IAIÁ GARCIA
Machado de Assis
Capítulo XIV
Guiando para
casa, Jorge ia agitado e inquieto; recapitulava a conversação
que acabava de ter com a filha de Luís Garcia. O acaso propusera-lhe
um enigma; o tempo dava-lhe a decifração. Seria a
decifração? O espírito do moço recuava,
não dava crédito à realidade, pelo menos à
realidade aparente; mas esta impunha-se-lhe de quando em quando,
e Jorge recompunha todas as circunstâncias daquelas últimas
semanas e ainda dos meses anteriores. Que era a esquivança,
a rispidez, a hostilidade de Iaiá, senão a máscara
de um sentimento contrário, a vingança de um coração
atordoado pelo suposto desdém de outro? Essa reflexão
vinha tão de molde com os fatos dos últimos tempos,
que era difícil achar mais ajustada explicação.
Logo depois, considerava que seria absurdo atribuir à moça
uma ligeireza e um desgarre inconciliáveis com a prudência
que reconhecia nela, a despeito dos assomos de travessura intermitente.
Travessa, decerto, leviana, jamais.
- Impossível! disse ele sacudindo o ombro.
Mas esse impossível tornava a descer às regiões
da probabilidade, até galgar os limites da certeza. A observação
lhe mostrava que Iaiá tinha a audácia no sangue, e
a razão lhe dizia que um amor sem freio possui todas as imprudências
e vertigens; que umas naturezas são estóicas, outras
rebeldes; finalmente, que há situações morais
incomportáveis, e que a uma candura de dezessete anos é
lícito não distinguir entre o sentimento que fala
e a conveniência que restringe. Esta era a interpretação
benévola; depois vinha a interpretação pessimista.
Podia ser que todos aqueles atrevimentos encobrissem um cálculo,
- o cálculo da ambição, que intentasse trocar
a beleza pelo benefício de uma posição ostensiva
e superior. Quando essa suspeita lhe brotou no espírito,
Jorge não sentiu diminuir a admiração nem a
estima; porquanto, a ambição, se ambição
havia, parecia ser de boa raça. Mas era impossível
combinar o cálculo com as lágrimas daquela tarde,
e ele as sentira quentes, silenciosas, e não podia crer que
uma vida quase adolescente possuísse já a arte suprema
da suprema hipocrisia.
Não há vida tão física ou tão
alheia ao sentimento da personalidade, que tal situação
não padecesse, ao menos, trinta minutos de insônia.
A insônia de Jorge durou mais algum tempo. De envolta com
as conjecturas havia um pouco de satisfação pessoal.
A certeza ou a probabilidade de que, sem nenhuma ação
própria, iniciara nos mistérios do amor uma alma ainda
nova e ingênua, dava ao coração dele alguma
cousa da volúpia do egoísmo; sensação
que, aliás, diminuiu quando lhe ocorreu que talvez esse amor
obscuro lhe houvesse já custado lágrimas e desesperos.
Ele tinha razão quando dizia não ser espírito
vulgar. Afrouxara-se-lhe o ardor dos primeiros tempos, a imaginação
tinha o vôo mais curto; mas a generosidade juvenil ficara
inctata, e com ela a faculdade de ressentir as dores alheias.
- Pobre menina! dizia consigo.
No dia seguinte, Jorge examinou detidamente se lhe convinha tornar
à casa de Luís Garcia, ao menos com a assiduidade
do costume. A situação moral de Iaiá tendia
a agravar-se com a presença contínua dele; em tais
casos, a ausência era um ato de critério e até
de misericórdia. Misericórdia foi o que ele disse
consigo, e sorriu logo depois, com um sorriso de modéstia
envergonhada. A verdade é que Jorge ansiava por lá
voltar; tinha curiosidade de contemplar a sua obra, agora que a
descobria ou presumia havê-la descoberto; se não é
que a noite lhe trouxera uma sombra de dúvida, e ele queria
verificar definitivamente a realidade.
De noite foi. Luís Garcia estava um pouco ansiado e abatido.
- Venha, doutor! disse ele quando viu entrar o filho de Valéria;
este coração é o meu importuno. A mulher procurava
animá-lo; a filha tinha o terror nos olhos. Jorge auxiliou
a família no trabalho de o confortar; três quartos
de hora depois a moléstia cedia, e tornava ao trabalho surdo
da destruição. Luís Garcia era outro, logo
que passava uma dessas crises; tornava-se gárrulo e risonho,
com o fim de reanimar ele próprio a família, e comunicar-lhe
a esperança que lhe começava a faltar. Jorge não
se deixou contaminar da ilusão; recordou a sentença
do médico e sentiu a próxima extinção
daquele homem. Iaiá não conhecia a sentença
do médico; mas o espetáculo da aflição
do pai tinha-a prostrado muito. Aparentemente não se lembrava
da entrevista da véspera; podia até supor-se que,
quando em quando, não se lembrava da presença de Jorge.
Jorge achou-a nos subseqüentes dias, tal qual era nos outros,
menos travessa, porém, e muito mais senhora. Ao cabo de uma
semana trazia todos os elementos de convicção: - Ama-me!
pensava ele ao sair dali uma noite. A convicção, por
mais que a suspeita a houvesse prevenido, atordoou o espírito
de Jorge, que nessa mesma noite resolveu não voltar lá;
resolução varonil, que durou quarenta e oito horas.
Alguns dias, três semanas, decorreram assim na mais aprazível
familiaridade. Jorge, se não obtivera o título, exercia
realmente as funções de irmão mais velho; era
um guia, um conselheiro, uma autoridade. Escutava-a com interesse;
recebia a confidência dos sentimentos da moça, e as
ambições de um coração cuja sede parecia
contentar-se da água que pudesse conter a própria
mão, no primeiro arroio do caminho. Ao mesmo tempo, buscava
temperar-lhe o romanesco com uma forte dose de realidade.
Durante esse tempo, nenhuma frase igual às daquela tarde
veio sacudir o espírito de Jorge; nenhuma lágrima
lhe caiu nas mãos. Mas, se a palavra não vinha, a
voz era insinuante e comovida, às vezes; se os olhos não
choravam, luziam ou quebravam-se de um modo pouco comum. Jorge fingia
não compreender; mais do que isso, forcejou por se persuadir
a si próprio que não compreendia: resultado útil,
que lhe dava a vantagem de saborear em silêncio o gozo de
se saber amado, sem perder o de contemplar uma natureza original,
moralmente exuberante e forte, que, além de tudo, tinha para
ele a fascinação do mistério ou do abismo.
No fim daquelas três semanas encontraram-se em casa da paralítica.
Não houve acordo, mas nada foi casual. - Vou amanhã
à casa de Maria das Dores, disse Iaiá uma noite, prestes
a despedir-se dele. E no outro dia de tarde, Jorge, que havia rareado
os passeios daqueles últimos tempos, acertou de caminhar
para ali, e com tão boa fortuna, que achou a moça
sentada no mesmo banco de pedra em que lhe falara da primeira vez.
Outra vez, quando Iaiá ali voltou, já encontrou Jorge,
ao pé da enferma. Maria das Dores estava ainda mais contente
com a honra da visita do que com a esmola que ele dissimuladamente
lhe levara envolvida em um lenço de ramagens. Jorge animava-a,
dizia-lhe que ainda iriam à Penha naquele ano. Iaiá
parou à porta, espantada e contente.
- Venha, disse a enferma, ande ver como seu noivo está caçoando
com a velha.
- Agradeço-lhe, disse Iaiá; creia que ela merece todas
as consolações.
Na noite desse dia, quando Jorge entrou em casa, um pouco inebriado
da entrevista, achou uma carta de Procópio Dias, que o encheu
de contentamento. Procópio Dias tinha necessidade de se demorar
ainda uns dous meses. Dous meses! Era a eternidade. Jorge sentiu-se
conformado com a notícia de tão longa ausência.
Que importava a presença, se ela o não amava? Essa
reflexão não a fez Jorge, mas a filha de Luís
Garcia, quando ele lhe deu a notícia da carta:
- Que tenho eu que ele esteja ausente ou presente? Ele ou um estranho
é a mesma cousa.
A eternidade foi um minuto; os dous meses voaram como um tufão.
Um dia, no último desses dous meses, Iaiá disse ao
filho de Valéria que achara enfim um marido.
- Um marido? repetiu Jorge empalidecendo.
- Parece que um marido. Não me aprova?
- Se ainda o não conheço!
- Não sei se é um marido, continuou Iaiá depois
de um instante; mas achei o homem a quem amo.
- É a mesma cousa.
- Ou quase.
Houve entre ambos uma longa pausa, durante a qual Iaiá tinha
os olhos fitos no moço, enquanto este não tinha os
seus em parte nenhuma; vagavam de um ponto a outro. Iaiá
repetiu que achara um marido.
- É a segunda vez que me diz isso, redargüiu Jorge com
a voz trêmula e irritada; se o achou, tanto melhor; casará
com ele.
- Não me disse uma vez que não me deixasse ir com
os primeiros olhos que parecessem responder aos meus? não
me disse que era conveniente escolher um homem...
- O que eu lhe disse foram palavras sem sentido, tornou Jorge; não
se dão conselhos ao coração que ama. O casamento
vem talhado do céu, segundo diz o povo; outros dirão
que vem do acaso; ou é o destino de cada um, ou é
uma loteria. A senhora não me pede certamente que lhe diga
o número em que há de sair a sorte grande? Compre
o bilhete e deixe correr a roda. Alguns dias de paciência
e nada mais...
A excitação de Jorge era extraordinária, mas
não foi longa. Alguns instantes de silêncio bastaram
a aplacá-la ou diminuí-la; pelo menos o gesto não
traiu a agitação interior. Pálido, sim, estava
pálido; mas a voz, se não era firme, perdera a aspereza
do primeiro instante.
- Refleti depois da nossa conversa, disse ele e não desejo
tomar nenhuma responsabilidade em um ato de que depende a felicidade
de sua vida.
- Então, não me estima, é o que é, disse
Iaiá em voz queixosa.
Jorge respondeu com um olhar, e a resposta, que ele quisera fosse
um simples protesto, transgrediu esse limite: foi um protesto, uma
queixa e acaso uma interrogação. Iaiá abaixou
os olhos; uma onda de sangue lhe avermelhou a face; Jorge viu-a
ofegante e acanhada durante alguns segundos. Não indagou
o motivo; ergueu-se para sair. Iaiá reteve-o pela aba do
fraque.
- Nega-me então todo o auxílio? disse ela. Depois
de alguns meses de uma vida em que me acostumei a ouvir seus conselhos,
o senhor recusa-me este. Que lhe fiz eu?
- Nada.
Jorge saiu. - Que tenho eu que ela ame, que se case ou não
se case? Sou eu seu pai? seu tutor? Quando assim falava, sentia
dentro de si uma resposta; a consciência desvendava-lhe a
realidade. Sim, tu amas, dizia-lhe ela, tu não fazes outra
cousa há dous meses; deixaste-te envolver nos fios invisíveis;
não sentiste que essa intimidade de todos os dias era a gota
d'água que te cavava o coração. Ah! tu querias
saciar a curiosidade e sair dali sem deixar alguma cousa, sem receber
também alguma cousa? Não se brinca com um inimigo;
e ela o era, e continuará a sê-lo, porque tu estás
definitivamente atado.
A esta voz importuna e verdadeira, Jorge erguia os ombros. Tentou
refugiar-se no sono. O sono rejeitou-o de si. Então fumou,
desceu à chácara, fatigou o corpo para melhor adormecer
o espírito; mas a lua que batia no repuxo mostrava-lhe, ora
um casebre de Santa Teresa, ora uma varanda da Tijuca, como se fossem
o verso e o anverso da medalha de seu coração, toda
a história da vida que ele vivera até ali. A diferença
entre uma e outra dessas duas fases é que presentemente o
desengano não o levaria à guerra, nem lhe daria os
desesperos do primeiro dia. Não; Jorge levantou-se na manhã
seguinte um pouco atordoado, mas não inteiramente abatido.
Sentia alguma opressão moral, um desejo de saber quem era
o adversário preferido. Merecê-la-ia? Que a merecesse,
embora; ele tinha um direito anterior e superior; desde que a amava,
excluía todos os outros.
À força de pensar naquilo, chegou a entrever a realidade;
perguntou a si mesmo se a declaração da moça
não seria antes um estratagema. Podia ser; tinha-a visto
corar, inclinar o colo, ficar por algum tempo acanhada e comovida.
Essa conjectura desabafou-lhe um pouco o espírito; e, por
isso que era a conjectura da esperança, não tardou
em transferir-se a evidência. Relembrou todas as ações
de Iaiá, suas palavras, as circunstâncias e os termos
de reconciliação, as lágrimas sem motivo, a
paciência, o interesse, o gosto de o conversar; finalmente,
esse quê misterioso que divulga a uma alma a preferência
de outra. Quando pouco a pouco lhe penetrou no coração
essa idéia, Jorge reconheceu que havia sido precipitado.
Queria escrever-lhe e recuou; queria lá voltar, mas resolveu
o contrário.
- Se é um estratagema, pensou ele, ela terá nisto
o seu castigo; se verdadeiramente ama a outro, que vou lá
fazer agora?
Pensou isto; pensou mais; só não pensou em Estela.
Iaiá não se pôde conter. Ao cabo de sete dias
de ausência determinou ir ao lugar onde mais de uma vez encontrara
o filho de Valéria.
- Vai chover, disse Luís Garcia; guarda a visita para amanhã.
Iaiá teimou na resolução. - É uma nuvem
que passa, disse ela; em saindo a Lua verá como o tempo fica
limpo.
Estava inquieta, preocupada, tinha estremecimentos nervosos; não
atendeu à segunda observação do pai. O pai
dizia-lhe que não havia necessidade de desobedecer para realizar
um capricho. Como repetisse a expressão, Iaiá ficou
pálida e não ousou responder; mas Estela, que assistia
calada aos conselhos de um e à resistência de outro,
disse sorrindo à enteada:
- Vá; seu pai deixa-a ir.
Iaiá ia agradecer a intervenção; mas, quando
os olhos das duas mulheres se encontraram, detiveram-se por um instante
longo. Tinham-se entendido; Estela suspeitara a causa da insistência
e da palidez; Iaiá aceitava a palavra da madrasta, como uma
homenagem de vencida.
Poucos minutos depois chegava a moça à casa de Maria
das Dores. Despediu Raimundo; a porta estava aberta; entrou. Da
sala, onde se deteve, ouviu noutra sala interior a voz de Jorge.
- Não se esqueça; há-de entregar-lhe isto,
quando ela vier; não mande lá à casa; é
um livro.
Iaiá entrou.
- Não contava comigo? disse ela.
- Não; por isso deixava-lhe este livro, respondeu Jorge tirando
o embrulho à doente e entregando-o à moça;
é um romance, creio que lhe falei nele uma vez.
Iaiá tomou-lhe o livro, abriu-o, folheou-o com sofreguidão,
como certa de achar uma página marcada. Estava marcada uma
página; e a marca era um bilhete. Abriu-o; dizia assim: "A
senhora deu-me uma vez um título que eu esperei viesse a
ser verdadeiro. Diga se me enganei, se o céu lhe destinou
outro noivo, ou se meu coração pode ter ainda uma
esperança. Não lhe custará muito; não
custa muito uma simples palavra."
Enquanto ela lia rapidamente estas linhas, e tornava-as a ler, Jorge
afastou-se até à sala da frente. A carta era das que
não permitem a presença do autor; precisam do prestígio
da ausência; são, para assim dizer, expressões
truncadas que a imaginação perfaz e amplia. Jorge
ia a sair, quando ouviu o rumor dos passos de Iaiá; deteve-se
a esperar a resposta. A moça parou diante dele, e entre ambos
houve um momento de silêncio e hesitação.
- Cego! disse enfim Iaiá estendendo-lhe as mãos com
um ar de simplicidade e confiança.
Jorge recebeu-as nas suas; e a linguagem que a alma não quis
confiar do lábio do homem, eles a disseram com os olhos,
durante alguns minutos largos. Jorge perguntou finalmente: - É
certo? ama-me? - Iaiá cingiu-lhe o pescoço com os
braços, e inclinou a cabeça com um gesto de submissão.
Jorge inclinou-se também, e nos cabelos, - nos fios de cabelo,
que lhe pendiam na testa, pousou o mais puro e fugitivo dos beijos.
Ao contacto daquele lábio, Iaiá enrubesceu e estremeceu
toda; mas não fugiu, não retirou os braços;
deixou-se ficar subjugada e feliz.
Homero conta que Vênus, descendo ao campo da batalha entre
gregos e troianos, saiu dali ferida e ensangüentada. Iaiá
teve a sorte da diva homérica; interpondo-se entre Jorge
e Estela trouxe dali ferido o coração. Naquele espaço
de alguns meses, obra de paciência e luta, de violência
e simulação, para o qual fizera convergir todas as
forças morais, não suspeitou que, vencendo ao outro,
podia vencer-se a si mesma. Queria ser uma barreira entre o passado
e o presente, sem cogitar na dificuldade do plano, nem nas conseqüências
possíveis dele. Sobretudo, não pensou na moralidade
da ação. Que podia ela saber disso? Sua suspeita ia
até admitir a persistência do amor no coração
da madrasta, mas não lhe atribuía mais do que uma
aspiração ou saudade silenciosa; não sabia
mais. Para combater esse inimigo inerte, é que pôs
em campo a porção de astúcia que a natureza
lhe dera, as graças do rosto e a rara penetração
de espírito.
Iaiá transpôs a soleira e saiu; precisava de ar, de
espaço, de luz; a alma cobiçava um imenso banho de
azul e ouro, e a tarde esperava-a trajada de suas púrpuras
mais belas. Jorge acompanhou-a; a comoção dele era
sincera e forte, mas menos intensa, menos desvairada que a de Iaiá,
cujos olhos pareciam dizer a tudo o que a rodeava, desde o Sol poente
até o último grelo de capim: - olhai, vede as bodas
do meu coração; este é o meu amado.
Perto da noite, Raimundo veio buscá-la; Jorge acompanhou-a.
Iaiá lembrou-se de traçar com um grampo, no musgo
que reveste o aqueduto, o nome de Jorge e a data; instando com ele,
Jorge escreveu também o nome dela. Raimundo sorria entre
dentes. Em caminho falaram do presente e do futuro; e, num intervalo,
tocaram levemente no passado.
- Sabe que eu tinha um desgostozinho? disse Iaiá. Jorge interrogou-a
com os olhos. - É verdade, um capricho, continuou ela. Quisera
que o senhor nunca tivesse gostado de outra pessoa, e é bem
possível que não seja este o primeiro amor de seu
coração.
- Não é, respondeu Jorge depois de um instante de
reflexão. Amei uma vez, há muito tempo; mas todo esse
passado acabou.
- Está certo de que acabou?
- Criança! Que noiva receou nunca de um amor antigo, começado
e acabado, antes dela ser amada também? Que o novo amor seja
sincero e fiel, eis o que se deve pedir e exigir. Quanto ao passado,
é como os defuntos; reza-se por ele, quando se reza.
- Tenho medo de almas do outro mundo, tornou Iaiá sorrindo.
O primeiro jorro da ventura tem uma força, que dificilmente
poderá ser contida pelo cálculo da necessidade. Iaiá
mostrou-se tão expansiva naquela noite e nos seguintes dias
derramou de tal modo a vida que pulhulava nela, que Estela compreendeu
tudo o que se passava entre a enteada e Jorge. Há uns amores,
aliás verdadeiros, a que precedem a muitas contrafacções;
primeiro que a alma os sinta, tem despendido a virgindade em sensações
ínfimas. Iaiá ignorava tudo; não soletrara
o amor, aprendera-o de um lance. Trazia o coração
intacto. Seu acordar foi uma aurora súbita, mas rutilante
e límpida. No meio da embriaguez que lhe dava o novo sentimento,
não cogitou nas possíveis conseqüências
dele; não perguntou a si própria se era verdade que
no coração da madrasta havia uma saudade ou uma esperança
silenciosa, e se isso podia ser a raiz de largos ódios e
dissensões domésticas. Não interrogou o futuro.
Fenômeno curioso! A lembrança do pai por um instante
esquecida; o egoísmo do amor devorou-a.
Capítulo
XV
A fronte de
Estela não tinha a tristeza dos vencidos. O amor persistia
no coração, como um mau hóspede; e o espetáculo
daqueles últimos meses não fizera mais do que irritá-lo.
Mas a força moral de Estela subjugou-o. A luta fora longa,
violenta e cruel; a consciência do dever e o respeito de si
própria acabaram triunfando. Talvez não fosse difícil
perceber, por baixo da serenidade do rosto, o cansaço que
deixam as grandes tempestades morais. A tempestade ninguém
lha viu.
Não obstante, no dia em que a paixão dos dous lhe
pareceu evidente, Estela sentiu rugir-lhe no coração
um vento de cólera; vento forte e instantâneo. Dessa
vez, o olhar penetrante de Iaiá não pôde ler
no fundo da alma da madrasta; e porventura lhe diminuiu a suspeita,
quando a viu contemplar sem irritação nem abatimento
a situação nascida de seu esforço único.
Entretanto, a moléstia, que solapava a existência de
Luís Garcia, agravou-se por aquele tempo, e o enfermo foi
compelido a pedir alguns meses de licença. Chamado a vê-lo,
o médico reconheceu que a enfermidade tocava ao desenlace,
e com a enfermidade a vida. Não o disse à família,
mas não o escondeu de Jorge, quando este diretamente lho
perguntou.
- Está condenado à morte, disse ele; a moléstia
devorou-o lentamente, mas com segurança. Pode viver dous
a três meses.
Jorge ficou aterrado. Os acontecimentos tinham tomado tal feição,
que ele já pedia a vida de Luís Garcia. Quem lho dissera
alguns anos antes? Não somente padeceria com a morte do enfermo,
mas teria de ver padecer Iaiá, de cuja adoração
filial era testemunha, e chegava a recear que o golpe lhe fosse
fatal. Nada disse; afetou tranqüilidade e indiferença,
mas entendeu que os sucessos o designavam a proteger a família
e dispunha-se a assumir esse papel, quando fosse ocasião.
Estela não receou menos do que na moléstia anterior;
mas dessa vez não interrogou Jorge, conquanto o visse falar
ao médico. Nos últimos tempos, o seu silêncio
era mais contínuo e habitual. Parecia desinteressada de tudo,
menos do marido. Suspeitou da gravidade da moléstia, interrogou
o médico, e ouviu deste palavras de esperança:
- Não lhe peço esperanças ilusórias,
disse Estela; peço-lhe que me diga toda a verdade.
- A verdade é cruel de dizer.
- Perdido? disse ela com voz surda.
O silêncio do médico foi a confirmação
daquela palavra. Estela sentiu fugir-lhe todo o sangue; mas não
soltou uma lágrima. Pôde refletir no perigo de ser
vista essa denúncia do mal, e dominou-se. Quando se achou
só consigo, deu livre campo às angústias; encarou
a catástrofe e pensou nas conseqüências da morte
e no incerto futuro que a aguardava dentro de poucos dias. O futuro
trouxe-a ao presente, o presente levou-a ao passado. A vida só
lhe dera alegrias médias e dores máximas. Não
foi a paixão que a levou ao casamento, mas somente a conveniência
e o raciocínio. No casamento achara os sentimentos de apreço,
a mútua consideração, a brandura das relações
domésticas; esse fogo, porém, cuja intensidade não
dura, mas que é o férvido sol dos primeiros dias,
precursor necessário da tarde repousada e da noite tranqüila,
esse fogo, essa fusão de duas existências, esse ardor
expansivo, condição de sua natureza moral, não
os conheceu Estela. Ou o destino ou o orgulho privou-a de achar
no casamento a paixão santificada. Pois bem, se alguma cousa
podia compensar-lhe a falta, era a longa duração de
uma felicidade segura, embora tíbia; era envelhecer sob a
monotonia de um horizonte sem sol nem tempestade. O destino negava-lhe
a compensação.
Não tinha Estela ao pé de si com quem repartisse as
tristezas. O pai seria o último de todos. A viuvez deixá-la-ia
sem família. Esta idéia trouxe outra, - a de apressar
o casamento da enteada, de modo que nenhum vínculo moral
lhe sobrevivesse ao marido. Uma noite, tendo Luís Garcia
adormecido, Estela deu a perceber à enteada que o estado
do pai era grave. Iaiá empalideceu. Jorge fez um gesto de
reprovação.
- A moléstia não é leve decerto, disse este;
mas não se segue daí que se deva...
- Tudo se deve prever, tornou Estela. Pela minha parte, entendo
que prevenir um caso fatal não é fazer com que ele
se dê. Iaiá sabe o amor que lhe tem seu pai; seria
para ele uma fortuna poder abençoá-la. Vamos lá,
continuou ela, pegando nas mãos de um e de outro, por que
é que se não casam?
Momentaneamente acanhados, nenhum deles assentiu nem recusou. Iaiá
olhava espantada para a madrasta.
- O silêncio é uma maneira de responder, continuou
esta; querem dizer que concordam comigo, não é? Nesse
caso, seremos três para fazer a cousa mais simples do mundo,
que é casar duas criaturas que se amam... Por que não
a pede o senhor amanhã? O casamento pode ser feito dentro
de poucos dias, à capucha, cousa simples...
Iaiá tinha enfim saído do primeiro instante de estupefação.
- Mas, papai, está mal? disse ela.
- Todos nós estamos mal, apesar de termos saúde, respondeu
Estela; num dia cai a casa. A doença dele é grave,
é coração...
- Tem razão, interveio Jorge; podemos concluir tudo em poucos
dias, duas semanas, quando muito, ou três.
Jorge não ficou pouco impressionado da intervenção
de Estela; e conhecendo os sentimentos que a distinguiam, admirava
essa impassibilidade moral que esquecia ou fingia esquecer. Depois
examinou-se a si próprio; sentiu que o amor que o dominava
agora, posto fosse profundo, não era violento, não
lhe queimava o coração. Comparou-se ao que tinha sido,
e esse cotejo, no primeiro instante, não foi importuno; foi
antes lição e filosofia. Mentalmente sorriu. Era ele
o mesmo homem? Outrora caminhara resoluto às soluções
trágicas; agora, com igual sinceridade, entregava o coração
a outra mulher. Na fronte desta mal ousara roçar um ósculo
medroso e casto, ele, que novamente arrebatava dos lábios
da outra as primícias do pudor. O homem não era o
mesmo. Jorge advertiu que um abismo separava as duas estações
de sua vida, e concluiu que não era volúvel o coração
dele, mas que uma lei regia os sentimentos, como os caracteres,
estatuto universal e comum. Embora a isenção presente,
Jorge experimentou um pouco da nostalgia do passado; sorria sem
amargura, mas com um travo de melancolia.
- Aquele orgulho é ainda maior do que eu pensava, dizia ele.
No dia seguinte, Procópio Dias veio acordá-lo em casa.
- Quando chegou? perguntou Jorge.
- Ontem de tarde, e a primeira visita que faço é esta.
Demorei-me mais do que queria; mas enfim cá estou, - cá
estou, e mais magro. O senhor é que me parece mais gordo.
Procópio Dias falou compridamente da política argentina
e da magistratura de Buenos Aires; falou também um pouco
das mulheres platinas. De quando em quando, abria um claro, como
para deixar que o outro intercalasse alguma cousa menos estrangeira;
Jorge, porém, falava pouco e sem apetite; seu constrangimento
foi visível quando Procópio Dias o interrogou, acerca
da família de Luís Garcia; respondeu-lhe sem interesse.
Procópio Dias fitou-o durante alguns segundos; as rugas da
testa engrossaram-se-lhe extraordinariamente.
- E Iaiá? disse ele; parece-lhe então que nenhuma
esperança...
Fez uma pausa; Jorge preencheu-a com um sorriso descorado, mas assaz
explicativo. Procópio Dias começou a farejar a realidade,
mas nenhuma das linhas do rosto denunciou a impressão que
esta lhe causara. Após um silêncio largo, entrou a
rir de bom humor.
- Quer que lhe diga uma cousa? perguntou ele. Saiba que volto curado.
Quando penso na moléstia tenho vergonha; é verdade,
tenho vergonha da figura que fiz. Já sou muito maduro para
cavalarias altas. A doença ainda me durou algum tempo; sarei
com a mudança de clima; o amor, ao menos na minha idade,
é uma espécie de beribéri... Há de ter-se
rido de mim; é justo, porque eu não faço hoje
outra cousa.
Jorge contestou com um simples gesto; mas Procópio Dias falava
com tanta naturalidade, ria com tamanha franqueza, que a explicação
deu à conversa a vida que ela tendia a perder. Jorge foi
mais expansivo, mais alegre; não lhe confiou a nova situação,
mas o segredo parecia debruçar-se-lhe das pálpebras
e dos cantos da boca. Essa alegria era um respiro da consciência,
que se sentia um pouco vexada em presença daquele homem,
cuja confiança fora a origem de seu recente amor; era também
a satisfação de não ter conseguido ligá-lo
à filha de Luís Garcia; consórcio repugnante,
híbrido, cujo resultado seria dar à moça, -
uma longa amargura sem certeza de resgate.
Quando Procópio Dias saiu dali ia suspeitoso da realidade.
- Mas a outra? dizia ele consigo. Sacudiu os ombros, e não
ficou mais tranqüilo. Levava já no peito um pouco de
impaciência e irritação; tinha a fronte obscurecida
por uma nuvem. Mais tarde alumiou-a um clarão súbito,
ainda que frouxo, era um reflexo de esperança. Talvez houvesse
julgado com precipitação: era possível atribuir
a reserva de Jorge, não à competência pessoal,
mas a uma maneira de entender as máximas do decoro. Quem
sabe? Ele podia ter-se arrependido de haver prometido tanto. Essa
reflexão arejou um pouco o espírito, sem lhe tirar
de lá o miasma corruptor. Era força conhecer a verdade.
Nesse mesmo dia, foi ele a Santa Teresa.
Luís Garcia concedera naquela manhã a mão da
filha. Na ocasião em que Procópio Dias ali entrou,
tinha-a ele ao pé de si, e contemplava-a com amor e saudade,
- duas vezes saudade, porque também a morte os viria desunir.
Entre si recordava os tempos em que ele e ela eram, um para o outro,
toda a terra e todo o céu; e perguntava à natureza
se era justo sobrepor ao primeiro vínculo outro vínculo
estranho, e a natureza lhe respondia que não somente era
justo, mas até necessário. Então o pai sentia-se
feliz com a felicidade da filha, cujo egoísmo lhe ensinava
a abnegação. Se ela devia amar a outrem, que faria
ele mais do que ceder? Quanto ao noivo eleito, merecia-lhe todas
as aprovações; era o único estranho que lhe
penetrara um pouco mais na intimidade; amante, benquisto e opulento,
podia dar à moça, além da felicidade do coração,
todas as vantagens sociais, ainda as mais sólidas, ainda
as mais frívolas: - e esse homem obscuro, enfastiado e céptico,
saboreava a ventura que a filha iria achar no turbilhão das
cousas que ele não cobiçara nunca.
Uma noite bastou a Procópio Dias para conhecer a situação.
Não obstante as declarações do pretendente,
que aceitou como sinceras, Jorge buscou dissimulá-la; mas
um amor de poucos dias é como as crianças de berço:
denuncia-se pelo vagido. Se Procópio Dias não tornasse
a ver a moça, é possível que o tempo lhe abafasse
a paixão. Mas viu-a, e viu-a mais bela do que a deixara.
Não era a vaidade do triunfo alheio que o irritava; não
se tratava do triunfo, que é o aparato da vitória,
tratava-se da vitória mesmo, que ele quisera obter, - obscura,
se fosse preciso, - mas efetiva e exclusiva.
- E a outra? dizia ele.
Dessa vez a pergunta não passou vagamente; trouxe uma idéia
consigo, diante da qual Procópio Dias chegou a recuar. Essa
idéia era envenenar na própria origem a afeição
recente; nada menos que denunciar a madrasta à enteada. Se
alguma cousa pudesse atenuar a perversidade de semelhante recurso,
era a persuasão que ele tinha de que diria a verdade. Cria
deveras no amor secreto dos dous; com algum esforço poderia
fazer supor que o casamento da filha de Luís Garcia era uma
sugestão da madrasta. Ele próprio achava essa combinação
verossímil, conveniente, reparadora.
- Maganão! a duas amarras! dizia o pretendente em tom surdo.
E os cantos da boca se lhe derreavam, de um jeito que era tudo,
invejoso, odiento e torpe.
A ocasião veio. Um pouco irritada com a assiduidade de Procópio
Dias e a confiança que parecia renascer nele, Iaiá
assentou de lhe dizer francamente que estava prestes a casar. Procópio
Dias empalideceu. Supunha apenas provável o que era já
definitivo. Olhou longamente para ela; a extinção
da esperança não implicava a extinção
do desejo; pelo contrário, vinha pungi-lo e açulá-lo.
Seus olhos mostraram então duas expressões diversas;
a primeira involuntária, a mesma com que os dous velhos de
Israel espreitavam a filha de Helcias, um olhar terreno e mau; a
segunda voluntária, não de queixa, não de súplica,
mas de lástima. A idéia ruim tornava a arder-lhe no
cérebro.
- Não sabia, disse ele, depois de curta pausa. Com quem?
- Com o Dr. Jorge.
- Ah!
Procópio Dias riu com a testa, e tornou a deitar-lhe um olhar
de lástima. - Pobre moça! murmurou ele entre dentes.
Iaiá fitou-o severamente; depois, sorriu e perguntou com
alguma ironia:
- Não aprova a escolha?
- A escolha é excelente, disse ele; mas há circunstâncias
que fazem do ótimo péssimo. Ouça-me; a senhora
sabe que eu a amei; supõe talvez que já não
a amo e engana-se; amo-a como no primeiro dia. Tive idéia
de casar com a senhora; perdi a idéia, mas guardei o sentimento.
Talvez isso lhe diminua a sinceridade das minhas palavras; mas eu
cedo à voz da consciência, sem calcular com a sua aprovação...
Fez uma pausa.
- Acabe, disse a moça.
- Há cousas que um coração inexperiente não
pode entender; cousas que talvez se lhe não devam referir.
Quer um conselho? não aceite o casamento; desfaça-o,
não para casar comigo, mas desfaça-o.
Iaiá fez-se pálida. Procópio Dias, pasmado
do próprio arrojo, compreendeu que havia ido muito longe
naquelas poucas palavras; mas já não havia meio de
as explicar de modo verossímil. Como se fizesse um monólogo
interior, abanava a cabeça ou levantava a ponta do lábio,
enquanto os olhos, perdidos no ar, tinham o aspecto vítreo
das fortes concentrações. Iaiá olhou para ele
atônita e confusa; não sabia o que pensasse, não
podia ou não queria entender. Afinal, coligindo todas as
forças, perguntou audazmente por que motivo lhe cumpria desfazer
o casamento.
- Qualquer que seja o motivo, disse ele, não lhe aconselho
que o aceite logo como decisivo. Reflita antes de resolver; a responsabilidade
será sua, do mesmo modo que o benefício há
de ser seu. Meu conselho é que o desfaça.
- Por quê?
- Porque muitas vezes o casamento é... é uma máscara,
uma... Seu noivo ama a outra pessoa... Que tem?
Iaiá fizera-se lívida. Terror, indignação,
abatimento, sua alma passou por todos esses estados, padeceu-os
até simultaneamente, sem que a boca achasse uma só
palavra de resposta ou de protesto. A delação fulminara-a;
nunca Procópio Dias chegou a compreender o motivo de tamanho
e tão súbito efeito. O efeito aterrou-o em parte,
e em parte o consternou; alguma fibra lhe ficara intacta, no meio
da decomposição moral de todo o seu ser, e essa bastou
a ressentir o golpe que ele mesmo vibrara.
- Outra... Que outra? balbuciou Iaiá segurando-lhe um dos
braços.
Procópio Dias abanou a cabeça solenemente, como a
dizer que não podia ir mais longe. A esse gesto seguiu-se
um silêncio largo, durante o qual a moça pôde
vencer a primeira comoção e refletir sobre o que lhe
convinha entender.
- Ama a outra? disse ela. Quem quer que seja essa rival, já
agora o noivo é meu; e é natural que me ame mais do
que a ela, visto que prefere casar comigo...
Não obstante a firmeza que procurava dar à palavra,
a palavra era difícil e a voz parecia morrer-lhe na garganta.
Procópio Dias compreendeu que a comoção estava
apenas dominada, e que o veneno penetrara abaixo da epiderme. Era
a primeira vez que lhe via esse aspecto dolorido; antes de embarcar,
conhecia-a menina caprichosa; depois do regresso, achou-a senhora
refletida; naquela ocasião, a dor, oculta embora, como que
lhe dava um encanto mais. Efetivamente o rosto de Iaiá traía
o estado do coração; os olhos não correspondiam
ao esforço que ela fazia para os fixar.
- Se lhe parece, esqueça o meu conselho, disse ele, e não
me leve a mal se lhe preguei um susto. Talvez o susto haja passado.
Não importa; creia que há casamentos impossíveis;
casamentos destinados a ... não sei a que... pode ser que
a cousa nenhuma... ou a cousa muito grave, muito grave.
- Cale-se! rugiu surdamente a moça.
Procópio Dias continuou:
- Uma só palavra, disse ele. Há de atribuir ao despeito
o aviso que lhe dei. É verdade; há uma grande porção
de despeito em mim. Por que lhe falaria eu, se não tivesse
um motivo pessoal? Esse homem traiu-me; eu tinha-lhe confiado o
depósito do meu amor; ele abusou da confiança: fez-se
amado em meu lugar. Não me queixo da senhora. A senhora não
me devia nada; - um pouco de simpatia, talvez; - no futuro, pode
ser que me deva também um pouco de gratidão.
Procópio Dias saiu logo depois destas palavras. Estava satisfeito;
desde que pôde formular em um ou dous raciocínios o
sentimento oculto que o fazia agir, achou nele a legitimidade de
tudo o que acabava de dizer. Era um duelo; recebera um golpe na
espádua, respondia com outro no coração, mais
certeiro e provavelmente mortal; e se não era duelo, era
emboscada por emboscada; direito de represália.
Prostrada com o golpe que acabava de receber, Iaiá não
teve sequer as lágrimas do desespero nem as da indignação.
Há dores secas, como há cóleras mudas. A suspeita,
que o tempo devia carcomer de todo, e que o amor de Jorge ia já
tornando problemática, essa ruim suspeita renascia tão
vivaz e pertinaz como alguns meses antes, quando arrancou aos olhos
de Iaiá as primeiras lágrimas de mulher. Não
podia crer que o amor de Jorge não fosse sincero; era-o;
parecia-o, ao menos. Mas a existência do outro amor, não
era já o coração que lhe dizia, era uma voz
estranha que a vinha delatar: circunstância nova, que fazia
convalescer a dúvida anterior, até o ponto de lhe
dar todos os visos da realidade. Iaiá sentia-se arrojada
outra vez ao vasto e escuro espaço de suas antigas cogitações;
- erma, desamparada de toda proteção humana, não
lhe restava mais que duvidar e gemer, até achar na própria
ductilidade de seu espírito a força que lhe não
podia dar nenhuma origem exterior.
A madrasta foi ter com ela meia hora depois de sair Procópio
Dias. Pouco antes, o marido tivera tamanha aflição,
que Estela chegou a recear o último golpe; agora ficava prostrado.
Estela apareceu à enteada com o olhar ainda assustado e o
passo mal seguro; Iaiá não viu essa mudança,
nem ouviu as primeiras palavras com que ela lhe falou do pai. Olhava
só, enquanto o coração parecia querer despedaçar-lhe
a arca do peito.
- Iaiá, ande ter com seu pai; seu pai está hoje muito
doente.
Vendo que a moça não se movia, Estela lançou-lhe
o braço à roda da cintura. - Vamos, disse. Iaiá
estremeceu toda; depois, metendo-lhe as mãos nos ombros,
empurrou-a violentamente e caminhou para a porta.
- Iaiá! bradou a madrasta.
A enteada voltou-se, e, estendendo o dedo sobre os lábios,
impôs-lhe silêncio. O olhar desvairado e incônscio
parecia antes de loucura que de indignação. Estela
ficou estupefacta. O abismo entre as duas estava de todo aberto.
Luís Garcia foi o laço que ainda pôde conservar
atadas essas duas existências, já agora antipáticas
uma à outra. A vida dele era necessária a ambas. Uma
punha nela todas as esperanças de um coração
crédulo; outra apenas lhe dava aquela porção
última, que não desampara os necessitados. Tréguas
houve, mas sombrias e violentas. Não se falavam as duas,
não trocavam um só olhar na ausência de Luís
Garcia; diante dele, mostravam-se como dantes. Esta situação
incomportável parecia aliás definitiva.
Jorge percebeu-a; ele próprio sentiu a princípio o
efeito de um acontecimento, que não podia adivinhar e necessariamente
era grave. Iaiá, porém, venceu-se depressa em relação
a ele. A alma, se o vento lha fizera dobrar, para logo retomou a
posição dos outros dias; mostrou-se terna com ele,
afável, impaciente de concluir o casamento. Seu amor, que
não diminuíra, nutria agora uma centelha de ódio.
Iaiá sentia alguma cousa da alma trágica de Medéa,
mistura de aversão e sacrifício. Um só pensamento
influía nela: confiscar aquele homem, arrastá-lo consigo,
dominá-lo depois, despedaçar de uma vez o laço
que supunha atá-lo ao coração da madrasta.
Marcou-se um sábado para o casamento; mas os primeiros dias
da semana foram de tão mau agouro, que a família resolveu
deferi-lo para melhor ocasião. O enfermo piorou rapidamente.
A moléstia entrou no último período.
Iaiá viu morrer tristemente o sol de sábado, e não
viu nascer mais aprazivelmente o de domingo. Não pensava
ainda na morte do pai, mas alguma cousa lhe fazia tremer o coração.
A presença de Jorge é que lhe dava ânimo e conforto,
posto que ele próprio se sentisse apreensivo com o desenlace
próximo da enfermidade de Luís Garcia.
Lenta e caprichosa nos primeiros tempos, a enfermidade teve rápido
e inflexível o período último. No fim de poucos
dias a morte foi declarada iminente. Estela, não obstante
achar-se preparada para o golpe, mal pôde resistir ao primeiro
abalo. Iaiá ficou como doida. O pai fora a sua primeira e
contínua adoração. Durante alguns anos não
conheceu outro mundo, outro afeto, outra família, além
daquele homem grave e terno, cujos olhos a protegiam e alumiavam.
No primeiro instante não pôde crer na triste nova.
Mas a realidade avultou a seus olhos, e foi então que a alma
tentou romper todos os elos e voar, antes dele, a esperá-lo
na imensa vastidão azul, para empreenderem juntos a derradeira
viagem. Não chorou nas primeiras horas; a dor trancara-lhe
as lágrimas; mas estas vieram logo depois, e ela as verteu
em silêncio, sufocando os soluços, estorcendo-se na
solidão da alcova.
Luís Garcia reiterou a Jorge o pedido que lhe fizera uma
vez, em relação à família; mas agora
restringia-o a Estela.
- Peço-lhe que não desampare os meus. Sei que morro,
e quero ter a certeza de que só deixo algumas saudades. O
senhor vai casar com minha filha; nada me inquieta a este respeito.
Mas Estela, que não é mãe de Iaiá, ou
é somente mãe de coração, Estela vai
ficar só, e eu não quisera morrer com a idéia
de que a deixo infeliz. Promete-me que não a desamparará
nunca?
Jorge prometeu. Estela, que estava presente, procurou tranqüilizar
o enfermo, e pediu-lhe que não falasse tanto. Luís
Garcia não atendeu; exaltou as virtudes da mulher, a dedicação,
o zelo, a afeição que lhe tinha.
- Digo-lhe que fui feliz, concluiu ele; minha alma era já
velha, quando a dela se lhe uniu, e contudo... sim, minha alma rejuvenesceu
um pouco...
- Já tem falado muito, interrompeu Estela, descanse, não
quero que diga mais nada.
Luís Garcia pediu ainda à mulher e à filha
que se amassem como até ali. Tinha falado excessivamente;
ficara abatido. Dali em diante, a morte não fez mais do que
apoderar-se, trecho a trecho, da sua vítima. Já a
noite desse dia foi mais cruel que as anteriores; todo o seguinte
dia foi de angústia para as duas mulheres. Na manhã
do outro começou a agonia dele, que durou algumas horas,
até que com o último sopro devolveu a alma ao criador.
Ao vê-lo morrer, as duas mulheres ficaram longo tempo prostradas.
Era a primeira vez que contemplava a morte. Nenhuma delas vira nunca
expirar uma só criatura humana; e a primeira que a seus olhos
se despedia da vida representava para elas largos anos de afeição
terna e profunda, e o mais forte laço moral que as ligava
uma a outra. Nesse instante solene, abraçaram-se sem reflexão;
a dor impeliu-as com a mão de ferro, e, madrasta e enteada
confundiram ali suas nobres, tristes e inúteis lágrimas.
Juntas caíram de joelhos ao pé do cadáver,
e chamaram em vão pela alma que se fora.
Aos pés da cama, com o gesto dolorido, Jorge via a aflição
das duas mulheres, sem lhes poder nem querer valer. Quanto a Raimundo,
não pôde ver expirar o senhor; correu ao jardim, onde
ficou longo tempo sentado no chão, com a cabeça encanecida
entre os joelhos, sacudido pela violência dos soluços.