balanço a ler atentamente
o jornal: " A bênção, meu padrinho ! "
- "Deus te abençoe", dizia ele, sem menear a cabeça
do espaldar e no mesmo tom de voz com que pediria os chinelos à
criada.
Em geral, a
madrinha estava deitada ainda e o menino saía para o ambiente
ingrato da escola, sem um adeus, sem dar um beijo, sem ter quem
lhe reparasse familiarmente o paletó. Lá ia. A viagem
de bonde, ele a fazia humilde, espremido a um canto do veículo,
medroso que seu paletó roçasse as sedas de uma rechonchuda
senhora ou que seus livros tocassem nas calças de um esquelético
capitão de uma milícia qualquer. Pelo caminho, arquitetava
fantasias; seu espírito divagava sem nexo. À passagem
de um oficial a cavalo, imaginava-se na guerra, feito general, voltando
vencedor, vitorioso de ingleses, de alemães, de americanos
e entrando pela Rua do Ouvidor aclamado como nunca se fora aqui.
Na sua cabeça ainda infantil, em que a fraqueza de afetos
próximos concentrava o pensamento, a imaginação
palpitava, tinha uma grande atividade, criando toda a espécie
de fantasmagorias que lhe apareciam como fatos possíveis,
virtuais.
Eram-lhe as
horas de aula um bem triste momento. Não que fosse vadio,
estudava o seu bocado, mas o espetáculo do saber, por um
lado grandioso e apoteótico, pela boca dos professores, chegava-lhe
tisnado e um quê desarticulado. Não conseguia ligar
bem umas coisas às outras, além do que tudo aquilo
lhe aparecia solene, carrancudo e feroz. Um teorema tinha o ar autoritário
de um régulo selvagem; e aquela gramática cheia de
regrinhas, de exceções, uma coisa cabalística,
caprichosa e sem aplicação útil.
O mundo parecia-lhe
uma coisa dura, cheia de arestas cortantes, governado por uma porção
de regrinhas de três linhas, cujo segredo e aplicação
estavam entregues a uma casta de senhores, tratáveis uns,
secos outros, mas todos velhos e indiferentes.
Aos seus exames
ninguém assistia, nem por eles alguém se interessava;
contudo. foi sempre regularmente aprovado.
Quando voltava
do colégio, procurava a madrinha e contava-lhe o que se dera
nas aulas. Narrava-lhe pequenas particularidades do dia, as notas
que obtivera e as travessuras dos colegas.
Uma tarde, quando
isso ia fazer, encontrou Dona Laura atendendo a uma visita. Vendo-o
entrar e falar à dona da casa, tomando-lhe a bênção]
a senhora estranha perguntou: "Quem é este pequeno?"
- "E meu afilhado", disse-lhe Dona Laura. "Teu afilhado?
Ahn! sim! É o filho da Gabriela..."
Horácio
ainda esteve um instante calado, estatelado e depois chorou nervosamente.
Quando se retirou
observou a visita à madrinha:
- Você
está criando mal esta criança. Faz-lhe muitos mimos,
está lhe dando nervos...
- Não
faz mal. Podem levá-lo longe.
E assim corria
a vida do menino em casa do conselheiro.
Um domingo ou
outro, só ou com um companheiro, vagava pelas praias, pelos
bondes ou pelos jardins. O Jardim Botânico era-lhe preferido.
Ele e o seu constante amigo Salvador sentavam-se a um banco, conversavam
sobre os estudos comuns, maldiziam este ou aquele professor. Por
fim, a conversa vinha a enfraquecer; os dois se calavam instantes.
Horácio deixava-se penetrar pela flutuante poesia das coisas,
das árvores, dos céus, das nuvens; acariciava com
o olhar as angustiadas colunas das montanhas, simpatizava com o
arremesso dos píncaros, depois deixava-se ficar, ao chilreio
do passaredo, cismando vazio, sem que a cisma lhe fizesse ver coisa
definida, palpável pela inteligência. Ao fim, sentia-se
como que liqüefeito, vaporizado nas coisas era como se perdesse
o feitio humano e se integrasse naquele verde escuro da mata ou
naquela mancha faiscante de prata que a água a correr deixava
na encosta da montanha. Com que volúpia, em tais momentos,
ele se via dissolvido na natureza, em estado de fragmentos, em átomos,
sem sofrimento, sem pensamento, sem dor! Depois de ter ido ao indefinido,
apavorava-se com o aniquilamento e voltava a si, aos seus desejos,
às suas preocupações com pressa e medo. - Salvador,
de que gostas mais, do inglês ou francês? - Eu do francês;
e tu? - Do inglês. - Porque? Porque pouca gente o sabe.
A confidência
saía-lhe a contragosto, era dita sem querer. Temeu que o
amigo o supusesse vaidoso. Não era bem esse sentimento que
o animava; era uma vontade de distinção, de reforçar
a sua individualidade, que ele sentia muito diminuída pelas
circunstâncias ambientes. O amigo não entrava na natureza
do seu sentimento e despreocupadamente perguntou: - Horácio,
já assististe uma festa de São João? - Nunca.
- Queres assistir uma?- Quero, onde ? - Na ilha, em casa de meu
tio.
Pela época,
a madrinha consentiu. Era um espetáculo novo; era um outro
mundo que se abria aos seus olhos. Aquelas longas curvas das praias,
que perspectivas novas não abriam em seu espírito!
Ele se ia todo nas cristas brancas das ondas e nos largos horizontes
que descortinava.
Em chegando
a noite, afastou-se da sala. Não entendia aqueles folguedos,
aquele dançar sôfrego, sem pausa, sem alegria, como
se fosse um castigo. Sentado a um banco do lado de fora, pôs-se
a apreciar a noite, isolado, oculto, fugido, solitário, que
se sentia ser no ruído da vida. Do seu canto escuro, via
tudo mergulhado numa vaga semiluz. No céu negro, a luz pálida
das estrelas; na cidade defronte, o revérbero da iluminação;
luz, na fogueira votiva, nos balões ao alto, nos foguetes
que espoucavam, nos fogaréus das proximidades e das distâncias
- luzes contínuas, instantâneas, pálidas, fortes;
e todas no conjunto pareciam representar um esforço enorme
para espancar as trevas daquela noite de mistérios.
No seio daquela
bruma iluminada, as formas das árvores boiavam como espectros;
o murmúrio do mar tinha alguma coisa de penalizado diante
do esforço dos homens e dos astros para clarear as trevas.
Havia naquele instante, em todas as almas, um louco desejo de decifrar
o mistério que nos cerca; e as fantasias trabalhavam para
idear meios que nos fizessem comunicar com o Ignorado, com o Invisível.
Pelos cantos sombrios da chácara pessoas deslizavam. Iam
ao poço ver a sombra - sinal de que viveriam o ano; iam disputar
galhos de arruda ao diabo; pelas janelas, deixavam copos com ovos
partidos para que o sereno, no dia seguinte, trouxesse as mensagens
do Futuro.
O menino, sentindo-se
arrastado por aquele frêmito de augúrio e feitiçaria,
percebeu bem como vivia envolvido, mergulhado, no indistinto, no
indecifrável; e uma onda de pavor, imensa e aterradora, cobriu-lhe
o sentimento.
Dolorosos foram
os dias que se seguiram. O espírito sacolejou-lhe o corpo
violentamente. Com afinco estudava, lia os compêndios; mas
não compreendia, nada retinha. O seu entendimento como que
vazava. Voltava, lia, lia e lia e, em seguida, virava as folhas
sofregamente, nervosamente, como se quisesse descobrir debaixo delas
um outro mundo cheio de bondade e satisfação. Horas
havia que ele desejava abandonar aqueles livros, aquela lenta aquisição
de noções e idéias, reduzir-se e anular-se;
horas havia, porém, que um desejo ardente lhe vinha de saturar-se
de saber, de absorver todo o conjunto das ciências e das artes.
Ia de um sentimento para outro; e foi vã a agitação.
Não encontrava solução, saída; a desordem
das idéias e a incoerência das sensações
não lhe podiam dar uma e cavavam-lhe a saúde. Tornou-se
mais flébil, fatigava-se facilmente. Amanhecia cansado de
dormir e dormia cansado de estar em vigília. Vivia irritado,
raivoso, não sabia contra quem.
Certa manhã,
ao entrar na sala de jantar, deu com o padrinho a ler os jornais,
segundo o seu hábito querido.
- Horácio,
você passe na casa do Guedes e traga-me a roupa que mandei
consertar.
- Mande outra
pessoa buscar.
- O que?
- Não
trago.
- Ingrato! Era
de esperar...
E o menino ficou
admirado diante de si mesmo, daquela saída de sua habitual
timidez.
Não sabia
onde tinha ido buscar aquele desaforo imerecido, aquela tola má-criação;
saiu-lhe como uma coisa soprada por outro e que ele unicamente pronunciasse.
A madrinha interveio,
aplainou as dificuldades; e, com a agilidade de espírito
peculiar ao sexo, compreendeu o estado d'alma do rapaz. Reconstituiu-o
com os gestos, com os olhares, com as meias palavras, que percebera
em tempos diversos e cuja significação lhe escapara
no momento, mas que aquele ato, desusadamente brusco e violento,
aclarava por completo. Viu-lhe o sofrimento de viver à parte,
a transplantação violenta, a falta de simpatia, o
princípio de ruptura que existia em sua alma, e que o fazia
passar aos extremos das sensações e dos atos.
Disse-lhe coisas
doces, ralhou-o, aconselhou-o, acenou-lhe com a fortuna, a glória
e o nome.
Foi Horácio
para o colégio abatido, preso de um estranho sentimento de
repulsa, de nojo por si mesmo. Fora ingrato, de fato; era um monstro.
Os padrinhos lhe tinham dado tudo, educado, instruído. Fora
sem querer, fora sem pensar; e sentia bem que a sua reflexão
não entrara em nada naquela resposta que dera ao padrinho.
Em todo o caso, as palavras foram suas, foram ditas com sua voz
e a sua boca, e se lhe nasceram do íntimo sem a colaboração
da inteligência, devia acusar-se de ser fundamentalmente mau...
Pela segunda
aula, pediu licença. Sentia-se doente, doía-lhe a
cabeça e parecia que lhe passavam um archote fumegante pelo
rosto.
- Já,
Horácio? perguntou-lhe a madrinha, vendo-o entrar.
- Estou doente.
E dirigiu-se
para o quarto. A madrinha seguiu-o. Chegado que foi, atirou-se à
cama, ainda meio-vestido.
- Que é
que você tem, meu filho?
- Dores de cabeça...
um calor...
A madrinha tomou-lhe
o pulso, assentou as costas da mão na testa e disse-lhe ainda
algumas palavras de consolação : que aquilo não
era nada; que o padrinho não lhe tinha rancor; que sossegasse.
O rapaz, deitado,
com os olhos semicerrados, parecia não ouvir; voltava-se
de um lado para outro; passava a mão pelo rosto, arquejava
e debatia-se. Um instante pareceu sossegar; ergueu-se sobre o travesseiro
e chegou a mão aos olhos, no gesto de quem quer avistar alguma
coisa ao longe. A estranheza do gesto assustou a madrinha.
- Horácio!...
Horácio!...
- Estou dividido...
Não sai sangue...
- Horácio,
Horácio, meu filho !
- Faz sol...
Que sol !... Queima...Árvores enormes... Elefantes...
- Horácio,
que é isso? Olha; é tua madrinha!
- Homens negros...
fogueiras... Um se estorce... Chi ! Que coisa!... O meu pedaço
dança...
- Horácio
! Genoveva, traga água de flor... Depressa, um médico...
Vá chamar, Genoveva!
- Já
não é o mesmo... é outro... lugar, mudou...
uma casinha branca... carros de bois... nozes... figos... lenços...
- Acalma-te,
meu filho!
- Ué!
Chi! Os dois brigam...
Daí em
diante a prostração tomou-o inteiramente. As últimas
palavras não saíam perfeitamente articuladas. Pareceu
sossegar. O médico entrou, tomou a temperatura, examinou-o
e disse com a máxima segurança:
- Não
se assuste, minha senhora. É delírio febril, simplesmente.
Dê-lhe o purgante, depois as cápsulas, que, em breve,
estará bom.
Lima Barreto
A mulher do Anacleto
ESTE CASO se passou com um antigo colega meu de repartição.
Ele, em começo,
era um excelente amanuense, pontual, com magnífica letra
e todos os seus atributos do ofício faziam-no muito estimado
dos chefes.
Casou-se bastante
moço e tudo fazia crer que o seu casamento fosse dos mais
felizes. Entretanto, assim não foi.
No fim de dous
ou três anos de matrimônio, Anacleto começou
a desandar furiosamente. Além de se entregar à bebida.
deu-se também ao jogo.
A mulher muito
naturalmente começou a censurá-lo.
A princípio,
ele ouvia as observações da cara metade com resignação;
mas, em breve, enfureceu-se com elas e deu em maltratar fisicamente
a pobre rapariga.
Ela estava no
seu papel, ele, porém, é que não estava no
dele.
Motivos secretos
e muito íntimos, talvez explicassem a sua transformação;
a mulher, porém, é que não queria entrar em
indagações psicológicas e reclamava. As respostas
a estas acabaram por pancadaria grossa. Suportou-a durante algum
tempo. Um dia, porém, não esteve mais pelos autos
e abandonou o lar precário. Foi para a casa de um parente
e de uma amiga, mas, não suportando a posição
inferior de agregada, deixou-se cair na mais relaxada vagabundagem
de mulher que se pode imaginar.
Era uma verdadeira
"catraia" que perambulava suja e rota pelas praças
mais reles deste Rio de Janeiro.
Quando se falava
a Anacleto sobre a sorte da mulher, ele se enfurecia doidamente
:
- Deixe essa
vagabunda morrer por aí! Qual minha mulher, qual nada !
E dizia cousas
piores e injuriosas que não se podem pôr aqui.
Veio a mulher
a morrer, na praça pública; e eu que suspeitei, pelas
notícias dos jornais, fosse ela, apressei-me em recomendar
a Anacleto que fosse reconhecer o cadáver. Ele gritou comigo:
- Seja ou não
seja! Que morra ou viva, para mim vale pouco !
Não insisti,
mas tudo me dizia que era a mulher do Anacleto que estava como um
cadáver desconhecido no necrotério.
Passam-se anos,
o meu amigo Anacleto perde o emprego, devido à desordem de
sua vida. Ao fim de algum tempo, graças à interferência
de velhas amizades, arranja um outro, num Estado do Norte.
Ao fim de um
ano ou dous, recebo uma carta dele, pedindo-me arranjar na polícia
certidão de que sua mulher havia morrido na via pública
e fora enterrada pelas autoridades públicas, visto ter ele
casamento contratado com uma viúva que tinha " alguma
cousa", e precisar também provar o seu estado de viuvez.
Dei todos os
passos para tal, mas era completamente impossível. Ele não
quisera reconhecer o cadáver de sua desgraçada mulher
e para todos os efeitos continuava a ser casado.
E foi assim
que a esposa do Anacleto vingou-se postumamente. Não se casou
rico, como não se casará nunca mais.
Lima Barreto
O Caçador Doméstico
O SIMÕES ERA descendente de uma famosa família dos
Feitais, do Estado do Rio, de que o 13 de Maio arrebatou mais de
mil escravos.
Uma verdadeira
fortuna, porque escravo, naquelas épocas, apesar da agitação
abolicionista, era mercadoria valorizada. Valia bem um conto de
réis a cabeça, portanto os tais de Feitais perderam
cerca ou mais de mil contos.
De resto, era
mercadoria que não precisava muitos cuidados. Antes da lei
do ventre livre, a sua multiplicação ficava aos cuidados
dos senhores e depois... também.
Esses Feitais
eram célebres pelo sadio tratamento de gado de engorda que
davam aos seus escravos e também pela sua teimosia escravagista.
Se não
eram requintadamente cruéis para com os seus cativos, tinham,
em oposição, um horror extraordinário à
carta de alforria.
Não davam
uma, fosse por que pretexto fosse.
Conta-se até
que o velho Feital, tendo um escravo mais claro que mostrava aptidões
para os estudos, dera-lhe professores e o matriculara na Faculdade
de Medicina.
Quando o rapaz
ia terminar o curso, retirara-o dela, trouxera-o para a fazenda,
da qual o fizera médico, mas nunca lhe dera carta de liberdade,
embora o tratasse como homem livre e o fizesse tratar assim por
todos.
Simões
vinha dessa gente que empobrecera de uma hora para outra.
Muito tapado,
não soubera aproveitar as relações de família,
para formar-se em qualquer cousa e arranjar boas sinecuras, entre
as quais a de deputado, para a qual estava a calhar, pois de família
do partido escravagista-conservador, tinha o mais lindo estofo para
ser um republicano do mais puro quilate brasileiro.
Fez-se burocrata;
e, logo que os vencimentos deram para a cousa, casou com uma Magalhães
Borromeu, de Santa Maria Madalena, cuja família também
se havia arruinado com a abolição.
Na repartição,
o Simões não se fez de trouxa. Aproveitou as relações
e amizades de família, para promoções, preterindo
toda a gente.
Quando chegou,
aí, por chefe de secção; 1embrou-se que descendia
de gente de lavoura e mudou-se para os subúrbios, onde teria
alguma idéia da roça, onde nascera.
Os restos de
matas que há por aquelas paragens, deram-lhe 1embranças
saudosas da sua mocidade nas fazendas de seus tios. Lembrou-se que
caçava; 1embrou-se da sua matilha para caititus e pacas;
e deu em criar cachorros que adestrava para a caça, como
se tivesse de fazer alguma.
No lugar em
que morava, só havia uma espécie de caça rasteira:
eram preás porém nos capinzais; mas, Simões,
que era da nobre família dos Feitais de Pati e adjacências,
não podia entregar-se a torneio tão vagabundo.
Como havia de
empregar a sua gloriosa matilha?
À sua
perversidade inata acudiu-lhe logo um alvitre : caçar os
frangos e outros galináceos da vizinhança que, fortuitamente,
lhe iam ter no quintal.
Era ver um frango
de qualquer vizinho, imediatamente estumava a cachorrada que estraçalhava
em três tempos o bicharoco.
Os vizinhos
acostumados com os pacatos moradores antigos estranharam a maldade
de semelhante imbecil que se fazia mudo às reclamações
da pobre gente que lhe morava em torno.
Cansados com
as proezas do caçador doméstico de frangos e patos
resolveram por termo a elas.
Trataram de
mal-assombrar a casa. Contrataram um moleque jeitoso que se metia
no forro da casa, à noite e lá arrastava correntes.
Simões
1embrou-se dos escravos dos seus parentes Feitais e teve remorsos.
Um dia assustou-se tanto que correu espavorido para o quintal, alta
noite, em trajes menores, com o falar transtornado. Os seus molossos
não o conheceram e o puseram no estado em que punham os incautos
frangos da vizinhança: estraçalharam-no.
Tal foi o fim
de um dos últimos rebentos dos poderosos Feitais de Barra
Mansa.
O homem que sabia Javanês e outros contos, de Lima Barreto
Fonte:
BARRETO, Lima. O homem que sabia javanês e outros contos.
Curitiba: Polo Editorial do Paraná, 1997.
Texto proveniente
de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado
por:
Rodrigo Souza, Curitiba - PR
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