AUTOMÓVEIS
BANCOS
CELEBRIDADES
CHAT
COLUNISTAS
COMUNIDADES
CRIANÇAS
CULINÁRIA
ENTRETENIMENTO
EDUCAÇÃO
ESPORTES
ECONOMIA
HORÓSCOPO
GAMES
INTERNET
MÚSICA
MULHERES
NOTÍCIAS
POSTAIS
SAÚDE
SERVIÇOS
SEXUALIDADE
SHOPPING
TEENS
TEMPO
TRÂNSITO
VIAGEM
  BUSCA
digite a palavra
 

  MAIL
nome:

senha

   

Inocência
Visconde de Taunay

 


XXVI-RECEPÇÁO CORDIAL

Assinalemos este dia entre os mais felizes não se poupem ânforas; e, como Sábios, descanso não demos aos nossos pés.
(Horácio Ode XXVI).

Em breve chegara Manecão? à casa do futuro sogro.

Não é grande a distancia de Sant'Ana até lá, e entretanto o animal brioso e descansado que montava o tropeiro viera sempre estimulado do férreo acicate.

Batia de impaciência o coração do capataz, e a lembrança da formosa noiva que o esperava, enchia-o de desconhecido alvoroço. Também, por vezes, fugia-lhe do rosto o toque habitual de severidade e tênue sorriso afastando a custo os densos bigodes lhe pairava nos lábios,

Acolheu-o Pereira com verdadeira explosão de alegria.

-Viva! viva! exclamou de longe acenando com os braços, seja bem-vindo neste rancho... Ora, até que afinal!... Faltam rojões para festejar a sua chegada... Que demora!... Pensei que não topava mais com o caminho da casa... Nocência vai pular de contente. . .

Enquanto o mineiro enfiava estas palavras quase em gritos, apeou-se o sertanista que, de chapéu na mão, veio pedir-lhe a bênção.

-Deus o faça um santo, disse Pereira abençoando-o com fervor. Você não queria chegar...

-Como vai a dona? perguntou Manecão.

-Agora, muito bem. Teve sezões, mas já está de todo boa...

-E lembrou-se de mim?

-Olhe, que enjoado... Pois se ele enfeitiça a gente... Eu mesmo só pensava em você... Quando estará por cá aquele marreco? dizia eu comigo mesmo:... e botava uns olhos compridos por essa estrada afora... quanto mais, mulher! Isto é um não acabar nunca de saudades. Mas, observou ele, estamos a bater língua e não o faço entrar... Agorinha mesmo, Nocência foi para o córrego... Desencilhe o pingo e deixe-o por ai...

Fez Manecão o que disse Pereira. Tirou os arreios, não de súbito, mas com cautela e lentidão para que o animal, encalmado como estava, não ficasse airado, deixou sobre o lombo a manta e, apanhando um sabugo de milho, esfregou devagar a anca e o pescoço.

Depois de dar termo aqueles cuidados, penetrou na casa fazendo soar ruidosamente as esporas, que pelas dimensões desproporcionadas o obrigavam a caminhar firmado nos dedos do pé e com a planta levantada.

O mineiro não cabia em si de contente.

-Então, está tudo arranjado? perguntou alegremente.

-Tudo. Os papéis já foram tirados... Tive que ir até Uberaba, e foi o que me atrasou... Quando mecê queira... botamo-nos de partida para a Senhora Sant'Ana... Amanhã cá chegam os cavalos que comprei... Está falado o Lata... o vigário avisado; só... falta o dia...

-Nestes casos, quanto mais depressa melhor... Não acha?

- Certo que sim...

-Então, se quiser, daqui a dois domingos...

-Como queira . . Eu, cá por mim. . . Bem sabe, isto de casórios, o que custa é... tomar resolução... depois... deve-se pegar na carreira... A rapariga esta pronta?...

-Não sei... há de estar... Vejo-a sempre cosendo... Quero ficar bem certo do dia, porque mando chamar a gente do Roberto... Afinal, é preciso matar a porcada e mandar buscar restilo. Quando se casa uma filha e... filha única, as algibeiras devem ficar veleiras. Já estão todos combinados... é só dar o sinal... Tudo se arma logo... Aqui, em frente da casa, faz-se um grande rancho... A latada para a janta há de ser no oitão direito... Já encomendei de Sant'Ana alguns rojões, e o mestre Trabuco prometeu-me uns que deitam lágrimas .. Depois, tiros de bacamarte e ronqueiras hão de troar . . .

-Eu, interrompeu Manecão, mandei com a sua licença vir da cidade duas dúzias de garrafas de vinho da casa do major...

-Olaré! Você meteu-se em gastos!... Duas dúzias de garrafas de vinho?

-Nhor-sim...

-Pois essas, meu caro, hão de ser reguladinhas da silva... Para o vigário.. para o major... o coletor... o professor... Enfim, gente de alguma representação, porque com ela conto, sem falar na arraia miada. Isto há de haver um despotismo. Quero que, dez dias antes da fonçonata venha a comadre do Ricardo com o seu povaréu para prepararem sequilhos, tarecos, broas, biscoitos de polvilho e brevidades. Haverá regalo de chicolate todas as manhãs... Você verá que desta festa falarão... E o sapateado à noite? Os descantes?... Talvez se possa arranjar um cururu valente...

-Mas, perguntou Manecão, qu'é de sua filha?

Riu-se Pereira.

-Maganão! não pensa noutra coisa, hem? Também fui ansim... cada qual tem o seu tempo... Isto é regra de Nosso Senhor Jesus Cristo.

E, saindo para o terreiro, gritou com força, fazendo das mãos buzina:

-Nocência!... Nocência!...

Não teve resposta.

-Coitadinha da pequena, disse ele, há de saltar que nem veadinha, quando voltar do rio.

E acrescentou:

-Já que ela não vem... entremos. Você é de casa: tome por cá e chegue até o meu quarto... Rede e peles macias não faltam.

Ao dizer estas palavras, Pereira bateu amigavelmente no ombro de Manecão e fê-lo seguir para o lanço do fundo da casa.


XXVII- CENAS ÍNTIMAS

Santa Maria. advogada nossa, ouvi nossos rogos. Virgem pura, ante Vós se prostra uma infeliz donzela.
(Walter Scott, Os Dois Desposados).
Descrever o abalo que sofreu Inocência ao dar, cara a cara com Manecão fora impossível Debuxaram-se-lhe tão vivos na fisionomia o espanto e o terror, que o reparo, não só da parte do noivo, como do próprio pai habitualmente tão despreocupado, foi repentino,

-Que tem você? perguntou Pereira apressadamente.

-Homem, a modos, observou Manecão com tristeza, que meto medo a senhora dona...

Batiam de comoção os queixos da pobrezinha: nervoso estremecimento balanceava-lhe o corpo todo.

A ela se achegou o mineiro e pegou-lhe no braço.

-Mas você não tem febre?... Que é isto, rapariga de Deus?

Depois, meio risonho e voltando-se para Manecão:

-Já sei o que é... Ficou toda fora de si... vendo o que não contava ver... Vamos, Nocência, deixe-se de tolices.

-Eu quero, murmurou ela, voltar para o meu quarto.

E encostando-se à parede, com passo vacilante se encaminhou para dentro.

Ficara sombrio o capataz.

De sobrecenho carregado, recostara-,se à mesa e fora, com a vista, seguindo aquela a quem já chamava esposa.

Sentou-se defronte dele Pereira com ar de admiração.

-E que tal? exclamou por fim... Ninguém pode contar com mulheres, iche!

Nada retorquiu o outro.

-Sua filha, indagou ele de repente com voz muito arrastada e parando a cada palavra, viu alguém?

Descorou o mineiro e quase a balbuciar:

-Não... isto é, viu... mas todos os dias... ela vê gente... Por que me pergunta isso?

-Por nada...

-Não;... explique-se... Você faz assim uma pergunta que me deixa um pouco... anarquizado. Este negócio é muito, muito sério. Dei-lhe palavra de honra que minha filha havéra de ser sua mulher... a cidade já sabe e... comigo não quero histórias... t: o que lhe digo.

-Esta bom, replicou ele, nada de percipitações. Toda a vida fui ansim... Já volto; vou ver onde pára o meu cavalo.

E saiu, deixando Pereira entregue a encontradas suposições.

Decorreram dias, sem que os dois tocassem mais no assunto que lhes moía o coração. Ambos, calmos na aparência, viviam vida comum, visitavam as plantações, comiam juntos, caçavam e só se separavam á hora de dormir, quando o mineiro ia para dentro e Manecão para a sala dos hóspedes.

Inocência não aparecia.

Mal saia do quarto, pretextando recaída de sezões: entretanto, não era o seu corpo o doente, não; a sua alma, sim, essa sofria morte e paixão; e amargas lágrimas, sobretudo à noite, lhe inundavam o rosto.

-Meus Deus, exclamava ela, que será de mim? Nossa Senhora da Guia me socorra. Que pode uma infeliz rapariga dos sertões contra tanta desgraça? Eu vivia tão sossegada neste retiro, amparada por meu pai... que agora tanto medo me mete... Deus do céu, piedade, piedade.

E de joelhos, diante de tosco oratório alumiado por esguias velas de cera, orava com fervor, balbuciando as preces que costumava recitar antes de se deitar.

Uma noite, disse ela:

-Quisera uma reza que me enchesse mais o coração... que mais me aliviasse o peso da agonia de hoje...

E, como levada de inspiração, prostrou-se murmurando:

-Minha Nossa Senhora mãe da Virgem que nunca pecou, ide adiante de Deus. Pedi-lhe que tenha pena de mim... que não me deixe assim nesta dor cá de dentro tão cruel. Estendei a vossa mão sobre mim. Se é crime amar a Cirino, mandai-me a morte. Que culpa tenho eu do que me sucede? Rezei tanto, para não gostar deste homem! Tudo... tudo... foi inútil! Por que então este suplício de todos os momentos? Nem sequer tem alivio no sono? Sempre ele... ele!

As vezes, sentia Inocência em si ímpetos de resistência: era a natureza do pai que acordava, natureza forte, teimosa.

-Hei de ir, dizia então com olhos a chamejar, à igreja, mas de rastos! No rosto do padre gritarei: Não, não!... Matem-me... mas eu não quero...

Quando a lembrança de Cirino se lhe apresentava mais viva, estorcia-se de desespero. A paixão punha-lhe o peito em fogo...

-Que é isto, Santo Deus? Aquele homem me teria botado um mau olhado? Cirino, Cirino, volta, vem tomar-me... leva-me!... eu morro! Sou tua, só tua... de mais ninguém.

E caia prostrada no leito, sacudida por arrepios nervosos.

Um dia, entrou inesperadamente Pereira e achou-a toda lacrimosa.

Vinha sereno, mas com ar decidido.

-Que tem você, menina, perguntou ele, meio terno, de alguns dias para cá?

Inocência encolheu-se toda como uma pombinha que se sente agarrar.

Puxou-a brandamente o pai e fê-la sentar no seu colo.

-Vamos, que é isto, Nocência? Por que se socou assim no quarto?... Manecão lá fora a toda a hora está perguntando por você... Isto não bonito... É, ou não, o seu noivo?

Redobraram as lágrimas.

-Mulher não deve atirar-se a cara dos homens... mas também é bom não se canhar assim... É de enjoada... Um marido quase, como ele já é...

De repente o pranto de Inocência cessou.

Desvencilhou-se dos braços do pai e, de pé diante dele, encarou-o com resolução:

-Papai. sabe por que tudo isto?

-Sim.

-É porque eu... não devo...

-Não devo o quê?

-Casar.

Arregalou Pereira os olhos e de espanto abriu a boca.

-Que? perguntou ele elevando muito a voz...

Compreendeu a pobrezinha que a lata ia travar-se. Era chegado o momento.

Revestiu-se de toda coragem.

-Sim, meu pai, este casamento não deve fazer-se..

-Você está doida? observou Pereira com fingida tranqüilidade.

Prosseguiu então Inocência com muita rapidez, as faces incendiadas de rubor:

-Conto-lhe tudo papai... Não me queira mal... Foi um sonho... O outro dia, antes de Manecão chegar, estava sesteando e tive um sonho... Neste sonho, ouviu, papai? minha mãe vinha descendo do céu... Coitada! estava tão branca que metia pena... Vinha bem limpa, com um vestido todo azul... leve, leve!

-Sua mãe? balbuciou Pereira tomando de ligeiro assombro.

-Nhor-sim, ela mesma...

-Mas você não a conheceu! Morreu, quando você era pequetita... . .

-Não faz nada, continuou Inocência, logo vi que era minha mãe... Olhava para mim tão amorosa!... Perguntou-me: Cadê seu pai? Respondi com medo: Esta na roga; quer mecê, que ele venha? - Não, me disse ela, não é perciso; diga-lhe a ele que eu vim ate cá, para não deixar Manecão casar com você, porque há de ser infeliz... muito!... muito!...

-E depois? perguntou Pereira levantando a cabeça com ar sombrio, girando os olhos.

-Depois... disse mais... Se esse homem casar com você, uma grande desgraça há de entrar... nesta casa que foi minha e onde não haverá mais sossego. Bote seu pai bem sentido nisso. E sem mais palavra, sumiu-se como uma luz que se apaga.

Cravou Pereira olhar inquiridor na filha.

Uma suspeita lhe atravessou o espírito.

-Que sinal tinha sua mãe no rosto?

Inocência empalideceu.

Levando ambas as mãos à cabeça e prorrompendo em ruidoso pranto, exclamou:

-Não sei... eu estou mentindo... Isto tudo 6 mentira! mentira! Não vi minha mãe!... Perdão, minha mãe, perdão!

E, caindo de bruços sobre a cama, ficou imóvel com os cabelos espargos pelas espáduas.

Contemplou-a Pereira largo tempo sem saber que pensar, que dizer.

Súbito se inclinou sobre o corpo da filha e ao ouvido lhe segredou com muita energia:

-Nocência, daqui a bocadinho Manecão chega da roça... você ha de ir para a sala... se não fizer boa cara, eu a mato.

E erguendo a voz:

-Ouviu? Eu a mato!... Quero antes vê-la morta, estendida, do que... a casa de um mineiro desonrada...

As pressas saiu do quarto, deixando Inocência na mesma posição.

-Pois bem, murmurou ela, já que é preciso... morra eu!


XXVIII-EM CASA DE CESÁRIO

Ah! a perspectiva que pode mais docemente sorrir ao meu coração é a do aniquilamento.
(Klopstock, A Messiada)

Cirino, logo que se estabeleceu em casa do seu novo hospedeiro, tratou de lhe captar as simpatias. Medicou um escravo que estava de cama, fez valer o conhecimento e amizade que tinha com


Pereira, conversou muito a respeito dele e incidentemente deu noticias de Inocência.

Atalhou-o Antônio Cesário neste ponto.

-Mecê a viu? perguntou ele.

-Pois não, respondeu o moço, por sinal que a curei de sezões.

-Ah! É uma guapa rapariga...

-Parece-me...

-Isso é... falo assim, porque afinal... daqui a poucos dias está casada... não sabe?

-Ouvi contar.

-Pois é verdade. O noivo passou por cá e levou a minha licença. É homem de mão-cheia. A pequena deve estar contente. Ah! nem todas no sertão são felizes assim. Tem-se por aqui o mau vezo de arranjar casamentos as cegas, e às vezes se encambulha um mocetão com uma fanadinha ou então uma sujeita de encher o olho com algum rapaz todo engrouvinhado. . . Cruz! E, uma vez dada a palavra, acabou-se...

Achou Cirino a ocasião própria e redargüiu com vivacidade:

-Então o senhor não é desse parecer.

- Conforme, respondeu logo Cesário com reserva. Aos pais é que convém inziminar essas coisas.

-Boa dúvida... Mas... se... sua afilhada... não gostasse de Manecão?

-Não gostasse?

-Sim.

-E que nos importa isso? Uma menina como ela não sabe o que lhe fica bem ou mal... Ninguém a vai consultar. Mulheres, o que querem é casar. Não ouviu já o patrício dizer que elas não casam com carrapato, porque não sabem qual é o macho?

E Cesário sorriu.

Depois, fechando de repente a cara, perguntou:

-Por que é que estamos a dar de língua nesse particular? Não sou amigo disso. Quer-me parecer que mecê é um tanto namorador. . .

-Eu? protestou Cirino com vivacidade.

-Boa dúvida. Eu cá nem falar nelas quero. Mulher é para viver muito quietinha perto do tear, tratar dos filhos e criá-los no temor de Deus; não é nem para parolar-se com ela, nem a respeito dela.

Sempre as mesmas teorias de Pereira: a mesma grosseria repassada de desprezo ao sexo fraco, a mesma suscetibilidade para desconfiar de qualquer pessoa ou de qualquer palavra que lhes parecesse menos bem soante aos prevenidos ouvidos.

-Minha afilhada, continuou Cesário, deve levantar as mãos para o céu. Achou um marido que a há de fazer feliz e torná-la mãe de uma boa dúzia de filhos.

Estremeceu Cirino, mas nada disse.

Por toda a parte esbarrava de encontro a preconceitos que nada podia vencer.

Nessa mesma tarde quis montar a cavalo e voltar para Sant'Ana entretanto, o pensamento da resistência com que Inocência encetara a terrível lata com seu pai, atuou em seu espírito e o reteve.

Decidiu-se a atacar o touro pelas aspas.

Restar-lhe-ia ao menos o consolo do desabafo, e num jogo perdido arriscava ainda ousado lance.

-Sr. Cesário, disse ele na manhã seguinte, preciso muito falar-lhe em particular.

-A mim?

-Sim, senhor.

-Pois, estou aqui às suas ordens.

-Quisera que saíssemos. O que lhe vou dizer... ninguém pode... ninguém deve ouvir.

-Oh! O senhor me assusta... Então tem segredos que me contar?

-Tenho...

-Pois vá lá... Mapiaremos fora... Ao meio-dia esteja na minha roga... sabe onde é?

-Sei...

- Espere-me num pau de peroba seco que está derrubado.

-Lá estarei.

Muito antes da hora aprazada, achava-se Cirino no lugar indicado.

Devorava-o a impaciência.

Resolvido a desvendar sem rebuço os seus amores a esse homem a quem mui conhecia, que por ele não tinha senão razões de passageira simpatia, e de quem, contudo, estava dependente sua felicidade, considerava decisivos os momentos.

Quem em tais circunstâncias se acha, enxerga em tudo quanto o rodela sintomas de bom ou mau agouro, e nesse instante a Cirino pouco parecia sorrir a natureza.

Não chovia; mas o tempo estava carregado e sombrio.

Tinha o céu cor acinzentada e do lado do poente linhas negras e continuas denunciavam trovoada talvez para a tarde.

Era o local, além disso, tristonho. Enfileiravam-se numa grande área, pés de milho já pendoados, dentre os quais surgiam possantes madeiros de tronco rugoso e galhada completamente despida de ramagem, uns, da base à extrema ponta, lugubremente enegrecidos pelo fogo lançado antes da sementeira; outros perdidas todas as folhas em conseqüência da incisão profunda e circular com que o machado impedira a ascensão da selva. Esses quedavam vivos mas de uma vida latente e esmorecida, denunciada por entanguidos brotos no mais alto do tope.

Quando o dia é claro, aqueles gigantes da floresta, que pela robustez do cerne haviam desafiado as chamas e os esforços do homem, servem de poleiro a inúmeros bandos de papagaios, periquitos, araçaris, ou de graúnas que formam concertos capazes de ensurdecer os ecos.

Naquela ocasião, porém, tudo era silêncio.

Só de vez em quando se ouviam pancadas surdas e intermitentes dos pica-paus de crista vermelha, agarrados aos troncos das árvores e a explorar-lhes os pontos carunchosos, subindo em ziguezagues.

A hora ajustada, apresentou-se Antônio Cesário.

Por cautela vinha armado de uma espingarda de caça, que bem serviria para derrubar alguma onça, ou animal daninho.

Seu rosto, habitualmente sereno, indicava certa inquietação, repassada de curiosidade.

-Aqui me tem, doutor, disse ele descansando a arma sobre o pau derrubado e sentando-se ao lado de Cirino. Estou pronto para ouvi-lo quanto tempo queira...

Muito pensara Cirino nesse momento a que devia chegar e, entretanto, não pudera achar o modo por que encetasse as suas declarações. Parafusara de continuo mil pretextos sem nada assentar

Foi, pois, a balbuciar que respondeu:

-0 Sr... há de me desculpar... o incômodo que... lhe dou. .

-Incomodo nenhum.

-E deve estar... espantado do que lhe pedi... vir falar comigo... em lugar ermo... comigo que sou como qualquer hospede. como tantos que sua casa tão franca todos os dias recebe

-Com efeito, confirmou Cesário.

-Pois bem, daqui a nada tudo lhe ficará claro e explicado . Se enquanto eu falar... o ofender, perdoe-me, ouviu?

Sr. Cesário, continuou Cirino após breve pausa, se o Sr. visse um homem arrastado numa corredeira e pudesse atirar-lhe uma corda e salvá-lo... o faria?

-Boa dúvida, replicou o outro com forca. Ainda que corra perigo de vida, não deixarei homem nenhum, branco ou preto, livre ou escravo, rico ou pobre, conhecido ou não, sem o socorro de meu braço.

-Pois bem, exclamou Cirino arrebatadamente, sou eu esse homem que vai morrer, que está perdido e a quem o Sr. pode salvar...

E respondendo à tácita suspeita de quem o ouvia:

-Não acredite que esteja doido... não. Estou tão são de juízo como o Sr. e falo-lhe a verdade. Uma palavra esclarece-lhe tudo... eu morro de paixão por uma mulher e essa mulher é... sua afiIhada! . . . Inocência!

De um pulo levantou-se Cesário. Seus lábios tremiam, os olhos de súbito injetados de sangue. A mão procurou a arma que lhe ficava ao lado.

-Que é isso? balbuciou encarando fixamente Cirino.

Adivinhara-lhe este todos os pensamentos.

Erguera-se também, cara a cara com Cesário:

- Mate-me, bradou ele, mate-me... E um favor que me faz.. Dê cabo desta vida desgraçada.

Já arrependido do gesto que fizera e um tanto corrido de sua precipitação, replicou o outro todo sombrio:

-Não tenho razões para matá-lo... O Sr. nunca me fez mal...

-Não, prosseguiu Cirino no meio desvairado, peço-lhe por favor... Se o Sr. tem caridade, e é bom, "se gosta de seus filhos, se tem pai e mãe no céu... por tudo isso eu lhe peço de joelhos! mate-me... mate-me!

E deixou-se cair aos pés de Cesário, ocultando a cabeça entre as mãos.

Contemplou-o largos instantes o mineiro com surpresa.

Inclinando-se para o moço, bateu-lhe no ombro e quase com brandura lhe disse:

- Que história é essa, doutor?... Isso é loucura! Conte-me que há... Quero saber se a sua bola está girando ou não. Sou homem do sertão, mineiro de lei... mas sei tratar com gente...

A estas palavras, recobrou Cirino algum alento e pôs-se de pé.

Sentando-se então ao lado de Cesário, narrou-lhe tudo, o desespero que o minava, a certeza que tinha do amor de Inocência e a implacável sentença preferida por Pereira.

Ouvia-o Cesário atentamente. Só de vez em quando deixava escapar esta exclamação:

- Ah! mulheres!... mulheres! É a nossa perdição.

Depois que Cirino acabou de falar, encarou-o detidamente e, com ar severo, perguntou:

-Fale-me a verdade, doutor, o senhor nunca trocou palavra com Inocência?

Nunca esteve só com ela?

- Estive, respondeu o outro meio receoso.

As faces de Cesário subiu uma onda de sangue.

-Então, rouquejou ele, a desgraça...

-Deus meu, atalhou Cirino com fogo, caia a alma de minha mãe no inferno, se Inocência não é pura... se...

Conteve-o Cesário com um gesto.

-Basta moço: quem jura assim, não mente... Também no meu tempo tive uma paixão infeliz... e sei o que é sofrer..,

-Oh! Sr. Cesário, salve-me!...

-Que posso eu fazer? Não sabe o senhor que ela hoje hão pertence nem mesmo ao pai, ao seu próprio pai? Pertence a palavra de honra, e palavra de mineiro não volta atrás... Não sabia o senhor disso, quando deixou que o amor lhe entrasse pelos olhos?... Mulheres não pensam... mulheres o que querem é ver os homens derretidos por elas... sacrificam tudo... e por um requebro pincham na rua a honra de suas casas ..

-Não, protestou Cirino, ela não é assim...

-Então é melhor que as outras? objetou Cesário com desdém.

-Sim, sim, é melhor do que tudo deste mundo. Acima dela, só Nossa Senhora! . . .

Ligeiramente sorriu o mineiro.

-Qual! observou ele, bem disse o outro: a paixão 6 um transtorno. Fica um homem que nem uma miséria! É. . .

-Então? interrompeu Cirino.

-Então o quê?... Já lhe não disse quanto basta? Minha afilhada pertence tanto a Manecão, como uma garrucha ou um guampo lavrado que Pereira lhe tivesse dado... Não há meios e modos de voltar atrás...

Não desanimou o mancebo.

Falou por muito tempo com verdadeira eloqüência, apelando principalmente para a proteção que todo o cristão tem obrigação de dispensar ao ente que leva à pia batismal, a seu segundo filho, ao pagãozinho por quem o padrinho se torna responsável perante Deus.

Feriu o sentimento religioso do mineiro e comoveu-o.

-Não me fale assim, contrariou este, o senhor quer ver se me puxa para o seu lado... E quem me assegura que Nocência gosta tanto da sua pessoa?... Quem?

-O coração está-lho dizendo baixinho, respondeu com calma Cirino. O senhor, que é homem de honra, acredita que eu esteja mentindo? Que tudo isso é falso?... diga, acredita?

Cesário tartamudeou:

-Sim... Assunto verdades, mas...

-Ah! exclamou Cirino, o Sr. sente a consciência bater-lhe que sua afilhada está desamparada, que vai ser sacrificada... e agora tapa os ouvidos e diz: Não quero ouvir, não quero cumprir a minha palavra! Por que a deu então o Sr. . . essa palavra de honra de que tanto tala?... Nossa Senhora que a proteja... que a tire deste mundo .. Isso há de pesar-lhe no peito... e, quando um dia tiver noticia que Inocência morreu de desgostos, há de dizer lá consigo que ajudou a cavar-lhe a sepultura.

Estava Cesário abalado; com verdadeira ansiedade retorquiu:

-Que histórias me conta o Sr.? Eu metido no meu canto... vivendo tão sossegado... não bulindo com ninguém, e agora anarquizado por estes mexericos! . . . Quem o mandou vir cá?

-Quem seria, retrucou Cirino, senso Inocência? Porventura eu o conhecia?... algum dia o vi?... Não; foi aquele anjo que me

disse: busca meu padrinho, 6 o último recurso. Se ele não nos amparar, então... estamos perdidos de uma vez.

Estas palavras convenceram de todo Cesário.

Ficou em silêncio, recolhido, a meditar; Cirino o observava ofegante.

-Pois bem, disse por fim o mineiro em tom grave e pausado, hei de pensar no que o Sr. me conta...

-Oh! Sr. Cesário!...

-Levarei dois dias a remoer sobre o caso... O que disse uma vez, não digo duas... No fim desse tempo, monto a cavalo e apareço por casa de Pereira...

-Sim, sim, balbuciou o moço.

-Amanhã mesmo, de madrugada, o Sr. sal daqui e vai esperar-me na Senhora Sant'Ana.

-Irei... salve-me...

Cesário parou um pouco.

-Agora, quero que o Sr. me faça um juramento... pelas cinzas de sua mãe.

-Estou pronto.

-Pela salvação de sua alma...

-Pela salvação de minha alma, repetiu Cirino.

-Pela vida eterna...

Cirino acenou a cabeça.

- Jure!

O mancebo cruzou os dois índices e beijo-os com unção abaixando os olhos e empalidecendo.

-O Sr., disse Cesário, Jurou antes de saber o que era... Deu-me boa idéia do seu caráter... Farei tudo por ajudá-lo, mas exijo-lhe uma condição... Se quiser aceitá-la, fica valendo o juramento; senão... o dito por não dito...

-Que será, meu Deus? murmurou Cirino.

-E ficar o Sr. esperando em Sant'Ana. Se eu aparecer por estes oito dias, iremos juntos à casa do compadre. Se não, é que decidi contrário. Neste caso, virá o Sr. até cá e aqui esperará as suas cargas que mandarei buscar. Será sinal de que nunca mais há de procurar botar as vistas em Inocência... nem sequer falar nela. Aceita?

-Aceito, respondeu o moço com exaltação; mas fique certo de uma coisa: se o Sr., no tempo marcado, não estiver na vila, reze por alma de Cirino, porque ele terá deixado este mundo de aflições.

Cesário meneou tristemente a cabeça e retirou-se, sem dizer mais palavra.

Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III à Capítulo V
Capítulo VI à Capítulo IX
Capítulo X à Capítulo XII
Capítulo XIII à Capítulo XV
Capítulo XVI à Capítulo XVIII
Capítulo XIX à Capítulo XXII
Capítulo XXIII à Capítulo XXV
Capítulo XXVI à Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX à Epílogo