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Helena
Machado de Assis




Capítulo VII

Apearam-se os dois no terreiro e dirigiram-se para a
escada que ia ter à varanda. Pisando o primeiro degrau,
disse Estácio:
- Helena, explique-me suas palavras de há pouco.
- Quais?
E como Estácio levantasse os ombros, com ar de despeito,
continuou Helena:
- Perdoe-me; a pergunta não tem nem podia ter outra
resposta mais do que a simples recusa. Não lhe direi mais
nada. Nunca se devem fazer meias confissões; mas, neste
caso, a confissão inteira seria imprudência maior. Se se
tratasse de fatos, creia que a ninguém melhor podia
confiá-los do que a você; mas por que motivo irei
perturbar-lhe o espírito com a narração de meus
sentimentos, se eu própria não chego a entender-me?
Estácio não insistiu. Subiram a escada, atravessaram a
varanda e entraram na sala de jantar, onde acharam D.Úrsula
dando as ordens daquele dia a dois escravos.
Estácio entrou pensativo; Helena mudou totalmente de ar e
maneiras. Alguns segundos antes era sincera a melancolia
que lhe ensombrava o rosto. Agora regressara à
jovialidade de costume. Dissera-se que a alma da moça era
uma espécie de comediante que recebera da natureza ou da
fortuna, ou talvez de ambas, um papel que a obrigava a
mudar continuamente de vestuário. D. Úrsula viu-a entrar
risonha e ir a ela dar-lhe os costumados - bons dias -
que eram sempre um beijo, - ou antes dois, - um na mão,
outro na face.
- Demorei-me muito? perguntou ela voltando rapidamente o
corpo, de maneira a ver o relógio que ficava do outro
lado da sala. Nove horas! Que passeio, Sr. meu irmão!
Estácio olhava para ela silencioso e não lhe respondeu.
Foram logo mudar de roupa, e o almoço reuniu a família.
D. Úrsula propôs, durante ele, algumas mudanças na
disposição da chácara, mudanças que foram longamente
discutidas com o sobrinho, e aceitas afinal por este. O
dia estava sombrio e fresco; D. Úrsula desceu à chácara
com Estácio. As alterações foram ainda estudadas e
combinadas no próprio terreno, com assistência do feitor.
Logo que acabou a deliberação e que o projeto de D.
Úrsula foi definitivamente assentado, Estácio reteve-a e
lhe disse:
- Preciso falar-lhe um instante.
- Também eu.
- Quais são os seus sentimentos atuais em relação a
Helena? Oh! não precisa franzir a testa nem fazer esse
gesto de aborrecimento. Tudo são meras aparências. Não
creio que seja absolutamente amiga dela; mas não pode
negar que a antipatia desapareceu ou diminuiu muito.
- Diminuiu, talvez.
- E com razão. Pensa que também eu não tive repugnâncias,
depois que ela aqui entrou? Tive-as; mas se não houvessem
desaparecido, - desapareceriam hoje de manhã.
- Como?
Estácio referiu à tia a cena do capítulo anterior e as
palavras que lhe dissera Helena. D. Úrsula sorriu
ironicamente.
- Não a impressiona isto? perguntou Estácio.
- Não, respondeu D. Úrsula com decisão; a frase de Helena
é achada em algum dos muitos livros que ela lê. Helena
não é tola; quer prender-nos por todos os lados, até pela
compaixão. Não te nego que começo a gostar dela; é
dedicada, afetuosa, diligente; tem maneiras finas e
algumas prendas de sociedade. Além disso, é naturalmente
simpática. Já vou gostando dela; mas é um gostar sem fogo
nem paixão, em que entra boa dose de costume e
necessidade. A presença de outra mulher nesta casa é
conveniente, porque eu estou cansada. Helena preenche
essa lacuna. Se alguma coisa, entretanto, a podia
prejudicar nas nossas relações é esse dito.
Estácio tomou calorosamente a defesa da irmã.
- O que eu lhe contei, disse ele, foram apenas as
palavras. Não pude nem poderia reproduzir a expressão
sincera com que ela as proferiu, e a profunda tristeza
que havia em seus olhos. Não lhe nego que, ao vê-la mudar
tão depressa e entrar alegre na sala, senti tal ou qual
abalo de dúvida, mas passou logo. Ela tem o poder de
concentrar a amargura no coração; também a dor tem suas
hipocrisias...
- Mas que dor? que amargura? interrompeu D. Úrsula. A dor
de ser legitimada? a amargura de uma herança?
Estácio protestou calorosamente contra aquele caminho que
a tia dava às suas idéias; enfim pediu-lhe que
interrogasse com cautela a irmã.
- Um homem, concluiu ele, é menos apto para obter tais
confissões; uma senhora, respeitável e parenta, está mais
no caso de lhe captar a confiança e obter tudo. Quer
incumbir-se desse delicado papel?
- Pedes muito, respondeu D. Úrsula. Verei se te posso dar
metade disso. Era só o que tinhas para dizer?
- Só.
- Uma criancice! Eu tenho coisa mais séria. O Dr. Camargo
escreveu-me; trata-se...
- Não precisa dizer mais nada, interrompeu Estácio; lá
vem ele.
Camargo aparecera efetivamente a vinte passos de
distância.
- Doutor, disse D. Úrsula, logo que este se aproximou
deles, chega um pouco fora de propósito. Eu mal tive
tempo de assustar meu sobrinho, que ainda não sabe o que
o senhor lhe quer.
- Saberá agora; é só bastante que a senhora lhe diga que
me aprova.
- Completamente.
- Trata-se... disse Estácio.
- De uma conspiração; todos conspiramos em seu benefício.
D. Úrsula retirou-se para casa; os dois ficaram sós. Uma
vez sós, Camargo pousou a mão no ombro de Estácio, fitou-
o paternalmente, enfim perguntou-lhe se queria ser
deputado. Estácio não pôde reprimir um gesto de surpresa.
- Era isso? disse ele.
- Creio que não se trata de um suplício. Uma cadeira na
câmara! Não é a mesma coisa que um quarto no aljube...
- Mas a que propósito...
- Esta idéia apoquentava-me há algumas semanas. Doía-me
vê-lo vegetar os seus mais belos anos numa obscuridade
relativa. A política é a melhor carreira para um homem em
suas condições; tem instrução, caráter, riqueza; pode
subir a posições invejáveis. Vendo isso, determinei metê-
lo na Cadeia... Velha. Fala-se em dissolução. Para
facilitar-lhe o sucesso, entendi-me com duas influências
dominantes. O negócio afigura-se-me em bom caminho.
Estácio ouviu com desagrado as notícias que lhe dava o
médico.
- Mas, doutor, disse ele depois de curto silêncio, houve
de sua parte alguma precipitação. Pelo menos, devia
consultar-me. Do modo por que arranjou as coisas, quase
me acho desobrigado de lhe agradecer a intenção. Quanto a
aceitar, não aceito.
Camargo não perdeu a tramontana; deixou passar por cima
da cabeça a primeira onda de desagrado, surgiu fora e
insistiu tranqüilamente:
- Vejamos as coisas com os óculos do senso comum. Em
primeiro lugar, não creio que tenha outros projetos na
cabeça...
- Talvez.
- Duvido que sejam mais vantajosos do que este. A ciência
é árdua e seus resultados fazem menos ruído. Não tem
vocação comercial nem industrial. Medita alguma ponte
pênsil entre a Corte e Niterói, uma estrada até Mato
Grosso ou uma linha de navegação para a China? É
duvidoso. Seu futuro tem por ora dois limites únicos,
alguns estudos de ciência e os aluguéis das casas que
possui. Ora, a eleição nem lhe tira os aluguéis nem obsta
a que continue os estudos; a eleição completa-o, dando-
lhe a vida pública, que lhe falta. A única objeção seria
a falta de opinião política; mas esta objeção não o pode
ser. Há de ter, sem dúvida, meditado alguma vez nas
necessidades públicas, e...
- Suponha, - é mera hipótese, - que tenho alguns
compromissos com a oposição.
- Nesse caso, dir-lhe-ei que ainda assim deve entrar na
câmara - embora pela porta dos fundos. Se tem idéias
especiais e partidárias, a primeira necessidade é obter o
meio de as expor e defender. O partido que lhe der a mão,
- se não for o seu, - ficará consolado com a idéia de ter
ajudado um adversário talentoso e honesto. Mas a verdade
é que não escolheu ainda entre os dois partidos; não tem
opiniões feitas. Que importa? Grande número de jovens
políticos seguem, não uma opinião examinada, ponderada e
escolhida, mas a do círculo de suas afeições, a que os
pais ou amigos imediatos honraram e defenderam, a que as
circunstâncias lhe impõem. Daí vêm algumas legítimas
conversões posteriores. Tarde ou cedo o temperamento
domina as circunstâncias da origem, e do botão luzia ou
saquarema nasce um magnífico lírio saquarema ou luzia.
Demais, a política é ciência prática; e eu desconfio de
teorias que só são teorias. Entre primeiro na câmara; a
experiência e o estudo dos homens e das coisas lhe
designarão a que lado se deve inclinar.
Estácio ouviu atento estas vozes com que a serpente lhe
apontava para a árvore da ciência do bem e do mal. Menos
curioso que Eva, entrou a discutir filosoficamente com o
réptil.
- Entra-se na política, disse ele, por vocação legítima,
ambição nobre, interesse, vaidade, e até por simples
distração. Nenhum desses motivos me impele a dobrar o
cabo Tormentório...
- Da Boa Esperança, emendou Camargo rindo; não suprima
três séculos de navegação.
Estácio riu também. Depois falou ao médico da sua índole
e ambições. Não negava que tivesse ambições; mas nem só
as havia políticas, nem todas eram da mesma estatura. Os
espíritos, disse ele, nascem condores ou andorinhas, ou
ainda outras espécies intermédias. A uns é necessário o
horizonte vasto, a elevada montanha, de cujo cimo batem
as asas e sobem a encarar o sol; outros contentam-se com
algumas longas braças de espaço e um telhado em que vão
esconder o ninho. Estes eram os obscuros, e, na opinião
dele, os mais felizes. Não seduzem as vistas, não
subjugam os homens, não os menciona a história em suas
páginas luminosas ou sombrias; o vão do telhado em que
abrigaram a prole, a árvore em que pousaram, são as
testemunhas únicas e passageiras da felicidade de alguns
dias. Quando a morte os colhe, vão eles pousar no regaço
comum da eternidade, onde dormem o mesmo perpétuo sono,
tanto o capitão que subiu ao sumo estado por uma escada
de mortos, como o cabreiro que o viu passar uma vez e o
esqueceu duas horas depois. Suas ambições não eram tão
ínfimas como seriam as do cabreiro; eram as do
proprietário do campo que o capitão atravessasse. Um bom
pecúlio, a família, alguns livros e amigos, - não iam
além seus mais arrojados sonhos.
Um sorriso de lástima foi a primeira resposta do médico.
- Meu caro Estácio, disse ele depois, esse trocadilho de
andorinhas e cabreiros é a coisa mais extraordinária que
eu esperava ouvir a um matemático. Saiba que detesto
igualmente a filosofia da obscuridade e a retórica dos
poetas. Sobretudo, gosto que respondam em prosa quando
falo em prosa.
- Parece-lhe que poetei? perguntou Estácio rindo.
- Despropositadamente. Ora, eu falo de coisas sérias; e
convém não confundir alhos, que são a metade prática da
vida, com bugalhos, que são a parte ideológica e vã.
- Eu serei ideólogo.
- Não tem direito de o ser.
- Pois bem, deixe-me com as minhas matemáticas, as minhas
flores, as minhas espingardas.
- Não! Há de intercalar tudo isso com um pouco de
política.
Puxando-o familiarmente pela gola do paletó, Camargo fê-
lo sentar ao pé de si, no banco que ali estava mais
próximo. Depois falou. O novo discurso foi o mais longo
que proferiu em todos os seus dias. Nenhuma das vantagens
da vida pública deixou de ser apontada com uma
complacência de tentador; todas as glórias, pompas e
satisfações da política, e não só as reais, mas as
fictícias ou duvidosas, foram inventariadas, pintadas,
douradas e iluminadas pelo médico. A palavra revelou um
poder de evocação, uma veemência, uma energia, que
ninguém era capaz de supor-lhe. O taciturno desabrochou
tagarela. Para falar tanto e com tal força era preciso
que o animasse um grande sentimento ou um grande
interesse.
Estácio, lisonjeado com a afeição que ele lhe mostrava,
não teve ensejo de fazer essa reflexão. Nem se animou a
repetir a recusa; adotou o alvitre de diferir a resposta
para outra ocasião.
- Já lhe disse o que sinto a tal respeito. Contudo, estou
pronto a refletir, e a consultar o padre Melchior e
Helena.
O nome de Helena produziu em Camargo uma careta interior.
Exteriormente, não passou o efeito de um sorriso
sardônico e dissimulado. Interveio uma pitada de rapé,
que o médico inseriu lentamente, depois de a extrair de
uma boceta de tartaruga, presente do conselheiro Vale.
- Helena! disse ele com alguma hesitação. Que vem fazer
sua irmã neste negócio?
- É um voto, redargüiu Estácio; e menos leve do que lhe
parece. Há nela muita reflexão escondida, uma razão clara
e forte, em boa harmonia com as suas outras qualidades
feminis.
Entre as sobrancelhas de Camargo projetou-se uma longa
ruga, e foi toda a expressão de seu espanto e desgosto. A
resposta de Estácio revelara-lhe uma situação nova na
família: o voto de Helena, consultivo agora, podia vir a
ser preponderante. Esta solução, que porventura faria
estremecer de alegria os ossos do conselheiro, não a
previra o médico. Limitou-se a notá-la de si para si; e,
terminando subitamente a conversa, disse:
- Consulte as pessoas de seu agrado. Quem não estiver com
a minha opinião, não é seu amigo. Em todo o caso, ninguém
lhe poderá afirmar que não é a amizade, a longa
amizade...
Estácio cortou-lhe a palavra, apertando-lhe afetuosamente
a mão. Tinham-se levantado. Era quase meio-dia; Camargo
despediu-se ali mesmo; ia ver dois doentes no caminho da
Tijuca. O filho do conselheiro atravessou sozinho a
chácara; ia pensativo, e aborrecido. A política, na sua
opinião, era uma noiva importuna; mas, se todos
conspirassem a favor dela, não seria ele obrigado a
desposá-la? A esta reflexão respondeu a voz do padre
Melchior, do alto de uma janela:
- Venha cá, senhor deputado; quando teremos o seu
primeiro discurso?

Capítulo VIII

D. Úrsula tinha já confiado ao velho capelão a proposta
de Camargo. Consultado por Estácio, respondeu o padre:
- Consulte as suas forças e a responsabilidade do cargo,
e escolha.
- Já escolhi, disse Estácio; pedia-lhe conselho para
apoiar melhor a minha própria decisão. Não é esse o
destino de todos os conselhos? Decidi que não aceito a
candidatura. A vida política é turbulenta demais para o
meu espírito. Estou pronto para a ação, mas não há de ser
exterior. Dado o meu temperamento, que iria eu buscar à
câmara, além de algumas prerrogativas e um papel
acessório? Eu só me meteria na política se pudesse
oficiar; mas ser apenas sacristão...
- Entre o oficiante e o sacristão, observou Melchior,
está o pregador, que é cargo nobre e influente.
- Mas o tema do sermão, padre-mestre? retorquiu Estácio
rindo; falta-me o tema.
D. Úrsula, a quem seduziam exclusivamente a posição e o
rumor público em favor do sobrinho, viu naquelas razões
um pretexto ou uma puerilidade. Defendeu, como pôde, a
causa de Camargo; instou com o sobrinho para que
refletisse maduramente, antes de qualquer resposta
definitiva. Estácio prometeu como prometera ao médico,
por simples condescendência; mas sobretudo para por termo
ao assunto e ir saber a causa do sorriso quase
imperceptível que viu roçar os lábios de Helena. A moça
erguera-se e dirigira-se para uma das janelas; Estácio
foi até ali.
- Adivinhei, pelo seu sorriso, disse ele, que tudo isto
lhe parece pueril, e que eu faço bem em não aceitar o que
se me oferece.
Helena olhou um pouco espantada para ele, mas respondeu
com tranqüilidade:
- Pelo contrário, penso que deve aceitar. Além de haver
consentimento de minha tia, parece ser um grande desejo
do pai de Eugênia.
Era a primeira vez que Helena aludia ao amor de Estácio,
e fazia-o por modo encoberto e oblíquo. Estácio escapou
dessa vez à regra de todos os corações amantes: resvalou
pela alusão e discutiu gravemente o assunto da
candidatura. Era pesado demais para cabeça feminina;
Helena intercalou uma observação sobre dois passarinhos
que bailavam no ar, e Estácio aceitou a diversão,
deixando em paz os eleitores.
Durante dois dias não saiu ele de casa. Tendo recebido
alguns livros novos, gastou parte do tempo em os folhear,
ler alguma página, colocá-los nas estantes, alterando a
ordem e a disposição dos anteriores, com a prolixidade e
o amor do bibliófilo. Helena ajudava-o nesse trabalho, -
um pouco parecido com o de Penélope, - porque a ordem
estabelecida ao meio-dia era às vezes alterada às duas
horas, e restaurada na seguinte manhã. Estácio,
entretanto, não ficava todo entregue aos livros; admirava
a solicitude da irmã, a ordem e o cuidado com que ela o
auxiliava. Helena parecia não andar; o vulto resvalava
silenciosamente, de um lado para outro, obedecendo às
indicações do irmão, ou pondo em experiência uma idéia
sua. Estácio parava às vezes, fatigado; ela continuava
imperturbavelmente o serviço. Se ele lhe fazia algum
reparo, a moça respondia erguendo os ombros ou sorrindo,
e prosseguia. Então Estácio segurava-lhe nos pulsos e
exclamava rindo:
- Sossega, borboleta!
Helena parava, mas eram só poucos minutos; volvia logo ao
trabalho com a mesma serena agitação. Era assim que as
horas se passavam na intimidade mais doce, e que a
recíproca afeição ia excluindo toda a preocupação alheia;
era assim que a influência de Helena assumia as
proporções de voto preponderante.
No terceiro dia, D. Tomásia e Eugênia foram jantar a
Andaraí. Eugênia estava nesse dia mais sisuda e dócil que
nunca; dissera-se que trazia a alma tão nova como o
vestido, e menos enfeitada que ele. Estácio sentiu-se
satisfeito; o ideal reconciliava-se com o real. Puderam
falar sozinhos, mais de uma vez; todas as pessoas da casa
pareciam conspiradas para lhes deixar a solidão. Foi ela
quem recordou a proposta política do pai, da qual soubera
casualmente, ouvindo a narração que este fizera a D.Tomásia.
O desejo de Eugênia era pela afirmativa; e
Estácio, receoso de despertar os caprichos adormecidos da
moça, frouxamente resistiu, e consentiu ainda mais
frouxamente em reconsiderar o assunto.
- Deputado! exclamava Eugênia com os olhos no céu.
Estácio acompanhou Eugênia e D. Tomásia na carruagem que
as levou ao Rio Comprido. O dia fora mais ou menos
alegre; a viagem foi divertida e palreira como um
regresso de romaria. Os cavalos mostravam-se tão lépidos
como as pessoas que iam no carro, e encurtaram alguns
minutos o caminho, com desgosto de Eugênia.
Voltando a Andaraí, Estácio trazia a alma pura de todas
as más impressões que lhe deixavam usualmente as visitas
à casa de Camargo. Nenhum dissentimento houvera naquele
dia. Eugênia parecia modificada. Em casa esperava-o,
porém, uma desagradável notícia: a tia sentira-se
incomodada pouco depois que ele saíra e recolhera-se ao
quarto. O caso afligiu-o, mas não tardou a aparecer
Helena, que o tranqüilizou, dizendo-lhe que D. Úrsula
tinha apenas uma forte dor de cabeça, já diminuída com o
emprego de um remédio caseiro.
No dia seguinte de manhã, informado de que a tia dormia
sossegadamente, Estácio abriu uma das janelas do quarto e
relanceou os olhos pela chácara. A alguns passos de
distância, entre duas laranjeiras, viu Helena a ler
atentamente um papel. Era uma carta, longa de todas as
suas quatro laudas escritas. Seria alguma mensagem
amorosa?
Esta idéia molestou-o muito. Afastou-se da janela,
conchegou as cortinas, e pela fresta procurou observar a
irmã. Helena estava de pé, no mesmo lugar, e percorria
rapidamente as linhas, até ao final da última página. Ali
chegando, deu dois passos, tornou a parar, volveu ao
princípio da carta, para a ler de novo, não já depressa,
mas repousadamente. Estácio sentiu-se movido de imperiosa
curiosidade, à qual vinha misturar-se uma sombra de
despeito e ciúme. A idéia de que Helena podia repartir o
coração com outra pessoa desconsolava-o, ao mesmo tempo
que o irritava. A razão de semelhante exclusivismo não a
explicou ele, nem tentou investigá-la; sentiu-lhe somente
os efeitos, e ficou ali sem saber que faria. Duas vezes
saiu da janela para ir ter com a irmã, mas recuou de
ambas, refletindo que a curiosidade pareceria impolidez,
se não era talvez tirania. Ao cabo de alguns minutos de
hesitação, saiu do quarto e dirigiu-se à chácara.
Quando ali chegou, Helena passeava lentamente, com os
olhos no chão. Estácio parou diante dela.
- Já fora de casa! exclamou em tom de gracejo.
Helena tinha a carta na mão esquerda; instintivamente a
amarrotou como para escondê-la melhor. Estácio, a quem
não escapou o gesto, perguntou-lhe rindo se era alguma
nota falsa.
- Nota verdadeira, disse ela, alisando tranqüilamente o
papel, e dobrando-o conforme recebera; é uma carta.
- Segredos de moça?
- Quer lê-la? perguntou Helena, apresentando-lha.
Estácio fez-se vermelho e recusou com um gesto. Helena
dobrou lentamente o papel e guardou-o na algibeira do
vestido. A inocência não teria mais puro rosto; a
hipocrisia não encontraria mais impassível máscara.
Estácio contemplava-a, a um tempo envergonhado e
suspeitoso; a carta fazia-lhe cócegas; o olhar
ambicionava ser como o da Providência que penetra nos
mais íntimos refolhos do coração. Vieram, entretanto,
dizer a Helena que D. Úrsula lhe pedia fosse ter com ela.
Estácio ficou só. Uma vez só, entregou-se a um inquérito
mental sobre a procedência da misteriosa missiva. Um
indício havia de que podia conter alguma coisa secreta:
era o gesto com que ela a escondeu. Mas não podia ser de
alguma antiga companheira do colégio, que lhe confiava
segredos seus? Estácio abraçou com alvoroço esta
hipótese. Depois, ocorreu-lhe que, ainda provindo de uma
amiga, a carta podia tratar de algum idílio de colégio,
em que Helena fosse protagonista, idílio vivo ou morto,
página de esperança ou de saudade. Ainda nesse caso, que
tinha ele com isso?
Fazendo esta última reflexão, Estácio sacudiu do espírito
o assunto e seguiu a examinar as novas obras da chácara,
entre as quais figurava um vasto tanque. Já ali estavam
os operários; ia começar o trabalho do dia. Estácio viu a
obra feita e deu várias indicações novas. Algumas eram
contrárias ao plano assentado; como lhe fizessem tal
observação, Estácio retificou-as. Depois admirou-se de
não ver um vaso, que aliás dois dias antes mandara
remover; enfim, recomendou a rega de uma planta, ainda
úmida da água que o feitor lhe deitara nessa manhã.
D. Úrsula não estava de todo boa, mas pôde almoçar à mesa
comum. O sobrinho apareceu aborrecido, a sobrinha triste;
o diálogo foi mastigado como o almoço. No fim deste,
recebeu Estácio uma carta de Eugênia. Era uma tagarelice
meio frívola, meio sentimental, mistura de risos e
suspiros, sem objeto definido a não ser pedir-lhe que
escrevesse se não pudesse ir vê-la.
Acabava ele de ler a carta, quando Helena lhe apareceu à
porta do gabinete. Não a escondeu; lembrou-lhe mostrá-la
à irmã, na esperança de que esta, pagando-lhe com igual
confiança, lhe mostrasse a sua. Helena percorreu com os
olhos a carta de Eugênia e esteve algum tempo silenciosa.
- Permite-me um conselho? perguntou ela.
E como Estácio respondesse com um gesto de assentimento:
- Vá ter com Eugênia, solicite licença para ir pedi-la a
seu pai, e conclua isso quanto antes. Não é verdade que
se amam? Dela creio poder afirmar que sim; de você...
- De mim?
- Penso que é mais duvidoso; ou você é mais hábil. Há de
ser isso. Naturalmente parece-lhe fraqueza amar, - isto
é, a coisa mais natural do mundo, - a mais bela, - não
direi a mais sublime. Os homens sérios têm preconceitos
extravagantes. Confesse que ama, que não é indiferente a
esse sentimento inexprimível que liga, ou para sempre, ou
por algum tempo, duas criaturas humanas.
- Ou por algum tempo! repetiu mentalmente Estácio.
E estas quatro palavras, tão naturais e tão comuns,
tinham ares de uma revelação nova no estado de espírito
em que ele se achava. Se Helena tivesse propósito de lhe
lançar a perplexidade na alma, não empregaria mais eficaz
conceito. Seria na verdade aquele amor, tão travado de
desânimos, dissentimentos e alternativas, tão discutido
em seu próprio coração, uma afeição destinada a perecer
no ocaso da primeira lua matrimonial?
- Pois sim, concordou ele, ao cabo de alguns instantes, é
verdade. Eugênia não me é indiferente; mas poderei estar
certo dos sentimentos dela? Ela mesma poderá afirmar
alguma coisa a tal respeito? Há ali muita frivolidade que
me assusta; ilude-a, talvez, uma impressão passageira.
- Pode ser; mas ao marido cabe a tarefa de fixar essa
impressão passageira... O casamento não é uma solução,
penso eu; é um ponto de partida. O marido fará a mulher.
Convenho que Eugênia não tem todas as qualidades que você
desejaria; mas, não se pode exigir tudo: alguma coisa é
preciso sacrificar, e do sacrifício recíproco é que nasce
a felicidade doméstica.
As reflexões eram exatas; por isso mesmo Estácio as
interrompeu. O filho do conselheiro achava-se numa
posição difícil. Caminhara para o casamento com os olhos
fechados; ao abri-los, viu-se à beira de uma coisa que
lhe pareceu abismo, e era simplesmente um fosso estreito.
De um pulo poderia transpô-lo; mas, se não era irresoluto
nem débil, tinha ele acaso vontade de dar esse salto?
Insistindo Helena, prometeu ele que nessa tarde iria
visitar Camargo. De tarde desabou um temporal violento. A
força do vento e da trovoada abrandou; mas a chuva
continuou a cair com a mesma violência; era impossível ir
ao Rio Comprido. Estácio estimou aquele obstáculo; era
melhor adorar de longe a imagem da moça do que ir colher
algum desgosto junto a ela.
De pé, encostado a uma das vidraças da sala de visitas,
via cair as grossas toalhas de água. Ao lado estava
sentada Helena, não alegre, mas taciturna e melancólica.
- É tão bom ver chover quando estamos abrigados! exclamou
ele. Tenho lá na estante um poeta latino que diz alguma
coisa neste sentido... Que tem você?
- Estou pensando nos que não têm abrigo ou o têm mau; nos
que não têm, neste momento, nem tetos sólidos nem
corações amigos ao pé de si.
A voz da moça era trêmula; uma lágrima lhe brotou dos
olhos, tão rápida que ela não teve tempo de a dissimular.
Surpreendida nessa manifestação de sensibilidade,
inexplicável talvez para o irmão, ergueu-se e procurou
gracejar e rir. O riso parecia uma cristalização da
lágrima, e o gracejo tinha ares de responso. Estácio não
se iludiu; nada daquilo era claro, ou era tão claro como
a carta. O olhar, severo e frio, interrogou mudamente a
moça. Helena, que tivera tempo de se tranqüilizar, voltou
o rosto para a rua, e começou a rufar com os dedos na
vidraça.
Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III e Capítulo IV
Capítulo V e Capítulo VI
Capítulo VII e Capítulo VIII
Capítulo IX à Capítulo XI
Capítulo XII à Capítulo XIV
Capítulo XV à Capítulo XVII
Capítulo XVIII à Capítulo XX
Capítulo XXI e Capítulo XXII
Capítulo XXIII e Capítulo XXIV
Capítulo XXV e Capítulo XXVI
Capítulo XXVII e Capítulo XXVIII