Inocência
Visconde de Taunay
XIII-DESCONFIANÇAS
Muitas vezes, somos
iludidos pela confiança: mas a desconfiança faz que sejamos
por nós mesmos enganados.
(Príncipe de
Ligne)
Quando o nosso saxônio
entrou na sala em que estavam as suas cargas, vinha tão contente
do agasalho recebido, da firmeza do tempo, das futuras caçadas
de borboletas, que despertou a atenção do seu camarada José.
Estava este encostado
a uma canastra, a esgaravatar, de faca comprida em punho, a planta dos
pés, verificando se alguma pedrinha da estrada não se havia
incrustado na grossa e já insensível sola.
-Homem, disse ele
com familiaridade, Mochu está hoje muito alegre . . . Viu passarinho
verde ?
-Passarinho verde?
perguntou Meyer. Que é isso? Não vi passarinho nenhum...
Vi uma moça muito bonita...
-Olé... melhor
ainda... Conte-me isso... e quem é ela.
-E a filha cá
do Sr. Pereira.
-Parabéns!
parabéns! exclamou José com toda a indiscrição.
Moça bonita é fruta rara por estas matarias e brenhas do
inferno... Quanto a mim, ainda não botei o olho senão em
velhas corcorócas e serpentões... Outra coisa é no
Rio... Não se lembra Mochu, da procissão de São Jorge?...
Aí é que sai à rua uma tafularia de deixar a gente
tonta de uma vez, de queixo caído. Umas tão alvas!... Outras
cor de café com leite... crioulas chibantes.
-Juque, repreendeu
o alemão revestindo-se de ar severo, não tome confiança
com gente que não 6 da sua classe...
-Mas eu não
disse nada de mau, Mochu, desculpou-se o criado recolhendo-se meio enfiado
ao silencio e voltando ao exame dos pés.
Quem estava em cima de um braseiro, era Pereira. Decididamente, aquele
hóspede o punha a perder, proclamando assim com a trombeta da fama
que vira Inocência e com ela conversara, que a achava do seu gosto...
uma rapariga já noiva! Quantas incongruências, que perigos,
ó Santos do Paraíso!
Tornava-se caso de
muita prudência. Qualquer passo menos pensado acarretaria conseqüências
irremediáveis,
Necessário
e penetrar-se a força dos sentimentos que sobressaltavam o mineiro,
para bem aquilatar os transes por que passava e achar natural que seguisse
uma linha de proceder toda de duvida e vacilações.
Se, de um lado, criava
involuntária admiração por Meyer e, rodeando-o, em
sua imaginação, do prestigio de uma beleza irresistível,
via aumentar o seu receio em abrigar tão perigoso sedutor; do outro,
sentia as mãos presas pelas obrigações imperiosas
da hospitalidade, a qual, com a recomendação expressa de
seu irmão mais velho, assumia caráter quase sagrado. Juntem-se
a isto os preconceitos sobre o recato doméstico, a responsabilidade
de vedar o santuário da família aos olhos de todos, o amor
extremoso à filha, em quem não depositava, contudo, como
mulher que era, confiança alguma, as suposições logo
ideadas acerca da impressão que naturalmente aquele estrangeiro
produzira no coração da sua Inocência, já quase
pertencendo ela a outrem, e as colisões que previu para manter
inabalável a sua palavra de honra, palavra dada em dois sentidos
agora antagônicos-um mundo enfim de cogitações e de
terrores. E tudo isto revolvendo-se na cabeça de Pereira, refletia-se
com sombrios traços de inquietação em seu rosto habitualmente
tão jovial.
-Por que razão
é, perguntou ele a José Pinho para desviar aquela conversa
que tanto o magoava, que vosmecê chama Mochu ao Sr. Meyer?
Sorriu-se o carioca
com ar de superioridade e respondeu desembaraçadamente:
-Ah! E um modo de
falar...
-Como assim?
-Já lhe ponho
tudo em pratos limpos... Vosmecê não lhe chama Sr.?
-Chamo.
-Pois, então?...
Eu também lhe chamo assim... mas falo em francês, Mochu quer
dizer senhor, nessa língua.
-Ah! replicou Pereira
dando-se por convencido, então e isso? Pensei que fosse outra coisa...
-Juque; avisou Meyer
que estava a remexer nas canastras, prepare tudo; nós vamos ao
mato agora mesmo...
-Venha comigo, propôs
o mineiro com voz insinuante. Eu lhe apontarei lugares onde há
dessa bicharia miúda, coisa nunca vista.
-Com muito gosto,
concordou o alemão.
E voltando-se para
o camarada:
-Ande, Juque, ordenou
ele, bote a pita para fora, caixas de folha-de-flandres, clorofórmio,
rede pronta... Depressa homem, depressa!
José Pinho,
instigado por estas palavras, entrou a voltear de um lado para o outro,
como que atarantado com o excesso de serviço.
-Minhas lentes, pediu
o naturalista, o saco para os bichos de casca grossa... Depressa... Vou
ajudá-lo.
E, por seu turno,
começou a tirar das canastras os objetos de que necessitava, enfiando
a tiracolo dois ou três talabartes finos que sustentavam umas caixinhas
encouradas. Numa delas, havia um copo de prata com a competente corrente
noutra, um faqueiro de peças dobradiças e de metal do príncipe.
Também assentou ao flanco uma frasqueira defendida de choques externos
por fino trançado de vime e que continha aguardente, comprada de
fresco na Vila de Sant'Ana do Paranaíba.
Não contente
com o peso de todos esses apêndices à sua pessoa, fingiu
largo talim com uma espécie de patrona de folha-de-flandres e que
sustentava um grande facão inglês, um revólver e uma
espada de caça.
Depois de ter vagarosamente arranjado sobre si cada uma destas peças
com grande espanto de Pereira e até de Cirino, substituiu Meyer
os óculos habituais por outros, de vidros afumados, multo grandes
e convexos, destinados a proteger-lhe amplamente os olhos dos ardores
do Sol. Muniu-se, além disso, de outro singular meio de preservação:
uma rodela ampla de pano branco forrado de verde que aumentava as abas
do chapéu-do-chile, descansando em parte sobre elas.
Com esse trajo ficou
decerto a mais estapafúrdia figura que algum cristão encontrar
poderia naquelas trezentas léguas em derredor; entretanto, Pereira,
ofendido com aqueles cuidados de prevenção meramente científica,
que lá no seu bestunto qualificava de faceirice feminil:
-Veja só, disse
ele para Cirino, como este maricas gosta de se enfeitar!... Você
não me engana, não, Sr. alamão das dúzias...
Mirava-se nesse momento
o naturalista, para verificar se lhe faltava alguma coisa.
-Estou pronto, exclamou
afinal, e muito desejoso de entrar no mato.
-Ponham-te a tinir
os carrapatos, resmoneou Pereira.
-Ah! disse Meyer,
e as minhas luvas?... Juque, procure na canastra nº 2, à esquerda,
no segundo canto.
Sacou o camarada umas
grandes lavas de lã, brancas, muito largas, já usadas e
sujas, nas quais o alemão enfiou de um jacto as mãos espalmadas.
-Agora, sim! anunciou
ele com satisfação.
E, dando um sonoro
e prolongado hum! empunhou a rede de apanhar borboletas.
Depois, levando um
dedo à testa:
-Ah! exclamou, e o
vinho! Não me ia esquecendo?... O vinho para sua filha, Sr. Pereira,
sua linda filha.
Encolheu o mineiro
com furor os ombros e disse em parte a Cirino:
-Fez-se de esquecido
só para falar na menina... Veja bem. Este calunga não me
bota areia nos olhos.
E acrescentou alto,
recebendo a garrafa que o camarada José Pinho tirara de uma das
canastras:
-Agradeço o
seu presente, Sr. Meyer, mas se... lhe faz a menor falta .. a menina há
de curar-se sem isto...
- Não, não,
não, não, respondeu o saxônio com uma série
de negativas que pareciam não dever ter fim.
-Neste mundo, rosnou
Pereira mais para si do que para ser ouvido, ninguém mete prego
sem estopa; mas com sertanejos... não se brinca.
Cirino tomara a garrafa.
-Isto, afirmou ele,
acaba com certeza a cura.
E, esquivando-se de
pronunciar o nome e a qualidade da pessoa de quem estava tratando:
-Ela há de
ter hoje algum apetite e poderá levantar-se um pouco, pois já
tomou o seu caldinho.
-Então, ao
meio-dia, recomendou Pereira muito baixinho a Cirino, vosmecê mande
chamar a nossa doente e dê-lhe a mezinha. Ouviu? Já avisei
lá dentro...
Cirino abanou a cabeça,
tomando ar misterioso.
-Eu por mim estarei
de olho vivo no bichão... Parece-me suçuarana à espreita
de veadinhas campeiras... Não terá este vinho algum feitiço?
Contestou o outro
com energia tal possibilidade.
-Eu sei lá,
insistiu Pereira. Estes namoradores são capazes de muita coisa...
Nunca ouviu contar histórias de pirlas e beberagens.. hem? diga-me,
nunca?
-Sossegue, Sr. Pereira,
acudiu Cirino, hei de examinar o liquido... tenho certeza de que não
haverá novidade.
-Muito que bem ..
Então, ao meio-dia em ponto... chame a Maria Conga ou o Tico. Nocência
há de arrastar-se até cá... e o doutor lhe dará
a dose...
-Ela sair já?
objetou Cirino com admiração. Não, senhor; em tal
não consinto... Irei dar-lhe o remédio... Não me
custa nada...
Pereira ficara meio
perplexo.
-Não sei...
E com súbita
resolução:
-Pois bem, virei da
roga até cá... Se eu não aparecer, então o
Sr. dê um pulo e faça-lhe tomar a poção...
Quanto a este alamão melado, levo-o para longe e não o trago
senão bem tarde e tão moído do passeio que só
há de pensar em dormir.
Com Pereira se dava
um fato natural e comezinho nas singularidades do mundo moral.
A medida que as suspeitas
sobre as intenções do inocente Meyer iam tomando vulto exagerado,
nascia ilimitada confiança naquele outro homem que lhe era também
desconhecido e que a princípio lhe causara tanta prevenção
quanto o segundo.
E que as dificuldades
e colisões da vida, quando se agravam, tão fundo nos incutem
a necessidade do apoio, das simpatias e dos conselhos de outrem, que qualquer
aliado nos serve, embora de muito mais proveito fora bem pensada reserva
e menos confiança em auxiliares de ocasião.
XIV-REALIDADE
Cordélia.-Há
de o tempo desvendar o que hoje esconde a discreta hipocrisia.
(Shakespeare, O Rei
Lear, Ato I).
Depois que Cirino
viu sumir-se Pereira com os dois companheiros além do laranjal
da casa, seguindo em direção à roça por uma
vereda pedregosa e cheia de seixos rolados, nos quais iam as patas dos
animais batendo; depois que teve certeza de que ficara só naquela
vivenda, entrou em grande agitação.
Ora, passeava pelo
quarto rápida e inquietantemente; ora, media-o com passo lento
em muitas direções; ora, enfim, saia para o terreiro e ali,
com a cabeça descoberta, ficava a olhar atentamente para diversos
lados, abrigando com a mão aberta os olhos, dos vivíssimos
raios do sol.
Prometia o dia ser
muito cálido. Por toda a parte chiavam as estrídulas cigarras,
e ao longe se ouvia o metálico cacarejar das seriemas nos campos.
Às vezes, encarava
Cirino o Sol; depois tapava os olhos deslumbrados e, tomado de vertigem,
voltava para a sala, onde recomeçava os seus passeios.
Por que, porém,
não descansava o mancebo?
Entrando familiarmente
pela sala adentro, os bacorinhos se haviam abrigado dos ardores do dia
e, deitados debaixo de uns jiraus, ressonavam, presa de gostoso sono.
Tudo quanto vivia
apetecia a sombra e o repouso. Fora, o Sol reverberava violento em seus
fulgores, e as sombras das arvores iam cada vez mais diminuindo. Até
uma égua com o esguio e peludo poldrinho deixara o distante pasto
e viera abrigar-se, à proteção da casa, junto à
qual parara já meio a cochilar.
A enervadora ação
do calor estival, juntavam sua influência as monótonas modulações
de umas chulas e modinhas, cantadas ao som da viola de três cordas
pelos camaradas de Cirino, acomodados no rancho junto ao paiol de milho.
A tudo, entretanto,
resistia o jovem, e com ascendente desassossego consultava o seu relógio
de prata, tirando-o cada instante do bolso.
Passaram-se segundos,
minutos e horas. Afinal soltou ele um suspiro de alivio:
-Meio-dia!,.. Cuidei
que nunca havia de chegar!...
Saindo todo animado
para o terreiro, chamou com voz forte:
-Maria... O Maria
Conga!...
Ninguém lhe
respondeu. Só do lado da cozinha ladraram uns cães.
Depois de esperar
algum tempo, rodeou Cirino toda a casa, como fizera com Pereira e, encostando-se
à cerca que impedia a aproximação do lanço
dos fundos, tornou a chamar:
-Ó Maria?...
Maria!... Está dormindo, minha velha?
Vendo que os gritos
ficavam sem resposta, saltou então o cercado e foi caminhando para
a porta da cozinha, devagar, porém, e como que a medo.
-Ó Maria?!...
Minha tia!... Olá! Ó de casa! chamava ele.
Afinal apareceu não
a velha escrava, mas o anão Tiro, que pareceu, com imperioso movimento
de cabeça, indagar a causa daquele intempestivo alarma.
-Que é da Maria
Conga? perguntou Cirino chegando-se a ele.
Por meio de moderada
gesticulação, mas muito expressivamente, deu Tico a entender
que a preta fora ao córrego lavar roupa.
-E não há
mais ninguém em casa? inquiriu o outro.
Mostrou o anão,
com singular expressão de orgulho e despeito, que ali estava .
ele e deitou um olhar de cólera para o imprudente curioso.
-Bem, replicou Cirino
sorrindo-se, vá você então dizer à sinhá
dona, que já chegou a hora de tomar o remédio. Trago o vinho,
e é preciso quanto antes preparar café.
Desapareceu Tico,
fazendo um aceno ao intitulado medico para que esperasse fora.
-Ora, exclamou este
com aborrecimento e tom de chacota, aqui ao Sol?... Não está
má esta!. .. E tal o mestre nanica?. . .
Sem mais cerimônia
entrou, pois, na casa, penetrando no quarto que ficava entre a cozinha,
teatro da atividade de Maria Conga e a sala de jantar, onde se dera a
apresentação de Meyer a Inocência.
Daí a pouco,
ouviu passos arrastados e aos seus olhos mostrou-se Inocência embrulhada
em uma grande manta de algodão de Minas, de variegadas cores, e
com os longos e formosos cabelos caídos e puxados todos para trás.
Os grandes e aveludados olhos orlados de fundas olheiras, e o quebrantamento
do semblante, muita fraqueza denunciavam ainda; entretanto, as cetinosas
faces como que se apressavam a tomar cores, à semelhança
de rosas impacientes de desabrochar e expandir-se vivazes e alegres. Ao
chegar à porta, não a tranpôs; mas encostando-se à
grossa trave que fazia de umbral, ali ficou parada, indecisa, com o olhar
turbado e esquivo.
- Ao vê-la,
deu Cirino com timidez alguns passos ao seu encontro; depois, por seu
turno estacou junto a uma cadeira de comprido espaldar, antigo e sólido
traste trazido por Pereira da sua casa de Piumi.
Após longa
pausa, em que por vezes se cruzaram incertos os olhares perguntou com
esforço:
-Então... minha
senhora... como está?... Sente-se melhor?
-Melhor, obrigada,
respondeu Inocência com voz aflautada e muito trêmula.
-Comeu já alguma
coisa?
-Nhor-sim... uma asa
de frango, mas com... bastante vontade.
-Sente o corpo abatido?
- A canseira está
passando... ontem muito mais...
A pouco e pouco, fora
Cirino recuperando o sangue frio e se aproximando da moça, que
mais se apegou à umbreira, como que a procurar abrigo e proteção.
De um lado da porta
ficou ela: do outro Cirino, ambos tão enleados e cheios de sobressalto
que davam razão às olhadas de espanto com que os encarava
Tico, empertigado bem defronte dos dois em suas encurvadas perninhas.
-Pois chegou a hora
de tomar o remédio...
-Já, seu doutor?
implorou Inocência.
-Nhã-sim.
-Eu não tenho
mais nada...
-É para cortar
de uma vez as sezões... Olhe, se elas voltassem... era um grande
desgosto para mim...
-Mas é tão
mau, objetou ela.
- Não é
bom deveras... mas bem melhor é voltar à saúde...
Com um bocadinho de
coragem, a gente engole tudo sem muito custo... Já que lhe amarga
tanto... beberei também um pouco...
-Oh! não! protestou
Inocência.
-É: para lhe
mostrar... que quero sentir... o que mecê sente.
Fez-se a menina da
cor da pitanga, levantou uns olhos surpresos e voltou logo o rosto para
fugir dos olhares ardentes de Cirino.
-A mezinha? pediu
ela por fim toda comovida.
-Ah! é verdade!
exclamou Cirino. Ande, Tico: vá buscar café a cozinha. Lave
bem um pires... percebeu?
O anão fitou
o moço com altivez e não se mexeu.
-Você é
surdo?
-Não, respondeu
Inocência. Tico, às vezes, por manha é que se faz
ansim de mouco.
Voltando-se então
para o homúnculo, insistiu com voz meiga e carinhosa:
-Vai, Tico; é
para mim, ouviu?
Transformou-se repentinamente
a fisionomia do anão. Pairou-lhe nos lábios inefável
sorriso, meneou a cabeça duas ou três vezes com a força
de uma afirmação, mas, colérico, enrugou a testa
e moveu olhos inquietos e duvidosos.
Inocência teve
que repetir o recado.
-Já lhe disse, Tico: vai buscar o café.
A esta quase ordem
não ousou ele resistir mas saiu devagarzinho, voltando-se várias
vezes antes de entrar na cozinha, onde muito pouco se demorou.
Neste entrementes
tomara Cirino o pulso de Inocência e, sem pensar no que fazia, quebrando
a débil resistência da menina, cobrira-lhe de beijos o braço
e a mãozinha que havia segurado.
-Meu Deus! balbuciou
ela, que é isto?... Olhe, aí vem Tico.
Recuou então
o mancebo e, para melhor disfarçar a comoção adiantou-se
para o anão que vinha trazendo na mão direita uma vasilha
de folha-de-flandres, e na outra um pires com colher.
-Muito bem, disse
ele, ponha tudo em cima da mesa.
E preparando rapidamente
o medicamento apresentou-o a Inocência. que sem hesitação
o sorveu todo.
-Deixe-me um pouco,
exorou com ternura Cirino, um pouco só... Se é tão
mau... sofra eu também.
-Não, respondeu
ela com alguma energia, por que havéra de mecê sofrer?
E, ou por efeito do
inexprimível e desconhecido abalo que experimentara no estado de
debilidade a que chegara, ou por ser aquela a hora em que costumava a
febre salteá-la, o certo é que teve de encostar-se ou melhor,
agarrar-se ao umbral para não cair a fio comprido no chão.
-Oh! exclamou com
angústia Cirino, a senhora vai desmaiar.
Transpondo então
o limiar da porta, tomou nos braços a pálida donzela, sem
relutância encostou a desfalecida cabeça ao seu ombro e,
com o hálito ofegante, aos poucos lhe foi fazendo voltar às
faces o precioso sangue.
-Estou melhor, balbuciou
ela procurando afastar a cabeça de Cirino.
-Não faça
de forte à toa, acudiu este. Vamos ate aquela cadeira.
E, com toda a lentidão
e cuidado, foi levando a convalescente até sentá-la, desembaraçando-a,
depois, dos muitos cabelos que, todos revoltos, lhe haviam invadido o
colo e se esparziam sobre o rosto.
-Quanto cabelo! exclamou
Cirino meio risonho.
Com muita atenção
seguira Tico as peripécias de toda aquela cena. Ao ver Inocência
perder quase os sentidos, soltou um grito surdo de desespero; depois,
foi seguindo-a até a cadeira e, ajoelhado diante dela, contemplou-a
com inquietação.
Cirino quis aproveitar
a ocasião para um. congraçamento.
-Então está
com cuidado, Sr. Tico?... Não é nada... sua ama fica boa
logo... Não é o que você quer?
Ao ouvir esta interpelação,
levantou-se o anão e correspondeu ao simpático anúncio
do moço com um olhar de desprezo e pouco caso, como que a dizer:
-Não se meta
comigo, que não quero graças com você, médico
de arribação!
-Agora, disse Cirino
voltando-se para Inocência, vai mecê beber dois goles deste
vinho .. Vera logo, que sustância há de sentir dentro do
corpo.
Desarrolhou então,
com a ponta da comprida faca que tirou do cinto, a garrafa de vinho oferecida
por Meyer, e num caneco de lousa branca apresentou à moça
um pouco do ruborante líquido.
Molhou a doentinha
os lábios e gratificou o obsequioso mancebo com um sorriso encantador.
Decididamente lhe
agradava aquele medico: curava do seu corpo enfermo e entendia-lhe com
a alma. Raros homens que não seu pai e Manecão, além
de pretos velhos, tinha até então visto; mas a ela, tão
ignorante das coisas e do mundo, parecia-lhe que ente algum nem de longe
poderia ser comparado em elegância e beleza a esse que lhe ficava
agora em frente. Depois, que cadela misteriosa de simpatia a ia prendendo
àquele estranho, simples viajante que via hoje, para, sem duvida,
nunca mais tornar a vê-lo?
Quem sabe se a meiguice
e bondade que lhe dispensava Cirino não eram a causa única
desse sentimento novo, desconhecido, que de chofre nascia em seu peito,
como depois da chuva brota a florzinha do campo?
A muito obriga a gratidão.
Rápidos correram
esses pensamentos pela mente de Inocência, ao passo que as suas
pupilas se iam erguendo até se fixarem em Cirino, límpidas,
grandes, abertas, como que dando entrada para ele ler claro o que se lhe
passava na alma.
-Sinto-me tão
bem, disse ela com metal de voz muito suave, tão leve de corpo,
que parece nunca mais hei de ficar mofina.
-Não, não,
decerto! exclamou Cirino, nunca mais. Além disso, aqui estou e...
Com a sua chegada,
interrompeu Maria Conga, a velha negra, aquele começo de diálogo.
Vinha da fonte com volumosa trouxa de roupa que entrou a estender em compridos
bambus, assentes horizontalmente sobre forquilhas fincadas no chão.
Despedindo-se, então,
Cirino de Inocência:
-Agora, lhe disse ele risonho e pegando-lhe na mão, sossegue um
pouco: depois tome um caldo e... queira-me bem.
-Gentes! Por que lhe
não havéra de querer? perguntou ela com ingenuidade. Mecê
nunca me fez mal...
-Eu, retrucou Cirino
com fogo, fazer-lhe mal? Antes morrer... Sim...dona... da minha alma,
eu...
E, sem concluir, disse
repentinamente:
-Adeus!
Depois, com passo
lento, foi se retirando e passou diante da janela junto à qual
ficara Inocência sentada.
-Olhe! recomendou
ele recostando-se ao peitoril, cuidado com 0 sereno...
-Nhor-sim...
-Não beba leite...
-Mecê já
disse.
-Coma só carne-de-sol...
-Já sei...
-Então, adeus...
adeus, menina bonita!
E, a custo, despegou-se
daquele lugar, onde quisera ficar, ate que de velhice lhe fraqueassem
as pernas.
XV - HISTÓRIAS
DE MEYER
Grande felicidade
é ter um filho prudente e instruído; mas, quanto e filhas,
e par. todo o pai carga bom pesada.
(Menandro, Os Primos).
Com a tarde voltaram
Meyer, José Pinho e Pereira e, pouco depois pois deles, três
avelhantados escravos; estes dos trabalhos agrícolas, aqueles de
grandes excursões entomológicas.
Vinha o mineiro meio
risonho e em altos gritos acordou Cirino, que, deitando-se a dormir, sonhara
todo o tempo com a graciosa doente.
-Olá, amigo!
olá, doutor! chamou Pereira com voz retumbante, isso e que é
vida, hem? Enquanto nós trabalhamos, eu e o Mochu do José,
você está nessa cama de veludo!...
-É verdade,
concordou o moço, apenas os Srs. se foram, estendi as pernas e
até agora enfiei um sono só...
-E o remédio
da menina? perguntou Pereira abaixando a voz.
-Ora, Sr., e eu que
me esqueci!... Não faz mal... se ela não teve febre... Ah!
espere... agora me lembro!... Eu lho dei... estou ainda tonto de sono.
Riu-se Pereira.
-Estes doutores matam
a gente, como se tosse cachorro sem dono... Num momento, lhes passa da
cachola se deram ou não mezinhas e venenos a cristãos. ..
Vendo que Meyer saíra
da sala, mudou repentinamente de tom prosseguindo em voz baixa e muito
rapidamente:
-Então, sabe
que o tal alamão levou todo o dia, só querendo puxar conversa
sobre a menina?
-Deveras?
-É o que lhe
digo... E... eu com as mãos atadas por aquele oferecimento de levá-lo
a comer lá dentro!... Nada, nem que desconfie e se arrenegue dos
meus modos... não me pisa em quarto de família. . . Deus
te livre! . . .
Com efeito, à
hora da ceia, Meyer manifestou surpresa de comer na mesma sala; não
que tivesse motivo para desejar outro qualquer local; mas, metódico
como era, gravara na mente a promessa de Pereira e, por delicadeza, supunha
dever lembrar-lha.
As desculpas que o
mineiro apresentou foram arranjadas de momento e ajudadas vitoriosamente
por Cirino, carregando este com a responsabilidade de haver recomendado
à enferma muito sossego, quase completa solidão.
De modo muito expansivo
se manifestou também o reconhecimento de Pereira.
-Estou conhecendo,
disse ele em aparte e apertando a mão de Cirino, que o doutor é
homem sério e com quem se pode contar... Deixe estar... o Manecão
há de ser amigo seu... Isso há de sê-lo... Pessoas
de bem devem conhecer-se e estimar-se... Ora, veja o tal cujo... que temível,
hem?... Não faz mal, há de ter o pago.
Se Pereira se mostrava
contrariado e inquieto, muito pelo contrário parecia o naturalista
nadar em mar de rosas.
-Sr. doutor, declarou
ele a Cirino à mesa da ceia, por muitos motivos estou em extremo
contente com a minha estada aqui... Hoje achei mais bichinhos curiosos
do que em todas as zonas por que tenho andado.
-Vosmecê nem
imagina, interrompeu Pereira dirigindo-se para Cirino, o que faz este
senhor quando está dentro do mato. Ainda há de quebrar o
pescoço nalgum barranco a que se atire, pois caminha com as ventas
para o ar... Não sei como não tem ambos os olhos furados...
não repara em galhos nem em nada... só o que quer e agarrar
anicetos... Já o avisei umas poucas de vezes; agora, sua alma,
sua palma...
Judiciosas eram as
advertências do mineiro e bem cabidas; tanto assim que numa das
tardes seguintes voltou Meyer todo arranhado e com um gilvaz tão
grande, que imediatamente deu nas vistas de Cirino.
-Que foi isso, Sr.
Meyer? perguntou ele com admiração. O Sr. andou por ai afora
aos trambolhões com alguma onça?
-Oh! não é
nada, respondeu fleumaticamente o alemão.
-E a sua roupa vem
suja de barro... toda rota...
Desatou Pereira a
rir.
-Isto são histórias
deste homem... Bem lhe dizia eu que mais dia menos dia isso havia de acontecer.
Meu amigo não sabe do ditado: ...Fia-te na Virgem e não
corras, veras o tombo que levas!... Também foi um dia em que me
ri a mais não poder. Tomei um fartão... Imagine vosmecê
que o tal Sr. Meyer, como já lhe contei, anda pulando dentro da
mata como se fosse veado mateiro... O José Pinho, que é
mitrado, vai sempre pela estrada limpa...
-Preguiçoso,
atalhou Meyer a modo de observação.
-Juízo tem
ele, prosseguiu o mineiro: mas, como ia dizendo cá, o Sr. com seus
arrancos e saltos parece anta disparada. Em aparecendo bichinho voador,
zás-trás que darás lá vai ele logo sem olhar
para os paus, podendo pisar em cobras e espinhos, com aquela rede na mão,
e tanto faz que engalfinha sempre algum animalejo... Hoje fui para a roça,
e o homem furou o mato, enquanto José buscava uma sombrinha e entrou
logo a roncar como um perdido...
-Eu, não senhor,
protestou José Pinho, que queria ouvir a historia.
-Vóce sim,
corroborou Meyer com severidade, preguiçoso!... Ande... dê
cá a pita.
-Pois bem, continuou
Pereira, daí a duas horas voltou Mochu neste estado pouco mais
ou menos; mas trazia uma caixa cheia de bichos do mato...
-Oh! perguntou Cirino,
e são bonitos?
-Não há
mais nada, suspirou Meyer com tom dolente, o trabalho ficou perdido!...
Eu tinha apanhado cinco espécies novas... Uma queda...
-Deixe-me contar o
caso, atalhou Pereira. Oh! eu ri-me... ri -me. E, para confirmar a asserção,
pôs-se novamente a dar gargalhadas, que foram acompanhadas por José
Pinho e até por Meyer, da parte deste com menos expansão,
contudo.
-Apareceu-me o Mochu
muito contente com a sua caixa, como se tivesse o rei na barriga. Era
uma imundície de besouros, cascudos e cigarras, que o Sr. nem pode
imaginar... Havia de tudo; depois, quando voltamos da roça, enxergou
ele num pau podre um aniceto vermelho e foi correndo a apanhá-lo.
Eu bradei-lhe: - Olhe, que ai tem barranco: a árvore é podre
e oca, e vosmecê rola pelo despenhadeiro, que nem a sua alma se
salva. - Qual! O homem é teimoso, como um cargueiro empacador...
Eu gritava-lhe: -Tome tento, Mochu!-Sem atender a nada, começou
a caminhar em cima da cipoada que cobria a boca de um percipício,
fundo como tudo neste mundo... Quando ia botar a mão no tal bicho
encarnado, encostou-se ao pau e... zás!... afundou-se, dando um
grito esganiçado que parecia de cotia. Mal teve tempo de agarrar-se
aos cipós e ia ficou entre a vida e a morte, chamando Juque, Juque!...
Eu, quando vi isso, mandei a toda pressa buscar à roça uma
vara comprida e, se ela não chega logo, o Sr. Meyer e toda a sua
bicharada rolavam de uma vez por aqueles fundões.
-Não, retificou
o alemão, bicho rolou; caixa abriu e tudo lá se foi no fundão...
-Pois bem, o Mochu
segurou-se com unhas e dentes ao pau e nos puxamos devagarinho, devagarinho,
com um medo, um medo!... Maria Santíssima! . . .
Fazendo breve pausa:
-0 mais engraçado
ainda não chegou, avisou o mineiro: Ah! vosmecê vai tomar
uma boa data de riso. Quando o Mochu ganhou pé em terra, pôs-se
a pular como um cabrito doido, por aqui, por acolá, pulo e mais
pulo, e gritando como se o estivessem esfolando... Estava .. ah! meu Deus!...
estava cheio de formigas novatas!
- Sim, exclamou Meyer
com desespero, formiga de pau podre!... mein Gott ... Eu rasgo a roupa...
eu pulo... eu gemo... fico nu como quando minha mãe me botou no
mundo!... Horrível Formiga do diabo! . . . Faz calombo em todo
o meu corpo. . . Muita dor!
Com reiteradas e estrondosas
gargalhadas acolheram Pereira, Cirino e José Pinho essas enérgicas
imprecações.
-Poderá isso,
observou o mineiro, curá-lo da mania de não ouvir os outros
que conhecem as coisas.
E voltando-se para
Cirino:
-Verdade é
que o corpo dele... Que corpo, Sr. doutor, tão arvo!... ficou todo
empolado que foi preciso esfregá-lo com folhas de fumo. Depois,
tomou um banho no ribeirão...
-Tudo estava muito
bem, observou Meyer, se caixa não abre e atira no buraco meu trabalho...
-Ora, ficará
para amanhã, consolou filosoficamente o camarada.
Pereira, acalmado
o frouxo de riso, aproximara-se de Cirino e lhe falava a meia voz:
-Ah! doutor, tive
uma vontade de deixar este alamão sumir-se no socavão!...
Se não fosse
meu hóspede, enfim, e recomendado de meu mano, palavra de honra
pinchava-o de uma vez no inferno...
Não sou nenhum
pinóia...
-Mas por quê?
indagou Cirino simulando admiração...
-O Sr. ainda me pergunta?...
Porque o homem não me faz senão falar em Nocência...
Outra vez me disse que ela era muito bonita e mil coisas.. perguntou se
estava casada, se não; que era preciso casar as mulheres para bem
delas. Eu lá sei o que mais?... Isto é um bruto perdido...
um namorador!...
-Qual, Sr. Pereira!...
-É o que lhe
digo!... Por acaso sou cobra de duas cabeças(4) que não
veja?... Ah! que peso uma filha! Ah! E então uma menina que já
está apalavrada... Isto é uma anarquia! Que diria meu genro,
o Manecão?...
-Não poderá
dizer nada, retrucou o moço. E que diga, não faltará
quem queira sua filha...
-Louvado Deus, não
decerto! Eu é que não quero que ela ande de mão em
mão... Ou casa com o Doca ou...
- Ou... o quê?
perguntou Cirino com inquietação, mas fingindo pouca curiosidade.
-Ou mato a quem lhe
vier transtornar a cabeça .. Comigo ninguém há de
tirar farofa!... E não hei de ter mil cuidados quando vejo este
estranja estar com suas macaquices a dar no fraco das mulheres ?
-Por ora, nada fez
ele...
-Por ora .. só
leva a falar na pobre menina, que a Srª Sant'Ana guarde de todo o
mal!... Pudesse eu adivinhar, e macacos me mordam, se punha os olhos em
cima de Nocência. Nem que viesse com cartas e ordens do Sr. D. Pedro
II .
Chamei o José
Pinho, prosseguiu ele em voz baixa e dei-lhe uns toques. - Então,
disse-lhe eu, seu amo é o diabo com mulheres, hem? Ele, que é
muito ladino, respondeu-me logo. -Nhor-não. -Assuntei a embromação.-Qual,
você, carioca, tem levado areia nos olhos. - Eu?... não é
capaz.- Então você não tem visto o que faz seu amo?
- Tem sido um santo, retrucou o espertalhão. No Rio, sim. -Na Corte?-Nhor-sim,
na Corte. Ia todas as noites a uma casa de bebidas, assim uma espécie
de venda de muito luxo e lá estava horas perdidas petiscando e
conversando com senhoras muito bonitas, bem limpas... algumas com o pescoço
e os braços todos à mostra...
-Contou-lhe isso?
atalhou Cirino com alguma dúvida e sobressalto.
- Contou, afirmou
Pereira com furor.
Vejam só que
homem, hem? É um mequetrefe!... Esta noite e dora em diante, venho
dormir nesta sala a ver se ele se mexe da cama. Ah! se eu pudesse!...
caia-lhe de calaboca em cima, que lhe deixava as costelas em. lascas.
Acabavam as imprudentes
histórias de José Pinho de pôr a ultima pedra no edifício
da desconfiança que tão depressa erigira a imaginação
de Pereira em desconceito de Meyer. O que nelas havia de verdade, eram
apenas algumas horas de lazer, consagradas, durante a estada no Rio de
Janeiro, pelo naturalista ao consumo de grandes copázios de cerveja
no café Stadt Coblenz, e nas quais entretivera risonhos, bem que
inocentes colóquios, com pessoas do sexo amável, freqüentadoras
daquele estabelecimento e de costumes não lá muito rigorosos.