Helena
Machado de Assis
Capítulo IX
Naquela mesma noite, D. Úrsula, que não havia de todo
melhorado, adoeceu deveras. A família, mal convalescida
da perda do velho chefe, via-se agora ameaçada de uma
nova dor, em todo o caso, exposta a novos receios. Dr.
Camargo declarou que o caso era grave, e deu princípio a
rigoroso tratamento.
Helena era naquela ocasião a natural enfermeira. Pela
primeira vez patenteou-se em todo o esplendor a dedicação
filial da moça. Horas do dia, e não poucas noites
inteiras, passava-as na alcova de D. Úrsula, atenta a
todos os cuidados que a gravidade da enferma exigia. Os
remédios e o pouco alimento que esta podia receber, não
lhe eram dados por outras mãos. Helena velava à
cabeceira, durante o sono leve e interrompido da doente,
achando em suas próprias forças a resistência que a
natureza confiou especialmente às mães. Quando dava algum
repouso ao corpo, não era ele ininterrupto nem longo; e
mais de uma vez, alta noite, erguia-se do leito, colocado
provisoriamente no quarto contíguo, para ir espreitar a
mucama que, em seu lugar, acompanhava a enferma. As
prescrições do médico era ela que as recebia e cumpria.
A
voz seca e dura com que Camargo lhe falava, não era
própria a torná-lo amável e aceito; mas Helena cerrava
os
ouvidos à antipatia do homem para só obedecer ao médico.
Este não tinha outra pessoa a quem interrogasse acerca
dos fenômenos da doença, nem podia achar quem melhor os
observasse e referisse; força lhe era aceitá-la. Assim,
essas duas pessoas que se repeliam e detestavam, iam de
acordo, desde que se tratava da vida de um terceiro.
O que completava a pessoa de Helena, e ainda mais lhe
mereceu o respeito de todos, é que, no meio das ocupações
e preocupações daqueles dias, não fez padecer um só
instante a disciplina da casa. Ela regeu a família e
serviu a doente, com igual desvelo e benefício. A ordem
das coisas não foi alterada nem esquecida fora da alcova
de D. Úrsula; tudo caminhou do mesmo modo que antes, como
se nada extraordinário se houvesse dado, Helena sabia
dividir a atenção sem a dispersar.
De si é que ela não curou muito. O vestido era singelo.
Os cabelos, colhidos à pressa e presos por um pente no
alto da cabeça, não receberam, em todo aquele tempo, a
forma elegante e graciosa com que ela os sabia realçar.
Acrescia o abatimento, que era impossível evitar no meio
de tanta fadiga, certo cansaço dos olhos, que os fazia
moles e talvez mais adoráveis, um rosto sem riso nem
viveza, um silêncio atento e laborioso.
A doença durou cerca de vinte dias. Afinal, venceu a
própria natureza de D. Úrsula, robusta apesar dos anos. A
convalescença começou; com ela volveu a satisfação
da
família. O papel de Helena não estava acabado; diminuía,
contudo, e Estácio interveio para que a irmã tivesse,
enfim, alguns dias de absoluto repouso. Ela recusou,
dizendo que o repouso perdido aos poucos seria aos poucos
recuperado.
Havia no coração de D. Úrsula uma fonte de ternura,
que
Helena devia tocar, para jorrar livre e impetuosamente. A
dedicação, em tal crise, foi a vara misteriosa daquela
Horeb. A afeição da tia era até então frouxa,
voluntária
e deliberada. Depois da moléstia, avultou espontânea. A
experiência do caráter da moça dera esse resultado
inevitável. Toda a prevenção cessou; a gratidão
da vida
ligou fortemente o que tantas circunstâncias anteriores
pareciam separar. Não o ocultou a irmã do conselheiro; já
não tinha acanhamento nem reserva, as palavras subiam do
coração à boca sem atenuação nem cálculo;
fez-se
carinhosa e mãe.
No dia em que ela pôde sair do quarto pela primeira vez,
Helena deu-lhe o braço e levou-a até à sala de costura
e
das reuniões íntimas. Estácio amparou-a do outro lado.
Ali chegando, foi ela sentada numa poltrona. Estácio
abriu um pouco a janela, para penetrar, além da luz, um
pouco de ar. D. Úrsula respirou à larga, como lavando o
pulmão com aquela primeira onda de vida. Depois,
segurando as mãos de Helena, que ficara de pé a seu lado,
fê-la inclinar a fronte, e imprimiu-lhe um beijo longo e
verdadeiramente maternal. Estácio aproximara-se; aquela
manifestação encheu-o de júbilo.
- Bem merecido beijo! exclamou ele. Helena foi um anjo em
todo este tempo.
- Bem sei, retorquiu D. Úrsula; foi um verdadeiro anjo,
foi mulher, mãe e filha. Obrigada, Helena! Pode ser que a
medicina tenha ajudado a cura, mas o principal mérito é
só teu.
Helena abraçou a convalescente.
- Estácio, disse esta, agradece à tua irmã, como eu
fiz.
Estácio inclinou-se para Helena, a fim de lhe pousar na
fronte o casto ósculo de irmão. Não o conseguiu, porque
Helena, desviando o busto, estendeu-lhe sorrindo a mão
esquerda e disse:
- Não foi serviço que merecesse tanta paga; basta um
aperto de mão e o afeto de todos.
Estácio apertou-lhe a mão, e sentiu-lha trêmula. Aquele
movimento de castidade não lhe pareceu exagerado nem
descabido; achou-a assim mais bela. Uma criatura tão
ciosa de si mesma, que nem admitia a carícia do irmão,
não era digna de honrar o nome da família?
A convalescença de D. Úrsula foi lenta, e não a houve
mais rodeada de cuidados e atenções. Os dois sobrinhos
não a deixaram um instante sozinha, e inventavam toda a
sorte de recreio com que pudessem distraí-la: jogos de
família ou leitura, música ou simples palestra íntima.
Uma vez, lembraram-se de representar, só para ela, uma
comédia de duas pessoas. Outra vez, Helena organizou um
sarau musical, em que tomaram parte Eugênia Camargo e
mais três moças da vizinhança. Foi a primeira vez que
a
ouviram cantar. O sucesso não podia ser mais completo.
Como o aplauso que lhe deram pareceu desconsolar um pouco
a filha do médico, Helena preparou-lhe habilmente um
triunfo, fazendo-a executar ao piano uma composição
brilhante, sua favorita. Estácio, que quase não tirava os
olhos da irmã, percebeu-lhe a intenção, e disse-lho.
Helena esquivou-se à alusão; mas, insistindo ele:
- Não há nada que admirar, disse ela; Eugênia toca
perfeitamente; era justo que também fosse aplaudida. Se
há arte no que fiz, parece-me que é a mais singela do
mundo. O melhor modo de viver em paz é nutrir o amor-
próprio dos outros com pedaços do nosso. Mas, olhe;
Eugênia nem precisa disso; tem a primazia da beleza. Veja
se há criatura mais deliciosa.
Estácio dirigiu os olhos para onde Helena lhe indicava.
Era um grupo de duas moças e dois rapazes. Eugênia, pelo
braço de um deles, estava de pé, ouvindo sem atender as
palavras que ali diziam, porque os olhos inquietos
derramavam-se-lhe por toda ela e pela sala. Admirava-se e
espreitava a admiração dos outros. A figura era realmente
graciosa; mas Estácio quisera-a mais inconsciente, menos
preocupada do efeito que produzia.
- Há cem belezas como aquela, disse ele.
- Estácio! exclamou Helena com ar de repreensão.
- A beleza é como a bravura; vale mais se não a metem à
cara dos outros.
- Você é um ingrato.
Naquela noite ficou mais patente que nunca a
preponderância ganha por Helena, que se tornara a
verdadeira dona da casa, a diretora ouvida e obedecida.
D. Úrsula cedera, em poucas semanas, o que lhe negara
durante meses.
Por que razão, pensando em todas as coisas, não
conseguira ela apressar o casamento de Estácio? Estácio
continuava a hesitar, a recuar, a adiar; pedia tempo para
refletir. Ia agora menos ao Rio Comprido; os dias, quase
todos, eram desfiados no remanso da família. Mas Helena
insistiu tanto que ele prometeu fazer o solene pedido no
primeiro dia do ano.
Estácio não havia esquecido a carta lida pela irmã;
entretanto, por mais que a espreitasse e estudasse, nada
descobria que lhe fizesse supor afeição encoberta. Nenhum
dos homens que iam ali, - e eram poucos, - parecia
receber de Helena mais do que a cortesia comum.
D.Úrsula, a quem ele incumbira de interrogar a irmã acerca
das palavras que esta lhe dissera na manhã do primeiro
passeio, não obteve resposta mais decisiva.
A promessa de ir pedir Eugênia, fê-la Estácio na segunda
semana de dezembro, em uma noite sem visitas, que eram as
melhores noites para ele. No dia seguinte de manhã,
erguendo-se tarde, soube que Helena saíra a cavalo.
- Sozinha?
- Com o Vicente.
Vicente era o escravo que, como sabemos, se afeiçoara,
primeiro que todos, a Helena; Estácio designara-o para
servi-la. A notícia do passeio não lhe agradou. O tempo
andava com o passo do costume, mas à ansiedade do mancebo
afigurava-se mais longo. Estácio chegava à janela, ia até
ao portão da chácara, com ar de aparente indiferença,
que
a todos iludia, a começar por ele próprio. Numa das vezes
em que voltou a casa, achou levantada D. Úrsula; falou-
lhe; D. Úrsula sorriu com tranqüilidade.
- Que tem isso? disse ela. Já uma vez saiu a passeio com
o Vicente e não aconteceu nada.
- Mas não é bonito, insistiu Estácio. Não está
livre de
um ato de desatenção.
- Qual! Toda a vizinhança a conhece. Demais, Vicente já
não é tão criança. Tranqüiliza-te, que
ela não tarda. Que
horas são?
- Oito.
- Dez ou quinze minutos mais. Parece-me que já ouço um
tropel!...
Os dois estavam na sala de jantar; passaram à varanda, e
viram efetivamente entrar no terreiro Helena e o pajem.
Helena deu um salto e entregou a rédea de Moema ao pajem
que acabava de apear-se. Depois subiu a escada da
varanda. Ao colocar o pé no primeiro degrau, deu com os
olhos no irmão e na tia. Fez-lhes um cumprimento com a
mão, e subiu a ter com eles.
- Já de pé! exclamou abraçando D. Úrsula.
- Já, para lhe ralhar, disse esta sorrindo. Que idéia foi
essa de bater a linda plumagem? É a segunda vez que você
se lembra de sair sem o urso do seu irmão.
- Não quis incomodar o urso, replicou ela voltando-se
para Estácio. Tinha imensa vontade de dar um passeio, e
Moema também. Apenas hora e meia.
Aquele dia foi o de maior tristeza para a moça. Estácio
passou quase todo o tempo no gabinete; nas poucas
ocasiões em que se encontraram, ele só falou por
monossílabos, às vezes por gestos. De tarde, acabado o
jantar, Estácio desceu à chácara. Já não
era só o passeio
de Helena que o mortificava; ao passeio juntava-se a
carta. Teria razão a tia em suas primeiras repugnâncias?
Como ele fizesse essa pergunta a si mesmo, ouviu atrás de
si um passo apressado e o farfalhar de um vestido.
- Está mal comigo? perguntou Helena com doçura.
Ao ouvir-lhe a voz, fundiu-se a cólera do mancebo.
Voltou-se; Helena estava diante dele, com os olhos
submissos e puros. Estácio refletiu um instante.
- Mal? disse ele.
- Parece que sim. Não me fala, não se importa comigo,
anda carrancudo... Seria por eu sair de manhã?
- Confesso que não gostei muito.
- Pois não sairei mais.
- Não; pode sair. Mas está certa de que não corre nenhum
perigo indo só com o pajem?
- Estou.
- E se eu lhe pedir que não saia nunca sem mim?
- Não sei se poderei obedecer. Nem sempre você poderá
acompanhar-me; além disso, indo com o pajem, é como se
fosse só; e meu espírito gosta, às vezes, de trotar
livremente na solidão.
- Naturalmente a pensar de coisas amorosas... acrescentou
Estácio cravando os olhos interrogadores na irmã.
Helena não respondeu; tomou-lhe o braço e os dois
seguiram silenciosamente uns dez minutos. Chegando a um
banco de madeira, Estácio sentou-se; Helena ficou de pé
diante dele. Olharam um para o outro sem proferir
palavra; mas o lábio de Estácio tremera duas ou três
vezes como hesitando no que ia dizer. Por fim, o moço
venceu-se.
- Helena, disse ele, você ama.
A moça estremeceu e corou vivamente; olhou em volta de
si, como assustada, e pousou as mãos nos ombros de
Estácio. Refletiu ela no que disse depois? É duvidoso;
mas a voz, que nessa ocasião parecia concentrar todas as
melodias da palavra humana, suspirou lentamente:
- Muito! muito! muito!
Estácio empalideceu. A moça recuou um passo, e, trêmula,
pôs o dedo na boca, como a impor-lhe silêncio. A vergonha
flamejava no rosto; Helena voltou as costas ao irmão e
afastou-se rapidamente. Ao mesmo tempo, a sineta do
portão era agitada com força, e uma voz atroava a
chácara:
- Licença para o amigo que vem do outro mundo!
Capítulo X
Estácio dirigiu-se ao portão. Abriu-o; um moço que
ali
estava entrou precipitadamente. Era Mendonça. Os dois
mancebos lançaram-se nos braços um do outro. Helena, a
alguma distância, presenciou aquela efusão, e não lhe
foi
difícil adivinhar quem era o recém-chegado.
A efusão cessou, ou antes interrompeu-se, para repetir-
se. Quando os dois rapazes se julgaram assaz abraçados,
tomaram o caminho da casa. Helena, que estava um pouco
adiante deles, foi apresentada a Mendonça. Ao ouvir que
era irmã de Estácio, Mendonça ficou espantado. Cortejou
cerimoniosamente a moça, e os dois seguiram até a casa,
onde pouco depois entrou Helena.
Mendonça era da mesma estatura que Estácio, um pouco mais
cheio, ombros largos, fisionomia risonha e franca,
natureza móbil e expansiva. Vestia com o maior apuro,
como verdadeiro parisiense que era, arrancado de fresco
ao grand boulevard, ao café Tortoni e às récitas do
Vaudeville. A mão larga e forte calçava fina luva cor de
palha, e sobre o cabelo, penteado a capricho, pousava um
chapéu de fábrica recente.
Estácio, antes de entrar, explicou ao amigo a situação
de
Helena, cujas qualidades e educação louvou, com o fim de
lhe fazer compreender o respeito e a afeição que ela de
todos merecia. Helena adivinhou esse trabalho
preparatório do irmão, logo que entrou na sala.
Mendonça divertiu a família uma parte da noite, contando
os melhores episódios da viagem. Era narrador agradável,
fluente e pinturesco, dotado de grande memória e certa
força de observação. Espírito galhofeiro, achava
facilmente o lado cômico das coisas e mais se comprazia
em dizer os incidentes de um jantar de hotel ou de uma
noite de teatro que em descrever as belezas da Suíça ou
os destroços de Roma.
A visita durou pouco mais de hora. Estácio quis
acompanhá-lo até à cidade; ele não consentiu
que fosse
além do portão. Atravessando a chácara, falaram do
passado, e um pouco do futuro, a trechos soltos, como o
lugar e a ocasião lhes permitiam. Mendonça, vendo que
Estácio não tocava em um ponto essencial, foi o primeiro
que o aventou.
- Falaste-me em uma de tuas cartas de certa Eugênia...
- A filha do Camargo.
- Justo. Negócio roto?
- Quase terminado.
- Terminado... na igreja, suponho?
- Tal qual.
- Quando?
- Brevemente.
- Marido, enfim! Era só o que te faltava. Nasceste com a
bossa conjugal, como eu com a bossa viajante, e não sei
qual de nós terá razão.
- Talvez ambos.
- Creio que sim. Tudo depende do gosto de cada um. O
casamento é a pior ou a melhor coisa do mundo; pura
questão de temperamento. Eu vi algumas vezes essa moça;
era então muito menina. Não te pergunto se é um anjo...
- É um anjo.
- Como todas as noivas. Feliz Estácio! Segues a carreira
de tua vocação, enquanto que eu...
- Tu?
- Interrompo a minha, e talvez para sempre. Preciso
cuidar da vida; não sou capitalista, nem meu pai
tampouco. Adeus, viagens!
- Tanto melhor! Arranjo-te noiva. Não é a tua vocação,
mas não serás o primeiro que a erre, sem que daí venha
mal ao mundo.
- Pois arranja lá isso... Em todo caso não será tua
irmã.
- Oh! não, disse vivamente Estácio.
- Na verdade, é bonita; mas... se permites a franqueza de
outrora, acho-lhe uma costela de desdém...
- Que idéia! É a mais afável criatura do mundo. Verás
mais tarde; hoje estava, talvez, preocupada. Em todo o
caso, não havias de querer que ela saltasse a dançar
contigo na sala, de mais a mais sem música.
Mendonça acabava de acender um charuto; apertou a mão de
Estácio e saiu. Estácio acordou de um sonho. A realidade
pôs-lhe as mãos de chumbo e repetiu-lhe ao ouvido a
confissão interrompida de Helena. Ansioso por saber o
resto, entrou ele imediatamente em casa. A diligência foi
estéril, porque a irmã se recolhera ao quarto. Estácio
imitou-a. Era forçoso esperar uma noite inteira, demora
que o afligia, porque, dizia ele consigo mesmo, cumpria-
lhe velar pela sorte de Helena, como irmão e chefe de
família, indagar de seus sentimentos, e ordenar o que
fosse melhor. Uma noite não era muito; contudo, a
preocupação retardou-lhe o sono. A confissão súbita,
lacônica e eloqüente da irmã ficara-lhe no espírito,
como
se fora o eco perpétuo de uma voz extinta.
Nem no dia seguinte, nem nos subseqüentes alcançou o que
esperava. Helena, ou evitava ficar a sós com ele, ou
esquivava-se a maior explicação. Nos passeios matinais,
que eram freqüentes, procurou Estácio, mais de uma vez,
tratar do assunto que o preocupava. Helena ouvia com um
sorriso, e respondia com um gracejo; depois, dava de
rédea à conversação e galopava na direção
oposta. Como a
fantasia era campo vasto, nunca mais o moço lograva
trazê-la ao ponto de partida.
Um dia, a insistência de Estácio teve tal caráter de
autoridade, que pareceu constranger e molestar Helena.
Ela replicou com um remoque; ele redargüiu com uma
advertência áspera. Iam ambos a pé, levando os animais
pela rédea. Ouvindo a palavra do irmão, Helena susteve o
passo, e fitou-o com um olhar digno, um desses olhares
que parecem vir das estrelas, qualquer que seja a
estatura da pessoa. Estácio possuía estas duas coisas, a
retratação do erro e a generosidade do perdão. Viu
que
cedera a um mau impulso, e confessou-o; mas confessou-o
com palavras tais que Helena travou-lhe da mão e lhe
disse:
- Obrigada! Se me não dissesse isso, ver-me-ia disparar
por este caminho fora até ao fim do mundo ou até ao fim
da vida.
- Helena!
- Oh! não é vão melindre, é a própria
necessidade da
minha posição. Você pode encará-la com olhos
benignos;
mas a verdade é que só as asas do favor me protegem...
Pois bem, seja sempre generoso, como foi agora; não
procure violar o sacrário de minha alma. Não insista em
pedir a explicação de palavras mal pensadas e ditas em má
hora...
- Mal pensadas? Pode ser; mas por isso é que são
verdadeiras; se você tivesse tempo de as meditar, guardá-
las-ia consigo, avara de seus segredos e suspeitosa de
corações amigos. Meu fim era somente ajudá-la a ser
venturosa, destruir...
- É tarde! interrompeu a moça, consultando o reloginho
preso à cintura. Vamos?
Estácio sorriu melancolicamente; ofereceu-lhe o joelho,
ela pousou nele o pezinho afilado e leve e saltou no
selim. A volta foi menos alegre do que costumava ser.
Eles falavam, mas a palavra vinha aos lábios, como uma
onda vagarosa e surda; nenhuma cólera, mas nenhuma
animação. Assim correu aquele dia; assim correriam
outros, se não fora a vara mágica de Helena. O natural
influxo era tão forte que o irmão voltou desde logo às
boas, sendo as melhores horas as que passava ao pé dela,
a escutá-la e a vê-la, ambos contentes e felizes. O
episódio da confissão vinha às vezes, como hóspede
importuno, projetar entre eles o nebuloso perfil; mas o
espírito de Estácio repelia-o, e a alegria da irmã
fazia
o resto.
Entretanto, graças ao amigo recém-chegado, o filho do
conselheiro saiu um pouco de suas regras habituais, e
começou a provar alguma coisa mais da vida exterior.
Mendonça buscava realizar, em miniatura, o seu esvaído
ideal parisiense; havia nele o movimento, a agitação, a
galhofa, que absolutamente faltavam a Estácio, e vieram
dar-lhe à vida a variedade que ela não tinha. Alguns
espetáculos e passeios, uma ou outra ceia alegre, tal foi
o programa de uma parte ínfima da existência de Estácio.
Para contrastar com ela, tinha ele as manhãs do Andaraí e
algumas noites do Rio Comprido. Ao amigo e à sua
consciência, dizia o moço que estava a despedir-se da
liberdade.
A influência de Mendonça estendeu-se à própria
casa de
Estácio. Mendonça gostava sobretudo da variedade no
viver; não tolerava os mesmos prazeres nem os mesmos
charutos; para os apreciar tinha necessidade de os
alternar freqüentemente. Se fosse possível, era capaz de
fazer-se monge durante um mês, antes do carnaval, trocar
o hábito por um dominó, e atar as últimas notas das
matinas com os prelúdios da contradança. A fidelidade à
moda custava-lhe um pouco, quando esta não ia a passo com
a impaciência. Em sua opinião, o que distinguia o homem
do cão era a faculdade de fazer que uma noite se não
parecesse com outra. O Rio de Janeiro não lhe oferecia a
mesma variedade de recursos que Paris; tendo o gênio
inventivo e fértil, não lhe faltaria meio de fugir à
uniformidade dos hábitos.
O pior que lhe acontecia era a disparidade entre os
desejos e os meios. Filho de um comerciante, apenas
remediado, não teria ele podido realizar a viagem à
Europa, nas proporções largas em que o fez, a não ser
a
intervenção benéfica de uma parenta velha, que se
incumbira de lhe ministrar os recursos de que ele
carecesse durante aquela longa ausência. Nem a parenta
continuaria a abrir-lhe a bolsa, nem o pai queria criar-
lhe hábitos de ociosidade. Tratava este, portanto, de
obter-lhe um emprego público. Mendonça estava longe de
recusar; pedia somente que o emprego o não deslocasse da
Corte.
Inquieto, amigo da vida ruidosa e fácil, inteligente sem
largos horizontes, possuindo apenas a instrução precisa
para desempenhar-se regularmente de qualquer comissão de
certa ordem, Mendonça, com todos os seus defeitos e boas
qualidades, era homem agradável e aceito. Os defeitos
eram antes do espírito que do coração. A variedade
que
ele pedia para as coisas externas e de menor tomo, não a
praticava em suas afeições, que eram geralmente
inalteráveis e fiéis. Era capaz de sacrifício e
dedicação; sobretudo se lhe não pedissem o sacrifício
deliberado ou a dedicação refletida, mas aquele que exige
uma circunstância imprevista e súbita.
Não admira que a presença de tal homem viesse modificar o
tom da sociedade de que era centro a família de Estácio,
quando ele ali fazia alguma aparição. Era o sol daquela
terra. Não tinha a rijeza do figurino, nem o ar do
estrangeirado. A tesoura do alfaiate não lhe dissimulara
a índole expansiva e franca. Acolhido como um filho,
achava ali uma porção de casa. Que melhor aspecto podia
ter a vida em tais condições, naquela família ligada
por
um sentimento de amor?
A noite do último dia do ano veio turvar a limpidez das
águas.
Capítulo XI
Naquele dia fazia anos Estácio, e D. Úrsula assentara
receber algumas pessoas a jantar, e outras mais à noite,
em reunião íntima. Ela e Helena tomavam a peito fazer que
a pequena festa de família fosse digna do objeto. Estácio
opinou pela supressão do sarau; mas era difícil alcançar
a desistência de corações que o amavam.
Logo de manhã, como ele se levantasse cedo, encontrou
Helena que o convidou a segui-la à sala de costura.
- Quero dar-lhe o meu presente de anos, disse ela.
Ali entrados, abriu a moça uma pasta de desenhos, na qual
havia um só, mas significativo: era uma parte da estrada
de Andaraí, a mesma por onde eles costumavam passear, mas
com algumas particularidades do primeiro dia. Dois
cavaleiros, ele e ela, iam subindo a passo lento; ao
longe, e acima via-se a velha casa da bandeira azul; no
primeiro plano desciam o preto e as mulas. Por baixo do
desenho uma data: 25 de julho de 1850.
Estácio não pôde conter um gesto de admiração,
quando a
moça retirou de cima do desenho a folha de papel de seda
que o cobria. Apertou a mão de Helena e examinou o
trabalho. Notou a firmeza das linhas, a exação das
circunstâncias locais, as impressões de uma hora fugitiva
que o lápis da irmã tivera a arte de fixar no papel.
- Não podia fazer-me presente melhor, disse ele; dá-me
uma parte de si mesma, um fruto de seu espírito. E que
fruto! Não há muita moça que desenhe assim. Era talvez
por isso que você saía algumas vezes sozinha com o pajem?
Estácio contemplou ainda instantes o desenho; depois
levou-o aos lábios. O beijo acertou de cair na cabeça da
cavaleira. Foi o original que corou.
- Andavam a gabar os meus talentos, disse Helena após um
instante; tive a vaidade de dar uma pequena amostra...
- Excelente amostra! Não acha, titia? disse o moço a D.
Úrsula, que nesse instante aparecera à porta, trazendo o
seu presente, numa bocetinha de joalheiro.
D. Úrsula não tinha, decerto, o instinto da arte; mas o
amor da família lhe ensinara uma estética do coração,
e
essa bastou a fazê-la admirar o trabalho de Helena.
- Mas que digo eu todos os dias? exclamou D Úrsula. Esta
pequena sabe tudo!
- Quase tudo, emendou Helena; ignoro, por exemplo, como
lhes hei de agradecer...
- O quê, tontinha? interrompeu a tia. Algum disparate,
naturalmente, impróprio em qualquer dia, mas muito mais
ainda no dia de hoje.
Enquanto as duas senhoras foram tratar das disposições do
dia, Estácio mandou selar o cavalo e saiu. Queria
comparar ainda uma vez o desenho de Helena com o sítio
copiado. A fidelidade era completa, e o quadro seria
absolutamente o mesmo, se se dessem algumas
circunstâncias da primeira ocasião. Helena não ia ao
lado
dele; mas a vinte braças de distância flutuava a bandeira
azul da casa do alpendre. Estácio afrouxou o passo do
cavalo, como saboreando as recordações da primeira manhã,
quando Helena se lhe mostrara tão singularmente comovida.
Volveu a refletir na situação dela, e na paixão que
lhe
confessara, dias antes, com tamanha veemência. Se se
tratava de uma felicidade possível, embora difícil,
Estácio prometeu a si mesmo alcançar-lha. Não era isso
servir o sangue do seu sangue?
A casa do alpendre, até ali indiferente a Estácio, criava
agora para ele um interesse especial. À medida que se
aproximava, ia achando no edifício a fiel reprodução
do
desenho. Este não apresentava todas as particularidades
da vetustez; mas continha as mesmas disposições
exteriores, como se fora feito diante do original.
A uma das janelas estava um homem, com a cabeça
inclinada, atento a ler o livro que tinha sobre o
peitoril. Nessa atitude não era fácil examiná-lo;
afigurava-se, entretanto, uma criatura máscula e bela. A
duas braças de distância, o indivíduo levantou a cabeça,
e cravou em Estácio um par de olhos grandes e serenos;
imediatamente os retirou, baixando-os ao livro.
- Mal sabes tu, filósofo matinal, disse Estácio consigo,
mal sabes tu que a tua casa teve a honra de ser
reproduzida pela mais bela mão do mundo!
O filósofo continuou a ler, e o cavalo continuou a andar.
Quando Estácio regressou daí a alguns minutos, achou
somente a casa; o morador desaparecera; circunstância
indiferente, que escapou de todo à atenção do moço.
Nem
ele pensava mais naquilo; o espírito trotava largo, à
inglesa, como o ginete, e ambos bebiam o ar, como
ansiosos de chegar ao ponto da partida.
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