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História da Província de Santa Cruz
Pêro de Magalhães Gândavo


CAPITULO VI
DOS ANIMAES E BICHOS VENENOSOS QUE HA NESTA PROVINCIA

Como esta Provincia seja tão grande e a maior parte della inhabitada e cheia de altissimos arvoredos, e espessos matos, nam he d'espantar que haja nella muita diversidade de animaes, e bichos mui feros e venenosos, pois cá entre nós, com ser terra já tam cultivada e possuida de tanta gente, ainda se crião em brenhas cobras mui grandes de que se contão cousas mui notaveis, e outros bichos e animaes mui danosos, esparzidos por charnecas e matos, a que os homens com serem tantos e matarem sempre nelles, nam podem acabar de dar fim, como sabemos. Quanto mais nesta Provincia, onde os climas e qualidades dos ares terrestres, nam são menos dispostos para os gerarem, do que a terra em si, pelos muitos matos que digo, acomodada pera os criar.
Porem de quanta immundicia e variedade de animaes por ella espalhou a natureza, nam havia lá nenhuns domesticos, quando começaram os Portuguezes de a povoar. Mas depois que a terra foi delles conhecida, e vieram a entender o proveito da criaçam que nesta parte podião alcançar, começarão-lhe a levar da ilha do Cabo Verde cavalos e egoas, de que agora ha já grande creaçam em todas as Capitanias desta Provincia. E assi ha tambem grande copia de gado que da mesma ilha foi levado a estas partes, principalmente do vacum ha muita abundancia, o qual pelos pastos serem muitos, vai sempre em grande crescimento. Os outros animaes que na terra se acharão todos são bravos de natureza, e alguns estranhos nunca vistos em outras partes: dos quaes darei aqui logo noticia começando primeiramente por aquelles que na terra se comem, de cuja carne os moradores são mui abastados em todas as Capitanias.
Ha muitos veados e muita soma de porcos de diversas castas, convem a saber, ha monteses como os desta terra: e outros mais pequenos que tem o embigo nas costas de que se mata na terra grande quantidade; e outros que comem e criam em terra, e andão debaixo dagua o tempo que querem: aos quaes, como corrão pouco por causa de terem os pés compridos e as mãos curtas, proveo a natureza de maneira que podessem conservar a vida debaixo da mesma agua, aonde logo se lanção de mergulho, tanto que vem gente, ou qualquer outra cousa de que se temam, e assi a carne destes como a dos outros he muito sabrosa e tam sádia que se manda dar aos enfermos, porque pera qualquer doença he proveitosa e nam faz mal a nenhuma pessoa.
Tambem ha uns animaes na terra a que chamam Antas, que são de feição de mulas, mas nam tam grandes, e tem o focinho mais delgado, e hum beiço comprido á maneira de tromba. As orelhas são redondas e o rabo nam muito comprido: e são cinzentas pelo corpo, e brancas pela barriga. Estas Antas nam sáem a pacer sinam de noite, e tanto que amanhece metem-se em alguns bréjos, ou na parte mais secreta que achão e ali estão o dia todo escondidas como aves noturnas a que a luz do dia he odiosa, até que anoitecendo, tornão outra vez a sair e a pacer por onde querem como he seu costume. A carne destes animaes tem o sabor como da vaca, da qual parece que se nam differença cousa alguma.
Outros animaes ha a que chamão Cotias, que são do tamanho de lebres; e quasi tem a mesma semelhança, e sabor. Estas cotias são ruivas, e tem as orelhas pequenas, e o rabo tam curto que quasi se nam enxerga. Ha tambem outros maiores a que chamam Pacas, que tem o focinho redondo, e quasi da feição do gato, e o rabo como o da Cotia. São pardas, e malhadas de pintas brancas por todo o corpo. Quando querem guiza-las pera comer, pelão-nas como leitam, e nam nas esfolão, porque tem hum couro mui tenro e saboroso, e a carne tambem he muito gostosa e das melhores que ha na terra.
Outros ha tambem nestas partes muito pera notar, e mais fora da commum semelhança dos outros animaes, (a meu juizo) que quantos até agora se tem visto. Chamam-lhe Tatús, e são quasi tamanhos como Leitões: tem hum casco como de Cágado, o qual he repartido em muitas juntas como laminas, e proporcionados de maneira, que parece totalmente um cavalo armado. Tem hum rabo comprido todo coberto do mesmo casco: o focinho he como de leitam, ainda que mais delgado algum tanto, e nam bota mais fóra do casco que a cabeça. Tem as pernas baixas, e crião-se em covas como coelhos. A carne destes animaes he a melhor, e a mais estimada que ha nesta terra, e tem o sabor quasi como de galinha.
Ha tambem coelhos como os de cá da nossa Patria de cujo parecer nam differem cousa alguma.
Finalmente que desta e de toda a mais caça de que acima tratei participão (como digo) todos os moradores, e mata-se muita della á custa de pouco trabalho em toda parte querem: porque nam ha lá impedimento de coutadas, como nestes Reinos, e hum só Indio basta, se he bom caçador, a sustentar huma casa de carne no mato, ao qual nam escapa hum dia por outro que nam mate porco ou veado, ou qualquer outro animal destes de que fiz menção.
Outros animaes ha nesta Provincia mui feros e prejudiciaes a toda esta caça, e ao gado dos moradores: aos quaes chamam Tigres, ainda que na terra a mais da gente os nomea Onças: mas algumas pessoas que os conhecem e os virão em outras partes, affirmão que sam Tigres. Estes animaes parecem-se naturalmente com gatos, e nam differem delles em outra cousa; salvo na grandeza do corpo porque alguns são tamanhos como bezerros e outros mais pequenos. Tem o cabello dividido em varias e distintas cores, convem a saber, em pintas brancas, pardas e pretas. Como se achão famintos entrão nos curraes do gado e matão muitas vitellas, e novilhos que vão comer ao mato, e o mesmo fazem a todo o animal que podem alcançar. E pelo conseguinte quando se vem perseguidos da fome, tambem cometem aos homens, e nesta parte são tam ousados, que já aconteceu trepar-se um Indio a huma arvore por se livrar de hum destes animaes que o hia seguindo, e pôr-se o mesmo Tigre ao pé da arvore, nam bastando a espanta-lo alguma gente que acudio da povoaçam aos gritos do Indio, antes a todos os medos se deixou estar muito seguro guardando sua preza até que sendo noite se tornaram outra vez sem ouzarem de lhe fazer nenhuma offensa, dizendo ao Indio que se deixasse estar, que elle se enfadaria de o esperar, e quando veio pela manhã (ou porque o Indio se quiz descer parecendo-lhe que o Tigre era já ido, ou por acertar de cair per algum desastre, (ou pela via que fosse) nam se achou ahi mais delle que os ossos. Porem pelo contrario, quando estão fartos sam mui cobardes, e tam pusilanimes que qualquer cão que remete a elles, basta a faze-los fugir: algumas vezes acossados do medo se trepam a huma arvore e ali se deixam matar ás frechadas sem nenhuma resistencia. Emfim que a fartura superflua, nam somente apaga a prudencia, a fortaleza do animo, e a viveza do engenho ao homem, mais ainda aos brutos animaes inabilita e faz incapazes de uzarem de suas forças naturaes posto que tenham necessidade de as exercitarem pera defençam de sua vida.
Outro genero de animaes ha na terra, a que chamão Cerigoês, que são pardos e quasi tamanhos como raposas: os quaes tem huma abertura na barriga ao comprido, de maneira que de cada banda lhes fica hum bolço onde trazem os filhos metidos. E cada filho tem sua teta pegada na boca, da qual a nam tirão nunca até que se acabão de criar. Destes animaes se affirma que nam concebem nem geram os filhos dentro da barriga senam em aquelles bolços, porque nunca de quantos se tomarão se achou algum prenhe. E alem disto ha outras conjeturas mui provaveis por onde se tem por impossivel parirem os taes filhos como todos os outros animaes (segundo a ordem da natureza) parem os seus. Hum certo animal se acha tambem nestas partes, a que chamam Preguiça (que he pouco mais ou menos do tamanho destes) o qual tem hum rosto feio, e humas unhas muito compridas quasi como dedos. Tem uma gadelha grande no toitiço que lhe cobre o pescoço, e anda sempre com a barriga lançada pelo chão sem nunca se levantar em pé como os outros animaes; e assi se move com passos tam vagarosos que ainda que ande quinze dias aturados, nam vencerá distancia de hum tiro de pedra. O seu mantimento he folhas de arvores e em cima dellas anda o mais do tempo, aonde ha pelo menos mister dous dias pera subir e dous pera descer. E posto que o matem com pancadas nem que o persigam outros animaes, nam se menea huma hora mais que outra.
Outro genero de animaes ha na terra, a que chamão Tamandoás que serão tamanhos como carneiros, os quaes são pardos e tem hum focinho muito comprido e delgado pera baixo; a boca nam tem rasgada como a dos outros animaes, e he tam pequena, que escassamente caberão por ella dous dedos: tem huma lingoa muito estreita e quasi de tres palmos em cumprido. As femeas tem duas tetas no peito como de mulher, e o ubre lançado em cima do pescoso entre as pás, donde lhes desce o leite ás mesmas tetas com que criam os filhos. E assi tem mais cada um delles duas unhas em cada mão, tam compridas como grandes dedos, largas á maneira de escouparo. Tambem pelo conseguinte tem hum rabo mui cheio de sedas, e quasi tam compridas com as de hum cavallo. Todos estes extremos que se achão nestes animaes, são necessarios pera conservaçam de sua vida, porque nam comem outra cousa sinam formigas. E como isto assi seja vão-se com aquellas unhas arranhar nos formigueiros onde as ha, e tanto que as tem agravadas lanção a lingoa fóra e poem-na ali naquella parte onde arranharão, a qual como se enche dellas recolhem pera dentro da boca, e tantas vezes fazem isto, até que se acabão de fartar. E quando se querem agazalhar ou esconder de alguma cousa, levantão aquelle rabo e lansão-no por cima de si, debaixo de cujas sedas ficão todos cobertos sem se enxergar delles cousa alguma.
Bogios ha na terra muitos e de muitas castas como já se sabe: e por serem tam conhecidos em toda a parte nam particularizei aqui suas propriedades tanto por extenso. Somente tratarei em bréves palavras alguma cousa destes de que particularmente entre os outros se pode fazer mençam.
Ha uns ruivos, nam muito grandes que derramam de si hum cheiro mui suave a toda a pessoa que a elles se chega, e se os tratão com as mãos, ou se acertão de suar, ficão muito mais odoriferos e lançam o cheiro a todos os circunstantes: destes ha mui poucos na terra, e nam se achão sinam pelo sertão dentro muito longe.
Outros ha pretos maiores que estes, que tem barba como homem, os quaes são tam atrevidos, que muitas vezes acontece frécharem os Indios alguns, e elles tirarem as fréchas do corpo com suas proprias mãos, e tornarem a arremessa-las a quem lhes atirou. Estes são mui bravos de natureza, e mais esquivos de todos quanto ha nestas partes.
Ha tambem huns pequeninos pela costa, de duas castas pouco maiores que dóninhas, a que commummente chamão Sagois, convem a saber, ha uns louros, e outros pardos: os louros tem um cabello muito fino, e na semelhança do vulto e feição do corpo quasi se querem parecer com leão: são muito fermosos e nam os ha sinam no Rio de Janeiro. Os pardos se achão dahi para o Norte em todas as mais Capitanias. Tambem são muito apraziveis, mas nam tam alegres, á vista como estes. E assim huns como outros são tam mimosos e delicados de sua natureza, que como os tiram da patria e os embarcam pera este Reino tanto que chegam a outros ares mais frios quasi todos morrem no mar, e nam escapa sinam algum de grande maravilha.
Ha tambem pelo mato dentro cobras mui grandes e de muitas castas a que os Indios dão diversos nomes, conforme as suas propriedades. Humas ha na terra tam disformes de grandes, que emgolem um veado, ou qualquer outro animal simelhante todo inteiro. E isto nam he muito pera espantar, pois vemos que nesta nossa patria, ha hoje em dia cobras bem pequenas, que engolem huma lebre ou coelho da mesma maneira tendo um cólo que á vista parece pouco mais grosso que hum dedo: e quando vem a engolir estes animaes alarga-se, e dá de si de maneira, que passão por elle inteiros, e assi os estão sorvendo até os acabarem de meter no bucho, como entre nós he notorio. Quanto mais estoutras de que trato, que por razam de sua grandeza fica parecendo a quem nas vio menos difficultoso engolirem qualquer animal da terra por grande que seja. Outras ha doutra casta differente não tam grandes como estas: mas mais venenosas: as quaes têm na ponta do rabo huma cousa que sôa quasi como cascavel, e por onde quer que vão sempre andão rugindo e os que as ouvem têm cuidado de se guardarem dellas.
Além destas ha outras muitas na terra, doutras castas diversas, que aqui nam refiro por escusar prolixidade, as quaes pela maior parte são tam nocivas e peçonhentas, (especialmente humas a que chamam Geraracas) que se acertão de morder alguma pessoa de maravilha escapa, e o mais que dura são vinte e quatro horas.
Tambem ha Lagartos mui grandes pelas lagôas e rios de agua doce, cujos testiculos cheiram melhor que almisquere; e a qualquer roupa que os chegam, fica o cheiro pegado por muitos dias.
Outros muitos animaes e bichos venenosos ha nesta Provincia, de que nam trato, os quaes são tantos em tanta abundancia, que seria historia mui comprida nomea-los aqui todos, e tratar particularmente da natureza de cada hum, havendo, como digo, infinidade delles nestas partes, aonde pela disposição da terra, e dos climas que a senhorêão, nam pode deixar de os haver. Porque como os ventos que procedem da mesma terra se tornem inficionados das podridões das hervas, matos e alagadiços geram-se com a influencia do Sol que nisto concorre, muitos e mui peçonhentos, que per toda a terra estão esparzidos, e a esta causa se crião e achão nas partes maritimas, e pelo sertão dentro infinitos da maneira que digo.


CAPITULO VII
DAS AVES QUE HA NESTA PROVINCIA

Entre todas as cousas de que na presente historia se pode fazer mençam, a que mais aprazivel e fermosa se offerece á vista humana he a grande variedade das finas e alegres cores das muitas aves que nesta Provincia se crião, as quaes por serem tam diversas em tanta quantidade, nam tratarei senam somente daquellas de que se pode notar alguma cousa e que na terra mais estimadas dos Portuguezes e Indios que habitão estas partes.
Ha nesta Provincia muitas aves de rapina mui fermosas e de varias castas, convem a saber, Aguias, Açores, e Gaviões, e outras doutros generos diversos, e cores differentes, que tambem têm a mesma propriedade. As Aguias sam mui grandes e forçosas, e assi remetem com tanta furia a gualquer ave, ou animal que querem prear, que ás vezes acontece nestas virem algumas tam desatinadas seguindo a preza que marrão nas casas dos moradores, ali caem à vista da gente sem mais se poderem leventar. Os Indios da terra as costumão tomar em seus ninhos quando são pequenas e crião-nas em umas sorças para depois de grandes se aproveitarem das pennas em suas galanterias acostumadas.
Os Açores sam como os de cà, ainda que ha hum certo genero delles que têm os pés todos vellosos, e tam cobertos de penna que escassamente se lhes enxergam as unhas. Estes sam muito ligeiros e de maravilha lhes escapa ave, ou qualquer outra caça a que remetam. Os Gaviões tambem sam mui destros e forçosos: especialmente huns pequenos como esmerilões, em sua quantidade o sam tanto, que remetem a huma perdis, e a levam nas unhas pera onde querem, e juntamente sam tam atrevidos, que muitas vezes acontece de ferirem a qualquer ave e apanha-la dentre a gente sem se quererem retirar nem larga-la por muito que os espantem.
As outras aves que na terra se comem, e de que os moradores se aproveitam sam as seguintes:
Ha um certo genero dellas, a que chamam Macucocagoàs, que sam pretas, e maiores que galinhas: as quaes têm tres ordens de titellas, sam mui gordas e tenras, e assi os moradores as têm em muita estima: porque sam ellas muito sabrosas, e mais que outras algumas que entre nós se comam.
Tambem ha outras quasi tamanhas como estas, a que chamam Jacús e nós lhe chamamos galinhas do mato. Sam pardas e pretas, e tem um circolo branco na cabeça e o pescoço vermelho. Matam-se na terra muitas dellas e pelo conseguinte sam mui sabrosas, e das melhores que ha no mato.
Ha tambem na terra muitas perdizes, pombas e rolas como as deste Reino, e muitos patos e adens bravas pelas lagoas e rios desta costa, e outras muitas aves de differentes castas que nam sam menos sabrosas e sadías que as melhores que cá entre nós se comem, e tem mais estima.
Papagaios ha nestas partes muitos de diversas castas e mui fermosos, como cà se vêm alguns por experiencia. Os melhores de todos, e que mais raramente se acham na terra, sam huns grandes maiores que açores a que chamam Anapurús. Estes papagaios sam variados de muitas cores, e criam-se muito longe pelo sertão dentro, e depois que os tomam, vêm a ser tam domesticos, que põem ovos em casa e acomodam -se mais à conversaçam da gente que outra qualquer ave que haja por mais domestica e mansa que seja. E por isso sam tidos na terra em tanta estima que val cada hum entre os Indios dous, tres escravos. E assi os Portuguézes que os alcançam os tem na mesma estima: porque sam elles alem disso muito bellos, e vestidos como digo de cores mui alegres e tam finas, que excedem na fermosura a todas quantas aves ha nestas partes.
Ha outros quasi do tamanho destes, a que chamam Canindés que sam todos azues: salvo nas azas que tem algumas pennas amarellas. Tambem sam muito fermosos, e estimados em grande preco de toda pessoa que os alcança.
Tambem se acham outros do mesmo tamanho pelo sertão dentro a que chamam Aráras os quaes sam vermelhos semeados de algumas pennas amarellas, e tem as azas azues, e hum rabo muito comprido e fermoso. Os outros mais pequenos, que mais facilmente falam e melhor de todos, sam aquelles a que na terra commummente chamam papagaios verdadeiros: os quaes trazem os Indios do sertão a vender aos Portuguezes a troco de resgates. Estes sam pouco mais ou menos do tamanho de pombas verdes claros, e tem a cabeça quasi toda amarella, e os encontros das azas vermelhos.
Outro genero delles ha pela costa entre os Portuguezes do tamanho destes, a que chamam corícas: os quaes sam vestidos de huma penna verde escura, e tem a cabeça azul da cor de rosmaninho. Destes papagaios ha na terra mais quantidade do que cá entre nós ha de gralhas ou de estorninhos e nam sam tam estimados como os outros porque gazeam muito, e alem disso falam dificultosamente, e á custa de muita industria. Mas quando vem a falar passam pelos outros e fazem-lhe nesta parte muita vantagem, e por isso os Indios da terra costumam depenar alguns em quanto sam novos e tingi-los com o sangue de humas certas raãs, com outras misturas que lhe ajuntam, e depois que se tornam a cobrir de penna ficam nem mais nem menos da cor dos verdadeiros: e assi acontece mui vezes enganarem com elles a algumas pessoas, vendendo-lhes por taes.
Ha tambem huns pequeninos que vêm do sertão pouco maior que pardaes, a que chamam Tuyns aos quaes vestio a natureza de hur penna verde muito fina sem outra nenhuma mistura, e tem o bico e pernas brancas, e hum rabo muito comprido. Estes tambem falam, e sam muito fermosos e apraziveis em extremo.
Outros ha pela costa tamanhos como melros, a que chamam Marcanáos, os quaes tem a cabeça grande, e hum bico muito grosso: tambem sam verdes e falam como cada hum dos outros.
Algumas aves notaveis ha tambem nestas partes, a fora estas que tenho referido, de que tambem farei mençam e em especial tratarei logo de humas maritimas a que chamam Goarás, as quaes seram pouco mais ou menos do tamanho de gaivotas. A primeira penna de que a nature as veste, he branca sem nenhuma mistura mui fina em extremo. E por espaço de dous annos pouco mais ou menos a mudam, e torna-lhes a nascer outra parda tambem muito fina sem outra nenhuma mistura; e pelo mesmo tempo adiante a tornam a mudar, e ficam vestidas de huma muito preto distincta de toda outra cor. Depois dahi a certo tempo pelo conseguinte a mudam e tornam-se a cobrir doutra mui vermelha, e tanto, como o mais fino e puro cramesim que no mundo se pode ver e nesta acabam seus dias.
Humas certas aves se acham tambem na Capitania de Pernambuco pela terra dentro maiores duas vezes que galos do Perú: as quaes sam pardas, e tem na cabeça acima do bico hum esporão muito agudo como corno, variado de branco e pardo escuro, quasi do compri mento de hum palmo, e tres semelhantes a este em cada aza, algum tanto mais pequenos, convem a saber huns nos encontros, outros nas juntas do meio, outros nas pontas das mesmas azas. Estas aves têm o bico como de aguia, e os pés grossos e muito compridos. Nos giolhos tem huns callos tambem como grandes punhos. Quando pelejam com outras aves viram-se de costas, e assi se ajudam de todas estas armas que a natureza lhes deu para sua defençam.
Outras aves ha tambem nestas partes, cujo nome a todos cá he notorio, as quaes ainda que tenham mais officio de animaes terrestres que de aves pela razão que logo direi, todavia por serem realmente aves de que se pode escrever, e terem a mesma semelhança, nam deixarei de fazer mencam dellas como de cada huma das outras. Chamam-se Hemas, as quaes terão tanta carne como hum grande carneiro e têm as pernas tam grandes que sam quasi até os encontros das azas da altura de hum homem. O pescoço he mui comprido em extremo, e têm a cabeca nem mais nem menos como de pata: sam pardas brancas e pretas, e variadas pelo corpo de humas pennas mui fermosas que cá entre nós costumam servir nas gorras e chapeos de pessoas galantes, e que professam a arte militar. Estas aves pascem hervas como qualquer outro animal do campo e nunca se levantam da terra, nem voam como as outras, somente abrem as azas e com ellas, vem ferindo o ar ao longo da mesma terra: e assi nunca andam, senam em campinas onde se achem desempedidas de matos e arvoredos, pera juntamente poderem correr e voar da maneira que digo.
Doutras infinitas aves que ha nestas partes, a que a natureza vestio de muitas e mui finas côres, podera tambem aqui fazer mencam, mas como meu intento principal nam foi na presente historia senam ser breve e fugir de cousas em que podesse ser notado de prolixo dos poucos curiosos, (como já tenho dito), quiz sómente particularizar estas mais notaveis e passar com silencio por todas as outras, de que se deve fazer menos caso.


CAPÍTULO VII
DE ALGUNS PEIXES NOTAVEIS, BALÉAS E AMBAR QUE HA NESTAS PARTES

He tam grande a copia do sabroso e sadío pescado que se mata, assi no mar alto, como nos rios e bahias desta Provincia de que geralmente os moradores sam participantes em todas as Capitanias, que esta só fertilidade bastara a sustenta-los abundantissimamente, ainda que nam houvera carnes nem outro genero de caça na terra de que se proveram como atras fica declarado.
E deixando á parte a muita variedade daquelles peixes que commumente nam differem na semelhança dos de cá, tratarei logo em especial de hum certo genero delles que ha nestas partes, a qué chamam peixes bois, os quaes sam tam grandes que os maiores pesam quarenta, cinquoenta arrobas. Têm o focinho como o de boi e dous cotos com que nadam á maneira de braços. As femeas têm duas tetas, com o leite das quaes se criam os filhos. O rabo he largo, rombo, e nam muito comprido: nam têm feição alguma de nenhum peixe, somente na pelle quer se parecer com toninha. Estes peixes pela maior parte se acham em alguns rios, ou bahias desta costa, principalmente onde ha algum ribeiro, ou regato se mete na agua salgada sam mais certos: porque botam o focinho fora e pascem as hervas que se criam em semelhantes partes, e tambem comem as folhas de humas arvores a que chamam Mangues, de que ha grande quantidade ao longo dos mesmos rios. Os moradores da terra os matam com arpões, e tambem em pesqueiras costumam tomar alguns porque vem com a enchente da maré aos taes logares, e com a vazante se tornam a ir para o mar donde vieram. Este peixe he muito gostoso em grande maneira, e totalmente parece carne, assi na semelhança, como no sabor, e assado nam tem nenhuma differença de lombo de porco. Tambem se coze com couves e guiza-se como carne, e assi nam ha pessoa queo coma que o julgue por peixe, salvo se o conhecer primeiro.
Outros peixes ha a que chamam Camboropins que sam quasi tamanhos como atuns. Estes têm humas escamas mui duras e maiores que os outros peixes; tambem se matam com arpões, e quando querem pesca-los poem-se em alguma ponta ou pedra ou em outro qualquer posto accomodado a esta pescaria. E o que he bom pescador, pera que nam faça tiro em vão, quando os vêem vir deixa-os primeiro passar e espera até que fiquem a geito que possa arpoa-los por detraz, de maneira que o arpam entre no peixe sem as escamas o impedirem, porque sam, como digo, tam duras que se acerta a dar nellas de maravilha as pode penetrar. Este he hum dos melhores peixes que ha nestas partes, porque alem de ser muito gostoso, he tambem muito sadio, e mais enxuto de sua propriedade que outro algum que na terra se coma. Tambem ha outra casta delles, a que chamam Tamoatás, que sam pouco mais ou menos do tamanho de sardinhas, e nam se criam senam em agua doce. Estes peixes sam todos cobertos de humas conchas distinctas naturalmente como laminas, com as quaes andam armados da maneira dos Tatús, de que atraz fiz mençam, e sam muito sabrosos, e os moradores da terra os têm em muita estima.
Ha tambem hum certo genero de peixes pequeninos da feição de xarrocos, a que chamam Mayacús: os quaes sam mui peçonhentos por extremo, especialmente a pelle o he tanto, que se huma pessoa gostar hum só bocado della, logo naquella mesma hora dará fim a sua vida, porque nam ha nem se sabe nenhum remedio na terra que possa apagar nem deter por algum espaço o impeto deste mortifero veneno. Alguns Indios da terra se aventuraram a come-los depois que lhe tiram a pelle e lhe lançam fora por baixo toda aquella parte onde dizem que tem a força da peçonha. Mas sem embargo disso, nam deixam de morrer algumas vezes. Estes peixes tanto que saem fora da agua incham de maneira, que parecem uma bexiga cheia de vento; e alem de terem esta qualidade sam tam mansos que os podem tomar ás mãos sem nenhum trabalho; e muitas vezes andam á borda da agua tam quietos, que nam os verá pessoa que se nam convide a toma-los, e ainda a come-los se nam tiver conhecimento delles.
Outros peixes nam sinto nestas partes de que possa fazer aqui particular mençam: em todos os demais, nam ha como digo, muita differença dos de cá, e a maior parte delles sam da mesma casta, mas muito mais sabrosos, e tam sadíos que nam se vedam nem fazem mal aos doentes, e pera quaesquer enfermidades sam muito leves, e de toda maneira que os comam nam offendem á saude.
Não me pareceu tambem cousa fóra do proposito tratar aqui alguma cousa das balêas e do ambar, que dizem que procede dellas. E o que ácerca disto sei, que há muitas nestas partes, as quaes costumam vir d'arribação a esta costa, em huns tempos mais que outros, que sam aquelles em que asinaladamente sae o ambar que o mar de si lança fóra em diversas partes desta Provincia, e daqui vem a muitos terem pera si que nam he outra cousa este ambar, senam esterco de balêas e assi lho chamam os Indios da terra pela sua lingoa, sem lhe saberem outro nome. Outros querem dizer que he sem nenhuma falta a esperma da mesma balêa. Mas o que se tem por certo (deixando estas e outras erradas opiniões áparte) he que nasce este licor no fundo do mar, nam geralmente em todo, mas em algumas partes delle, que a natureza acha dispostas pera o criar. E como o tal licor seja manjar das balêas, affirma-se que comem tanto delle até se embebedarem, e que estes que sae nas praias he o sobejo que ellas arrebessam.
E se isto assi nam fora desta maneira e elle procedera das mesmas balêas por qualquer das outras vias que acima fica dito, crer he, que tambem houvera da mesma maneira em qualquer outra costa destes Reinos, pois em toda parte do mar sam geraes. Quanto mais que nesta Provincia de que trato se fez já experiencia em muitas dellas que sahiram á costa e dentro das tripas de algumas acharam muito ambar cuja virtude iam já digerindo, por haver algum espaço que o tinham comido. E noutras lhe acharam no bucho outro ainda fresco, e em sua perfeição, que parecem que o acabaram de comer naquella hora antes que morressem. Pois o esterco naquella parte onde a natureza o despede nam tem nenhuma semelhança de ambar, nem se enxerga nelle ser menos digésto que o dos outros animaes. Por onde se mostra claro, que a primeira opinião nam fica verdadeira, nem a segunda tam pouco o pode ser: porque a esperma destas balêas, he aquillo a que chamam balso, de que ha por esse mar grande quantidade, o qual dizem que aproveita pera feridas e por tal he conhecido de toda pessoa que navega. Este ambar todo quando logo sae vem solto como sabam, e quasi sem nenhum cheiro, mas dahi a poucos dias se endurece, e depois disso fica tam odorifero como todos sabemos.
Ha todavia ambar de duas castas, s. hum pardo, a que chamam gris, outro preto: o pardo he mui fino e estimado em grande preço em todas as partes do mundo: o preto he mais baixo nos quilates do cheiro, e presta pera muito pouco segundo o que delle se tem alcançado: mas de hum e doutro ha sahido muito nesta Provincia e sae hoje em dia. de que alguns enriqueceram e enriquecem cada hora, como he notorio.
Finalmente que como Deos tenha de muito longe esta terra dedicada á Christandade e o interesse seja o que mais leva os homens tras si que outra nenhuma cousa que haja na vida, parece manifesto querer interte-los na terra com esta riqueza do mar até chegarem a descobrir aquellas grandes minas que a mesma terra promete, pera que assi desta maneira tragam ainda toda aquella céga e bárbara gente que habita nestas partes, ao lume e conhecimento da nossa Santa Fé Catholica, que será descobrir-lhe outras maiores no céo, o qual nosso Senhor permita que assi seja pera gloria sua e salvação de tantas almas.


CAPÍTULO IX
DO MONSTRO MARINHO QUE SE MATOU NA CAPITANIA DE SAM VICENTE, ANNO 1564

Foi causa tam nova e tam desusada aos olhos humanos a semelhança daquele fero e espantoso monstro marinho que nesta Provincia se matou no anno de 1564, que ainda que per muitas partes do mundo se tenha noticia delle, nam deixarei todavia de a dar aqui outra vez de novo, relatando por extenso tudo o que ácerca disto passou; porque na verdade a maior parte dos retratos ou quasi todos em que querem mostrar a semelhança de seu horrendo aspecto, andam errados, e alem disso, conta-se o sucesso de sua morte por differentes maneiras, sendo a verdade huma só a qual he a seguinte:
Na Capitania de Sam Vicente sendo já alta noite a horas em que todos começavam de se entregar ao sono, acertou de sair fóra de casa huma India escrava do capitão; a qual lançando os olhos a huma varzea que está pegada com o mar, e com a povoaçam da mesma Capitania, vio andar nella este monstro, movendo-se de huma parte para outra com passos e meneos desusados, e dando alguns urros de quando em quando tam feios, que como pasmada e quasi fora de si se veio ao filho do mesmo capitão, cujo nome era Baltezar Ferreira, e lhe deu conta do que vira parecendo-lhe que era alguma visão diabolica; mas como elle fosse nam menos sizudo que esforçado, e esta gente da terra seja digna de pouco credito nam lho deu logo muito às suas paiavras, e deixando-se estar na cama, a tornou outra vez a mandar fora dizendo-lhe que se afirmasse bem no que era. E obedecendo a India a seu mandado, foi; e tornou mais espantada; afirmando-lhe e repetindo-lhe huma vez e outra que andava ali huma cousa tam feia, que nam podia ser se nam o demonio.
Então se levantou elle muito depressa e lançou mão a huma espada que tinha junto de si com a qual botou somente em camisa pela porta fora, tendo pera si (quando muito) que seria algum tigre ou outro animal da terra conhecido com a vista do qual se desenganasse do que a India lhe queria persuadir, e pondo os olhos naquella parte que ella lhe assignalou vio confusamente o vulto do monstro ao longo da praia, sem poder divisar o que era, por causa da noite lho impedir, e o monstro tambem ser cousa não vista e fora do parecer de todos os outros animaes. E chegando-se hum pouco mais a elle, pera que melhor se podesse ajudar da vista, foi sentido do mesmo monstro: o qual em levantando a cabeça, tanto que o vio começou de caminhar para o mar donde viera.
Nisto conheceu o mancebo que era aquilo cousa do mar e antes que nelle se metesse, acodio com muita presteza a tomar-lhe a dianteira, e vendo o monstro que elle lhe embargava o caminho, levantou-se direito pera cima como hum homem ficando sobre as barbatanas do rabo, e estando assi a par com elle, deu-lhe uma estocada pela barriga, e dando-lha no mesmo instante se desviou pera huma parte com tanta velocidade, que nam pôde o monstro leva-lo debaixo de si: porem nam pouco afrontado, porque o grande torno de sanque que sahio da ferida lhe deu no rosto com tanta força que quasi ficou sem nenhuma vista: e tanto que o monstro se lançou em terra deixa o caminho que levava e assi ferido hurrando com a boca aberta sem nenhum medo, remeteu a elle, e indo pera o tragar a unhas, e a dentes, deu-lhe na cabeça huma cotilada mui grande, com a qual ficou já mui debil, e deixando sua vã porfia tornou entam a caminhar outra vez para o mar. Neste tempo acudiram alguns escravos aos gritos da India que estava em vella: e chegando a elle, o tomaram todos já quasi morto e dali o levaram á povoaçam onde esteve o dia seguinte á vista de toda a gente da terra.
E com este mancebo se haver mostrado neste caso tam animoso como se mostrou, e ser tido na terra por muito esforçado sahio todavia desta batalha tam sem alento e com a vizam deste medonho animal ficou tam perturbado e suspenso, que perguntando-lhe o pai, que era o que lhe havia succedido nam lhe pôde responder, e assi como assombrado sem fallar cousa alguma per hum grande espaço. O retrato deste monstro, he este que no fim do presente capitulo se mostra, tirado pelo natural. Era quinze palmos de comprido e semeado de cabellos pelo corpo, e no focinho tinha humas sedas mui grandes como bigodes.
Os indios da terra lhe chamam em sua lingoa Hipupiàra que quer dizer demonio d'agua. Alguns como este se viram já nestas partes, mas acham-se raramente. E assi tambem deve de haver outros muitos monstros de diversos pareceres, que no abismo desse largo e espantoso mar se escondem, de nam menos estranheza e admiraçam; e tudo se pode crer, por dificil que pareça: porque os segredos da natureza nam foram revelados todos ao homem, pera que com razam possa negar, e ter por impossivel as cousas que nam vio nem de que nunca teve noticia.

Apresentação e Capítulo I
Capítulo II à Capítulo V
Capítulo VI à Capítulo IX
Capítulo X à Capítulo XIV