Helena
Machado de Assis
Capítulo XXI
Poucos instantes esperou Estácio. Veio um homem abrir-lhe
a porta; era o mesmo que ele vira ali uma vez. Entre
ambos houve meio minuto de silêncio, durante o qual nem
Estácio se lembrou de dizer o que queria, nem o
desconhecido de lhe perguntar quem era. Olhavam um para o
outro.
- Que desejava? disse enfim o dono da casa.
- Um favor, respondeu Estácio, mostrando-lhe a mão
ferida. Ia a cair há pouco; procurando amparar-me, numa
cerca de espinhos, feri-me, como vê. Podia dar-me um
pouco dágua para lavar este sangue, e...
- Pois não, interrompeu o outro. Queira sentar-se aí no
banco, ou, se prefere, entrar... É melhor entrar,
concluiu, abrindo-lhe caminho.
Em qualquer outra ocasião, Estácio teria recusado o
convite, porque o espetáculo da pobreza lhe repugnava aos
olhos saturados de abastança. Agora, ardia por haver a
chave do enigma. Entrou. O desconhecido abriu uma das
janelas para dar mais alguma luz, ofereceu ao hóspede a
melhor cadeira e foi por um instante ao interior.
Estácio pôde então examinar, à pressa, a sala
em que se
achava. Era pequena e escura. A parede, pintada a cola já
de longa data, tinha em si todos os sinais do tempo;
primitivamente de uma só cor, a pintura apresentava agora
uma variedade triste e desagradável. Aqui o bolor, ali
uma greta, acolá o rasgão produzido por um móvel; cada
acidente do tempo ou do uso dava àquelas quatro paredes o
aspecto de um asilo da desgraça. A mobília era pouca,
velha, mesquinha e desigual. Cinco ou seis cadeiras, nem
todas sãs, uma mesa redonda, uma cômoda e uma marquesa,
um aparador com duas mangas de vidro cobrindo castiçais
de latão, sobre a mesa um vaso de louça com flores, e na
parede dois pequenos quadros cobertos de escumilha
encardida, tais eram as alfaias da sala. Só as flores
davam ali um ar de vida. Eram frescas, colhidas de pouco.
Atentando nelas, Estácio estremeceu: pareceu-lhe
reconhecer uma acácia plantada em sua chácara. Quando a
suspeita germina na alma, o menor incidente assume um
aspecto decisivo. Estácio sentiu um calafrio.
Voltou o dono da casa, trazendo nas mãos uma bacia, e nos
braços uma toalha, cuja alvura contrastava singularmente
com a cor da parede e o aspecto senil da casa. Estácio
ergueu-se.
- Deixe-se estar, disse o desconhecido.
- Estou perfeitamente bem.
- Nesse caso, faça o favor de chegar à janela.
A bacia foi posta na janela; o desconhecido quis lavar
ele próprio a mão do hóspede; o moço não
lho consentiu.
- Ao menos, disse o dono da casa, há de consentir que a
enxugue. Eu entendo um pouco disto; infelizmente, não
tenho aqui nenhum medicamento caseiro para aplicar.
Estácio aceitou o oferecimento. O dono da casa abriu a
toalha e começou cuidadosamente a operação. O sobrinho
de
D. Úrsula pôde então examiná-lo à vontade.
Era um homem de trinta e seis a trinta e oito anos, forte
de membros, alto e bem proporcionado. Uma cabeleira
espessa e comprida, de um castanho escuro, descia-lhe da
cabeça até quase tocar nos ombros. Os olhos eram grandes,
e geralmente quietos, mas riam, quando sorriam os lábios,
animando-se então de um brilho intenso, ainda que
passageiro. Havia naquela cabeça, - salvo as suíças,
-
certo ar de tenor italiano. O pescoço, cheio e forte,
surgia dentre dois ombros largos, e, pela abertura da
camisa, que um lenço atava frouxamente na raiz do colo,
podia Estácio ver-lhe a alva cor e a rija musculatura.
Vestia pobre, mas limpamente, um rodaque branco, calça de
ganga e colete de brim pardo. O vestuário, disparatado e
mesquinho, não diminuía a beleza máscula da pessoa;
acusava somente a penúria de meios.
Quando acabou de lavar os arranhões de Estácio, - eram
pouco mais do que isso, - propôs-se a ir buscar um pedaço
de pano. Estácio, com a outra mão e os dentes, rasgou o
lenço que trazia, e o dono da casa completou o sumário
curativo.
- Pronto! disse ele. Se tiver em casa algum medicamento
apropriado, será conveniente aplicá-lo. Toda a cautela é
pouca; convém evitar alguma inflamação.
- Obrigado, respondeu Estácio. Realmente, vim dar-lhe uma
maçada, sem grande necessidade, talvez...
- Por quê?
- Podia fazer isto mesmo quando chegasse à casa.
- Mora perto?
- Um pedaço abaixo.
- Foi conveniente curar já; nenhuma precaução é
inútil em
coisa nenhuma da vida.
- Máxima de prudência, observou Estácio, procurando
sorrir.
- Que só aprende tarde quem a não traz na massa do
sangue, replicou o outro, suspirando.
A não ser indiscreto ou falador, era difícil levar a
conversa por diante. O favor estava feito, o assunto
esgotado. Restava agradecer, despedir-se e sair. Estácio,
entretanto, tinha necessidade de mais tempo; queria
arrancar àquele homem uma palavra menos indiferente à
situação, ou conhecer-lhe, se fosse possível, o caráter
e
os costumes. Para isso havia, talvez, um meio;
contrafazer-se, empregar maneiras estranhas às suas,
apegar-se à ocasião por todas as bordas. Estácio,
determinou-se a isso, confiando o resto ao acaso. Voltou
à cadeira e sentou-se.
- Consente que descanse um pouco? Estou fatigadíssimo.
- Não pelo que caçou, disse o desconhecido, rindo.
- Volto com as mãos abanando. Nunca fui bom caçador, e
tenho, não obstante, a mania de atirar aos pássaros.
- Não é esse o defeito de muita outra gente, em mais
elevada ordem de coisas? Eu fui vítima desse defeito
mortal.
- Ah! exclamou Estácio com certa entonação interrogativa.
O dono da casa sorriu levemente, mas não pareceu molestá-
lo a curiosidade do hóspede; talvez mesmo não desejasse
outra coisa.
- É verdade, disse ele; devo a minha atual penúria ao
erro de teimar em coisas estranhas à minha índole e
aptidão, estranhas e totalmente opostas...
- Há de perdoar-me, interrompeu Estácio com um ar de
familiaridade indiscreta, que lhe não era habitual; eu
creio que um homem forte, moço e inteligente não tem o
direito de cair na penúria.
- Sua observação, disse o dono da casa sorrindo, traz o
sabor do chocolate que o senhor bebeu naturalmente esta
manhã antes de sair para a caça. Presumo que é rico.
Na
abastança é impossível compreender as lutas da miséria,
e
a máxima de que todo o homem pode, com esforço, chegar ao
mesmo brilhante resultado, há de sempre parecer uma
grande verdade à pessoa que estiver trinchando um peru...
Pois não é assim; há exceções. Nas coisas
deste mundo não
é tão livre o homem, como supõe, e uma coisa, a que
uns
chamam mau fado, outros concurso de circunstância, e que
nós batizamos com o genuíno nome brasileiro de
caiporismo, impede a alguns ver o fruto de seus mais
hercúleos esforços. César e sua fortuna! Toda a sabedoria
humana está contida nestas quatro palavras.
O desconhecido proferiu isto com o tom mais simples e
natural do mundo, e uma facilidade de elocução que
Estácio mal lhe podia supor. Era aquilo uma comédia ou a
expressão da verdade? Estácio olhou fixamente para ele,
como a querer penetrá-lo. Ao mesmo tempo, ouviu-se um
rumor na parte da casa que ficava além da sala; Estácio
voltou a cabeça com um gesto de desconfiança. A porta
abriu-se e apareceu uma preta velha trazendo nas mãos uma
bandeja. A criada estacou a meio caminho.
- Põe em cima da mesa, disse o dono da casa. É o meu
almoço, continuou ele, voltando-se para Estácio; almoço
parco e higiênico. Ousarei oferecer-lho?
Estácio fez um gesto negativo, e dispôs-se a sair.
- Já! Não é meu intento despedi-lo; almoçarei
conversando. Vivo tão solitário que a presença de alguma
pessoa é para mim um encanto.
Estácio aceitou sem dificuldade o convite; sentou-se
defronte do homem, ao pé da mesa, e assistiu ao almoço,
que não podia ser mais escasso: um pão, duas hóstias
de
queijo duro e uma chávena de café. O que mais valia era o
contentamento do dono da casa e a franqueza com que
ostentava aos olhos de um estranho a simplicidade de seus
hábitos.
- Não é refeição de príncipe, dizia ele,
mas satisfaz
todas as ambições de um estômago sem esperança.
Aqui é a
sala de visitas e a sala de jantar; a cozinha é contígua;
além, ficam duas braças de quintal; para lá do quintal...
o infinito da indiferença humana.
E depois de um silêncio:
- Não digo bem, emendou ele; nem sempre acho indiferença.
Meu trabalho não me dá mais do que escasso pão de cada
dia; mas tenho algumas alegrias, no meio de minha
perpétua quaresma; e essas recebo-as de mãos caridosas e
puras.
Dizendo isto, o desconhecido esgotou a chávena, e
reclinou-se sobre a cadeira, fitando em cheio a cara do
hóspede. Estácio refletiu nas últimas palavras, e um
raio
de esperança veio rasgar-lhe a nuvem que lhe entenebrecia
a fronte. Os dois homens pareciam interrogar-se. O filho
do conselheiro sacou do bolso um charuto e ofereceu-o ao
dono da casa.
- Obrigado, disse este.
- Não fuma?
- Já fumei; hoje economizo esse vício. Nem por isso faço
mais lentamente a digestão.
- Mora só?
- Só.
- Não tem família?
- Nenhuma.
- Há de achar-me singularmente indiscreto....
- Não; suponho que a sua curiosidade tem uma causa
honrosa e legítima.
- Acertou; o senhor inspira-me simpatia. E se eu
conhecesse alguma dessas mãos puras, que lhe emendam as
lacunas da sorte...
- Dar-me-ia, por intermédio delas, o seu óbolo?
- Se o não ofendesse...
- Não ofendia, mas eu recusava, se soubesse; peço-lhe
desde já que o não faça às escondidas...
Estácio fez um gesto de assentimento.
- Não é orgulho, continuou o dono da casa; é um resto
de
pudor que a pobreza me não tirou ainda. Fiz-lhe agora um
obséquio, um simples dever de vizinho... Pareceria que o
senhor mo pagava com um benefício. O benefício seria
menos espontâneo de sua parte e menos agradável para mim.
Agradável não exprime, talvez, toda a minha idéia;
mas o
senhor facilmente compreenderá o que quero dizer.
- Entendeu-me mal; o meu óbolo não seria na espécie
a que
o senhor alude. Tenho amigos e alguma influência; poderia
arranjar-lhe melhor posição...
O desconhecido refletiu um instante.
- Aceitaria? perguntou Estácio.
- Estou pensando na maneira de recusar. Ouro é o que ouro
vale. Eu vexar-me-ia eternamente de dever qualquer
melhora da sorte ao cumprimento de um dever de caridade.
- Já me não admira a vida pobre que tem tido.
- Excessivo escrúpulo, talvez?...
- Escrúpulo desarrazoado.
- Antes demais que de menos.
- Nem de menos nem demais; mas, só a porção justa.
- A porção varia, conforme as necessidades morais de cada
um. Mas eu mesmo, que lhe estou a falar, nem sempre tive
esta virtude intratável; e porventura alguma vez
fraqueei...
A fronte do desconhecido tornou-se sombria; a voz morreu-
lhe nos lábios, e os olhos caíram naquela atonia que
exprime uma grande concentração de espírito. Era ocasião
de interrogá-lo diretamente ou sair. Estácio preferiu o
último alvitre.
- Não o quero demorar mais, disse o dono da casa, quando
o mancebo proferiu as palavras de despedida. Já é tarde,
e sua mãe talvez esteja ansiosa...
Estácio limitou-se a olhar para ele em cheio, dizendo:
- Se alguma vez resolver dar de mão a seus escrúpulos,
mande procurar-me. Minha casa é conhecida em todo Andaraí
pela casa do conselheiro Vale...
O desconhecido, em cujo rosto Estácio esperou ver um
sinal qualquer de abalo ou surpresa, conservou-se
impassível e risonho. Curvou-se em sinal de
agradecimento; e como Estácio hesitasse em estender-lhe a
mão, ele meteu as suas nas algibeiras.
- Talvez nos vejamos ainda, disse Estácio já fora da
porta.
- Sim?
- Passeio algumas vezes por estes lados.
- Nem sempre estou em casa; mas, ainda estando, conservo
fechadas as portas. Quando quiser descansar, bata; a casa
é pobre, mas será amiga.
Estácio afastou-se rapidamente. Eram dez horas, e o sol
aquecia; ele não deu pelo sol nem pelo tempo. Semelhante
ao transviado florentino, achava-se no meio de uma selva
escura, a igual distância da estrada reta, - diritta via
- e da fatal porta, onde temia ser despojado de todas as
esperanças. Nada sabia, nada conjeturava; eram tudo novas
dúvidas e oscilações. O homem com quem acabava de
conversar, parecia-lhe sincero; a pobreza era autêntica,
sensível a nota de melancolia que, por vezes, lhe
afrouxava a palavra. Mas, onde cessava ali a realidade e
começava a aparência? Vinha de tratar com um infeliz ou
um hipócrita? Estácio rememorou todos os incidentes da
manhã, e todas as palavras do desconhecido; eram outros
tantos pontos de interrogação suspeitos e irrespondíveis.
Repelia com horror a idéia do mal: custava-lhe a aceitar
a idéia do bem; e a pior das angústias, - a dúvida,
-
continha-o todo e agitava-o em suas mãos felinas. O sol e
a agitação alastravam-lhe a testa de pérolas de suor;
ao
ofego da marcha apressada juntava-se o da violenta
comoção. Estácio não via os objetos que ia costeando,
nem
as pessoas que lhe passavam ao lado; ia cego e surdo, até
que o choque da realidade o despertasse.
Chegou enfim à casa. Ao portão estava um escravo, a quem
deu a espingarda. A demora causara alguma inquietação à
família; logo que as duas senhoras souberam de seu
regresso, correram a recebê-lo, ficando D. Úrsula a uma
janela, e descendo Helena até meio caminho. A aparição
súbita da moça, a alegria e o amor, que pareciam impeli-
la, a perfeita ingenuidade do gesto, tudo produziu nele a
necessária reação, - reação de um instante,
- mas
salutar, porque a crise era demasiado violenta. Estácio
apertou as mãos da moça com energia. Um fluido sutil
percorreu as fibras de Helena, e aquele rápido instante
teve toda a doçura de uma reconciliação.
Estácio contava recolher-se ao quarto para pôr em ordem
as idéias, compará-las, extrair uma conjetura, pelo
menos, e verificá-la ou desmenti-la. Mas, nem a tia nem a
irmã haviam almoçado, à espera dele, e forçoso
lhe foi
acompanhá-las na satisfação de uma necessidade que
não
sentia. Durante o almoço, Estácio procurou observar
Helena; trabalho ocioso, porque o rosto da moça, se
alguma coisa traía nessa ocasião, eram as alegrias
inefáveis da família. Ela própria servia por suas mãos
a
Estácio e D. Úrsula; inexcedível na atenção
com que sabia
repartir-se entre os convivas, não o era menos no
carinho, e na graça. Nos olhos parecia estampada a
ignorância do mal, e o sorriso era o das almas cândidas.
Poder-se-ia atribuir àquela criatura de dezessete anos
corrupção e hipocrisia? Estácio envergonhou-se de tal
idéia; sentiu as vertigens do remorso.
Mas o almoço acabou, dispersou-se a companhia, o mancebo
recolheu-se ao gabinete, e, desfeita a visão, voltou a
suspeita. Estácio buscou dominar a situação. Ele não
ia
ao ponto de supor em Helena a completa perversão dos
sentimentos; o limite do mal, que se lhe podia atribuir,
era o de uma culposa leviandade. Se, em vez de um ato
leviano, fosse aquilo um simples estratagema de caridade,
Helena não mereceria menos uma advertência; mas a pureza
da intenção salvava tudo, e a paz da família, não
menos
que o seu decoro, se restabeleceria inteira. Estácio
examinou um por um todos os indícios de culpabilidade e
de inocência; buscou sinceramente os elementos de prova;
não esqueceu um só argumento de indução. Nesse
trabalho
despendeu longo tempo, sem resultado apreciável, pela
razão de que, se a sentença era difícil de formular,
o
juiz era incompetente para decidir; entre a dignidade e a
afeição balouçava incerto.
Quase à hora do jantar, Estácio, que não saíra
uma só vez
do gabinete, chegou a uma das janelas, e viu atravessar a
chácara a mais humilde figura daquele enigma, humilde e
importante ao mesmo tempo: o pajem. O pajem apareceu-lhe
como uma idéia nova; até aquele instante não cogitara
nele uma só vez. Era o confidente e o cúmplice. Ao vê-lo,
recordou-se de que Helena lhe pedira uma vez a liberdade
daquele escravo. A ameaça rugiu-lhe no coração; mas
a
cólera cedeu à angústia, e ele sentiu na face alguma
coisa semelhante a uma lágrima.
Nesse momento duas mãos lhe taparam os olhos.
Capítulo XXII
Não era preciso grande esforço para adivinhar a dona das
mãos. Estácio, com as suas, afastou as mãos de Helena,
segurando-lhe os pulsos de modo que lhe arrancou um leve
gemido. Voltando-se, deu com os olhos na irmã, que lhe
disse em tom de gracioso reproche:
- Você é muito mau! Pagou-me a carícia com um apertão.
Deixe estar que nunca mais cairei em outra. Vim vê-lo,
porque você hoje não se lembrou ainda de dar à gente
um
ar de sua graça... Doeu-me! continuou ela olhando para os
pulsos. Mas... tenho os dedos molhados; seria... você
estaria... que é? que foi?
Estácio, que ouviu o discurso da irmã, com o rosto
desfeito e o olhar ansioso, não lhe respondeu às últimas
interrogações, e continuou a olhar para ela, como a
querer ler na fisionomia da moça a explicação do enigma
que o atordoava. Helena ainda insistiu, aterrada e
aflita. Indo pegar-lhe nas mãos, Estácio desviou o corpo,
dirigiu-se à parede, dependurou o desenho que Helena lhe
dera no dia de seus anos, e aproximou-se da moça.
- Que é? repetiu esta admirada.
A única resposta de Estácio foi estender o dedo sobre a
misteriosa casa reproduzida na paisagem. Helena olhou
alternadamente para o desenho e para o irmão. A expressão
interrogativa e imperiosa deste fê-la atenta no ponto
indicado. Súbito empalideceu; os lábios tremeram-lhe como
a murmurar alguma coisa, mas a alma falou tão baixo que a
palavra não chegou à boca. Durou aquilo poucos instantes.
A angústia lia-se no rosto dos dois; a moça para ocultar
a sua, cobriu os olhos com as mãos. O gesto era
eloqüente; Estácio lançou para longe de si o quadro,
com
um movimento de cólera. Helena atirou-se para o corredor.
D. Úrsula, aguardava os sobrinhos para jantar. Demorando-
se estes, dirigiu-se ela própria ao gabinete de Estácio.
A porta estava aberta; D. Úrsula entrou e deu com ele,
sentado numa poltrona, com um lenço na cara, como a
soluçar. A tia correu com a velocidade que lhe permitiam
os anos. Estácio não a ouviu entrar; só deu por ela
quando as mãos da boa senhora lhe arrancaram as suas dos
olhos. O assombro de D. Úrsula foi indescritível,
sobretudo quando Estácio, erguendo-se, atirou-se-lhe aos
braços, exclamando:
- Que fatalidade!
- Mas... que é?... explica-te.
Estácio enxugou as faces molhadas do longo e silencioso
pranto, com o gesto decidido de um homem que se
envergonha de um ato de debilidade. A explosão
desabafara-lhe o espírito; podia enfim ser homem, e era
preciso que o fosse. D. Úrsula pediu e ordenou que lhe
confiasse a causa da inexplicável aflição em que viera
achá-lo. Estácio recusou dizê-la.
- Saberá tudo amanhã ou logo. Agora só poderia dar-lhe
um
enigma, e eu sei o que ele me há custado. Algumas horas
mais, e precisarei de seu conselho e apoio.
D. Úrsula resignou-se à demora. Quando chegou à sala
de
jantar, achou um recado de Helena; mandava-lhe dizer que
se sentira repentinamente incomodada e que a dispensasse
naquela tarde e noite. D. Úrsula suspeitou logo que o
recado de Helena tivesse relação com a aflição
de
Estácio, e correu ao quarto da sobrinha. Achou-a meio
inclinada sobre a cama, com o rosto na almofada, e o
corpo tranqüilo e como morto. Ao sentir os passos de D.
Úrsula, ergueu a cabeça. A palidez era grande e profundo
o abatimento; mas não houvera lágrimas. A dor, se a
houve, e houve, parecia ter-se petrificado. O que restava
ainda vivo na figura da moça, eram os olhos que não
perderam o fulgor natural. Ela ergueu-os a medo, e
abraçou a tia com um olhar de súplica e de amor.
D.Úrsula travou-lhe das mãos, encarou-a silenciosamente, e
murmurou:
- Conta-me tudo.
- Saberá depois! suspirou a moça.
- Não tens confiança em tua tia?
Helena ergueu-se e lançou-se-lhe nos braços; duas
lágrimas rebentaram-lhe dos olhos, e foram as primeiras
que eles verteram naquela meia hora. Depois beijou-lhe as
mãos com ternura:
- Pode receber estes beijos, disse ela, os anjos não os
têm mais puros.
Foram as últimas palavras que D. Úrsula pôde arrancar-
lhe; a moça recolheu-se ao silêncio em que a encontrou.
D. Úrsula saiu; e foi dali ter com Estácio. O sobrinho
encaminhava-se para a sala de jantar.
- Vamos para a mesa, disse ele, não convém que os
escravos saibam de tais crises...
D. Úrsula referiu o estado em que achara Helena e as
palavras que trocara com ela. Estácio ouviu-a sem nenhuma
expressão de simpatia. O jantar foi um simulacro; era um
meio de iludir a perspicácia dos escravos, que aliás não
caíram naquele embuste. Eles conheceram perfeitamente que
algum acontecimento oculto trazia suspensos e
concentrados os espíritos. As iguarias voltavam quase
intactas; as palavras eram trocadas com esforço entre a
sinhá velha e o senhor moço. A causa daquilo era, com
certeza, nhanhã Helena.
Estácio deu ordem para que a todas pessoas estranhas se
declarasse estar ausente a família. A única exceção
era o
padre Melchior. A esse escreveu pedindo-lhe que os fosse
ver.
- Não posso esperar até amanhã, disse D. Úrsula;
se tens
de revelar alguma coisa a um estranho, por que o não
fazes a mim primeiro? Dize-me o que há. Não posso ver
padecer Helena; quero consolá-la e animá-la.
- O que tenho para dizer é longo e triste, retorquiu
Estácio; mas, se deseja sabê-lo desde já, peço-lhe
ao
menos que espere a presença do padre Melchior. Eu não
poderia dizer duas vezes as mesmas coisas; seria revolver
o punhal na ferida.
A curiosidade de D. Úrsula cresceu com estas meias
palavras do sobrinho; mas era forçoso esperar, e esperou.
Foi dali ao quarto de Helena. Como a porta estivesse
fechada, espreitou pela fechadura. Helena escrevia. Esta
nova circunstância veio complicar as impressões de D.Úrsula.
- Helena está encerrada no quarto, e escreve, disse ela
ao sobrinho.
- Naturalmente, respondeu este, com sequidão.
O padre Melchior não se demorou em acudir ao chamado de
Estácio. O bilhete era instante e a letra febril. Algum
acontecimento grave devia ter-se dado. A reflexão do
padre era justa, como sabemos; ele o reconheceu desde
logo, não só no aspecto lúgubre da família,
como na ânsia
com que era esperado. Os três recolheram-se a uma das
salas interiores.
- Helena? perguntou Melchior.
- Vamos tratar dela, respondeu Estácio.
Referir o que se passara naquela fatal manhã era mais
fácil de planear que de executar. No momento de expor a
situação e as circunstâncias dela, Estácio sentiu
que a
língua rebelde não obedecia à intenção.
Achava-se num
tribunal doméstico, e o que até então fora conflito
interior entre a afeição e a dignidade, cumpria agora
reduzi-lo às proporções de um libelo claro, seco e
decidido. Inocente ou culpada, Helena aparecia-lhe
naquele momento como uma recordação das horas felizes, -
doce recordação que os sucessos presentes ou futuros
podiam somente tornar mais saudosa, mas não destruiriam
nunca, porque é esse o misterioso privilégio do passado.
Reagiu, entretanto, sobre si mesmo; e, ainda que a custo,
referiu minuciosa e sinceramente o que se passara desde
aquela manhã.
Não fora talhado para tão melindrosas revelações
o
coração de D. Úrsula. Desde o princípio da conversação
sentiu o atordoamento que dão os grandes golpes.
Esperava, decerto, um grande infortúnio de Helena, um
episódio da família anterior, alguma coisa que desafiasse
a compaixão, sem diminuir o sentimento da estima.
Acontecia justamente o contrário; a estima era impossível
e a compaixão tornava-se apenas provável.
- Mas não! é impossível! exclamou ela daí a
pouco, logo
que a razão, obscurecida pelo abalo, pôde readquirir
alguma luz... não! eu a vi há pouco; senti-lhe as
lágrimas na minha face, ouvi-lhe palavras que só a
inocência pode proferir. E, além disso, seu procedimento
irrepreensível, um ano quase de convivência sem mácula,
a
elevação de seus sentimentos... não posso crer que
tudo
isso... Não! pobre Helena! Vamos chamá-la; ela explicará
tudo. Interroguemos o Vicente.
Um gesto dos dois homens mostrou que nenhum deles julgava
digno este último recurso para conhecer a verdade.
D. Úrsula caíra em prostração, recordava suas
apreensões
do primeiro dia, e recuava com horror à idéia de ter
acertado. Defronte dela, Estácio ocupava uma poltrona
rasa, em cujos braços fincava os cotovelos, apoiando nas
mãos a cabeça ardente e abatida. A alma ruminava a dor.
Um só dos três vingava a dignidade da situação.
O padre
Melchior não sentira menor assombro que os dois parentes
de Helena, nem padeceu menos profundo golpe; mas
reergueu-se de um e outro; pôde vencer-se e conservar a
razão clara, fria e penetrante. Entre os dois corações
ulcerados e sem força, compreendeu Melchior que lhe cabia
a principal ação, e não recuou ante a responsabilidade
que daí poderia deduzir. Viu de um lance a extensão
possível do mal, a desunião da família, os desesperos
da
ocasião, os ódios do dia seguinte, as amarguras
indeléveis, e, talvez, as indeléveis saudades; mas nem
este quadro o aterrou, nem ele o aceitou sem exame.
Melchior não condenava nem absolvia; esperava. Ele
pertencia ao número dessas virtudes singelas para as
quais o vício é uma rara exceção; natureza sincera
e
franca, era-lhe difícil crer na hipocrisia. Enquanto
Estácio prosseguia calado e pensativo, e D. Úrsula, ora
sentada, ora de pé intercalava o silêncio com exclamações
de dor, Melchior observava-os e refletia também consigo.
Enfim, proferiu estas palavras de animação:
- Sossegue, D. Úrsula; a verdade há de aparecer, e não
estamos certos de que seja o que nos parece. Em todo o
caso, não antecipemos a aflição. Seria padecer duas
vezes. Há tempo de chorar à larga.
Melchior levantou-se:
- Convém sacudir o abatimento, continuou, dirigindo-se a
Estácio; é a hora da ação e do vigor. Sobretudo,
é
necessário não boquejar de semelhante assunto por agora;
daria azo às vozes estranhas e seus naturais comentários.
Eu tomarei nesta colisão o lugar que me compete, se mo
não contestam...
- Oh! exclamou Estácio.
- ... Mas, desejo que desde já se compenetrem bem de que,
se a dignidade pede uma coisa, a caridade pede outra, e
que o dever estrito é conciliá-las. Nada de ódios;
perdão
ou esquecimento.
- Mas, padre-mestre, que lhe parece? perguntou D. Úrsula
com ansiedade.
- D. Úrsula, disse o padre, é preciso agora que a razão
fale e trabalhe; o sentimento deve retrair-se e esperar.
Examinarei o caso, e aconselharei o necessário remédio.
Talvez estejamos a debater-nos no vácuo; quem sabe?
trata-se de um equívoco, de uma aparência...
- Oh! ela confessou tudo! interrompeu Estácio. Vi-lhe a
expressão da culpa nos olhos. Mas, enfim, estou pronto
para tudo, continuou ele erguendo-se. Não foi o senhor um
dos melhores amigos de meu pai? Não o é ainda nosso?
Ajude-nos, aconselhe-nos; faremos o que lhe parecer
melhor. Na situação em que nos achamos, nenhum de nós
tem
o espírito bastante senhor de si para colher os elementos
da verdade, apurá-la e resolver. Esse papel é seu.
Vieram trazer a Estácio uma carta. Era do Dr. Camargo,
anunciando-lhe que a madrinha de Eugênia falecera, e que
ele no prazo de alguns dias estaria na Corte. Era o pior
momento para semelhante vinda; Estácio não pôde reprimir
um gesto de desgosto. O padre, dizendo-lhe o mancebo de
que tratava a carta, observou que nenhum inconveniente
podia haver no regresso de Camargo, uma vez que, sem
demora, ficasse liquidado o assunto que os afligia.
- D. Úrsula, continuou ele, deixe-nos agora sós alguns
instantes; vá tranqüila, confie em Deus, e não faça
suspeitar a ninguém o que se passa nesta casa.
D. Úrsula obedeceu. Logo que ela saiu, Melchior fechou a
porta. Estácio sentou-se de novo, disposto a ouvir o
capelão. Este deu alguns passos entre a porta e uma das
janelas. Ia anoitecendo; Estácio acendeu um candelabro.
Melchior sentou-se ao pé dele, sem lhe falar nem lhe
voltar sequer os olhos. Meditava ou lutava consigo mesmo;
a fronte pesada e merencória traduzia a agitação
interior. Já não era a inalterável placidez, reflexo
de
uma consciência religiosa e pura. Se a consciência era a
mesma, não o era o coração, a braços com uma
crise nova.
Após dez minutos de profundo silêncio entre ambos, o
padre falou.
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