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Histórias Sem Data
Machado de Assis



A SENHORA DO GALVÃO

Começaram a rosnar dos amores deste advogado com a viúva
do brigadeiro, quando eles não tinham ainda passado dos
primeiros obséquios. Assim vai o mundo. Assim se fazem
algumas reputações más, e, o que parece absurdo, algumas
boas. Com efeito, há vidas que só têm prólogo; mas toda a
gente fala do grande livro que se lhe segue, e o autor
morre com as folhas em branco. No presente caso, as folhas
escreveram-se, formando todas um grosso volume de
trezentas páginas compactas, sem contar as notas. Estas
foram postas no fim, não para esclarecer, mas para
recordar os capítulos passados; tal é o método nesses
livros de colaboração. Mas a verdade é que eles apenas
combinavam no plano, quando a mulher do advogado recebeu
este bilhete anônimo:

"Não é possível que a senhora se deixe embair mais tempo,
tão escandalosamente, por uma de suas amigas, que se
consola da viuvez, seduzindo os maridos alheios, quando
bastava conservar os cachos..."

Que cachos? Maria Olímpia não perguntou que cachos eram;
eram da viúva do brigadeiro, que os trazia por gosto, e
não por moda. Creio que isto se passou em 1853. Maria
Olímpia leu e releu o bilhete; examinou a letra, que lhe
pareceu de mulher e disfarçada, e percorreu mentalmente a
primeira linha das suas amigas, a ver se descobria a
autora. Não descobriu nada, dobrou o papel e fitou o
tapete do chão, caindo-lhe os olhos justamente no ponto do
desenho em que dois pombinhos ensinavam um ao outro a
maneira de fazer de dois bicos um bico. Há dessas ironias
do acaso, que dão vontade de destruir o universo. Afinal
meteu o bilhete no bolso do vestido, e encarou a mucama,
que esperava por ela, e que lhe perguntou:

- Nhanhã não quer mais ver o xale?

Maria Olímpia pegou no xale que a mucama lhe dava e foi
pô-lo aos ombros, defronte do espelho. Achou que lhe
ficava bem, muito melhor que à viúva. Cotejou as suas
graças com as da outra. Nem os olhos nem a boca eram
comparáveis; a viúva tinha os ombros estreitinhos, a
cabeça grande, e o andar feio. Era alta; mas que tinha ser
alta? E os trinta e cinco anos de idade, mais nove que
ela? Enquanto fazia essas reflexões, ia compondo, pregando
e despregando o xale.

- Este parece melhor que o outro, aventurou a mucama.

- Não sei... disse a senhora, chegando-se mais para a
janela, com os dois nas mãos.

- Bota o outro, nhanhã.

A nhanhã obedeceu. Experimentou cinco xales dos dez que
ali estavam, em caixas, vindos de uma loja da rua da
Ajuda. Concluiu que os dois primeiros eram os melhores;
mas aqui surgiu uma complicação - mínima, realmente - mas
tão sutil e profunda na solução, que não vacilo em
recomendá-la aos nossos pensadores de 1906. A questão era
saber qual dos dois xales escolheria, uma vez que o
marido, recente advogado, pedia-lhe que fosse econômica.
Contemplava-os alternadamente, e ora preferia um, ora
outro. De repente, lembrou-lhe a aleivosia do marido, a
necessidade de mortificá-lo, castigá-lo, mostrar-lhe que
não era peteca de ninguém, nem maltrapilha; e, de raiva,
comprou ambos os xales.

Ao bater das quatros horas (era a hora do marido) nada de
marido. Nem às quatro, nem às quatro e meia. Maria Olímpia
imaginava uma porção de coisas aborrecidas, ia à janela,
tornava a entrar, temia um desastre ou doença repentina;
pensou também que fosse uma sessão do júri. Cinco horas, e
nada. Os cachos da viúva também negrejavam diante dela,
entre a doença e o júri, com uns tons de azul-ferrete, que
era provavelmente a cor do diabo. Realmente era para
exaurir a paciência de uma moça de vinte e seis anos.
Vinte e seis anos; não tinha mais. Era filha de um
deputado do tempo da Regência, que a deixou menina; e foi
uma tia que a educou com muita distinção. A tia não a
levou muito cedo a bailes e espetáculos. Era religiosa,
conduziu-a primeiro à igreja. Maria Olímpia tinha a
vocação da vida exterior, e, nas procissões e missas
cantadas, gostava principalmente do rumor, da pompa; a
devoção era sincera, tíbia e distraída. A primeira coisa
que ela via na tribuna das igrejas, era a si mesma. Tinha
um gosto particular em olhar de cima para baixo, fitar a
multidão das mulheres ajoelhadas ou sentadas, e os
rapazes, que, por baixo do coro ou nas portas laterais,
temperavam com atitudes namoradas as cerimônias latinas.
Não entendia os sermões; o resto, porém, orquestra, canto,
flores, luzes, sanefas, ouros, gentes, tudo exercia nela
um singular feitiço. Magra devoção, que escasseou ainda
mais com o primeiro espetáculo e o primeiro baile. Não
alcançou a Candiani, mas ouviu a Ida Edelvira, dançou à
larga, e ganhou fama de elegante.

Eram cinco horas e meia, quando o Galvão chegou. Maria
Olímpia, que então passeava na sala, tão depressa lhe
ouviu os pés, fez o que faria qualquer outra senhora na
mesma situação: pegou de um jornal de modas, e sentou-se,
lendo, com um grande ar de pouco caso. Galvão entrou
ofegante, risonho, cheio de carinhos, perguntando-lhe se
estava zangada, e jurando que tinha um motivo para a
demora, um motivo que ela havia de agradecer, se
soubesse...

- Não é preciso, interrompeu ela friamente.

Levantou-se; foram jantar. Falaram pouco; ela menos que
ele, mas em todo o caso, sem parecer magoada. Pode ser que
entrasse a duvidar da carta anônima; pode ser também que
os dois xales lhe pesassem na consciência. No fim do
jantar, Galvão explicou a demora; tinha ido, a pé, ao
teatro Provisório, comprar um camarote para essa noite:
davam os Lombardos. De lá, na volta, foi encomendar um
carro...

- Os Lombardos? interrompeu Maria Olímpia.

- Sim; canta o Laboceta, canta a Jacobson; há bailado.
Você nunca ouviu os Lombardos?

- Nunca.

- E aí está por que me demorei. Que é que você merecia
agora? Merecia que eu lhe cortasse a ponta desse narizinho
arrebitado...

Como ele acompanhasse o dito com um gesto, ela recuou a
cabeça; depois acabou de tomar o café. Tenhamos pena da
alma desta moça. Os primeiros acordes dos Lombardos
ecoavam nela, enquanto a carta anônima lhe trazia uma nota
lúgubre, espécie de Requiem. E por que é que a carta não
seria uma calúnia? Naturalmente não era outra coisa:
alguma invenção de inimigas, ou para afligi-la, ou para
fazê-los brigar. Era isto mesmo. Entretanto, uma vez que
estava avisada, não os perderia de vista. Aqui acudiu-lhe
uma idéia: consultou o marido se mandaria convidar a
viúva.

- Não, respondeu ele; o carro só tem dois lugares, e eu
não hei de ir na boléia.

Maria Olímpia sorriu de contente, e levantou-se. Há muito
tempo que tinha vontade de ouvir os Lombardos. Vamos aos
Lombardos! Trá, lá, lá, lá... Meia hora depois foi vestir-
se. Galvão, quando a viu pronta daí a pouco, ficou
encantado. Minha mulher é linda, pensou ele; e fez um
gesto para estreitá-la ao peito; mas a mulher recuou,
pedindo-lhe que não a amarrotasse. E, como ele, por umas
veleidades de camareiro, pretendeu concertar-lhe a pluma
do cabelo, ela disse-lhe enfastiada:

- Deixa, Eduardo! Já veio o carro?

Entraram no carro e seguiram para o teatro. Quem é que
estava no camarote contíguo ao deles? Justamente a viúva e
a mãe. Esta coincidência, filha do acaso, podia fazer crer
algum ajuste prévio. Maria Olímpia chegou a suspeitá-lo;
mas a sensação da entrada não lhe deu tempo de examinar a
suspeita. Toda a sala voltara-se para vê-la, e ela bebeu,
a tragos demorados, o leite da admiração pública. Demais,
o marido teve a inspiração, maquiavélica, de lhe dizer ao
ouvido: "Antes a mandasses convidar; ficava-nos devendo o
favor." Qualquer suspeita cairia diante desta palavra.
Contudo, ela cuidou de os não perder de vista - e renovou
a resolução de cinco em cinco minutos, durante meia hora,
até que, não podendo fixar a atenção, deixou-a andar. Lá
vai ela, inquieta, vai direito ao clarão das luzes, ao
esplendor dos vestuários, um pouco à ópera, como pedindo a
todas as coisas alguma sensação deleitosa em que se
espreguice uma alma fria e pessoal. E volta depois à
própria dona, ao seu leque, às suas luvas, aos adornos do
vestido, realmente magníficos. Nos intervalos, conversando
com a viúva, Maria Olímpia tinha a voz e os gestos do
costume, sem cálculo, sem esforço, sem ressentimento,
esquecida da carta. Justamente nos intervalos é que o
marido, com uma discrição rara entre os filhos dos homens,
ia para os corredores ou para o saguão pedir notícias do
ministério.

Juntas saíram do camarote, no fim, e atravessaram os
corredores. A modéstia com que a viúva trajava podia
realçar a magnificência da amiga. As feições, porém, não
eram o que esta afirmou, quando ensaiava os xales de
manhã. Não, senhor; eram engraçadas, e tinham um certo
pico original. Os ombros proporcionais e bonitos. Não
contava trinta e cinco anos, mas trinta e um; nasceu em
1822, na véspera da independência, tanto que o pai, por
brincadeira, entrou a chamá-la Ipiranga, e ficou-lhe esta
alcunha entre as amigas. Demais, lá estava em Santa Rita o
assentamento de batismo.

Uma semana depois, recebeu Maria Olímpia outra carta
anônima. Era mais longa e explícita. Vieram outras, uma
por semana, durante três meses. Maria Olímpia leu as
primeiras com algum aborrecimento; as seguintes foram
calejando a sensibilidade. Não havia dúvida que o marido
demorava-se fora, muitas vezes, ao contrário do que fazia
dantes, ou saía à noite e regressava tarde; mas, segundo
dizia, gastava o tempo no Wallerstein ou no Bernardo, em
palestras políticas. E isto era verdade, uma verdade de
cinco a dez minutos, o tempo necessário para recolher
alguma anedota ou novidade, que pudesse repetir em casa, à
laia de documento. Dali seguia para o largo de São
Francisco, e metia-se no ônibus.

Tudo era verdade. E, contudo, ela continuava a não crer
nas cartas. Ultimamente, não se dava mais ao trabalho de
as refutar consigo; lia-as uma só vez, e rasgava-as. Com o
tempo foram surgindo alguns indícios menos vagos, pouco a
pouco, ao modo do aparecimento da terra aos navegantes;
mas este Colombo teimava em não crer na América. Negava o
que via; não podendo negá-lo, interpretava-o; depois
recordava algum caso de alucinação, uma anedota de
aparências ilusórias, e nesse travesseiro cômodo e mole
punha a cabeça e dormia. Já então, prosperando-lhe o
escritório, dava o Galvão partidas e jantares, iam a
bailes, teatros, corridas de cavalos. Maria Olímpia vivia
alegre, radiante; começava a ser um dos nomes da moda. E
andava muita vez com a viúva, a despeito das cartas, a tal
ponto que uma destas lhe dizia: "Parece que é melhor não
escrever mais, uma vez que a senhora se regala numa
comborçaria de mau gosto." Que era comborçaria? Maria
Olímpia quis perguntá-lo ao marido, mas esqueceu o termo,
e não pensou mais nisso.

Entretanto, constou ao marido que a mulher recebia cartas
pelo correio. Cartas de quem? Esta notícia foi um golpe
duro e inesperado. Galvão examinou de memória as pessoas
que lhe freqüentavam a casa, as que podiam encontrá-la em
teatros ou bailes, e achou muitas figuras verossímeis. Em
verdade, não lhe faltavam adoradores.

- Cartas de quem? repetia ele mordendo o beiço e franzindo
a testa.

Durante sete dias passou uma vida inquieta e aborrecida,
espiando a mulher e gastando em casa grande parte do
tempo. No oitavo dia, veio uma carta.

- Para mim? disse ele vivamente.

- Não; é para mim, respondeu Maria Olímpia, lendo o
sobrescrito; parece letra de Mariana ou de Lulu
Fontoura...

Não queria lê-la; mas o marido disse que a lesse; podia
ser alguma notícia grave. Maria Olímpia leu a carta e
dobrou-a, sorrindo; ia guardá-la, quando o marido desejou
ver o que era.

- Você sorriu, disse ele gracejando; há de ser algum
epigrama comigo.

- Qual! é um negócio de moldes.

- Mas deixa ver.

- Para quê, Eduardo?

- Que tem? Você, que não quer mostrar, por algum motivo há
de ser. Dê cá.

Já não sorria; tinha a voz trêmula. Ela ainda recusou a
carta, uma, duas, três vezes. Teve mesmo idéia de rasgá-
la, mas era pior, e não conseguiria fazê-lo até o fim.
Realmente, era uma situação original. Quando ela viu que
não tinha remédio, determinou ceder. Que melhor ocasião
para ler no rosto dele a expressão da verdade? A carta era
das mais explícitas; falava da viúva em termos crus. Maria
Olímpia entregou-lha.

- Não queria mostrar esta, disse-lhe ela primeiro, como
não mostrei outras que tenho recebido e botado fora; são
tolices, intrigas, que andam fazendo para... Leia, leia a
carta.

Galvão abriu a carta e deitou-lhe os olhos ávidos. Ela
enterrou a cabeça na cintura, para ver de perto a franja
do vestido. Não o viu empalidecer. Quando ele, depois de
alguns minutos, proferiu duas ou três palavras, tinha já a
fisionomia composta e um esboço de sorriso. Mas a mulher,
que o não adivinhava, respondeu ainda de cabeça baixa; só
a levantou daí a três ou quatro minutos, e não para fitá-
lo de uma vez, mas aos pedaços, como se temesse descobrir-
lhe nos olhos a confirmação do anônimo. Vendo-lhe, ao
contrário, um sorriso, achou que era o da inocência, e
falou de outra coisa.

Redobraram as cautelas do marido; parece também que ele
não pôde esquivar-se a um tal ou qual sentimento de
admiração para com a mulher. Pela sua parte, a viúva,
tendo notícia das cartas, sentiu-se envergonhada; mas
reagiu depressa, e requintou de maneiras afetuosas com a
amiga.

Na segunda ou terceira semana de agosto, Galvão fez-se
sócio do Cassino Fluminense. Era um dos sonhos da mulher.
A seis de setembro fazia anos a viúva, como sabemos. Na
véspera, foi Maria Olímpia (com a tia que chegara de fora)
comprar-lhe um mimo: era uso entre elas. Comprou-lhe um
anel. Viu na mesma casa uma jóia engraçada, uma meia lua
de diamantes para o cabelo, emblema de Diana, que lhe iria
muito bem sobre a testa. De Maomé que fosse; todo o
emblema de diamantes é cristão. Maria Olímpia pensou
naturalmente na primeira noite do Cassino; e a tia, vendo-
lhe o desejo, quis comprar a jóia, mas era tarde, estava
vendida.

Veio a noite do baile. Maria Olímpia subiu comovida as
escadas do Cassino. Pessoas que a conheceram naquele
tempo, dizem que o que ela achava na vida exterior, era a
sensação de uma grande carícia pública, a distância; era a
sua maneira de ser amada. Entrando no Cassino, ia recolher
nova cópia de admirações, e não se enganou, porque elas
vieram, e de fina casta.

Foi pelas dez horas e meia que a viúva ali apareceu.
Estava realmente bela, trajada a primor, tendo na cabeça a
meia lua de diamantes. Ficava-lhe bem o diabo da jóia, com
as duas pontas para cima, emergindo do cabelo negro. Toda
a gente admirou sempre a viúva naquele salão. Tinha muitas
amigas, mais ou menos íntimas, não poucos adoradores, e
possuía um gênero de espírito que espertava com as grandes
luzes. Certo secretário de legação não cessava de a
recomendar aos diplomatas novos: "Causez avec Mme.
Tavares; c'est adorable!" Assim era nas outras noites;
assim foi nesta.

- Hoje quase não tenho tido tempo de estar com você, disse
ela a Maria Olímpia, perto de meia-noite.

- Naturalmente, disse a outra abrindo e fechando o leque;
e, depois de umedecer os lábios, como para chamar a eles
todo o veneno que tinha no coração: - Ipiranga, você está
hoje uma viúva deliciosa... Vem seduzir mais algum marido?

A viúva empalideceu, e não pôde dizer nada. Maria Olímpia
acrescentou, com os olhos, alguma coisa que a humilhasse
bem, que lhe respingasse lama no triunfo. Já no resto da
noite falaram pouco; três dias depois romperam para nunca
mais.




AS ACADEMIAS DE SIÃO

Conhecem as academias de Sião? Bem sei que em Sião nunca
houve academias: mas suponhamos que sim, e que eram
quatro, e escutem-me.


I

As estrelas, quando viam subir, através da noite, muitos
vaga-lumes cor de leite, costumavam dizer que eram os
suspiros do rei de Sião, que se divertia com as suas
trezentas concubinas. E, piscando o olho umas às outras,
perguntavam:

- Reais suspiros, em que é que se ocupa esta noite o lindo
Kalaphangko?

Ao que os vaga-lumes respondiam com gravidade:

- Nós somos os pensamentos sublimes das quatro academias
de Sião; trazemos conosco toda a sabedoria do universo.

Uma noite, foram em tal quantidade os vaga-lumes, que as
estrelas, de medrosas, refugiaram-se nas alcovas, e eles
tomaram conta de uma parte do espaço, onde se fixaram para
sempre com o nome de via-láctea.

Deu lugar a essa enorme ascensão de pensamentos o fato de
quererem as quatro academias de Sião resolver este
singular problema: - por que é que há homens femininos e
mulheres masculinas? E o que as induziu a isso foi a
índole do jovem rei. Kalaphangko era virtualmente uma
dama. Tudo nele respirava a mais esquisita feminidade:
tinha os olhos doces, a voz argentina, atitudes moles e
obedientes e um cordial horror às armas. Os guerreiros
siameses gemiam, mas a nação vivia alegre, tudo eram
danças, comédias e cantigas, à maneira do rei que não
cuidava de outra coisa. Daí a ilusão das estrelas.

Vai senão quando, uma das academias achou esta solução ao
problema:

- Umas almas são masculinas, outras femininas. A anomalia
que se observa é uma questão de corpos errados.

- Nego, bradaram as outras três; a alma é neutra; nada tem
com o contraste exterior.

Não foi preciso mais para que as vielas e águas de Bangkok
se tingissem de sangue acadêmico. Veio primeiramente a
controvérsia, depois a descompostura, e finalmente a
pancada. No princípio da descompostura tudo andou menos
mal; nenhuma das rivais arremessou um impropério que não
fosse escrupulosamente derivado do sânscrito, que era a
língua acadêmica, o latim de Sião. Mas dali em diante
perderam a vergonha. A rivalidade desgrenhou-se, pôs as
mãos na cintura, baixou à lama, à pedrada, ao murro, ao
gesto vil, até que a academia sexual, exasperada, resolveu
dar cabo das outras, e organizou um plano sinistro...
Ventos que passais, se quisésseis levar convosco estas
folhas de papel, para que eu não contasse a tragédia de
Sião! Custa-me (ai de mim!), custa-me escrever a singular
desforra. Os acadêmicos armaram-se em segredo, e foram ter
com os outros, justamente quando estes, curvados sobre o
famoso problema, faziam subir ao céu uma nuvem de vaga-
lumes. Nem preâmbulo, nem piedade. Caíram-lhes em cima,
espumando de raiva. Os que puderam fugir, não fugiram por
muitas horas; perseguidos e atacados, morreram na beira do
rio, a bordo das lanchas, ou nas vielas escusas. Ao todo,
trinta e oito cadáveres. Cortaram uma orelha aos
principais, e fizeram delas colares e braceletes para o
presidente vencedor, o sublime U-Tong. Ébrios da vitória,
celebraram o feito com um grande festim, no qual cantaram
este hino magnífico: "Glória a nós, que somos o arroz da
ciência e a luminária do universo."

A cidade acordou estupefata. O terror apoderou-se da
multidão. Ninguém podia absolver uma ação tão crua e feia;
alguns chegavam mesmo a duvidar do que viam... Uma só
pessoa aprovou tudo: foi a bela Kinnara, a flor das
concubinas régias.


II

Molemente deitado aos pés da bela Kinnara, o jovem rei
pedia-lhe uma cantiga.

- Não dou outra cantiga que não seja esta: creio na alma
sexual.

- Crês no absurdo, Kinnara.

- Vossa Majestade crê então na alma neutra?

- Outro absurdo, Kinnara. Não, não creio na alma neutra,
nem na alma sexual.

- Mas então em que é que Vossa Majestade crê, se não crê
em nenhuma delas?

- Creio nos teus olhos, Kinnara, que são o sol e a luz do
universo.

- Mas cumpre-lhe escolher: - ou crer na alma neutra, e
punir a academia viva, ou crer na alma sexual, e absolvê-
la.

- Que deliciosa que é a tua boca, minha doce Kinnara!
Creio na tua boca: é a fonte da sabedoria.

Kinnara levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem
feminino, ela era a mulher máscula - um búfalo com penas
de cisne. Era o búfalo que andava agora no aposento, mas
daí a pouco foi o cisne que parou, e, inclinando o
pescoço, pediu e obteve do rei, entre duas carícias, um
decreto em que a doutrina da alma sexual foi declarada
legítima e ortodoxa, e a outra absurda e perversa. Nesse
mesmo dia, foi o decreto mandado à academia triunfante,
aos pagodes, aos mandarins, a todo o reino. A academia pôs
luminárias; restabeleceu-se a paz pública.


III

Entretanto, a bela Kinnara tinha um plano engenhoso e
secreto. Uma noite, como o rei examinasse alguns papéis do
Estado, perguntou-lhe ela se os impostos eram pagos com
pontualidade.

- Ohimé! exclamou ele, repetindo essa palavra que lhe
ficara de um missionário italiano. Poucos impostos têm
sido pagos. Eu não quisera mandar cortar a cabeça aos
contribuintes... Não, isso nunca... Sangue? sangue? não,
não quero sangue...

- E se eu lhe der um remédio a tudo?

- Qual?

- Vossa Majestade decretou que as almas eram femininas e
masculinas, disse Kinnara depois de um beijo. Suponha que
os nossos corpos estão trocados. Basta restituir cada alma
ao corpo que lhe pertence. Troquemos os nossos...

Kalaphangko riu muito da idéia, e perguntou-lhe como é que
fariam a troca. Ela respondeu que pelo método Mukunda, rei
dos hindus, que se meteu no cadáver de um brâmane,
enquanto um truão se metia no dele Mukunda, - velha lenda
passada aos turcos, persas e cristãos. Sim, mas a fórmula
da invocação? Kinnara declarou que a possuía; um velho
bonzo achara cópia dela nas ruínas de um templo.

- Valeu?

- Não creio no meu próprio decreto, redargüiu ele rindo;
mas vá lá, se for verdade, troquemos... mas por um
semestre, não mais. No fim do semestre destroçaremos os
corpos.

Ajustaram que seria nessa mesma noite. Quando toda a
cidade dormia, eles mandaram vir a piroga real, meteram-se
dentro e deixaram-se ir à toa. Nenhum dos remadores os
via. Quando a aurora começou a aparecer, fustigando as
vacas rútilas, Kinnara proferiu a misteriosa invocação; a
alma desprendeu-se-lhe, e ficou pairando, à espera que o
corpo do rei vagasse também. O dela caíra no tapete.

- Pronto? disse Kalaphangko.

- Pronto, aqui estou no ar, esperando. Desculpe Vossa
Majestade a indignidade da minha pessoa...

Mas a alma do rei não ouviu o resto. Lépida e cintilante,
deixou o seu vaso físico e penetrou no corpo de Kinnara,
enquanto a desta se apoderava do despojo real. Ambos os
corpos ergueram-se e olharam um para o outro, imagine-se
com que assombro. Era a situação do Buoso e da cobra,
segundo conta o velho Dante; mas vede aqui a minha
audácia. O poeta manda calar Ovídio e Lucano, por achar
que a sua metamorfose vale mais que a deles dois. Eu
mando-os calar a todos três. Buoso e a cobra não se
encontram mais, ao passo que os meus dois heróis, uma vez
trocados, continuam a falar e a viver juntos - coisa
evidentemente mais dantesca, em que me pese à modéstia.

- Realmente, disse Kalaphangko, isto de olhar para mim
mesmo e dar-me majestade é esquisito. Vossa Majestade não
sente a mesma coisa?

Um e outro estavam bem, como pessoas que acham finalmente
uma casa adequada. Kalaphangko espreguiçava-se todo nas
curvas femininas de Kinnara. Esta inteiriçava-se no tronco
rijo de Kalaphangko. Sião tinha, finalmente, um rei.


IV

A primeira ação de Kalaphangko (daqui em diante entenda-se
que é o corpo do rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o
corpo da bela siamesa com a alma do Kalaphangko) foi nada
menos que dar as maiores honrarias à academia sexual. Não
elevou os seus membros ao mandarinato, pois eram mais
homens de pensamento que de ação e administração, dados à
filosofia e à literatura, mas decretou que todos se
prosternassem diante deles, como é de uso aos mandarins.
Além disso, fez-lhes grandes presentes, coisas raras ou de
valia, crocodilos empalhados, cadeiras de marfim,
aparelhos de esmeralda para almoço, diamantes, relíquias.
A academia, grata a tantos benefícios, pediu mais o
direito de usar oficialmente o título de Claridade do
Mundo, que lhe foi outorgado.

Feito isso, cuidou Kalaphangko da fazenda pública, da
justiça, do culto e do cerimonial. A nação começou de
sentir o peso grosso, para falar como o excelso Camões,
pois nada menos de onze contribuintes remissos foram logo
decapitados. Naturalmente os outros, preferindo a cabeça
ao dinheiro, correram a pagar as taxas, e tudo se
regularizou. A justiça e a legislação tiveram grandes
melhoras. Construíram-se novos pagodes; e a religião
pareceu até ganhar outro impulso, desde que Kalaphangko,
copiando as antigas artes espanholas, mandou queimar uma
dúzia de pobres missionários cristãos que por lá andavam;
ação que os bonzos da terra chamaram a pérola do reinado.

Faltava uma guerra. Kalaphangko, com um pretexto mais ou
menos diplomático, atacou a outro reino, e fez a campanha
mais breve e gloriosa do século. Na volta a Bangkok, achou
grandes festas esplêndidas. Trezentos barcos, forrados de
seda escarlate e azul, foram recebê-lo. Cada um destes
tinha na proa um cisne ou um dragão de ouro, e era
tripulado pela mais fina gente da cidade; músicas e
aclamações atroaram os ares. De noite, acabadas as festas,
sussurrou ao ouvido a bela concubina:

- Meu jovem guerreiro, paga-me as saudades que curti na
ausência; dize-me que a melhor das festas é a tua meiga
Kinnara.

Kalaphangko respondeu com um beijo.

- Os teus beiços têm o frio da morte ou do desdém,
suspirou ela.

Era verdade, o rei estava distraído e preocupado; meditava
uma tragédia. Ia-se aproximando o termo do prazo em que
deviam destrocar os corpos, e ele cuidava em iludir a
cláusula, matando a linda siamesa. Hesitava por não saber
se padeceria com a morte dela visto que o corpo era seu,
ou mesmo se teria de sucumbir também. Era esta a dúvida de
Kalaphangko; mas a idéia da morte sombreava-lhe a fronte,
enquanto ele afagava ao peito um frasquinho com veneno,
imitado dos Bórgias.

De repente, pensou na douta academia; podia consultá-la,
não claramente, mas por hipótese. Mandou chamar os
acadêmicos; vieram todos menos o presidente, o ilustre U-
Tong, que estava enfermo. Eram treze; prosternaram-se e
disseram ao modo de Sião:

- Nós, desprezíveis palhas, corremos ao chamado de
Kalaphangko.

- Erguei-vos, disse benevolamente o rei.

- O lugar da poeira é o chão, teimaram eles com os
cotovelos e joelhos em terra.

- Pois serei o vento que subleva a poeira, redargüiu
Kalaphangko; e, com um gesto cheio de graça e tolerância,
estendeu-lhes as mãos.

Em seguida, começou a falar de coisas diversas, para que o
principal assunto viesse de si mesmo; falou nas últimas
notícias do ocidente e nas leis de Manu. Referindo-se a U-
Tong, perguntou-lhes se realmente era um grande sábio,
como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta,
ordenou-lhes que dissessem a verdade inteira. Com exemplar
unanimidade, confessaram eles que U-Tong era um dos mais
singulares estúpidos do reino, espírito raso, sem valor,
nada sabendo e incapaz de aprender nada. Kalaphangko
estava pasmado. Um estúpido?

- Custa-nos dizê-lo, mas não é outra coisa; é um espírito
raso e chocho. O coração é excelente, caráter puro,
elevado...

Kalaphangko, quando voltou a si do espanto, mandou embora
os acadêmicos, sem lhes perguntar o que queria. Um
estúpido? Era mister tirá-lo da cadeira sem molestá-lo.
Três dias depois, U-Tong compareceu ao chamado do rei.
Este perguntou-lhe carinhosamente pela saúde; depois disse
que queria mandar alguém ao Japão estudar uns documentos,
negócio que só podia ser confiado a pessoa esclarecida.
Qual dos seus colegas da academia lhe parecia idôneo para
tal mister? Compreende-se o plano artificioso do rei: era
ouvir dois ou três nomes, e concluir que a todos preferia
o do próprio U-Tong; mas eis aqui o que este lhe
respondeu:

- Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: são
treze camelos, com a diferença que os camelos são
modestos, e eles não; comparam-se ao sol e à lua. Mas, na
verdade, nunca a lua nem o sol cobriram mais singulares
pulhas do que esses treze... Compreendo o assombro de
Vossa Majestade; mas eu não seria digno de mim se não
dissesse isto com lealdade, embora confidencialmente...

Kalaphangko tinha a boca aberta. Treze camelos? Treze,
treze. U-Tong ressalvou tão-somente o coração de todos,
que declarou excelente; nada superior a eles pelo lado do
caráter. Kalaphangko, com um fino gesto de complacência,
despediu o sublime U-Tong, e ficou pensativo. Quais fossem
as suas reflexões, não o soube ninguém. Sabe-se que ele
mandou chamar os outros acadêmicos, mas desta vez
separadamente, a fim de não dar na vista, e para obter
maior expansão. O primeiro que chegou, ignorando aliás a
opinião de U-Tong, confirmou-a integralmente com a única
emenda de serem doze os camelos, ou treze, contando o
próprio U-Tong. O segundo não teve opinião diferente, nem
o terceiro, nem os restantes acadêmicos. Diferiam no
estilo; uns diziam camelos, outro usavam circunlóquios e
metáforas, que vinham a dar na mesma coisa. E, entretanto,
nenhuma injúria ao caráter moral das pessoas. Kalaphangko
estava atônito.

Mas não foi esse o último espanto do rei. Não podendo
consultar a academia, tratou de deliberar por si, no que
gastou dois dias, até que a linda Kinnara lhe segredou que
era mãe. Esta notícia fê-lo recuar do crime. Como destruir
o vaso eleito da flor que tinha de vir com a primavera
próxima? Jurou ao céu e à terra que o filho havia de
nascer e viver. Chegou ao fim do semestre; chegou o
momento de destroçar os corpos.

Como da primeira vez, meteram-se no barco real, à noite, e
deixaram-se ir águas abaixo, ambos de má vontade, saudosos
do corpo que iam restituir um ao outro. Quando as vacas
cintilantes da madrugada começaram de pisar vagarosamente
o céu, proferiram eles a fórmula misteriosa, e cada alma
foi devolvida ao corpo anterior. Kinnara, tornando ao seu,
teve a comoção materna, como tivera a paterna quando
ocupava o corpo de Kalaphangko. Parecia-lhe até que era ao
mesmo tempo mãe e pai da criança.

- Pai e mãe? repetiu o príncipe restituído à forma
anterior.

Foram interrompidos por uma deleitosa música, ao longe.
Era algum junco ou piroga que subia o rio, pois a música
aproximava-se rapidamente. Já então o sol alagava de luz
as águas e as margens verdes, dando ao quadro um tom de
vida e renascença, que de algum modo fazia esquecer aos
dois amantes a restituição física. E a música vinha
chegando, agora mais distinta, até que, numa curva do rio,
apareceu aos olhos de ambos um barco magnífico, adornado
de plumas e flâmulas. Vinham dentro os quatorze membros da
academia (contando U-Tong) e todos em coro mandavam aos
ares o velho hino: "Glória a nós, que somos o arroz da
ciência e a claridade do mundo!"

A bela Kinnara (antigo Kalaphangko) tinha os olhos
esbugalhados de assombro. Não podia entender como é que
quatorze varões reunidos em academia eram a claridade do
mundo, e separadamente uma multidão de camelos.
Kalaphangko, consultado por ela, não achou explicação. Se
alguém descobrir alguma, pode obsequiar uma das mais
graciosas damas do Oriente, mandando-lha em carta fechada,
e, para maior segurança, sobrescrita ao nosso cônsul em
Xangai, China.




F I M




Histórias Sem Data

Machado de Assis


Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
<http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:
Edição eletrônica produzida pela Costa Flosi Ltda.
Revisão: Sandra Flosi/Edição: Edson Costa Flosi e
Nancy Costa

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