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Histórias Sem Data
Machado de Assis



UMA SENHORA

Nunca encontro esta senhora que me não lembre a profecia
de uma lagartixa ao poeta Heine, subindo os Apeninos: "Dia
virá em que as pedras serão plantas, as plantas animais,
os animais homens e os homens deuses." E dá-me vontade de
dizer-lhe: - A senhora, D. Camila, amou tanto a mocidade e
a beleza, que atrasou o seu relógio, a fim de ver se podia
fixar esses dois minutos de cristal. Não se desconsole, D.
Camila. No dia da lagartixa, a senhora será Hebe, deusa da
juventude; a senhora nos dará a beber o néctar da
perenidade com as suas mãos eternamente moças.

A primeira vez que a vi, tinha ela trinta e seis anos,
posto só parecesse trinta e dois, e não passasse da casa
dos vinte e nove. Casa é um modo de dizer. Não há castelo
mais vasto do que a vivenda destes bons amigos, nem
tratamento mais obsequioso do que o que eles sabem dar às
suas hóspedes. Cada vez que D. Camila queria ir-se embora,
eles pediam-lhe muito que ficasse, e ela ficava. Vinham
então novos folguedos, cavalhadas, música, dança, uma
sucessão de coisas belas, inventadas com o único fim de
impedir que esta senhora seguisse o seu caminho.

- Mamãe, mamãe, dizia-lhe a filha crescendo, vamos embora,
não podemos ficar aqui toda a vida.

D. Camila olhava para ela mortificada, depois sorria,
dava-lhe um beijo e mandava-a brincar com as outras
crianças. Que outras crianças? Ernestina estava então
entre quatorze e quinze anos, era muito espigada, muito
quieta, com uns modos naturais de senhora. Provavelmente
não se divertiria com as meninas de oito e nove anos; não
importa, uma vez que deixasse a mãe tranqüila, podia
alegrar-se ou enfadar-se. Mas, ai triste! há um limite
para tudo, mesmo para os vinte e nove anos. D. Camila
resolveu, enfim, despedir-se desses dignos anfitriões, e
fê-lo ralada de saudades. Eles ainda instaram por uns
cinco ou seis meses de quebra; a bela dama respondeu-lhes
que era impossível e, trepando no alazão do tempo, foi
alojar-se na casa dos trinta.

Ela era, porém, daquela casta de mulheres que riem do sol
e dos almanaques. Cor de leite, fresca, inalterável,
deixava às outras o trabalho de envelhecer. Só queria o de
existir. Cabelo negro, olhos castanhos e cálidos. Tinha as
espáduas e o colo feitos de encomenda para os vestidos
decotados, e assim também os braços, que eu não digo que
eram os da Vênus de Milo, para evitar uma vulgaridade, mas
provavelmente não eram outros. D. Camila sabia disto;
sabia que era bonita, não só porque lho dizia o olhar
sorrateiro das outras damas, como por um certo instinto
que a beleza possui, como o talento e o gênio. Resta dizer
que era casada, que o marido era ruivo, e que os dois
amavam-se como noivos; finalmente, que era honesta. Não o
era, note-se bem, por temperamento, mas por princípio, por
amor ao marido, e creio que um pouco por orgulho.

Nenhum defeito, pois, exceto o de retardar os anos; mas é
isso um defeito? Há, não me lembra em que página da
Escritura, naturalmente nos Profetas, uma comparação dos
dias com as águas de um rio que não voltam mais. D. Camila
queria fazer uma represa para seu uso. No tumulto desta
marcha contínua entre o nascimento e a morte, ela apegava-
se à ilusão da estabilidade. Só se lhe podia exigir que
não fosse ridícula, e não o era. Dir-me-á o leitor que a
beleza vive de si mesma, e que a preocupação do calendário
mostra que esta senhora vivia principalmente com os olhos
na opinião. É verdade; mas como quer que vivam as mulheres
do nosso tempo?

D. Camila entrou na casa dos trinta e não lhe custou
passar adiante. Evidentemente o terror era uma
superstição. Duas ou três amigas íntimas, nutridas de
aritmética, continuavam a dizer que ela perdera a conta
dos anos. Não advertiam que a natureza era cúmplice no
erro, e que aos quarenta anos (verdadeiros), D. Camila
trazia um ar de trinta e poucos. Restava um recurso:
espiar-lhe o primeiro cabelo branco, um fiozinho de nada,
mas branco. Em vão espiavam; o demônio do cabelo parecia
cada vez mais negro.

Nisto enganavam-se. O fio branco estava ali; era a filha
de D. Camila que entrava nos dezenove anos, e, por mal de
pecados, bonita. D. Camila prolongou, quanto pôde, os
vestidos adolescentes da filha, conservou-a no colégio até
tarde, fez tudo para proclamá-la criança. A natureza,
porém, que não é só imoral, mas também ilógica, enquanto
sofreava os anos de uma, afrouxava a rédea aos da outra, e
Ernestina, moça feita, entrou radiante no primeiro baile.
Foi uma revelação. D. Camila adorava a filha; saboreou-lhe
a glória a tragos demorados. No fundo do copo achou a gota
amarga e fez uma careta. Chegou a pensar na abdicação; mas
um grande pródigo de frases feitas disse-lhe que ela
parecia a irmã mais velha da filha, e o projeto desfez-se.
Foi dessa noite em diante que D. Camila entrou a dizer a
todos que casara muito criança.

Um dia, poucos meses depois, apontou no horizonte o
primeiro namorado. D. Camila pensara vagamente nessa
calamidade, sem encará-la, sem aparelhar-se para a defesa.
Quando menos esperava, achou um pretendente à porta.
Interrogou a filha; descobriu-lhe um alvoroço indefinível,
a inclinação dos vinte anos, e ficou prostrada. Casá-la
era o menos; mas, se os seres são como as águas da
Escritura, que não voltam mais, é porque atrás deles vêm
outros, como atrás das águas outras águas; e, para definir
essas ondas sucessivas é que os homens inventaram este
nome de netos. D. Camila viu iminente o primeiro neto, e
determinou adiá-lo. Está claro que não formulou a
resolução, como não formulara a idéia do perigo. A alma
entende-se a si mesma; uma sensação vale um raciocínio. As
que ela teve foram rápidas, obscuras, no mais íntimo do
seu ser, donde não as extraiu para não ser obrigada a
encará-las.

- Mas que é que você acha de mau no Ribeiro? perguntou-lhe
o marido, uma noite, à janela.

D. Camila levantou os ombros. - Acho-lhe o nariz torto,
disse.

- Mau! Você está nervosa; falemos de outra coisa,
respondeu o marido. E, depois de olhar uns dois minutos
para a rua, cantarolando na garganta, tornou ao Ribeiro,
que achava um genro aceitável, e se lhe pedisse Ernestina,
entendia que deviam ceder-lha. Era inteligente e educado.
Era também o herdeiro provável de uma tia de Cantagalo. E
depois tinha um coração de ouro. Contavam-se dele coisas
muito bonitas. Na academia, por exemplo... D. Camila ouviu
o resto, batendo com a ponta do pé no chão e rufando com
os dedos a sonata da impaciência; mas, quando o marido lhe
disse que o Ribeiro esperava um despacho do ministro de
estrangeiros, um lugar para os Estados Unidos, não pôde
ter-se e cortou-lhe a palavra:

- O quê? separar-me de minha filha? Não, senhor.

Em que dose entrara neste grito o amor materno e o
sentimento pessoal, é um problema difícil de resolver,
principalmente agora, longe dos acontecimentos e das
pessoas. Suponhamos que em partes iguais. A verdade é que
o marido não soube que inventar para defender o ministro
de estrangeiros, as necessidades diplomáticas, a
fatalidade do matrimônio, e, não achando que inventar, foi
dormir. Dois dias depois veio a nomeação. No terceiro dia,
a moça declarou ao namorado que não a pedisse ao pai,
porque não queria separar-se da família. Era o mesmo que
dizer: prefiro a família ao senhor. É verdade que tinha a
voz trêmula e sumida, e um ar de profunda consternação;
mas o Ribeiro viu tão-somente a rejeição, e embarcou.
Assim acabou a primeira aventura.

D. Camila padeceu com o desgosto da filha; mas consolou-se
depressa. Não faltam noivos, refletiu ela. Para consolar a
filha, levou-a a passear a toda parte. Eram ambas bonitas,
e Ernestina tinha a frescura dos anos; mas a beleza da mãe
era mais perfeita, e apesar dos anos, superava a da filha.
Não vamos ao ponto de crer que o sentimento da
superioridade é que animava D. Camila a prolongar e
repetir os passeios. Não: o amor materno, só por si,
explica tudo. Mas concedamos que animasse um pouco. Que
mal há nisso? Que mal há em que um bravo coronel defenda
nobremente a pátria, e as suas dragonas? Nem por isso
acaba o amor da pátria e o amor das mães.

Meses depois despontou a orelha de um segundo namorado.
Desta vez era um viúvo, advogado, vinte e sete anos.
Ernestina não sentiu por ele a mesma emoção que o outro
lhe dera; limitou-se a aceitá-lo. D. Camila farejou
depressa a nova candidatura. Não podia alegar nada contra
ele; tinha o nariz reto como a consciência, e profunda
aversão à vida diplomática. Mas haveria outros defeitos,
devia haver outros. D. Camila buscou-os com alma; indagou
de suas relações, hábitos, passado. Conseguiu achar umas
coisinhas miúdas, tão-somente a unha da imperfeição
humana, alternativas de humor, ausência de graças
intelectuais, e, finalmente um grande excesso de amor-
próprio. Foi neste ponto que a bela dama o apanhou.
Começou a levantar vagarosamente a muralha do silêncio;
lançou primeiro a camada das pausas, mais ou menos longas,
depois as frases curtas, depois os monossílabos, as
distrações, as absorções, os olhares complacentes, os
ouvidos resignados, os bocejos fingidos por trás da
ventarola. Ele não entendeu logo; mas, quando reparou que
os enfados da mãe coincidiam com as ausências da filha,
achou que era ali de mais e retirou-se. Se fosse homem de
luta, tinha saltado a muralha; mas era orgulhoso e fraco.
D. Camila deu graças aos deuses.

Houve um trimestre de respiro. Depois apareceram alguns
namoricos de uma noite, insetos efêmeros, que não deixaram
história. D. Camila compreendeu que eles tinham de
multiplicar-se, até vir algum decisivo que a obrigasse a
ceder; mas ao menos, dizia ela a si mesma, queria um genro
que trouxesse à filha a mesma felicidade que o marido lhe
deu. E, uma vez, ou para robustecer este decreto da
vontade, ou por outro motivo, repetiu o conceito em voz
alta, embora só ela pudesse ouvi-lo. Tu, psicólogo sutil,
podes imaginar que ela queria convencer-se a si mesma; eu
prefiro contar o que lhe aconteceu em 186...

Era de manhã. D. Camila estava ao espelho, a janela
aberta, a chácara verde e sonora de cigarras e
passarinhos. Ela sentia em si a harmonia que a ligava às
coisas externas. Só a beleza intelectual é independente e
superior. A beleza física é irmã da paisagem. D. Camila
saboreava essa fraternidade íntima, secreta, um sentimento
de identidade, uma recordação da vida anterior no mesmo
útero divino. Nenhuma lembrança desagradável, nenhuma
ocorrência vinha turvar essa expansão misteriosa. Ao
contrário, tudo parecia embebê-la de eternidade, e os
quarenta e dois anos em que ia não lhe pesavam mais do que
outras tantas folhas de rosa. Olhava para fora, olhava
para o espelho. De repente, como se lhe surdisse uma
cobra, recuou aterrada. Tinha visto, sobre a fonte
esquerda, um cabelinho branco. Ainda cuidou que fosse do
marido; mas reconheceu depressa que não, que era dela
mesma, um telegrama da velhice, que aí vinha a marchas
forçadas. O primeiro sentimento foi de prostração. D.
Camila sentiu faltar-lhe tudo, tudo, viu-se encanecida e
acabada no fim de uma semana.

- Mamãe, mamãe, bradou Ernestina entrando na saleta. Está
aqui o camarote que papai mandou.

D. Camila teve um sobressalto de pudor, e instintivamente
voltou para a filha o lado que não tinha o fio branco.
Nunca a achou tão graciosa e lépida. Fitou-a com saudade.
Fitou-a também com inveja, e, para abafar este sentimento
mau, pegou no bilhete do camarote. Era para aquela mesma
noite. Uma idéia expele outra; D. Camila anteviu-se no
meio das luzes e das gentes, e depressa levantou o
coração. Ficando só, tornou a olhar para o espelho, e
corajosamente arrancou o cabelinho branco, e deitou-o à
chácara. Out, damned spot! Out! Mais feliz do que a outra
lady Macbeth, viu assim desaparecer a nódoa no ar, porque
no ânimo dela, a velhice era um remorso, e a fealdade um
crime. Sai, maldita mancha! sai!

Mas, se os remorsos voltam, por que não hão de voltar os
cabelos brancos? Um mês depois, D. Camila descobriu outro,
insinuado na bela e farta madeixa negra, e amputou-o sem
piedade. Cinco ou seis semanas depois, outro. Este
terceiro coincidiu com um terceiro candidato à mão da
filha, e ambos acharam D. Camila numa hora de prostração.
A beleza, que lhe suprira a mocidade, parecia-lhe prestes
a ir também, como uma pomba sai em busca da outra. Os dias
precipitavam-se. Crianças que ela vira ao colo, ou de
carrinho empuxado pelas amas, dançavam agora nos bailes.
Os que eram homens fumavam; as mulheres cantavam ao piano.
Algumas destas apresentavam-lhe os seus babies, gorduchos,
uma segunda geração que mamava, à espera de ir bailar
também, cantar ou fumar, apresentar outros babies a outras
pessoas, e assim por diante.

D. Camila apenas tergiversou um pouco, acabou cedendo. Que
remédio, senão aceitar um genro? Mas, como um velho
costume não se perde de um dia para outro, D. Camila viu
paralelamente, naquela festa do coração, um cenário e
grande cenário. Preparou-se galhardamente, e o efeito
correspondeu ao esforço. Na igreja, no meio de outras
damas; na sala, sentada no sofá (o estofo que forrava este
móvel, assim como o papel da parede foram sempre escuros
para fazer sobressair a tez de D. Camila), vestida a
capricho, sem o requinte da extrema juventude, mas também
sem a rigidez matronal, um meio-termo apenas, destinado a
pôr em relevo as suas graças outoniças, risonha, e feliz,
enfim, a recente sogra colheu os melhores sufrágios. Era
certo que ainda lhe pendia dos ombros um retalho de
púrpura.

Púrpura supõe dinastia. Dinastia exige netos. Restava que
o Senhor abençoasse a união, e ele abençoou-a, no ano
seguinte. D. Camila acostumara-se à idéia; mas era tão
penoso abdicar, que ela aguardava o neto com amor e
repugnância. Esse importuno embrião, curioso da vida e
pretensioso, era necessário na terra? Evidentemente, não;
mas apareceu um dia, com as flores de setembro. Durante a
crise, D. Camila só teve de pensar na filha; depois da
crise, pensou na filha e no neto. Só dias depois é que
pôde pensar em si mesma. Enfim, avó. Não havia que
duvidar; era avó. Nem as feições que eram ainda
concertadas, nem os cabelos, que eram pretos (salvo meia
dúzia de fios escondidos), podiam por si sós denunciar a
realidade; mas a realidade existia; ela era, enfim, avó.

Quis recolher-se; e para ter o neto mais perto de si,
chamou a filha para casa. Mas a casa não era um mosteiro,
e as ruas e os jornais com os seus mil rumores acordavam
nela os ecos de outro tempo. D. Camila rasgou o ato de
abdicação e tornou ao tumulto.

Um dia, encontrei-a ao lado de uma preta, que levava ao
colo uma criança de cinco a seis meses. D. Camila segurava
na mão o chapelinho de sol aberto para cobrir a criança.
Encontrei-a oito dias depois, com a mesma criança, a mesma
preta e o mesmo chapéu de sol. Vinte dias depois, e trinta
dias mais tarde, tornei a vê-la, entrando para o bond com
a preta e a criança. - Você já deu de mamar? dizia ela à
preta. Olhe o sol. Não vá cair. Não aperte muito o menino.
Acordou? Não mexa com ele. Cubra a carinha, etc., etc.

Era o neto. Ela, porém, ia tão apertadinha, tão cuidadosa
da criança, tão a miúdo, tão sem outra senhora, que antes
parecia mãe do que avó; e muita gente pensava que era mãe.
Que tal fosse a intenção de D. Camila não o juro eu. ("Não
jurarás", Mateus, V, 34). Tão-somente digo que nenhuma
outra mãe seria mais desvelada do que D. Camila com o
neto; atribuírem-lhe um simples filho era a coisa mais
verossímil do mundo.




ANEDOTA PECUNIÁRIA

Chama-se Falcão o meu homem. Naquele dia - quatorze de
abril de 1870 - quem lhe entrasse em casa, às dez horas da
noite, vê-lo-ia passear na sala, em mangas de camisa,
calça preta e gravata branca, resmungando, gesticulando,
suspirando, evidentemente aflito. Às vezes, sentava-se;
outras, encostava-se à janela, olhando para a praia, que
era a da Gamboa. Mas, em qualquer lugar ou atitude,
demorava-se pouco tempo.

- Fiz mal, dizia ele, muito mal. Tão minha amiga que ela
era! tão amorosa! Ia chorando, coitadinha! Fiz mal, muito
mal... Ao menos, que seja feliz!

Se eu disser que este homem vendeu uma sobrinha, não me
hão de crer; se descer a definir o preço, dez contos de
réis, voltar-me-ão as costas com desprezo e indignação.
Entretanto, basta ver este olhar felino, estes dois
beiços, mestres de cálculo, que, ainda fechados, parecem
estar contando alguma coisa, para adivinhar logo que a
feição capital do nosso homem é a voracidade do lucro.
Entendamo-nos: ele faz arte pela arte, não ama o dinheiro
pelo que ele pode dar, mas pelo que é em si mesmo! Ninguém
lhe vá falar dos regalos da vida. Não tem cama fofa, nem
mesa fina, nem carruagem, nem comenda. Não se ganha
dinheiro para esbanjá-lo, dizia ele. Vive de migalhas;
tudo o que amontoa é para a contemplação. Vai muitas vezes
à burra, que está na alcova de dormir, com o único fim de
fartar os olhos nos rolos de ouro e maços de título.
Outras vezes, por um requinte de erotismo pecuniário,
contempla-os só de memória. Neste particular, tudo o que
eu pudesse dizer, ficaria abaixo de uma palavra dele
mesmo, em 1857.

Já então milionário, ou quase, encontrou na rua dois
meninos, seus conhecidos, que lhe perguntaram se uma nota
de cinco mil-réis, que lhes dera um tio, era verdadeira.
Corriam algumas notas falsas, e os pequenos lembraram-se
disso em caminho. Falcão ia com um amigo. Pegou trêmulo na
nota, examinou-a bem, virou-a, revirou-a...

- É falsa? perguntou com impaciência um dos meninos.

- Não; é verdadeira.

- Dê cá, disseram ambos.

Falcão dobrou a nota vagarosamente, sem tirar-lhe os olhos
de cima; depois, restituiu-a aos pequenos, e, voltando-se
para o amigo, que esperava por ele, disse-lhe com a maior
candura do mundo:

- Dinheiro, mesmo quando não é da gente, faz gosto ver.

Era assim que ele amava o dinheiro, até à contemplação
desinteressada. Que outro motivo podia levá-lo a parar,
diante das vitrinas dos cambistas, cinco, dez, quinze
minutos, lambendo com os olhos os montes de libras e
francos, tão arrumadinhos e amarelos? O mesmo sobressalto
com que pegou na nota de cinco mil-réis, era um rasgo
sutil, era o terror da nota falsa. Nada aborrecia tanto,
como os moedeiros falsos, não por serem criminosos, mas
prejudiciais, por desmoralizarem o dinheiro bom.

A linguagem do Falcão valia um estudo. Assim é que, um
dia, em 1864, voltando do enterro de um amigo, referiu o
esplendor do préstito, exclamando com entusiasmo: -
"Pegavam no caixão três mil contos!" E, como um dos
ouvintes não o entendesse logo, concluiu do espanto, que
duvidava dele, e discriminou a afirmação: - "Fulano
quatrocentos, Sicrano seiscentos... Sim, senhor,
seiscentos; há dois anos, quando desfez a sociedade com o
sogro, ia em mais de quinhentos; mas suponhamos
quinhentos..." E foi por diante, demonstrando, somando e
concluindo: - "Justamente, três mil contos!"

Não era casado. Casar era botar dinheiro fora. Mas os anos
passaram, e aos quarenta e cinco entrou a sentir uma certa
necessidade moral, que não compreendeu logo, e era a
saudade paterna. Não mulher, não parentes, mas um filho ou
uma filha, se ele o tivesse, era como receber um patacão
de ouro. Infelizmente, esse outro capital devia ter sido
acumulado em tempo; não podia começá-lo a ganhar tão
tarde. Restava a loteria; a loteria deu-lhe o prêmio
grande.

Morreu-lhe o irmão, e três meses depois a cunhada,
deixando uma filha de onze anos. Ele gostava muito desta e
de outra sobrinha, filha de uma irmã viúva; dava-lhes
beijos, quando as visitava; chegava mesmo ao delírio de
levar-lhes, uma ou outra vez, biscoitos. Hesitou um pouco,
mas, enfim, recolheu a órfã; era a filha cobiçada. Não
cabia em si de contente; durante as primeiras semanas,
quase não saía de casa, ao pé dela, ouvindo-lhe histórias
e tolices.

Chamava-se Jacinta, e não era bonita; mas tinha a voz
melodiosa e os modos fagueiros. Sabia ler e escrever;
começava a aprender música. Trouxe o piano consigo, o
método e alguns exercícios; não pôde trazer o professor,
porque o tio entendeu que era melhor ir praticando o que
aprendera, e um dia... mais tarde... Onze anos, doze anos,
treze anos, cada ano que passava era mais um vínculo que
atava o velho solteirão à filha adotiva, e vice-versa. Aos
treze, Jacinta mandava na casa; aos dezessete era
verdadeira dona. Não abusou do domínio; era naturalmente
modesta, frugal, poupada.

- Um anjo! dizia o Falcão ao Chico Borges.

Este Chico Borges tinha quarenta anos, e era dono de um
trapiche. Ia jogar com o Falcão à noite. Jacinta assistia
às partidas. Tinha então dezoito anos; não era mais
bonita, mas diziam todos "que estava enfeitando muito".
Era pequenina, e o trapicheiro adorava as mulheres
pequeninas. Corresponderam-se, o namoro fez-se paixão.

- Vamos a elas, dizia o Chico Borges ao entrar, pouco
depois de ave-marias.

As cartas eram o chapéu de sol dos dois namorados. Não
jogavam a dinheiro; mas o Falcão tinha tal sede ao lucro,
que contemplava os próprios tentos, sem valor, e contava-
os de dez em dez minutos, para ver se ganhava ou perdia.
Quando perdia, caía-lhe o rosto num desalento incurável, e
ele recolhia-se pouco a pouco ao silêncio. Se a sorte
teimava em persegui-lo, acabava o jogo, e levantava-se tão
melancólico e cego, que a sobrinha e o parceiro podiam
apertar a mão, uma, duas, três vezes, sem que ele visse
coisa nenhuma.

Era isto em 1869. No princípio de 1870 Falcão propôs ao
outro uma venda de ações. Não as tinha; mas farejou uma
grande baixa, e contava ganhar de um só lance trinta a
quarenta contos ao Chico Borges. Este respondeu-lhe
finamente que andava pensando em oferecer-lhe a mesma
coisa. Uma vez que ambos queriam vender e nenhum comprar,
podiam juntar-se e propor a venda a um terceiro. Acharam o
terceiro, e fecharam o contrato a sessenta dias. Falcão
estava tão contente, ao voltar do negócio, que o sócio
abriu-lhe o coração e pediu-lhe a mão de Jacinta. Foi o
mesmo que, se de repente, começasse a falar turco. Falcão
parou, embasbacado, sem entender. Que lhe desse a
sobrinha? Mas então...

- Sim; confesso a você que estimaria muito casar com ela,
e ela... penso que também estimaria casar comigo.

- Qual, nada! interrompeu o Falcão. Não, senhor; está
muito criança, não consinto.

- Mas reflita...

- Não reflito, não quero.

Chegou a casa irritado e aterrado. A sobrinha afagou-o
tanto para saber o que era, que ele acabou contando tudo,
e chamando-lhe esquecida e ingrata. Jacinta empalideceu;
amava os dois, e via-os tão dados, que não imaginou nunca
esse contraste de afeições. No quarto chorou à larga;
depois escreveu uma carta ao Chico Borges, pedindo-lhe
pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não
fizesse barulho nem brigasse com o tio; dizia-lhe que
esperasse, e jurava-lhe um amor eterno.

Não brigaram os dois parceiros; mas as visitas foram
naturalmente mais escassas e frias. Jacinta não vinha à
sala, ou retirava-se logo. O terror do Falcão era enorme.
Ele amava a sobrinha com um amor de cão, que persegue e
morde aos estranhos. Queria-a para si, não como homem, mas
como pai. A paternidade natural dá forças para o
sacrifício da separação; a paternidade dele era de
empréstimo, e, talvez, por isso mesmo, mais egoísta. Nunca
pensara em perdê-la; agora, porém, eram trinta mil
cuidados, janelas fechadas, advertências à preta, uma
vigilância perpétua, um espiar os gestos e os ditos, uma
campanha de D. Bartolo.

Entretanto, o sol, modelo de funcionários, continuou a
servir pontualmente os dias, um a um, até chegar dos dois
meses do prazo marcado para a entrega das ações. Estas
deviam baixar, segundo a previsão dos dois; mas as ações,
como as loterias e as batalhas, zombam dos cálculos
humanos. Naquele caso, além de zombaria, houve crueldade,
porque nem baixaram, nem ficaram ao par; subiram até
converter o esperado lucro de quarenta contos numa perda
de vinte.

Foi aqui que o Chico Borges teve uma inspiração de gênio.
Na véspera, quando o Falcão, abatido e mudo, passeava na
sala o seu desapontamento, propôs ele custear todo o
deficit, se lhe desse a sobrinha, Falcão teve um
deslumbramento.

- Que eu...?

- Isso mesmo, interrompeu o outro, rindo.

- Não, não...

Não quis; recusou três e quatro vezes. A primeira
impressão fora de alegria, eram os dez contos na
algibeira. Mas a idéia de separar-se de Jacinta era
insuportável, e recusou. Dormiu mal. De manhã, encarou a
situação, pesou as coisas, considerou que, entregando
Jacinta ao outro, não a perdia inteiramente, ao passo que
os dez contos iam-se embora. E, depois, se ela gostava
dele e ele dela, por que razão separá-los? Todas as filhas
casam-se, e os pais contentam-se de as ver felizes. Correu
à casa do Chico Borges, e chegaram a acordo.

- Fiz mal, muito mal, bradava ele na noite do casamento.
Tão minha amiga que ela era! Tão amorosa! Ia chorando,
coitadinha... Fiz mal, muito mal.

Cessara o terror dos dez contos; começara o fastio da
solidão. Na manhã seguinte, foi visitar os noivos. Jacinta
não se limitou a regalá-lo com um bom almoço, encheu-o de
mimos e afagos; mas nem estes, nem o almoço lhe
restituíram a alegria. Ao contrário, a felicidade dos
noivos entristeceu-o mais. Ao voltar para casa não achou a
carinha meiga de Jacinta. Nunca mais lhe ouviria as
cantigas de menina e moça; não seria ela quem lhe faria o
chá, quem lhe traria, à noite, quando ele quisesse ler, o
velho tomo ensebado do Saint-Clair das Ilhas, dádiva de
1850.

- Fiz mal, muito mal...

Para remediar o mal feito, transferiu as cartas para a
casa da sobrinha, e ia lá jogar, à noite, com o Chico
Borges. Mas a fortuna, quando flagela um homem, corta-lhe
todas as vazas. Quatro meses depois, os recém-casados
foram para a Europa; a solidão alargou-se de toda a
extensão do mar. Falcão contava então cinqüenta e quatro
anos. Já estava mais consolado do casamento de Jacinta;
tinha mesmo o plano de ir morar com eles, ou de graça, ou
mediante uma pequena retribuição, que calculou ser muito
mais econômica do que a despesa de viver só. Tudo se
esboroou; ei-lo outra vez na situação de oito anos antes,
com a diferença que a sorte arrancara-lhe a taça entre
dois goles.

Vai senão quando cai-lhe outra sobrinha em casa. Era a
filha da irmã viúva, que morreu e lhe pediu a esmola de
tomar conta dela. Falcão não prometeu nada, porque um
certo instinto o levava a não prometer coisa nenhuma a
ninguém, mas a verdade é que recolheu a sobrinha, tão
depressa a irmã fechou os olhos. Não teve constrangimento;
ao contrário, abriu-lhe as portas de casa, com um alvoroço
de namorado, e quase abençoou a morte da irmã. Era outra
vez a filha perdida.

- Esta há de fechar-me os olhos, dizia ele consigo.

Não era fácil. Virgínia tinha dezoito anos, feições lindas
e originais; era grande e vistosa. Para evitar que lha
levassem, Falcão começou por onde acabara da primeira vez:
- janelas cerradas, advertências à preta, raros passeios,
só com ele e de olhos baixos. Virgínia não se mostrou
enfadada. - Nunca fui janeleira, dizia ela, e acho muito
feio que uma moça viva com o sentido na rua. Outra cautela
do Falcão foi não trazer para casa senão parceiros de
cinqüenta anos para cima ou casados. Enfim, não cuidou
mais da baixa das ações. E tudo isso era desnecessário,
porque a sobrinha não cuidava realmente senão dele e da
casa. Às vezes, como a vista do tio começava a diminuir
muito, lia-lhe ela mesma alguma página do Saint-Clair das
Ilhas. Para suprir os parceiros, quando eles faltavam,
aprendeu a jogar cartas, e, entendendo que o tio gostava
de ganhar, deixava-se sempre perder. Ia mais longe: quando
perdia muito, fingia-se zangada ou triste, com o único fim
de dar ao tio um acréscimo de prazer. Ele ria então à
larga, mofava dela, achava-lhe o nariz comprido, pedia um
lenço para enxugar-lhe as lágrimas; mas não deixava de
contar os seus tentos de dez em dez minutos, e se algum
caía no chão (eram grãos de milho) descia a vela para
apanhá-lo.

No fim de três meses, Falcão adoeceu. A moléstia não foi
grave nem longa; mas o terror da morte apoderou-se-lhe do
espírito, e foi então que se pôde ver toda a afeição que
ele tinha à moça. Cada visita que se lhe chegava, era
recebida com rispidez, ou pelo menos com sequidão. Os mais
íntimos padeciam mais, porque ele dizia-lhes brutalmente
que ainda não era cadáver, que a carniça ainda estava
viva, que os urubus enganavam-se de cheiro, etc. Mas nunca
Virgínia achou nele um só instante de mau humor. Falcão
obedecia-lhe em tudo, com uma passividade de criança, e,
quando ria, é porque ela o fazia rir.

- Vamos, tome o remédio, deixe-se disso, vosmecê agora é
meu filho...

Falcão sorria e bebia a droga. Ela sentava-se ao pé da
cama, contando-lhe histórias; espiava o relógio para dar-
lhe os caldos ou a galinha, lia-lhe o sempiterno Saint-
Clair. Veio a convalescença. Falcão saiu a alguns
passeios, acompanhado de Virgínia. A prudência com que
esta, dando-lhe o braço, ia mirando as pedras da rua, com
medo de encarar os olhos de algum homem, encantava o
Falcão.

- Esta há de fechar-me os olhos, repetia ele consigo
mesmo. Um dia, chegou a pensá-lo em voz alta: - Não é
verdade que você me há de fechar os olhos?

- Não diga tolices!

Conquanto estivesse na rua, ele parou, apertou-lhe muito
as mãos, agradecido, não achando que dizer. Se tivesse a
faculdade de chorar, ficaria provavelmente com os olhos
úmidos. Chegando à casa, Virgínia correu ao quarto para
reler uma carta que lhe entregara na véspera uma D.
Bernarda, amiga de sua mãe. Era datada de New York, e
trazia por única assinatura este nome: Reginaldo. Um dos
trechos dizia assim: "Vou daqui no paquete de 25. Espera-
me sem falta. Não sei ainda se irei ver-te logo ou não.
Teu tio deve lembrar-se de mim; viu-me em casa de meu tio
Chico Borges, no dia do casamento de tua prima..."

Quarenta dias depois, desembarcava este Reginaldo, vindo
de New York, com trinta anos feitos e trezentos mil
dólares ganhos. Vinte e quatro horas depois visitou o
Falcão, que o recebeu apenas com polidez. Mas o Reginaldo
era fino e prático; atinou com a principal corda do homem,
e vibrou-a. Contou-lhe os prodígios de negócio nos Estados
Unidos, as hordas de moedas que corriam de um a outro dos
dois oceanos. Falcão ouvia deslumbrado, e pedia mais.
Então o outro fez-lhe uma extensa computação das
companhias e bancos, ações, saldos de orçamento público,
riquezas particulares, receita municipal de New York;
descreveu-lhe os grandes palácios do comércio...

- Realmente, é um grande país, dizia o Falcão, de quando
em quando. E depois de três minutos de reflexão: - Mas,
pelo que o senhor conta, só há ouro?

- Ouro só, não; há muita prata e papel; mas ali papel e
ouro são a mesma coisa. E moedas de outras nações? Hei de
mostrar-lhe uma coleção que trago. Olhe; para ver o que é
aquilo basta pôr os olhos em mim. Fui para lá pobre, com
vinte e três anos; no fim de sete anos, trago seiscentos
contos.

Falcão estremeceu: - Eu, com a sua idade, confessou ele,
mal chegaria a cem.

Estava encantado. Reginaldo disse-lhe que precisava de
duas ou três semanas, para lhe contar os milagres do
dólar.

- Como é que o senhor lhe chama?

- Dólar.

- Talvez não acredite que nunca vi essa moeda.

Reginaldo tirou do bolso do colete um dólar e mostrou-lho.
Falcão, antes de lhe pôr a mão, agarrou-o com os olhos.
Como estava um pouco escuro, levantou-se e foi até à
janela, para examiná-lo bem - de ambos os lados; depois
restituiu-o, gabando muito o desenho e a cunhagem, e
acrescentando que os nossos antigos patacões eram bem
bonitos.

As visitas repetiram-se. Reginaldo assentou de pedir a
moça. Esta, porém, disse-lhe que era preciso ganhar
primeiro as boas graças do tio; não casaria contra a
vontade dele. Reginaldo não desanimou. Tratou de redobrar
as finezas; abarrotou o tio de dividendos fabulosos.

- A propósito, o senhor nunca me mostrou a sua coleção de
moedas, disse-lhe um dia o Falcão.

- Vá amanhã à minha casa.

Falcão foi. Reginaldo mostrou-lhe a coleção metida num
móvel envidraçado por todos os lados. A surpresa de Falcão
foi extraordinária; esperava uma caixinha com um exemplar
de cada moeda, e achou montes de ouro, de prata, de bronze
e de cobre. Falcão mirou-as primeiro de um olhar universal
e coletivo; depois, começou a fixá-las especificadamente.
Só conheceu as libras, os dólares e os francos; mas o
Reginaldo nomeou-as todas: florins, coroas, rublos,
dracmas, piastras, pesos, rúpias, toda a numismática do
trabalho, concluiu ele poeticamente.

- Mas que paciência a sua para ajuntar tudo isto! disse
ele.

- Não fui eu que ajuntei, replicou o Reginaldo; a coleção
pertencia ao espólio de um sujeito de Filadélfia. Custou-
me uma bagatela:- cinco mil dólares.

Na verdade, valia mais. Falcão saiu dali com a coleção na
alma; falou dela à sobrinha, e, imaginariamente,
desarrumou e tornou a arrumar as moedas, como um amante
desgrenha a amante para toucá-la outra vez. De noite
sonhou que era um florim, que um jogador o deitava à mesa
do lansquenet, e que ele trazia consigo para a algibeira
do jogador mais de duzentos florins. De manhã, para
consolar-se, foi contemplar as próprias moedas que tinha
na burra; mas não se consolou nada. O melhor dos bens é o
que se não possui.

Dali a dias, estando em casa, na sala, pareceu-lhe ver uma
moeda no chão. Inclinou-se a apanhá-la; não era moeda, era
uma simples carta. Abriu a carta distraidamente e leu-a
espantado: era de Reginaldo a Virgínia...

- Basta! interrompe-me o leitor; adivinho o resto.
Virgínia casou com o Reginaldo, as moedas passaram às mãos
do Falcão, e eram falsas...

Não, senhor, eram verdadeiras. Era mais moral que, para
castigo do nosso homem, fossem falsas; mas, ai de mim! eu
não sou Sêneca, não passo de um Suetônio que contaria dez
vezes a morte de César, se ele ressuscitasse dez vezes,
pois não tornaria à vida, senão para tornar ao império.
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