Inocência
Visconde de Taunay
VI - INOCÊNCIA
Nesta donzela é
que se acham juntas a minha vida e a minha morte.
(Henoch, o Livro da
Amizade)
Jamais vira coisa
tão perfeita como o seu rosto pálido. Os seus olhos franjados
de sedosos cílios multo espessos e o seu ar meigo e doentio.
(George Sand, os Mestres
Galteiros)
Tudo, em Fenela, realçava
a idéia de uma miniatura. Além do mais havia em sua fisionomia
e, sobretudo, no olhar extraordinária prontidão, fogo e
atilamento.
(Walter Scott, Peveril
do Pico).
Depois das explicações
dados ao seu hóspede, sentiu-se o mineiro mais despreocupado.
-Então, disse
ele, se quiser, vamos já ver a nossa doentinha.
- Com muito gosto,
concordou Cirino.
E saindo da sala,
acompanhou Pereira, que o fez passar por duas cercas e rodear a casa toda,
antes de tomar a porta do fundo, fronteira a magnifico laranjal, naquela
ocasião todo pontuado das brancas e olorosas flores.
-Neste lugar, disse
o mineiro apontando para o pomar, todos os dias se juntam tamanhos bandos
de graúnas, que é um barulho dos meus pecados. Nocência
gosta muito disso e vem sempre coser debaixo do arvoredo. ~ uma menina
esquisita...
Parando no limiar
da porta, continuou com expansão:
-Nem o Sr. imagina...
Às vezes, aquela criança tem lembranças e perguntas
que me fazem embatucar... Aqui, havia um livro de horas da minha defunta
avó.
...Pois não
é que um belo dia ela me pediu que lhe ensinasse a ler?... Que
idéia!
.. Ainda há
pouco tempo me disse que quisera ter nascido princesa... Eu lhe retruquei:
E sabe você o que é ser princesa? Sei, me secundou ela com
toda a clareza, é uma moca muito boa, muito bonita, que tem uma
coroa de diamantes na cabeça, muitos lavrados no pescoço
e que manda nos homens... Fiquei meio tonto E se o Sr. visse os modos
que tem com os bichinhos?! . . . Parece que está falando com eles
e que os entende... Uma bicharia, em chegando ao pé de Nocência,
fica mansa que nem ovelhinha parida de fresco .. Se fosse agora a contar-lhe
histórias dessa rapariga, seria um não acabar nunca... Entremos,
que é melhor...
Quando Cirino penetrou
no quarto da filha do mineiro, era quase noite, de maneira que, no primeiro
olhar que atirou ao redor de si, só pode lobrigar, além
de diversos trastes de formas antiquadas, uma dessas camas, muito em uso
no interior; altas e largas, feitas de tiras de couro engradados. Estava
encostada a um canto, e nela havia uma pessoa deitada.
Mandara Pereira acender
uma vela de sebo. Vinda a luz, aproximaram-se ambos do leito da enferma
que, achegando ao corpo e puxando para debaixo do queixo uma coberta de
algodão de Minas, se encolheu toda, e voltou-se para os que entravam.
-Está aqui
o doutor, disse-lhe Pereira, que vem curar-te de vez
-Boas-noites, dona,
saudou Cirino.
Tímida voz
murmurou uma resposta, ao passo que o jovem, no seu papel de médico,
se sentava num escabelo junto à cama e tomava o pulso à
doente.
Caía então
luz de chapa sobre ela, iluminando-lhe o rosto, parte do colo e da cabeça,
coberta por um lenço vermelho atado por trás da nuca.
Apesar de bastante
descorada e um tanto magra, era Inocência de beleza deslumbrante.
Do seu rosto irradiava
singela expressão de encantadora ingenuidade, realçada pela
meiguice do olhar sereno que, a custo, parecia coar por entre os cílios
sedosos a franjar-lhe as pálpebras, e compridos a ponto de projetarem
sombras nas mimosas faces.
Era o nariz fino,
um bocadinho arqueado; a boca pequena, e o queixo admiravelmente torneado.
Ao erguer a cabeça
para tirar o braço de sob o lençol, descera um nada a camisinha
de crivo que vestia, deixando nu um colo de fascinadora alvura, em que
ressaltava um ou outro sinal de nascença.
Razões de sobra
tinha, pois, o pretenso facultativo para sentir a mão fria e um
tanto incerta, e não poder atinar com o pulso de tão gentil
cliente.
-Então? perguntou
o pai.
-Febre nenhuma, respondeu
Cirino, cujos olhos fitavam com mal disfarçada surpresa as feições
de Inocência.
-E que temos que fazer?
-Dar-lhe hoje mesmo
um suador de folhas de laranjeira da terra a ver se transpira bastante
e, quando for meia-noite, acordar-me para vir administrar uma boa dose
de sulfato.
Levantara a doente
os olhos e os cravara em Cirino, para seguir com atenção
as prescrições que lhe deviam restituir a saúde.
-Não tem fome
nenhuma, observou o pai; há quase três dias que só
vive de beberagens. 11: uma ardência continua, isto até nem
parecem maleitas..
-Tanto melhor, replicou
o moço; amanhã verá que a febre lhe sai do corpo,
e daqui a uma semana sua filha está de pé com certeza. Sou
eu que lhe afianço.
-Fale o doutor pela
boca de um anjo, disse Pereira com alegria.
-Hão de as
cores voltar logo, continuou Cirino.
Ligeiramente enrubesceu
Inocência e descansou a cabeça no travesseiro.
-Por que amarrou esse
lenço? perguntou em seguida o moço.
-Por nada, respondeu
ela com acanhamento.
- Sente dor de cabeça?
-Nhor-não.
-Tire-o, pois: convém
não chamar o sangue; solte pelo contrário, os cabelos,
Inocência obedeceu
e descobriu uma espessa cabeleira, negra como o âmago da cabiúna
e que em liberdade devia cair ate abaixo da cintura. Estava enrolado em
bastas tranças, que davam duas voltas inteiras ao redor do cocoruto
-É preciso,
continuou Cirino, ter de dia o quarto arejado e por a cama na linha do
nascente ao poente.
-Amanhã de
manhãzinha hei de virá-la, disse o mineiro.
-Bom, por hoje então,
ou melhor, agora mesmo, o suador. Fechem tudo, e que a dona sue bem. A
meia-noite, mais ou menos, virei aqui dar-lhe a mezinha. Sossegue o seu
espirito e reze duas Ave-Marias para que a quina faça logo efeito.
-Nhor-sim, balbuciou
a enferma.
-Não lhe dói
a luz nos olhos? perguntou Cirino, achegando-lhe um momento a vela ao
rosto.
-Pouco... -um nadinha.
-Isso é bom
sinal. Creio que não há de ser nada.
E levantando-se, despediu-se:
-Ate logo, sinhá-moça.
Depois do que, convidou
Pereira a sair.
Este acenou para alguém
que estava num canto do quarto e na sombra.
-Ó Tico, disse
ele, venha cá...
Levantou-se, a este
chamado, um anão muito entanguido, embora perfeitamente proporcionado
em todos os seus membros. Tinha o rosto sulcado de rugas, como se já
fora entrado em anos; mas os olhinhos vivos e a negrejante guedelha mostravam
idade pouco adiantada. Suas perninhas um tanto arqueadas terminavam em
pés largos e chutos que, sem grave desarranjo na conformação,
poderiam pertencer a qualquer palmípede.
Trajava comprida blusa
pardo sobre calças que, por haverem pertencido a quem quer que
fosse muito mais alto, formavam embaixo volumosa rodilha, apesar de estarem
dobradas. A cabeça, trazia um chapéu de palha de carandá
sem copa, de maneira que a melena lhe aparecia toda arrepiada e erguida
em torcidas e emaranhadas grenhas.
-Oh! exclamou Cirino
ao ver entrar no círculo de luz tão estranha figura, isto
deveras é um tico de gente.
-Não anarquize
o meu Tonico, protestou sorrindo-se Pereira. Ele é pequeno... mas
bom. Não é, meu nanico?
O homúnculo
riu-se, ou melhor, fez uma careta mostrando dentinhos alvos e agudos,
ao passo que deitava para Cirino olhar inquisidor e altivo.
-0 Sr. vê, doutor,
continuou Pereira, esta criaturinha de Cristo ouve perfeitamente tudo
quanto se lhe diz e logo compreende. Não pode falar... isto é,
sempre pode dizer uma palavra ou outra, mas muito a custo e quase a estourar
de raiva e de canseira. Quando se mete a querer explicar qualquer coisa,
é um barulho dos seiscentos, uma gritaria dos meus Recados, onde
aparece uma voz aqui, outra acolá, mais cristãzinhas no
meio da barafunda.
-É que não
lhe cortaram a língua, observou Cirino.
-Não tinha
nada que cortar, replicou Pereira. De nascença é o defeito
e não pode ser remediado. Mas isto é um diabrete, que cruza
este sertão de cabo a rabo, a todas horas do dia e da noite. Não
é verdade, Tico?
O anão abanou
a cabeça, olhando com orgulho para Cirino.
-Mas é filho
aqui da casa? perguntou este.
-Nhor-não;
tem mãe à beira do Rio Sucuriú, daqui a quarenta
léguas, e envereda de lá para ca num instante, vindo a pousar
pelas casas, que todas recebem com gosto, porque é bichinho que
não faz mal a ninguém. Aqui fica duas, três e mais
semanas e depois dispara como um mateiro para a casa da mãe. E
uma espécie de cachorro de Nocência. Não é,
Tico?
Fez o mudo sinal que
sim e apontou com ar risonho para o lado da moça.
Pereira, depois de
todas aquelas explicações que o anão parecia ouvir
com satisfação, disse, voltando-se para este, ou melhor
abaixando-se em cima da sua cabeça:
-Agora, meu filho,
vai ao curral grande e apanha para mim uma mãozada de folhas de
laranjeira da terra... daquele pé grande que encosta na tronqueira.
Mostrou o homúnculo
com expressivo gesto que entendera e saiu correndo.
Ia Cirino deixar o
quarto, não sem ter olhado com demora para o lugar onde estava
deitada a enferma, quando Pereira o chamou:
-Ó doutor,
Nocência quer beber um pouco de água. . . Fará mal?
-Aqui não há
limões-doces? indagou o moço.
- E um nunca acabar...
e dos melhores.
-Pois então
faça sua filha chupar uns gomos.
Pereira, depois de
ter paternalmente arranjado e dispostos os cobertores ao redor do corpo
da menina, acompanhou Cirino que, parado à porta de saída,
estava mirando as primeiras estrelas da noite.
-Vosmecê achou
doutor, perguntou o mineiro com voz um tanto trêmula, algum perigo
no que tem aquele anjinho
-Não, absolutamente
não, respondeu Cirino. Verá o Sr. que, daqui a três
dias, sua filha não tem mais nada.
-Malditas febres!...
Quando não derrubam um cristão, o amofinam anos inteiros...
Eu não quisera que minha filha ficasse esbranquiçada, nem
feia .. As moças quando não são bonitas, é
que estão doentes... Ah! mas ia me esquecendo dos limões-doces...
Que cabeça! . . .
Adiantou-se Pereira
no terreiro e, pondo as mãos junto à boca chamou com voz
forte:
-Ó Tico!
Prolongado grito respondeu-lhe
a certa distância
O mineiro pôs-se
a assobiar com modulações à maneira dos índios.
Houve uns momentos
de silencio; depois veio correndo o anão e, chegando-se para perto,
mostrou por sinais que não ouvira bem o recado.
-Uns limões-doces,
já!... Nocência está com sede...
Disparou o pequeno
como uma seta, sumindo-se logo na densa escuridão que já
se espessara entre as árvores do pomar.
VII- O NATURALISTA
A minha filosofia
toda resume-se em opor a paciência as mil o uma contrariedades de
que a vida está inçada.
(Hoffmann, O Reflexo
Perdido).
Serena e quase luminosa
corria a noite. No paro campo do céu cintilava, com iriante brilho,
um sem-número de estrelas, projetando na larga fita da estrada
do sertão, misteriosa e dúbia claridade.
Pelo caminhar dos
astros havia de ser quase meia-noite; e, entretanto, a essa hora morta,
em que só vagueiam à busca de pasto os animais bravios do
deserto, vinham a passo lento, pelo caminho real, dois homens, um a pó,
outro montado numa besta magra e já meio estafada.
Mostrava o pedestre
ser, como de feito era, um simples camarada, e vinha com grossa e comprida
vara na mão rangendo diante de si lerdo e orelhudo burro, sobre
cujo lombo se erguia elevada carga de canastras e malinhas, cobertas por
um grande ligam
Quem estava montado
e cavalgava todo encurvado sobre o selim, com as pernas muito estiradas
e abertas, parecia entregue a profunda cogitação. Devia
ser homem bastante alto e esguio e, como o observamos, apesar da hora
adiantada da noite, com olhos de romancista, diremos desde já que
tinha rosto redondo, juvenil, olhos gázeos, esbugalhados, nariz
pequeno e arrebitado, barbas compridas, escorrido bigode e cabelos muito
louras. O seu traje era o comum em viagem: grandes botas, paletó
de alpaca em extremo folgado, e chapéu-do-chile desabado. Trazia,
entretanto, a tiracolo, umas quatro ou cinco caixinhas de lunetas ou quaisquer
outros instrumentos especiais, e na mão segurava um pau fino e
roliço, preso a uma sacola de fina gaze cor-de-rosa.
Homem de meia-idade,
de fisionomia vulgar e balorda, era o camarada, e, pelos modos e impaciência
com que fustigava o animal de carga, indicava não estar afeito
ao gênero de vida que exercia.
Em silencio e na ordem
indicada, caminhava a tropinha: o burro carregado na frente, logo atrás
o inábil recoveiro, em seguida fechando a marcha, o viajante encarrapitado
na magra cavalgadura.
Houve momento em que,
depois de algumas pautadas de incitamento, pareceu querer o cargueiro
protestar contra o tratamento que tão fora de hora recebia e, fincando
os pés na areia, resolutamente parou.
Provocou a relutância,
porem, uma chuva de verdadeiras cacetadas que ecoaram longe e se confundiam
com os brados e pragas do camarada.
-Burro do diabo! berrava
ele. Mil raios te partam, bicho danado! Arrebenta de uma vez!... Vá
para os infernos! Entrega a carcaça aos urubus!
Durante uns bons minutos,
o cavaleiro, que fizera parar o seu animal, esperou pacientemente qualquer
resultado: ou que a renitente azêmola se desse afinal por convencida
e avançasse, ou então estourasse.
-Juque, disse ele
de repente com acento fortemente gutural e que denunciava a origem teutônica,
se porretada chove assim no seu lombo, você gosta?
O homem a quem haviam
dado o nome de Juca, voltou-se com arrebatamento:
-Ora, Mochu, isto
é um perverso sem-vergonha, que deve morrer debaixo do pau. Esta
vida não me serve!...
-Mas, Juque, replicou
o alemão com inalterável calma, quem sabe se a cangalha
não esta ferindo a pobre criatura?
-Qual! bradou o camarada,
isto é manha só. Conheço este safado, este infame,
este...
E, levantando o varapau,
descarregou tal paulada no traseiro do animal que lhe fez soltar surdo
gemido de dor.
-Juque, observou o
patrão em tom pausado, quem sabe se na frente há pau caído
ou pedra, que não deixe ele ir para diante?
-Pedra, Mochu, e pau
na cabeça até rachá-la, é que precisa este
ladrão...
-Vê, Juque,
insistiu o alemão.
-Ora, Mochu...
-Vê, sempre...
Saiu resmungando o
camarada de detrás do borrego e deu a volta.
Na frente avistou
logo o ramo quebrado que Pereira deixara cair no meio da estrada para
desviar os acompanhadores de Cirino.
-Uê! Uê!
exclamou com muita surpresa, aqui esteve alguém e pôs este
sinal para que neo se passasse...
.-Eu não disse
a vóce, replicou o cavaleiro com voz ate certo ponto triunfante.
Asno tem razão: para diante há alguma coisa.
-Mas na vila, contestou
José, nos disseram que o caminho vai sempre direitinho sem atrapalhação
nenhuma...
-Na vila disseram
isso, confirmou o outro.
-E então?
E então? repetiu
o alemão.
Houve uns segundos
de silêncio.
Depois o cavaleiro
acrescentou com a mesma imperturbável serenidade, e como que achando
explicação muitíssimo natural:
-Na vila muita gente
não sabe caminho. à:...
-Mil milhões
de diabos, interrompeu o camarada todo frenético, levem o gosto
desandar por esses matos do inferno a horas tão perdidas! Eu bem
disse a Mochu, ninguém viaja assim. Isto é uma calamidade.
. .
- que, atalhou por
seu turno o patrão, o que é que adianta estar a berrar como
um danado?... Olhe, antes, se por ai vóce não vê algum
caminho do lado.
Obedeceu o outro e
sem dificuldade achou a entrada da picada que levava a morada de Pereira.
-Esta aqui, Mochu,
está aqui! anunciou ele com alegria. ,: um trilho que corta a estrada
e vai dar nalguma casa pertinho ..
Mudando repentinamente
de tom, observou com voz tristonha:
-Contanto que ate
lá não haja alguma légua de beiço..
-Ah! eu não
lhe disse, respondeu o alemão. Agora toque barro devagarinho; ele
anda que nem vento.
Pareceu o animal compreender,
o alcance moral da vitória que acabara de colher e prestes enveredou
pela trilha com alento novo e até desusada celeridade.
A razão é
que também daí a pouco sorvia ele, teimoso e marralheiro
bicho, como soem ser os da sua espécie, a bela água do ribeirão,
em que se haviam refrescado as cavalgaduras de Cirino e de Pereira.
Vlll-OS HÓSPEDES
DA MEIA-NOITE
Sei, sim, sei que
é noite!
(Xavier de Maistre, Viagem ao Redor do Meu Quarto).
Não tardou
muito que os dois noturnos viajantes começassem a ouvir os latidos
furiosos dos cães que, no terreiro de Pereira, denunciavam aproximação
de gente suspeita junto à casa entregue a sua vigilante guarda.
-Por aqui perto fica
algum rancho, Mochu, avisou o camarada; havemos enfim de descansar hoje
.. Mas, que gritaria faz a cachorrada!... São capazes de nos engolir
antes que venha alguém saber se somos cristãos ou não...
Safa! Que canzoada!... Ó Mochu, o Sr. deve ir na frente... rompendo
a marcha...
- Vóce, respondeu o alemão, bate neles com cacete...
-Nada, retrucou José
com energia, isso não é do ajuste... Quem está montado,
caminhe adiante... Ainda por cima agora essa!
Depois de resmonear
algum tempo, exclamou:
- Ah! espere, já
me lembrei de uma coisa.. . O filho do velho é mitrado. . .
E, dizendo esta palavra,
de um só pulo montou na anca do cargueiro, que, ao sentir aquele
inesperado acréscimo de peso, parou por instantes e com surdo ronco
procurou lavrar um protesto.
- Juque, observou
o alemão sem a menor alteração na voz, assim burro
quebra cadeira. Depois morre... e vóce tem de levar as cargas dele
às costas...
Quis o camarada encetar
nova discussão, mas a esse tempo chegavam ao terreiro, onde o ataque
furioso dos cães justificou a medida preventiva de José,
o qual entrou, todo encolhido atrás das cargas, a gritar como um
possesso:
-0 de casa! Eh! lá,
gentes! Ó amigos!
Aumentou a algazarra
da cachorrada por tal modo, que os tropeiros de Cirino, pousados no rancho
próximo, acordaram e bradaram juntos:
-Que diabo é
isto? Temos matinada de lobisomens?
Abriu-se nesse momento
a porta da casa e apareceu Cirino na frente de Pereira, trazendo este
uma vela que com a mão aberta amparava da brisa noturna.
-Quem vem lá?
clamaram os dois a um tempo.
-Camarada e viajante,
respondeu com voz forte e simpática o alemão, achegando-se
à luz e tratando de descer da cavalgadura. Quem é o dono
desta casa?
-Está aqui
ele, respondeu Pereira levantando a vela acima da cabeça para dar
mais claridade em torno de si.
-Muito bem, replicou o recém-chegado. Desejo agasalho para mim
e para o meu criado e peço muitas desculpas por chegar tão
tarde.
Aproximara-se também
o José, cuidando logo, no meio de muxoxos e pragas, de pôr
em terra a carga do burrinho, o qual amarrara pelo cabresto a uma vara
fincada no chão.
-Mas, observou Cirino,
que faz o Sr. por estas horas mortas a viajar? . . .
-Deixe o homem entrar,
atalhou Pereira, e acomodar-se com o que achar... Pois, meu senhor, desapeie.
Bem-vindo seja quem procura teto que é meu.
-Obrigado, obrigado,
exclamou com efusão o estrangeiro.
E, apresentando a
larga mão, apertou com tal forca as de Cirino e Pereira que lhes
fez estalar os dedos.
Em seguida, penetrou
na sala e tratou logo de arranjar os objetos que trazia a tiracolo, colocando-os
cuidadosa e metodicamente em cima da mesa, no meio dos olhares de espanto
trocados por quantos o estavam rodeando.
Na verdade, digna
de reparo era aquela figura à luz da bruxuleante vela de sebo;
compridas pernas, corpo pequeno, braços muito longos e cabelos
quase brancos, de tão louros que eram.
-Será algum
bruxo? perguntou a meia voz Cirino a Pereira.
-Qual! respondeu o
mineiro com sinceridade, um homem tão bonito, tão bem limpo!
Entrara José
com uma canastra ao ombro e, descarregando-a no canto menos escuro do
quarto, julgou dever, sem mais demora, declinar a qualidade e importância
da pessoa que lhe servia de amo.
-O Sr. aqui 6 doutor,
disse ele apontando para o alemão e dirigindo-se para Cirino...
-Doutor?! exclamou
este com despeito.
- Sim, mas doutor
que não cura doenças. É alamão lá da
estranja, e vem desde a cidade de São Sebastião do Rio de
Janeiro caçando anicetos e picando borboletas...
- Borboletas? interrompeu
com admiração Pereira.
- Acui cui! Por todo
o caminho vem apanhando bichinhos. Olhem... aquele saco que ele traz...
-O meu camarada, avisou
com toda a tranqüilidade e pausa o naturalista, é muito falador.
Os senhores tenham paciência... Ande, Juque, deixe de tagarelar!
...
-Não, protestou
Pereira levado de curiosidade, é bom saber com quem se lida...
Então o Sr. vem matando anicetos? mas para que, Virgem Santíssima!
. . .
-Para quê? retrucou
o camarada descansando as mãos na cintura. O patrão e eu
já temos mandado mais de dez caixões todos cheinhos lá
para as terras dele...
-Depois o pais fica
sem borboletas, respondeu Cirino, num assomo de despeitado patriotismo.
-Mas, como é
que o Sr. se chama? perguntou Pereira, voltando-se para o alemão
que estava virado para a parede a contemplar um desses grandes e sombrios
lepidópteros, da espécie dos esfinges.
-Juque, disse ele
sem lhe importar a interpelação e acenando para o camarada,
depressa... um alfinete, dos grandes... dos maiores: . .
-Temos história,
avisou José, fazendo expressivo sinal a Cirino, o Sr. vai ver...
O naturalista, de
posse de um comprido acúleo, fincou-o com segura e adestrada mão
bem no meio do inseto, o qual começou a bater convulsamente as
asas e girar em torno do centro a que estava preso.
-A pita! A pita! exclamou
o patrão. Vamos, Juque,
Satisfez José
o pedido, depois de abrir uma malinha, onde ia estavam enfileirados e
espetados vinte ou trinta bonitos bichinhos.
- É uma satúrnia
.. e não comum, murmurou o alemão fisgando num pedaço
de pita o novo espécime, sobre o qual derramou algumas gotas de
clorofórmio, de um vidrinho que sacou dum dos muitos bolsos da
sobrecasaca.
-O Sr. é viajante
zoologista, não é? perguntou Cirino, depois que viu terminada
a operação.
O interrogado levantou
a cabeça com surpresa e respondeu todo risonho:
- Sim, senhor; sim,
senhor! Como é que o Sr. o soube? Viajante naturalista, sim senhor!
Eu vejo que o Sr. e muito instruído... Muito bem, muito bem! Muita
instrução!
E, abrindo uma carteira
de notas, escreveu logo umas linhas tortuosas.
-Ah! este também
e doutor, disse Pereira com certo orgulho por hospedar em sua casa sabichão
de tal quilate.
-Oh, doutor? doutor!?
Muito bem, muito bem. Doutor que curra ?
-Sim, senhor, respondeu
com gravidade o próprio Cirino.
- Ah! . . . Ah! muito
bem.
Pereira, porém,
voltara à carga.
-Mas, como é
que o Sr. se chama?
-Meyer, respondeu
o alemão, para o servir.
-Mala ? perguntou
o mineiro.
- Não, senhor,
Meyer; sou da Saxônia, da Alemanha.
-Isto deve ser o mesmo
que Mala na terra dele, observou Pereira, abaixando um pouco a voz.
O camarada José,
no entretanto, trouxera para dentro todas as malas e canastras e sem-cerimônia
alguma intrometeu-se na conversação.
-Este Mochu, disse,
vem de muito longe só por causa destas historias de barboletas,
e com o negócio ganha coco grosso... Quanto a mim
- Juque, atalhou Meyer
com fleuma, vai bota os animais no pasto.
-Não, disse
Pereira, solte-os no terreiro até raiar o dia, roerão o
que acharem; há por aí muito resto de milho nos sabugos...
-Pois é o que
fiz, declarou o camarada; mas como lhes dizia, sou carioca do Rio de Janeiro,
chamo-me José Pinho e venho de bem longe acompanhando este alamão,
que é um homem muito de bem.
- É verdade?
indagou Pereira, olhando para Meyer.
Este esbugalhou mais
os olhos e confirmou tudo com um sinal gutural que ecoou em toda a sala.
-Ele o que tem, continuou
José é que é muito teimoso. Eu lhe digo, sempre:
Mochu, isto de viajar de noite é uma tolice e uma canseira à-toa...
Qual! pensa lá no seu bestunto que assim é melhor. Também
a gente anda por estas estradas afora como se fosse alma do outro mundo
a penar... algum currupira... ou boitatá ... Cruzes!
-Pois, Sr. Mala, disse
Pereira, tome posse desta sala, e faça de conta que é sua...
Se quiser uma rede...
-Muito obrigado, muito
obrigado! . minha cama é canastra. Não se incomode...
-Amanhã então
conversaremos, concluiu Pereira, esfregando as mãos de contente.
Prometia-lhe na verdade
a companhia boas ocasiões de dar largas à volubilidade,
sobretudo com o tal José Pinho, filho da Corte do Rio de Janeiro
e, pelo que parecia, tagarela de grande força.
-Assim, pois, disse
Pereira, durmam bem o restante da noite.
E abriu a porta para
se retirar.
-Ui! exclamou ele
olhando para o céu. Doutor, já passa muito da meia-noite...
Com a breca, o Cruzeiro está virando de uma vez. . .
Cirino, que tornara
a deitar-se, com presteza calçou as botas e tomou uns papeizinhos
que de antemão preparara e pusera a um canto da mesa.
-Não faz mal,
disse, já estou com tudo pronto e em tempo havemos de dar o remédio.
Vá o Sr. deitar um pouco de café num pires e acorde sua
filha, caso esteja dormindo, como é muito natural depois do suador.
Saiu então
Pereira, levando a vela e, acompanhado de Cirino, deu volta à casa
para buscar a entrada dos aposentos interiores.
Ficaram, pois, o alemão
e seu criado em completa escuridão; ambos, porém, já
estirados a fio comprido, um em cima das canastras tendo por travesseiro
roliça maleta, outro sobre o ligal aberto e estendido no meio do
aposento.
-O Mochu, perguntou
José, que mastigava qualquer coisa, está já ferrado?
-Ferrado? replicou
Meyer levantando a cabeça. Que é isto agora?
-Pergunto se já
pegou no sono?
-Pois, Juque, se eu
falo, como é que posso estar dormindo?
-Então não
quer petiscar?
-Comer, não
é?
-Esta visto.
-Oh! Se tivesse!...
Pensava agora nisso...
-Pois eu estou manducando...
Quer um bocadinho?
-Que é que
vóce me da?
-Rapadura com farinha
de milho... Está deveras de patente!... Gostoso como tudo...
-Então, Juque,
passe-me um pouco.
Levantou-se o ofertante
com toda a boa vontade e às apalpadelas começou a procurar
a cama do patrão, o que só conseguiu depois de ter esbarrado
na mesa e numas cangalhas velhas atiradas a um canto da sala.
Afinal agarrou num
dos pés do naturalista, a quem entregou uma nesga de rapadura e
uns restos de farinha embrulhados em papel, pitança mais que sóbria,
que foi devorada com satisfação pelo bom do saxônio.
IX - O MEDICAMENTO
Não tendes
que labutar com doente muito grave, e eis o serviço que de vós
esporo...
(Hoffmann, A Porta
Entaipada).
Quem me poderá
dizer por que me parece tão duro o leito?.. Por que passei esta
noite que se me figurou tão longa, sem gozar um momento de sossego?...
Surge a verdade: em meu seio penetraram as agudas setas do amor.
(Ovídio, Elegia
n).
Quando Cirino entrou no quarto de Inocência, já estava ela
acordada. Sentara-se o pai à cabeceira da cama, a cujos pés
se acocorara Tico, o anuo, sobre uma grande pele de onça.
-Então, perguntou
o médico tomando o pulso à mimosa doente, como se sente?
-Melhor, respondeu
ela.
-Suou bastante?
-Ensopei três
camisas.
-Muito bem... Agora
a senhora esta com a pele fresquinha que mete gosto. Isto de sezões,
não e nada, se a gente acode a tempo e o sangue não tem
maus humores. Mas quando tomam conta do corpo, nem o demo com elas pode.
Que é do café? pediu ele em seguida a Pereira.
-Já vem já...
Homem, vou eu mesmo buscá-lo, lá à cozinha. A Maria
Conga está ficando uma verdadeira lesma. Venha para
Levantando-se então
da cadeira, indicou-a a Cirino, a quem fez sentar antes de sair.
Ficou este, pois,
ao lado da menina e, como sobre o lindo rosto batesse de chapa a luz colocada
numa prateleira da parede, pôs-se a contemplá-la com enleio
e vagar, ao passo que da sua parte o anão lhe deitava olhares inquietos
e algo sombrios.
Pousara Inocência
a cabeça no travesseiro e, para ocultar a perturbação
de se ver tão de perto observada, fingia dormir. Pelo menos tinha
as grandes pálpebras cerradas e o rosto sereno; mas arfava-lhe
apressado o peito e, de vez em quando, fugaz rubor lhe tingia as faces
descoradas.
Pereira tardava; e
Cirino com os olhos fixos, a fisionomia meditativa e um pouco de palidez,
que denunciava a intima comoção, não se fartava de
admirar a beleza da gentil doente.
Uma vez, entreabriu
os olhos e a medo atirou um olhar que se cruzou com o do mancebo, olhar
rápido, instantâneo, mas que lhe repercutiu direito ao coração
e lhe fez estremecer o corpo todo.
Sem saber por que,
batia-lhe o queixo e um arrepio de frio lhe circulava nas velas.
-Sente mais febre?
perguntou Cirino muito baixinho.
-Não sei, foi
a resposta, e resposta demorada.
-Deixe-me ver o seu
pulso.
E tomando-lhe a mão,
apertou-a com ardor entre as suas, retendo-a, apesar dos ligeiros esforços
que para a retrair, empregou ela por vezes.
Nisto, entrou Pereira.
Inocência fechou com presteza os olhos e Cirino voltou-se rapidamente,
levando um dedo aos lábios para recomendar silêncio.
-Está dormindo,
avisou com voz sumida.
-Ora, disse Pereira
no mesmo tom, a tal Maria Conga deixou entornar a cafeteira, de maneiras
que precisei fazer outra porção. Demorei muito?
-Não, respondeu
Cirino com toda a sinceridade.
-Mas agora, observou
Pereira, é mister acordar a pequerrucha.
-Não há
outro remédio.
Chegou-se o pai à
cama e, com todo o carinho, chamou: Nocência! Nocência!
E como não a visse despertar logo, sacudiu-a com brandura ate que
ela abrisse uns olhos espantados.
-Apre! Que sono! disse
o bondoso velho. Num instante que fui lá dentro?!... Vamos, são
horas de tomar a mezinha.
Deitara Cirino sulfato
de quinina no café e diluía-o vagarosamente.
-Olhe, dona, aconselhou
ele, beba de um só trago e chupe, logo depois, uns gomos de limão-doce.
-Então é
muito mau? choramingou a doente.
-É amargo;
mas num gole mecê toma isto.
-Papai, recalcitrou
a moça, não quero... eu não quero.
-Ora, filhinha do
meu coração, não se canhe; e preciso... Amanhã
há de você sentir-se boa; não é doutor?
-Com certeza, se tomar
esta poção, assegurou Cirino.
-Depois, quando eu
u lá à vila, hei de trazer para você uma coisa bonita...
uns lavrados, Ouviu?
-Nhor-sim.
-Ande, Tico, acrescentou
o mineiro voltando-se para o anão, vai depressa buscar limão-doce;
na cozinha há um meio cascado.
-Tome, dona, implorou
por seu turno Cirino, aproximando o pires da boca da formosa medicanda.
Levantou uns olhos
súplices e, agarrando resolutamerte o remédio, bebeu-o todo
de um jacto.
Depois deu um suspiro
de enjôo e ficou com os lábios entreabertos, à espera
que o adocicado sumo do limão lhe tirasse o amargor do medicamento.
-Então, exclamou
Pereira, era maior o medo que a coisa em si! Você tomou a dose numa
relancina.
-Amanhã de
manhã, ou melhor, hoje de madrugada, temos que engolir outra dose,.
declarou Cirino. Depois, a dona, poderá levantar-se.
-Ainda outra? protestou
Inocência com gesto de amuo.
-Nhã-sim; é
de toda a percisão, replicou o amoroso médico, modificando
pela suavidade da voz a dureza das prescrições.
-Decerto, corroborou
também Pereira.
-Depois deve mecê
deixar de comer carne fresca, ervas, ovos ou farinha de milho por um mês
inteiro, e de provar leite por muito tempo. Há de sustentar-se
só de carne-de-sol bem seca, com arroz quase sem sal e por cima
tomará café com muito pouco doce.
-Fica ao meu cuidado,
asseverou Pereira, olhar para o rejume .
-Agora, durma bem
e não se assuste de lhe aparecer zoeira nos ouvidos e ate de se
sentir mouca. Isto é da mezinha; pelo contrário, é
muito bom sinal.
-Estes doutores sabem
tudo, murmurou Pereira, dando ligeiro estalo com a língua.
Não se descuidou
Cirino, antes de se retirar, de novamente tomar o pulso e, à conta
de procurar a artéria, assentou toda a mão no punho da donzela,
envolvendo-lhe o braço e apertando-o docemente.
Saiu-se mal de tudo
isso; porque, se tratava da cura de alguém, para si arranjava enfermidade
e bem grave.
Com efeito, de volta
à sala dos hóspedes, não pode mais conciliar o sono
e, sem que houvesse conseguido fruir um só momento de descanso,
viu ralar a aurora. Parecia-lhe que o peito ardia todo em chamas a subirem-lhe
às faces, abrasando-lhe o pensamento.
Aquele venusto rosto
que contemplara a sós; aqueles formosos olhos, cujo brilho a furto
percebera, aquele colo alabastrino que a medo se descobrira, aquelas indecisas
curvas de um corpo adorável, todo aquele conjunto harmonioso e
encantador que vira à luz de frouxa vela, fatalmente o lançavam
nesse pélago semeado de tormentos que se chama paixão!
Efeitos de tão
temível mal já ia o mísero sentindo. Inquieto se
revolvia (fato virgem!) no duro leito, ao passo que a respiração
isocrônica e ruidosa do companheiro de hospedagem, o alemão
Meyer, respondia ao sonoro ressonar do gárrulo José Pinho.