Inocência
Visconde de Taunay
III-O DOUTOR
Semeai promessas:
a ninguém causam desfalque, e o mundo é rico de palavras.
A esperança
quando outros nela crêem faz ganhar muito tempo.
Ovídio, a Arte de Amar.
Ao morreres, dota
a algum colégio ou a teu gato.
Pope.
Sganarelo. - De todo a parte vem gente procurar-me,
e se as coisas continuarem assim, sou de parecer que
de uma vez devo dedicar-me à medicina . Acho que
de todos os ofícios é este o preferível, porque,
ou se
faça bem ou mal, sempre no fim há dinheiro.
Molière, O
Médico à Força.
Nascera Cirino de
Campos, como dissera a Pereira, na província de São Paulo,
na sossegada e bonita Vila de Casa Branca, a qual demora Umas 50 léguas
do litoral. Filho de um vendedor de drogas, que se intitulava boticário
e a esse oficio acumulava o importante cargo de administrador do correio,
crescera debaixo das vistas paternas até a idade de doze anos completos,
quando fora enviado, em tempos de festas e a título de recordação
saudoso, a um velho tio e padrinho, morador na cidade de Ouro Preto.
Esse parente, solteirão,
de gênio rabugento, misantropo, e dado às práticas
da mais extrema carolice, recebeu o pequeno com mau modo e manifesto descontentamento,
tanto mais quanto à presença de um estranho vinha interromper
os hábitos de completa solidão a que se acostumara desde
longos anos.
Era homem que trajava
ainda à moda antiga, usando de sapatos de fivela, calções
de braguilha, e cabeleira empoada com o competente rabicho.
A sua reputação
de pessoa abastada era, em toda a cidade de Ouro Preto, tão bem
firmada quanto a de refinado sovina, chegando a voz público a afirmar
que o seu dinheiro, e não pouco, estava todo enterrado em numerosos
buracos no chão da alcova de dormir.
-Meu amigalhote, disse
o tal padrinho a Cirino, poucos dias depois da chegada, fique sabendo
que por qualquer coisinha lhe sacudo a poeira do corpo. Dê-se por
avisado e ande direitinho que nem um fuso.
O menino, transido
de medo, passou a tarde a chorar num canto sombrio da casa, onde relembrou,
até lhe vir o sono, a alegre vida de outrora, os folguedos que
fazia com os camaradas na viçosa relva do Cruzeiro, à entrada
da Vila de Casa Branca e sobretudo os carinhos da saudoso mamãe.
Em seguida aquela
admoestação preventiva fora o tio à casa de uns padres
que tinham influência na direção do Colégio
do Caraça e com eles arranjara a admissão do afilhado naquele
estabelecimento de instrução.
Como finório
que era, conseguiu este resultado sem multa dificuldade, pagando-o, a
juros compostos, com tentadoras promessas.
-Por ora, resmoneou
ele, nada poderei fazer pela educação do rapaz; mas... enfim...
um dia... estou já velho, e tratarei de mostrar que não
me esqueci dos bons padres que tanto me ajudam hoje.
Lançada, assim,
a eventualidade de uma verba testamentária, ficou decidida a entrada
de Cirino na casa colegial.
O pressentimento da
falta de proteção natural torna as crianças dóceis
e resignadas. Também não fugiu nem mugiu o caipirazinho
ao penetrar no internato em que devia passar tristonhamente os melhores
anos da sua adolescência.
Ótimo negócio
fizera incontestavelmente o velho tio. Ia tão-somente desembolsando
boas palavras e, por estar agarrado à vida, chegou até a
levar ao cemitério dois dos padres que se haviam prendido às
esperanças de valiosa recordação.
Afinal como tinha
por seu turno que pagar o tributo universal, um belo dia morreu quando
medos se esperava, deixando muito recomendado um seu testamento, que foi,
com efeito, aberto com sofreguidão digna de melhor êxito.
Testamento havia,
força é confessar; não já testamento, mas
extenso arrazoado, todo da letra do velho barras de ouro, porém,
ou maços de notas, nem sombra.
Esfuracou-se a casa
de alto a baixo, levantaram-se os soalhos, escutaram-se todas as paredes,
quebraram-se os móveis; nada apareceu, nada denunciou esconderijo
de riquezas, nem coisa que com isso se avizinhasse.
Descobriu-se então
que aquele carola fora um pensador desabusado, antigo admirador de Xavier,
o Tiradentes, que nunca tivera vintém e vivera como filósofo,
grazinando lá consigo mesmo, de tudo e de todos.
Era o seu testamento
uma gargalhada meio de gosto, meio de ironia, atirada de além-túmulo
e corroborada pelo legado sarcástico que em pomposo codicilo fazia
aos padres do Caraça da sua biblioteca "a fim, dizia ele,
de ajudar a educação dos mancebos e auxiliar as boas intenções
dos seus honrados e virtuosos diretores".
Procuraram-se os tais
livros, e topou-se com um baú cheio de obras, em parte devoradas
pelo cupim, que foram, incontinenti, entregues às chamas de um
grande auto-de-fé. Eram as Ruínas de Volney, 0 Homem da
Natureza, as poesias eróticas de Bocage, o Dicionário filosófico
de Voltaire, o Citador de Pigault-Lebrun, a Guerra dos Deuses de Parny,
os romances do marquês de Sade e outras produções
de igual alcance e quilate, algumas até em francês, mas anotadas
por leitor assíduo e mais ou menos convencido.
A conseqüência
desse pesado gracejo póstumo, que destruía de raiz o conceito
de uma vida inteira, foi a imediata exclusão de Cirino do Colégio
do Caraça.
Tinha então
dezoito anos, e, como era vivo, conseguiu, apesar da natural pecha que
lhe atirava o parentesco com o estrambótico e defunto protetor,
ir servir de caixeiro numa botica velha e manhosa, onde entre drogas e
receituários lhe foram voltando os hábitos da casa paterno.
Leve era o trabalho,
e o aviamento de prescrições tão lento, que os ingredientes
farmacêuticos ficavam meses inteiros nos embaçados e esborcinados
frascos à espera de que alguém se lembrasse de tirá-los
daquele bolorento esquecimento.
Em localidade pequena,
de simples boticário a médico não há mais
que um passo. Cirino, pois, foi aos poucos, e com o tempo, criando tal
ou qual pratica de receitar e, agarrando-se a um Chernoviz, já
seboso de tanto uso, entrou a percorrer, com alguns medicamentos no bolso
e na mala da garupa, as vizinhanças da cidade à procura
de quem se utilizasse dos seus serviços.
Nessas curtas digressões
principiou a receber o tratamento de doutor. Então para melhor
o firmar, depois de se ter despedido da botica em que servia, matriculou-se
na escola de farmácia de Ouro Preto com a intenção
de tirar a carta de boticário, que o Presidente de Minas Gerais
tem o privilégio de conferir, dispensando documentos de qualquer
faculdade reconhecida.
Antes, porém,
de conseguir a posse daquele lisonjeiro documento, faz-se Cirino, num
dia de capricho, de partida decidida e começou então a viajar
pelos sertões povoados a medicar, sangrar e retalhar, unindo a
alguns conhecimentos de valor positivo outros que a experiência
lhe ia indicando ou que a voz do povo e a superstição lhe
ministravam.
Toda a sua ciência
assentava alicerces no tal Chernoviz. Também era o inseparável
vademecum; seu livro de ouro; Homero à cabeceira de Alexandre.
Noite e dia o manuseava; noite e dia o consultava à sombra das
árvores ou junto ao leito dos enfermos.
Contem Chernoviz,
dizem os entendidos, muitos erros, muita lacuna, muita coisa inútil
e até disparatada; entretanto no interior do Brasil é obra
que incontestavelmente presta bons serviços, e cujas indicações
têm força de evangelho.
Conhecia Cirino o
seu exemplar de cor e salteado; abria-o com segurança nos trechos
que desejava consultar e graças a ele formara um fundo de instrução
real e até certo ponto exata, a que unirá o estudo natural
das utilíssimas e ainda pouco aproveitadas ervinhas do campo.
A fim de aumentar
os seus recursos em matéria médica vegetal, foi a pouco
e pouco dilatando as excursões fora das cidades, para as quais
voltava, quando se via falto de medicamentos ou quando, digamo-lo sem
rebuço, queria gastar nos prazeres e folias o dinheiro que ajuntara
com a clínica do sertão.
Afinal, afeito a hábitos
de completa liberdade, resolvera empreender viagem para Camapuã
e sul de Mato Grosso, não só com o intuito de estender o
raio das operações, como levado do desejo de ver terras
novas e longínquas.
Curandeiro, simples
curandeiro, ia por toda a parte granjeando o tratamento de doutor, que
gradualmente lhe foi parecendo, a si próprio, titulo inerente a
sua pessoa e a que tinha incontestável direito.
Bem formado era o
coração daquele moço, sua alma elevada e incapaz
de pensamentos menos dignos; entretanto no intimo do seu caráter
se haviam insensivelmente enraizado certos hábitos de orgulho,
repassado de tal ou qual charlatanismo, oriundo não só da
flagrante insuficiência cientifica, como da roda em que sempre vivera.
Afastava-se em todo
caso, ainda assim com os seus defeitos, do comum dos médicos ambulantes
do sertão, tipos que se encontram freqüentemente naquelas
paragens, eivados de todos os atributos da mais crassa ignorância,
mas rodeados de regalias completamente excepcionais.
Por toda a parte entra,
com efeito, o doutor; penetra no interior das famílias, verdadeiros
gineceus; tem o melhor lugar a mesa dos hospedes, a mais macia cama; é,
enfim, um personagem caldo do céu e junto ao qual acodem logo,
de muitas léguas em torno, não já enfermos, mas fanatizados
crentes, que durante largos anos se haviam medicado ou por conselhos de
vizinhos ou por suas próprias inspirações e que na
chegada desse Messias depositam todas as ardentes esperanças do
almejado restabelecimento.
IV-A CASA DO MINEIRO
Está a cela
na mesa. Torne o bom acolhimento desculpável o mau passadio.
(Walter Scott, Ivanhoé)
Quando assomaram os
dois viajantes à entrada do terreiro que rodeava a vivenda de Pereira,
correram-lhes ao encontro quatro ou cinco cães altos e magros,
que aos pulos saudaram o dono da casa com uma cainçada de alegria.
Puseram-se algumas
galinhas a girar atarantadas, ao passo que vários galos, já
empoleirados na cumeeira da morada, bradavam novidade e uns porcos e bacorinhos
aqui e acolá se erguiam dentre palhas de milho e, estremunhados,
olhavam para os recém-chegados com olhos pequenos e cheios de sono.
Do interior da habitação,
não tardou a sair uma preta idosa mal vestida, trazendo atado à
cabeça um pano branco de algodão, cujas pontes pendiam ate
ao meio das costas.
-Olá, Maria
Conga, perguntou Pereira, que há de novo por cá?
-A tenção,
meu senhor, pediu a escrava chegando-se com alguma lentidão.
-Deus te faça
santa, respondeu o mineiro. Como vai a menina? Nocência?
-Nhã está
com sezão.
-Isto sei eu, rapariga
de Cristo; mas como passou ela de trasantontem para cá?
-Todo o dia, vindo
a hora, nhã bate o queixo, nhor-sim.
-Está bem...
É que o mal ainda não abrandou... Daqui a pouco, veremos.
E a janta?... Está pronta? Venho varado de fome. Que diz, Sr. Cirino?
indagou, voltando-se para 0 companheiro.
-Não se me
dava também de comer alguma coisa. Temos razão para. . .
-Pois então,
interrompeu Pereira, ponha pé no chão e pise forte que o
terreno é nosso. Minha casa, ia lho disse, é pobre, mas
bastante farta e a ninguém fica fechada.
Deu logo o exemplo,
e descavalgou do cavalinho zambro, o qual foi por si correndo em direção
a uma dependência da casa com formas de tosca estrebaria.
Apeou-se igualmente
Cirino, mas, ao penetrar numa espécie de alpendre de palha que
ensombrada a frente toda, mostrou repentina e viva contrariedade no gesto
e na fisionomia.
-Ora, Sr. Pereira,
exclamou ele batendo com o tacão da bota num sabugo de milho, só
agora é que me lembro que as minhas cargas vão todas tomar
caminho do Leal e aqui me deixam sem roupa, nem medicamentos. Que maçada!
Devíamos ter esperado na boca da sua picada.
Respondeu-lhe o mineiro
todo desfeito em expansivo riso:
-Olé, pois
o doutor é tão novato assim em viagens? Então pensa
que lá não deixei aviso seguro à sua gente? Não
se lembra de um ramo verde que pus bem no meio da estrada real?
-É verdade,
confirmou Cirino.
-E então? Daqui
a pouco a sua camaradagem está batendo o nosso rasto. Entremos,
que a fome já vai apertando.
Consistia a morada
de Pereira num casarão vasto e baixo, coberto de sapé, com
uma porta larga entre duas janelas muito estreitas e mal abertas. Na parede
da frente que, talvez com o peso da coberta, bojava sensivelmente fora
da vertical, grandes rachas longitudinais mostravam a urgência de
serias reparações em toda aquela obra feita de terra amassada
e grandes paus-a-pique.
Ao oitão da
direita existia encostado um grande paiol construído de troncos
de palmeiras, por entre os quais iam rolando as espigas de milho, com
o contínuo fossar dos porquinhos, que dali não arredavam
pé.
Corrido na frente
de toda a vivenda, via-se um alpendre de palha de buriti, sustentado por
grossas taquaras, ligeiro apêndice acrescentado por ocasião
de alguma passada festa, em que o número de convidados ultrapassara
os limites de abrigo da hospitaleira habitação.
Internamente era ela
dividida em dois lanços: um, todo fechado, com exceção
da porta por onde se entrava, e que constituiu o cômodo destinado
aos hóspedes, outro, à retaguarda, pertencia à família,
ficando, portanto, completamente vedado às vistas dos estranhos
e sem comunicação interna com o compartimento da frente.
Era de barro compacto
e secado o chão desta sala, vendo-se nele sinais de que as vezes
ali se acendia fogo: pelo que estavam o sapé do forro e o ripamento
revestidos de luzidia e tênue camada de picumã que lhes dava
brilho singular como se tudo tora jacarandá envernizado.
-Isto aqui, disse
Pereira penetrando na sala e sentando-se numa tripeça de pau, não
é meu, e de quem me procura. Poucos vêm cá decerto
parar, mas enfim é sempre bom contar com eles... Minha gente mora
na dependência dos fundos.
E apontou para a parede
fronteira à porta de entrada, fazendo um gesto para mostrar que
a casa se estendia além.
-Sr. Pereira, disse
Cirino recostando-se a uma sólida marquesa, não se incomode
comigo de maneira alguma... Faça de conta que aqui não há
ninguém
-Pois então,
retorquiu o mineiro, deite-se um pouco, enquanto vou lá dentro
ver as novidades. A hora é mais de comer, que de cochilar; mas
espere deitadinho e a gosto, o que é sempre mais cômodo do
que ficar de pé ou sentado.
Não desprezou
o hóspede o convite. Tirou o pala, puxou as botas e, cruzando-as,
fez dos canos travesseiros, em que descansou a cabeça.
Quem se coloca em
posição horizontal, depois de vencidas umas estiradas léguas,
adormece com certeza. Depressa veio, pois, o sono cerrar as pálpebras
do recém-chegado e intumescer-lhe o peito com sossegada respiração.
Dormiu talvez hora
e meia, e mais houvera dormido, se não fosse acordado pelo tropel
de animais que paravam, e por grita de gente a pôr cargas em terra.
Assomou Pereira à
porta com ar jovial.
-Então, que
lhe disse eu?
-De fato; estou agora
sossegado.
-E o Sr. tomou uma
boa data de sono.
-Quem sabe uma hora?
-Boa dúvida,
se não mais. Fiquei todo esse tempo ao lado de Nocência,
que de frio batia o queixo, como se estivesse agora em Ouro Preto, quando
cai geada na rua.
-Então não
vai melhor?
-Qual!... Depois que
o Sr. tiver comido, há de ir vê-la. Está, pobrezinha,
tão desfeita que parece doente de uns três meses atrás.
-Felizmente, observou
Cirino com alguma enfatuação, aqui estou eu para pô-la
de pé em pouco tempo.
-Deus o ouça,
disse Pereira com verdadeira unção.
-Patrícios!
O gente! gritou ele em seguida para os dois camaradas chegados de pouco:
vão mecês sentar naquele rancho, ali. Perto há boa
água, e lenha é o que não falta: basta estender o
braço. Olhem, dêem ração de fartar aos animais.
Aproveitem o milho, enquanto há: é a sustância desses
bichos. Aqui, vendo-o baratinho. Um atilho por um cobre e não são
espigas chuchas, nem grão soboró. Eh! lá! Maria Conga,
vamos com isso!... janta na mesa!...
Foram o chamado e
as indicações de Pereira compridas sem demora.
Apareceu a velha escrava,
que estendeu em larga e mal aplainada mesa uma toalha de algodão,
grosseira, mas muito alva, sobre a qual derramou duas boas caias de farinha
de milho: depois, emborcou um prato fundo de louça azul, e ao lado
colocou uma colher e um garfo de metal.
-Sente-se, doutor,
disse Pereira para Cirino, agora não mariduco com mecê, porque
já petisquei lá dentro. Desculpe se não achar a comida
do seu agrado.
Vinha nesse momento
entrando Maria Conga com dois pratos bem cheios e fumegantes, um de feijão-cavalo,
outro de arroz.
-E as ervas? perguntou
Pereira. Não ha?
-Nhor-sim. Eu trago
já, respondeu a preta, que com efeito voltou dai a pouco.
Tornou o mineiro a
desculpar-se da insuficiência e mau preparo da comida.
-Não lhe dou
hoje lombo de porco: mas o prometido não cai em esquecimento, isto
lhe posso assegurar.
-Estou muito contente
com o que há, protestou com sinceridade Cirino.
E, de fato, pelo modo
por que começou a comer, repetindo animadas vezes dos pratos, deu
evidentes mostras de que falava inteira verdade.
-Maria, disse Pereira
para a escrava, que se fora colocar a alguma distancia da mesa com os
braços cruzados, traz agora mel e café com doce.
-Ah! exclamou Cirino
com patente satisfação estirando os braços, fiquei
que nem um ovo. O feijão estava de patente. Louvado seja Nosso
Senhor Jesus Cristo, que me deu este bom agasalho.
-Amém! respondeu
Pereira.
-Agora, amigo meu,
disse o moço depois de pequena pausa, estou às suas ordens;
podemos ver a sua doentinha e aproveitar a parada da febre para mim atalhá-la
de pronto. Em tais casos, não gosto de adiantamentos.
Cobriu-se o rosto
do mineiro de ligeira sombra: franziram-se os sobrolhos, e vaga inquietação
lhe pairou na fronte.
-Mais tarde, disse
ele com precipitação.
-Nada, meu senhor,
retrucou Cirino, quanto mais cedo, melhor. É o que lhe digo.
-Mas, que pressa tem
mecê? perguntou Pereira com certa desconfiança.
-Eu? respondeu o outro
sem perceber a intenção, nenhuma. mesmo para bem da moça.
Acenderam-se os olhos
de Pereira de repentino brilho.
-E como sabe que minha
filha é moça? exclamou com vivacidade,
-Pois não foi
o Sr. mesmo quem mo disse na prosa do caminho?
-Ah!... é verdade.
Ela ainda não é moça... Quatorze, quinze anos, quando
muito... Quinze anos e meio... Uma criança, coitadinha! . . .
-Enfim, replicou o
outro, seja como for. Quando o Sr. quiser, venha procurar. Enquanto espero,
remexerei nas minhas malas e tirarei alguns remédios para tê-los
mais a mão.
-Muito que bem, aprovou
Pereira, bote os seus trens naquele canto e fique descansado: ninguém
bulira neles... Quanto à minha filha... eu já venho... dou
um pulo lá dentro, e... depois conversaremos.
V-AVISO PRÉVIO
Onde há mulheres,
aí se congregam todos os males a um tempo.
(Menandro)
Nunca é bom
que um Homem sensato eduque seus filhos de modo a desenvolver-lhes demais
o espírito
(Eurípedes,
Medéia)
Filhos, sois para
os homens o encanto da alma.
( Menandro ) .
Estava Cirino fazendo
o inventário da sua roupa e já começava a anoitecer,
quando Pereira novamente a ele se chegou.
-Doutor, disse o mineiro,
pode agora Meca entrar para ver a pequena. Está com o pulso que
nem um fio, mas não tem febre de qualidade nenhuma.
-Assim e bem melhor,
respondeu Cirino.
E, arranjando precipitadamente
o que havia tirado da canastra, fechou-a e pôs-se de pó.
Antes de sair da sala,
deteve Pereira o hóspede com ar de quem precisava tocar em assunto
de gravidade e ao mesmo tempo de difícil explicação.
Afinal começou
meio hesitante:
-Sr. Cirino, eu cá
sou homem muito bom de gênio, multo amigo de todos, muito acomodado
e que tenho o coração perto da boca como vosmecê deve
ter visto...
-Por certo, concordou
o outro.
-Pois bem, mas...
tenho um grande defeito; sou muito desconfiado. Vai o doutor entrar no
interior da minha casa e... deve portar-se como...
-Oh, Sr Pereira! atalhou
Cirino com animação, mas sem grande estranheza, pois conhecia
o zelo com que os homens do sertão guardam da vista dos profanos
os seus aposentos domésticos, posso gabar-me de ter sido recebido
no seio de muita família honesta e sei proceder como devo.
Expandiu-se um tanto
o rosto do mineiro.
-Vejo, disse ele com
algum acanhamento, que o doutor não e nenhum pé-rapado,
mas nunca é bom facilitar... E já que não há
outro remédio, vou dizer-lhe todos os meus segredos... Não
metem vergonha a ninguém, com o favor de Deus; mas em negócios
da minha casa não gosto de bater língua... Minha filha Nocência
fez 18 anos pelo Natal, e é rapariga que pela feição
parece moça de cidade, muito ariscazinha de modos mas bonita e
boa deveras... Coitada, foi criada sem mãe, e aqui nestes fundões.
Tenho outro filho, este um latagão, barbudo e grosso que está
trabalhando agora em portadas para as bandas do Rio.
-Ora muito que bem,
continuou Pereira caindo aos poucos na habitual garrulice, quando vi a
menina tomar corpo, tratei logo de casá-la.
-Ah! é casada?
perguntou Cirino.
-Isto é, é
e não e. A coisa está apalavrada. Por aqui costuma labutar
no costela do gado para São Paulo um homem de mão-cheia,
que talvez o Sr. conheça... o Manecão Doca...
-Não, respondeu
Cirino abanando a cabeça.
-Pois isso é
um homem às direitas, desempenado e trabucador como ele só...
fura estes sertões todos e vem tangendo pontes de gado que metem
pasmo. Também dizem que tem bichado muito e ajuntado cobre grosso,
o que é possível, porque não é gastador nem
dado a mulheres. Uma feita que estava aqui de pousada... olhe, mesmo neste
lugar onde estava mecê inda agorinha, falei-lhe em casamento...
isto é, dei-lhe uns toques .. porque os pais devem tomar isso a
si para bem de suas famílias; não acha?
-Boa dúvida,
aprovou Cirino, dou-lhe toda a razão; era do seu dever.
-Pois bem, o Manecão
ficou ansim meio em dúvida; mas quando lhe mostrei a pequena, foi
outra cantiga... Ah! também é uma menina
E Pereira, esquecido
das primeiras prevenções, deu um muxoxo expressivo, apoiando
a palma da mão aberta de encontro aos grossos lábios
-Agora, está
ela um tanto desfeita: mas, quando tem saúde é coradinha
que nem mangaba do areal. Tem cabelos compridos e finos como seda de paina,
um nariz mimoso e uns olhos matadores . . .
Nem parece filha de
quem é...
A gabes imprudentes
era levado Pereira pelo amor paterno.
Foi o que repentinamente
pensou lá consigo, de modo que, reprimindo-se, disse com hesitação
manifesta:
-Esta obrigação
de casar as mulheres é o diabo!.. Se não tomam estado, ficam
juraras e fanadinhas...; se casam podem cair nas mãos de algum
marido malvado... E depois, as histórias! . Ih meu Deus, mulheres
numa casa, é coisa de meter medo... São redomas de vidro
que tudo pode quebrar... Enfim, minha filha, enquanto solteira, honrou
o nome de meus pais... O Manecão que se agüente, quando a
tiver por sua .. Com gente de saia não há que fiar... Cruz!
botam famílias inteiras a perder, enquanto o demo esfrega um olho.
Esta opinião
injuriosa sobre as mulheres é em geral corrente nos nossos sertões
e traz como conseqüência imediata e prática, além
da rigorosa clausura em que são mantidas, não só
o casamento convencionado entre parentes muito chegados para filhos de
menor idade, mas sobretudo os numerosos crimes cometidos, mal se suspeita
possibilidade de qualquer intriga amorosa entre pessoa da família
e algum estranho.
Desenvolveu Pereira
todas aquelas idéias e aplaudiu a prudência de tão
preventivas medidas.
-Eu repito, disse
ele com calor, isto de mulheres, não há que fiar. Bem faziam
os nossos do tempo antigo. As raparigas andavam direitinhas que nem um
fuso... Uma piscadela de olho mais duvidosa, era logo pau... Contaram-me
que hoje lá nas cidades... arrenego!... não há menina,
por pobrezinha que seja, que não saiba ler livros de letra de forma
e garatujar no papel... que deixe de ir a fonçonatas com vestidos
abertos na frente como raparigas fadistas e que saracoteiam em danças
e falam alto e mostram os dentes por dá cá aquela palha
com qualquer tafulão malcriado... pois pelintras e beldroegas não
faltam.. Cruz!... Assim, também é demais, não acha?
Cá no meu modo de pensar, entendo que não se maltratem as
coitadinhas, mas também é preciso não dar asas às
formigas... Quando elas ficam taludas, atamanca-se uma festança
para casá-las com um rapaz decente ou algum primo, e acabou-se
a historia...
-Depois, acrescentou
ele abrindo expressivamente com o polegar a pálpebra inferior dos
olhos, cautela e faca afiada para algum meliante que se faca de tolo e
venha engraçar-se fora da vila e termo... Minha filha...
Pereira mudou completamente
de tom:
-Pobrezinha... Por
esta não há de vir o mal ao mundo... É uma pombinha
do céu... Tão boa, tão carinhosa!... E feiticeira!!!
Não posso com
ela.. só o pensar em que tenho de entregá-la nas mãos
de um homem, bole comigo todo... E preciso, porém. Há anos...
devia já ter cuidado nesse arranjo, mas... não sei... cada
vez que pensava nisso... caia-me a alma aos pés. Também
é menina que não foi criada como as mais... Ah! Sr. Cirino,
isto de filhos, são pedaços do coração que
a gente arranca do corpo e bota a andar por esse mundo de Cristo.
Umedeceram-se ligeiramente
os cílios do bom pai.
-O meu mais velho
pára, Deus sabe onde... Se eu morresse neste instante, ficava a
pequena ao desamparo... Também, era preciso acabar com esta incerteza...
Além disso, o Manecão prometeu-me deixá-la aqui em
casa, e deste modo fica tudo arranjado... isto é, remediado, filha
casada é traste que não pertence mais ao pai.
Houve uns instantes
de silêncio.
-Agora, prosseguiu
Pereira com certo vexame, que eu tudo lhe disse, peço-lhe uma coisa:
veja só a doente e não olhe para Nocência... falei
assim a mecê, porque era de minha obrigação... Homem
nenhum, sem ser muito chegado a este seu criado, pisou nunca no quarto
de minha filha... Eu lhe juro... Só em casos destes, de extrema
percisão...
-Sr. Pereira, replicou
Cirino com calma, lá lhe disse e torno-lhe a dizer que, como médico,
estou há muito tempo acostumado a lidar com famílias e a
respeitá-las. t: este meu dever, e ate hoje, graças a Deus,
a minha fama é boa... Quanto às mulheres, não tenho
as suas opiniões, nem as acho razoáveis nem de justiça.
Entretanto, é inútil discutirmos porque sei que isso são
prevenções vindas de longe, e quem torto nasce, tarde ou
nunca se endireita... O Sr. falou-me com toda a franqueza, e também
com franqueza lhe quero responder. No meu parecer, as mulheres são
tão boas como nos, se não melhores: não há,
pois, motivo para tanto desconfiar delas e ter os homens em tão
boa conta... Enfim, essas suas idéias podem quadrar-lhe à
vontade, e é costume meu antigo a ninguém contrariar, para
viver bem com todos e deles merecer o tratamento que julgo ter direito
a receber. Cuide cada qual de si, olhe Deus para todos nós, e ninguém
queira arvorar-se em palmatória do mundo.
Tal profissão
de fé, expedida em tom dogmático e superior, pareceu impressionar
agradavelmente a Pereira, que fora aplaudindo com expressivo movimento
de cabeça a sensatez dos conceitos e a fluência da frase.