Helena
Machado de Assis
Capítulo XXV
- A mãe de Helena, disse Salvador, cuja beleza foi a
causa, a um tempo, da sua má e boa fortuna, era filha de
um nobre lavrador do Rio Grande do Sul, onde também
nasci. Apaixonamo-nos um pelo outro. Meu pai opôs-se ao
casamento; tinha alguns bens, mandara-me estudar, queria
ver-me em posição brilhante. Ângela podia ser obstáculo
à
minha carreira, dizia ele. Opôs-se e eu resisti; raptei-
a; fomos viver na campanha oriental, donde passamos a
Montevidéu, e mais tarde ao Rio de Janeiro. Tinha vinte
anos quando deixei a casa paterna; possuía alguns
estudos, poucos, meia dúzia de patacões, muito amor e
muita esperança. Era de sobra para a minha idade, mas
insuficiente para o meu futuro. A lua-de-mel foi desde
logo uma noite de privações e trabalhos. Minha vida
começou a ser um mosaico de profissões; aqui onde me
vêem, fui mascate, agente do foro, guarda-livros,
lavrador, operário, estalajadeiro, escrevente de
cartório; algumas semanas vivi de tirar cópias de peças
de papéis para teatro. Trabalhava com energia, mas a
fortuna não correspondia à constância, e o melhor dos
anos gastei-o em luta áspera e desigual. Uma compensação
havia, a mais doce de todas: era o amor e o contentamento
de Ângela, a igualdade do ânimo com que ela encarava
todas as vicissitudes. Pouco tempo depois da nossa fuga,
havia outra compensação mais: era Helena. Essa menina
nasceu em um dos momentos mais tristes da minha vida. Os
primeiros caldos da mãe foram obtidos por favor de uma
mulher da vizinhança. Mas nasceu em boa hora, e foi um
laço mais que nos prendeu um ao outro. A presença de um
ente novo, sangue do meu sangue, fez-me redobrar de
energia. Trabalhava com alma, lutava resoluto contra
todas as forças adversas, certo de encontrar à noite a
solicitude da mãe e as ingênuas carícias da filha. Os
senhores não são pais; não podem avaliar a força
que
possui o sorriso de uma filha para dissolver todas as
tristezas acumuladas na fronte de um homem. Muita vez,
quando o trabalho me tomava parte da noite, e eu, apesar
de robusto, me sentia cansado, erguia-me, ia ao berço de
Helena, contemplava-a um instante e parecia cobrar forças
novas. Se o próprio berço era obra de minhas mãos!
Fabriquei-o de alguns sarrafos de pinho velho; obra
grosseira e sublime; servia a adormecer metade da minha
felicidade na terra.
Salvador interrompeu-se comovido.
- Perdoem-me, continuou ele, depois de alguns instantes,
se estas memórias me abalam o coração. Eu era pobre,
tão
pobre como hoje. Desse tempo só resta um eco doloroso e
consolador. Crescia Helena e cresciam suas graças. Era o
encanto e a esperança do meu albergue. Quando pôde
aprender os rudimentos da leitura, dei-lhe as primeiras
lições; assisti pasmado à aurora daquela inteligência
que
os senhores vêem hoje tão desenvolvida e lúcida. Aprendia
com facilidade, porque estudava com amor. Ângela e eu
construíamos os mais lindos castelos do mundo. Nós a
víamos já mulher, formosa como viria a ser, porque já
o
era, inteligente e prendada, esposa de algum homem que a
adorasse e elevasse. Vivíamos dessa antecipação, que
era
apenas um sonho, e não sentíamos os golpes da fortuna.
- Por que razão, perguntou Melchior, dado esse amor e
nascida uma filha, não santificou o senhor a situação
em
que se achavam?
- A curiosidade é justa, replicou Salvador, mas a
resposta é decisiva. Casar era a nossa justificação;
era
um argumento contra o ressentimento de meu pai. Nos
primeiros dias da nossa fuga do Rio Grande, a própria
embriaguez da felicidade desviou qualquer idéia de
santificar e legalizar uma união consentida pela
natureza. Depois vieram os trabalhos e as necessidades.
Como eu tinha certeza de não fugir ao dever que tomara em
meus ombros, ia adiando o ato de mês para mês, de ano
para ano. Afinal o projeto esvaiu-se de todo. Estávamos
ligados pela miséria e pelo coração, não pretendíamos
o
respeito da sociedade; triste desculpa; e ainda mais
triste recordação, porque o casamento teria talvez
obstado os acontecimentos posteriores. Helena contava
seis anos. Minha fortuna, adversa sempre, com
intermitências favoráveis, parecia abrandar um pouco. Ia
encetar um novo meio de vida, quando uma circunstância
grave me chamou ao Rio Grande. Meu pai adoecera; mandava-
me o seu perdão, ordenando-me que o fosse ver sem demora.
Obedeci prontamente. Do que ele me remeteu para as
despesas de viagem e outras, deixei alguma coisa a Ângela
e Helena, e parti. Vinte e quatro horas depois de ver meu
pai, tive a dor de o perder. A liquidação dos negócios
foi curta; os bens todos ficaram pertencendo aos
credores; restavam-me alguns patacões. Recebi esse golpe
novo com a filosofia da insensibilidade. Quem sabe se não
era eu o culpado do acontecimento? Os negócios
entretanto, apesar de curtos, demoraram-me mais do que eu
pretendia e convinha. A ânsia de voltar cresceu, desde
que não recebi a resposta das últimas cartas que escrevi
a Ângela. Enfim, pude regressar ao Rio de Janeiro com um
luto mais e uma esperança menos. Neste ponto entra a
pessoa de seu pai.
Estácio desviou os olhos.
- Logo que cheguei, continuou Salvador, corri à casa;
achei-a fechada. Um vizinho, testemunha da minha aflição,
deu-me notícia de que Ângela se mudara para São
Cristóvão. Não sabia nem o número nem a rua;
mas deu-me
algumas indicações que me guiaram. Ainda hoje tenho ante
os olhos o sorriso com que aquele homem me respondia. Era
um sorrir de compaixão que humilhava. Sem nunca haver
recebido de mim a menor ofensa, vejo que ele tinha um
prazer secreto com o meu infortúnio. Por quê? Deixo aos
filósofos liquidarem esse enigma da natureza humana. Voei
a São Cristóvão; gastei tempo em procurar a casa, mas
dei
com ela. Quando a vi, duvidei de meus olhos ou das
indicações. Era uma casa elegante, escondida entre o
arvoredo, no meio de um pequeno jardim. Podia ser aquela
a residência da companheira de minha miséria? Receoso de
ir bater ali, vi assomar ao portão um homem, que me
pareceu ser o jardineiro. Perguntei pela dona da casa, a
quem dei o seu próprio nome, dizendo que lhe desejava
falar. "A senhora saiu", respondeu ele distraidamente.
Dispus-me a esperar, mas o jardineiro observou-me que ia
sair e fechar o portão, e que a senhora só voltaria à
noite. "Esperarei até à noite", redargüi. O
jardineiro
mediu-me de alto a baixo, circulou um olhar cauteloso
pela rua e disse-me baixinho: "Aconselho ao senhor que
não volte; o patrão não há de gostar."
Não escrevo um
romance; dispenso-me de lhes pintar o efeito que
produziram essas palavras. O que senti excede a toda a
descrição. Há catástrofes mais solenes, há
situações mais
patéticas; mas naquela ocasião parecia-me que todas as
dores do mundo se tinham convergido para meu coração. O
jardineiro era verdadeiramente compassivo; lendo em meu
rosto o efeito de suas palavras, disse-me alguma coisa de
que absolutamente não me lembro. Convidou-me com brandura
a sair; obedeci maquinalmente. Podendo informar-me acerca
de Ângela, não o fiz. A febre reteve-me três dias de
cama, numa pobre cama alugada em péssima estalagem da
Cidade Nova. No terceiro dia recebi uma carta de Ângela.
Pedia-me que lhe perdoasse o passo que dera; que uma
paixão nova e delirante a havia guiado, e que, se viesse
a arrepender-se, seria essa a minha vingança. Quando li a
carta, tive ímpeto de ir ter com ela e esganá-la; mas o
ímpeto passou, e a dor desfez-se em reflexões. Poucos
dias antes, a bordo, um engenheiro inglês que vinha do
Rio Grande para esta Corte, emprestara-me um volume
truncado de Shakespeare. Pouco me restava do pouco inglês
que aprendi; fui soletrando como pude, e uma frase que
ali achei fez-me estremecer, na ocasião, como uma
profecia; recordei-a depois quando Ângela me escreveu.
"Ela enganou seu pai, diz Brabantio a Otelo, há de
enganar-te a ti também." Era justo; pelo menos, era
explicável. Dois dias depois da carta de Ângela, escrevi-
lhe pedindo meia hora de conversação; nada mais. Ângela
concedeu-me a entrevista. Meu plano era arrebatar-lhe
Helena; ela parece que o previu, recebendo-me sozinha, no
jardim, às nove horas da noite.
- Por que razão recorda todas essas minúcias? interrompeu
Melchior com brandura; nós desejamos somente saber o
essencial.
- Tudo é essencial na minha narração, disse Salvador.
Aquela entrevista mostrou-me a toda a luz o caráter de
Ângela. Que outra mulher se arriscaria, em tais
circunstâncias, a afrontar a cólera do homem desprezado?
Ângela era um complexo de qualidades singulares. Capaz de
suportar as maiores angústias, forte e risonha no meio
das máximas privações, esqueceu num instante as virtudes
que tinha para correr atrás de uma fantasia de amor. Não
foi a riqueza que a seduziu; ela iria, ainda que tivesse
de trocar a riqueza pela miséria. Ângela nasceu metade
freira e metade bailarina; capaz das austeridades de um
claustro, não o era menos das pompas da cena. E daí...
não fui eu mesmo que a desviei da estrada real para metê-
la por um atalho obscuro? Disse-lho naquela noite em que
procurei ser tranqüilo e superior aos acontecimentos.
"Meu fim, declarei eu, é só um: levar Helena; Helena
é
minha filha, não quero deixá-la entregue a seus maus
exemplos." As lágrimas com que me banhou as mãos, as
rogativas que me fez, ajoelhada a meus pés, para que lhe
deixasse Helena, não há negar que foi tudo sincero. Cedi
aparentemente. Minha resolução estava assentada; sem
Helena, a vida parecia-me impossível. Que outro vínculo
me prendia ao mundo? A morte e a miséria tinham feito em
redor de mim completa solidão. A única felicidade
sobrevivente era ela.
- Segundo rapto, observou o padre. O senhor condenava-se
a só adquirir um vislumbre de felicidade por meios
violentos.
- Tem razão, respondeu Salvador com tristeza; um abismo
chamava outro abismo. Felizes os que sabem o caminho reto
da vida e nunca se arredaram dele! Quis arrebatar Helena;
espreitei-a noite e dia. Não a via nunca; a própria casa
rara vez tinha uma porta ou janela aberta. Havia ali o
recato e o mistério. Um dia resolvi ir ter com o protetor
de Ângela. A notícia que me deram do conselheiro Vale era
a mais honrosa do mundo. Assentei que me ouviria e
cederia a meus justos rogos. O demônio do orgulho impediu
a execução do plano. Quase a entrar em casa do
conselheiro, recuei. Decorreram assim cerca de dois
meses. Emagreci; as longas vigílias fizeram-me pálido; o
trabalho não me atraía; cheguei a padecer fome. O poeta
que disse que a saudade é um pungir delicioso, não
consultou meu coração. Acerbo o achei eu; é certo que
a
ela misturava-se a cólera, a cólera da impotência e
o
desgosto mortal do abandono. Um dia, dirigi-me para São
Cristóvão, disposto a empregar a violência, contanto
que
trouxesse Helena ou fosse dali para o aljube. Era à
tardinha. Aproximei-me do jardim de Ângela, ouvi a voz de
minha filha. Era a primeira vez depois de longos meses!
Parou-me o sangue todo. Passado o primeiro abalo,
caminhei cauteloso, encostado à cerca; Helena falava a
alguém. Por uma abertura da cerca, pude espreitá-la.
Estava ao colo de um homem. Esse homem era o conselheiro.
Olhei para um e outro; ora para o meu rival, ora para a
minha Helena. Helena acariciava as barbas dele; este
sorria para ela com um ar de ternura, que o absolvia
quase da ofensa a mim feita. O coração, porém, apertou-
se-me, ao ver dar a outro afagos a que só eu tinha
direito. Era um roubo feito à natureza; mas, se meu
próprio sangue me repudiava, que podia eu exigir de
alheios corações? Daí a algum tempo, - não sei
se foi
curto ou longo, porque eu ficara a olhar para ambos,
pasmado de amor e de cólera, ouvi que falavam de mim.
"Mas, olhe, dizia Helena, papai quando vem?" O
conselheiro deu um beijo na menina, e falou de uma
borboleta que nesse momento pairava sobre a cabeça dela.
As crianças, porém, são implacáveis; aquela
repetiu a
pergunta. "Papai não volta", respondeu o conselheiro.
Helena ficou séria. "Não volta? por quê?"
"Tua mamãe
disse ontem que papai está no céu." Helena levou as mãos
aos olhos, donde lhe rebentaram lágrimas copiosas. Uma
nuvem passou-me pelos olhos... tentei dar alguns passos,
entrar no jardim, dizer quem era e exigir minha filha. Os
músculos não corresponderam à intenção;
senti fraqueza
nas pernas; achei-me de bruços. Quando dei acordo de mim,
volvi de novo os olhos para o lugar onde os vira. Ainda
ali estavam, mas a atitude era diferente. O conselheiro
erguera-se, tendo nos braços Helena, que já não chorava.
Ele beijava-lhe as mãozinhas e dizia-lhe: "Se papai foi
para o céu, fiquei eu no lugar dele, para dar-te muito
beijo, muito doce e muita boneca. Queres ser minha
filha?" A resposta de Helena foi a do náufrago; estendeu-
lhe os braços em volta do pescoço, como se dissesse: "Se
não tenho ninguém mais no mundo!" O gesto foi tão
eloqüente que eu vi borbulhar uma lágrima nos olhos do
conselheiro. Essa lágrima decidiu do meu destino; vi que
ele a amava, e de todos os sacrifícios que o coração
humano pode fazer, aceitei o maior e mais doloroso:
eliminei a minha paternidade, desisti da única herança
que tinha na terra, força da minha juventude, consolo de
minha miséria, coroa de minha velhice, e voltei à solidão
mais abatido que nunca!
Salvador interrompeu a narração; levou a mão direita
aos
olhos; por entre seus dedos escorreram algumas lágrimas,
que ele, de envergonhado, enxugou rapidamente.
- Essas recordações são penosas, disse o padre; não
convém despertá-las de uma vez; seria abrir feridas que o
tempo cicatrizou. Sabemos o essencial...
- Não, resta ainda alguma coisa, disse Salvador.
Estácio erguera-se visivelmente comovido, procurava lutar
contra o sentimento que o dominava, a fim de conservar a
necessária independência de espírito para julgar da
narrativa e do alcance que ela podia ter. Tinha
involuntariamente apertado a mão de Salvador, ao escutar-
lhe as últimas palavras; e arrependera-se desse primeiro
movimento, que podia parecer uma absolvição sumária.
A
verdade é que ele não refletia nem sentia claramente: a
mente e o coração eram um campo de idéias e comoções
contrárias.
- Vou acabar, disse Salvador, depois de alguns minutos.
Resta explicar o procedimento de Helena.
Capítulo XXVI
- Seu pai, continuou Salvador dirigindo-se a Estácio,
que, para acabar de compor o rosto, tinha ido até à
janela e voltara a sentar-se, - seu pai era honrado e
cavalheiro. Arrebatando-me Ângela, não me traiu, porque
não me vira nunca; não contribuiu diretamente para a
traição dela, porque supunha cortadas nossas relações.
Soube depois que Ângela, quando eles se apaixonaram um
pelo outro, lhe ocultara completamente o motivo da minha
viagem; dera-se como separada de mim. Mentiu, como mentiu
mais tarde, dizendo que eu havia morrido. O conselheiro
não sabia sequer o meu nome. A mentira no primeiro caso
não teve fim nenhum; não houve cálculo; foi uma sugestão
de amor ou um esquecimento; foi, talvez, um modo de
respeitar-me; no segundo caso, houve cálculo: era o de
redobrar o afeto que o conselheiro tinha a Helena. Assim
aconteceu, porque o conselheiro sentiu-se pai de Helena,
e assumiu esse caráter desde aquela tarde. Do contrato,
feito ali entre o homem e a criança, cumpriu ele todas as
cláusulas com generosa pontualidade. Pode crer que lhe
fiquei profundamente grato. Uma vez, passando por uma
litografia, vi um retrato dele; comprei-o e conservo-o
ali ao lado do de Helena.
Melchior e Estácio olharam para a parede, onde pendiam
dois quadrinhos, ainda cobertos, conforme Estácio os
vira, no primeiro dia que ali foi.
- Os meses e os anos passaram, continuou Salvador. Helena
deu entrada em um colégio de Botafogo, onde recebeu
apurada educação. O conselheiro a levou ali, dando-a como
órfã de um amigo de Minas; Ângela, que se dera por sua
tia, ia buscá-la aos sábados. Omito mil circunstâncias
intermediárias, e às vezes, poucas, em que puder ver
minha filha, de passagem e a ocultas. Se o tempo houvesse
produzido em mim os seus naturais efeitos, e se a
natureza não se ajustasse em fazer contraste com a
fortuna, conservando-me o vigor e o viço da mocidade, é
possível que eu achasse meio de empregar-me no colégio ou
nas imediações, a fim de ver mais freqüentemente Helena.
Mas eu era o mesmo; passado o primeiro abalo, voltaram-me
as carnes, voltou-me a cor, e eu era o mesmo que antes de
partir para o Rio Grande. Helena podia reconhecer-me; e
eu faltava à convenção tácita que fizera com
o
conselheiro. Um sábado, porém, tinha Helena doze anos,
vindo ambas do colégio, parou o carro defronte do Passeio
Público. Vi-as descer e entrar. Levado por um impulso
irresistível, entrei também. Queria contemplá-las de
longe, sem lhes falar; mas a resolução estava acima das
minhas forças. Que pai não faria outro tanto? No lugar
mais solitário do Passeio, corri para Helena. Vendo-me, a
menina pareceu não reconhecer-me logo; mas atentou um
pouco, recuou espavorida e agarrou-se à mãe, abraçando-a
pela cintura. Conheci que não estava ali um pai, mas um
espectro que regressava do outro mundo. Ia afastar-me,
quando ouvi a voz de Helena perguntar à mãe: "Papai?"
Voltei-me. Ângela envolvera o rosto da criança entre os
vestidos. O gesto equivalia a uma confissão; mas esta foi
ainda mais clara quando a mãe, cedendo à boa parte da sua
natureza, ergueu resoluta os ombros, descobriu o rosto da
filha, pousou-lhe um beijo na testa, fitou-a e fez com a
cabeça um gesto afirmativo. A menina não exigiu mais:
correu para mim e atirou-se-me nos braços. Ângela não
se
atreveu a impedir o movimento da filha; o passado e o
sacrifício falavam em meu favor. Abracei Helena e beijei-
a como doido. Ângela interveio: "Basta!" disse ela. Pegou
na mão da filha e estendeu-me a sua. Apertei-a
maquinalmente; meus olhos estavam pregados na criança.
Era tão gentil, com o vestido rico que trazia, os cabelos
enlaçados com fitas azuis, um chapelinho de palha e os
pezinhos calçados com botinas de seda! "Fez bem, disse eu
a Ângela, depois de alguns instantes; deu-lhe um pai
melhor do que eu." Reparei então que ela própria, se
transformara; trajava com elegância e estava
superiormente bela. A abastança aperfeiçoara a natureza.
Olhei-a sem inveja nem cólera, - mas com saudade, - dessa
vez deliciosa, porque rememorei os bons tempos da nossa
ebriedade e loucura. O passado é um pecúlio para os que
já não esperam nada do presente ou do futuro; há ali
sensações vivas que preenchem as lacunas de todo o tempo.
"Fez mal", disse-me ela baixinho. E suspirou. "Sei que
morri, disse eu, e não pretendo ressuscitar." Depois
voltei-me para Helena: - "Minha filha, faze de conta que
me não viste; morri para ti e para o mundo. Teu pai é
outro. Prometes que não dirás nada?" Helena fez um leve
sinal de cabeça e beijou-me a mão a furto, como se não
quisesse ser vista de Ângela. Nesse simples gesto
reconheci que ela ia obedecer-me; mas a tristeza que lhe
ficou, foi o castigo de sua mãe. Pedíamos à natureza
mais
do que ela podia dar.
Salvador fez uma pausa, ergueu-se, foi à cômoda, e de uma
das gavetas tirou uma caixinha, que colocou sobre a mesa.
Melchior e Estácio trocaram um olhar de curiosidade.
Salvador sentara-se de novo.
- Ângela morreu, prosseguiu ele, daí a um ano. Seu pai e
alguns amigos, poucos, foram levá-la à sepultura. Também
eu lá me achei. A diferença é que ele enterrava uma
aventura, e eu via enterrar o meu passado. Vi-o triste e
taciturno, como sinceramente pesaroso da criatura que
perdera. Helena, entretanto, não podendo estar só na
mesma casa, foi removida para o colégio, onde ficou
residindo definitivamente. O conselheiro ia visitá-la
todas as semanas. Pela minha parte, certo da discrição de
minha filha, encetei com ela uma correspondência que era
toda a consolação que me podia caber. Uma escrava do
colégio servia de intermediária entre nós. Então
como
hoje, achei uma alma compassiva que me ajudou a ser feliz
com mistério; a diferença é que naquele tempo era precisa
a intervenção pecuniária. Eu tinha pouco, mas dava
o
jantar de um dia para ler cartas de Helena. Conservo-as
todas, tanto as de outrora como as destes últimos meses;
estão fechadas aqui.
Salvador mostrou a caixinha que colocara sobre a mesa.
- Um dia, almoçando em um botequim, li a notícia da morte
do conselheiro. O fato consternou-me; mas eu peço licença
para lhes dizer tudo: de envolta com o sentimento de
pesar, houve em mim alguma coisa semelhante a uma
satisfação. Respirava enfim! O contrato expirava com ele;
eu ia entrar na posse de minha filha. Não escrevi desde
logo a Helena; fi-lo ao cabo de alguns dias. Tive duas
respostas: a primeira era no sentido da minha carta; a
segunda anunciava-me que o conselheiro a reconhecera por
testamento. Podia procurar e ler-lhes a segunda carta: é
um documento da elevação dos sentimentos daquela menina.
Exprimia-se com a maior gratidão e saudade a respeito do
conselheiro; mas negava-se a aceitar o favor póstumo.
Sabendo a verdade, não queria escondê-la ao mundo.
Aceitando o reconhecimento, entendia que prejudicava
direitos de terceiro, além de repudiar-me solenemente, o
que não queria fazer desde que adquiria a liberdade de
ação. Entre a herança e o dever, dizia ela, escolho
o que
é honesto, justo e natural. Esta carta tirou-me o sono
uma noite inteira, perplexo como fiquei entre o ato do
finado e a resolução da herdeira. Que mão invisível
tocara no coração do conselheiro essa corda de
sensibilidade? Melhor fora que ele houvesse traduzido em
uma simples lembrança a afeição que tinha a Helena.
Longo
tempo refleti nisso; o pai lutava com o pai. Tê-la comigo
era a minha ventura, o meu sonho, a minha ambição; era a
realidade que eu chegara a tocar com as mãos. Mas, podia
atá-la ao carro decrépito da minha fortuna, dar-lhe o pão
amargo de todos os dias? A família do conselheiro ia
afiançar-lhe futuro, respeito, prestígio; a lei ia
ampará-la. Perguntei a mim mesmo se, depois de haver
morrido para o mundo, me era lícito ressuscitar para
reclamar e reaver um título de que me havia despojado;
finalmente, se possuía já o direito de fazer um
escândalo. Estas reflexões, se viessem sós, teriam
triunfado desde logo; mas em oposição a elas, vieram as
sugestões do coração. Adverti que, cedendo à
vontade do
morto, cavaria um abismo entre mim e Helena, e que não
mais, ou só raramente e a ocultas, podia desfrutar a
felicidade de lhe dizer que a amava, de ouvir a mesma
palavra de seu coração. Nessa luta gastei três longos
dias. Helena escreveu-me outra carta, insistindo na
resolução que dizia haver tomado. Urgindo responder-lhe,
fi-lo sacrificando-me. Não a convenci. Procurei ter uma
entrevista com ela. Não era fácil; mas o interesse venceu
tudo; a escrava intermediária aumentou o preço da
complacência. O que se passou entre nós não o poderei
repetir agora; curto era o prazo concedido, mas a luta
foi renhida e longa. Busquei persuadi-la com reflexões e
súplicas; ela resistiu com indignação e lágrimas.
A nobre
alma repudiava a cumplicidade e o lucro de uma usurpação.
Eu não via usurpação, porque a meus olhos nem os
interesses da família do conselheiro, nem as noções
da
simples moral prevaleciam; eu via minha filha e seu
futuro: nada mais. Talvez os culpados desse meu proceder
fossem somente Ângela e seu benfeitor. Eles me
acostumaram a amá-la de longe, a não disputar a outrem o
benefício que ela recebia. Enfim, meu coração egoísta
e
ulcerado, entendia que o reconhecimento daquela pobre
criança era o simples retorno das carícias de que eu
havia sido defraudado; tais foram os motivos da minha
consciência. Helena resistiu até à última; cedeu
somente
à necessidade da obediência, à imagem de sua mãe
que eu
envoquei, como um supremo esforço, à fiança que lhe
dei
de que a acompanharia sempre, de que iria viver perto
dela, onde quer que o destino a levasse; cedeu exausta,
sem convicção nem fervor. Se nesse ato decisivo de Helena
há culpa, é toda minha, porque, eu fui o autor único;
ela
não passou de simples instrumento, instrumento rebelde e
passivo. Seu erro foi não ter a prudência necessária
para
não transpor o abismo que nos separava. Eu devia contar
com as resoluções súbitas e prontas dessa menina; há
ali
uma costela de sua mãe. Mandando-lhe dizer, com as
indicações precisas, onde morava, estava longe de esperar
que ela viesse ver-me. A princípio fiquei aterrado com as
possíveis conseqüências; mas se o homem se habitua ao
mal
e à dor, por que se não há de acostumar ao prazer e
ao
bem? Helena veio mais vezes; o gosto de a ver fez olvidar
o perigo, e eu bebi, em horas escassas e furtivas, a
única felicidade que me restava na terra, a de ser pai e
a de me sentir amado por minha filha.
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