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Histórias Sem Data
Machado de Assis



CONTO ALEXANDRINO

Capítulo I

No mar

- O quê, meu caro Stroibus! Não, impossível. Nunca jamais
ninguém acreditará que o sangue de rato, dado a beber a um
homem, possa fazer do homem um ratoneiro.

- Em primeiro lugar, Pítias, tu omites uma condição: - é
que o rato deve expirar debaixo do escalpelo, para que o
sangue traga o seu princípio. Essa condição é essencial.
Em segundo lugar, uma vez que me apontas o exemplo do
rato, fica sabendo que já fiz com ele uma experiência, e
cheguei a produzir um ladrão...

- Ladrão autêntico?

- Levou-me o manto, ao cabo de trinta dias, mas deixou-me
a maior alegria do mundo: - a realidade da minha doutrina.
Que perdi eu? um pouco de tecido grosso; e que lucrou o
universo? a verdade imortal. Sim, meu caro Pítias; esta é
a eterna verdade. Os elementos constitutivos do ratoneiro
estão no sangue do rato, os do paciente no boi, os do
arrojado na águia...

- Os do sábio na coruja, interrompeu Pítias sorrindo.

- Não; a coruja é apenas um emblema; mas a aranha, se
pudéssemos transferi-la a um homem, daria a esse homem os
rudimentos da geometria e o sentimento musical. Com um
bando de cegonhas, andorinhas ou grous, faço-te de um
caseiro um viajeiro. O princípio da fidelidade conjugal
está no sangue da rola, o da enfatuação no dos pavões...
Em suma, os deuses puseram nos bichos da terra, da água e
do ar a essência de todos os sentimentos e capacidades
humanas. Os animais são as letras soltas do alfabeto; o
homem é a sintaxe. Esta é a minha filosofia recente; esta
é a que vou divulgar na corte do grande Ptolomeu.

Pítias sacudiu a cabeça, e fixou os olhos no mar. O navio
singrava, em direitura a Alexandria, com essa carga
preciosa de dois filósofos, que iam levar àquele regaço do
saber os frutos da razão esclarecida. Eram amigos, viúvos
e qüinquagenários. Cultivavam especialmente a metafísica,
mas conheciam a física, a química, a medicina e a música;
um deles, Stroibus, chegara a ser excelente anatomista,
tendo lido muitas vezes os tratados do mestre Herófilo.
Chipre era a pátria de ambos; mas, tão certo é que ninguém
é profeta em sua terra, Chipre não dava o merecido
respeito aos dois filósofos. Ao contrário, desdenhava-os;
os garotos tocavam ao extremo de rir deles. Não foi esse,
entretanto, o motivo que os levou a deixar a pátria. Um
dia, Pítias, voltando de uma viagem, propôs ao amigo irem
para Alexandria, onde as artes e as ciências eram
grandemente honradas. Stroibus aderiu, e embarcaram. Só
agora, depois de embarcados, é que o inventor da nova
doutrina expô-la ao amigo, com todas as suas recentes
cogitações e experiências.

- Está feito, disse Pítias, levantando a cabeça, não
afirmo nem nego nada. Vou estudar a doutrina, e se a achar
verdadeira, proponho-me a desenvolvê-la e divulgá-la.

- Viva Hélios! exclamou Stroibus. Posso contar que és meu
discípulo.


Capítulo II
Experiência

Os garotos alexandrinos não trataram os dois sábios com o
escárnio dos garotos cipriotas. A terra era grave como a
íbis pousada numa só pata, pensativa como a esfinge,
circunspecta como as múmias, dura como as pirâmides; não
tinha tempo nem maneira de rir. Cidade e corte, que desde
muito tinham notícia dos nossos dois amigos, fizeram-lhes
um recebimento régio, mostraram conhecer os seus escritos,
discutiram as suas idéias, mandaram-lhes muitos presentes,
papiros, crocodilos, zebras, púrpuras. Eles, porém,
recusaram tudo, com simplicidade, dizendo que a filosofia
bastava ao filósofo, e que o supérfluo era um dissolvente.
Tão nobre resposta encheu de admiração tanto aos sábios
como aos principais e à mesma plebe. E aliás, diziam os
mais sagazes, que outra coisa se podia esperar de dois
homens tão sublimes, que em seus magníficos tratados...

- Temos coisa melhor do que esses tratados, interrompia
Stroibus. Trago uma doutrina, que, em pouco, vai dominar o
universo; cuido nada menos que em reconstituir os homens e
os Estados, distribuindo os talentos e as virtudes.

- Não é esse o ofício dos deuses? objetava um.

- Eu violei o segredo dos deuses, acudia Stroibus. O homem
é a sintaxe da natureza, eu descobri as leis da gramática
divina...

- Explica-te.

- Mais tarde; deixa-me experimentar primeiro. Quando minha
doutrina estiver completa, divulgá-la-ei como a maior
riqueza que os homens jamais poderão receber de um homem.

Imaginem a expectação pública e a curiosidade dos outros
filósofos, embora incrédulos de que a verdade recente
viesse aposentar as que eles mesmos possuíam. Entretanto,
esperavam todos. Os dois hóspedes eram apontados na rua
até pelas crianças. Um filho meditava trocar a avareza do
pai, um pai a prodigalidade do filho, uma dama a frieza de
um varão, um varão os desvarios de uma dama, porque o
Egito, desde os Faraós até aos Lágides, era a terra de
Putifar, da mulher de Putifar, da capa de José, e do
resto. Stroibus tornou-se a esperança da cidade e do
mundo.

Pítias, tendo estudado a doutrina, foi ter com Stroibus, e
disse-lhe:

- Metafisicamente, a tua doutrina é um despropósito; mas
estou pronto a admitir uma experiência, contando que seja
decisiva. Para isto, meu caro Stroibus, há só um meio. Tu
e eu, tanto pelo cultivo de razão como pela rigidez do
caráter, somos o que há mais oposto ao vício do furto.
Pois bem, se conseguires incutir-nos esse vício, não será
preciso mais; se não conseguires nada (e pode crê-lo,
porque é um absurdo) recuarás de semelhante doutrina, e
tornarás às nossas velhas meditações.

Stroibus aceitou a proposta.

- O meu sacrifício é o mais penoso, disse ele, pois estou
certo do resultado; mas que não merece a verdade? A
verdade é imortal; o homem é um breve momento...

Os ratos egípcios, se pudessem saber de um tal acordo,
teriam imitado os primitivos hebreus, aceitando a fuga
para o deserto, antes do que a nova filosofia. E podemos
crer que seria um desastre. A ciência, como a guerra, tem
necessidades imperiosas; e desde que a ignorância dos
ratos, a sua fraqueza, a superioridade mental e física dos
dois filósofos eram outras tantas vantagens na experiência
que ia começar, cumpria não perder tão boa ocasião de
saber se efetivamente o princípio das paixões e das
virtudes humanas estava distribuído pelas várias espécies
de animais, e se era possível transmiti-lo.

Stroibus engaiolava os ratos; depois, um a um, ia-os
sujeitando ao ferro. Primeiro, atava uma tira de pano no
focinho do paciente; em seguida, os pés, finalmente,
cingia com um cordel as pernas e o pescoço do animal à
tábua da operação. Isto feito, dava o primeiro talho no
peito, com vagar, e com vagar ia enterrando o ferro até
tocar o coração, porque era opinião dele que a morte
instantânea corrompia o sangue e retirava-lhe o princípio.
Hábil anatomista, operava com uma firmeza digna do
propósito científico. Outro, menos destro, interromperia
muita vez a tarefa, porque as contorções de dor e de
agonia tornavam difícil o meneio do escalpelo; mas essa
era justamente a superioridade de Stroibus: tinha o pulso
magistral e prático.

Ao lado dele, Pítias aparava o sangue e ajudava a obra, já
contendo os movimentos convulsivos do paciente, já
espiando-lhe nos olhos o progresso da agonia. As
observações que ambos faziam eram notadas em folhas de
papiro; e assim ganhava a ciência de duas maneiras. Às
vezes, por divergência de apreciação, eram obrigados a
escalpelar maior número de ratos do que o necessário; mas
não perdiam com isso, porque o sangue dos excedentes era
conservado e ingerido depois. Um só desses casos mostrará
a consciência com que eles procediam. Pítias observara que
a retina do rato agonizante mudava de cor até chegar ao
azul claro, ao passo que a observação de Stroibus dava a
cor de canela como o tom final da morte. Estavam na última
operação do dia; mas o ponto valia a pena, e, não obstante
o cansaço, fizeram sucessivamente dezenove experiências
sem resultado definitivo; Pítias insistia pela cor azul, e
Stroibus pela cor de canela. O vigésimo rato esteve
prestes a pô-los de acordo, mas Stroibus advertiu, com
muita sagacidade, que a sua posição era agora diferente,
retificou-a e escalpelaram mais vinte e cinco. Destes, o
primeiro ainda os deixou em dúvida; mas os outros vinte e
quatro provaram-lhes que a cor final não era canela nem
azul, mas um lírio roxo, tirando a claro.

A descrição exagerada das experimentações deu rebate à
porção sentimental da cidade, e excitou a loqüela de
alguns sofistas; mas o grave Stroibus (com brandura, para
não agravar uma disposição própria da alma humana)
respondeu que a verdade valia todos os ratos do universo,
e não só os ratos, como os pavões, as cabras, os cães, os
rouxinóis, etc.; que, em relação aos ratos, além de ganhar
a ciência, ganhava a cidade, vendo diminuída a praga de um
animal tão daninho; e, se a mesma consideração não se dava
com outros animais, como, por exemplo, as rolas e os cães,
que eles iam escalpelar daí a tempos, nem por isso os
direitos da verdade eram menos imprescritíveis. A natureza
não há de ser só a mesa de jantar, concluía em forma de
aforismo, mas também a mesa da ciência.

E continuavam a extrair o sangue e a bebê-lo. Não o bebiam
puro, mas diluído em um cozimento de cinamomo, suco de
acácia e bálsamo, que lhe tirava todo o sabor primitivo.
As doses eram diárias e diminutas; tinham, portanto, de
aguardar um longo prazo antes de produzido o efeito.
Pítias, impaciente e incrédulo, mofava do amigo.

- Então? nada?

- Espera, dizia o outro, espera. Não se incute um vício
como se cose um par de sandálias.


Capítulo III
Vitória

Enfim, venceu Stroibus! A experiência provou a doutrina. E
Pítias foi o primeiro que deu mostras da realidade do
efeito, atribuindo-se umas três idéias ouvidas ao próprio
Stroibus; este, em compensação, furtou-lhe quatro
comparações e uma teoria dos ventos. Nada mais científico
do que essas estréias. As idéias alheias, por isso mesmo
que não foram compradas na esquina, trazem um certo ar
comum; e é muito natural começar por elas antes de passar
aos livros emprestados, às galinhas, aos papéis falsos, às
províncias, etc. A própria denominação de plágio é um
indício de que os homens compreendem a dificuldade de
confundir esse embrião da ladroeira com a ladroeira
formal.

Duro é dizê-lo; mas a verdade é que eles deitaram ao Nilo
a bagagem metafísica, e dentro de pouco estavam larápios
acabados. Concertavam-se de véspera, e iam aos mantos, aos
bronzes, às ânforas de vinho, às mercadorias do porto, às
boas dracmas. Como furtassem sem estrépito, ninguém dava
por eles; mas, ainda mesmo que os suspeitassem, como fazê-
lo crer aos outros? Já então Ptolomeu coligira na
biblioteca muitas riquezas e raridades; e, porque
conviesse ordená-las, designou para isso cinco gramáticos
e cinco filósofos, entre estes os nossos dois amigos.
Estes últimos trabalharam com singular ardor, sendo os
primeiros que entravam e os últimos que saíam, e ficando
ali muitas noites, ao clarão da lâmpada, decifrando,
coligindo, classificando. Ptolomeu, entusiasmado, meditava
para eles os mais altos destinos.

Ao cabo de algum tempo, começaram a notar-se faltas
graves: - um exemplar de Homero, três rolos de manuscritos
persas, dois de samaritanos, uma soberba coleção de cartas
originais de Alexandre, cópias de leis atenienses, o 2º e
o 3º livros da República de Platão, etc., etc. A
autoridade pôs-se à espreita; mas a esperteza do rato,
transferida a um organismo superior, era naturalmente
maior, e os dois ilustres gatunos zombavam de espias e
guardas. Chegaram ao ponto de estabelecer este preceito
filosófico de não sair dali com as mãos vazias; traziam
sempre alguma coisa, uma fábula, quando menos. Enfim,
estando a sair um navio para Chipre, pediram licença a
Ptolomeu, com promessa de voltar, coseram os livros dentro
de couros de hipopótamo, puseram-lhes rótulos falsos, e
trataram de fugir. Mas a inveja de outros filósofos não
dormia; deu rebate às suspeitas dos magistrados, e
descobriu-se o roubo. Stroibus e Pítias foram tidos por
aventureiros, mascarados com os nomes daqueles dois varões
ilustres; Ptolomeu entregou-os à justiça com ordem de os
passar logo ao carrasco. Foi então que interveio Herófilo,
inventor da anatomia.


Capítulo IV
Plus Ultra!

- Senhor, disse ele a Ptolomeu, tenho-me limitado até
agora escalpelar cadáveres. Mas o cadáver dá-me a
estrutura, não me dá a vida; dá-me os órgãos, não me dá as
funções. Eu preciso das funções e da vida.

- Que me dizes? redargüiu Ptolomeu. Queres estripar os
ratos de Stroibus?

- Não, senhor; não quero estripar os ratos.

- Os cães? os gansos? as lebres?...

- Nada; peço alguns homens vivos.

- Vivos? não é possível...

- Vou demonstrar que não só é possível, mas até legítimo e
necessário. As prisões egípcias estão cheias de
criminosos, e os criminosos ocupam, na escala humana, um
grau muito inferior. Já não são cidadãos, nem mesmo se
podem dizer homens, porque a razão e a virtude, que são os
dois principais característicos humanos, eles os perderam,
infringindo a lei e a moral. Além disso, uma vez que têm
de expiar com a morte os seus crimes, não é justo que
prestem algum serviço à verdade e à ciência? A verdade é
imortal; ela vale não só todos os ratos, como todos os
delinqüentes do universo.

Ptolomeu achou o raciocínio exato, e ordenou que os
criminosos fossem entregues a Herófilo e seus discípulos.
O grande anatomista agradeceu tão insigne obséquio, e
começou a escalpelar os réus. Grande foi o assombro do
povo; mas, salvo alguns pedidos verbais, não houve nenhuma
manifestação contra a medida. Herófilo repetia o que
dissera a Ptolomeu, acrescentando que a sujeição dos réus
à experiência anatômica era até um modo indireto de servir
à moral, visto que o terror do escalpelo impediria a
prática de muitos crimes.

Nenhum dos criminosos, ao deixar a prisão, suspeitava o
destino científico que o esperava. Saíam um por um; às
vezes dois a dois, ou três a três. Muitos deles,
estendidos e atados à mesa da operação, não chegavam a
desconfiar nada; imaginavam que era um novo gênero de
execução sumária. Só quando os anatomistas definiam o
objeto do estudo do dia, alçavam os ferros e davam os
primeiros talhos, é que os desgraçados adquiriam a
consciência da situação. Os que se lembravam de ter visto
as experiências dos ratos, padeciam em dobro, porque a
imaginação juntava à dor presente o espetáculo passado.

Para conciliar os interesses da ciência com os impulsos da
piedade, os réus não eram escalpelados à vista uns dos
outros, mas sucessivamente. Quando vinham aos dois ou aos
três, não ficavam em lugar donde os que esperavam pudessem
ouvir os gritos do paciente, embora os gritos fossem
muitas vezes abafados por meio de aparelhos; mas se eram
abafados, não eram suprimidos, e em certos casos, o
próprio objeto da experiência exigia que a emissão da voz
fosse franca. Às vezes as operações eram simultâneas; mas
então faziam-se em lugares distanciados.

Tinham sido escalpelados cerca de cinqüenta réus, quando
chegou a vez de Stroibus e Pítias. Vieram buscá-los; eles
supuseram que era para a morte judiciária, e encomendaram-
se aos deuses. De caminho, furtaram uns figos, e
explicaram o caso alegando que era um impulso da fome;
adiante, porém, subtraíram uma flauta, e essa outra ação
não a puderam explicar satisfatoriamente. Todavia, a
astúcia do larápio é infinita, e Stroibus, para justificar
a ação, tentou extrair algumas notas do instrumento,
enchendo de compaixão as pessoas que os viam passar, e não
ignoravam a sorte que iam ter. A notícia desses dois novos
delitos foi narrada por Herófilo, e abalou a todos os seus
discípulos.

- Realmente, disse o mestre, é um caso extraordinário, um
caso lindíssimo. Antes do principal, examinemos aqui o
outro ponto...

O ponto era saber se o nervo do latrocínio residia na
palma da mão ou na extremidade dos dedos; problema esse
sugerido por um dos discípulos. Stroibus foi o primeiro
sujeito à operação. Compreendeu tudo, desde que entrou na
sala; e, como a natureza humana tem uma parte ínfima,
pediu-lhes humildemente que poupassem a vida a um
filósofo. Mas Herófilo, com um grande poder de dialética,
disse-lhe mais ou menos isto: - Ou és um aventureiro ou o
verdadeiro Stroibus; no primeiro caso, tens aqui o único
meio para resgatar o crime de iludir a um príncipe
esclarecido, presta-te ao escalpelo; no segundo caso, não
deves ignorar que a obrigação do filósofo é servir à
filosofia, e que o corpo é nada em comparação com o
entendimento.

Dito isto, começaram pela experiência das mãos, que
produziu ótimos resultados, coligidos em livros, que se
perderam com a queda dos Ptolomeus. Também as mãos de
Pítias foram rasgadas e minuciosamente examinadas. Os
infelizes berravam, choravam, suplicavam; mas Herófilo
dizia-lhes pacificamente que a obrigação do filósofo era
servir à filosofia, e que para os fins da ciência, eles
valiam ainda mais que os ratos, pois era melhor concluir
do homem para o homem, e não do rato para o homem. E
continuou a rasgá-los fibra por fibra, durante oito dias.
No terceiro dia arrancaram-lhes os olhos, para desmentir
praticamente uma teoria sobre a conformação interior do
órgão. Não falo da extração do estômago de ambos, por se
tratar de problemas relativamente secundários, e em todo
caso estudados e resolvidos em cinco ou seis indivíduos
escalpelados antes deles.

Diziam os alexandrinos que os ratos celebraram esse caso
aflitivo e doloroso com danças e festas, a que convidaram
alguns cães, rolas, pavões e outros animais ameaçados de
igual destino, e outrossim, que nenhum dos convidados
aceitou o convite, por sugestão de um cachorro, que lhes
disse melancolicamente: - "Século virá em que a mesma
coisa nos aconteça". Ao que retorquiu um rato: "Mas até
lá, riamos!"




PRIMAS DE SAPUCAIA!

Há umas ocasiões oportunas e fugitivas, em que o acaso nos
inflige duas ou três primas de Sapucaia; outras vezes, ao
contrário, as primas de Sapucaia são antes um benefício do
que um infortúnio.

Era à porta de uma igreja. Eu esperava que as minhas
primas Claudina e Rosa tomassem água benta, para conduzi-
las à nossa casa, onde estavam hospedadas. Tinham vindo de
Sapucaia, pelo Carnaval, e demoraram-se dois meses na
Corte. Era eu que as acompanhava a toda a parte, missas,
teatros, rua do Ouvidor, porque minha mãe, com o seu
reumático, mal podia mover-se dentro de casa, e elas não
sabiam andar sós. Sapucaia era a nossa pátria comum.
Embora todos os parentes estivessem dispersos, ali nasceu
o tronco da família. Meu tio José Ribeiro, pai destas
primas, foi o único, de cinco irmãos, que lá ficou
lavrando a terra e figurando na política do lugar. Eu vim
cedo para a Corte, donde segui a estudar e bacharelar-me
em São Paulo. Voltei uma só vez a Sapucaia, para pleitear
uma eleição, que perdi.

Rigorosamente, todas estas notícias são desnecessárias
para a compreensão da minha aventura; mas é um modo de ir
dizendo alguma coisa, antes de entrar em matéria, para a
qual não acho porta grande nem pequena; o melhor é
afrouxar a rédea à pena, e ela que vá andando, até achar
entrada. Há de haver alguma; tudo depende das
circunstâncias, regra que tanto serve para o estilo como
para a vida; palavra puxa palavra, uma idéia traz outra, e
assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução;
alguns dizem mesmo que assim é que a natureza compôs as
suas espécies.

Portanto, água benta e porta de igreja. Era a igreja de
São José. A missa acabara; Claudina e Rosa fizeram uma
cruz na testa, com o dedo polegar, molhado na água benta e
descalçado unicamente para esse gesto. Depois ajustaram os
manteletes, enquanto eu, ao portal, ia vendo as damas que
saíam. De repente, estremeço, inclino-me para fora, chego
mesmo a dar dois passos na direção da rua.

- Que foi, primo?

- Nada, nada.

Era uma senhora, que passara rentezinha com a igreja,
vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapelinho de sol; ia
pela rua da Misericórdia acima. Para explicar a minha
comoção, é preciso dizer que era a segunda vez que a via.
A primeira foi no Prado Fluminense, dois meses antes, com
um homem que, pelos modos, era seu marido, mas tanto podia
ser marido como pai. Estava então um pouco de espavento,
vestida de escarlate, com grandes enfeites vistosos, e
umas argolas demasiado grossas nas orelhas; mas os olhos e
a boca resgatavam o resto. Namoramos às bandeiras
despregadas. Se disser que saí dali apaixonado, não meto a
minha alma no inferno, porque é a verdade pura. Saí tonto,
mas saí também desapontado, perdi-a de vista na multidão.
Nunca mais pude dar com ela, nem ninguém me soube dizer
quem fosse.

Calcule-se o meu enfado, vendo que a fortuna vinha trazê-
la outra vez ao meu caminho, e que umas primas fortuitas
não me deixavam lançar-lhe as mãos. Não será difícil
calculá-lo, porque estas primas de Sapucaia tomam todas as
formas, e o leitor, se não as teve de um modo, teve-as de
outro. Umas vezes copiam o ar confidencial de um
cavalheiro informado da última crise do ministério, de
todas as causas aparentes ou secretas, dissensões novas ou
antigas, interesses agravados, conspiração, crise. Outras
vezes, enfronham-se na figura daquele eterno cidadão que
afirma de um modo ponderoso e abotoado, que não há leis
sem costumes, nisi lege sine moribus. Outras, afivelam a
máscara de um Dangeau de esquina, que nos conta miudamente
as fitas e rendas que esta, aquela, aqueloutra dama levara
ao baile ou ao teatro. E durante esse tempo, a Ocasião
passa, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapelinho de
sol: passa, dobra a esquina, e adeus... O ministério
esfacelava-se; malinas e bruxelas; nisi lege sine
moribus...

Estive a pique de dizer às primas, que se fossem embora;
morávamos na rua do Carmo, não era longe; mas abri mão da
idéia. Já na rua pensei também em deixá-las na igreja, à
minha espera, e ir ver se agarrava a Ocasião pela calva.
Creio mesmo que cheguei a parar um momento, mas rejeitei
igualmente esse alvitre e fui andando.

Fui andando com elas para o lado oposto ao da minha
incógnita. Olhei para trás repetidas vezes, até perdê-la
numa das curvas da rua, com os olhos no chão, como quem
reflete, devaneia ou espera uma hora marcada. Não minto
dizendo que esta última idéia trouxe-me a emoção do ciúme.
Sou exclusivo e pessoal; daria um triste amante de
mulheres casadas. Não importa que entre mim e aquela dama
existisse apenas uma contemplação fugitiva de algumas
horas; desde que a minha personalidade ia para ela, a
partilha tornava-se-me insuportável. Sou também imaginoso;
engenhei logo uma aventura e um aventureiro, dei-me ao
prazer mórbido de afligir-me sem motivo nem necessidade.
As primas iam adiante, e falavam-me de quando em quando;
eu respondia mal, se respondia alguma coisa. Cordialmente,
execrava-as.

Ao chegar à porta de casa, consultei o relógio, como se
tivesse alguma coisa que fazer; depois disse às primas que
subissem e fossem almoçando. Corri à rua da Misericórdia.
Fui primeiro até à Escola de Medicina; depois voltei e vim
até à câmara dos deputados, então mais devagar esperando
vê-la ao chegar a cada curva da rua; mas nem sombra. Era
insensato, não era? Todavia, ainda subi outra vez a rua,
porque adverti que, a pé e devagar, mal teria tempo de ir
em meio da praia de Santa Luzia, se acaso não parara
antes; e aí fui, rua acima e praia fora, até ao convento
da Ajuda. Não encontrei nada, coisa nenhuma. Nem por isso
perdi as esperanças; arrepiei caminho e vim, a passo lento
ou apressado, conforme se me afigurava que era possível
apanhá-la adiante, ou dar tempo a que saísse de alguma
parte. Desde que a minha imaginação reproduzia a dama,
todo eu sentia um abalo, como se realmente tivesse de vê-
la daí a alguns minutos. Compreendi a emoção dos doidos.

Entretanto, nada. Desci a rua sem achar o menor vestígio
da minha incógnita. Felizes os cães, que pelo faro dão com
os amigos! Quem sabe se não estaria ali bem perto, no
interior de alguma casa, talvez a própria casa dela?
Lembrou-me indagar; mas de quem, e como? Um padeiro,
encostado ao portal, espiava-me; algumas mulheres faziam a
mesma coisa enfiando os olhos pelos postigos. Naturalmente
desconfiavam do transeunte, do andar vagaroso ou
apressado, do olhar inquisidor, do gesto inquieto. Deixei-
me ir até à câmara dos deputados, e parei uns cinco
minutos, sem saber que fizesse. Era perto de meio-dia.
Esperei mais dez minutos, depois mais cinco, parado, com a
esperança de vê-la; afinal, desesperei e fui almoçar.

Não almocei em casa. Não queria ver os demônios das
primas, que me impediram de seguir a dama incógnita. Fui a
um hotel. Escolhi uma mesa no fim da sala, e sentei-me de
costas para as outras; não queria ser visto nem
conversado. Comecei a comer o que me deram. Pedi alguns
jornais, mas confesso que não li nada seguidamente, e
apenas entendi três quartas partes do que ia lendo. No
meio de uma notícia ou de um artigo, escorregava-me o
espírito e caía na rua da Misericórdia, à porta da igreja,
vendo passar a incógnita, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-
se no chapelinho de sol.

A última vez que me aconteceu essa separação da outra e da
besta, estava já no café, e tinha diante de mim um
discurso parlamentar. Achei-me ainda uma vez à porta da
igreja; imaginei então que as primas não estavam comigo, e
que eu seguia atrás da bela dama. Assim é que se consolam
os preteridos da loteria; assim é que se fartam as
ambições malogradas.

Não me peçam minúcias nem preliminares do encontro. Os
sonhos desdenham as linhas finas e o acabado das
paisagens; contentam-se de quatro ou cinco brochadas
grossas, mas representativas. Minha imaginação galgou as
dificuldades da primeira fala, e foi direita à rua do
Lavradio ou dos Inválidos, à própria casa de Adriana.
Chama-se Adriana. Não viera à rua da Misericórdia por
motivo de amores, mas a ver alguém, uma parente ou uma
comadre, ou uma costureira. Conheceu-me, e teve igual
comoção. Escrevi-lhe; respondeu-me. Nossas pessoas foram
uma para a outra por cima de uma multidão de regras morais
e de perigos. Adriana é casada; o marido conta cinqüenta e
dois anos, ela trinta imperfeitos. Não amou nunca, não
amou mesmo o marido, com quem casou por obedecer à
família. Eu ensinei-lhe ao mesmo tempo o amor e a traição;
é o que ela me diz nesta casinha que aluguei fora da
cidade, de propósito para nós.

Ouço-a embriagado. Não me enganei; é a mulher ardente e
amorosa, qual me diziam os seus olhos, olhos de touro,
como os de Juno, grandes e redondos. Vive de mim e para
mim. Escrevemo-nos todos os dias; e, apesar disso, quando
nos encontramos na casinha, é como se medeara um século.
Creio até que o coração dela ensinou-me alguma coisa,
embora noviço, ou por isso mesmo. Nesta matéria
desaprende-se com o uso e o ignorante é que é douto.
Adriana não dissimula a alegria nem as lágrimas; escreve o
que pensa, conta o que o sente; mostra-me que não somos
dois, mas um, tão-somente um ente universal, para quem
Deus criou o sol e as flores, o papel e a tinta, o correio
e as carruagens fechadas.

Enquanto ideava isto, creio que acabei de beber o café;
lembra-me que o criado veio à mesa e retirou a xícara e o
açucareiro. Não sei se lhe pedi fogo, provavelmente viu-me
com o charuto na mão e trouxe-me fósforos.

Não juro, mas penso que acendi o charuto, porque daí a um
instante, através de um véu de fumaça, vi a cabeça meiga e
enérgica da minha bela Adriana, encostada a um sofá. Eu
estou de joelhos, ouvindo-lhe a narração da última rusga
do marido. Que ele já desconfia; ela sai muitas vezes,
distrai-se, absorve-se, aparece-lhe triste ou alegre, sem
motivo, e o marido começa a ameaçá-la. Ameaçá-la de quê?
Digo-lhe que, antes de qualquer excesso, era melhor deixá-
lo, para viver comigo, publicamente, um para o outro.
Adriana escuta-me pensativa, cheia de Eva, namorada do
demônio, que lhe sussurra de fora o que o coração lhe diz
de dentro. Os dedos afagam-me os cabelos.

- Pois sim! pois sim!

Veio no dia seguinte, consigo mesma, sem marido, sem
sociedade, sem escrúpulos, tão-somente consigo, e fomos
dali viver juntos. Nem ostentação, nem resguardo.
Supusemo-nos estrangeiros, e realmente não éramos outra
coisa; falávamos uma língua, que nunca ninguém antes
falara nem ouvira. Os outros amores eram, desde séculos,
verdadeiras contrafações; nós dávamos a edição autêntica.
Pela primeira vez, imprimia-se o manuscrito divino, um
grosso volume que nós dividíamos em tantos capítulos e
parágrafos quantas eram as horas do dia ou os dias da
semana. O estilo era tecido de sol e música; a linguagem
compunha-se da fina flor dos outros vocabulários. Tudo o
que neles existia, meigo ou vibrante, foi extraído pelo
autor para formar esse livro único - livro sem índice,
porque era infinito - sem margens, para que o fastio não
viesse escrever nelas as suas notas, - sem fita, porque já
não tínhamos precisão de interromper a leitura e marcar a
página.

Uma voz chamou-me à realidade. Era um amigo que acordara
tarde, e vinha almoçar. Nem o sonho me deixava esta outra
prima de Sapucaia! Cinco minutos depois despedi-me e sai;
eram duas horas passadas.

Vexa-me dizer que ainda fui à rua da Misericórdia, mas é
preciso narrar tudo: fui e não achei nada. Voltei nos dias
seguintes sem outro lucro, além do tempo perdido.
Resignei-me a abrir mão da aventura, ou esperar a solução
do acaso. As primas achavam-me aborrecido ou doente; não
lhes disse que não. Daí a oito dias foram-se embora, sem
me deixar saudades; despedi-me delas como de uma febre
maligna.

A imagem da minha incógnita não me deixou durante muitas
semanas. Na rua, enganei-me várias vezes. Descobria ao
longe uma figura, que era tal qual a outra; picava os
calcanhares até apanhá-la e desenganar-me. Comecei a
achar-me ridículo; mas lá vinha uma hora ou um minuto, uma
sombra ao longe, e a preocupação revivia. Afinal vieram
outros cuidados, e não pensei mais nisso.

No princípio do ano seguinte, fui a Petrópolis; fiz a
viagem com um antigo companheiro de estudos, Oliveira, que
foi promotor em Minas Gerais, mas abandonara ultimamente a
carreira por ter recebido uma herança. Estava alegre como
nos tempos da academia; mas de quando em quando calava-se,
olhando para fora da barca ou da caleça, com a atonia de
quem regala a alma de uma recordação, de uma esperança ou
de um desejo. No alto da serra perguntei-lhe para que
hotel ia; respondeu que ia para uma casa particular, mas
não me disse aonde, e até desconversou. Cuidei que me
visitaria no dia seguinte; mas nem me visitou, nem o vi em
parte alguma. Outro colega nosso ouvira dizer que ele
tinha uma casa para os lados da Renânia.

Nenhuma destas circunstâncias voltaria à memória, se não
fosse a notícia que me deram dias depois. Oliveira tirara
uma mulher ao marido, e fora refugiar-se com ela em
Petrópolis. Deram-me o nome do marido e o dela. O dela era
Adriana. Confesso que, embora o nome da outra fosse pura
invenção minha, estremeci ao ouvi-lo; não seria a mesma
mulher? Vi logo depois que era pedir muito ao acaso. Já
faz bastante esse pobre oficial das coisas humanas,
concertando alguns fios dispersos; exigir que os reate a
todos, e com os mesmos títulos, é saltar da realidade na
novela. Assim falou o meu bom senso, e nunca disse tão
gravemente uma tolice, pois as duas mulheres eram nada
menos que a mesmíssima.

Vi-a três semanas depois, indo visitar o Oliveira, que
viera doente da Corte. Subimos juntos na véspera; no meio
da serra, começou ele a sentir-se incomodado; no alto
estava febril. Acompanhei-o no carro até a casa, e não
entrei, porque ele dispensou-me o incômodo. Mas no dia
seguinte fui vê-lo, um pouco por amizade, outro pouco por
avidez de conhecer a incógnita. Vi-a; era ela, era a
minha, era a única Adriana.

Oliveira sarou depressa, e, apesar do meu zelo em visitá-
lo, não me ofereceu a casa; limitou-se a vir ver-me no
hotel. Respeitei-lhe os motivos; mas eles mesmos é que
faziam reviver a antiga preocupação. Considerei que, além
das razões de decoro, havia da parte dele um sentimento de
ciúme, filho de um sentimento de amor, e que um e outro
podiam ser a prova de um complexo de qualidades finas e
grandes naquela mulher. Isto bastava a transtornar-me; mas
a idéia de que a paixão dela não seria menor que a dele, o
quadro desse casal que fazia uma só alma e pessoa, excitou
em mim todos os nervos da inveja. Baldei esforços para ver
se metia o pé na casa; cheguei a falar-lhe do boato que
corria; ele sorria e tratava de outra coisa.

Acabou a estação de Petrópolis, e ele ficou. Creio que
desceu em julho ou agosto. No fim do ano encontramo-nos
casualmente; achei-o um pouco taciturno e preocupado. Vi-o
ainda outras vezes, e não me pareceu diferente, a não ser
que, além de taciturno, trazia na fisionomia uma longa
prega de desgosto. Imaginei que eram efeitos da aventura,
e, como não estou aqui para empulhar ninguém, acrescento
que tive uma sensação de prazer. Durou pouco; era o
demônio que trago em mim, e costuma fazer desses esgares
de saltimbanco. Mas castiguei-o depressa, e pus no lugar
dele o anjo, que também uso, e que se compadeceu do pobre
rapaz, qualquer que fosse o motivo da tristeza.

Um vizinho dele, amigo nosso, contou-me alguma coisa, que
me confirmou a suspeita de desgostos domésticos; mas foi
ele mesmo quem me disse tudo, um dia, perguntando-lhe eu,
estouvadamente, o que é que tinha que o mudara tanto.

- Que hei de ter? Imagina tu que comprei um bilhete de
loteria, e nem tive, ao menos, o gosto de não tirar nada;
tirei um escorpião.

E, como eu franzisse a testa interrogativamente:

- Ah! se soubesses metade só das coisas que me têm
acontecido! Tens tempo? Vamos aqui ao Passeio Público.

Entramos no jardim, e metemo-nos por uma das alamedas.
Contou-me tudo. Gastou duas horas em desfiar um rosário
infinito de misérias. Vi através da narração duas índoles
incompatíveis, unidas pelo amor ou pelo pecado, fartas uma
da outra, mas condenadas à convivência e ao ódio. Ele nem
podia deixá-la nem suportá-la. Nenhuma estima, nenhum
respeito, alegria rara e impura; uma vida gorada.

- Gorada, repetia ele, gesticulando afirmativamente com a
cabeça. Não tem que ver; a minha vida gorou. Hás de
lembrar-te dos nossos planos da academia, quando nos
propúnhamos, tu a ministro do império, eu da justiça.
Podes guardar as duas pastas; não serei nada, nada. O ovo,
que devia dar uma águia, não chega a dar um frango. Gorou
completamente. Há ano e meio que ando nisso, e não acho
saída nenhuma; perdi a energia...

Seis meses depois, encontrei-o aflito e desvairado.
Adriana deixara-o para ir estudar geometria com um
estudante da antiga Escola Central. Tanto melhor, disse-
lhe eu. Oliveira olhou para o chão envergonhado; despediu-
se, e correu em procura dela. Achou-a daí a algumas
semanas, disseram as últimas um ao outro, e no fim
reconciliaram-se. Comecei então a visitá-los, com a idéia
de os separar um do outro. Ela estava ainda bonita e
fascinante; as maneiras eram finas e meigas, mas
evidentemente de empréstimo, acompanhadas de umas atitudes
e gestos, cujo intuito latente era atrair-me e arrastar-
me.

Tive medo e retraí-me. Não se mortificou; deitou fora a
capa de renda, restituiu-se ao natural. Vi então que era
ferrenha, manhosa, injusta, muita vez grosseira; em alguns
lances notei-lhe uma nota de perversidade. Oliveira, nos
primeiros tempos, para fazer-me crer que mentira ou
exagerara, suportava tudo rindo; era a vergonha da própria
fraqueza. Mas não pôde guardar a máscara; ela arrancou-lha
um dia, sem piedade, denunciando as humilhações em que ele
caía, quando eu não estava presente. Tive nojo da mulher e
pena do pobre diabo. Convidei-o abertamente a deixá-la,
ele hesitou, mas prometeu que sim.

- Realmente, não posso mais...

Combinamos tudo; mas no momento da separação, não pôde.
Ela embebeu-lhe novamente os seus grandes olhos de touro e
de basilisco, e desta vez, - ó minhas queridas primas de
Sapucaia! - desta vez para só deixá-lo exausto e morto.
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