Inocência
Visconde de Taunay
XXIII - A ÚLTIMA ENTREVISTA
Está
a máscara da noite sobre meu rosto: a não ser ela,
verias as minhas faces tintas do rubor virginal.
(Shakespeare,
Romeu e Julieta, Ato 11).
Mais cresce
a luz, mais aumentam as trevas das nossas desgraças.
(Idem. Ato IV).
Grave modificação trouxe a retirada de Meyer no sistema
de viver daquela vivenda, onde se agitava um dos problemas mais
comezinhos da natureza moral, mas que ali apresentava cores algum
tanto carregadas, senão já sombrias.
Fora Pereira
dormir no interior da casa, passando ali a maior parte do tempo.
Assim os encontros dos dois apaixonados tornaram-se de todo impossíveis,
e, não tendo mais a atenção do mineiro o alvo
que sempre colimara durante a estada do alemão, começava
como era de prever, a voltar-se para Cirino, a quem confessou ter
tratado Meyer com injusta prevenção.
- Hoje, dizia
o mineiro, dói-me a consciência do modo por que desconfiei
daquele homem... Quem sabe se tudo que eu parafusei não foi
abusão cá da cachola? Sr. Cirino, quando a gente entra
a dar volta ao miolo.. é que vê que todos têm
queda para malucos... Sim senhor!... Hoje estou convencido que o
tal alamão era bom e sincero... Olhou para a menina... achou-a
bonitinha... e disse aquele despotismo de asneiras sem ver a mal...
Em pessoa que não guarda o que pensa, é que os outros
se podem fiar... Às vezes o perigo vem donde nunca se esperou...
Enfim não me arrependo muito de ter feito o que fiz... Receei
e tomei tento...
Amiudando-se
estes e outros dizeres iguais, deram que refletir a Cirino. De uma
hora para outra compreendeu que as vistas inquisitoriais poderiam
tornar a sua posição insustentável.
Por enquanto
tratou de encontrar-se com Inocência. Grandes eram as dificuldades;
o meio único, tentar novamente as entrevistas noturnas; pelo
que do laranjal não arredava pé, noites e noites inteiras,
ficando ali com os olhos presos à janela da querida do coração.
Certa madrugada,
viu afinal a sombra de Inocência.
Achou-se, num
ápice, o mancebo junto dela e agarrou-lhe com violência
nas mãos.
-Enfim, exclamou
ele, eu a vejo.
-Meu pai, murmurou
a moça com voz tão fraca que mal se ouvia, pode acordar...
- Não
importa, replicou Cirino desabrido, descubra-se tudo... não
posso mais viver assim,..
-Xi! observou
ela, cuidado! Se ele nos acha aqui, mata-nos logo... Olhe, vá-me
esperar junto ao corguinho para lá do laranjal... daqui a
nada vou ter com mecê... A porta esta só encostada
. . .
O moço
fez sinal que obedecia e sumiu-se incontinenti na escuridão
do pomar.
Aquela hora
dava a Lua de minguante alguma claridade à terra; entretanto,
como que se pressentia outra luz a preparar-se no céu para
irradiar com súbito esplendor e infundir animação
e alegria à natureza adormecida. Nos galhos das laranjeiras,
ouvia-se o pipilar de pássaros prestes a despertar, um gorjeio
intimo e aveludado de ave que cochila; e ao longe um sabia mais
madrugador desfiava melodias que o silêncio harmoniosamente
repercutia. Riscava-se o oriente de dúbias linhas vermelhas,
prenúncio mal percebível da manhã; nos espaços
pestanejavam as estrelas com brilho bastante amortecido, ao passo
que fina e amarelada névoa empalecia o tênue segmento
iluminado do argênteo astro.
Não era
mais noite; mas ainda não era sequer a aurora.
Tão comovido
se sentia Cirino, que teve de sentar-se, enquanto esperava por Inocência.
Esta não
tardou: vinha vestida de uma sala de algodão grosseiro e,
à cabeça, trazia uma grande manta da mesma fazenda,
cujas dobras as suas mãos prendiam junto ao corpo. Estava
descalça, e a firmeza com que pisava o chão coberto
de seixinhos e gravetos, mostrava que o hábito lhe havia
endurecido a planta dos pés, sem lhes alterar, contudo, a
primitiva elegância e pequenez.
Parecia muito
assustada, e, mau grado seu, dos olhos lhe rolavam lágrimas
a fio.
O mancebo, apenas
a avistou, correu-lhe ao encontro.
-Inocência,
exclamou ele notando um gesto de dúvida, nada receie de mim...
Hei de respeitá-la, como se fora uma santa... Não
confia então em mim?...
-Sim! disse
ela apressadamente. Por isso é que vim até cá...
Entretanto, estou com a cara ardendo... de vergonha...
E levando uma
das mãos de Cirino às suas faces:
-Veja, Cirino,
como tenho o rosto em brasa...
Por que é
que mecê veio bulir comigo? Eu era uma moça sossegada...
agora, se mecê não gostasse mais de mim... eu morria...
- Deveras?
-Eu lhe juro...
t: mais fácil apagarem-se de repente estas estrelas todas,
do que eu deixar de amá-la...
-E Manecão?
perguntou ela com terror.
-Oh! esse homem,
sempre esse nome maldito!...
-Há de
ser meu marido...
-Isso nunca,
Inocência... É impossível!... E se fugíssemos?...
Olhe, amanhã a estas mesmas horas ou mais cedo, trago para
aqui dois bons animais... Você monta num, eu noutro... batemos
para Sant'Ana e, a galope sempre, havemos de chegar a Uberaba...
onde acharemos um padre que nos case... Vamos, ouviu?
-E mecê
havia de me estimar toda a vida?
-Sempre... Diga,
sim... diga pelo amor de Deus, e estamos salvos. . . diga! . . .
- E meu pai,
Cirino? Que havéra de ser? .. Atirava-me a maldição...
eu ficava perdida... uma mulher de má vida... sem a bênção
de meu pai... Não... mecê está me tentanto...
Não quero fugir... Antes a desgraça para toda a existência...
mas fique eu sendo o que meu nome diz que sou... Já muito
peco, fazendo o que faço.. Mecê é moço
da cidade; não lhe custa enganar uma criatura como eu...
Até...
-Pois bem, interrompeu
Cirino, você não quer?... não falemos mais nisso
.. Não hei de querer, senso aquilo que achar bom... E se
eu, por fim, me decidir a falar a seu pai?
-Deus nos livre!
retorquiu ela aterrada. Pensei a principio que pudera ser, mas depois
vi que era pior... Mecê não conhece o que é
palavra de mineiro... ferro quebra, ela não... Manecão?
há de ser genro dele...
-Quem sabe,
Inocência? Hei de falar tanto... pedir com tanta humildade.
-Ché,
que esperança!... de nada serviria...
-Então,
que fazer? bradou o moço. A que Santa agarrar-nos? Por que
é que o céu nos quer tanto mal?
E ocultando
a cabeça entre as mãos, desatou a chorar ruidosamente.
Inocência, por seu lado, encostou a fronte ao ombro do amante,
e ambos, unidos, choraram como duas crianças que eram.
Foi ela quem
primeiro rompeu o silêncio
-Ah! meu Deus,
se o padrinho quisesse!...
- Seu padrinho?
perguntou Cirino. Quem é?... quem é ele?
-Um homem que
mora para lá das Parnaíbas, já nos terrenos
Gerais.
-Onde?... É
longe?...
-Meio longe,
meio perto. .. Mecê não conhece o Pauda ?
-Conheço...
A 16 léguas do Rio Paranaíba...
-Pois é
aí que padrinho pára... A esquerda da fazenda do Pauda,
numas terras de sesmaria...
-E como se chama
ele?
-Antônio
Cesário... Papai lhe deve favores de dinheiro e faz tudo
quanto ele manda... Se dissesse uma palavra, Manecão? havéra
de ficar atrapalhado...
-Oh! exclamou
Cirino com confiança, estamos salvos então!,.. Amanhã
mesmo, monto a cavalo e toco para lá... Daqui à vila
são sete léguas... Até lá, umas dezessete...
f: um passeio... Chego... conto-lhe tudo... ponho-me de rastos aos
seus pés... e...
-Mas, interrompeu
Inocência, não lhe fale em mim, ouviu? Não lhe
diga que tratou comigo... que comigo mapiou... Estava tudo perdido...
Invente umas histórias... faça-se de rico... nem de
leve deixe assuntar que foi por meu juízo que mecê
bateu à porta dele... Hi! com gente desconfiada, 6 preciso
saber negacear ..
-Oh! meu Deus,
disse Cirino no auge da alegria, estamos salvos!... Não há
dúvida... Vejo agora como há de tudo acontecer...
Depois de um dia ou dois de parada na casa, desembucho o negócio.
O velho escreve uma carta a seu pai e, pelo menos, se não
se arredar logo o Manecão? .. ganha-se tempo... Eu já
quisera estar montado na minha besta tordilha queimada, a bater
a estrada por ai afora... Dois dias para ir, dois para voltar, dois
ou três de pousada... Com pouco mais de uma semana, estou
de volta, trazendo ou a felicidade ou a caipora de uma vez. Não!
Tenho fé em Nossa Senhora da Abadia... Ela nos ajudará...
e juntos havemos ainda de cumprir a promessa que já fiz...
-Que permessa
foi? perguntou Inocência com curiosidade.
-Irmos nós
daqui até a vila a pé, botar duas velas bentas no
altar de Nossa Senhora.
-Sim, confirmou
a moça com fogo, eu juro... Fosse até ao fim do mundo!
. . .
-Oh! minha santa
do Paraíso, exclamou o moço apertando-a de encontro
ao peito, quanto você me ama!!
E assim abraçados,
quedaram eles inconscientes, enquanto a aurora vinha clareando o
firmamento e desferindo para a terra raios indecisos como que a
sondarem a profundidade das trevas; enquanto os pássaros
chilreavam à surdina, preparando as gargantas para o matutino
concerto, enquanto o orvalho subia da terra ao céu molhando
o dorso das folhas das grandes árvores e suspendendo, às
das rasteiras plantinhas, gotas que cintilavam já como diamantes.
Ao longe, à
beira de algum rio, as aracuãs levantavam a sonora grita,
e o macauã atirava aos ares os pios prolongados da áspera
garganta.
-É dia,
observou Inocência desprendendo-se dos braços de Cirino.
-Já!
exclamou este amuado.
-Meu Deus, e
eu que tenho de ir até a casa... vou-me embora...
-Então,
partirei hoje mesmo, disse o moço.
-Sim...
-E na semana
que vem, estou de volta...
-Pois bem...
Leve com mecê esta certeza; a minha vida ou a minha morte
depende do padrinho...
-A minha também,
replicou o mancebo beijando com fervor as mãos de Inocência...
-Deixe-me...
deixe-me, implorou ela. Adeus, estou com um medo!... Felizmente
ninguém me viu...
Nesse momento
e, como que para responder à asseveração, de
dentro do pomar partiu aquele fino assobio que tanto assombrara
os amantes na primeira das suas entrevistas.
Inocência
quase caiu por terra.
-Meu Deus! balbuciou
ela, que agouro!... Quem sabe se não 6 gente?
Ao assobio seguiu-se
uma espécie de gargalhada, que gelou o sangue nas veias dos
dois míseros.
Agarrou-se a
menina a Cirino.
-É alma
do outro mundo, murmurou ela persignando-se.
Não perdera
o mancebo o sangue frio. Invocando a São Miguel, fez o sinal-da-cruz
na direção dos quatro pontos cardeais; depois suspendeu
a moça em seus braços e, transpondo a toda a pressa
o pomar, foi depô-la junto à porta da casa, porta que
estava entreaberta, naturalmente pelo vento.
Quase desmaiara
Inocência entretanto, reunindo as forças pôde
entrar, e cautelosa correu o ferrolho interior.
Mais sossegado
a esse respeito, voltou Cirino ao laranjal e, como da primeira vez,
pôs-se a percorrê-lo em todos os sentidos, indagando,
à nascente claridade do dia, se era ente humano ou fantasma
quem dele parecia fazer joguete.
No momento em
que passava por junto de uma laranjeira mais copada, viu de repente
certa massa informe cair-lhe quase na cabeça e no meio de
folhas e ramos quebrados vir ao chão com surdo grito de angústia.
-Cruz! T'esconjuro!
bradou o moço.
E, como uma
visão, passou-lhe por perto uma criaturinha, desaparecendo
logo entre os troncos das árvores.
Ali esteve Cirino
com os cabelos eriçados, os olhos fixos, os braços
hirtos de terror, os lábios secos a tartamudear um exorcismo,
e as pernas a tremer.
Uma voz, a certa
distancia, arrancou-o desse espasmo.
Era Pereira;
com a mão encostada a boca, interpelava a um dos seus escravos.
-Faz fogo, José!...
Se for alma do outro mundo ou lobisomem, a bala não pega...
Se for gente, melhor.
E um tiro troou.
Sibilou uma
bala aos ouvidos de Cirino, indo cravar-se numa árvore próxima.
Por outra, não
esperou ele. Com o favor da escuridão que ainda reinava,
deslizou rápido e foi buscar a frente da casa, quando já
iam acordando os camaradas.
Mal chegara
a sala, apareceu-lhe Pereira à porta.
-Que foi isso?
perguntou Cirino compondo a fisionomia.
-Lá sei,
respondeu o mineiro. Uma matinada de gritos no laranjal, que parecia
um inferno... A pequena ficou toda que parecia querer morrer de
medo. Desconfio que a alma do Coletor andou hoje me rondando a casa...
Não seja presságio de mal... A Senhora Sant'Ana nos
proteja.
-Pois eu cá
dormi como um chumbo, disse Cirino; acordei com um tiro...
-Não
há de poder enfiar outra soneca daqui a um nadinha, está
o sol batendo no terreiro.
Com efeito,
depressa caminhava o alvorecer, e debaixo daquelas vivas impressões
acordaram aqueles que haviam conciliado o sono, na morada de Pereira.
XXIV-A VILA DE SANT'ANA
Debaixo do céu
há uma coisa que nunca se viu: é uma cidade pequena
sem falatórios, mentiras e bisbilhotices.
(Lavergne).
Nesse mesmo
dia, montou Cirino a cavalo e despediu-se de Pereira por uma semana
ou pouco mais, dando por motivo de tão inesperada viagem,
não só a necessidade de visitar alguns doentes mais
afastados, senão também procurar, quer na vila, quer
mesmo nos campos da província de Minas Gerais, uns remédios
e símplices que lhe iam faltando.
-Daqui a um
terno de dias estarei de volta, disse ao partir.
Desde a casa
de Pereira até ao Albino Lata é tão ensombrada
e agradável a estrada, que essas três léguas
lhe foram muito fáceis de vencer.
Ali, porém,
começam campos dobrados e soalheiros que, num estirão
de quatro léguas, até a Vila de Sant'Ana tornam penosa
a viagem, sobretudo quando são percorridos sob os ardentes
raios do sol do meio-dia.
Exaltam-se e
irritam-se os incômodos do espíritos, no momento em
que o físico começa a sofrer.
Quando Cirino
passou por aquelas campinas desabrigadas, abrasado de calor, desanimou
completamente do êxito da empresa a que se atirara. Tanta
esperança o alvoroçara quando ia seguindo a vereda
encoberta e amena, quanto desalento sentia agora; e, descoroçoado,
deixava que o animal o fosse levando a passo vagaroso e como que
identificado com a disposição de animo do cavaleiro.
-Que vou eu
fazer? pensava quase alto... Como encetar aquela conversa?
Tamanha era
a duvida que o salteava que chegou quase a blasfemar contra a amada
do seu coração.
-Maldita a hora
em que vi aquela mulher... Seguia eu sossegado o meu rumo... botaram-me
a perder os seus olhos!... Depois, exclamou contrito:
-Perdão,
Inocência! perdão, meu anjo! Estou a amaldiçoar
a hora da minha felicidade... Eu, que sou homem, posso fugir...
deixar-te... mas tu, amarrada à casa... Infeliz, fui o culpado!...
E, engolfado
em dolorosa cogitação, alcançou a Vila de Sant'Ana
do Paranaíba.
De longe é
sumamente pitoresco o primeiro aspecto da povoação.
Ponto terminal
do sertão de Mato Grosso, assenta no abaulado dorso de um
outeirozinho. O que lhe dá, porém, encanto particular
para quem a vê de fora, é o extenso laranjal, coroado
anualmente de milhares de áureos pomos, em cuja folhagem
verde-escura se encravam as casas e ressalta a cruz da modesta igreja
matriz.
Transpondo límpido
regato e vencida pedregosa ladeira com casinholas de sapé
à direita e à esquerda, chega-se à rua principal,
que tem por mais grandioso edifício espaçosa casa
de sobrado, de construção antiquada. Ornamenta-a uma
varanda de ferro e um telhado que se adianta para a rua, como a
querer abrigá-la em sua totalidade dos ardores do sol.
É aí
que mora o Major Martinho de Melo Taques, baixote, rechonchudo,
corado.
Na sua loja
de fazendas, ao rés-do-chão, reúne-se a melhor
gente da localidade, para ouvi-lo dissertar sobre política,
ou narrar a guerra dos farrapos no Rio Grande do Sul e a vida que
se leva na corte do Rio de Janeiro, onde estivera pelos anos de
1838 a 1839.
De vez em quando,
naquela silenciosa rua em que tão bem se estampa o tipo melancólico
de uma povoação acanhada e em decadência, aparece
uma ou outra tropa carregada, que levanta nuvens de pó vermelho
e atrai às janelas rostos macilentos de mulheres, ou a porta
crianças pálidas das febres do Rio Paranaíba
e barrigudas de comerem terra.
Também
aos domingos, à hora da missa, por ali cruzam mulheres velhas,
embrulhadas em mantilhas, acompanhando outras mais mocinhas, que
trajam capote comprido até aos pés e usam daqueles
pentes andaluzes, de moda em tempos que já vão longe.
Atravessou Cirino
a vila, e passando por defronte do Sr. Taques saudou-o com a mão,
e sem parar.
Estava o major,
como de costume, sentado ao balcão, de chinelos, sem meias,
e rodeado das pessoas gradas do lugar, a contar não só
as próprias proezas, que muitas tinha aquele estimável
cidadão, senão também as façanhas dos
antigos sertanejos, histórias que sabia na ponta da língua.
-Lá vai
o doutor, disse um dos presentes a palestra da loja.
-O Sr. Cirino!
interpelou o major correndo para a porta. Então que é
isso? Por aqui?
-É verdade,
respondeu Cirino, e vou de passagem; também por pouco tempo:
talvez nesses oito ou dez dias esteja de volta.
Tudo quanto
enchia a salinha havia saído para a rua, de modo que o moço
ficou logo cercado. Recostavam-se uns quase à anca do animal;
afagavam-lhe outros a pá do pescoço ou brincavam com
o freio.
Achava-se a
curiosidade aguçada: era preciso dar-lhe pasto.
Compreendeu
o major o alcance da situação.
-Cada qual tem
os seus negócios particulares, disse logo para começar;
mas, se não há segredo que quer dizer esta sua volta?
-Já devia
estar bem longe de acá, observou um sujeito. Há quase
dois meses que parou aqui na cidade e...
Espere, interrompeu
o vigário, não há tal dois meses. O doutor
passou por esta rua há um mês e vinte dois dias, às
oito horas da manhã.
-Pois bem, continuou
o major, tinha tempo. de sobra para estar já por bandas de
Miranda...
-Isso, se fosse
escoteiro, replicou Cirino, reparem que levava cargas... e, demais,
viajava curando...
-É verdade!
confirmou o coletor (homem esguio, que trazia um chapéu muito
alto e afunilado), não pensam nisso. O que querem é
falar... falar...
-Creio que o senhor não atira a mim, observou o vigário
com ar rusguento.
-Quem em tal
cuida, senhor padre? protestou logo o outro. Estou dizendo em geral...
Em geral. Eu não...
-Mas, doutor,
atalhou o major, onde esteve o senhor de molho este tempão
todo?... nalguma fazenda?
Prometia ir
longe o interrogatório.
-Eu já
estava quase perto do Sucuriú, disse Cirino meio perturbado,
no...
-Não
é tão perto assim, objetou o vigário. Uma vez...
-Ouçamos,
senhor padre, atalhou o coletor denunciando rixa velha com o clérigo.
O moço não disse que seja perto daqui...
Repetiu o major
as palavras de Cirino, acentuando-as de certo modo:
-Então
o doutor já estava quase perto do Sucuriú, não
é?
-De fato. Ali
encontrei uma pessoa que me devia, há meses um dinheiro...
-Um dinheiro?
perguntou o vigário. Uma pessoa?... Que pessoa? Quem será?
-Homem, quem
poderá ser? indagaram a um tempo vozes sôfregas.
Prosseguiu o
major implacável:
-Deixem o doutor
explicar-se... Vocês fazem logo uma algazarra! . .
Foi quase a
balbuciar que Cirino procurou continuar:
-Sim... certo
tropeiro... mandou ordem para mim cobrar... de um parente uma bolada...
Também eu tinha que... pagar outra pessoa... que...
-Espere, espere,
interrompeu o major, então o senhor velo receber dinheiro
ou desembolsar? Não 6 uma e a mesma coisa...
-Por certo,
apoiaram os circunstantes.
Cirino fez repentina
parada nas suas explicações.
-Também,
disse com alguma volubilidade, muito breve estarei voltando cá.
Tenho de ir para lá do rio...
-Vai até
as Melancias? Indagou o coletor ajeitando o nome de um pouso para
ver se acertava.
-Mais adiante,
respondeu o moço. E vendo a impossibilidade de escapar de
tão terrível inquirição, mudou de tática.
-Na volta, disse
ele dirigindo ao major, hei de lhe comprar algumas fazendas...
-Já adivinhei,
exclamou o vigário cortando a palavra a Cirino, o doutor
vai casar.
-Ora, chasquearam
alguns, para que tanto segredo?... Ninguém lhe vai roubar
a noiva!...
-Sobretudo quando
as coisas têm de me vir parar às mãos, ponderou
o padre.
Por instante,
deram o acanhamento e o silêncio de Cirino azo a muitas observações.
-Parabéns!
dizia um.
-Quem é
essa feliz sertaneja? perguntaram outros.
-Juro-lhes,
meus senhores, protestou o moço, não há nada...
Prosseguiu o
padre:
-Pois, se quer
um conselho, apresse isso; de uma cajadada matarei dois coelhos...
E o senhor e o Manecão.
-Na verdade,
concordaram os presentes.
-Mas, onde se
meteu ele? perguntou um deles.
-Há pouco
estava aqui...
-Quem? o Manecão?
-Sim...
-Ali vem ele!
anunciou alguém
No fim da rua,
aparecia, com efeito, um homem montado em fogoso cavalo que sofreava
com firmeza e mão adestrada.
Era a personificação
do capataz de tropa.
Cabelos compridos
e emaranhados, ar selváticos e sobranceiro tez queimada e
vigorosa musculatura constituíam um tipo que atraia de pronto
a atenção.
Metidos os pés
numa espécie de polainas de couro cru de veado, grandes chinelas
de ferro, lenço vermelho atado ao pescoço, garruchas
nos coldres da sela e chicote de cabo de osso em punho, tudo indicava
o tropeiro no exercícios da sua lida.
-Nosso Senhor...
convosco, disse ao chegar, erguendo ligeiramente a aba do chapéu
com a ponta do dedo indicador.
-Bons dias,
Sr. Manecão? respondeu por todos o major, ou melhor, boas
tardes... Já sei que desta feita vai de batida..
-Boa dúvida,
grazinou o vigário, vai ver a pequerrucha.
Sorriu-se o
capataz com melancolia:
-Não
é por isso Sr. vigário. Não me deixo anarquizar
por mulheres; mas, enfim a gente deve um dia deitar a poita... A
vida é uma viagem...
Haviam Cirino
e Manecão? ficado no meio dos curiosos.
Fitaram-se:
um, indiferente e altivo no modo de encarar; outro, descorado meio
trêmulo
-Este cujo é
o cirurgião? Perguntou à meia voz Manecão?
adernando no selim para o lado do coletor. A Cula da venda me disse
que tinha chegado... Tem-me cara de enjoado.
-Xi! retrucou
o outro, mas tem cabeça. Por aí fez um despotismo
de curas.
Cirino, notando
que tratavam dele, cumprimentou com um sorriso de amabilidade
-Boa tarde,
patrício.
-Ora viva, correspondeu
o tropeiro em tom áspero.
E, olhando para
o Sol, acrescentou:
-Vejam lá
o que é um homem estar como mulher... a bater língua...
A tarde vem descendo, e muito tenho hoje que palmear... Minha gente,
adeus... Sr. major, até mais ver... Sr. vigário, breve
estou por cá...
Esporeou o animal
o circulo abriu-se, e Manecão? partiu em boa marcha.
Aproveitando,
por seu turno, aquela saída rápida, que rompera a
cadela dos que o rodeavam, apertou Cirino a mão do major
e tomou rumo do Rio Paranaíba em cuja margem contava passar
a noite.
Mal desaparecera,
e choveram comentários que nem saraiva.
-Notou o senhor,
disse o vigário para o major, como esta mudado? .. todo jururu...
-Nem tanto,
contrariou o coletor, nem tanto...
O Sr. Taques,
major e juiz de paz, tomou ar de profunda meditação.
-Hão
de os senhores ver, disse por fim levantando um dedo para o ar,
que ai há dente de coelho.
Durante aquela
noite e muitos dias subsequentes, repetiu a vila todas estas célebres
palavras.
-Foi o major
quem o disse, asseveravam convictos, ali há dente de coelho.
XXV-A VIAGEM
Às vezes
sinto necessidade de morrer, como pessoas acordadas sentem necessidade
de dormir
(Mme Du Deffand).
Encantador país!
Teu aspecto, teus solitários bosques ar puro e balsâmico,
tem o poder de dissipar toda a sorte de tristezas, menos a da perda
da esperança.
(Carlota Smith).
Cirino em pouco
mais de uma hora, transpôs a distancia da povoação
ao rio. Também, na légua e quarto que ate lá
media só há de ruim o trecho em que fica a floresta
que borda as margens da majestosa corrente.
Nessa mata,
trazem os troncos das árvores vestígio das grandes
enchentes; o terreno 6 lodacento e enatado; centro de putrefação
vegetal donde irradiam os miasmas que, por ocasião da retirada
das águas, se formam em dias de calor abrasador e sufocante.
Abundam ali
coqueiros de estípite curto e folhuda coroa chamados aucuris,
a que rodeiam numerosas lagoinhas de água empoçada
e coberta de limo.
Em nada é,
pois, aprazível o aspecto, e a lembrança de que ali
imperam as temidas sezões faz que todo o viajante apresse
a travessia de tão tristonhas paragens.
Ouve-se a curta
distancia o ruído do rio que corre largo, claro e com rapidez.
Como duas verdes
orlas refletem-se no espelhado da superfície as elevadas
margens, a cujo sopé moitas de sarandis, curvadas pelo esforço
das águas e num balancear continuo, produzem doce marulho.
Causa-nos involuntário
cismar a contemplação de grande massa liquida a rolar,
a rolar mansamente, tangida por força oculta.
Bem como a ondulação
incessante e monótona do oceano agita a alma, assim também
aquele perpassar perene, quase silencioso, de uma corrente caudal,
insensivelmente nos leva a meditar.
E quando o homem
medita, torna-se triste.
Franca e espontânea
é a alegria, como todo o fato repentino da natureza. A tristeza
é uma vaga aspiração metafísica uma
elação inquieta e quase dolorosa acima da contingência
material.
Ninguém
se prepara para ficar alegre. A melancolia, pelo contrário,
aos poucos é que chega como efeito de fenômenos psicológicos
a encadear-se uns nos outros.
De que modo
nasceu aquela enorme mole de água? Donde velo? Para onde
vai? Que mistérios encerra em seu seio?
Largo tempo
ficou Cirino a olhar para o rio. Em sua mente tumultuavam negros
pensamentos.
Já se
havia difundido o crepúsculo, e bandos folgazões de
quero-queros saudavam os últimos raios do Sol e despertavam
os ecos em descomunal gritaria. De vez em quando, passava algum
pato selvagem, batendo pesadamente as asas; sobre as águas,
adejavam garças estirando e encolhendo o níveo colo
e pombas, aos centos, cruzavam de margem a margem a buscar inquietas
o pouso de querência.
Foi a luz gradativamente
morrendo no céu, seguida de perto pelas sombras; e o rio
tomou aspecto uniforme como se fora imensa lâmina de prata
não brunida.
-Enfim, -conheci
o Manecão? pensava Cirino. E para esse é que reservam
a minha gentil Inocência . . . Bonito homem para qualquer...
para mim, para ela, horrendo monstro!... E como é forte !
. . .
Digamo-lo, sem
por isso amesquinhar o nosso herói, a Idéia de força
no rival acabrunhava-o.-Se eu pudesse... esmagava-o!... E que ar
sombrio e desconfiado!... Meu Deus, dai-me coragem... dai-me esperanças...
Nossa Senhora da Abadia!... Nosso Senhor da Cana-Verde... vaiei-me!...
E o mancebo,
diante daquela natureza acabrunhadora a quem tanto Importava a paixão
que lhe atanazava-o peito, como o inseto a chilrar debaixo da folha
de humilde erva, caiu de joelhos, orando com fervor ou, melhor,
desfiando automaticamente as preces que sua mãe lhe havia,
em pequeno, ensinado.
E o rio lá
se ia sereno; e uma onça ao longe urrava, ou algum pássaro
da noite soltava gritos de susto, esvoaçando às tontas.
Transpondo na manhã seguinte, o Rio Paranaíba, pisou
Cirino território de Minas literais.
Depois de légua
e meia em mata semelhante à da margem direita, abrem-se campos
dobrados, um tanto arestados do sol, de aspecto pouco variado, mas
abundantíssimos em perdizes e codornas. Tão preocupado
levava o moço o espírito que, nem sequer uma só
vez, imitou o pio daquelas aves; distração, a que
aliás não se furta quem por lá viaja, tão
Instantes os motivos de instigação.
Foi com impaciência
mais e mais crescente que percorreu as dezesseis léguas intermédias
à fazenda do Pauda.
Ia com o coração
cheio de apreensões e os olhos se lhe arrasavam de lágrimas,
de cada vez que contemplava o melancólico buriti. Então
pelo pensamento voava à casa de Inocência. Também,
ali junto ao córrego em cuja borda se dera a última
entrevista, se erguia uma daquelas palmeiras, rainha dos sertões.
Que estaria
fazendo a querida dos seus sonhos?
Que lhe aconteceria?
E Manecão?! Já teria lá chegado?
Ao pensar nisto,
aumentava-se-lhe a agitação e com vigor esporeava
a cavalgadura.
Transformava-se
para ele o caminho em dolorosa via, que numa vertiginosa carreira
quisera vencer mas que era preciso ir tragando pouso a pouso, ponto
a ponto.
A majestosa
impassibilidade da natureza exasperava-o.
Quando o homem
sofre deveras, deseja nos raptos do alucinado orgulho, ver tudo
derrocado pela fúria dos temporais, em harmonia com a tempestade
que lhe vai no intimo.
-Meu Deus! murmurava
Cirino, tudo quanto me rodeia está tão alegre e é
tão belo! Com tanta leveza voam os pássaros: as flores
são tão mimosas; os ribeirões tão claros...
tudo convida ao descanso... só eu a padecer! Antes a morte...
Quem me dera arrancar do coração este peso! esta certeza
de uma desgraça imensa! Que é afinal o amor?... Daqui
a anos talvez nem me lembre mais da pobre Inocência... Estarei
me atormentando à toa... Oh não! Essa menina é
a minha vida! é o meu sangue... o meu farol para os céus...
Quem ma rouba mata-me de uma vez. Venha a morte... fique ela para
chorar por mim... um dia contará como um homem soube amar!
. . .
Levantara Cirino
a voz. De repente, deu um grande grito, como que o sufocava:
-Inocência!...
Inocência!
E as sonoridades
da solidão, dóceis a qualquer ruído, repetiram
aquele adorado nome, como repetiam o uivo selvático da suçuarana,
a nota plangente do sabiá ou a martelada metálica
da araponga.
Como tudo, afinal,
tem termo, alcançou Cirino, no quarto dia, a casa de Antônio
Cesário. Acolheu-o este com toda a amabilidade e franqueza.