Histórias
Sem Data
Machado de Assis
GALERIA PÓSTUMA
I
Não, não se descreve a consternação que
produziu em todo o
Engenho Velho, e particularmente no coração dos amigos,
a
morte de Joaquim Fidélis. Nada mais inesperado. Era
robusto, tinha saúde de ferro, e ainda na véspera fora
a
um baile, onde todos o viram conversado e alegre. Chegou a
dançar, a pedido de uma sexagenária, viúva de
um amigo
dele, que lhe tomou do braço, e lhe disse:
- Venha cá, venha cá, vamos mostrar a estes criançolas
como é que os velhos são capazes de desbancar tudo.
Joaquim Fidélis protestou sorrindo; mas obedeceu e dançou.
Eram duas horas quando saiu, embrulhando os seus sessenta
anos numa capa grossa, - estávamos em junho de 1879 -
metendo a calva na carapuça, acendendo um charuto, e
entrando lepidamente no carro.
No carro é possível que cochilasse; mas, em casa, mau
grado a hora e o grande peso das pálpebras, ainda foi à
secretária, abriu uma gaveta, tirou um de muitos folhetos
manuscritos, - e escreveu durante três ou quatro minutos
umas dez ou onze linhas. As últimas palavras eram estas:
"Em suma, baile chinfrim; uma velha gaiteira obrigou-me a
dançar uma quadrilha; à porta um crioulo pediu-me as
festas. Chinfrim!" Guardou o folheto, despiu-se, meteu-se
na cama, dormiu e morreu.
Sim, a notícia consternou a todo o bairro. Tão amado
que
ele era, com os modos bonitos que tinha, sabendo conversar
com toda a gente, instruído com os instruídos, ignorante
com os ignorantes, rapaz com os rapazes, e até moça
com as
moças. E depois, muito serviçal, pronto a escrever cartas,
a falar a amigos, a concertar brigas, a emprestar
dinheiro. Em casa dele reuniam-se à noite alguns íntimos
da vizinhança, e às vezes de outros bairros; jogavam
o
voltarete ou o whist, falavam de política. Joaquim Fidélis
tinha sido deputado até à dissolução da
câmara pelo
marquês de Olinda, em 1863. Não conseguindo ser reeleito,
abandonou a vida pública. Era conservador, nome que a
muito custo admitiu, por lhe parecer galicismo político.
Saquarema é o que ele gostava de ser chamado. Mas abriu
mão de tudo; parece até que nos últimos tempos
desligou-se
do próprio partido, e afinal da mesma opinião. Há
razões
para crer que, de certa data em diante, foi um profundo
céptico, e nada mais.
Era rico e letrado. Formara-se em direito no ano de 1842.
Agora não fazia nada e lia muito. Não tinha mulheres
em
casa. Viúvo desde a primeira invasão da febre amarela,
recusou contrair segundas núpcias, com grande mágoa
de
três ou quatro damas, que nutriram essa esperança durante
algum tempo. Uma delas chegou a prorrogar perfidamente os
seus belos cachos de 1845 até meados do segundo neto;
outra, mais moça e também viúva, pensou retê-lo
com
algumas concessões, tão generosas quão irreparáveis.
"Minha querida Leocádia, dizia ele nas ocasiões
em que ela
insinuava a solução conjugal, por que não continuaremos
assim mesmo? O mistério é o encanto da vida." Morava
com
um sobrinho, o Benjamim, filho de uma irmã, órfão
desde
tenra idade. Joaquim Fidélis deu-lhe educação
e fê-lo
estudar, até obter diploma de bacharel em ciências
jurídicas, no ano de 1877.
Benjamim ficou atordoado. Não podia acabar de crer na
morte do tio. Correu ao quarto, achou o cadáver na cama,
frio, olhos abertos, e um leve arregaço irônico ao canto
esquerdo da boca. Chorou muito e muito. Não perdia um
simples parente, mas um pai, um pai terno, dedicado, um
coração único. Benjamim enxugou, enfim, as lágrimas;
e,
porque lhe fizesse mal ver os olhos abertos do morto, e
principalmente o lábio arregaçado, consertou-lhe ambas
as
coisas. A morte recebeu assim a expressão trágica; mas
a
originalidade da máscara perdeu-se.
- Não me digam isto! bradava daí a pouco um dos vizinhos,
Diogo Vilares, ao receber notícia do caso.
Diogo Vilares era um dos cinco principais familiares de
Joaquim Fidélis. Devia-lhe o emprego que exercia desde
1857. Veio ele; vieram os outros quatro, logo depois, um a
um, estupefatos, incrédulos. Primeiro, chegou o Elias
Xavier, que alcançara por intermédio do finado, segundo
se
dizia, uma comenda; depois entrou o João Brás, deputado
que foi, no regime das suplências, eleito com o influxo do
Joaquim Fidélis. Vieram, enfim, o Fragoso e o Galdino, que
lhe não deviam diplomas, comendas nem empregos, mas outros
favores. Ao Galdino adiantou ele alguns poucos capitais, e
ao Fragoso arranjou-lhe um bom casamento... E morto! morto
para todo sempre! De redor da cama, fitavam o rosto sereno
e recordavam a última festa, a do outro domingo, tão
íntima, tão expansiva! E, mais perto ainda, a noite
da
antevéspera, em que o voltarete do costume foi até às
onze
horas.
- Amanhã não venham, disse-lhes o Joaquim Fidélis;
vou ao
baile do Carvalhinho.
- E depois?...
- Depois de amanhã, cá estou.
E, à saída, deu-lhes ainda um maço de excelentes
charutos,
segundo fazia às vezes, com um acréscimo de doces secos
para os pequenos, e duas ou três pilhérias finas... Tudo
esvaído! tudo disperso! tudo acabado!
Ao enterro acudiram muitas pessoas gradas, dois senadores,
um ex-ministro, titulares, capitalistas, advogados,
comerciantes, médicos; mas as argolas do caixão foram
seguras pelos cinco familiares e o Benjamim. Nenhum deles
quis ceder a ninguém esse último obséquio, considerando
que era um dever cordial e intransferível. O adeus do
cemitério foi proferido pelo João Brás, um adeus
tocante,
com algum excesso de estilo para um caso tão urgente, mas,
enfim, desculpável. Deitada a pá de terra, cada um se
foi
arredando da cova, menos os seis, que assistiram ao
trabalho posterior e indiferente dos coveiros. Não
arredaram pé antes de ver cheia a cova até acima, e
depositadas sobre ela as coroas fúnebres.
II
A missa do sétimo dia reuniu-os na igreja. Acabada a
missa, os cinco amigos acompanharam à casa o sobrinho do
morto. Benjamim convidou-os a almoçar.
- Espero que os amigos do tio Joaquim serão também meus
amigos, disse ele.
Entraram, almoçaram. Ao almoço falaram do morto; cada
um
contou uma anedota, um dito; eram unânimes no louvor e nas
saudades. No fim do almoço, como tivessem pedido uma
lembrança do finado, passaram ao gabinete, e escolheram à
vontade, este uma caneta velha, aquele uma caixa de
óculos, um folheto, um retalho qualquer íntimo. Benjamim
sentia-se consolado. Comunicou-lhes que pretendia
conservar o gabinete tal qual estava. Nem a secretária
abrira ainda. Abriu-a então, e, com eles, inventariou o
conteúdo de algumas gavetas. Cartas, papéis soltos,
programas de concertos, menus de grandes jantares, tudo
ali estava de mistura e confusão. Entre outras coisas
acharam alguns cadernos manuscritos, numerados e datados.
- Um diário! disse Benjamim.
Com efeito, era um diário das impressões do finado,
espécie de memórias secretas, confidências do
homem a si
mesmo. Grande foi a comoção dos amigos; lê-lo
era ainda
conversá-lo. Tão reto caráter! tão discreto
espírito!
Benjamim começou a leitura; mas a voz embargou-se-lhe
depressa, e João Brás continuou-a.
O interesse do escrito adormeceu a dor do óbito. Era um
livro digno do prelo. Muita observação política
e social,
muita reflexão filosófica, anedotas de homens públicos,
do
Feijó, do Vasconcelos, outras puramente galantes, nomes de
senhoras, o da Leocádia, entre outros; um repertório
de
fatos e comentários. Cada um admirava o talento do finado,
as graças do estilo, o interesse da matéria. Uns opinavam
pela impressão tipográfica; Benjamim dizia que sim,
com a
condição de excluir alguma coisa, ou inconveniente ou
demasiado particular. E continuavam a ler, saltando
pedaços e páginas, até que bateu meio-dia. Levantaram-se
todos; Diogo Vilares ia já chegar à repartição
fora de
horas; João Brás e Elias tinham onde estar juntos. Galdino
seguia para a loja. O Fragoso precisava mudar a roupa
preta, e acompanhar a mulher à rua do Ouvidor. Concordaram
em nova reunião para prosseguir na leitura. Certas
particularidades tinham-lhes dado uma comichão de
escândalo, e as comichões coçam-se: é o
que eles queriam
fazer, lendo.
- Até amanhã, disseram.
- Até amanhã.
Uma vez só, Benjamim continuou a ler o manuscrito. Entre
outras coisas, admirou o retrato da viúva Leocádia,
obra-
prima de paciência e semelhança, embora a data coincidisse
com a dos amores. Era prova de uma rara isenção de
espírito. De resto, o finado era exímio nos retratos.
Desde 1873 ou 1874, os cadernos vinham cheios deles, uns
de vivos, outros de mortos, alguns de homens públicos,
Paula Sousa, Aureliano, Olinda, etc. Eram curtos e
substanciais, às vezes três ou quatro rasgos firmes,
com
tal fidelidade e perfeição, que a figura parecia
fotografada. Benjamim ia lendo; de repente deu com o Diogo
Vilares. E leu estas poucas linhas:
"Diogo Vilares. - Tenho-me referido muitas vezes a este
amigo, e fá-lo-ei algumas outras mais, se ele me não
matar
de tédio, coisa em que o reputo profissional. Pediu-me há
anos que lhe arranjasse um emprego, e arranjei-lho. Não me
avisou da moeda em que me pagaria. Que singular gratidão!
Chegou ao excesso de compor um soneto e publicá-lo.
Falava-me do obséquio a cada passo, dava-me grandes nomes;
enfim, acabou. Mais tarde relacionamo-nos intimamente.
Conheci-o então ainda melhor. C'est le genre ennuyeux. Não
é mau parceiro de voltarete. Dizem-me que não deve nada
a
ninguém. Bom pai de família. Estúpido e crédulo.
Com
intervalo de quatro dias, já lhe ouvi dizer de um
ministério que era excelente e detestável: - diferença
dos
interlocutores. Ri muito e mal. Toda a gente, quando o vê
pela primeira vez, começa por supô-lo um varão
grave; no
segundo dia dá-lhe piparotes. A razão é a figura,
ou, mais
particularmente, as bochechas, que lhe emprestam um certo
ar superior."
A primeira sensação do Benjamim foi a do perigo evitado.
Se o Diogo Vilares estivesse ali? Releu o retrato e mal
podia crer; mas não havia como negá-lo, era o próprio
nome
do Diogo Vilares, era a mesma letra do tio. E não era o
único dos familiares; folheou o manuscrito e deu com o
Elias:
"Elias Xavier. - Este Elias é um espírito subalterno,
destinado a servir alguém, e a servir com desvanecimento,
como os cocheiros de casa elegante. Vulgarmente trata as
minhas visitas íntimas com alguma arrogância e desdém:
política de lacaio ambicioso. Desde as primeiras semanas,
compreendi que ele queria fazer-se meu privado; e não
menos compreendi que, no dia que realmente o fosse, punha
os outros no meio da rua. Há ocasiões em que me chama
a um
vão da janela para falar-me secretamente do sol e da
chuva. O fim claro é incutir nos outros a suspeita de que
há entre nós coisas particulares, e alcança isso
mesmo,
porque todos lhe rasgam muitas cortesias. É inteligente,
risonho e fino. Conversa muito bem. Não conheço
compreensão mais rápida. Não é poltrão
nem maldizente. Só
fala mal de alguém, por interesse; faltando-lhe interesse,
cala-se; e a maledicência legítima é gratuita.
Dedicado e
insinuante. Não tem idéias, é verdade; mas há
esta grande
diferença entre ele e o Diogo Vilares: - o Diogo repete
pronta e boçalmente as que ouve, ao passo que o Elias sabe
fazê-las suas e plantá-las oportunamente na conversação.
Um caso de 1865 caracteriza bem a astúcia deste homem.
Tendo dado alguns libertos para a guerra do Paraguai, ia
receber uma comenda. Não precisava de mim; mas veio pedir
a minha intercessão, duas ou três vezes, com um ar
consternado e súplice. Falei ao ministro, que me disse: -
"O Elias já sabe que o decreto está lavrado; falta
só a
assinatura do Imperador." Compreendi então que era um
estratagema para poder confessar-me essa obrigação.
Bom
parceiro de voltarete; um pouco brigão, mas entendido."
- Ora o tio Joaquim! exclamou Benjamim levantando-se. E
depois de alguns instantes, reflexionou consigo: - Estou
lendo um coração, livro inédito. Conhecia a edição
pública, revista e expurgada. Este é o texto primitivo
e
interior, a lição exata e autêntica. Mas quem
imaginaria
nunca... Ora o tio Joaquim!
E, tornando a sentar-se, releu também o retrato do Elias,
com vagar, meditando as feições. Posto lhe faltasse
observação, para avaliar a verdade do escrito, achou
que
em muitas partes, ao menos, o retrato era semelhante.
Cotejava essas notas iconográficas, tão cruas, tão
secas,
com as maneiras ordinais e graciosas do tio, e sentia-se
tomado de um certo terror e mal-estar. Ele, por exemplo,
que teria dito dele o finado? Com esta idéia, folheou
ainda o manuscrito, passou por alto algumas damas, alguns
homens públicos, deu com o Fragoso, - um esboço curto
e
curtíssimo, - logo depois o Galdino, e quatro páginas
adiante o João Brás. Justamente o primeiro levara dele
uma
caneta, pouco antes, talvez a mesma com que o finado o
retratara. Curto era o esboço, e dizia assim:
"Fragoso. - Honesto, maneiras açucaradas e bonito. Não
me
custou casá-lo; vive muito bem com a mulher. Sei que me
tem uma extraordinária adoração - quase tanta
como a si
mesmo. Conversação vulgar, polida e chocha."
"Galdino Madeira. - O melhor coração do mundo e
um caráter
sem mácula; mas as qualidades do espírito destroem as
outras. Emprestei-lhe algum dinheiro, por motivo da
família, e porque me não fazia falta. Há no cérebro
dele
um certo furo, por onde o espírito escorrega e cai no
vácuo. Não reflete três minutos seguidos. Vive
principalmente de imagens, de frases translatas. Os
'dentes da calúnia' e outras expressões, surradas como
colchões de hospedaria, são os seus encantos. Mortifica-se
facilmente no jogo, e, uma vez mortificado faz timbre em
perder, e em mostrar que é de propósito. Não
despede os
maus caixeiros. Se não tivesse guarda-livros, é duvidoso
que somasse os quebrados. Um subdelegado, meu amigo, que
lhe deveu algum dinheiro, durante dois anos, dizia-me com
muita graça, que o Galdino quando o via na rua, em vez de
lhe pedir a dívida, pedia-lhe notícias do ministério."
"João Brás. - Nem tolo nem bronco. Muito atencioso,
embora
sem maneiras. Não pode ver passar um carro de ministro;
fica pálido e vira os olhos. Creio que é ambicioso;
mas na
idade em que está, sem carreira, a ambição vai-se-lhe
convertendo em inveja. Durante os dois anos em que serviu
de deputado, desempenhou honradamente o cargo: trabalhou
muito, e fez alguns discursos bons, não brilhantes, mas
sólidos, cheios de fatos e refletidos. A prova de que lhe
ficou um resíduo de ambição, é o ardor
com que anda à cata
de alguns cargos honoríficos ou proeminentes; há alguns
meses consentiu em ser juiz de uma irmandade de São José,
e segundo me dizem, desempenha o cargo com um zelo
exemplar. Creio que é ateu, mas não afirmo. Ri pouco
e
discretamente. A vida é pura e severa, mas o caráter
tem
uma ou duas cordas fraudulentas, a que só faltou a mão
do
artista; nas coisas mínimas, mente com facilidade."
Benjamim, estupefato, deu enfim consigo mesmo. - "Este meu
sobrinho, dizia o manuscrito, tem vinte e quatro anos de
idade, um projeto de reforma judiciária, muito cabelo, e
ama-me. Eu não o amo menos. Discreto, leal e bom, - bom
até à credulidade. Tão firme nas afeições
como versátil
nos pareceres. Superficial, amigo de novidades, amando no
direito o vocabulário e as fórmulas."
Quis reler, e não pôde; essas poucas linhas davam-lhe
a
sensação de um espelho. Levantou-se, foi à janela,
mirou a
chácara e tornou dentro para contemplar outra vez as suas
feições. Contemplou-as; eram poucas, falhas, mas não
pareciam caluniosas. Se ali estivesse um público, é
provável que a mortificação do rapaz fosse menor,
porque a
necessidade de dissipar a impressão moral dos outros dar-
lhe-ia a força necessária para reagir contra o escrito;
mas, a sós, consigo, teve de suportá-lo sem contraste.
Então considerou se o tio não teria composto essas páginas
nas horas de mau humor; comparou-as a outras em que a
frase era menos áspera, mas não cogitou se ali a brandura
vinha ou não de molde.
Para confirmar a conjectura, recordou as maneiras usuais
do finado, as horas de intimidade e riso, a sós com ele,
ou de palestra com os demais familiares. Evocou a figura
do tio, com o olhar espirituoso e meigo, e a pilhéria
grave; em lugar dessa, tão cândida e simpática,
a que lhe
apareceu foi a do tio morto, estendido na cama, com os
olhos abertos, o lábio arregaçado. Sacudiu-a do espírito,
mas a imagem ficou. Não podendo rejeitá-la, Benjamim
tentou mentalmente fechar-lhe os olhos e consertar-lhe a
boca; mas tão depressa o fazia, como a pálpebra tornava
a
levantar-se, e a ironia arregaçava o beiço. Já
não era o
homem, era o autor do manuscrito.
Benjamim jantou mal e dormiu mal. No dia seguinte, à
tarde, apresentaram-se os cinco familiares para ouvir a
leitura. Chegaram sôfregos, ansiosos; fizeram-lhe muitas
perguntas; pediram-lhe com instância para ver o
manuscrito. Mas Benjamim tergiversava, dizia isto e
aquilo, inventava pretextos; por mal de pecados, apareceu-
lhe na sala, por trás deles, a eterna boca do defunto, e
esta circunstância fê-lo ainda mais acanhado. Chegou a
mostrar-se frio, para ficar só, e ver se com eles
desaparecia a visão. Assim se passaram trinta a quarenta
minutos. Os cinco olharam enfim uns para os outros, e
deliberaram sair; despediram-se cerimoniosamente, e foram
conversando, para suas casas:
- Que diferença do tio! que abismo! a herança enfunou-o!
deixá-lo! ah! Joaquim Fidélis! ah! Joaquim Fidélis!
CAPÍTULO DOS CHAPÉUS
Géronte
Dans quel
chapitre, s'il
vous plaît?
Sganarelle
Dans le
chapitre des
chapeaux.
Moliére.
Musa, canta o despeito de Mariana, esposa do bacharel
Conrado Seabra, naquela manhã de abril de 1879. Qual a
causa de tamanho alvoroço? Um simples chapéu, leve,
não
deselegante, um chapéu baixo. Conrado, advogado, com
escritório na rua da Quitanda, trazia-o todos os dias à
cidade, ia com ele às audiências; só não
o levava às
recepções, teatro lírico, enterros e visitas
de cerimônia.
No mais era constante, e isto desde cinco ou seis anos,
que tantos eram os do casamento. Ora, naquela singular
manhã de abril, acabado o almoço, Conrado começou
a
enrolar um cigarro, e Mariana anunciou sorrindo que ia
pedir-lhe uma coisa.
- Que é, meu anjo?
- Você é capaz de fazer-me um sacrifício?
- Dez, vinte...
- Pois então não vá mais à cidade com
aquele chapéu.
- Por quê? é feio?
- Não digo que seja feio; mas é cá para fora,
para andar
na vizinhança, à tarde ou à noite, mas na cidade,
um
advogado, não me parece que...
- Que tolice, iaiá!
- Pois sim, mas faz-me este favor, faz?
Conrado riscou um fósforo, acendeu o cigarro, e fez-lhe um
gesto de gracejo, para desconversar; mas a mulher teimou.
A teima, a princípio frouxa e súplice, tornou-se logo
imperiosa e áspera. Conrado ficou espantado. Conhecia a
mulher; era, de ordinário, uma criatura passiva, meiga, de
uma plasticidade de encomenda, capaz de usar com a mesma
divina indiferença tanto um diadema régio como uma touca.
A prova é que, tendo tido uma vida de andarilha nos
últimos dois anos de solteira, tão depressa casou como
se
afez aos hábitos quietos. Saía às vezes, e a
maior parte
delas por instâncias do próprio consorte; mas só
estava
comodamente em casa. Móveis, cortinas, ornatos supriam-lhe
os filhos; tinha-lhes um amor de mãe; e tal era a
concordância da pessoa com o meio, que ela saboreava os
trastes na posição ocupada, as cortinas com as dobras
do
costume, e assim o resto. Uma das três janelas, por
exemplo, que davam para a rua vivia sempre meio aberta;
nunca era outra. Nem o gabinete do marido escapava às
exigências monótonas da mulher, que mantinha sem alteração
a desordem dos livros, e até chegava a restaurá-la.
Os
hábitos mentais seguiam a mesma uniformidade. Mariana
dispunha de mui poucas noções, e nunca lera senão
os mesmo
livros: - a Moreninha de Macedo, sete vezes; Ivanhoé e o
Pirata de Walter Scott, dez vezes; o Mot de 1'énigme, de
Madame Craven, onze vezes.
Isto posto, como explicar o caso do chapéu? Na véspera,
à
noite, enquanto o marido fora a uma sessão do Instituto da
Ordem dos Advogados, o pai de Mariana veio à casa deles.
Era um bom velho, magro, pausado, ex-funcionário público,
ralado de saudades do tempo em que os empregados iam de
casaca para as suas repartições. Casaca era o que ele,
ainda agora, levava aos enterros, não pela razão que
o
leitor suspeita, a solenidade da morte ou a gravidade da
despedida última, mas por esta menos filosófica, por
ser
um costume antigo. Não dava outra, nem da casaca nos
enterros, nem do jantar às duas horas, nem de vinte usos
mais. E tão aferrado aos hábitos, que no aniversário
do
casamento da filha, ia para lá às seis horas da tarde,
jantado e digerido, via comer, e no fim aceitava um pouco
de doce, um cálice de vinho e café. Tal era o sogro
de
Conrado; como supor que ele aprovasse o chapéu baixo do
genro? Suportava-o calado, em atenção às qualidades
da
pessoa; nada mais. Acontecera-lhe, porém, naquele dia, vê-
lo de relance na rua, de palestra com outros chapéus altos
de homens públicos, e nunca lhe pareceu tão torpe. De
noite, encontrando a filha sozinha, abriu-lhe o coração;
pintou-lhe o chapéu baixo como a abominação das
abominações, e instou com ela para que o fizesse
desterrar.
Conrado ignorava essa circunstância, origem do pedido.
Conhecendo a docilidade da mulher, não entendeu a
resistência; e, porque era autoritário, e voluntarioso,
a
teima veio irritá-lo profundamente. Conteve-se ainda
assim; preferiu mofar do caso; falou-lhe com tal ironia e
desdém, que a pobre dama sentiu-se humilhada. Mariana quis
levantar-se duas vezes; ele obrigou-a a ficar, a primeira
pegando-lhe levemente no pulso, a segunda subjugando-a com
o olhar. E dizia, sorrindo:
- Olhe, iaiá, tenho uma razão filosófica para
não fazer o
que você me pede. Nunca lhe disse isto; mas já agora
confio-lhe tudo.
Mariana mordia o lábio, sem dizer mais nada; pegou de uma
faca, e entrou a bater com ela devagarinho para fazer
alguma coisa; mas, nem isso mesmo consentiu o marido, que
lhe tirou a faca delicadamente, e continuou:
- A escolha do chapéu não é uma ação
indiferente, como
você pode supor; é regida por um princípio metafísico.
Não
cuide que quem compra um chapéu exerce uma ação
voluntária
e livre; a verdade é que obedece a um determinismo
obscuro. A ilusão da liberdade existe arraigada nos
compradores, e é mantida pelos chapeleiros que, ao verem
um freguês ensaiar trinta ou quarenta chapéus, e sair
sem
comprar nenhum, imaginam que ele está procurando
livremente uma combinação elegante. O princípio
metafísico
é este: - o chapéu é a integração
do homem, um
prolongamento da cabeça, um complemento decretado ab
æterno; ninguém o pode trocar sem mutilação.
E uma questão
profunda que ainda não ocorreu a ninguém. Os sábios
têm
estudado tudo desde o astro até o verme, ou, para
exemplificar bibliograficamente, desde Laplace... Você
nunca leu Laplace? desde Laplace e a Mecânica celeste até
Darwin e o seu curioso livro das Minhocas, e, entretanto,
não se lembraram ainda de parar diante do chapéu e estudá-
lo por todos os lados. Ninguém advertiu que há uma
metafísica do chapéu. Talvez eu escreva uma memória
a este
respeito. São nove horas e três quartos; não tenho
tempo
de dizer mais nada; mas você reflita consigo, e verá...
Quem sabe? pode ser até que nem mesmo o chapéu seja
complemento do homem, mas o homem do chapéu...
Mariana venceu-se afinal, e deixou a mesa. Não entendera
nada daquela nomenclatura áspera nem da singular teoria;
mas sentiu que era um sarcasmo, e, dentro de si, chorava
de vergonha. O marido subiu para vestir-se; desceu daí a
alguns minutos, e parou diante dela com o famoso chapéu na
cabeça. Mariana achou-lho, na verdade, torpe, ordinário,
vulgar, nada sério. Conrado despediu-se cerimoniosamente e
saiu.
A irritação da dama tinha afrouxado muito; mas, o
sentimento de humilhação subsistia. Mariana não
chorou,
não clamou, como supunha que ia fazer; mas, consigo mesma,
recordou a simplicidade do pedido, os sarcasmos de
Conrado, e, posto reconhecesse que fora um pouco exigente,
não achava justificação para tais excessos. Ia
de um lado
para outro, sem poder parar; foi à sala de visitas, chegou
à janela meio aberta, viu ainda o marido, na rua, à
espera
do bond, de costas para casa, com o eterno e torpíssimo
chapéu na cabeça. Mariana sentiu-se tomada de ódio
contra
essa peça ridícula; não compreendia como pudera
suportá-la
por tantos anos. E relembrava os anos, pensava na
docilidade dos seus modos, na aquiescência a todas as
vontades e caprichos do marido, e perguntava a si mesma se
não seria essa justamente a causa do excesso daquela
manhã. Chamava-se tola, moleirona; se tivesse feito como
tantas outras, a Clara e a Sofia, por exemplo, que
tratavam os maridos como eles deviam ser tratados, não lhe
aconteceria nem metade nem uma sombra do que lhe
aconteceu. De reflexão em reflexão, chegou à
idéia de
sair. Vestiu-se, e foi à casa da Sofia, uma antiga
companheira de colégio, com o fim de espairecer, não
de
lhe contar nada.
Sofia tinha trinta anos, mais dois que Mariana. Era alta,
forte, muito senhora de si. Recebeu a amiga com as festas
do costume; e, posto que esta lhe não dissesse nada,
adivinhou que trazia um desgosto e grande. Adeus, planos
de Mariana! Daí a vinte minutos contava-lhe tudo. Sofia
riu dela, sacudiu os ombros; disse-lhe que a culpa não era
do marido.
- Bem sei, é minha, concordava Mariana.
- Não seja tola, iaiá! Você tem sido muito mole
com ele.
Mas seja forte uma vez; não faça caso; não lhe
fale tão
cedo; e se ele vier fazer as pazes, diga-lhe que mude
primeiro de chapéu.
- Veja você, uma coisa de nada...
- No fim de contas, ele tem muita razão; tanta como
outros. Olhe a pamonha da Beatriz; não foi agora para a
roça, só porque o marido implicou com um inglês
que
costumava passar a cavalo de tarde? Coitado do inglês!
Naturalmente nem deu pela falta. A gente pode viver bem
com seu marido, respeitando-se, não indo contra os desejos
um do outro, sem pirraças, nem despotismo. Olhe; eu cá
vivo muito bem com o meu Ricardo; temos muita harmonia.
Não lhe peço uma coisa que ele me não faça
logo; mesmo
quando não tem vontade nenhuma, basta que eu feche a cara,
obedece logo. Não era ele que teimaria assim por causa de
um chapéu! Tinha que ver! Pois não! Onde iria ele parar!
Mudava de chapéu, quer quisesse, quer não.
Mariana ouvia com inveja essa bela definição do sossego
conjugal. A rebelião de Eva embocava nela os seus clarins;
e o contato da amiga dava-lhe um prurido de independência
e vontade. Para completar a situação, esta Sofia não
era
só muito senhora de si, mas também dos outros; tinha
olhos
para todos os ingleses, a cavalo ou a pé. Honesta, mas
namoradeira; o termo é cru, e não há tempo de
compor outro
mais brando. Namorava a torto e a direito, por uma
necessidade natural, um costume de solteira. Era o troco
miúdo do amor, que ela distribuía a todos os pobres
que
lhe batiam à porta: - um níquel a um, outro a outro;
nunca
uma nota de cinco mil-réis, menos ainda uma apólice.
Ora
este sentimento caritativo induziu-a a propor à amiga que
fossem passear, ver as lojas, contemplar a vista de outros
chapéus bonitos e graves. Mariana aceitou; um certo
demônio soprava nela as fúrias da vingança. Demais,
a
amiga tinha o dom de fascinar, virtude de Bonaparte, e não
lhe deu tempo de refletir. Pois sim, iria, estava cansada
de viver cativa. Também queria gozar um pouco, etc., etc.
Enquanto Sofia foi vestir-se, Mariana deixou-se estar na
sala, irrequieta e contente consigo mesma. Planeou a vida
de toda aquela semana, marcando os dias e horas de cada
coisa, como numa viagem oficial. Levantava-se, sentava-se,
ia à janela, à espera da amiga.
- Sofia parece que morreu, dizia de quando em quando.
De uma das vezes que foi à janela, viu passar um rapaz a
cavalo. Não era inglês, mas lembrou-lhe a outra, que
o
marido levou para a roça, desconfiado de um inglês, e
sentiu crescer-lhe o ódio contra a raça masculina -
com
exceção, talvez, dos rapazes a cavalo. Na verdade, aquele
era afetado demais; esticava a perna no estribo com
evidente vaidade das botas, dobrava a mão na cintura, com
um ar de figurino. Mariana notou-lhe esses dois defeitos;
mas achou que o chapéu resgatava-os; não que fosse um
chapéu alto; era baixo, mas próprio do aparelho eqüestre.
Não cobria a cabeça de um advogado indo gravemente para
o
escritório, mas a de um homem que espairecia ou matava o
tempo.
Os tacões de Sofia desceram a escada, compassadamente.
Pronta! disse ela daí a pouco, ao entrar na sala.
Realmente, estava bonita. Já sabemos que era alta. O
chapéu aumentava-lhe o ar senhoril; e um diabo de vestido
de seda preta, arredondando-lhe as formas do busto, fazia-
a ainda mais vistosa. Ao pé dela, a figura de Mariana
desaparecia um pouco. Era preciso atentar primeiro nesta
para ver que possuía feições mui graciosas, uns
olhos
lindos, muita e natural elegância. O pior é que a outra
dominava desde logo; e onde houvesse pouco tempo de as
ver, tomava-o Sofia para si. Este reparo seria incompleto,
se eu não acrescentasse que Sofia tinha consciência da
superioridade, e que apreciava por isso mesmo as belezas
do gênero Mariana, menos derramadas e aparentes. Se é
um
defeito, não me compete emendá-lo.
- Onde vamos nós? perguntou Mariana.
- Que tolice! vamos passear à cidade... Agora me lembro,
vou tirar o retrato; depois vou ao dentista. Não; primeiro
vamos ao dentista. Você não precisa de ir ao dentista?
- Não.
- Nem tirar o retrato?
- Já tenho muitos. E para quê? para dá-lo "àquele
senhor"?
Sofia compreendeu que o ressentimento da amiga persistia,
e, durante o caminho, tratou de lhe pôr um ou dois bagos
mais de pimenta. Disse-lhe que, embora fosse difícil,
ainda era tempo de libertar-se. E ensinava-lhe um método
para subtrair-se à tirania. Não convinha ir logo de
um
salto, mas devagar, com segurança, de maneira que ele
desse por si quando ela lhe pusesse o pé no pescoço.
Obra
de algumas semanas, três a quatro, não mais. Ela, Sofia,
estava pronta a ajudá-la. E repetia-lhe que não fosse
mole, que não era escrava de ninguém, etc. Mariana ia
cantando dentro do coração a marselhesa do matrimônio.
Chegaram à rua do Ouvidor. Era pouco mais do meio-dia.
Muita gente, andando ou parada, o movimento do costume.
Mariana sentiu-se um pouco atordoada, como sempre lhe
acontecia. A uniformidade e a placidez, que eram o fundo
do seu caráter e de sua vida, receberam daquela agitação
os repelões do costume. Ela mal podia andar por entre os
grupos, menos ainda sabia onde fixasse os olhos, tal era a
confusão das gentes, tal era a variedade das lojas.
Conchegava-se muito à amiga, e, sem reparar que tinham
passado a casa do dentista, ia ansiosa de lá entrar. Era
um repouso; era alguma coisa melhor do que o tumulto.
- Esta rua do Ouvidor! ia dizendo.
- Sim? respondia Sofia, voltando a cabeça para ela e os
olhos para um rapaz que estava na outra calçada.
Sofia, prática daqueles mares, transpunha, rasgava ou
contornava as gentes com muita perícia e tranqüilidade.
A
figura impunha; os que a conheciam gostavam de vê-la outra
vez; os que não a conheciam paravam ou voltavam-se para
admirar-lhe o garbo. E a boa senhora, cheia de caridade,
derramava os olhos à direita e à esquerda, sem grande
escândalo, porque Mariana servia a coonestar os
movimentos. Nada dizia seguidamente; parece até que mal
ouvia as respostas da outra; mas falava de tudo, de outras
damas que iam ou vinham, de uma loja, de um chapéu...
Justamente os chapéus, - de senhora ou de homem, -
abundavam naquela primeira hora da rua do Ouvidor.
- Olha este, dizia-lhe Sofia.
E Mariana acudia a vê-los, femininos ou masculinos, sem
saber onde ficar, porque os demônios dos chapéus sucediam-
se como num caleidoscópio. Onde era o dentista? perguntava
ela à amiga. Sofia só à segunda vez lhe respondeu
que
tinham passado a casa; mas já agora iriam até ao fim
da
rua; voltariam depois. Voltaram finalmente.
- Uf! respirou Mariana entrando no corredor.
- Que é, meu Deus? Ora você! Parece da roça...
A sala do dentista tinha já algumas freguesas. Mariana não
achou entre elas uma só cara conhecida, e para fugir ao
exame das pessoas estranhas, foi para a janela. Da janela
podia gozar a rua, sem atropelo. Recostou-se; Sofia veio
ter com ela. Alguns chapéus masculinos, parados, começaram
a fitá-las; outros, passando, faziam a mesma coisa.
Mariana aborreceu-se da insistência; mas, notando que
fitavam principalmente a amiga, dissolveu-se-lhe o tédio
numa espécie de inveja. Sofia, entretanto, contava-lhe a
história de alguns chapéus, - ou, mais corretamente,
as
aventuras. Um deles merecia os pensamentos de Fulana;
outro andava derretido por Sicrana, e ela por ele, tanto
que eram certos na rua do Ouvidor às quartas e sábados,
entre duas e três horas. Mariana ouvia aturdida. Na
verdade, o chapéu era bonito, trazia uma linda gravata, e
possuía um ar entre elegante e pelintra, mas...
- Não juro, ouviu? replicava a outra, mas é o que se
diz.
Mariana fitou pensativa o chapéu denunciado. Havia agora
mais três, de igual porte e graça, e provavelmente os
quatro falavam delas, e falavam bem. Mariana enrubesceu
muito, voltou a cabeça para o outro lado, tornou logo à
primeira atitude, e afinal entrou. Entrando, viu na sala
duas senhoras recém-chegadas, e com elas um rapaz que se
levantou prontamente e veio cumprimentá-la com muita
cerimônia. Era o seu primeiro namorado.
Este primeiro namorado devia ter agora trinta e três anos.
Andara por fora, na roça, na Europa, e afinal na
presidência de uma província do sul. Era mediano de
estatura, pálido, barba inteira e rara, e muito apertado
na roupa. Tinha na mão um chapéu novo, alto, preto,
grave,
presidencial, administrativo, um chapéu adequado à pessoa
e às ambições. Mariana, entretanto, mal pôde
vê-lo. Tão
confusa ficou, tão desorientada com a presença de um
homem
que conhecera em especiais circunstâncias, e a quem não
vira desde 1877, que não pôde reparar em nada. Estendeu-
lhe os dedos, parece mesmo que murmurou uma resposta
qualquer, e ia tornar à janela, quando a amiga saiu dali.
Sofia conhecia também o recém-chegado. Trocaram algumas
palavras. Mariana, impaciente, perguntou-lhe ao ouvido se
não era melhor adiar os dentes para outro dia; mas a amiga
disse-lhe que não; negócio de meia hora a três
quartos.
Mariana sentia-se opressa: a presença de um tal homem
atava-lhe os sentidos, lançava-a na luta e na confusão.
Tudo culpa do marido. Se ele não teimasse e não caçoasse
com ela, ainda em cima, não aconteceria nada. E Mariana,
pensando assim, jurava tirar uma desforra. De memória
contemplava a casa, tão sossegada, tão bonitinha, onde
podia estar agora, como de costume, sem os safanões da
rua, sem a dependência da amiga...
- Mariana, disse-lhe esta, o Dr. Viçoso teima que está
muito magro. Você não acha que está mais gordo
do que no
ano passado?... Não se lembra dele no ano passado?
Dr. Viçoso era o próprio namorado antigo, que palestrava
com Sofia, olhando muitas vezes para Mariana. Esta
respondeu negativamente. Ele aproveitou a fresta, para
puxá-la à conversação; disse que, na verdade,
não a vira
desde alguns anos. E sublinhava o dito com um certo olhar
triste e profundo. Depois abriu o estojo dos assuntos,
sacou para fora o teatro lírico. Que tal achavam a
companhia? Na opinião dele era excelente, menos o
barítono; o barítono parecia-lhe cansado. Sofia protestou
contra o cansaço do barítono, mas ele insistiu,
acrescentando que, em Londres, onde o ouvira pela primeira
vez, já lhe parecera a mesma coisa. As damas, sim,
senhora; tanto o soprano como o contralto eram de primeira
ordem. E falou das óperas, citava os trechos, elogiou a
orquestra, principalmente nos Huguenotes... Tinha visto
Mariana na última noite, no quarto ou quinto camarote da
esquerda, não era verdade?
- Fomos, murmurou ela, acentuando bem o plural.
- No Cassino é que a não tenho visto, continuou ele.
- Está ficando um bicho-do-mato, acudiu Sofia rindo.
Viçoso gostara muito do último baile, e desfiou as suas
recordações; Sofia fez o mesmo às dela. As melhores
toilettes foram descritas por ambos com muita
particularidade; depois vieram as pessoas, os caracteres,
dois ou três picos de malícia; mas tão anódina,
que não
fez mal a ninguém. Mariana ouvia-os sem interesse; duas ou
três vezes chegou a levantar-se e ir à janela; mas os
chapéus eram tantos e tão curiosos, que ela voltava
a
sentar-se. Interiormente, disse alguns nomes feios à
amiga; não os ponho aqui por não serem necessários,
e,
aliás, seria de mau gosto desvendar o que esta moça
pôde
pensar da outra durante alguns minutos de irritação.
- E as corridas do Jockey Club? perguntou o ex-presidente.
Mariana continuava a abanar a cabeça. Não tinha ido
às
corridas naquele ano. Pois perdera muito, a penúltima,
principalmente; esteve animadíssima, e os cavalos eram de
primeira ordem. As de Epsom, que ele vira, quando esteve
em Inglaterra, não eram melhores do que a penúltima
do
Prado Fluminense. E Sofia dizia que sim, que realmente a
penúltima corrida honrava o Jockey Club. Confessou que
gostava muito; dava emoções fortes. A conversação
descambou em dois concertos daquela semana; depois tomou a
barca, subiu a serra e foi a Petrópolis, onde dois
diplomatas lhe fizeram as despesas da estadia. Como
falassem da esposa de um ministro, Sofia lembrou-se de ser
agradável ao ex-presidente, declarando-lhe que era preciso
casar também porque em breve estaria no ministério.
Viçoso
teve um estremeção de prazer, e sorriu, e protestou
que
não; depois, com os olhos em Mariana, disse que
provavelmente não casaria nunca... Mariana enrubesceu
muito e levantou-se.
- Você está com muita pressa, disse-lhe Sofia. Quantas
são? continuou voltando-se para Viçoso.
- Perto de três! exclamou ele.
Era tarde; tinha de ir à câmara dos deputados. Foi falar
às duas senhoras, que acompanhara, e que eram primas suas,
e despediu-se; vinha despedir-se das outras, mas Sofia
declarou que sairia também. Já agora não esperava
mais. A
verdade é que a idéia de ir à câmara dos
deputados
começara a faiscar-lhe na cabeça.
- Vamos à câmara? propôs ela à outra.
- Não, não, disse Mariana; não posso, estou muito
cansada.
- Vamos, um bocadinho só; eu também estou muito cansada...
Mariana teimou ainda um pouco; mas teimar contra Sofia, -
a pomba discutindo com o gavião, - era realmente
insensatez. Não teve remédio, foi. A rua estava agora
mais
agitada, as gentes iam e vinham por ambas as calçadas, e
complicavam-se no cruzamento das ruas. De mais a mais, o
obsequioso ex-presidente flanqueava as duas damas, tendo-
se oferecido para arranjar-lhes uma tribuna.
A alma de Mariana sentia-se cada vez mais dilacerada de
toda essa confusão de coisas. Perdera o interesse da
primeira hora; e o despeito, que lhe dera forças para um
vôo audaz e fugidio, começava a afrouxar as asas, ou
afrouxara-as inteiramente. E outra vez recordava a casa,
tão quieta, com todas as coisas nos seus lugares,
metódicas, respeitosas umas com as outras, fazendo-se tudo
sem atropelo, e, principalmente, sem mudança imprevista. E
a alma batia o pé, raivosa... Não ouvia nada do que
o
Viçoso ia dizendo, conquanto ele falasse alto, e muitas
coisas fossem ditas para ela. Não ouvia, não queria
ouvir
nada. Só pedia a Deus que as horas andassem depressa.
Chegaram à câmara e foram para uma tribuna. O rumor das
saias chamou a atenção de uns vinte deputados, que
restavam, escutando um discurso de orçamento. Tão depressa
o Viçoso pediu licença e saiu, Mariana disse rapidamente
à
amiga que não lhe fizesse outra.
- Que outra? perguntou Sofia.
- Não me pregue outra peça como esta de andar de um
lugar
para outro feito maluca. Que tenho eu com a câmara? que me
importam discursos que não entendo?
Sofia sorriu, agitou o leque e recebeu em cheio o olhar de
um dos secretários. Muitos eram os olhos que a fitavam
quando ela ia à câmara, mas os do tal secretário
tinham
uma expressão mais especial, cálida e súplice.
Entende-se,
pois, que ela não o recebeu de supetão; pode mesmo
entender-se que o procurou curiosa. Enquanto acolhia esse
olhar legislativo ia respondendo à amiga, com brandura,
que a culpa era dela, e que a sua intenção era boa,
era
restituir-lhe a posse de si mesma.
- Mas, se você acha que a aborreço não venha mais
comigo,
concluiu Sofia.
E, inclinando-se um pouco:
- Olhe o ministro da justiça.
Mariana não teve remédio senão ver o ministro
da justiça.
Este agüentava o discurso do orador, um governista, que
provava a conveniência dos tribunais correcionais, e,
incidentemente, compendiava a antiga legislação colonial.
Nenhum aparte; um silêncio resignado, polido, discreto e
cauteloso. Mariana passeava os olhos de um lado para
outro, sem interesse; Sofia dizia-lhe muitas coisas, para
dar saída a uma porção de gestos graciosos. No
fim de
quinze minutos agitou-se a câmara, graças a uma expressão
do orador e uma réplica da oposição. Trocaram-se
apartes,
os segundos mais bravos que os primeiros, e seguiu-se um
tumulto, que durou perto de um quarto de hora.
Essa diversão não o foi para Mariana, cujo espírito
plácido e uniforme, ficou atarantado no meio de tanta e
tão inesperada agitação. Ela chegou a levantar-se
para
sair; mas, sentou-se outra vez. Já agora estava disposta a
ir ao fim, arrependida e resoluta a chorar só consigo as
suas mágoas conjugais. A dúvida começou mesmo
a entrar
nela. Tinha razão no pedido ao marido; mas era caso de
doer-se tanto? era razoável o espalhafato? Certamente que
as ironias dele foram cruéis; mas, em suma, era a primeira
vez que ela lhe batera o pé, e, naturalmente, a novidade
irritou-o. De qualquer modo porém, fora um erro ir revelar
tudo à amiga. Sofia iria talvez contá-lo a outras...
Esta
idéia trouxe um calafrio a Mariana; a indiscrição
da amiga
era certa; tinha-lhe ouvido uma porção de histórias
de
chapéus masculinos e femininos, coisa mais grave do que
uma simples briga de casados. Mariana sentiu necessidade
de lisonjeá-la, e cobriu a sua impaciência e zanga com
uma
máscara de docilidade hipócrita. Começou a sorrir
também,
a fazer algumas observações, a respeito de um ou outro
deputado, e assim chegaram ao fim do discurso e da sessão.
Eram quatro horas dadas. Toca a recolher, disse Sofia; e
Mariana concordou que sim, mas sem impaciência, e ambas
tornaram a subir a rua do Ouvidor. A rua, a entrada no
bond completaram a fadiga do espírito de Mariana, que
afinal respirou quando viu que ia caminho de casa. Pouco
antes de apear-se a outra, pediu-lhe que guardasse segredo
sobre o que lhe contara; Sofia prometeu que sim.
Mariana respirou. A rola estava livre do gavião. Levava a
alma doente dos encontrões, vertiginosa da diversidade de
coisas e pessoas. Tinha necessidade de equilíbrio e saúde.
A casa estava perto; à medida que ia vendo as outras casas
e chácaras próximas, Mariana sentia-se restituída
a si
mesma. Chegou finalmente; entrou no jardim, respirou. Era
aquele o seu mundo; menos um vaso, que o jardineiro
trocara de lugar.
- João, bota este vaso onde estava antes, disse ela.
Tudo o mais estava em ordem, a sala de entrada, a de
visitas, a de jantar, os seus quartos, tudo. Mariana
sentou-se primeiro, em diferentes lugares, olhando bem
para todas as coisas, tão quietas e ordenadas. Depois de
uma manhã inteira de perturbação e variedade,
a monotonia
trazia-lhe um grande bem, e nunca lhe pareceu tão
deliciosa. Na verdade, fizera mal... Quis recapitular os
sucessos e não pôde; a alma espreguiçava-se toda
naquela
uniformidade caseira. Quando muito, pensou na figura do
Viçoso, que achava agora ridícula, e era injustiça.
Despiu-se lentamente, com amor, indo certeira a cada
objeto. Uma vez despida, pensou outra vez na briga com o
marido. Achou que, bem pesadas as coisas, a principal
culpa era dela. Que diabo de teima por causa de um chapéu,
que o marido usara há tantos anos? Também o pai era
exigente demais...
- Vou ver a cara com que ele vem, pensou ela.
Eram cinco e meia; não tardaria muito. Mariana foi à
sala
da frente, espiou pela vidraça, prestou o ouvido ao bond,
e nada. Sentou-se ali mesmo com o Ivanhoe nas palmas,
querendo ler e não lendo nada. Os olhos iam até o fim
da
página, e tornavam ao princípio, em primeiro lugar,
porque
não apanhavam o sentido, em segundo lugar, porque uma ou
outra vez desviavam-se para saborear a correção das
cortinas ou qualquer outra feição particular da sala.
Santa monotonia, tu a acalentavas no teu regaço eterno.
Enfim, parou um bond; apeou-se o marido; rangeu a porta de
ferro do jardim. Mariana foi à vidraça, e espiou. Conrado
entrava lentamente, olhando para a direita e a esquerda,
com o chapéu na cabeça, não o famoso chapéu
do costume,
porém outro, o que a mulher lhe tinha pedido de manhã.
O
espírito de Mariana recebeu um choque violento, igual ao
que lhe dera o vaso do jardim trocado, - ou ao que lhe
daria uma lauda de Voltaire entre as folhas da Moreninha
ou de Ivanhoe... Era a nota desigual no meio da harmoniosa
sonata da vida. Não, não podia ser esse chapéu.
Realmente,
que mania a dela exigir que ele deixasse o outro que lhe
ficava tão bem? E que não fosse o mais próprio,
era o de
longos anos; era o que quadrava à fisionomia do marido...
Conrado entrou por uma porta lateral. Mariana recebeu-o
nos braços.
- Então, passou? perguntou ele, enfim, cingindo-lhe a
cintura.
- Escuta uma coisa, respondeu ela com uma carícia divina,
bota fora esse; antes o outro.
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