Helena
Machado de Assis
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Capítulo XXVII
Tinha acabado; grossas lágrimas, retidas a custo, enfim
lhe rebentaram dos olhos e rolaram pelo rosto abaixo do
narrador. A comoção não ficou só nele;
os dois ouvintes a
sentiram também. Acabara; e o pior que podia acontecer,
era isso mesmo. Uma vez finda a narração, ficaram os
dois
calados e perplexos, sem que ousassem contradizê-lo.
Depois de curta pausa, Salvador rematou assim:
- De tudo o que lhes disse não tenho outras provas além
destas cartas, que seriam bastantes, e de minhas
lágrimas, que hão de ser eternas. Mas, ainda quando
haja
outras, creio que não serão precisas. Na situação
em que
estamos, só há duas soluções possíveis;
ou nada se altera
do que o conselheiro estatuiu, e somente eu carregarei as
conseqüências da sorte, desaparecendo; ou a família
rejeita Helena, e eu a levarei comigo. Dir-se-á que a lei
protege a todo transe? Pois ela assinará todas as
desistências necessárias...
Estácio cortou-lhe a palavra, dizendo que oportunamente
lhe dariam resposta. Saíram logo depois; não trocaram
uma
só palavra; cada um deles ia absorto. Contudo, o padre
observava de quando em quando o sobrinho de D. Úrsula,
buscando adivinhar-lhe os pensamentos.
Chegando à porta da chácara, o padre perguntou ao moço:
- Que pretende fazer?
- Não sei ainda.
- Sei eu o que deve fazer: nada.
- Conservar esta situação?
- Decerto. Helena obedeceu à vontade de seus dois pais,
aceitando o equívoco em que ambos a vieram colocar.
Obedeceu à força. Agora, está reconhecida; é
um fato que
não podemos discutir nem alterar.
Estácio esteve silencioso alguns instantes.
- Mas, posso eu, à vista do que acabamos de ouvir,
conservar a Helena um título que rigorosamente lhe não
pertence? Helena não é minha irmã; é absolutamente
estranha à nossa família; o título que nos ligava,
desaparece. Por que motivo continuaríamos nós uma
falsificação...
- De seu pai? atalhou Melchior.
- Padre-mestre!
- Aquele homem falou verdade; mas nem a lei nem a Igreja
se contentam com essa simples verdade. Em oposição a
ela,
há a declaração derradeira de um morto. A justiça
civil
exige mais do que palavras e lágrimas; a eclesiástica
não
extingue com um traço de pena, a afirmação póstuma.
Demais, não espere que esse homem reproduza perante
ninguém as declarações de há pouco; só
o fará quando
perder a última esperança. É evidente que ele
nada quer
alterar do que seu pai estabeleceu, e antes se
sacrificará do que envergonhará a filha. Sente-se
disposto a fazer o que ele recusa?
Estácio não respondeu; tinham entrado na chácara,
e
caminhavam lentamente na direção da casa. Melchior
deteve-o.
- Estácio! disse o padre, depois de olhar para ele um
instante. Compreendo, quisera despojar Helena do título
que seu pai lhe deixou, para lhe dar outro, e ligá-la à
sua família por diferente vínculo...
Estácio fez um gesto como protestando.
- Esquece duas coisas graves: o escândalo e o casamento
de um e outro; já se não pertence, nem ela se pertence
a
si. Vamos lá; seja homem. Sepultemos quanto se passou no
mais profundo silêncio, e a situação de ontem
será a
mesma de amanhã.
Quando Estácio e Melchior entraram em casa, já D. Úrsula
sabia de tudo; lograra desatar a língua de Helena.
Abatida com a leitura da carta, não lhe levantara o ânimo
a narração verbal da moça; preferia talvez que
Helena
fosse verdadeiramente filha do conselheiro. Alguns meses
de espaço e a convivência afetuosa produziram a diferença
de sentimento entre o primeiro e o último dia.
- Nada podemos fazer já agora, disse o padre;
provocaríamos um escândalo sem esperança do resultado.
D. Úrsula fez um gesto de assentimento. Chamada a ouvi-
los, Helena desceu daí a alguns minutos. A cor da
vergonha tingiu-lhe a face, logo que ela deu com Estácio,
que a esperava, ao lado de Melchior, ambos calados, mas
sem nenhum vislumbre de irritação. Após um silêncio
longo
e abafado, Estácio comunicou a Helena a resolução
da
família e seus sentimentos de generosidade e confiança;
concluiu dizendo que, sobre todas as coisas, prevalecia a
vontade derradeira de seu pai. Helena empalideceu e
cerrou os olhos; D. Úrsula correu a ampará-la. O
organismo debilitado pelas vigílias e comoções
das
últimas horas não pudera resistir; mas o delíquio
foi
leve e curto. Voltando a si, Helena beijou ardentemente
as mãos de D. Úrsula e as do padre, estendeu a sua a
Estácio, que a apertou; depois, com voz trêmula, disse:
- Meu coração ficará eternamente grato ao resto
de estima
que não perdi; a situação mudou, e força
é mudar com ela.
Não quero a proteção da lei, nem poderia receber
a
complacência de corações amigos. Cometi um erro,
e devo
expiá-lo. Enquanto a vergonha vivia só comigo, era
possível continuar nesta casa; eu atordoava-me para
esquecê-la; mas agora que é patente, vê-la-ei nos
olhos
de todos e no sorriso de cada um. Peço-lhes que me
perdoem e me deixem ir! Não devera ter entrado, é certo.
Expio a fraqueza de um coração que eu me habituara a
amar
de longe, com o prestígio do mistério e o encanto do
fruto proibido. De hoje em diante, amá-los-ei de longe ou
de perto, mas estranha... e perdoada!
Dizendo isto, Helena abraçou D. Úrsula, como a pedir
o
benefício da sua intervenção. D. Úrsula
abraçou-a
igualmente, mas fez com a cabeça um gesto negativo.
Melchior observou que a repulsa era pelo menos um sintoma
de desprendimento pouco explicável em relação
à família
que, sem embargo dos últimos sucessos não lhe retirara
a
estima nem a proteção.
- Herdou o orgulho do pai! murmurou Estácio.
A frase foi dita em voz baixa, mas Helena ouviu-a, e seus
olhos fulgiram de momentânea satisfação. Atribuir
a
orgulho o que era vergonha e remorso, dava-lhe certa
superioridade que a moça julgava não ter naquele lance.
Protestou em favor de seus sentimentos de gratidão, com a
palavra viva, animada, cordial que todos três lhe
conheciam, interrompida a intervalos pela comoção
interior, e pelas lágrimas que lhe escorriam dos olhos,
quase exaustos de chorar. Estácio pôs termo a todas as
hesitações.
- Pois bem, disse ele, será isso mais tarde; a lei é
por
nós; e nossa vontade é que nos obedeça.
Helena mordeu o lábio com desesperação, mas não
respondeu. A cabeça descaiu-lhe lentamente como ao peso
de uma idéia, a mais e mais opressora. Depois, ergueu-a;
os olhos tristes, mas animados dos últimos raios de uma
esperança, dirigiram-se para os de Estácio, que nessa
ocasião pareciam falar as dores todas da paixão sufocada
e rebelde. Ambos eles os baixaram à terra, medrosos de si
mesmos.
- Não creio que ela aceite facilmente a sua decisão,
disse Melchior a Estácio, logo que pôde achar-se só
com
ele. Acautele-se; é capaz de fugir-nos.
- Crê?
- Não a conhece ainda? A posição em que estes
acontecimentos a deixaram, repugna-lhe mais que tudo.
Prefere a miséria à vergonha, e a idéia de que
interiormente não a absolvemos, é o verme que lhe fica
no
coração.
De noite, recebeu Estácio uma carta de Salvador,
acompanhada de um pacote.
"Refleti muito durante estas duas horas, dizia ele, e
cheguei a uma conclusão única. Elimino-me. É
o meio de
conservar a Helena a consideração e o futuro que lhe
não
posso dar. Quando esta carta lhe chegar às mãos, terei
desaparecido para sempre. Não me procure, que é inútil.
Irei abençoá-lo de longe. Recaia, entretanto, sobre
mim
todo o ressentimento; eu só o mereço, porque só
eu o
provoquei. Vão as cartas de Helena; guardo três apenas,
como recordação da felicidade que perdi."
Estácio teve vontade de ler as cartas de Helena, mas a
tempo recuou; mandou-as dar à moça. Helena, que estava
com D. Úrsula, entregou-as a esta.
- São a minha história, disse ela; peço-lhe que
as leia e
me julgue.
Havia em seus olhos uma expressão que não era usual.
Recolheu-se imediatamente a seu quarto, onde jazeu longo
tempo, calada, quieta, sinistra, o corpo atirado em um
sofá, a alma sabe Deus em que regiões de infinito
desespero.
Capítulo XXVIII
Naquela noite, a segunda de tão extraordinários sucessos,
foi que Estácio sentiu toda a violência do amor que lhe
inspirara Helena. Enquanto os detinha um vínculo sagrado,
amara sem consciência; e ainda depois de esclarecido pelo
padre, o esforço empregado em vencer-se e a própria
natureza da catástrofe não lhe permitiram ver a extensão
do mal. Agora, sim; roto o vínculo, restituída a verdade,
ele conhecia que a voz da natureza, mais sincera e forte
que as combinações sociais, os chamava um para o outro,
e
que a mulher destinada a amá-lo e ser amada era
justamente a única que as leis sociais lhe vedavam
possuir.
Durante as primeiras horas o coração mordeu rebelde
o
freio da necessidade. A vigília foi longa e crua, e a
reflexão veio enfim dominar a tempestade interior, ou
antes seus destroços. Ele viu que o padre tinha razão;
que era força desfolhar a esperança de um dia. Ao mesmo
tempo, o exemplo de Helena deu-lhe ânimo. Senhora do
segredo de seu nascimento, e consciente de amar sem
crime, a moça apressara, não obstante, o casamento de
Estácio e escolhera para si um noivo estimado apenas. Se
uma vez a palavra delatora lhe rompeu dos lábios, ela a
retraiu logo, fazendo o mais obscuro dos sacrifícios.
Não quis Estácio ser menos generoso. Logo de manhã
escreveu a Mendonça, pedindo-lhe que não deixasse de
os
ir visitar nesse dia. Não o fez sem custo, mas fê-lo
sem
arrependimento. Tinha por fim apressar o casamento de
Helena e o seu, condenando-se a sofrer calado os golpes
do avesso destino.
A manhã entretanto não trouxe a Helena o esquecimento
e a
paz. A noite não lhe serviu de remédio, antes legou
à
aurora toda a sua mortal angústia. Debilitada, nervosa,
impaciente, não podia a moça vencer-se nem suportar-se.
Ora, repelia com sequidão as palavras de D. Úrsula;
ora,
pedia intercedesse com Estácio para a resolução
que ela
admitia como único meio de a poupar à vergonha. A
excitação moral era grande; cumpria aquietá-la
por meios
persuasivos. Helena fugia a todos; não encarava Estácio
e
D. Úrsula, sem que o pejo lhe colorisse a face, mudança
tanto mais visível quanto que a vigília e a dor a tinham
empalidecido muito. Diziam-lhe que a vontade do
conselheiro estatuíra uma lei na família, segundo a
qual
ela continuava a ser parenta como dantes, e tão amada
como era. A moça agradecia a generosidade, mas não podia
fugir à idéia de haver contribuído para a usurpação.
Queria que a deixassem ir ter com o pai, ao pé de quem a
natureza e a consciência lhe indicavam que poderia estar
sem remorso. Estácio e D. Úrsula respondiam-lhe com
afagos e protestos; mas quando viram que estes eram
inúteis, não houve mais que revelar-lhe a carta de
Salvador.
O padre Melchior incumbiu-se de lhe fazer essa delicada
comunicação.
- Seu pai, disse ele, praticou em seu favor um ato
heróico; fugiu para lhe não fazer perder a consideração
e
o futuro. Leia esta carta, e veja se ela lhe dá a força
necessária para resistir.
Helena pegou na carta com sofreguidão, leu-a de um lance
dolhos. O gemido que lhe rompeu o coração mostrou
bem a
ferida que acabava de receber. O padre acolheu-a
lacrimosa e esvaecida em seus braços; disse-lhe palavras
de conforto e de esperança. Nos primeiros minutos, Helena
nada pôde ouvir; o golpe ensurdecera a alma. Melchior fê-
la sentar-se ao pé de si; ela obedeceu sem consciência.
Após alguns minutos de silêncio e concentração,
a moça
dirigiu a palavra ao padre e agradeceu-lhe a caridade.
Depois referiu-lhe os acontecimentos de sua infância, os
mesmos que o capelão ouvira. A sagacidade natural do
espírito cedo lhe fizera ver que a posição de
sua mãe não
era a mesma das outras mães: essa descoberta, porém,
não
teve outra virtude mais que comunicar ao amor da filha
uma intensidade e energia capazes de afrontar os mais
fortes obstáculos, como se ela quisesse reunir em si toda
a soma de afetos e respeitos que a sociedade afiança às
situações regulares. Melchior ouviu-a comovido; nutrido
da medula do evangelho, reconheceu um efeito da graça
divina nesse amor imaculado, que valia por todas as
absolvições da terra. Ele a aplaudiu e confortou; falou-
lhe do futuro, do carinho de sua família, - sua, a
despeito de tudo; enfim da obrigação em que ela estava
de
corresponder a tanta confiança.
Talvez Helena, em sua razão, correspondesse aos conselhos
de Melchior; mas a razão é o que menos a dirigia naquelas
circunstâncias aflitivas. Ela deixou o padre para
recolher-se aos aposentos. Quando D. Úrsula ali foi, meia
hora depois, achou-a profundamente abatida; a violência
da crise passara. A linguagem que lhe falou foi maternal,
ungida de amor e perdão; Helena ouviu-a agradecida, mas
um sorriso descorado e sem convicção lhe entreabria
os
lábios. Supunha ler comiseração onde havia afeto
e
respeito, e o orgulho rebelava-se de inspirar o único
sentimento que a consciência lhe dizia merecer.
As instâncias de D. Úrsula para que Helena se alimentasse
foram inúteis; ela apenas recebia o que bastava para não
sucumbir à fome. A companhia repugnava-lhe; assim, poucas
vezes a viram desde os dias que se seguiram àquela
funesta manhã. Mendonça não conseguiu mais do
que os
outros. A família teve o cuidado de anunciar que Helena
se achava enferma. A aflição do noivo foi grande; mas
todos buscaram tranqüilizá-lo. Nada havendo transpirado
do acontecimento, fácil foi sustentar aquela explicação.
Melchior encomendara muito à família que vigiasse a
moça,
cujo espírito lhe parecia atrevido e tenaz; ele receava
que Helena ou fugisse de casa, ou recorresse a algum ato
de desespero. O mesmo padre desvelou-se em trazer a alma
de Helena ao sentimento de resignação. A autoridade
do
caráter religioso, a influência que ele tinha no espírito
de Helena, eram armas poderosas, temperadas com amor
verdadeiro e paternal que o ligava à donzela. Nada
poupou; mas tais esforços não tiveram mais fruto que
os
da família. Helena mal podia tolerar a situação.
Uma vez, como ela descesse à chácara, saiu Estácio
a
procurá-la, não a encontrando senão ao cabo de
alguns
minutos. Achou-a ao pé do tanque, no lugar em que lhe
falara poucos dias antes, sentada no mesmo banco de pau.
Vendo-o, estremeceu; ele aproximou-se, contente de a
haver encontrado enfim. O dia estava feio; grossas nuvens
negras pejavam o ar, túmidas de temporal próximo. Estácio
convidou-a a recolher-se.
- Deixe-me estar aqui um instante mais, respondeu ela.
- Dois minutos apenas.
Sentou-se ao pé dela e ficaram calados. Helena tinha uma
taquara na mão; Estácio quis tomar-lha; ela arremessou-a
para longe. Ergueu-se então o moço e foi buscá-la;
só
então viu que estava molhada até certa altura; calculou
que seria o fundo do tanque. O tanque era raso; não
poderia dar a morte; mas, a suspeita de que Helena não
recuaria diante do suicídio, aterrou naturalmente o
espírito de Estácio. Parecendo-lhe que a causa não
comportava o efeito, perguntou a si mesmo se os sucessos
daqueles dias não teriam velado a razão da moça.
Sentou-
se de novo e falou-lhe com brandura.
Ao escutá-lo, sentiu Helena como uma ressurreição
de
outras horas, que julgava escoadas para sempre; um
sorriso lhe animou os lábios sem cor, ao passo que os
olhos doridos e murchos pareciam reviver de um resto de
luz. Estácio falou-lhe de si, da tia, do padre e de
Mendonça, dos próximos casamentos, da felicidade futura.
Depois insistiu com ela para que entrasse. Uma brisa mais
forte começava a agitar as árvores, e a tempestade
ameaçava cair de repente.
- Ainda não, disse a moça; alguns minutos mais.
- Mas pode adoecer...
- Talvez, se todos quiserem a minha saúde. Há criaturas
tão malfadadas que aqueles mesmos que as desejam fazer
venturosas não alcançam mais do que preparar-lhes o
infortúnio. Tal foi meu destino. Seu pai e minha mãe
não
tiveram outro pensamento; meu próprio pai foi levado do
mesmo impulso, quando me obrigou a ser cúmplice de uma
generosa mentira. Agora mesmo que ele me foge, com o fim
único de me não tolher a felicidade, arranca-me o último
recurso em que eu tinha posto a esperança...
- Helena! interrompeu Estácio.
- O último, repetiu a moça.
Esvaíra-se-lhe o sorriso, e o olhar tornara a ser opaco.
Estácio teve medo daquela atonia e concentração;
travou-
lhe do braço; a moça estremeceu toda e olhou para ele.
A princípio foi esse olhar um simples encontro; mas,
dentro de alguns instantes, era alguma coisa mais. Era a
primeira revelação, tácita mas consciente, do
sentimento
que os ligava. Nenhum deles procurara esse contato de
suas almas, mas nenhum fugiu. O que eles disseram um ao
outro, com simples olhos, não se escreve no papel, não
se
pode repetir ao ouvido; confissão misteriosa e secreta,
feita de um a outro coração, que só ao céu
cabia ouvir,
porque não eram vozes da terra, nem para a terra as
diziam eles. As mãos, de impulso próprio, uniram-se
como
os olhares; nenhuma vergonha, nenhum receio, nenhuma
consideração deteve essa fusão de duas criaturas
nascidas
para formar uma existência única.
O vento tornara-se mais rijo; uma lufada os despertou, em
má hora, porque há sonhos que deviam acabar na realidade
do outro século. Estácio ergueu-se; sacudiu valorosamente
o torpor da felicidade, e reassumiu o papel que o pai lhe
assinara ao pé de Helena. Esta desviou os olhos e cravou-
os na água, fascinada e absorta. A idéia do suicídio
roçaria deveras sua asa invisível pela fronte da moça?
Estácio foi a ela, pegou-lhe nas mãos e convidou-a a
sair
dali.
- Entremos, disse ele pela terceira vez, olhe que vai
chover.
Helena deixou-se levantar; um calafrio percorreu-lhe o
corpo todo, e as mãos, que o moço ainda tinha entre
as
suas, estavam muito mais quentes que o natural.
- Ande repousar, continuou Estácio; pode adoecer, e não
tem direito para tanto; nossa afeição não o consentirá
nunca. Vamos...
- Amar-me-ão sempre? perguntou Helena.
- Oh! sempre!
- Impossível! Há uma voz no fundo de seu coração,
que lhe
dirá, de quando em quando, esta triste palavra:
aventureira!
- Helena!
- Não posso ser outra coisa a seus olhos, prosseguiu a
moça, tristemente. Quem o convencerá de que a declaração
de seu pai não foi obtida por artifício de minha mãe?
Quem lhe dará a prova de que, cedendo aos rogos de meu
pai, não fiz mais do que executar um plano preparado já?
São dúvidas que lhe hão de envenenar o sentimento
e
tornar-me suspeita a seus olhos. Resista quem puder; é-me
impossível encarar semelhante futuro!
Helena caíra ofegante no banco. Estácio falou-lhe com
abundância e ternura; jurou-lhe que sua família era
incapaz da mínima suspeita; pediu-lhe por seu pai que não
julgasse mal deles. Ela sorriu, mas foi um sorrir de
incrédula.
Grossos pingos de chuva começavam a rufar nas árvores.
Estácio pegou na mão de Helena para conduzi-la a casa.
A
moça fugiu-lhe, indo colocar-se alguns passos adiante,
onde a chuva lhe caía mais em cheio na cabeça nua e
no
corpo levemente coberto. Quando Estácio, desvairado de
terror, correu para ela, Helena afastou-se dele; mas nem
seus pés o poderiam vencer nunca, nem lho permitiam agora
as forças quebradas por tantas e tão profundas comoções.
Ele alcançou-a; estendeu o braço em volta da cintura
da
moça, dizendo:
- Que capricho é esse? Vamos embora; eu quero que venha
comigo para dentro.
Ao sentir o braço de Estácio, Helena estremeceu e fez
um
movimento para arredá-lo de si; mas a fraqueza traiu-lhe
o pudor. Ela fitou no moço uns olhos de corça moribunda;
as pernas fraquearam, e o corpo esmorecido iria a terra,
se lho não sustivessem as mãos de Estácio.
- Deixe-me morrer! murmurou ela.
- Não! bradou o mancebo.
Com um gesto rápido, tomou nos braços, estendido, o
corpo
exausto de Helena, e caminhou na direção da casa. O
vento
flagelava-os; a chuva, que subitamente caía a jorros,
alagava-os sem misericórdia; ele ia andando, o mais
depressa que lhe permitia o peso de Helena, cuja cabeça
pendia para a terra, e de cujos lábios brotavam trechos
soltos de frases sem sentido.
D. Úrsula viu entrar aquele doloroso espetáculo; correu
a
receber Helena, que Estácio depositou em um sofá, donde
foi transferida ao leito. A febre, já começada antes
dela
sair, tomara conta enfim da pobre moça. Um médico foi
chamado à pressa; o padre Melchior correu por baixo
dágua até à casa de Estácio. As
primeiras horas foram de
ansiedade e susto; o estado da doente era grave; assim o
disse o médico; assim o tinham sentido os corações
amigos.
D. Úrsula pagou naquela ocasião os serviços que,
em caso
análogo, lhe prestara Helena, mau grado o peso dos anos,
que lhe não permitiam longas vigílias nem aturado
trabalho. Velou a boa senhora à cabeceira da enferma
durante essa primeira noite de incerteza e terror.
Mendonça, que ali fora sem suspeitar nada, porque a
doença que lhe disseram ter padecido Helena, supunha ele
ser passageira, e em todo caso, estar quase extinta,
Mendonça recebeu essa triste notícia com a morte no
coração.
Durante sete dias o estado de Helena apresentou
alternativas que lançavam na alma dos seus a confiança
e
a desesperação. Algumas horas houve de delírio,
durante o
qual dois nomes volviam freqüentemente aos lábios da
enferma, - o de Estácio e o do pai. Nas horas da razão,
falava pouco, não proferia nenhum nome, salvo o de
Melchior que ela queria ver junto de si. O capelão
obedecia docilmente. Ao pé dela, via-a com pena, mas sem
desesperação; primeiramente, porque ele aceitava sem
murmúrio os decretos da vontade divina; depois, porque
não sabia ao certo se, em tal situação, era a
vida melhor
do que a morte. Em todo caso, consolava-a.
No quarto dia chegou a família de Camargo, e, sabendo da
doença de Helena, apressou-se a ir a Andaraí. Ao ver
Eugênia, a moça sorriu tristemente, lampejo de inveja
que
para logo se apagou e morreu no coração.
Estácio mal ousava entrar na alcova da doente e não
podia
viver fora dela. Sua aflição era patente. Ele prometia
a
si mesmo todos os sacrifícios em troca da vida de Helena,
espreitava uma esperança no rosto do médico, e
interrogava o coração da tia e do padre. Na noite do
sétimo dia da cena do jardim, D. Úrsula, que ficara
ao pé
de Helena, mandou chamar à pressa o sobrinho e o padre
Melchior, que estavam na sala contígua. Acorreram os
dois. Helena tivera uma síncope, que D. Úrsula cuidara
ser a morte. Voltando a si, leu a moça a sua sentença
no
rosto de todos três.
- Ainda não, murmurou ela; ainda não é a morte.
D. Úrsula chegou-se-lhe mais perto, beijou-a, disse-lhe
algumas palavras de conforto.
- Deixe estar, respondeu ela, deixe que eu não morro;
estou só muito doente.
Estácio buscou animá-la, mas a voz morreu-lhe às
primeiras expressões, e ele saiu. Melchior acompanhou-o.
- Uma coisa poderia talvez salvá-la, disse aflito o moço;
era a presença do pai. Vou mandá-lo procurar por toda
a
parte. Havemos de achá-lo; é preciso que o achemos.
Melchior aprovou a idéia do mancebo; e não lhe disse
que
o remédio viria talvez tarde, se viesse. Estácio ordenou
as coisas para a seguinte manhã. Voltaram à alcova da
enferma. Esta fechara os olhos, como se dormisse. Houve
então entre aquelas quatro paredes meia hora de silêncio,
interrompido apenas, de quando em quando, pelos
movimentos que a doente fazia, como a querer mudar de
posição. No fim deste tempo, abriu os olhos e murmurou
algumas palavras. Chegou o médico, viu-a e desenganou a
família.
Enquanto Melchior dava as ordens precisas para que Helena
tivesse os socorros espirituais, Estácio saiu dali, para
ir, longe, desabafar o desespero; desceu à chácara,
vagou
por ela delirante, a soluçar como uma criança, ora
abraçado a uma árvore, ora ajoelhado e pedindo a Deus
a
vida de Helena. O coração do moço não
conhecia o fervor
religioso; mas a imagem da morte deu-lhe o que a vida lhe
levara, e ele rezou, rezou sozinho, sem hipocrisia nem
dúvida. Mendonça veio achá-lo nessa luta derradeira
entre
a realidade e a esperança. Não o consolou; não
tinha
consolações que distribuir, porque também a dor
lhe
devastara o coração. Nos braços um do outro,
choraram o
mesmo bem que se lhes ia embora.
Um escravo veio chamar Estácio à pressa; ele subiu
trôpego as escadas, atravessou as salas, entrou
desvairado no quarto, e foi cair de joelhos, quase de
bruços, junto ao leito de Helena. Os olhos desta, já
volvidos para a eternidade, deitaram um derradeiro olhar
para a terra, e foi Estácio que o recebeu, - olhar de
amor, de saudade e de promessa. A mão pálida e
transparente da moribunda procurou a cabeça do mancebo;
ele inclinou-a sobre a beira do leito, escondendo as
lágrimas e não se atrevendo a encarar o final instante.
Adeus! - suspirou a alma de Helena, rompendo o invólucro
gentil. Era defunta.
A noite foi cruel para todos. D. Úrsula, profundamente
abatida pela dor e pelas vigílias, não consentiu, ainda
assim, que outras mãos amortalhassem Helena; ela mesma
lhe prestou esse derradeiro e triste obséquio. A morte
não diminuíra a beleza da donzela; pelo contrário,
o
reflexo da eternidade parecia dar-lhe um encanto
misterioso e novo. Estácio contemplou-a com os olhos
exaustos, o padre com os seus úmidos. Melchior suportara
a dor até ao momento da definitiva separação;
agora, que
a moça se ia de vez, deixou-se abater enfim, ao pé
daqueles pálidos restos, despojo último de generosas
ilusões.
No dia seguinte, prestes a sair o enterro, as senhoras
deram à donzela morta as despedidas derradeiras.
D. Úrsula foi a primeira que lhe prestou esse dever, seguiu-
se Eugênia e seguiram as outras. Estácio viu-as subir,
uma a uma, o estrado em que repousava a essa. Depois,
quando ia fechar-se o féretro, caminhou lentamente para
ele; trepou ao estrado, e pela última vez contemplou
aquele rosto, - sede há pouco de tanta vida, - e a coroa
de saudades que lhe cingia a cabeça, em vez de outra, que
ele tinha direito de pousar nela. Enfim, inclinou-se
também, e a fronte do cadáver recebeu o primeiro beijo
de
amor.
Fecharam o féretro; ao moço pareceu que o encerravam
a
ele próprio. Saindo o enterro, deixou-se Estácio cair
numa cadeira, sem pensar nada, sem sentir nada. Pouco a
pouco, despovoou-se a casa; os amigos saíram; um só
de
tantos ainda ali ficou, a lastimar consigo a noiva, tão
cedo prometida e tão cedo roubada. Esse mesmo saiu,
enfim, não ficando mais do que a família, cujo pai
espiritual era Melchior.
Sozinho com Estácio, o capelão contemplou-o longo tempo;
depois, alçou os olhos ao retrato do conselheiro, sorriu
melancolicamente, voltou-se para o moço, ergueu-o e
abraçou com ternura.
- Ânimo, meu filho! disse ele.
- Perdi tudo, padre-mestre! gemeu Estácio.
Ao mesmo tempo, na casa do Rio Comprido, a noiva de
Estácio, consternada com a morte de Helena, e aturdida
com a lúgubre cerimônia, recolhia-se tristemente ao
quarto de dormir, e recebia à porta o terceiro beijo do
pai.
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
<http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais
Texto-base digitalizado por:
Biblioteca Virtual da Prefeitura de Ribeirão Preto
<http://www.coderp.com.br>
Edição eletrônica produzida pela Costa Flosi
Ltda.
Revisão: Sandra Flosi / Edição: Edson Costa
Flosi
e Nabcy Costa
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