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Histórias Sem Data
Machado de Assis



FULANO

Venha o leitor comigo assistir à abertura do testamento do
meu amigo Fulano Beltrão. Conheceu-o? Era um homem de
cerca de sessenta anos. Morreu ontem, dois de janeiro de
1884, às onze horas e trinta minutos da noite. Não imagina
a força de ânimo que mostrou em toda a moléstia. Caiu na
véspera de finados, e a princípio supúnhamos que não fosse
nada; mas a doença persistiu, e ao fim de dois meses e
poucos dias a morte o levou.

Eu confesso-lhe que estou curioso de ouvir o testamento.
Há de conter por força algumas determinações de interesse
geral e honrosas para ele. Antes de 1863 não seria assim,
porque até então era um homem muito metido consigo,
reservado, morando no caminho do Jardim Botânico, para
onde ia de ônibus ou de mula. Tinha a mulher e o filho
vivos, a filha solteira, com treze anos. Foi nesse ano que
ele começou a ocupar-se com outras coisas, além da
família, revelando um espírito universal e generoso. Nada
posso afirmar-lhe sobre a causa disto. Creio que foi uma
apologia de amigo por ocasião dele fazer quarenta anos.
Fulano Beltrão leu no Jornal do Comércio, no dia cinco de
março de 1864, um artigo anônimo em que se lhe diziam
coisas belas e exatas: - bom pai, bom esposo, amigo
pontual, cidadão digno, alma levantada e pura. Que se lhe
fizesse justiça, era muito; mas anonimamente, era raro.

- Você verá, disse Fulano Beltrão à mulher, você verá que
isto é do Xavier ou do Castro; logo rasgaremos o capote.

Castro e Xavier eram dois habituados da casa, parceiros
constantes do voltarete e velhos amigos do meu amigo.
Costumavam dizer coisas amáveis, no dia cinco de março,
mas era ao jantar, na intimidade da família, entre quatro
paredes; impressos, era a primeira vez que ele se benzia
com elogios. Pode ser que me engane; mas estou que o
espetáculo da justiça, a prova material de que as boas
qualidades e as boas ações não morrem no escuro, foi o que
animou o meu amigo a dispersar-se, a aparecer, a divulgar-
se, a dar à coletividade humana um pouco das virtudes com
que nasceu. Considerou que milhares de pessoas estariam
lendo o artigo, à mesma hora em que o lia também; imaginou
que o comentavam, que interrogavam, que confirmavam, ouviu
mesmo, por um fenômeno de alucinação que a ciência há de
explicar, e que não é raro, ouviu distintamente algumas
vozes do público. Ouviu que lhe chamavam homem de bem,
cavalheiro distinto, amigo dos amigos, laborioso, honesto,
todos os qualificativos que ele vira empregados em outros,
e que na vida de bicho-do-mato em que ia, nunca presumiu
que lhe fossem - tipograficamente - aplicados.

- A imprensa é uma grande invenção, disse ele à mulher.

Foi ela, D. Maria Antonia, quem rasgou o capote; o artigo
era do Xavier. Declarou este que só em atenção à dona da
casa confessava a autoria; e acrescentou que a
manifestação não saíra completa, porque a idéia dele era
que o artigo fosse dado em todos os jornais, não o tendo
feito por havê-lo acabado às sete horas da noite. Não
houve tempo de tirar cópias. Fulano Beltrão emendou essa
falta, se falta se lhe podia chamar, mandando transcrever
o artigo no Diário do Rio e no Correio Mercantil.

Quando mesmo, porém, este fato não desse causa à mudança
de vida do nosso amigo, fica uma coisa de pé, a saber, que
daquele ano em diante, e propriamente do mês de março, é
que ele começou a aparecer mais. Era até então um
casmurro, que não ia às assembléias das companhias, não
votava nas eleições políticas, não freqüentava teatros,
nada, absolutamente nada. Já naquele mês de março, a vinte
e dois ou vinte e três, presenteou a Santa Casa de
Misericórdia com um bilhete da grande loteria de Espanha,
e recebeu uma honrosa carta do provedor, agradecendo em
nome dos pobres. Consultou a mulher e os amigos, se devia
publicar a carta ou guardá-la, parecendo-lhe que não a
publicar era uma desatenção. Com efeito, a carta foi dada
a vinte e seis de março, em todas as folhas, fazendo uma
delas comentários desenvolvidos acerca da piedade do
doador. Das pessoas que leram esta notícia, muitas
naturalmente ainda se lembravam do artigo do Xavier, e
ligaram as duas ocorrências: "Fulano Beltrão é aquele
mesmo que, etc.", primeiro alicerce da reputação de um
homem.

É tarde, temos de ir ouvir o testamento, não posso estar a
contar-lhe tudo. Digo-lhe sumariamente que as injustiças
da rua começaram a ter nele um vingador ativo e
discursivo; que as misérias, principalmente as misérias
dramáticas, filhas de um incêndio ou inundação, acharam no
meu amigo a iniciativa dos socorros que, em tais casos,
devem ser prontos e públicos. Ninguém como ele para um
desses movimentos. Assim também com as alforrias de
escravos. Antes da lei de 28 de setembro de 1871, era
muito comum aparecerem na praça do Comércio crianças
escravas, para cuja liberdade se pedia o favor dos
negociantes. Fulano Beltrão iniciava três quartas partes
das subscrições, com tal êxito, que em poucos minutos
ficava o preço coberto.

A justiça que se lhe fazia, animava-o, e até lhe trazia
lembranças que, sem ela, é possível que nunca lhe tivessem
acudido. Não falo do baile que ele deu para celebrar a
vitória de Riachuelo, porque era um baile planeado antes
de chegar a notícia da batalha, e ele não fez mais do que
atribuir-lhe um motivo mais alto do que a simples
recreação da família, meter o retrato do almirante Barroso
no meio de um troféu de armas navais e bandeiras no salão
de honra, em frente ao retrato do Imperador, e fazer, à
ceia, alguns brindes patrióticos, como tudo consta dos
jornais de 1865.

Mas aqui vai, por exemplo, um caso bem característico da
influência que a justiça dos outros pode ter no nosso
procedimento. Fulano Beltrão vinha um dia do tesouro,
aonde tinha ido tratar de umas décimas. Ao passar pela
igreja da Lampadosa, lembrou-se que fora ali batizado; e
nenhum homem tem uma recordação destas, sem remontar o
curso dos anos e dos acontecimentos, deitar-se outra vez
no colo materno, rir e brincar, como nunca mais se ri nem
brinca. Fulano Beltrão não escapou a este efeito;
atravessou o adro, entrou na igreja, tão singela, tão
modesta, e para ele tão rica e linda. Ao sair, tinha uma
resolução feita, que pôs por obra dentro de poucos dias:
mandou de presente à Lampadosa um soberbo castiçal de
prata, com duas datas, além do nome do doador - a data da
doação e a do batizado. Todos os jornais deram esta
notícia, e até a receberam em duplicata, porque a
administração da igreja entendeu (com muita razão) que
também lhe cumpria divulgá-la aos quatro ventos.

No fim de três anos, ou menos, entrara o meu amigo nas
cogitações públicas; o nome dele era lembrado, mesmo
quando nenhum sucesso recente vinha sugeri-lo, e não só
lembrado como adjetivado. Já se lhe notava a ausência em
alguns lugares. Já o iam buscar para outros. D. Maria
Antonia via assim entrar-lhe no Éden a serpente bíblica,
não para tentá-la, mas para tentar a Adão. Com efeito, o
marido ia a tantas partes, cuidava de tantas coisas,
mostrava-se tanto na rua do Ouvidor, à porta do Bernardo,
que afrouxou a convivência antiga da casa. D. Maria
Antonia disse-lho. Ele concordou que era assim, mas
demonstrou-lhe que não podia ser de outro modo, e, em todo
caso, se mudara de costumes, não mudara de sentimentos.
Tinha obrigações morais com a sociedade; ninguém se
pertence exclusivamente; daí um pouco de dispersão dos
seus cuidados. A verdade é que tinham vivido
demasiadamente reclusos; não era justo nem bonito. Não era
mesmo conveniente; a filha caminhava para a idade do
matrimônio, e casa fechada cria morrinha de convento; por
exemplo, um carro, por que é que não teriam um carro? D.
Maria Antonia sentiu um arrepio de prazer, mas curto;
protestou logo, depois de um minuto de reflexão.

- Não; carro para quê? Não; deixemo-nos de carro.

- Já está comprado, mentiu o marido.

Mas aqui chegamos ao juízo da provedoria. Não veio ainda
ninguém; esperemos à porta. Tem pressa? São vinte minutos
no máximo. Pois é verdade, comprou uma linda vitória; e,
para quem, só por modéstia, andou tantos anos às costas de
mula ou apertado num ônibus, não era fácil acostumar-se
logo ao novo veículo. A isso atribuo eu as atitudes
salientes e inclinadas com que ele andava, nas primeiras
semanas, os olhos que estendia a um lado e outro, à
maneira de pessoa que procura alguém ou uma casa. Afinal
acostumou-se; passou a usar das atitudes reclinadas,
embora sem um certo sentimento de indiferença ou
despreocupação, que a mulher e a filha tinham muito bem,
talvez por serem mulheres. Elas, aliás, não gostavam de
sair de carro; mas ele teimava tanto que saíssem, que
fossem a toda a parte, e até a parte nenhuma, que não
tinham remédio senão obedecer-lhe; e, na rua, era sabido,
mal vinha ao longe a ponta do vestido de duas senhoras, e
na almofada um certo cocheiro, toda a gente dizia logo: -
Aí vem a família de Fulano Beltrão. E isto mesmo, sem que
ele talvez o pensasse, tornava-o mais conhecido.

No ano de 1868 deu entrada na política. Sei do ano porque
coincidiu com a queda dos liberais e a subida dos
conservadores. Foi em março ou abril de 1868 que ele
declarou aderir à situação, não à socapa, mas
estrepitosamente. Este foi, talvez, o ponto mais fraco da
vida do meu amigo. Não tinha idéias políticas; quando
muito, dispunha de um desses temperamentos que substituem
as idéias, e fazem crer que um homem pensa, quando
simplesmente transpira. Cedeu, porém, a uma alucinação de
momento. Viu-se na câmara vibrando um aparte, ou inclinado
sobre a balaustrada, em conversa com o presidente do
conselho, que sorria para ele, numa intimidade grave de
governo. E aí é que a galeria, na exata acepção do termo,
tinha de o contemplar. Fez tudo o que pôde para entrar na
câmara; a meio caminho caiu a situação. Voltando do
atordoamento, lembrou-se de afirmar ao Itaboraí o
contrário do que dissera ao Zacarias, ou antes a mesma
coisa; mas perdeu a eleição, e deu de mão à política.
Muito mais acertado andou, metendo-se na questão da
maçonaria com os prelados. Deixara-se estar quedo, a
princípio; por um lado, era maçom; por outro, queria
respeitar os sentimentos religiosos da mulher. Mas o
conflito tomou tais proporções que ele não podia ficar
calado; entrou nele com o ardor, a expansão, a publicidade
que metia em tudo; celebrou reuniões em que falou muito da
liberdade de consciência e do direito que assistia ao
maçom de enfiar uma opa; assinou protestos,
representações, felicitações, abriu a bolsa e o coração,
escancaradamente.

Morreu-lhe a mulher em 1878. Ela pediu-lhe que a
enterrasse sem aparato, e ele assim o fez, porque a amava
deveras e tinha a sua última vontade como um decreto do
céu. Já então perdera o filho; e a filha, casada, achava-
se na Europa. O meu amigo dividiu a dor com o público; e,
se enterrou a mulher sem aparato, não deixou de lhe mandar
esculpir na Itália um magnífico mausoléu, que esta cidade
admirou exposto, na rua do Ouvidor, durante perto de um
mês. A filha ainda veio assistir à inauguração. Deixei de
os ver uns quatro anos. Ultimamente surgiu a doença, que
no fim de pouco mais de dois meses o levou desta para a
melhor. Note que, até começar a agonia, nunca perdeu a
razão nem a força d'alma. Conversava com as visitas,
mandava-as relacionar, não esquecia mesmo noticiar às que
chegavam, as que acabavam de sair; coisa inútil, porque
uma folha amiga publicava-as todas. Na manhã do dia em que
morreu ainda ouviu ler os jornais, e num deles uma pequena
comunicação relativamente à sua moléstia, o que de algum
modo pareceu reanimá-lo. Mas para a tarde enfraqueceu um
pouco; à noite expirou.

Vejo que está aborrecido. Realmente demoram-se... Espere;
creio que são eles. São; entremos. Cá está o nosso
magistrado, que começa a ler o testamento. Está ouvindo?
Não era preciso esta minuciosa genealogia, excedente das
práticas tabelioas; mas isto mesmo de contar a família
desde o quarto avô prova o espírito exato e paciente do
meu amigo. Não esquecia nada. O cerimonial do saimento é
longo e complicado, mas bonito. Começa agora a lista dos
legados. São todos pios; alguns industriais. Vá vendo a
alma do meu amigo. Trinta contos...

Trinta contos para quê? Para servir de começo a uma
subscrição pública destinada a erigir uma estátua de Pedro
Álvares Cabral. "Cabral, diz ali o testamento, não pode
ser olvidado dos brasileiros, foi o precursor do nosso
império." Recomenda que a estátua seja de bronze, com
quatro medalhões no pedestal, a saber, o retrato do bispo
Coutinho, presidente da Constituinte, o de Gonzaga, chefe
da conjuração mineira, e o de dois cidadãos da presente
geração "notáveis por seu patriotismo e liberalidade", à
escolha da comissão, que ele mesmo nomeou para levar a
empresa a cabo.

Que ela se realize, não sei; falta-nos a perseverança do
fundador da verba. Dado, porém, que a comissão se
desempenhe da tarefa, e que este sol americano ainda veja
erguer-se a estátua de Cabral, é da nossa honra que ele
contemple num dos medalhões o retrato do meu finado amigo.
Não lhe parece? Bem, o magistrado acabou, vamos embora.




A SEGUNDA VIDA

Monsenhor Caldas interrompeu a narração do desconhecido: -
Dá licença? é só um instante. Levantou-se, foi ao interior
da casa, chamou o preto velho que o servia, e disse-lhe em
voz baixa:

- João, vai ali à estação de urbanos, fala da minha parte
ao comandante, e pede-lhe que venha cá com um ou dois
homens, para livrar-me de um sujeito doido. Anda, vai
depressa.

E, voltando à sala:

- Pronto, disse ele; podemos continuar.

- Como ia dizendo a Vossa Reverendíssima, morri no dia
vinte de março de 1860, às cinco horas e quarenta e três
minutos da manhã. Tinha então sessenta e oito anos de
idade. Minha alma voou pelo espaço, até perder a terra de
vista, deixando muito abaixo a lua, as estrelas e o sol;
penetrou finalmente num espaço em que não havia mais nada,
e era clareado tão-somente por uma luz difusa. Continuei a
subir, e comecei a ver um pontinho mais luminoso ao longe,
muito longe. O ponto cresceu, fez-se sol. Fui por ali
dentro, sem arder, porque as almas são incombustíveis. A
sua pegou fogo alguma vez?

- Não, senhor.

- São incombustíveis. Fui subindo, subindo; na distância
de quarenta mil léguas, ouvi uma deliciosa música, e logo
que cheguei a cinco mil léguas, desceu um enxame de almas,
que me levaram num palanquim feito de éter e plumas.
Entrei daí a pouco no novo sol, que é o planeta dos
virtuosos da terra. Não sou poeta, monsenhor; não ouso
descrever-lhe as magnificências daquela estância divina.
Poeta que fosse, não poderia, usando a linguagem humana,
transmitir-lhe a emoção da grandeza, do deslumbramento, da
felicidade, os êxtases, as melodias, os arrojos de luz e
cores, uma coisa indefinível e incompreensível. Só vendo.
Lá dentro é que soube que completava mais um milheiro de
almas; tal era o motivo das festas extraordinárias que me
fizeram, e que duraram dois séculos, ou, pelas nossas
contas, quarenta e oito horas. Afinal, concluídas as
festas, convidaram-me a tornar à terra para cumprir uma
vida nova; era o privilégio de cada alma que completava um
milheiro. Respondi agradecendo e recusando, mas não havia
recusar. Era uma lei eterna. A única liberdade que me
deram foi a escolha do veículo; podia nascer príncipe ou
condutor de ônibus. Que fazer? Que faria Vossa
Reverendíssima no meu lugar?

- Não posso saber; depende...

- Tem razão; depende das circunstâncias. Mas imagine que
as minhas eram tais que não me davam gosto a tornar cá.
Fui vítima da inexperiência, monsenhor, tive uma velhice
ruim, por essa razão. Então lembrou-me que sempre ouvira
dizer a meu pai e outras pessoas mais velhas, quando viam
algum rapaz: - "Quem me dera aquela idade, sabendo o que
sei hoje!" Lembrou-me isto, e declarei que me era
indiferente nascer mendigo ou potentado, com a condição de
nascer experiente. Não imagina o riso universal com que me
ouviram. Jó, que ali preside a província dos pacientes,
disse-me que um tal desejo era disparate; mas eu teimei e
venci. Daí a pouco escorreguei no espaço: gastei nove
meses a atravessá-lo até cair nos braços de uma ama de
leite, e chamei-me José Maria. Vossa Reverendíssima é
Romualdo, não?

- Sim, senhor; Romualdo de Sousa Caldas.

- Será parente do padre Sousa Caldas?

- Não, senhor.

- Bom poeta o padre Caldas. Poesia é um dom; eu nunca pude
compor uma décima. Mas, vamos ao que importa. Conto-lhe
primeiro o que me sucedeu; depois lhe direi o que desejo
de Vossa Reverendíssima. Entretanto, se me permitisse ir
fumando...

Monsenhor Caldas fez um gesto de assentimento, sem perder
de vista a bengala que José Maria conservava atravessada
sobre as pernas. Este preparou vagarosamente um cigarro.
Era um homem de trinta e poucos anos, pálido, com um olhar
ora mole e apagado, ora inquieto e centelhante. Apareceu
ali, tinha o padre acabado de almoçar, e pediu-lhe uma
entrevista para negócio grave e urgente. Monsenhor fê-lo
entrar e sentar-se; no fim de dez minutos, viu que estava
com um lunático. Perdoava-lhe a incoerência das idéias ou
o assombroso das invenções; pode ser até que lhe servissem
de estudo. Mas o desconhecido teve um assomo de raiva, que
meteu medo ao pacato clérigo. Que podiam fazer ele e o
preto, ambos velhos, contra qualquer agressão de um homem
forte e louco? Enquanto esperava o auxilio policial,
monsenhor Caldas desfazia-se em sorrisos e assentimentos
de cabeça, espantava-se com ele, alegrava-se com ele,
política útil com os loucos, as mulheres e os potentados.
José Maria acendeu finalmente o cigarro, e continuou:

- Renasci em cinco de janeiro de 1861. Não lhe digo nada
da nova meninice, porque aí a experiência teve só uma
forma instintiva. Mamava pouco; chorava o menos que podia
para não apanhar pancada. Comecei a andar tarde, por medo
de cair, e daí me ficou uma tal ou qual fraqueza nas
pernas. Correr e rolar, trepar nas árvores, saltar
paredões, trocar murros, coisas tão úteis, nada disso fiz,
por medo de contusão e sangue. Para falar com franqueza,
tive uma infância aborrecida, e a escola não o foi menos.
Chamavam-me tolo e moleirão. Realmente, eu vivia fugindo
de tudo. Creia que durante esse tempo não escorreguei, mas
também não corria nunca. Palavra, foi um tempo de
aborrecimento; e, comparando as cabeças quebradas de outro
tempo com o tédio de hoje, antes as cabeças quebradas.
Cresci; fiz-me rapaz, entrei no período dos amores... Não
se assuste; serei casto, como a primeira ceia. Vossa
Reverendíssima sabe o que é uma ceia de rapazes e
mulheres?

- Como quer que saiba?...

- Tinha dezenove anos, continuou José Maria, e não imagina
o espanto dos meus amigos, quando me declarei pronto a ir
a uma tal ceia... Ninguém esperava tal coisa de um rapaz
tão cauteloso, que fugia de tudo, dos sonos atrasados, dos
sonos excessivos, de andar sozinho a horas mortas, que
vivia, por assim dizer, às apalpadelas. Fui à ceia; era no
Jardim Botânico, obra esplêndida. Comidas, vinhos, luzes,
flores, alegria dos rapazes, os olhos das damas, e, por
cima de tudo, um apetite de vinte anos. Há de crer que não
comi nada? A lembrança de três indigestões apanhadas
quarenta anos antes, na primeira vida, fez-me recuar.
Menti dizendo que estava indisposto. Uma das damas veio
sentar-se à minha direita, para curar-me; outra levantou-
se também, e veio para a minha esquerda, com o mesmo fim.
Você cura de um lado, eu curo do outro, disseram elas.
Eram lépidas, frescas, astuciosas, e tinham fama de
devorar o coração e a vida dos rapazes. Confesso-lhe que
fiquei com medo e retraí-me. Elas fizeram tudo, tudo; mas
em vão. Vim de lá de manhã, apaixonado por ambas, sem
nenhuma delas, e caindo de fome. Que lhe parece? concluiu
José Maria pondo as mãos nos joelhos, e arqueando os
braços para fora.

- Com efeito...

- Não lhe digo mais nada; Vossa Reverendíssima adivinhará
o resto. A minha segunda vida é assim uma mocidade
expansiva e impetuosa, enfreada por uma experiência
virtual e tradicional. Vivo como Eurico, atado ao próprio
cadáver... Não, a comparação não é boa. Como lhe parece
que vivo?

- Sou pouco imaginoso. Suponho que vive assim como um
pássaro, batendo as asas e amarrado pelos pés...

- Justamente. Pouco imaginoso? Achou a fórmula; é isso
mesmo. Um pássaro, um grande pássaro, batendo as asas,
assim...

José Maria ergueu-se, agitando os braços, à maneira de
asas. Ao erguer-se, caiu-lhe a bengala no chão; mas ele
não deu por ela. Continuou a agitar os braços, em pé,
defronte do padre, e a dizer que era isso mesmo, um
pássaro, um grande pássaro... De cada vez que batia os
braços nas coxas, levantava os calcanhares, dando ao corpo
uma cadência de movimentos, e conservava os pés unidos,
para mostrar que os tinha amarrados. Monsenhor aprovava de
cabeça; ao mesmo tempo afiava as orelhas para ver se ouvia
passos na escada. Tudo silêncio. Só lhe chegavam os
rumores de fora: - carros e carroças que desciam,
quitandeiras apregoando legumes, e um piano da vizinhança.
José Maria sentou-se finalmente, depois de apanhar a
bengala, e continuou nestes termos:

- Um pássaro, um grande pássaro. Para ver quanto é feliz a
comparação, basta a aventura que me traz aqui, um caso de
consciência, uma paixão, uma mulher, uma viúva, D.
Clemência. Tem vinte e seis anos, uns olhos que não acabam
mais, não digo no tamanho, mas na expressão, e duas
pinceladas de buço, que lhe completam a fisionomia. É
filha de um professor jubilado. Os vestidos pretos ficam-
lhe tão bem que eu às vezes digo-lhe rindo que ela não
enviuvou senão para andar de luto. Caçoadas! Conhecemo-nos
há um ano, em casa de um fazendeiro de Cantagalo. Saímos
namorados um do outro. Já sei o que me vai perguntar: por
que é que não nos casamos, sendo ambos livres...

- Sim, senhor.

- Mas, homem de Deus! é essa justamente a matéria da minha
aventura. Somos livres, gostamos um do outro, e não nos
casamos: tal é a situação tenebrosa que venho expor a
Vossa Reverendíssima, e que a sua teologia ou o que quer
que seja, explicará, se puder. Voltamos para a Corte
namorados. Clemência morava com o velho pai, e um irmão
empregado no comércio; relacionei-me com ambos, e comecei
a freqüentar a casa, em Matacavalos. Olhos, apertos de
mão, palavras soltas, outras ligadas, uma frase, duas
frases, e estávamos amados e confessados. Uma noite, no
patamar da escada, trocamos o primeiro beijo... Perdoe
estas coisas, monsenhor; faça de conta que me está ouvindo
de confissão. Nem eu lhe digo isto senão para acrescentar
que saí dali tonto, desvairado, com a imagem de Clemência
na cabeça e o sabor do beijo na boca. Errei cerca de duas
horas, planeando uma vida única; determinei pedir-lhe a
mão no fim da semana, e casar daí a um mês. Cheguei às
derradeiras minúcias, cheguei a redigir e ornar de cabeça
as cartas de participação. Entrei em casa depois de meia-
noite, e toda essa fantasmagoria voou, como as mutações à
vista nas antigas peças de teatro. Veja se adivinha como.

- Não alcanço...

- Considerei, no momento de despir o colete, que o amor
podia acabar depressa; tem-se visto algumas vezes. Ao
descalçar as botas, lembrou-me coisa pior: - podia ficar o
fastio. Concluí a toilette de dormir, acendi um cigarro,
e, reclinado no canapé, pensei que o costume, a
convivência, podia salvar tudo; mas, logo depois adverti
que as duas índoles podiam ser incompatíveis; e que fazer
com duas índoles incompatíveis e inseparáveis? Mas, enfim,
dei de barato tudo isso, porque a paixão era grande,
violenta; considerei-me casado, com uma linda
criancinha... Uma? duas, seis, oito; podiam vir oito,
podiam vir dez; algumas aleijadas. Também podia vir uma
crise, duas crises, falta de dinheiro, penúria, doenças;
podia vir alguma dessas afeições espúrias que perturbam a
paz doméstica... Considerei tudo e concluí que o melhor
era não casar. O que não lhe posso contar é o meu
desespero; faltam-me expressões para lhe pintar o que
padeci nessa noite... Deixa-me fumar outro cigarro?

Não esperou resposta, fez o cigarro, e acendeu-o.
Monsenhor não podia deixar de admirar-lhe a bela cabeça,
no meio do desalinho próprio do estado; ao mesmo tempo
notou que ele falava em termos polidos, e, que apesar dos
rompantes mórbidos, tinha maneiras. Quem diabo podia ser
esse homem? José Maria continuou a história, dizendo que
deixou de ir à casa de Clemência, durante seis dias, mas
não resistiu às cartas e às lágrimas. No fim de uma semana
correu para lá, e confessou-lhe tudo, tudo. Ela ouviu-o
com muito interesse, e quis saber o que era preciso para
acabar com tantas cismas, que prova de amor queria que ela
lhe desse. - A resposta de José Maria foi uma pergunta.

- Está disposta a fazer-me um grande sacrifício? disse-lhe
eu. Clemência jurou que sim. "Pois bem, rompa com tudo,
família e sociedade; venha morar comigo; casamo-nos depois
desse noviciado." Compreendo que Vossa Reverendíssima
arregale os olhos. Os dela encheram-se de lágrimas; mas,
apesar de humilhada, aceitou tudo. Vamos; confesse que sou
um monstro.

- Não, senhor...

- Como não? Sou um monstro. Clemência veio para minha
casa, e não imagina as festas com que a recebi. "Deixo
tudo, disse-me ela; você é para mim o universo." Eu
beijei-lhe os pés, beijei-lhe os tacões dos sapatos. Não
imagina o meu contentamento. No dia seguinte, recebi uma
carta tarjada de preto; era a notícia da morte de um tio
meu, em Santana do Livramento, deixando-me vinte mil
contos. Fiquei fulminado. "Entendo, disse a Clemência,
você sacrificou tudo, porque tinha notícia da herança."
Desta vez, Clemência não chorou, pegou em si e saiu. Fui
atrás dela, envergonhado, pedi-lhe perdão; ela resistiu.
Um dia, dois dias, três dias, foi tudo vão; Clemência não
cedia nada, não falava sequer. Então declarei-lhe que me
mataria; comprei um revólver, fui ter com ela, e
apresentei-lho: é este.

Monsenhor Caldas empalideceu. José Maria mostrou-lhe o
revólver, durante alguns segundos, tornou a metê-lo na
algibeira, e continuou:

- Cheguei a dar um tiro. Ela, assustada, desarmou-me e
perdoou-me. Ajustamos precipitar o casamento, e, pela
minha parte, impus uma condição: doar os vinte mil contos
à Biblioteca Nacional. Clemência atirou-se-me aos braços,
e aprovou-me com um beijo. Dei os vinte mil contos. Há de
ter lido nos jornais... Três semanas depois casamo-nos.
Vossa Reverendíssima respira como quem chegou ao fim.
Qual! Agora é que chegamos ao trágico. O que posso fazer é
abreviar umas particularidades e suprimir outras;
restrinjo-me a Clemência. Não lhe falo de outras emoções
truncadas, que são todas as minhas, abortos de prazer,
planos que se esgarçam no ar, nem das ilusões de saia
rota, nem do tal pássaro... plás... plás... plás...

E, de um salto, José Maria ficou outra vez de pé, agitando
os braços, e dando ao corpo uma cadência. Monsenhor Caldas
começou a suar frio. No fim de alguns segundos, José Maria
parou, sentou-se, e reatou a narração, agora mais difusa,
mais derramada, evidentemente mais delirante. Contava os
sustos em que vivia, desgostos e desconfianças. Não podia
comer um figo às dentadas, como outrora; o receio do bicho
diminuía-lhe o sabor. Não cria nas caras alegres da gente
que ia pela rua: preocupações, desejos, ódios, tristezas,
outras coisas, iam dissimuladas por umas três quartas
partes delas. Vivia a temer um filho cego ou surdo-mudo,
ou tuberculoso, ou assassino, etc. Não conseguia dar um
jantar que não ficasse triste logo depois da sopa, pela
idéia de que uma palavra sua, um gesto da mulher, qualquer
falta de serviço podia sugerir o epigrama digestivo, na
rua, debaixo de um lampião. A experiência dera-lhe o
terror de ser empulhado. Confessava ao padre que,
realmente, não tinha até agora lucrado nada; ao contrário,
perdera até, porque fora levado ao sangue... Ia contar-lhe
o caso do sangue. Na véspera, deitara-se cedo, e sonhou...
Com quem pensava o padre que ele sonhou?

- Não atino...

- Sonhei que o Diabo lia-me o Evangelho. Chegando ao ponto
em que Jesus fala dos lírios do campo, o Diabo colheu
alguns e deu-mos. "Toma, disse-me ele; são os lírios da
Escritura; segundo ouviste, nem Salomão em toda a pompa,
pode ombrear com eles. Salomão é a sapiência. E sabes o
que são estes lírios, José? São os teus vinte anos."
Fitei-os encantado; eram lindos como não imagina. O Diabo
pegou deles, cheirou-os e disse-me que os cheirasse
também. Não lhe digo nada; no momento de os chegar ao
nariz, vi sair de dentro um réptil fedorento e torpe, dei
um grito, e arrojei para longe as flores. Então, o Diabo,
escancarando uma formidável gargalhada: "José Maria, são
os teus vinte anos." Era uma gargalhada assim: - cá, cá,
cá, cá, cá...

José Maria ria à solta, ria de um modo estridente e
diabólico. De repente, parou; levantou-se, e contou que,
tão depressa abriu os olhos, como viu a mulher diante dele
aflita e desgrenhada. Os olhos de Clemência eram doces,
mas ele disse-lhe que os olhos doces também fazem mal. Ela
arrojou-se-lhe aos pés... Neste ponto a fisionomia de José
Maria estava tão transtornada que o padre, também de pé,
começou a recuar, trêmulo e pálido. "Não, miserável! não!
tu não me fugirás!" bradava José Maria investindo para
ele. Tinha os olhos esbugalhados, as têmporas latejantes;
o padre ia recuando... recuando... Pela escada acima
ouvia-se um rumor de espadas e de pés.




NOITE DE ALMIRANTE

Deolindo Venta-Grande (era uma alcunha de bordo) saiu do
arsenal de marinha e enfiou pela rua de Bragança. Batiam
três horas da tarde. Era a fina flor dos marujos e, de
mais, levava um grande ar de felicidade nos olhos. A
corveta dele voltou de uma longa viagem de instrução, e
Deolindo veio à terra tão depressa alcançou licença. Os
companheiros disseram-lhe, rindo:

- Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai você
passar! ceia, viola e os braços de Genoveva. Colozinho de
Genoveva...

Deolindo sorriu. Era assim mesmo, uma noite de almirante,
como eles dizem, uma dessas grandes noites de almirante
que o esperava em terra. Começara a paixão três meses
antes de sair a corveta. Chamava-se Genoveva, caboclinha
de vinte anos, esperta, olho negro e atrevido.
Encontraram-se em casa de terceiro e ficaram morrendo um
pelo outro, a tal ponto que estiveram prestes a dar uma
cabeçada, ele deixaria o serviço e ela o acompanharia para
a vila mais recôndita do interior.

A velha Inácia, que morava com ela, dissuadiu-os disso;
Deolindo não teve remédio senão seguir em viagem de
instrução. Eram oito ou dez meses de ausência. Como fiança
recíproca, entenderam dever fazer um juramento de
fidelidade.

- Juro por Deus que está no céu. E você?

- Eu também.

- Diz direito.

- Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da
morte.

Estava celebrado o contrato. Não havia descrer da
sinceridade de ambos; ela chorava doidamente, ele mordia o
beiço para dissimular. Afinal separaram-se, Genoveva foi
ver sair a corveta e voltou para casa com um tal aperto no
coração que parecia que "lhe ia dar uma coisa". Não lhe
deu nada, felizmente; os dias foram passando, as semanas,
os meses, dez meses, ao cabo dos quais, a corveta tornou e
Deolindo com ela.

Lá vai ele agora, pela rua de Bragança, Prainha e Saúde,
até ao princípio da Gamboa, onde mora Genoveva. A casa é
uma rotulazinha escura, portal rachado do sol, passando o
cemitério dos Ingleses; lá deve estar Genoveva, debruçada
à janela, esperando por ele. Deolindo prepara uma palavra
que lhe diga. Já formulou esta: "Jurei e cumpri", mas
procura outra melhor. Ao mesmo tempo lembra as mulheres
que viu por esse mundo de Cristo, italianas, marselhesas
ou turcas, muitas delas bonitas, ou que lhe pareciam tais.
Concorda que nem todas seriam para os beiços dele, mas
algumas eram, e nem por isso fez caso de nenhuma. Só
pensava em Genoveva. A mesma casinha dela, tão pequenina,
e a mobília de pé quebrado, tudo velho e pouco, isso mesmo
lhe lembrava diante dos palácios de outras terras. Foi à
custa de muita economia que comprou em Trieste um par de
brincos, que leva agora no bolso com algumas bugigangas. E
ela que lhe guardaria? Pode ser que um lenço marcado com o
nome dele e uma âncora na ponta, porque ela sabia marcar
muito bem. Nisto chegou à Gamboa, passou o cemitério e deu
com a casa fechada. Bateu, falou-lhe uma voz conhecida, a
da velha Inácia, que veio abrir-lhe a porta com grandes
exclamações de prazer. Deolindo, impaciente, perguntou por
Genoveva.

- Não me fale nessa maluca, arremeteu a velha. Estou bem
satisfeita com o conselho que lhe dei. Olhe lá se fugisse.
Estava agora como o lindo amor.

- Mas que foi? que foi?

A velha disse-lhe que descansasse, que não era nada, uma
dessas coisas que aparecem na vida; não valia a pena
zangar-se. Genoveva andava com a cabeça virada...

- Mas virada por quê?

- Está com um mascate, José Diogo. Conheceu José Diogo,
mascate de fazendas? Está com ele. Não imagina a paixão
que eles têm um pelo outro. Ela então anda maluca. Foi o
motivo da nossa briga. José Diogo não me saía da porta;
eram conversas e mais conversas, até que eu um dia disse
que não queria a minha casa difamada. Ah! meu pai do céu!
foi um dia de juízo. Genoveva investiu para mim com uns
olhos deste tamanho, dizendo que nunca difamou ninguém e
não precisava de esmolas. Que esmolas, Genoveva? O que
digo é que não quero esses cochichos à porta, desde as
aves-marias... Dois dias depois estava mudada e brigada
comigo.

- Onde mora ela?

- Na praia Formosa, antes de chegar à pedreira, uma rótula
pintada de novo.

Deolindo não quis ouvir mais nada. A velha Inácia, um
tanto arrependida, ainda lhe deu avisos de prudência, mas
ele não os escutou e foi andando. Deixo de notar o que
pensou em todo o caminho; não pensou nada. As idéias
marinhavam-lhe no cérebro, como em hora de temporal, no
meio de uma confusão de ventos e apitos. Entre elas
rutilou a faca de bordo, ensangüentada e vingadora. Tinha
passado a Gamboa, o Saco do Alferes, entrara na praia
Formosa. Não sabia o número de casa, mas era perto da
pedreira, pintada de novo, e com auxílio da vizinhança
poderia achá-la. Não contou com o acaso que pegou de
Genoveva e fê-la sentar à janela, cosendo, no momento em
que Deolindo ia passando. Ele conheceu-a e parou; ela,
vendo o vulto de um homem, levantou os olhos e deu com o
marujo.

- Que é isso? exclamou espantada. Quando chegou? Entre,
seu Deolindo.

E, levantando-se, abriu a rótula e fê-lo entrar. Qualquer
outro homem ficaria alvoroçado de esperanças, tão francas
eram as maneiras da rapariga; podia ser que a velha se
enganasse ou mentisse; podia ser mesmo que a cantiga do
mascate estivesse acabada. Tudo isso lhe passou pela
cabeça, sem a forma precisa do raciocínio ou da reflexão,
mas em tumulto e rápido. Genoveva deixou a porta aberta,
fê-lo sentar-se, pediu-lhe notícias da viagem e achou-o
mais gordo; nenhuma comoção nem intimidade. Deolindo
perdeu a última esperança. Em falta de faca, bastavam-lhe
as mãos para estrangular Genoveva, que era um pedacinho de
gente, e durante os primeiros minutos não pensou em outra
coisa.

- Sei tudo, disse ele.

- Quem lhe contou?

Deolindo levantou os ombros.

- Fosse quem fosse, tornou ela, disseram-lhe que eu
gostava muito de um moço?

- Disseram.

- Disseram a verdade.

Deolindo chegou a ter um ímpeto; ela fê-lo parar só com a
ação dos olhos. Em seguida disse que, se lhe abrira a
porta, é porque contava que era homem de juízo. Contou-lhe
então tudo, as saudades que curtira, as propostas do
mascate, as suas recusas, até que um dia, sem saber como,
amanhecera gostando dele.

- Pode crer que pensei muito e muito em você. Sinhá Inácia
que lhe diga se não chorei muito... Mas o coração mudou...
Mudou... Conto-lhe tudo isto, como se estivesse diante do
padre, concluiu sorrindo.

Não sorria de escárnio. A expressão das palavras é que era
uma mescla de candura e cinismo, de insolência e
simplicidade, que desisto de definir melhor. Creio até que
insolência e cinismo são mal aplicados. Genoveva não se
defendia de um erro ou de um perjúrio; não se defendia de
nada; faltava-lhe o padrão moral das ações. O que dizia,
em resumo, é que era melhor não ter mudado, dava-se bem
com a afeição do Deolindo, a prova é que quis fugir com
ele; mas, uma vez que o mascate venceu o marujo, a razão
era do mascate, e cumpria declará-lo. Que vos parece? O
pobre marujo citava o juramento de despedida, como uma
obrigação eterna, diante da qual consentira em não fugir e
embarcar: "Juro por Deus que está no céu; a luz me falte
na hora da morte". Se embarcou, foi porque ela lhe jurou
isso. Com essas palavras é que andou, viajou, esperou e
tornou; foram elas que lhe deram a força de viver. Juro
por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da
morte...

- Pois, sim, Deolindo, era verdade. Quando jurei, era
verdade. Tanto era verdade que eu queria fugir com você
para o sertão. Só Deus sabe se era verdade! Mas vieram
outras coisas... Veio este moço e eu comecei a gostar
dele...

- Mas a gente jura é para isso mesmo; é para não gostar de
mais ninguém...

- Deixa disso, Deolindo. Então você só se lembrou de mim?
Deixa de partes...

- A que horas volta José Diogo?

- Não volta hoje.

- Não?

- Não volta; está lá para os lados de Guaratiba com a
caixa; deve voltar sexta-feira ou sábado... E por que é
que você quer saber? Que mal lhe fez ele?

Pode ser que qualquer outra mulher tivesse igual palavra;
poucas lhe dariam uma expressão tão cândida, não de
propósito, mas involuntariamente. Vede que estamos aqui
muito próximos da natureza. Que mal lhe fez ele? Que mal
lhe fez esta pedra que caiu de cima? Qualquer mestre de
física lhe explicaria a queda das pedras. Deolindo
declarou, com um gesto de desespero, que queria matá-lo.
Genoveva olhou para ele com desprezo, sorriu de leve e deu
um muxoxo; e, como ele lhe falasse de ingratidão e
perjúrio, não pôde disfarçar o pasmo. Que perjúrio? que
ingratidão? Já lhe tinha dito e repetia que quando jurou
era verdade. Nossa Senhora, que ali estava, em cima da
cômoda, sabia se era verdade ou não. Era assim que lhe
pagava o que padeceu? E ele que tanto enchia a boca de
fidelidade, tinha-se lembrado dela por onde andou?

A resposta dele foi meter a mão no bolso e tirar o pacote
que lhe trazia. Ela abriu-o, aventou as bugigangas, uma
por uma, e por fim deu com os brincos. Não eram nem
poderiam ser ricos; eram mesmo de mau gosto, mas faziam
uma vista de todos os diabos. Genoveva pegou deles,
contente, deslumbrada, mirou-os por um lado e outro, perto
e longe dos olhos, e afinal enfiou-os nas orelhas; depois
foi ao espelho de pataca, suspenso na parede, entre a
janela e a rótula, para ver o efeito que lhe faziam.
Recuou, aproximou-se, voltou a cabeça da direita para a
esquerda e da esquerda para a direita.

- Sim, senhor, muito bonitos, disse ela, fazendo uma
grande mesura de agradecimento. Onde é que comprou?

Creio que ele não respondeu nada, não teria tempo para
isso, porque ela disparou mais duas ou três perguntas, uma
atrás da outra, tão confusa estava de receber um mimo a
troco de um esquecimento. Confusão de cinco ou quatro
minutos; pode ser que dois. Não tardou que tirasse os
brincos, e os contemplasse e pusesse na caixinha em cima
da mesa redonda que estava no meio da sala. Ele pela sua
parte começou a crer que, assim como a perdeu, estando
ausente, assim o outro, ausente, podia também perdê-la; e,
provavelmente, ela não lhe jurara nada.

- Brincando, brincando, é noite, disse Genoveva.

Com efeito, a noite ia caindo rapidamente. Já não podiam
ver o hospital dos Lázaros e mal distinguiam a ilha dos
Melões; as mesmas lanchas e canoas, postas em seco,
defronte da casa, confundiam-se com a terra e o lodo da
praia. Genoveva acendeu uma vela. Depois foi sentar-se na
soleira da porta e pediu-lhe que contasse alguma coisa das
terras por onde andara. Deolindo recusou a princípio;
disse que se ia embora, levantou-se e deu alguns passos na
sala. Mas o demônio da esperança mordia e babujava o
coração do pobre diabo, e ele voltou a sentar-se, para
dizer duas ou três anedotas de bordo. Genoveva escutava
com atenção. Interrompidos por uma mulher da vizinhança,
que ali veio, Genoveva fê-la sentar-se também para ouvir
"as bonitas histórias que o Sr. Deolindo estava contando".
Não houve outra apresentação. A grande dama que prolonga a
vigília para concluir a leitura de um livro ou de um
capítulo, não vive mais intimamente a vida dos personagens
do que a antiga amante do marujo vivia as cenas que ele ia
contando, tão livremente interessada e presa, como se
entre ambos não houvesse mais que uma narração de
episódios. Que importa à grande dama o autor do livro? Que
importava a esta rapariga o contador dos episódios?

A esperança, entretanto, começava a desampará-lo e ele
levantou-se definitivamente para sair. Genoveva não quis
deixá-lo sair antes que a amiga visse os brincos, e foi
mostrar-lhos com grandes encarecimentos. A outra ficou
encantada, elogiou-os muito, perguntou se os comprara em
França e pediu a Genoveva que os pusesse.

- Realmente, são muito bonitos.

Quero crer que o próprio marujo concordou com essa
opinião. Gostou de os ver, achou que pareciam feitos para
ela e, durante alguns segundos, saboreou o prazer
exclusivo e superfino de haver dado um bom presente; mas
foram só alguns segundos.

Como ele se despedisse, Genoveva acompanhou-o até à porta
para lhe agradecer ainda uma vez o mimo, e provavelmente
dizer-lhe algumas coisas meigas e inúteis. A amiga, que
deixara ficar na sala, apenas lhe ouviu esta palavra:
"Deixa disso, Deolindo"; e esta outra do marinheiro: "Você
verá." Não pôde ouvir o resto, que não passou de um
sussurro.

Deolindo seguiu, praia fora, cabisbaixo e lento, não já o
rapaz impetuoso da tarde, mas com um ar velho e triste,
ou, para usar outra metáfora de marujo, como um homem "que
vai do meio caminho para terra". Genoveva entrou logo
depois, alegre e barulhenta. Contou à outra a anedota dos
seus amores marítimos, gabou muito o gênio do Deolindo e
os seus bonitos modos; a amiga declarou achá-lo
grandemente simpático.

- Muito bom rapaz, insistiu Genoveva. Sabe o que ele me
disse agora?

- Que foi?

- Que vai matar-se.

- Jesus!

- Qual o quê! Não se mata, não. Deolindo é assim mesmo;
diz as coisas, mas não faz. Você verá que não se mata.
Coitado, são ciúmes. Mas os brincos são muito engraçados.

- Eu aqui ainda não vi destes.

- Nem eu, concordou Genoveva, examinando-os à luz. Depois
guardou-os e convidou a outra a coser. - Vamos coser um
bocadinho, quero acabar o meu corpinho azul...

A verdade é que o marinheiro não se matou. No dia
seguinte, alguns dos companheiros bateram-lhe no ombro,
cumprimentando-o pela noite de almirante, e pediram-lhe
notícias de Genoveva, se estava mais bonita, se chorara
muito na ausência, etc. Ele respondia a tudo com um
sorriso satisfeito e discreto, um sorriso de pessoa que
viveu uma grande noite. Parece que teve vergonha da
realidade e preferiu mentir.
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