IAIÁ GARCIA
Machado de Assis
Capítulo VII
Três
meses depois da chegada ao Rio de Janeiro, tinha Jorge liquidado
todos os negócios de família. Os haveres herdados
podiam dispensá-lo de advogar ou de seguir qualquer outra
profissão, uma vez que não fosse ambicioso e regesse
com critério o uso de suas rendas. Tinha as qualidades precisas
para isso, umas naturais, outras obtidas com o tempo. Os quatro
anos de guerra, de mãos dadas com os sucessos imediatamente
anteriores, fizeram-lhe perder certas preocupações
que eram, em 1866, as únicas de seu espírito. A vida
à rédea solta, o desperdício elegante, todas
as seduções juvenis, eram inteiramente passadas.
O espetáculo da guerra, que não raro engendra o orgulho,
produziu em Jorge uma ação contrária, porque
ele viu, ao lado da justa glória de seu país, o irremediável
conflito das cousas humanas. Pela primeira vez meditou; admirou-se
de achar em si uma fonte de idéias e sensações,
que nunca lhe deram os recreios de outro tempo. Contudo, não
se pode dizer que viera filósofo. Era um homem, apenas, cuja
consciência reta e cândida sobrevivera às preocupações
da primeira quadra, cujo espírito, temperado pela vida intensa
de uma longa campanha, começava de penetrar um pouco abaixo
da superfície das cousas.
Querendo adotar um plano de vida nova, renegou a princípio
todos os hábitos anteriores, dispostos a dar à sociedade
tão-somente a estrita polidez. Teve primeiro idéia
de ir estabelecer-se em algum recanto silencioso e escuso no interior;
mas desistiu logo, cedendo à necessidade de ficar mais à
mão de uma viagem transatlântica, idéia a que
aliás nunca deu princípio de execução.
Os primeiros três meses passaram depressa; foram empregados
em liquidar o inventário. Poucos legados deixara a viúva.
Um deles interessa-nos, porque recaiu em favor de Iaiá Garcia.
A viúva beneficiava assim, indiretamente, o marido de Estela.
Jorge aprovou cordialmente o ato de sua mãe. Não aprovou
menos o dote de Estela, mas o sentimento do vexame que experimentou,
logo que dele teve notícia, honrava a delicadeza de seu coração.
Luís Garcia dera-se pressa em visitar o filho de Valéria.
A entrevista desses dous homens, que o curso dos sucessos colocara
em tão delicada situação, foi cordial, mas
não expansiva. Jorge não achou Luís Garcia
mais velho; era o mesmo. Não o achou também menos
reservado que antes. A conversa, em começo não foi
além dos fatos gerais; falaram da guerra e das vitórias.
Jorge referiu alguns episódios, que o outro ouviu com interesse;
e, como parecesse olvidar seus próprios feitos:
- Vejo que é modesto, observou Luís Garcia; felizmente
lemos as folhas e as partes oficiais.
- Fiz o que pude, respondeu Jorge; era preciso vencer ou ser vencido.
Que é feito de tanta gente que ainda não viu? continuou
ele para desviar o assunto.
- Cada qual segue o seu destino. Meu sogro creio que já o
visitou...
- Já.
- A propósito, deixe-me agradecer os benefícios que
devo a sua mãe...
Jorge quis interrompê-lo com o gesto.
- Perdão; é meu dever, continuou Luís Garcia
gravemente. A Sra. D. Valéria quis mostrar ainda à
última hora a simpatia que sempre lhe mereci. Duas vezes
o fez, além de outras. Primeiramente, resolveu-me a casar
outra vez, cousa que estava longe de meus cálculos. Foi ela
a primeira autora dessa transformação de minha vida,
e em boa hora o foi, porque não me podia fazer maior obséquio.
Requintou o obséquio, ocultando até a última
hora a prova de ternura que desde alguns meses antes dera a minha
mulher; tinha-a dotado, como deve saber...
Jorge fez um gesto afirmativo.
- Achou que não era bastante e deixou a minha filha um legado,
que será o seu dote... Gostava muito dela. Não podendo
agradecê-lo à benfeitora, permita que o agradeça
ao...
- Desta vez há de obedecer-me, interrompeu Jorge com brandura;
falemos de outra cousa.
- Sim; falemos de minha mulher. Saiba que rematou dignamente a obra
de sua mãe; e mais uma vez me fez compreender o benefício
do casamento. Logo depois de casado, propôs-me aceitar, em
favor de minha filha, a parte com que a Sra. D. Valéria lhe
manifestara sua afeição. Gostei de a ouvir, porque
era sinal de desinteresse, mas recusei, e recusei sem eficácia.
Cedi, enfim; e não podia ser de outro modo. Folgo de lhe
dizer essas cousas porque são raras...
Jorge fechou o rosto ao ouvir essas palavras de Luís Garcia.
Adivinhara a causa do desinteresse de Estela. - Eterno orgulho!
pensou ele. Depois refletiu no caso e perguntou a si mesmo se a
moça teria confiado ao marido alguma cousa do que se passara
entre eles. Era difícil percebê-lo, mas não
era acertado supô-lo. Nenhuma mulher o faria nunca, Estela
menos que nenhuma outra. Interrogou o rosto de Luís Garcia;
achou-o plácido e imóvel. Após alguns segundos
de silêncio, estendeu-lhe a mão.
- Permite-me então que o felicite? disse ele.
- De coração, acudiu Luís Garcia. E depois
de erguer-se: - Se eu tivesse o sestro de dar conselhos, dir-lhe-ia
que se casasse.
- Pode ser.
- Não lhe pergunto pela outra paixão; creio que a
esqueceu de todo.
- De todo.
Luís Garcia apertou-lhe cordialmente a mão e saiu,
depois de lhe oferecer a casa. Jorge ficou alguns instantes pensativo.
A notícia do dote de Estela causara-lhe certo vexame; a notícia
da doação feita pela moça em favor da enteada,
produzia-lhe agora um sentimento mesclado de admiração
e despeito. Ele sentia arder no mais fundo do coração
da moça um resíduo de ódio, e em seu próprio
coração não podia deixar de aprovar o ato.
Sendo forçoso pagar a visita a Luís Garcia, Jorge
demorou o cumprimento desse dever enquanto lhe foi possível
fazê-lo sem reparo. Um dia, enfim, sabendo por intermédio
do Sr. Antunes que a família não estava em casa, foi
a Santa Teresa e deixou lá um bilhete de visita.
A vida de Jorge foi então dividida entre o estudo e a sociedade,
à qual cabia somente uma parte mínima. Estudava muito
e projetava ainda mais. Delineou várias obras durante algumas
semanas. A primeira foi uma história da guerra, que deixou
por mão, desde que encarou de frente o monte de documentos
que teria de compulsar, e as numerosas datas que seria obrigado
a coligir. Veio depois um opúsculo sobre questões
jurídicas e logo duas biografias de generais. Tão
depressa escrevia o título da obra como a punha de lado.
Seu espírito sôfrego colhia só as primícias
da idéia, que aliás entrevia apenas. Uma vez, uma
só vez, lembrou-se de escrever um romance, que era nada menos
que o seu próprio; mas esse gênero de escritos pessoais
só é suportável à força de grande
talento. Ao cabo de algumas páginas, reconheceu que a execução
não correspondia ao pensamento, é que não saía
das efusões líricas e das proporções
da anedota. Faltava-lhe o engenho preciso para extrair do fato particular
a lei universal e humana; e a sagacidade com que o reconheceu sobrelevava
a todos seus méritos.
Quando mais disposto se achava a compor essa autobiografia, ocorreu
vagar a casa da Tijuca, a mesma aonde fora uma vez com sua mãe
e Estela, ponto de partida dos sucessos que lhe transformaram a
existência. Quis vê-la novamente; talvez ali achasse
uma fonte de inspiração. Foi; achou-a quase no mesmo
estado. Entrou curioso e tranqüilo. Pouco a pouco sentiu que
o passado começava a reviver; e a ressurreição
foi completa, quando penetrou na varanda, em que da primeira vez
achara o casal de pombos, solitário e esquecido. Já
lá não estavam as pobres aves! Tinham voado ou morrido,
como as esperanças dele, e tão discretamente que a
ninguém revelaram o desastrado episódio. Mas as paredes
eram as mesmas; eram os mesmos o parapeito e o ladrilho do chão.
Mudam os homens, a vida varia seus aspectos; há porém
nas cousas inanimadas a virtude de guardar as feições
fugitivas do tempo; e a rua insignificante, o prédio denegrido,
o muro escalavrado cativam os olhos da memória, reconstruindo
a sensação que se foi.
Jorge encostou-se ao parapeito, onde estivera Estela, com os pombos
ao colo, diante dele, naquela fatal manhã. O que sentia nesse
outro tempo, posto frisasse o amor, tinha ainda um pouco de estouvamento
juvenil. Contudo, a vista das paredes nuas e frias da varanda abria-lhe
na alma a fonte das sensações austeras, e ele tornou
a ver os olhos férvidos e o rosto pálido da moça;
pareceu até escutar-lhe o som da voz. Viu também a
sua própria violência; e, como em meio de tantas vicissitudes,
trazia ainda a consciência íntegra, a recordação
fê-lo estremecer e abater. Jorge fincou os braços no
parapeito e fechou a cabeça nas mãos.
- Olá, senhor dorminhoco! São horas de almoçar.
Jorge ergueu vivamente a cabeça e olhou para a chácara,
donde pareceu que saíra a voz. Na chácara, a vinte
passos de distância, estava um homem, que sorria para ele,
com as mãos nas costas, seguras a uma grossa bengala. Jorge
sentiu um calefrio, como se lhe descobrissem o segredo do passado.
Só depois de desfeita a primeira sensação,
aliás curta, respondeu sorrindo:
- Não durmo; estou pensando nos aluguéis.
- Muda-se para aqui?
- Não.
- A casa é sua?
- É. Suba cá.
O homem galgou os seis degraus da escada de tijolo e entrou na varanda,
onde Jorge assumira exclusivamente o papel de proprietário,
olhando atentamente para as paredes do edifício.
- Que faz por aqui, Sr. Procópio Dias, às dez horas
da manhã? disse Jorge logo que o outro apareceu.
- Passei a noite na Tijuca; soube que esta casa vagara, vim vê-la;
não sabia que era sua. Está um pouco estragada.
- Muito.
- Muito?
- Parece.
Procópio Dias abanou a cabeça com um gesto de lástima.
- Não é assim que deve responder um proprietário,
disse ele. Meu interesse é achá-la arruinada; o seu
é dizer que apenas precisa de algum conserto. A realidade
é que a casa está entre a minha e a sua opinião.
Olhe, se está disposto a concordar sempre com os inquilinos,
é melhor vender as casas todas que possui. - Ou fica perdido...
Com que então esta casa é sua? A aparência não
é feia; há alguma cousa que pode ser consertada e
ficará então excelente. Não é casa moderna;
mas é sólida. Eu já a vi quase toda; desci
à chácara, e estava a examiná-la, quando o
senhor apareceu na varanda.
- Quer ficar com ela?
- Ingênuo! respondeu Procópio Dias batendo-lhe alegremente
no ombro. Se eu confesso que ela não está muito estragada
é porque não a quero para mim. É grande demais;
e depois, fica muito longe da cidade. Se fosse mais para baixo...
- Mas no caso de que haja por aí algum namoro? ponderou Jorge
sorrindo.
- Falemos de outra cousa, acudiu o outro faiscando-lhe os olhos.
Os olhos de Procópio Dias eram cor de chumbo, com uma expressão
refletida e sonsa. Tinha cincoenta anos esse homem, uns cincoenta
anos ainda verdes e prósperos. Era mediano de carnes e de
estatura, e não horrivelmente feio; a porção
de fealdade que lhe coubera, ele a disfarçava, quanto podia,
por meio de qualidades que adquirira com o tempo e o trato social.
Fazia às vezes um movimento que lhe descrevia na testa cinco
rugas horizontais. Era uma das suas maneiras de rir. Além
dessa particularidade, havia o feitio do nariz, que representava
um triângulo de lados iguais, ou quase: nariz a um tempo sarcástico
e inquisidor. Não obstante a expressão dos olhos,
Procópio Dias tinha a particularidade de parecer simplório,
sempre que lhe convinha; nessas ocasiões é que ria
com a testa. Não usava barba; ele próprio a fazia
com o maior esmero. Via-se que era homem abastado. As roupas, graves
no corte e nas cores, eram da melhor fazenda e do mais perfeito
acabado. Naquela manhã trazia uma longa sobrecasaca abotoada
até metade do peito, deixando ver meio palmo de camisa, infinitamente
bordada. Entre o último botão da sobrecasaca e o único
do colarinho, fulgia um brilhante vasto, ostensivo, escandaloso.
Um dos dedos da mão esquerda ornava-se com uma soberba granada.
A bengala tinha o castão de ouro lavrado, com as iniciais
dele por cima, - de forma gótica.
Jorge conheceu Procópio Dias no Paraguai, onde este fora
negociar e triplicar os capitais, o que lhe permitiu colocar-se
acima das viravoltas da fortuna. Travaram relações,
não íntimas, mas freqüentes e agradáveis,
e até certo ponto úteis a Procópio Dias, que
obteve de Jorge mais de uma recomendação. Não
obstante a freqüência das relações, estavam
longe da amizade íntima; e isso, não por esforço
de Procópio Dias, cujas maneiras fáceis assediaram
por muito tempo a inexperiência de Jorge. O motivo de Procópio
Dias cessou com a guerra, desde que com a guerra cessara também
o interesse mercantil. Jorge não tinha motivo contra ele;
quando o conhecera estava no período melancólico.
- Ainda não respondeu à minha suspeita, disse Jorge
dando o braço a Procópio Dias.
- O namoro?
- Sim.
- Nem sombras disso, meu caro! Ou antes... creio que vou entrar
para um convento: é a minha última ambição.
Procópio Dias tinha dous credos. Era um deles o lucro. Mediante
alguns anos de trabalho assíduo e finuras encobertas, viu
engrossarem-lhe os cabedais. Em 1864, por um instinto verdadeiramente
miraculoso, farejou a crise e o descalabro dos bancos, e retirou
a tempo os fundos que tinha em um deles. Sobrevindo a guerra, atirou-se
a toda a sorte de meios que pudessem tresdobrar-lhe as rendas, cousa
que efetivamente alcançou no fim de 1869.
A não ser o segundo credo, é provável que Procópio
Dias só liquidasse com a morte. Tendo chegado a uma posição
sólida, aos cincoenta anos, achou-se diante de outra riqueza,
não inferior àquela, - o tempo, - essa apólice
de juro infinito, atrás da qual correm tantos que só
a alcançam na sepultura. Ora, o segundo credo era o gozo.
Para ele, a vida física era todo o destino da espécie
humana. Nunca fora sórdido; desde as primeiras fases da vida,
reservou para si a porção de gozo compatível
com os meios da ocasião. Sua filosofia tinha dous pais: Lúculo
e Salomão, - não o Lúculo general, nem o Salomão
piedoso, mas só a parte sensual desses dous homens, porque
o eterno feminino não o dominava menos que o eterno estômago.
Entre os colegas de negócio foi sempre tido como um feliz
vencedor de corações francos. E, ao invés de
outros, não punha nisso a menor vaidade ou gloríola;
preferia a cautela e a obscuridade, não em atenção
ao pudor público, mas porque era mais cômodo. Nenhuma
diva mundana teria jamais a audácia de cortejá-lo
na rua ou sorrir-lhe simplesmente; perdia o tempo e o sacerdote.
Gozava para si, que é a perfeição sensual.
Não conhecia Jorge nem a vida nem o caráter do outro.
Procópio Dias tinha o pior mérito que pode caber a
um homem sem moral: era insinuante, afável, conversado; tinha
certa viveza e graça. Era bom parceiro de rapazes e senhoras.
Para os primeiros, quando eles o pediam, tinha a anedota crespa
e o estilo vil; se lhes repugnava isso, usava de atavios diferentes.
Com senhoras era o mais paciente dos homens, o mais serviçal,
o mais buliçoso, - uma jóia.
- Ninguém o vê, dizia ele daí a duas horas,
à mesa do almoço de Jorge, na casa da Rua dos Inválidos.
Não conheço os seus amigos de outro tempo, mas devo
crer que todos lhe censuram essa vida de bicho-do-mato. - Nos teatros...
nunca vai aos teatros?
- Vamos hoje?
- Corruptor! disse Jorge sorrindo.
De noite foram ao teatro. Procópio Dias estava de veia; a
palestra, a cena, o próprio tempo, tudo conspirou para dissipar
as sombras de melancolia que a manhã acumulara na fronte
de Jorge. - Não se deixe apodrecer na obscuridade, que é
a mais fria das sepulturas, dizia Procópio Dias, à
mesa de um hotel, onde fora cear. Jorge não comeu nada. Mau
grado o prazer que achava em estar com ele, não quis aceitar-lhe
o obséquio da ceia, apesar de lhe ter feito o do almoço.
Procópio Dias percebeu isso mesmo, mas não se molestou;
abaixou a cabeça, deixou passar essa onda de desconfiança,
e surgiu fora, a rir. Saíram dali uma hora depois. A evocação
da Tijuca tinha-se esvaído.
Jorge deixou-se persuadir dos conselhos do outro. Abriu mão
do último livro planeado, contentando-se com tê-lo
vivido. Demais o tempo ia minando a antiga sensação,
e a vida social tornava a prendê-lo em suas malhas.
Entre as pessoas que tornou a ver, figurava a mesma Eulália,
com quem a mãe quisera casá-lo, alguns anos antes.
Eulália não ficara solteira; estava na lua-de-mel,
uma lua-de-mel que durava mais de um ano. O casamento fora a vara
mosaica, mediante a qual se lhe abrira no coração
uma fontezinha de ternura. Encontraram-se num baile. Nenhum deles
sentiu acanhamento; como nunca chegaram a tratar dos projetos de
Valéria, puderam falar com a mesma isenção
de 1866. A diferença é que Eulália, que era
feliz, exagerava a felicidade para melhor mostrá-la a Jorge
e convencê-lo de que antes ganhara do que perdera com a recusa
dele.
- Vá lá à Rua Olinda, disse a moça;
quero mostrar-lhe meu filho.
Jorge foi. Eulália mostrou-lhe o filho, criança que
valia por duas, tão gorda e vigorosa era. Jorge chegou a
pegar nele, mas não sabia haver-se com as rendas, os babados,
as fitas. Eulália que possuía já toda a destreza
materna, tomou-lho das mãos. - O senhor não entende
disto, disse ela. E depois de concertar a touca da criança,
beijou-a muitas vezes, riu-se para ela, fez-lhe um monólogo,
tudo com uma graça e poesia, que Jorge estava longe de lhe
supor cinco anos antes. Ele contemplava essa jovem mãe, elegante
e natural, e sentia-se tomado de inveja e cobiça.
- A felicidade é isto mesmo, pensou ele.
Voltou lá algumas vezes, fez-se íntimo da casa. Começou
a receber também. Viu entre os freqüentadores de sua
casa o pai de Estela, que achou nele a benevolência do desembargador.
O Sr. Antunes era conviva certo ao almoço dos domingos; dava-lhe
notícias do genro e da filha. Ele pranteava ainda a quimera
esvaída, e achava não sei que dolorido prazer em falar
de Estela ao genro de suas ambições. Demais, era um
como desforço do outro, a respeito de quem aventurou mais
de uma queixa. Jorge, porém, ouvia-o sem lhe responder nada.
No meado do ano de 1871, fez Jorge uma excursão a Minas Gerais,
com o fim de ajoelhar-se à sepultura de sua mãe, cujos
ossos transportaria oportunamente para um dos cemitérios
da Corte. A excursão durou seis semanas. Jorge visitou alguns
parentes, e regressou nos princípios de agosto.
Um incidente transtornou-lhe os planos.
Capítulo
VIII
Chegando à
Corte, Jorge teve notícia de que Luís Garcia estava
enfermo. Não contava com o incidente, que o pôs em
grande perplexidade. Não queria visitá-lo, e mal poderia
deixar de o fazer. Luís Garcia fora prezado de seus pais;
ele próprio lhe tinha estima e consideração:
motivos bastantes a aconselhar o desempenho de um dever de cortesia.
Mas, por outro lado, ir a Santa Teresa era arriscar-se à
suspeita de Estela. Jorge vacilou durante dous longos dias. Certo,
ele sentiu algum alvoroço, com a idéia de a ver; idéia
que, se buscou rejeitar do espírito, lá ficou latente
e dissimulada. Mas a razão que confessava a si próprio
era a da conveniência.
Venceu a hesitação e foi a Santa Teresa, na tarde
do terceiro dia. A casa não era já a mesma; tinha
dimensões um pouco maiores que a outra. Era nova, ladeada
de verdura, com as telhas ainda da primeira cor. Havia duas entradas,
uma para a sala, ficando a porta entre quatro janelas, outra para
o jardim, e era uma porta de grade de ferro, aberta no centro de
um pequeno muro, por cima do qual vinha debruçar-se a verdura
de uma trepadeira. Aí achou Raimundo, mais velho do que o
deixara, mas não menos forte. Raimundo conheceu-o, apesar
de queimado do sol. Abriu-lhe a porta; acompanhou-o alegremente
ao fundo do jardim.
- Meu senhor vai ficar muito contente, dizia ele fazendo-o entrar.
- Está melhor?
- Está, sim, senhor. Olhe, está ali.
Raimundo apontou para um grupo de pequenas árvores através
de cuja ramagem se descobriam vestidos de mulher. Jorge sentiu coar-lhe
pelas veias uma onda de frio. Mas passou depressa; e deu o primeiro
passo tão firme, como diante das legiões de Lopez.
- Quem é, Raimundo? cantou uma voz desconhecida, no meio
das árvores.
Jorge viu aparecer uma moça, que representava ter dezoito
anos e não contava mais de dezesseis; reconheceu a filha
de Luís Garcia. Ela não o reconheceu logo; os trabalhos
da guerra tinham-no mudado. Demais, nas poucas vezes que o vira
não lhe havia prestado muita atenção. Jorge
foi conduzido até a cadeira onde se achava estirado Luís
Garcia, entre duas outras, uma com um trabalho de agulha em cima,
outra com um livro aberto. Luís Garcia recebeu-o com satisfação
e cordialidade; Jorge explicou a demora da visita pelo fato de estar
ausente. A explicação era uma cortesia nova; Luís
Garcia agradeceu-lha.
- Estive muito prostrado, disse ele; não sei mesmo se cheguei
às portas da morte. Agora estou quase bom.
Jorge sentara-se a um lado do convalescente, enquanto Iaiá,
do outro lado, brincava com os cabelos do pai ou lhe apertava uma
das mãos. Luís Garcia contou as peripécias
da doença e exaltou a dedicação da família;
Jorge falou pouco, já por evitar trair a comoção
que sentia ao penetrar naquela casa, já por não prolongar
a visita e podê-la terminar no primeiro intervalo de silêncio.
No fim de quinze minutos levantou-se.
- Espere um pouco, disse o convalescente. Iaiá, vai chamar
tua madrasta.
Iaiá levantou-se para obedecer à ordem do pai; mas
no momento em que ia pousar nos joelhos deste o livro que tinha
no regaço, ouviu-se um passo na areia e logo depois esta
súbita palavra:
- Pronto!
Era Estela. O sobressalto de Jorge, por mais imperceptível
que fosse, não escapou a Iaiá, e fê-la sorrir
à socapa; atribuiu-o ao susto. Estela apareceu; mas, porque
já sabia da presença de Jorge, pôde encará-lo
sem nenhuma aparente comoção. Houve certa hesitação
entre um e outro, mas foi curta. A moça inclinou-se levemente
e estendeu-lhe a mão. Jorge apertou-lha.
- Ainda não tinha tido a satisfação de a ver
depois de minha volta do Paraguai, disse ele.
- É verdade, respondeu a moça; vivemos muito retirados.
Estela chegou-se ao marido, afastando-se Jorge para deixá-la
passar. - Pronto, repetiu ela. Trazia-lhe um copo de geléia.
Enquanto Luís Garcia tomava a refeição de convalescente,
Estela ficou de pé, ao lado dele; depois sentou-se e dirigiu
a palavra ao filho de Valéria. Naturalmente falou-lhe da
campanha. Ele respondeu sem afetação, e com tranqüilidade.
- Já tive ocasião de lhe dizer que foi um dos heróis,
interveio Luís Garcia olhando para a mulher; mas o Dr. Jorge
teima em escurecer os seus próprios serviços. Iaiá
não é a mesma cousa.
- Sim? perguntou Jorge.
- É verdade; durante toda a campanha matou pelo menos metade
do exército paraguaio.
Iaiá lançou ao pai um olhar de graciosa censura.
- Não precisa corar, disse Jorge; era uma maneira de ser
patriota; mas creia que havia menos perigo em matar o inimigo cá
de longe.
- O senhor matou algum? perguntou Iaiá no fim de um instante.
- Provavelmente. Na guerra é preciso matar ou morrer. Não
me importava morrer; mas há ocasiões em que o mais
indiferente é um herói. Eu fiz o que pude.
Como a tarde começasse a escurecer, Estela disse ao marido
que era tempo de recolher-se a casa. Ergueu-se para lhe dar o braço;
Jorge porém apressou-se a substituí-la. Estela foi
adiante, e quando Jorge entrou na sala com o convalescente, ela
preparava a cadeira em que este devia sentar-se, uma larga e extensa
cadeira de vime. Luís Garcia esperou alguns instantes, enquanto
a mulher colocava as almofadas, resvalando serenamente de um lado
para outro.
Durante essa curta espera, Jorge olhava para a moça, e era
a primeira vez que o fazia mais detidamente. Pouca era a diferença
entre a Estela de 1866 e a de 1871. Tinha o mesmo rosto pálido
e os mesmos olhos severos. As feições não haviam
mudado; o busto conservava a graça antiga; estava só
um pouco mais cheio, diferença que não destoava da
estatura, que era alta. Esta era a pessoa física. Moralmente
devia ser a mesma; mas que contraste na situação!
Assim, - a mulher que o levara a servir por quatro anos uma campanha
árdua e porfiosa, e cuja imagem não esquecera no centro
do perigo, essa mulher estava ali, diante dele, ao pé de
outro, feliz, serena, dedicada, como uma esposa bíblica.
A comparação doeu-lhe; mas o coração
começava a repetir-lhe juvenilmente as mesmas horas que já
havia batido. Para refreá-lo, Jorge despediu-se dez minutos
depois.
- Já! exclamou Luís Garcia. Foi visita de médico.
Agradeço-lhe, entretanto, a atenção. Esta casa
é sua; sabe que todos nós o estimamos.
Jorge seguiu para casa, contente e arrependido da visita que acabava
de fazer. Gastou as primeiras horas da noite a folhear dez ou doze
tomos, lendo a troncos duas ou três páginas de cada
um, abertas ao acaso, e trinta vezes interrompido. Quando os olhos
estavam mais atentos na página aberta, o espírito
saía pé ante pé e deitava a correr pela infinita
campanha dos sonhos vagos. Voltava de quando em quando; e os olhos
que haviam chegado mecanicamente ao fim da página tornavam
ao princípio, a reatar o fio da atenção. Como
se a culpa fosse do livro, trocava-o por outro, e ia da Filosofia
à História, da crítica à poesia, saltando
de uma língua a outra, e de um século a outro século,
sem outra lei mais do que o acaso.
O clarão da seguinte manhã dissipou uma parte dos
cuidados da noite. O primeiro alvoroço tinha passado. Jorge
disse a si mesmo que bastava ser homem, esquecer o incidente da
véspera, e arredar para sempre a possibilidade de outros.
Não repetiria a visita a Luís Garcia; e provavelmente
não os veria nunca mais. Na Rua do Ouvidor encontrou Procópio
Dias, que lhe disse à queima-roupa:
- Entrei meia hora depois do senhor sair.
- Onde?
- Em Santa Teresa. Se se demora meia hora mais, encontrava-o e poderíamos
ter descido juntos. Conhece há muito tempo o Luís
Garcia?
- Desde muito moço.
- Também eu; mas não o via há dez anos. Está
o mesmo homem; está melhor, porque casou com uma mulher bonita.
Que gente é aquela?
- A mulher foi educada por minha mãe.
- Vê-se que sim. Oh! falamos muito do senhor.
- Sim? perguntou vivamente Jorge.
Procópio Dias olhou fixamente um instante; depois riu com
a testa.
- Muito, repetiu ele; eu e o Luís Garcia travamos um duelo
de louvores, e se não há nisto vaidade creio que o
venci; naturalmente porque sou mais expansivo do que ele. Na verdade,
ele é seco, mas o pouco que disse, disse-o com sinceridade.
Parece estimar-se muito aquela família.
Procópio Dias tornou a falar-lhe de Santa Teresa, na noite
do dia seguinte, em uma casa onde jantaram juntos. Falou-lhe primeiramente
em particular, depois diante de outros. A dona da casa, que era
uma Diana caçadora de boatos e novidades, farejou algum mistério
entre as rugas da testa de Procópio Dias, e dobrando as pontas
do arco, disparou subitamente uma flecha que ninguém viu,
mas foi enterrar-se no coração de Jorge. Este fez
boa cara ao tiro, mas lá dentro sangrou um pouco de irritação
e medo. Sentia no fundo da consciência o calor de um sentimento
honesto, e contudo a opinião tendia a apoderar-se dele e
a devassar-lhe as cinzas do passado; cinzas frias ou mornas, é
o que ele não podia ainda discernir. Confiado em si mesmo,
Jorge tremia diante da opinião, - a opinião do epigrama
e da anedota, que começava a sacudir o seu riso escarninho
e cru.
Inquieto e aborrecido, saiu dali pouco depois de jantar. O gracejo
da dona da casa continuava a zumbir-lhe ao ouvido, ao mesmo tempo
que a figura de Estela lhe surgia aos olhos, com o seu aspecto do
costume. Já entrado na Rua dos Inválidos, Jorge desandou
o caminho e foi direito a um teatro, com o fim de aturdir-se e esquecer
mais depressa. Eram nove horas e meia; assistiu a um resto de drama,
que lhe pareceu jovial, e a uma comédia inteira, que lhe
pareceu lúgubre. Não obstante, arejou o espírito
dos cuidados da noite, e caminhou para casa mais leve e desassombrado.
Era uma hora quando chegou; o criado entregou-lhe uma carta.
- A pessoa que trouxe esta carta disse que era urgente.
Jorge recebeu-a, sem conhecer a letra do sobrescrito. Era letra
de mulher. Abriu-a sem pressa, mas não sem curiosidade. Não
era longa; dizia simplesmente isto: - "Ilmo. Sr. doutor. Papai
está muito mal; pede-lhe o favor de vir a nossa casa. - Lina
Garcia."
- A que horas veio esta carta? perguntou ele ao criado.
- Às sete.
Jorge fez um gesto de enfado e mandou buscar um tílburi.
Daí a uma hora parava à porta de Luís Garcia.
Era tudo silêncio. Jorge deteve-se alguns instantes, incerto
sobre o que convinha fazer. O perigo, se perigo houve, podia ter
passado, e toda a família estaria em repouso. Espreitou pela
porta do jardim, e viu uma claridade frouxa, através de uma
veneziana. Logo depois ouviu passos na areia. Era o Sr. Antunes
que sentira parar o tílburi.
- Meu genro está mal, disse o pai de Estela; teve esta manhã
uma recaída e perto das oito horas cuidamos perdê-lo.
Jorge entrou.
Luís Garcia estava prostrado; a febre ardia-lhe sinistramente
nos olhos. De um lado e de outro do leito, viam-se a mulher e a
filha, aparentando quietas, mas gastando toda a força moral
em suster a angústia que ameaçava fazer-se em lágrimas.
- Que tem? perguntou Jorge aproximando-se do enfermo.
- Uma febrinha importuna, respondeu este.
A um sinal, Estela e Iaiá retiraram-se da alcova, onde só
ficou Jorge.
Mandando chamar o moço, Luís Garcia punha em execução
um pensamento que lhe brotara no calor da febre. Ouviu do médico
algumas palavras que lhe fizeram supor a probabilidade da morte;
e, não tendo amigos nem parentes, e não querendo confiar
a mulher e a filha ao sogro, lançou mão da pessoa
que lhe pareceu ter a sisudez bastante e a influência necessária
para as dirigir e proteger.
- Seu pai foi amigo de meu pai, disse ele; eu fui amigo de sua família;
devo-lhe obséquios apreciáveis. Se eu morrer, minha
mulher e minha filha ficam amparadas da fortuna, porque o dote de
uma servirá para ambas, que se estimam muito; mas ficam sem
mim. É verdade que meu sogro, mas... mas, meu sogro tem outras
ocupações, está velho, pode faltar-lhes de
repente. Quisera pedir-lhe que as protegesse e guiasse; que fosse
um como tutor moral das duas. Não é que lhes falte
juízo; mas duas senhoras sozinhas precisam de conselhos...
e eu... desculpe-me se sou indiscreto. Promete?
Jorge prometeu tudo, com o fim de o tranqüilizar, porque Luís
Garcia parecia excessivamente aflito com a idéia daquela
eterna separação. O pedido afigurou-se-lhe singular;
atribuiu-o à exaltação febril do doente. Soube
depois que a vida de Luís Garcia dependia da primeira crise
que fizesse a enfermidade, segundo havia declarado o médico.
Eram quase quatro horas quando Jorge de lá saiu. Voltou às
nove e achou o médico. A crise era esperada na tarde desse
dia, e só então se poderia dizer se a vida do enfermo
estava perdida ou salva. Foi o que o médico lhe repetiu,
à porta do jardim, aonde Jorge o foi acompanhar.
- Não obstante, concluiu o médico, ele tem outra doença
que o deve matar dentro de alguns meses, um ano ou ano e meio.
- Coração?
- Justamente.
Esta notícia impressionou o moço. - Não será
ilusão da Medicina? perguntou ele. O médico abanou
a cabeça, e saiu. Jorge encaminhou-se para casa, mas teria
dado apenas três passos, quando viu Estela que vinha ao seu
encontro. A moça parou diante dele.
- Que lhe disse o médico? perguntou.
- Tem esperanças; logo de tarde poderá afiançar
mais alguma cousa.
- Só isso?
- Só.
- Não o desenganou?
- Não.
Estela refletiu um instante.
- Dê-me sua palavra, disse ela.
Jorge estendeu-lhe a mão, sobre a qual Estela deixou cair
a sua, não menos fria que pálida.
- Sou amigo de seu marido, disse Jorge depois de alguns instantes;
creio que ele pode contar com toda a minha dedicação.
Estela pareceu acordar do momentâneo torpor; atentou no moço,
retirou a mão e respondeu com um simples gesto de assentimento.
A alma subjugada tornara à natural atitude. Jorge viu-a entrar
em casa e ficou só alguns minutos, a recordar a revelação
do médico e a sentir que, ao pé da tristeza que o
pungia, havia alguma cousa semelhante a um sentimento egoísta
e cruel.
Entre a esperança e o receio gotejavam algumas horas longas,
até que a crise veio e passou, sem levar consigo a vida ameaçada.
Na manhã seguinte a alegria foi tamanha em redor do enfermo,
que ele viu claramente o perigo e a salvação. Nem
a filha nem a mulher pareciam alquebradas do trabalho e da vigília;
estavam frescas, risonhas, ágeis, partindo entre si o pão
da alegria, como haviam partido irmãmente o pão da
angústia.
Durante a moléstia e a convalescença, Jorge visitou-os
uma vez por dia; e força é dizer que, se por um instante
houve em seu coração um impulso egoísta, tal
impulso não se lhe repetiu depois; serviu ao doente com desinteresse
e lealdade. A família deste mostrou-se agradecida. Luís
Garcia recordou ao moço o pedido que lhe fizera na noite
em que o mandara chamar, e recordou-lho, não só para
lhe agradecer a aquiescência como para explicá-lo.
Mas a explicação era difícil, porque ele cedera
principalmente à aversão que lhe inspirava o sogro,
em quem não tinha a mínima confiança; não
obstante as meias palavras de que usou, Jorge entendeu tudo.
A freqüência trouxe a necessidade. Levado pelas circunstâncias,
Jorge acostumou-se às visitas, e amiudou-as. No mês
de setembro, a pretexto de calor, que ainda não fazia, transferiu
a residência para a casa que tinha em Santa Teresa, e que
não ficava a longa distância da de Luís Garcia.
Não havia que reparar no caso; sua mãe tinha o costume
de passar ali três a quatro meses no ano. Demais, nas últimas
semanas, ele começara a fazer-se menos visto e menos freqüentado.
Podia facilmente passar a outra vida mais reclusa.
Entretanto, como essa mudança antecipada para Santa Teresa
podia não ter em si mesmo toda a explicação
razoável, Jorge buscou enganar-se a si próprio, reunindo
os elementos e lançando ao papel as primeiras linhas de um
trabalho, que jamais devia acabar, mas que, em todo caso, legitimava
a necessidade de repouso. A porção de realidade que
havia no projeto era tão ínfima, que ele sentiu vibrar
dentro de si o latejo da consciência. Para aplacar essa eterna
rebelde, coligiu as forças todas e atirou-se de vez ao trabalho.
Nos intervalos deste é que visitava a casa de Luís
Garcia, uma ou duas vezes por semana. Aos domingos, tinha sempre
a jantar o Sr. Antunes, com quem jogava uma partida de bilhar. Tentou
ensinar-lhe o xadrez, mas desanimou ao fim de cinco lições.
- Ah! mas nem todos têm o seu talento! exclamou triunfalmente
o pai de Estela.
Luís Garcia jogava o xadrez. Era o recreio usual entre ele
e Jorge; outras vezes saíam a passeio até curta distância.
Luís Garcia aceitava de boa sombra essas distrações,
que não eram turbulentas nem cansativas, mas brandas e pausadas,
como ele. Demais nem sempre eram distrações sem fruto.
Jorge apreciava agora melhor as conversações que não
eram puros nada, e os dous trocavam idéias e observações.
Luís Garcia era homem de escassa cultura, sobretudo irregular;
mas tinha os dons naturais e a longa solidão dera-lhe o hábito
de refletir. Também ele ia à casa de Jorge, cujos
livros lia de empréstimo. Era tarde; já não
estava moço; faltava-lhe tempo e sobrava-lhe fome; atirou-se
sôfrego, sem grande método nem escrupulosa eleição;
tinha vontade de colher a flor ao menos de cada cousa. E porque
era leitor de boa casta, dos que casam a reflexão à
impressão, quando acabava a leitura, recompunha o livro,
incrustava-o por assim dizer, no cérebro; embora sem rigoroso
método, essa leitura reticou-lhe algumas idéias e
lhe completou outras, que só tinha por intuição.
A necessidade intelectual de Luís Garcia contribuiu assim
para tornar mais íntima a convivência, única
excepção na vida reclusa que ele continuava a ter,
ainda depois de casado. Jorge pela sua parte não desmentia
até ali o bom conceito que o outro formava de suas qualidades;
e a família viu lentamente estabelecer-se a intimidade e
a estima entre os dous homens. Uma noite, saindo Jorge da casa de
Luís Garcia, este e a mulher ficaram no jardim algum tempo.
Luís Garcia disse algumas palavras a respeito do filho de
Valéria.
- Pode ser que eu me engane, concluiu o céptico; mas persuado-me
que é um bom rapaz.
Estela não respondeu nada; cravou os olhos numa nuvem negra,
que manchava a brancura do luar. Mas Iaiá, que chegara alguns
momentos antes, ergueu os ombros com um movimento nervoso.
- Pode ser, disse ela; mas eu acho-o insuportável.