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Inocência
Visconde de Taunay

 


XXIII - A ÚLTIMA ENTREVISTA

Está a máscara da noite sobre meu rosto: a não ser ela, verias as minhas faces tintas do rubor virginal.

(Shakespeare, Romeu e Julieta, Ato 11).

Mais cresce a luz, mais aumentam as trevas das nossas desgraças.

(Idem. Ato IV).


Grave modificação trouxe a retirada de Meyer no sistema de viver daquela vivenda, onde se agitava um dos problemas mais comezinhos da natureza moral, mas que ali apresentava cores algum tanto carregadas, senão já sombrias.

Fora Pereira dormir no interior da casa, passando ali a maior parte do tempo. Assim os encontros dos dois apaixonados tornaram-se de todo impossíveis, e, não tendo mais a atenção do mineiro o alvo que sempre colimara durante a estada do alemão, começava como era de prever, a voltar-se para Cirino, a quem confessou ter tratado Meyer com injusta prevenção.

- Hoje, dizia o mineiro, dói-me a consciência do modo por que desconfiei daquele homem... Quem sabe se tudo que eu parafusei não foi abusão cá da cachola? Sr. Cirino, quando a gente entra a dar volta ao miolo.. é que vê que todos têm queda para malucos... Sim senhor!... Hoje estou convencido que o tal alamão era bom e sincero... Olhou para a menina... achou-a bonitinha... e disse aquele despotismo de asneiras sem ver a mal... Em pessoa que não guarda o que pensa, é que os outros se podem fiar... Às vezes o perigo vem donde nunca se esperou... Enfim não me arrependo muito de ter feito o que fiz... Receei e tomei tento...

Amiudando-se estes e outros dizeres iguais, deram que refletir a Cirino. De uma hora para outra compreendeu que as vistas inquisitoriais poderiam tornar a sua posição insustentável.

Por enquanto tratou de encontrar-se com Inocência. Grandes eram as dificuldades; o meio único, tentar novamente as entrevistas noturnas; pelo que do laranjal não arredava pé, noites e noites inteiras, ficando ali com os olhos presos à janela da querida do coração.

Certa madrugada, viu afinal a sombra de Inocência.

Achou-se, num ápice, o mancebo junto dela e agarrou-lhe com violência nas mãos.

-Enfim, exclamou ele, eu a vejo.

-Meu pai, murmurou a moça com voz tão fraca que mal se ouvia, pode acordar...

- Não importa, replicou Cirino desabrido, descubra-se tudo... não posso mais viver assim,..

-Xi! observou ela, cuidado! Se ele nos acha aqui, mata-nos logo... Olhe, vá-me esperar junto ao corguinho para lá do laranjal... daqui a nada vou ter com mecê... A porta esta só encostada . . .

O moço fez sinal que obedecia e sumiu-se incontinenti na escuridão do pomar.

Aquela hora dava a Lua de minguante alguma claridade à terra; entretanto, como que se pressentia outra luz a preparar-se no céu para irradiar com súbito esplendor e infundir animação e alegria à natureza adormecida. Nos galhos das laranjeiras, ouvia-se o pipilar de pássaros prestes a despertar, um gorjeio intimo e aveludado de ave que cochila; e ao longe um sabia mais madrugador desfiava melodias que o silêncio harmoniosamente repercutia. Riscava-se o oriente de dúbias linhas vermelhas, prenúncio mal percebível da manhã; nos espaços pestanejavam as estrelas com brilho bastante amortecido, ao passo que fina e amarelada névoa empalecia o tênue segmento iluminado do argênteo astro.

Não era mais noite; mas ainda não era sequer a aurora.

Tão comovido se sentia Cirino, que teve de sentar-se, enquanto esperava por Inocência.

Esta não tardou: vinha vestida de uma sala de algodão grosseiro e, à cabeça, trazia uma grande manta da mesma fazenda, cujas dobras as suas mãos prendiam junto ao corpo. Estava descalça, e a firmeza com que pisava o chão coberto de seixinhos e gravetos, mostrava que o hábito lhe havia endurecido a planta dos pés, sem lhes alterar, contudo, a primitiva elegância e pequenez.

Parecia muito assustada, e, mau grado seu, dos olhos lhe rolavam lágrimas a fio.

O mancebo, apenas a avistou, correu-lhe ao encontro.

-Inocência, exclamou ele notando um gesto de dúvida, nada receie de mim... Hei de respeitá-la, como se fora uma santa... Não confia então em mim?...

-Sim! disse ela apressadamente. Por isso é que vim até cá... Entretanto, estou com a cara ardendo... de vergonha...

E levando uma das mãos de Cirino às suas faces:

-Veja, Cirino, como tenho o rosto em brasa...

Por que é que mecê veio bulir comigo? Eu era uma moça sossegada... agora, se mecê não gostasse mais de mim... eu morria...

- Deveras?

-Eu lhe juro... t: mais fácil apagarem-se de repente estas estrelas todas, do que eu deixar de amá-la...

-E Manecão? perguntou ela com terror.

-Oh! esse homem, sempre esse nome maldito!...

-Há de ser meu marido...

-Isso nunca, Inocência... É impossível!... E se fugíssemos?... Olhe, amanhã a estas mesmas horas ou mais cedo, trago para aqui dois bons animais... Você monta num, eu noutro... batemos para Sant'Ana e, a galope sempre, havemos de chegar a Uberaba... onde acharemos um padre que nos case... Vamos, ouviu?

-E mecê havia de me estimar toda a vida?

-Sempre... Diga, sim... diga pelo amor de Deus, e estamos salvos. . . diga! . . .

- E meu pai, Cirino? Que havéra de ser? .. Atirava-me a maldição... eu ficava perdida... uma mulher de má vida... sem a bênção de meu pai... Não... mecê está me tentanto... Não quero fugir... Antes a desgraça para toda a existência... mas fique eu sendo o que meu nome diz que sou... Já muito peco, fazendo o que faço.. Mecê é moço da cidade; não lhe custa enganar uma criatura como eu... Até...

-Pois bem, interrompeu Cirino, você não quer?... não falemos mais nisso .. Não hei de querer, senso aquilo que achar bom... E se eu, por fim, me decidir a falar a seu pai?

-Deus nos livre! retorquiu ela aterrada. Pensei a principio que pudera ser, mas depois vi que era pior... Mecê não conhece o que é palavra de mineiro... ferro quebra, ela não... Manecão? há de ser genro dele...

-Quem sabe, Inocência? Hei de falar tanto... pedir com tanta humildade.

-Ché, que esperança!... de nada serviria...

-Então, que fazer? bradou o moço. A que Santa agarrar-nos? Por que é que o céu nos quer tanto mal?

E ocultando a cabeça entre as mãos, desatou a chorar ruidosamente. Inocência, por seu lado, encostou a fronte ao ombro do amante, e ambos, unidos, choraram como duas crianças que eram.

Foi ela quem primeiro rompeu o silêncio

-Ah! meu Deus, se o padrinho quisesse!...

- Seu padrinho? perguntou Cirino. Quem é?... quem é ele?

-Um homem que mora para lá das Parnaíbas, já nos terrenos Gerais.

-Onde?... É longe?...

-Meio longe, meio perto. .. Mecê não conhece o Pauda ?

-Conheço... A 16 léguas do Rio Paranaíba...

-Pois é aí que padrinho pára... A esquerda da fazenda do Pauda, numas terras de sesmaria...

-E como se chama ele?

-Antônio Cesário... Papai lhe deve favores de dinheiro e faz tudo quanto ele manda... Se dissesse uma palavra, Manecão? havéra de ficar atrapalhado...

-Oh! exclamou Cirino com confiança, estamos salvos então!,.. Amanhã mesmo, monto a cavalo e toco para lá... Daqui à vila são sete léguas... Até lá, umas dezessete... f: um passeio... Chego... conto-lhe tudo... ponho-me de rastos aos seus pés... e...

-Mas, interrompeu Inocência, não lhe fale em mim, ouviu? Não lhe diga que tratou comigo... que comigo mapiou... Estava tudo perdido... Invente umas histórias... faça-se de rico... nem de leve deixe assuntar que foi por meu juízo que mecê bateu à porta dele... Hi! com gente desconfiada, 6 preciso saber negacear ..

-Oh! meu Deus, disse Cirino no auge da alegria, estamos salvos!... Não há dúvida... Vejo agora como há de tudo acontecer... Depois de um dia ou dois de parada na casa, desembucho o negócio. O velho escreve uma carta a seu pai e, pelo menos, se não se arredar logo o Manecão? .. ganha-se tempo... Eu já quisera estar montado na minha besta tordilha queimada, a bater a estrada por ai afora... Dois dias para ir, dois para voltar, dois ou três de pousada... Com pouco mais de uma semana, estou de volta, trazendo ou a felicidade ou a caipora de uma vez. Não! Tenho fé em Nossa Senhora da Abadia... Ela nos ajudará... e juntos havemos ainda de cumprir a promessa que já fiz...

-Que permessa foi? perguntou Inocência com curiosidade.

-Irmos nós daqui até a vila a pé, botar duas velas bentas no altar de Nossa Senhora.

-Sim, confirmou a moça com fogo, eu juro... Fosse até ao fim do mundo! . . .

-Oh! minha santa do Paraíso, exclamou o moço apertando-a de encontro ao peito, quanto você me ama!!

E assim abraçados, quedaram eles inconscientes, enquanto a aurora vinha clareando o firmamento e desferindo para a terra raios indecisos como que a sondarem a profundidade das trevas; enquanto os pássaros chilreavam à surdina, preparando as gargantas para o matutino concerto, enquanto o orvalho subia da terra ao céu molhando o dorso das folhas das grandes árvores e suspendendo, às das rasteiras plantinhas, gotas que cintilavam já como diamantes.

Ao longe, à beira de algum rio, as aracuãs levantavam a sonora grita, e o macauã atirava aos ares os pios prolongados da áspera garganta.

-É dia, observou Inocência desprendendo-se dos braços de Cirino.

-Já! exclamou este amuado.

-Meu Deus, e eu que tenho de ir até a casa... vou-me embora...

-Então, partirei hoje mesmo, disse o moço.

-Sim...

-E na semana que vem, estou de volta...

-Pois bem... Leve com mecê esta certeza; a minha vida ou a minha morte depende do padrinho...

-A minha também, replicou o mancebo beijando com fervor as mãos de Inocência...

-Deixe-me... deixe-me, implorou ela. Adeus, estou com um medo!... Felizmente ninguém me viu...

Nesse momento e, como que para responder à asseveração, de dentro do pomar partiu aquele fino assobio que tanto assombrara os amantes na primeira das suas entrevistas.

Inocência quase caiu por terra.

-Meu Deus! balbuciou ela, que agouro!... Quem sabe se não 6 gente?

Ao assobio seguiu-se uma espécie de gargalhada, que gelou o sangue nas veias dos dois míseros.

Agarrou-se a menina a Cirino.

-É alma do outro mundo, murmurou ela persignando-se.

Não perdera o mancebo o sangue frio. Invocando a São Miguel, fez o sinal-da-cruz na direção dos quatro pontos cardeais; depois suspendeu a moça em seus braços e, transpondo a toda a pressa o pomar, foi depô-la junto à porta da casa, porta que estava entreaberta, naturalmente pelo vento.

Quase desmaiara Inocência entretanto, reunindo as forças pôde entrar, e cautelosa correu o ferrolho interior.

Mais sossegado a esse respeito, voltou Cirino ao laranjal e, como da primeira vez, pôs-se a percorrê-lo em todos os sentidos, indagando, à nascente claridade do dia, se era ente humano ou fantasma quem dele parecia fazer joguete.

No momento em que passava por junto de uma laranjeira mais copada, viu de repente certa massa informe cair-lhe quase na cabeça e no meio de folhas e ramos quebrados vir ao chão com surdo grito de angústia.

-Cruz! T'esconjuro! bradou o moço.

E, como uma visão, passou-lhe por perto uma criaturinha, desaparecendo logo entre os troncos das árvores.

Ali esteve Cirino com os cabelos eriçados, os olhos fixos, os braços hirtos de terror, os lábios secos a tartamudear um exorcismo, e as pernas a tremer.

Uma voz, a certa distancia, arrancou-o desse espasmo.

Era Pereira; com a mão encostada a boca, interpelava a um dos seus escravos.

-Faz fogo, José!... Se for alma do outro mundo ou lobisomem, a bala não pega... Se for gente, melhor.

E um tiro troou.

Sibilou uma bala aos ouvidos de Cirino, indo cravar-se numa árvore próxima.

Por outra, não esperou ele. Com o favor da escuridão que ainda reinava, deslizou rápido e foi buscar a frente da casa, quando já iam acordando os camaradas.

Mal chegara a sala, apareceu-lhe Pereira à porta.

-Que foi isso? perguntou Cirino compondo a fisionomia.

-Lá sei, respondeu o mineiro. Uma matinada de gritos no laranjal, que parecia um inferno... A pequena ficou toda que parecia querer morrer de medo. Desconfio que a alma do Coletor andou hoje me rondando a casa... Não seja presságio de mal... A Senhora Sant'Ana nos proteja.

-Pois eu cá dormi como um chumbo, disse Cirino; acordei com um tiro...

-Não há de poder enfiar outra soneca daqui a um nadinha, está o sol batendo no terreiro.

Com efeito, depressa caminhava o alvorecer, e debaixo daquelas vivas impressões acordaram aqueles que haviam conciliado o sono, na morada de Pereira.


XXIV-A VILA DE SANT'ANA

Debaixo do céu há uma coisa que nunca se viu: é uma cidade pequena sem falatórios, mentiras e bisbilhotices.

(Lavergne).

Nesse mesmo dia, montou Cirino a cavalo e despediu-se de Pereira por uma semana ou pouco mais, dando por motivo de tão inesperada viagem, não só a necessidade de visitar alguns doentes mais afastados, senão também procurar, quer na vila, quer mesmo nos campos da província de Minas Gerais, uns remédios e símplices que lhe iam faltando.

-Daqui a um terno de dias estarei de volta, disse ao partir.

Desde a casa de Pereira até ao Albino Lata é tão ensombrada e agradável a estrada, que essas três léguas lhe foram muito fáceis de vencer.

Ali, porém, começam campos dobrados e soalheiros que, num estirão de quatro léguas, até a Vila de Sant'Ana tornam penosa a viagem, sobretudo quando são percorridos sob os ardentes raios do sol do meio-dia.

Exaltam-se e irritam-se os incômodos do espíritos, no momento em que o físico começa a sofrer.

Quando Cirino passou por aquelas campinas desabrigadas, abrasado de calor, desanimou completamente do êxito da empresa a que se atirara. Tanta esperança o alvoroçara quando ia seguindo a vereda encoberta e amena, quanto desalento sentia agora; e, descoroçoado, deixava que o animal o fosse levando a passo vagaroso e como que identificado com a disposição de animo do cavaleiro.

-Que vou eu fazer? pensava quase alto... Como encetar aquela conversa?

Tamanha era a duvida que o salteava que chegou quase a blasfemar contra a amada do seu coração.

-Maldita a hora em que vi aquela mulher... Seguia eu sossegado o meu rumo... botaram-me a perder os seus olhos!... Depois, exclamou contrito:

-Perdão, Inocência! perdão, meu anjo! Estou a amaldiçoar a hora da minha felicidade... Eu, que sou homem, posso fugir... deixar-te... mas tu, amarrada à casa... Infeliz, fui o culpado!...

E, engolfado em dolorosa cogitação, alcançou a Vila de Sant'Ana do Paranaíba.

De longe é sumamente pitoresco o primeiro aspecto da povoação.

Ponto terminal do sertão de Mato Grosso, assenta no abaulado dorso de um outeirozinho. O que lhe dá, porém, encanto particular para quem a vê de fora, é o extenso laranjal, coroado anualmente de milhares de áureos pomos, em cuja folhagem verde-escura se encravam as casas e ressalta a cruz da modesta igreja matriz.

Transpondo límpido regato e vencida pedregosa ladeira com casinholas de sapé à direita e à esquerda, chega-se à rua principal, que tem por mais grandioso edifício espaçosa casa de sobrado, de construção antiquada. Ornamenta-a uma varanda de ferro e um telhado que se adianta para a rua, como a querer abrigá-la em sua totalidade dos ardores do sol.

É aí que mora o Major Martinho de Melo Taques, baixote, rechonchudo, corado.

Na sua loja de fazendas, ao rés-do-chão, reúne-se a melhor gente da localidade, para ouvi-lo dissertar sobre política, ou narrar a guerra dos farrapos no Rio Grande do Sul e a vida que se leva na corte do Rio de Janeiro, onde estivera pelos anos de 1838 a 1839.

De vez em quando, naquela silenciosa rua em que tão bem se estampa o tipo melancólico de uma povoação acanhada e em decadência, aparece uma ou outra tropa carregada, que levanta nuvens de pó vermelho e atrai às janelas rostos macilentos de mulheres, ou a porta crianças pálidas das febres do Rio Paranaíba e barrigudas de comerem terra.

Também aos domingos, à hora da missa, por ali cruzam mulheres velhas, embrulhadas em mantilhas, acompanhando outras mais mocinhas, que trajam capote comprido até aos pés e usam daqueles pentes andaluzes, de moda em tempos que já vão longe.

Atravessou Cirino a vila, e passando por defronte do Sr. Taques saudou-o com a mão, e sem parar.

Estava o major, como de costume, sentado ao balcão, de chinelos, sem meias, e rodeado das pessoas gradas do lugar, a contar não só as próprias proezas, que muitas tinha aquele estimável cidadão, senão também as façanhas dos antigos sertanejos, histórias que sabia na ponta da língua.

-Lá vai o doutor, disse um dos presentes a palestra da loja.

-O Sr. Cirino! interpelou o major correndo para a porta. Então que é isso? Por aqui?

-É verdade, respondeu Cirino, e vou de passagem; também por pouco tempo: talvez nesses oito ou dez dias esteja de volta.

Tudo quanto enchia a salinha havia saído para a rua, de modo que o moço ficou logo cercado. Recostavam-se uns quase à anca do animal; afagavam-lhe outros a pá do pescoço ou brincavam com o freio.

Achava-se a curiosidade aguçada: era preciso dar-lhe pasto.

Compreendeu o major o alcance da situação.

-Cada qual tem os seus negócios particulares, disse logo para começar; mas, se não há segredo que quer dizer esta sua volta?

-Já devia estar bem longe de acá, observou um sujeito. Há quase dois meses que parou aqui na cidade e...

Espere, interrompeu o vigário, não há tal dois meses. O doutor passou por esta rua há um mês e vinte dois dias, às oito horas da manhã.

-Pois bem, continuou o major, tinha tempo. de sobra para estar já por bandas de Miranda...

-Isso, se fosse escoteiro, replicou Cirino, reparem que levava cargas... e, demais, viajava curando...

-É verdade! confirmou o coletor (homem esguio, que trazia um chapéu muito alto e afunilado), não pensam nisso. O que querem é falar... falar...


-Creio que o senhor não atira a mim, observou o vigário com ar rusguento.

-Quem em tal cuida, senhor padre? protestou logo o outro. Estou dizendo em geral... Em geral. Eu não...

-Mas, doutor, atalhou o major, onde esteve o senhor de molho este tempão todo?... nalguma fazenda?

Prometia ir longe o interrogatório.

-Eu já estava quase perto do Sucuriú, disse Cirino meio perturbado, no...

-Não é tão perto assim, objetou o vigário. Uma vez...

-Ouçamos, senhor padre, atalhou o coletor denunciando rixa velha com o clérigo. O moço não disse que seja perto daqui...

Repetiu o major as palavras de Cirino, acentuando-as de certo modo:

-Então o doutor já estava quase perto do Sucuriú, não é?

-De fato. Ali encontrei uma pessoa que me devia, há meses um dinheiro...

-Um dinheiro? perguntou o vigário. Uma pessoa?... Que pessoa? Quem será?

-Homem, quem poderá ser? indagaram a um tempo vozes sôfregas.

Prosseguiu o major implacável:

-Deixem o doutor explicar-se... Vocês fazem logo uma algazarra! . .

Foi quase a balbuciar que Cirino procurou continuar:

-Sim... certo tropeiro... mandou ordem para mim cobrar... de um parente uma bolada... Também eu tinha que... pagar outra pessoa... que...

-Espere, espere, interrompeu o major, então o senhor velo receber dinheiro ou desembolsar? Não 6 uma e a mesma coisa...

-Por certo, apoiaram os circunstantes.

Cirino fez repentina parada nas suas explicações.

-Também, disse com alguma volubilidade, muito breve estarei voltando cá. Tenho de ir para lá do rio...

-Vai até as Melancias? Indagou o coletor ajeitando o nome de um pouso para ver se acertava.

-Mais adiante, respondeu o moço. E vendo a impossibilidade de escapar de tão terrível inquirição, mudou de tática.

-Na volta, disse ele dirigindo ao major, hei de lhe comprar algumas fazendas...

-Já adivinhei, exclamou o vigário cortando a palavra a Cirino, o doutor vai casar.

-Ora, chasquearam alguns, para que tanto segredo?... Ninguém lhe vai roubar a noiva!...

-Sobretudo quando as coisas têm de me vir parar às mãos, ponderou o padre.

Por instante, deram o acanhamento e o silêncio de Cirino azo a muitas observações.

-Parabéns! dizia um.

-Quem é essa feliz sertaneja? perguntaram outros.

-Juro-lhes, meus senhores, protestou o moço, não há nada...

Prosseguiu o padre:

-Pois, se quer um conselho, apresse isso; de uma cajadada matarei dois coelhos... E o senhor e o Manecão.

-Na verdade, concordaram os presentes.

-Mas, onde se meteu ele? perguntou um deles.

-Há pouco estava aqui...

-Quem? o Manecão?

-Sim...

-Ali vem ele! anunciou alguém

No fim da rua, aparecia, com efeito, um homem montado em fogoso cavalo que sofreava com firmeza e mão adestrada.

Era a personificação do capataz de tropa.

Cabelos compridos e emaranhados, ar selváticos e sobranceiro tez queimada e vigorosa musculatura constituíam um tipo que atraia de pronto a atenção.

Metidos os pés numa espécie de polainas de couro cru de veado, grandes chinelas de ferro, lenço vermelho atado ao pescoço, garruchas nos coldres da sela e chicote de cabo de osso em punho, tudo indicava o tropeiro no exercícios da sua lida.

-Nosso Senhor... convosco, disse ao chegar, erguendo ligeiramente a aba do chapéu com a ponta do dedo indicador.

-Bons dias, Sr. Manecão? respondeu por todos o major, ou melhor, boas tardes... Já sei que desta feita vai de batida..

-Boa dúvida, grazinou o vigário, vai ver a pequerrucha.

Sorriu-se o capataz com melancolia:

-Não é por isso Sr. vigário. Não me deixo anarquizar por mulheres; mas, enfim a gente deve um dia deitar a poita... A vida é uma viagem...

Haviam Cirino e Manecão? ficado no meio dos curiosos.

Fitaram-se: um, indiferente e altivo no modo de encarar; outro, descorado meio trêmulo

-Este cujo é o cirurgião? Perguntou à meia voz Manecão? adernando no selim para o lado do coletor. A Cula da venda me disse que tinha chegado... Tem-me cara de enjoado.

-Xi! retrucou o outro, mas tem cabeça. Por aí fez um despotismo de curas.

Cirino, notando que tratavam dele, cumprimentou com um sorriso de amabilidade

-Boa tarde, patrício.

-Ora viva, correspondeu o tropeiro em tom áspero.

E, olhando para o Sol, acrescentou:

-Vejam lá o que é um homem estar como mulher... a bater língua... A tarde vem descendo, e muito tenho hoje que palmear... Minha gente, adeus... Sr. major, até mais ver... Sr. vigário, breve estou por cá...

Esporeou o animal o circulo abriu-se, e Manecão? partiu em boa marcha.

Aproveitando, por seu turno, aquela saída rápida, que rompera a cadela dos que o rodeavam, apertou Cirino a mão do major e tomou rumo do Rio Paranaíba em cuja margem contava passar a noite.

Mal desaparecera, e choveram comentários que nem saraiva.

-Notou o senhor, disse o vigário para o major, como esta mudado? .. todo jururu...

-Nem tanto, contrariou o coletor, nem tanto...

O Sr. Taques, major e juiz de paz, tomou ar de profunda meditação.

-Hão de os senhores ver, disse por fim levantando um dedo para o ar, que ai há dente de coelho.

Durante aquela noite e muitos dias subsequentes, repetiu a vila todas estas célebres palavras.

-Foi o major quem o disse, asseveravam convictos, ali há dente de coelho.


XXV-A VIAGEM

Às vezes sinto necessidade de morrer, como pessoas acordadas sentem necessidade de dormir

(Mme Du Deffand).

Encantador país! Teu aspecto, teus solitários bosques ar puro e balsâmico, tem o poder de dissipar toda a sorte de tristezas, menos a da perda da esperança.

(Carlota Smith).

Cirino em pouco mais de uma hora, transpôs a distancia da povoação ao rio. Também, na légua e quarto que ate lá media só há de ruim o trecho em que fica a floresta que borda as margens da majestosa corrente.

Nessa mata, trazem os troncos das árvores vestígio das grandes enchentes; o terreno 6 lodacento e enatado; centro de putrefação vegetal donde irradiam os miasmas que, por ocasião da retirada das águas, se formam em dias de calor abrasador e sufocante.

Abundam ali coqueiros de estípite curto e folhuda coroa chamados aucuris, a que rodeiam numerosas lagoinhas de água empoçada e coberta de limo.

Em nada é, pois, aprazível o aspecto, e a lembrança de que ali imperam as temidas sezões faz que todo o viajante apresse a travessia de tão tristonhas paragens.

Ouve-se a curta distancia o ruído do rio que corre largo, claro e com rapidez.

Como duas verdes orlas refletem-se no espelhado da superfície as elevadas margens, a cujo sopé moitas de sarandis, curvadas pelo esforço das águas e num balancear continuo, produzem doce marulho.

Causa-nos involuntário cismar a contemplação de grande massa liquida a rolar, a rolar mansamente, tangida por força oculta.

Bem como a ondulação incessante e monótona do oceano agita a alma, assim também aquele perpassar perene, quase silencioso, de uma corrente caudal, insensivelmente nos leva a meditar.

E quando o homem medita, torna-se triste.

Franca e espontânea é a alegria, como todo o fato repentino da natureza. A tristeza é uma vaga aspiração metafísica uma elação inquieta e quase dolorosa acima da contingência material.

Ninguém se prepara para ficar alegre. A melancolia, pelo contrário, aos poucos é que chega como efeito de fenômenos psicológicos a encadear-se uns nos outros.

De que modo nasceu aquela enorme mole de água? Donde velo? Para onde vai? Que mistérios encerra em seu seio?

Largo tempo ficou Cirino a olhar para o rio. Em sua mente tumultuavam negros pensamentos.

Já se havia difundido o crepúsculo, e bandos folgazões de quero-queros saudavam os últimos raios do Sol e despertavam os ecos em descomunal gritaria. De vez em quando, passava algum pato selvagem, batendo pesadamente as asas; sobre as águas, adejavam garças estirando e encolhendo o níveo colo e pombas, aos centos, cruzavam de margem a margem a buscar inquietas o pouso de querência.

Foi a luz gradativamente morrendo no céu, seguida de perto pelas sombras; e o rio tomou aspecto uniforme como se fora imensa lâmina de prata não brunida.

-Enfim, -conheci o Manecão? pensava Cirino. E para esse é que reservam a minha gentil Inocência . . . Bonito homem para qualquer... para mim, para ela, horrendo monstro!... E como é forte ! . . .

Digamo-lo, sem por isso amesquinhar o nosso herói, a Idéia de força no rival acabrunhava-o.-Se eu pudesse... esmagava-o!... E que ar sombrio e desconfiado!... Meu Deus, dai-me coragem... dai-me esperanças... Nossa Senhora da Abadia!... Nosso Senhor da Cana-Verde... vaiei-me!...

E o mancebo, diante daquela natureza acabrunhadora a quem tanto Importava a paixão que lhe atanazava-o peito, como o inseto a chilrar debaixo da folha de humilde erva, caiu de joelhos, orando com fervor ou, melhor, desfiando automaticamente as preces que sua mãe lhe havia, em pequeno, ensinado.

E o rio lá se ia sereno; e uma onça ao longe urrava, ou algum pássaro da noite soltava gritos de susto, esvoaçando às tontas.


Transpondo na manhã seguinte, o Rio Paranaíba, pisou Cirino território de Minas literais.

Depois de légua e meia em mata semelhante à da margem direita, abrem-se campos dobrados, um tanto arestados do sol, de aspecto pouco variado, mas abundantíssimos em perdizes e codornas. Tão preocupado levava o moço o espírito que, nem sequer uma só vez, imitou o pio daquelas aves; distração, a que aliás não se furta quem por lá viaja, tão Instantes os motivos de instigação.

Foi com impaciência mais e mais crescente que percorreu as dezesseis léguas intermédias à fazenda do Pauda.

Ia com o coração cheio de apreensões e os olhos se lhe arrasavam de lágrimas, de cada vez que contemplava o melancólico buriti. Então pelo pensamento voava à casa de Inocência. Também, ali junto ao córrego em cuja borda se dera a última entrevista, se erguia uma daquelas palmeiras, rainha dos sertões.

Que estaria fazendo a querida dos seus sonhos?

Que lhe aconteceria? E Manecão?! Já teria lá chegado?

Ao pensar nisto, aumentava-se-lhe a agitação e com vigor esporeava a cavalgadura.

Transformava-se para ele o caminho em dolorosa via, que numa vertiginosa carreira quisera vencer mas que era preciso ir tragando pouso a pouso, ponto a ponto.

A majestosa impassibilidade da natureza exasperava-o.

Quando o homem sofre deveras, deseja nos raptos do alucinado orgulho, ver tudo derrocado pela fúria dos temporais, em harmonia com a tempestade que lhe vai no intimo.

-Meu Deus! murmurava Cirino, tudo quanto me rodeia está tão alegre e é tão belo! Com tanta leveza voam os pássaros: as flores são tão mimosas; os ribeirões tão claros... tudo convida ao descanso... só eu a padecer! Antes a morte... Quem me dera arrancar do coração este peso! esta certeza de uma desgraça imensa! Que é afinal o amor?... Daqui a anos talvez nem me lembre mais da pobre Inocência... Estarei me atormentando à toa... Oh não! Essa menina é a minha vida! é o meu sangue... o meu farol para os céus... Quem ma rouba mata-me de uma vez. Venha a morte... fique ela para chorar por mim... um dia contará como um homem soube amar! . . .

Levantara Cirino a voz. De repente, deu um grande grito, como que o sufocava:

-Inocência!... Inocência!

E as sonoridades da solidão, dóceis a qualquer ruído, repetiram aquele adorado nome, como repetiam o uivo selvático da suçuarana, a nota plangente do sabiá ou a martelada metálica da araponga.

Como tudo, afinal, tem termo, alcançou Cirino, no quarto dia, a casa de Antônio Cesário. Acolheu-o este com toda a amabilidade e franqueza.

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