Inocência
Visconde de Taunay
XIX-CÁLCULOS E ESPERANÇAS
Apesar, porém,
de jovem, apesar da violência do amor que a prendia a Julião,
sabia ela conter 06 movimentos do coração e desconfiar de
si mesma.
(Walter Scott, Peveril
do Pico)
Lisa. - Contento que
tenhas bastante resolução...Lucinda.- Que queres que eu
faça contra autoridade de um pai?Se ele for inexorável aos
meus pedidos?...
(Molière,
0 Amor Medico).
Durante os dias de
estada nas terras de Pereira, as quais não tinham limites nem vizinhos
dali a muitas léguas, aumentou Meyer a sua interessante coleção
com extraordinária variedade de bichinhos e sobretudo borboletas.
Tal era a alegria
de que se possuíra por esse fausto motivo, que a cada momento a
manifestava num tom de franqueza capaz de por si 80 convencer o mais descrente
dos homens em questão de sinceridade.
-Sr. Pereira, dizia
o naturalista, afianço-lhe que em parte alguma do Brasil estive
ainda tão bem como em sua casa.
-Eu te entendo, maroto,
rosnava o mineiro.
-Deveras!... Só
o que sinto 6 que sua filha não nos aparecesse mais... Sinto muito,
na verdade...
Sorriu-se Pereira
com riso amarelo e replicou, apertando os punhos de raiva:
-Mochu sabe. isto
são costumes cá da terra. As mulheres não são
feitas para...
- Para quê?
perguntou Meyer com pausa.
- Para prosearem com
qualquer um...
-Que é prosearem?
-É conversar,
dar de língua, explicou Cirino.
- Obrigado, doutor,
retorquiu Meyer, agradecendo mais aquela indicação filológica
que foi imediatamente enriquecer o seu caderno de notas. Prosear e conversar.
Muito bem!. . Pois é pena, Sr. Pereira, porque sua filha é
uma bonita senhora!
-Nesta arapuca não
caio eu, seu tratante... Hei de toda a vida andar com olho em ti, murmurava
o mineiro.
-E pena, confirmava
Meyer duas e três vezes .. é pena...
Por certo não
era esta a linguagem mais própria para desvanecer as prevenções
e receios de Pereira; ao invés, mais e mais recrescia a sua vigilância
sobre Meyer, o que proporcionava ao verdadeiro culpado a liberdade de
que carecia para tornar a ver o mal guardado tesouro.
Não foi todavia
sem custo a nova conferência.
Ficara a pobre menina tão impressionada com o final da primeira
entrevista, que, por alguns dias, mal saia do quarto.
Escrever-lhe Cirino,
era de todo inútil, por isso que ela nunca aprendera a ler; e,
depois, qual o meio de lhe fazer chegar às mãos qualquer
papel ou recado?
Sobravam, portanto,
razões para que o jovem se ralasse de impaciência e quase
desesperasse da sorte.
Passava as noites em claro, metido no laranjal e procurando uma solução
a tanta dificuldade; atordoavam-no ainda aqueles dois assobios que não
podia explicar e sobretudo aquela pedrada tão bem dirigida, que
por pouco talvez o houvesse estendido por terra.
Numa dessas noites
de ansiedade, viu afinal reabrir-se a janela de Inocência
A pobrezinha, abrasada
também de amor, queria respirar o ar da noite e beber na viração
do sertão um pouco de tranqüilidade para sua alma não
afeita ao tumultuar dos sentimentos que a agitavam e, quem sabe? verificar
se por ai não andava rondando aquele que no seio lhe inoculara
tamanho desassossego, ímpetos tão desconhecidos e violentos,
superiores a todas as suas tentativas de resistência.
Cirino, rápido
como uma seta, rápido como aquela pedra arrojada tão vigorosamente,
achou-se ao pé da janela e cobriu de beijos as mãos da sua
amada.
-O grito? balbuciou
ela. Dois gritos... e a pedrada... Que foi?
-Ah! não foi
nada, respondeu apressadamente Cirino; foi ver no laranjal... era um macauã
O que pareceu pedrada era um noitibó que frechou para mim e veio
dar com a cabeça na parede.
-Deveras? perguntou
ela incrédula.
-Deveras. A principio
tomei também um grande susto. Depois, verifiquei que não
passava de miragem. De noite, a gente em tudo vê maravilhas... Para
mim, a única que vi era você, minha vida, meu anjo do céu...
Com este madrigal
encetou Cirino uma conversação como a da primeira noite,
como a que balbuciam duas cândidas almas na eterna e sempre nova
declaração de amor, desde que Adão e Eva a trocaram.
a sombra das maravilhosas árvores do Éden.
Mostrou-se o moço
receoso da rivalidade de Meyer. Riu-se ela e gracejou, com espírito
e bondade, da figura do estrangeiro. Com toda a confiança, chegou
a idear planos de risonho futuro:
-Agora, que sei o
que é amar, direi a meu pai que já não quero o Manecão,
..
- E se ele insistir?
- Hei de chorar ..
chorar muito...
- Lágrimas,
muitas vezes, de nada servem.
-Mas tenho cá
comigo outro recurso...
- Qual é ?
perguntou Cirino.
- Morrer! . . .
-Não! Há
outros... hei de dizer-lhe...
Tomou Inocência
ar grave e meio ofendido.
-Escute, Cirino, observou
ela, nestes dias tenho aprendido muita coisa. Andava neste mundo e dele
não conhecia maldade alguma... A paixão que tenho por mecê
foi como uma luz que faiscou cá dentro de mim. Agora começo
a enxergar melhor... Ninguém me disse nada; mas parece que a minha
alma acordou para me avisar do que é bom e do que é mau...
Sei que devo de ter medo de mecê porque pode botar-me a perder...
Não formo juízo como, mas á minha honra e a de toda
a minha família estão nas suas mãos...
Inocência quis
interromper Cirino.
-Deixe-me falar, deixe
contar-lhe o que me enche o peito... Depois ficarei sossegada... Sou filha
dos sertões; nunca morei em povoados, nunca li em livros, nem tive
quem me ensinasse coisa alguma... Se eu o magoar, desculpe, será
sem querer... Lembra-me que, há já um tempão, pararam
aqui umas mulheres com uns homens e eu perguntei a papal por que é
que ele não as mandava entrar cá para dentro, como é
de costume com famílias... O pai me respondeu: -Não, Nocência,,
são mulheres perdidas, de vida alegre. Fiquei muito assombrada.-Mas,
então, melhor, se são alegres hão de divertir-me.-Aquilo
6 gente airada, sem-vergonha, secundou ele. -Tive tanto dó delas
que mecê não imagina. Depois fui espiar.. caíam tontas
no chão... pitavam e cantavam muito alto com modos tão feios,
que me fizeram corar por elas! E são os homens que fazem ficar
ansim as coitadas!... Antes morrer... Parece-me que Nossa Senhora há
de ter pena dos que amam... mas desampara com certeza os que erram...
& não houver outro remédio, temos que nos lembrar que
as almas, quando se acaba tudo neste mundo, vão, pelos céus
cheios de estrelas, passeando como num jardim... Se eu me finasse e mecê
também, punha-se a minha alma a correr pelos ares, procurando a
de mecê procurando, procurando, e então nós dois juntinhos
íamos viajando ora para aqui, ora para ali, às vezes pelo
carreiro de São Tiago, as vezes baixando a este ermo a ver onde
é que botaram os nossos corpos... Não era tão bom?
Envolvida em sua pureza
como num manto de bronze, entregava-se Inocência com exaltamento
e sem reserva a força da paixão. E essa natureza pudica
e delicada a tal ponto dominava a Cirino que invencível acanhamento
o prendia ante a débil donzela, alheia a todos os mistérios
da existência.
Por isso, ao inflamado
mancebo não acudia a idéia de saltar por aquela janela e
menos a de praticar qualquer ação desrespeitoso. Consumia
o tempo em beijos nas mãos da namorada, em tagarelices de amor,
protestos, juras e ilusões de futuro.
-Amanhã, dizia
Cirino, hei de, com cuidado, assuntar a seu pai.. falando no seu casamento...
depois... hei de virar a conversa para mim...
-Papai, observou a
menina, é muito bom, muito mesmo. Mas tenho um medo dele! Tem um
gênio meu Deus!...
-Quanto a mim... hei
de falar bem claro e explícito... O que quero, é que você
me seja constante.
Mas do sentimento
de temor, que sobressaltava Inocência, também participava
Cirino. Por isso, chegado o dia, não ousava tocar na melindrosa
questão, bem que as continuas queixas de Pereira contra
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Meyer lhe dessem ensejo
mais ou menos favorável para desembaraçadamente encetá-la.
Com gosto adiava o momento decisivo e esperava perplexo qualquer incidente,
que melhor servisse a seus planos,
Entretanto, apesar
de se acumularem os dias sem que trouxessem modificações
naquele estado de coisas, doce esperança pairava no fundo do seu
coração, consentindo-lhe planos de venturoso porvir e feliz
desenlace às dúvidas e sofrimentos em que vivia.
XX-NOVAS HISTÓRIAS
DE MEYER
Disse-me Sancho:Cada
qual abra bem o olho e fique alerta, porque o diabo entrou na dança
e se lhe deram ensejo, ver-se-ão maravilhas. Virai-vos em mel,
e as moscas vos comerão
(Cervantes, D. Quixote,
Cap. XLIX).
Uma ocasião,
de volta do trabalho diário, atingiu a habitual irritação
Pereira contra Meyer grande intensidade. Entrara cabisbaixo, sorumbático
e fez gesto a Cirino de que precisava falar-lhe a sós. Dali a pouco,
saindo ambos, caminharam silenciosos pela estrada ate a um regato que
ficava a meio quarto de légua da casa.
-Que terá este
homem hoje? dizia Cirino consigo mesmo. Talvez vá chegando o momento
de tratar do assunto.
Voltou-se de repente
Pereira e, com voz alterada, prorrompeu em exclamações:
-Sabe, doutor, que
não posso mais aturar esse alamão?... Aquilo é um
mandingueiro, uma suçuarana, vinda do inferno para me botar a perder!...
Meu irmão... meu irmão, que presente me fez você!
. . .
-Mas, que houve? perguntou
Cirino.
-Olhe... se não
fosse aquela carta, e a palavra que dei ao maldito... mil raios o partam,
surucucu do diabo! potro melado!... já um bom balázio lhe
teria varado os miolos.
-Que novidades há
então, Sr. Pereira? tornou a inquirir Cirino.
-Vim mesmo ate aqui
para tirar este peso do coração...
-Mas...
-Sabe o senhor que
aquele Mochu é pior que um tigre preto?... Parece homem à-toa,
um punga, incapaz de matar uma pulga, não é?... Pois aquilo
é uma alma danada... um sedutor...
-Sempre as suas desconfianças!
observou Cirino.
-Desconfianças,
não: agora, certeza. Pois o que quer dizer o homem todo o dia...
estar a lembrar-se da menina..- Procurar trazê-la a conversa?-Como
está sua filha? pergunta-me ele sempre. -Esta boa, de uma vez para
todas. E ele, toda a vida a insistir... Isto me põe o sangue a
ferver, mas vou-lhe respondendo com bom modo... Hoje, saiu-se o cujo de
seus cuidados e disse-me como quem toma leite com farinha de milho: -Sua
filha vai casar?-Vai, respondi-lhe todo trombudo. - Com quem? Tive vontade
de lhe dizer: Não é da tua conta, seu bisbilhoteiro, seu
biltre, e atacar-lhe uma cabeçada, mas, como é meu hóspede,
secundei-lhe enfarruscado: com um homem do sertão que há
de amolar a faca na pele da barriga do mariola que vier mexer com a mulher
dele. O alamão não se deu por achado e, com todo o sem-vergonhismo,
me retrucou: Pois o senhor faz mal. A sua filha é muito mimosa
e deveria casar com alguém da cidade.-Então, perdi a paciência:
Mochu, lhe disse, cada um manda em sua casa como entende: eu na minha,
não quero ser anarquizado; ele, quando me viu fulo de raiva, pediu-me
mil desculpas, contou-me muitas histórias, isto, aquilo, aquilo
outro, et coetera e tal, que era para bem de minha filha e não
sei mais o que, numa língua que pouco entendi...
- Não fez bem,
atalhou Cirino.
-Boa dúvida!
Aquilo é uma alma danada... boa para as caldeiras de Pedro Botelho,
um judeu... enfim, um caçador de anicetos: está dito tudo!
. . . Mas ainda não lhe contei o mais. . . Parece que hoje estava
mesmo com o diabo no corpo... Meteu-se no mato perto da minha roca, onde
eu trabalhava com os meus cativos, e lá fazia um barulhão
a quebrar galhos e romper o cipoal como se fosse anta; de repente ouvi
uma gritaria muito grande; era o tal Meyer com o camarada José
Pinho a berrar como dois minhocões. Corri a ver o que era e os
achei muito contentes a olhar para uma barboleta grande já fincada
num pau de pita. 0 alamão pôs-se a pular como um cabrito.
-É novo, me
disse ele, é novo! -Novo o que, Mochu?-Este bicho, ninguém
o descobriu antes de mim! É coisa minha... Entendeu? E vou botar-lhe
o nome de sua filha!...
Quando ouvi aquilo,
fiquei tão passado, que não pude engolir o cuspo da boca...
Vejam só... o nome de Nocência numa bicharada!. Até
parece mangação... Agora, quero saber do doutor o que devo
fazer... Venho pelo menos desabafar... Não posso meter uma bala
naquele patife como bem merecia... mas também e demais tê-lo
em casa... é demais! Peço-lhe um conselho... Felizmente,
sempre o trago arredado de casa, e a menina de nada desconfia; do contrário
como mulher que é, havéra de me dar que fazer... Também
não sei por que é que o Manecão não chega...
só ele é quem havia de me livrar destes apuros... Uma vez
que o tal alamão visse a rapariga com o noivo, deixava-a sossegada...
Não acha? Olhe, palavra de honra, isto ansim não é
viver! Fui feito para dizer o que penso, tratar bem a todos. .. mas estes
modos que tenho agora, só Deus sabe quanto me custam... Até
o meu serviço vai sofrendo, porque muitas vezes largo a roga e
ponho-me a correr atrás dos bichinhos, só para não
deixar de olho o tal marreco, em lugar de feitorar o trabalho dos negros...
O meu fazendeiro é um diabo ruim e já velho... Ah! meu irmão,
que carga você me pôs em cima das costas! Eu então,
que não nasci para esconder o que sinto cá dentro!...
E Pereira, de tão
atribulado que trazia o espírito deixou-se cair num cômoro
de terra.
Cirino, defronte dele,
ficara de pé e pensativo.
Afinal, depois de
breve dúvida, decidiu tentar fortuna e encetar a grave questão
que lhe importava a felicidade.
-Sr. Pereira, disse
bastante comovido, acho que o alemão faz mal em andar batendo língua
em pessoa da sua família e dou razão às suas inquietações...
-Ah! vosmecê
é homem de confiança.
-Mas, continuou o
moço a custo e parando em cada palavra, penso que num ponto tem
ele alguma razão... É quando... lhe deu... conselho... que
o senhor não casasse sua filha... assim... sem perguntar a ela...
se... enfim não sei... mas talvez o Manecão lhe não
agrade...
Ergueu-se Pereira
de um pulo e, aproximando a face, repentinamente incendida de cólera,
junto ao rosto de Cirino:
-O quê? exclamou
com voz de trovão, eu... consultar minha filha? Pedir-lhe licença...
para casá-la?... O senhor está doido?... Ou está
mangando comigo... Ai... que também...
E vago lampejo de
desconfiança lhe iluminou a chamejante pupila.
Compreendeu logo Cirino
a perigosa situação e, sem demora, tratou de desfazer a
má impressão que produzira.
-Ah! disse com fingido
riso, é verdade... Isto são costumes da cidade... aqui,
no sertão, há outros modos de pensar... Desculpe-me, Sr.
Pereira, este Meyer é que está a contundir-me todas as idéias.
Pois eu julgo... já que pede a minha opinião, que o senhor
deve continuar a ter olho no estrangeiro... e eu hei de ajudá-lo,
quanto estiver nas minhas forças.
-Também agora,
disse o mineiro depois de ligeira pausa, não há de ser por
muito tempo... Há mais de um mês que ele aqui pára
e já me... contou que breve segue viagem para Camapuã....Desenganou-se
afinal... O tal meco não chegará ate lá... mas é
o mesmo. Um destes dias, leva por ai algum tiro para lhe botar juízo
na cachola, ou alguma facada que lhe ponha as tripas a mostra... Nem sempre
há de ter cartas de irmão para sair-se bem da rascada...
O diabo o leve para longe!... Voltemos, Sr. Cirino... Já demais
temos deixado o bicharoco sozinho,
E encaminhou-se para
a vivenda, acompanhado de Cirino. Ia este desalentado; na realidade, bem
rentes lhe ficavam cortadas as esperanças que o haviam animado
na tentativa de oposição ao projetado casamento da amada
com o terrível e fatal Manecão.
Ainda a meio do caminho,
voltou-se Pereira e disse-lhe peremptoriamente:
-Deveras, Sr.
Cirino, aquelas suas palavras me buliram com o sangue todo... Ainda
o sinto galopar nas veias... Que idéias estúrdias!...
Que lembrança! Ah... a tal vida das cidades... cruzes!
XXI-PAPILIO
INNOCENTIA
Considerai a arte
da composição das asas da borboleta: a regularidade da escamas,
cobrindo-as como se fosse penas; a variedade das cambiantes cores: a tromba
enrolada, com que suga o alimento no seio das flores : as antenas, órgãos
delicados do tato, que lhe coroam a cabeça, cercada de uma rede
admirável de mais de mil e duzentos olhos...
(Bernadin de Saint-Pierre.
de Saint-Pierre, Harmonias d. Natureza).
Meyer, que estava
sentado na soleira da porta com as compridas pernas encolhidas, ergueu-se
precipitadamente ao avistar Cirino e correu ao seu encontro.
Trazia o coração
no rosto, um coração cheio de alegria e triunfo.
-Oh! Sr. doutor, exclamou.
todo risonho, venha, venha ver uma preciosidade. .. uma descoberta. ..
espécie nova. :. não há em parte alguma... Ouviu?
Coisa assim vale um tesouro... E fui eu que o descobri!... Nem sequer
Juque me ajudou... pois estava deitado e dormindo... Não é
verdade, Sr. Pereira?
-Veja, murmurava o
mineiro, que barulhada faz ele com o tal aniceto... Ao menos, se fosse
um animal grande!
-E uma espécie...
nova... completamente nova! Mas já tem nome... Batizei-a logo...
Vou-lhe mostrar... Espere um instante...
E, entrando na sara,
voltou sem demora com uma caixinha quadrada de folha-de-flandres, que
trazia com toda a reverencia e cujo tampo abriu cuidadosamente.
Da própria
garganta saiu um grito de admiração, que Cirino acompanhou,
embora com menos entusiasmo.
Pregada em larga tábua
de pita, via-se formosa e grande borboleta, com asas meio abertas, como
que disposta a tomar vôo.
Eram essas asas de
maravilhoso colorido; as superiores, do branco mais puro e luzidio; as
de baixo, de um azul metálico de brilho vivíssimo.
Dir-se-ia a combinação
aprimorada dos dois mais belos lepidópteros das matas virgens do
Rio de Janeiro, Laertes e Adônis, estes, azuis como cerúleo
cantinho do céu, aqueles, alvinitentes como pétalas de magnólia
recém-desabrochada.
Era sem contestação
lindíssimo espécime, verdadeiro capricho da esplêndida
natureza daqueles paramos. Também Meyer não tinha mão
em si de contente.
-Este inseto, prelecionou
ele como se o ouvissem dois profissionais na matéria, pertence
à falange das Helicônicas. Denominei-a logo, Papilio Innocentia,
em honra à filha do Sr. Pereira, de quem tenho recebido tão
bom tratamento. Tributo todo o respeito ao grande sábio Linneu
-e Meyer levou a mão ao chápeu-mas mas a sua classificação
já está um pouco velha. A classe e, pois, Diurna; a falange,
Helicônia; o gênero Papilio e a espécie, Innocentia,
espécie minha e cuja glória ninguém mais me pode
tirar... Daqui vou, hoje mesmo, oficiar ao secretário perpétuo
da Sociedade Entomológica de Magdeburgo, participando-lhe fato
tão importante para mim e para a sábia Germânia.
Dizia Meyer tudo isto
com legítima ufania e lentidão dogmática.
Depois, com mais volubilidade,
e apesar de tropeçar amiudadas vezes em palavras, o que, para comodidade
dos leitores, temos quase sempre deixado de indicar, continuou:
-Reparem, meus senhores,
neste lepidóptero com os olhos cuidadosos da ciência. Tem
quatro pés caminhantes: as antenas de terminação
comprida e oval, cavada em forma de colher; os palpares maiores do que
a cabeça e escamosos; tromba toda branca e lábio quase nulo.
Não perdi nem sequer um pouco do seu pó, porque o pó,
um só grão de pó, vale tanto como uma pena de pássaro,
e a comparação é perfeita, visto como cada uma destas
escamas, à semelhança das penas, é atravessada por
uma traquéia, por onde circula o ar. Oh! que achado! prosseguiu
ele. Que triunfo para mim! A Sociedade Entomológica de Magdeburgo
há de ficar muito orgulhosa... Sem dúvida alguma farão
uma sessão solene, extraordinária. Mein Gott!... Estou que
não posso de alegria... Também, daqui a três ou quatro
dias, vou-me embora desta casa... ainda que cheio de saudades. . .
Deveras? atalhou Pereira,
vai partir?
-Sim, senhor. O meu
itinerário é para Camapuã; depois. vou a Miranda
e talvez Niac... Hei de subir até ao Coxim e ai, ou embarco para
Cuiabá no Rio Taquari, ou sigo por terra pelo Pequiri.
-E o senhor volta
para sua pátria?
-Boa dúvida!...
Daqui a ano e meio, pretendo apresentar a minha coleção
toda arranjada à Sociedade Entomológica...
-Homem, observou Pereira
com intenção que seu hóspede não podia nem
de leve perceber, eu quisera já estar nesse dia. Daqui a ano e
meio, que voltas terá dado o mundo?...
-Terá percorrido,
respondeu Meyer gravemente, dezoito signos do Zodíaco
-Pois bem, eu queria
ver isso... Já me tarda esse dia.
-Quando ele chegar,
continuou o alemão com sinceridade e um tanto comovido, hei de
lembrar-me com gratidão do tratamento que recebi... nos sertões
do Império... e hei de dizer... bem alto... que os brasileiros:..
são felizes porque são morigerados e têm muito boa
Índole hospitaleiros como ninguém.
-Acrescente, interrompeu
Pereira com algum azedume, que zelam com todo o cuidado a honra de suas
famílias.
Obedeceu docilmente
Meyer e repetiu palavra por palavra.
-E zelam com todo
o cuidado a honra de suas famílias.
-Multo bem, replicou
o mineiro, diga isso, e o Sr. terá dito uma verdade.
XXII - MEYER PARTE
Adeus, pois amigos
bela companhia! Aos lares distantes cada qual de nós, por caminhos
diversos. deve um dia chegar.
(Catulo, Epigrama
XLVI)
Não haviam
descontinuado as visitas feitas a Cirino por enfermos de muitas léguas
em torno. Tão freqüentes e teimosos eram os casos de sezões
ou maleitas que a porção de sulfato de quinina que trouxera
em suas canastras estava toda esgotada, pelo que se vira levado a substituir
esse medicamento sem tanta confiança, porém, por plantas
verdes do campo ou ervas secas, fornecidas por uns bolivianos que encontrara
em Minas, vindos de Santa Cruz de ia Sierra em peregrinarão pelo
interior do Brasil e a tratarem de doentes, sem Chernoviz em punho, nem
aqueles resquícios de conhecimentos terapêuticos que ostentava
o nosso doutor.
Entre os enfermos
que o vinham diariamente procurar, alguns acusavam moléstias cujas
qualificações eram complicadas e estrambóticas; assim
declaravam-se salteados de engasgue, espinhela caída, mal de encalhe,
tosse de cachorro, feridas brabas, almorreimas, eripelas, até assombração
e mau-olhado.
Quem se queixava de
engasgues era o capataz de uma fazenda minada do Vau, distante umas boas
cinqüenta léguas.
-Sr. doutor, disse
c enfermo, a minha vida é um continuo lidar de sofrimentos. Estou
com este mal vai fazer cinco anos no São João por sinal
que me veio com uma grande dor na boca do estómbago. Vezes há
que não posso engolir nada, sem beber muitos galos de água,
de maneira que me encharco todo e fico que mal me mexo de um lugar para
outro.
-E a dor, perguntou
Cirino, ainda a sente?
- Toda a vida, respondeu
o capataz... O que me aflege mais é que há comidas então
que não me passam a goela... É um fastio dos meus pecados...
Boto uns pedacinhos no bucho e parece-me que dentro tenho um bolo que
me está a subir e descer pela garganta...
Receitou o médico
umas doses de erva-de-marinheiro como emético, e fez mais algumas
prescrições que o enfermo ouviu com toda a religiosidade.
No estado de perturbação
moral em que se achava o jovem facultativo, natural e que fosse uma coisa
por outra; mais importante porém, era a fé que suas indicações
incutiam a fé, essa alavanca poderosa da medicina, esse contingente
precioso que o espírito ministra aos ingentes esforços da
natureza na sua constante lota contra os princípios mórbidos.
O doente de espinhela
caída acusava um peso muito forte e perene no peito e a impossibilidade
de levantar as mãos juntas a mesma altura.
Prescreveu-lhe Cirino
amargo do campo, genciana e quina, e ordenou-lhe certas cautelas firmadas
na voz geral, mas com. algum fundo de razão; verbi c rata. engolir
sempre a saliva e sobretudo deixar de fumar depois de comer.
O infeliz moço,
ao passo que tratava de curar os outros, mais que ninguém precisava
de quem nele cuidasse, pelo menos da alma.
Via não só
Meyer fazendo os seus preparativos de partida, e em véspera de
deixá-lo a sós com Pereira, podendo este descobrir afinal
o engano em que havia laborado, como também a clínica quase
esgotada, aconselhando-lhe a conveniência de transportar-se para
outro ponto e continuar a interrompida jornada.
Tudo isto, e o amor
a aumentar, a tirar-lhe todo o sossego, a consumi-lo a fogo lento...
Meyer, na realidade,
desde o achado da sua magnífica borboleta. não pensava senão
em partir
-Oh! dizia ele, eu
quisera estar já em Magdeburgo... Quantas léguas, Mein Gott!...
Papilio Innocentia... a minha glória! Que diz, Sr. Cirino?...
-E verdade... mas
quem sabe se o senhor não deveria ficar mais tempo aqui?... Talvez
achasse outra borboleta nova...
-Não, é
impossível... Era felicidade demais... Além disso, o dinheiro
não me havia de chegar.
-Oh! posso emprestar-lhe....
-Muito obrigado...
mas é de todo Impossível a minha estada aqui... Veja o senhor:
tenho ainda que ir a Camapuã, a Miranda, a Cuiabá para então
voltar... E só me restam poucos meses... A Sociedade Entomológica
de Magdeburgo conta comigo na primavera do ano que vem...
Metida uma vez essa
idéia na cabeça, Meyer não deixou mais de falar na
sua viagem um só instante e, para que a execução
correspondesse ao prometido, mandou na tarde seguinte, José Pinho,
o camarada, alçar cargas às costas do burro, depois de as
ter, ele próprio, arranjado e revistado com toda a cautela.
Julgou o carioca nesse
momento dever lavrar um protesto:
-Mochu, disse ele,
vai recomeçar com o seu modo de andar por essas estradas à
noite.. Afinal havemos todos de cair nalguma buraqueira, eu, o senhor,
o barro de carga e os bichos; e não chegaremos, nem eu ao Rio de
Janeiro, nem eles e o senhor à sua terra. Enfim, já estou
cansado de o avisar.
No momento da partida,
apresentava o naturalista aquele mesmo aspecto da célebre noite
da chegada; eram aquelas mesmas frasqueiras a tiracolo, aquele mesmo ar
tranqüilo e bonachão com que viera, fora de horas, pedir pousada
a casa de Pereira.
Este, ao ver o hóspede
a cavalo e prestes a deixar para sempre a sua morada, sentiu-se possuído
de alegria, mesclada, sem saber por que, com surpresa repentina e intima,
de tal ou qual comoção. No fundo, achou de si para si as
desconfianças mal empregadas, e deixou-se levar pela simpatia que
em todos incutia o caráter naturalmente inofensivo e meigo do saxônio.
-Chegou, declarou
Meyer, a hora da minha despedida.
E, sacudindo com força
a mão e o braço do mineiro:
-Sr. Pereira, meu amigo, adeus!... nunca mais nos havemos de ver... mas
hei de lembrar-me do senhor toda a vida... Quando eu estiver na minha
pátria, daqui a miihares e milhares de léguas... pelo pensamento
recordarei os dias felizes... que aqui passei.
-Oh! Sr. Meyer, balbuciou
Pereira.
-Sim, felizes, continuou
Meyer com muita lentidão, felizes porque correram... sem eu perceber
que o tempo estava caminhando... De todo o Brasil fica em mim a lembrança...
mas desta sua casa... essa lembrança é mais viva e mais
forte.
Acompanhara o alemão o seu pensamento com acentuado gesto, acenando
com o punho fechado para mostrar a lealdade daquelas impressões.
Voltando-se para Cirino,
acrescentou:
-Sr. doutor, as suas
receitas estão todas marcadas no meu caderno... O senhor pode enganar-se
às vezes... mas as suas intenções são sempre
boas... e isso basta para desculpá-lo... Eu...
Interrompendo o que
ia dizendo, ficou instantes a olhar para Cirino e Pereira, que estavam
igualmente silenciosos, e uma lágrima comprida deslizou-se-lhe
pela face, sem que a fisionomia mostrasse a menor alteração.
-Adeus! concluiu ele
de repente.
-Boa viagem, Sr. Meyer,
boa viagem, disse Pereira ajudando-o a montar a cavalo.
-Adeus! adeus... repetiu
ele...
E interpelando o camarada:
-Juque, vá
na frente!... Toque pouco no burrinho... Nosso pouso é daqui a
meia légua...
Deu Meyer então
de rédeas e caminhou a passo, logo após de José Pinho,
este munido de cabeçudo cacete, evidentemente hostil as costas
do cargueiro entregue aos seus cuidados.
-Lá vai o homem,
exclamou Pereira ao ver a tropinha pelas costas. E um alivio... Ele, coitado,
não era mau... mas não tinha modos... Safa, hei de me lembrar
para sempre do tal Sr. Meyer! Foi uma campanha.. Ué... Olhe, Sr.
Cirino... não está ele de volta?... Teria esquecido alguma
bugigangas
Com efeito reaparecia
a trote o alemão em carne e osso, como quem vinha procurar ou dizer
coisa de importância.
-Então que
tem? perguntou Pereira adiantando-se e alçando a voz. Deixou algum
trem? Daqui a pouco é escurão.
Meyer, no entanto,
ia chegando e de certa distancia entrou a explicar a rasão da volta:
-Não deixei
coisa alguma, Sr. Pereira. Tão-somente faltei a um dever.
-Qual é? indagou
o mineiro.
-Não me despedi
de sua filha...
-Ah! replicou Pereira
com vivacidade... não era preciso... tanto mais que ela... está
dormindo... meio adoentado... Há pouco tinha muito peso na cabeça...
Eu lhe hei de dizer... Não se incomode . . .
-Pois então,
observou Meyer com muita gravidade, diga-lhe que tem em mim um criado,
em toda a parte onde esteja... O seu nome ficou para sempre na ciência
e a estima em que a tenho é grande... E uma moça muito bela...
digna de ser vista na Europa...
-Pois não, pois não, interrompeu Pereira, vá sem
susto...
-Sim, eu me vou, adeus!
-Vá indo...
olhe que o Sol dobra de repente aquele mato e a noite cai logo...
-Sim, sim, adeus,
disse ele despedindo-se de uma vez.
E na estrada areenta,
à luz do astro que descambava, foi-se tornando comprida a mais
e mais a sombra do bom Meyer, à medida que ele marchava atrás
do seu camarada, do cargueiro e da coleção entomológica.