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Helena
Machado de Assis




Capítulo XVIII

- Helena, disse Estácio no dia seguinte, logo que pôde
falar a sós à irmã, - sabes por que vim mais depressa?
Foi por tua causa. O Mendonça escreveu-me dizendo haver
alcançado de ti uma promessa de casamento.
- É verdade.
- É verdade?
- Até ao ponto em que a minha vontade tem um limite, que
é a sua. Por mim só nada posso decidir; mas não creio que
você se oponha de nenhum modo. Não é certo que deseja a
minha felicidade?
Estavam sentados em um banco de pau, defronte do grande
tanque. Estácio ficou algum tempo a olhar para a água.
- Não entendo, disse ele enfim.
- Por quê?
- Mais de uma vez me confessaste não sei que paixão
violenta, paixão que parecia conter a tua vida toda. Que,
sem embargo de um amor único e forte, uma mulher despose
um homem que não é o preferido de seu coração, é caso não
vulgar e muita vez justificável. Mas que este casamento
seja para ela felicidade, confesso que não o poderei
entender nunca.
- Recusa então o seu consentimento?
- Não recuso; desejo compreender.
- Nada mais simples, retorquiu a moça.
- Ah!
- Falei-lhe de um amor forte, é certo, não extinto
naquele tempo, mas totalmente sem esperança. Que moça não
tem dessas fantasias, uma vez ao menos? A fantasia
passou. Ou eu não devo casar nunca, ou posso desposar um
homem digno, que me ame. Não casar foi algum tempo o meu
desejo; não o é hoje, desde que você, titia e o padre
Melchior ambicionam ver-me casada e feliz. Para obter a
felicidade, além do casamento, escolhi pessoa que me
parece capaz de dar a paz doméstica e os melhores afetos
de seu coração.
- De maneira que te sacrificas a um desejo nosso?
- Quando fosse sacrifício, fá-lo-ia de boa cara; mas não
é.
- Não se trata de um sacrifício repugnante e odioso;
entretanto, cumpre examinar o que perdes. Dizes que a
fantasia passou; não creio, Helena, não creio que ela
passasse. Tu amas decerto; amas violentamente alguém;
amas sem esperança nem futuro; isto é, levas para casa de
teu marido um coração que te não pertence, um sentimento
intruso e inimigo...
Helena quis interrompê-lo.
- Ouve, continuou Estácio. Esse sentimento, se vier a
extinguir-se e se for substituído pela afeição que
criares a teu marido, não te fará desventurosa; mas supõe
que não morre esse amor, qual será a tua situação?
- Tudo isso é um castelo no ar, disse Helena sorrindo; eu
amei, não amo; ou amo somente a meu futuro marido.
Estácio abanou a cabeça com ar de incredulidade. Seus
olhos pousaram no rosto plácido da irmã, como tentando
arrancar-lhe uma confissão silenciosa. Os dela, firmes e
tranqüilos, cruzavam o olhar com os dele. Estácio
conhecia já o domínio que a moça exercia sobre si mesma;
a tranqüilidade não o convenceu. Assim pensava, assim o
disse, sem rebuço.
- Por que razão negaria eu a verdade? retorquiu Helena.
Estácio ergueu os ombros.
- Supondo que você tenha razão, tornou ela, não deverei
casar nunca?
- Não digo isso; mas, há dois caminhos para a felicidade,
além de Mendonça.
- Não os vejo.
- Esse amor misterioso será realmente sem esperança? Nada
há definitivo no mundo, nem o infortúnio nem a
prosperidade. O que a tua imaginação supõe estar perdido,
acha-se apenas transviado ou oculto...
- Adivinho o segundo caminho, atalhou Helena; não casando
agora, posso vir a amar um dia, mais do que a Mendonça,
algum homem tão digno como ele.
- Parece-te absurdo isso?
- Não, mas é uma loteria: perco um bem certo por outro
duvidoso. O jogador não faz cálculo diferente. Essa
felicidade pode não vir; eu contento-me com a que me cabe
agora. Mendonça ama-me deveras; senti-o desde algum
tempo. O padre Melchior abriu-me os olhos; aceito o
destino que os dois me oferecem. Esta é a razão e a
realidade; o mais é ilusão e fantasia.
Enquanto ela falava, Estácio, que tirara o chapéu de
Chile, ocupava-se em fazer circular na copa a fita larga
que o cingia. Houve entre ambos grande silêncio. Pela
beira do tanque seguia uma longa carreira de formigas,
conduzindo as mais delas trechos de folhas verdes. Com um
galho seco, Estácio distraía-se em perturbar a marcha
silenciosa e laboriosa dos pobres animais. Fugiam todas,
umas para o lado da terra, outras para o lado da água,
enquanto as restantes apressavam a jornada na direção do
domicílio. Helena arrancou-lhe o galho da mão; Estácio
pareceu acordar de largas reflexões; ergueu-se, deu
alguns passos e voltou a ela.
- Helena, declarou ele, não creio nada do que você me
diz; você sacrifica-se sem necessidade e sem glória. Não
consinto; é meu dever opor-me a semelhante coisa...
Helena ergueu-se também.
- Mendonça começa a ser o fruto proibido, observou ela,
sorrindo; é o meio seguro de o fazer amado.
A moça afastou-se na direção da casa. Estácio viu-a
desaparecer por entre as árvores, e ficou algum tempo
entre o banco e o tanque. As formigas, dispersas alguns
minutos antes, tinham agora entrado no primeiro caminho,
com a mesma ordem anterior. Viu-as o moço, e comparou-as
às próprias idéias, também necessitadas de que um galho
invisível as não dispersasse e confundisse. No meio de
suas reflexões, lembrou-lhe o padre; Estácio atravessou a
chácara, saiu à rua e dirigiu-se à casa de Melchior.
Melchior habitava uma casinha, situada no centro de um
jardim diminuto, a algumas braças da residência de
Estácio. Tinha duas salas o prédio, janelas por todos os
lados, uma porta na frente e outra nos fundos. A da
frente abria entre duas janelas de venezianas. A sala de
visitas era ao mesmo tempo gabinete de estudo e de
trabalho. Simples era a mobília, nenhuns adornos, uma
estante de jacarandá, com livros grossos in-quarto e in-
fólio; uma secretária, duas cadeiras de repouso e pouco
mais.
Na ocasião em que Estácio ali entrou, Melchior passeava
de um para outro lado, com um livro aberto nas mãos,
algum Tertuliano ou Agostinho, ou qualquer outro da mesma
estatura porque o padre amava contemplar os grandes
espíritos do passado, quando não encarava os mistérios do
futuro. Naquele corpo mediano havia uma águia cativa.
Entre as quatro paredes da casa, limitada a vista pelos
arbustos e as flores do jardim, Melchior olvidava o tempo
e eliminava o espaço, vivendo a vida retrospectiva ou
profética, doce e misteriosa volúpia das almas
solitárias. Melchior era um solitário; sem embargo das
relações sociais, que ele cultivava, amava sobretudo
estar separado dos homens. Nessas horas, que eram a maior
parte do tempo, lia ou meditava, esquecido ou estranho a
todas as coisas do seu século.
Naquela ocasião lia. Vendo assomar à porta o vulto de
Estácio, Melchior fechou o rosto; contudo, recebeu-o
afavelmente.
- Vim interrompê-lo, disse Estácio; mas era preciso.
Melchior depôs o livro sobre a mesa redonda que havia no
meio da sala, marcando a lauda com uma velha estampa.
Depois sentaram-se ao pé de uma das janelas laterais.
Estácio não se atreveu a dizer logo o motivo que o levara
ali; mas de sua própria hesitação deduziu Melchior qual
era ele.
- Era preciso? repetiu o padre.
- Trata-se de Helena. Sei que é nosso amigo, confio em
seu conselho e discrição. Como deseja a felicidade de
minha família, buscou facilitar o casamento de Helena e
Mendonça...
- Contando com a sua aprovação, explicou o padre.
- Hesito em dá-la.
- Por quê?
Estácio explicou que Helena não tinha inclinação ao noivo
que se lhe propunha, ao que Melchior respondeu, referindo
singelamente a verdade.
- É certo que o não ama ardentemente, concluiu, mas
aceita-o, aprecia-o, está a meio caminho da felicidade
que lhe devemos dar.
- Há uma dificuldade, padre-mestre; é que ela ama a
outro.
Melchior empalideceu; o olhar escrutador, como o de um
juiz, cravou-se imóvel e afiado no rosto de Estácio. A
fronte severa do moço não se alterou, nem seus olhos
baixaram a terra.
- Ama a outro, continuou ele; paixão violenta, mas sem
esperança, e tão real quão misteriosa. Uma ou duas vezes
aludiu a ela; nada mais lhe pude arrancar. Agora mesmo,
quando lhe falei a tal respeito, desviou daí o sentido e
a conversação. Nada mais sei; sei, porém, que ama, e
casar com outro em tais circunstâncias dá dois
inconvenientes igualmente graves: priva-se da
possibilidade de uma união feliz com o homem que
interiormente elegeu, e leva para a casa do marido um
sentimento de pesar e de remorso. Parece-lhe isso
tolerável?
- Não há remorso, não há pesar onde não há esperança,
redargüiu o padre. Helena aceita o Mendonça por
espontânea vontade; e conheço-a tanto que não acho já
possível que ela recuse.
- Salvo o meu consentimento.
- É claro; mas por que o não daria?
- Porque não desanimo de descobrir a pessoa a quem Helena
entregou o coração. Talvez ela ache impossível aquilo que
é simplesmente difícil. Demais, não esqueçamos que Helena
mal tem dezessete anos.
- Valem por vinte e cinco.
- Pode ser; mas convém não aceitar de coração leve uma
condescendência ou um capricho, ou qualquer outro motivo
oculto que a inspira nesta resolução.
- Que motivo seria?
- Eu sei! Talvez a suspeita de que estimássemos vê-la
afastar-se de casa.
- Não a calunie; Helena tem perfeita ciência e
consciência dos afetos que a rodeiam e da estima em que é
tida. Suas objeções não valem nada diante da declaração
que ela própria fez. Não compliquemos uma situação
simples e definida.
Melchior proferiu estas palavras com voz branda, mas em
tom firme; Estácio não se animou a responder logo.
Voltou, porém, ao primeiro argumento; depois, aventurou
uma objeção nova.
- Mendonça é bom coração, disse ele; mas não possui as
qualidades que, em meu entender, devem distinguir o
marido de Helena. Nunca exercerá sobre ela a influência
que deve ter um marido. Entre os dois inverte-se a
pirâmide. Mas isto, ao menos, se destruía uma das
condições do casamento, podia conservar a felicidade
doméstica. O perigo maior é outro; é vir ele a perder a
estima da mulher. Nesse caso, que lhe daríamos nós a ela?
Um casamento aparente e um divórcio real.
Não olhava para ele o padre, mas para fora, com uns olhos
dolorosos e o gesto impaciente. Quando ele acabou, fitou-
o com resolução; disse-lhe que se tratava de casar
Helena, não com um marido especial, mas com o que ela
própria escolhera de sua vontade livre; casamento que
cumpria fazer sem demora. Era certo que, como chefe de
família, Estácio podia opor-se ao casamento ou marcar-lhe
condições; mas nem convinha isso ao interesse de Helena
nem ao próprio interesse da família.
Estácio ergueu-se quando o padre acabou; percorreu a
sala, calado e pensativo. No fim de alguns segundos, o
padre foi a ele.
- Vá contar tudo à sua tia, disse; aprove sua irmã; casá-
los-ei a todos no mesmo dia.
- Pois bem, disse Estácio, como concluindo um raciocínio
interior; consinto em que Helena se case, mas procuremos
outro marido. Mendonça, não; há de ser outro. Vou casar-
me também; receberei todas as semanas; algum rapaz
aparecerá que a mereça e de quem ela venha a gostar
seriamente... É a minha última resolução.

Capítulo XIX

No momento em que Estácio proferia estas palavras,
transpunha Mendonça a porta do jardim do capelão.
Preocupado com a frieza de Estácio, lembrara-lhe falar a
Melchior e pedir-lhe conselho. Melchior ia responder ao
sobrinho de D. Úrsula, quando ouviu rumor de passos na
areia do jardim.
- Aí vem o noivo, disse ele.
Estácio deu dois passos para pegar no chapéu;
reconsiderou e foi sentar-se ao pé da mesa redonda. Havia
ali um exemplar das Escrituras. Abriu-as ao acaso; a
página acertou ser um capítulo dos Provérbios; leu este
versículo: "Quem quer abrir mão de seu amigo, busca-lhe
as ocasiões; ele será coberto de opróbrio." Envergonhado,
voltou a folha. Mendonça entrara na sala. Não contava com
Estácio, mas estimou vê-lo ali.
- Venha, disse Melchior; tratávamos justamente do seu
casamento.
Estácio lançou ao padre um olhar de exprobração. O padre
não o viu; olhava para Mendonça, que imediatamente lhe
respondeu:
- Não venho cá para outra coisa. Uma vez que a fortuna o
fez nosso confidente, desejo constituí-lo meu conselheiro
e diretor.
- Antes de tudo, sou advogado da sua causa, disse
Melchior; estava expondo agora as vantagens dela.
Mendonça olhou fixamente para o amigo, e, depois de curta
pausa:
- Rejeitas ou aceitas o noivo? perguntou ele.
Posto entre a espada e a parede, Estácio não soube logo
que respondesse; ficou a olhar para a lauda aberta,
receoso de encontrar a vista dos dois. O silêncio era
pior que a resposta; e nem o caso nem as pessoas
permitiam tão grande pausa. Estácio fechou de golpe o
livro e ergueu-se.
- Discutia somente as vantagens do casamento, disse ele.
- E qual é a tua opinião?
- Minha opinião é que Helena está ainda muito menina. Mas
não é só essa, nem é a principal; o voto, em todo o caso,
é a favor do casamento. A principal razão é o teu próprio
crédito.
- Meu crédito?
- Helena pode vir a amar-te como lhe mereces; a verdade é
que não sente ainda hoje igual paixão à tua; foi o padre-
mestre que mo disse. Estima-te, é certo; mas a estima é
flor da razão, e eu creio que a flor do sentimento é
muito mais própria no canteiro do matrimônio...
- Há muita flor nesse ramalhete de retórica, interrompeu
benevolamente o padre. Falemos linguagem singela e nua.
Não creia literalmente o que lhe diz este filósofo,
prosseguiu ele, voltando-se para Mendonça; ele gosta de
ambos e quer vê-los felizes; é o próprio zelo que lhe faz
falar assim. Numa palavra, deseja que o senhor a
conquiste, depois de campanha formal...
Mendonça respondeu ao capelão com um sorriso pálido, que
lhe arrebitou um pouco as pontas do bigode, recolhendo-se
logo medroso e frio. O rosto ficara carregado e
pensativo; a língua de Estácio tocara-lhe o coração.
Disposto a aceitar a estima e a simpatia de Helena com a
esperança de converter esse pequeno dote em avultado
capital, não lhe ocorrera que, a olhos estranhos, podia
parecer que o fim exclusivo era a riqueza da moça.
Estácio rompera o véu a essa probabilidade. Uma só
palavra desfizera a ilusão de poucos dias.
- Vamos lá, disse o padre, abracem-se como irmãos.
Nenhum deles se mexeu. Melchior sentiu toda a gravidade
da situação; viu perdidos os esforços, desfeita a união
assentada, um abismo cavado entre os dois amigos, incerto
o destino de Helena. Interveio outra vez com palavras de
brandura, que os dois ouviram sem interromper. Quando
acabou:
- O Estácio tem razão, disse Mendonça; meu crédito
padecerá, desde que alguém se lembre de dizer que o
casamento foi arranjado sem nenhuma preocupação das
preferências de D. Helena. Ela me desobrigará, em troca
da palavra que lhe restituo.
A frase brotou-lhe dolorida, mas sem hesitação nem
fraqueza. Estácio olhava para ele e sentia alguma coisa
semelhante a um remorso. Uma voz interior parecia dizer-
lhe: - "Sonâmbulo, abre os olhos, tem consciência de tuas
ações; teu abraço enforca; teus escrúpulos fazem-te
odioso; tua solicitude é pior do que a cólera." Viu o
mancebo cortejar o padre; deteve-o pelo braço.
- Onde vais? disse ele.
- Vou aonde me leva o pundonor, disse singelamente
Mendonça.
- Pobres rapazes! exclamou o padre. São dois estouvados,
nada mais; um quer catar argumentos onde sua irmã só
achou nobre e franca resolução; o outro rompe de coração
leve uma promessa feita em presença de um sacerdote.
Estouvados, disse eu? São mais do que isso: são dois
dementes. Ora, como só eu tenho juízo e conseqüente
autoridade, digo que nem um há de sair assim desenganado,
nem o outro há de recusar a aquiescência que lhe peço em
nome de seu finado pai.
Estácio estremeceu, Mendonça conservou-se frio. A arma
era rija, mas o golpe excedia a necessidade. Mendonça não
quereria dever a esposa à evocação do nome do
conselheiro: equivalia a um rapto. Percebeu-o Melchior,
quando viu Estácio estender a mão ao amigo, mão que este
recebeu com dignidade e frieza. Contaria Estácio com essa
mesma repulsa do pretendente? O certo é que lhe disse,
sem a menor sombra de hesitação:
- Meu zelo foi talvez excessivo; a intenção é boa e pura.
Que posso eu desejar senão ver felizes os meus? Amem-se;
será o remate das minhas aspirações. Prometes fazê-la
feliz?
- Não prometo nada, disse Mendonça; o casamento é já
impossível. Tu abriste-me os olhos; não te quero mal por
isso. Perco muito, é certo, mas não me exponho à língua
dos maus.
Mendonça foi buscar o chapéu e dispôs-se a sair, não
obstante a intervenção de Melchior, que procurou trazê-lo
a sentimentos de reconciliação. Não insistiu o padre; viu
no rosto do mancebo uma resolução digna e firme, que era
impossível dobrar naquele momento. Quando Mendonça lhe
estendeu a mão em despedida, ele apertou-lhe com ternura
e esperança. Estácio tentou ainda retê-lo; foi inútil;
Mendonça saiu dali sem rancor, mas sem pesar. O coração
sangrava-lhe, a consciência ia contente.
Melchior foi até à porta, a despedir-se de Mendonça.
Quando este saiu, ele voltou o rosto para dentro, cruzou
os braços e fitou o sobrinho de D. Úrsula. O moço desviou
os olhos.
- Viu? perguntou o padre. Não sei qual seja a sua
resolução; mas prometo-lhe que serei como Maomé, - Deus
me perdoe! - ainda que veja o sol à minha direita e a lua
à minha esquerda, não deixarei de executar o meu
desígnio. Vá ter com sua família; deixe-me alguns
instantes com o meu breviário.
Estácio não pôde resistir à intimação do sacerdote; não
achou uma palavra para lhe dizer. Saiu aturdido,
desconsolado, colérico. Na rua e na chácara, ia pensando
na cena daquela última hora, e parecia apenas reconstruir
um sonho. Desconhecia-se, apalpava a inteligência,
chamava em seu auxílio todas as forças da realidade;
olhava para o chão, suspeitoso de que ia calcando as
nuvens. Quando a razão tomou pé no meio de lembranças tão
desconcertadas, ele viu claramente o resultado de suas
ações: perdia um amigo de longos anos e abdicava a
direção da família, pelo menos em relação ao casamento da
irmã. Se esta lhe agradecesse a resistência, Estácio dar-
se-ia por bem pago de tudo. Não era em seu favor que ele
conspirara? Este pensamento levantou-lhe o ânimo; tivesse
a aprovação de Helena, pouco lhe importaria o resto.
Helena ouviu-lhe a narração fiel do que se passara em
casa de Melchior. Ouviu-a comovida; no fim reprovou tudo
o que ele fizera.
- Mendonça é já o fruto proibido, concluiu a moça; começo
a amá-lo. Se ainda me obrigar a desistir do casamento,
adorá-lo-ei.
- Chegamos ao capricho! exclamou ele; é o fundo do
coração de todas as mulheres.
Helena sorriu e voltou-lhe as costas. Subiu ao quarto,
travou de uma pena e escreveu um bilhetinho. A tinta
secou primeiro que duas grossas lágrimas caídas no papel;
mas as lágrimas secaram também. Antes de fechar o
bilhete, desceu Helena a mostrá-lo ao irmão.
Quando a moça entrou no gabinete, Estácio ia ter com ela.
Tinha resolução assentada. Uma vez que a irmã aceitava de
boa feição o casamento, não havia mais que o aprovar e
celebrar. Encontraram-se na porta; Estácio recuou para
dentro.
- Helena, disse ele, faça-se a tua vontade.
- Consente?
Estácio fez um gesto afirmativo.
- Não basta isso, tornou a moça; Mendonça não voltará cá
depois do que se passou. Peço-lhe a remessa deste
bilhete.
Estácio abriu o bilhete; continha estas poucas palavras:
"Venha hoje a Andaraí; é o meu coração que o pede e a
nossa felicidade que o exige." Cinco minutos gastou o
moço a ler as duas linhas; leu o que estava escrito e o
que não estava. Helena desarmava os escrúpulos de
Mendonça, tirando à futura união qualquer suspeita de
interesse. Leu e fechou lentamente o papel.
- Aprova? perguntou a moça.
- Assim, pois, disse o moço tristemente, a tua felicidade
exige que esse homem venha cá, que te cases com ele, que
nos fujas? Não te basta a família, a afeição de nossa
tia, a minha própria afeição? Estes meses de doce
intimidade vão ser esquecidos em um só instante,
sacrificados aos pés do primeiro homem que te apraz
escolher e seguir? No dia em que penetraste nesta casa,
entrou contigo um raio de luz nova, alguma coisa que nos
faltava e que tu trouxeste contigo; nossa família
completou-se; nossos corações receberam um sentimento
último. Pensávamos que isto seria duradouro, e era
simplesmente fugaz. Oh! Helena, melhor fora não ter
vindo!
Helena quis responder, a voz travou-se-lhe na garganta, e
a palavra retrocedeu ao coração. Apontou para o papel
como pedindo-lhe, ainda uma vez, que o enviasse e saiu.
De tarde, apareceu Melchior; ia tranqüilo e resoluto a
dar um golpe decisivo. Estácio rendeu-se, antes que ele
falasse.
- Padre-mestre, disse o moço logo que o viu, a reflexão
venceu-me; faça-se a vontade de todos.
- Fala de coração?
- De coração.
- Pois bem, seja completo, tornou o padre. Sou ministro
de uma religião que condena o orgulho. Não há de ser em
curar as feridas de um amigo; vá ter com o seu amigo;
traga-o a esta casa, como irmão.
- Irei amanhã.
- Não; vá hoje mesmo.
A noite caiu logo; Estácio foi dali vestir-se. Não tendo
enviado o bilhete de Helena, meteu-o na algibeira para
entregá-lo ele próprio; depois tirou-o e releu-o; tendo-o
relido, fez um gesto para rasgá-lo, conteve-se e
perpassou-o ainda uma vez pelos olhos. A mão, à
semelhança de mariposa indiscreta, parecia atraída pela
luz; resistiu algum tempo; enfim chegou o bilhete à vela
e queimou-o.

Capítulo XX

A visita de Estácio não causou nenhum espanto a Mendonça;
ele a esperava com a confiança das índoles ingênuas e
avessas ao ódio. Não era crível que um amigo de longos
anos dormisse sobre a injustiça de um minuto; contudo
dormiu. Foi na seguinte manhã que Estácio procurou o
pretendente de Helena.
Entrou naturalmente em casa de Mendonça, sem expansão nem
secura. A entrevista foi breve e cordial; houveram-se os
dois com afetuosa dignidade. Estácio explicou os
escrúpulos, declarou-se contente com a aliança. O
contentamento podia existir; todavia, a manifestação foi
parca e seca. Houve mais calor e expansão quando ele lhe
pediu que desse vida feliz à irmã.
- Será para mim um eterno remorso, se Helena vier a ser
desgraçada, disse ele. Não tivemos o mesmo berço, vivemos
nossa infância debaixo de teto diferente, não aprendemos
a falar pelos lábios da mesma mãe. Importa pouco; nem por
isso lhe quero menos. Meu pai recomendou-a à nossa
família, e ela correspondeu ao sentimento que ditou essa
última vontade.
Mendonça não respondeu nada; refletira, durante a noite,
nas palavras que ouvira a Estácio no dia anterior; -
palavras que bem podiam ser ditas ou pensadas por outros,
talvez por todos, logo que soubessem do casamento. Helena
viria a amá-lo, talvez; mas, desde logo lhe levava para
casa a chave da independência. Mendonça recuou. Quando o
padre Melchior o soube, não pôde conter um gesto de
admiração; mas, se louvou o escrúpulo, não aprovou a
resolução, que vinha derrubar tudo.
- Não tapará nunca a boca aos maus, disse o padre; eles
acharão meio de envenenar-lhe a generosidade.
- Paciência! tornou o moço, é menor esse perigo. Se
casar, dirão que faço uma operação vantajosa; talvez a
família o suponha; talvez ela própria o pense.
Helena teve notícia dos receios do pretendente, e da
resolução a que parecia inclinar o coração. Perguntou-lhe
se era verdade. Mendonça afirmou que sim. Ela contemplou-
o longamente, sem dizer palavra; travou-lhe das mãos,
apertou-as com efusão; ele persistiu.
No desinteresse de Mendonça havia porventura um pouco de
faceirice. A moça o percebeu, nem por isso deixou de crer
na sinceridade do rapaz. Tentou dissuadi-lo; e, posto
nada alcançasse nos primeiros minutos, estava certa de
que venceria o derradeiro obstáculo. Teria os olhos mais
hábeis e felizes que os lábios do padre. Foi o que ela
disse ao capelão.
- Tomo à minha conta efetuar este casamento, continuou
Helena.
- Resolvida a tudo?
- A tudo.
- Mas, se ele insistir...
- Se ele insistir, vencê-lo-ei, ou por um modo ou por
outro. Uma moça que quer ser noiva, vale por um exército;
eu sou um exército.
- Muito bem! Contudo, sua dignidade...
- Oh! em último caso abro mão da herança.
- Era capaz disso? perguntou Melchior.
- Se era capaz? Desejo-o até, disse a moça com veemência.
E acrescentou em tom mais brando:
- Sobre o homem de minha escolha desejo que não paire a
mínima desconfiança.
Tal era a situação, dois dias depois da volta de Estácio.
O casamento podia contar-se feito. Mendonça não resistiu
ao desinteresse de Helena. D. Úrsula aprovou tudo com
efusão e amor, nada sabendo das incertezas e contradições
dos últimos dias.
Na noite desse dia, Estácio escreveu para Cantagalo dando
notícias suas. Do casamento de Helena falou pouco, quase
nada. Tudo o descontentava; tanto o que ele fizera e
dissera, sem proveito, como o desenlace da situação. Não
soubera opor-se com eficácia, nem aplaudir oportunamente.
Posto fosse tarde, o sono teimava em fugir-lhe, e ele
velou até muito além da meia-noite. Ocupado, sem dúvida,
em adormecer organizações menos sensíveis e existências
menos complicadas, o sono fez-lhe apenas uma curta
visita. Pelas cinco horas da manhã, Estácio acordou e
ergueu-se. A manhã estava fresca; quase toda a família
dormia. Estácio desceu; o único escravo que achou
levantado preparou-lhe uma xícara de café. Não tendo
ainda chegado os jornais, bebeu-a sem a leitura do
costume.
Quem sabe por que fios tênues se prendem muitas vezes os
acontecimentos humanos? Estácio ouviu o som longínquo de
um tiro; era algum caçador, talvez; a suposição deu-lhe
idéia de ir caçar, foi buscar a espingarda, proveu-se de
pólvora e chumbo, e saiu.
Se a habilidade não era muita, parecia ter ainda
diminuído naquela manhã, ou porque a mão estivesse menos
firme, ou porque a vista andasse menos segura. Estácio
caminhara longo tempo sem pensar no fim que o levava; ia
absorto, alheio ao lugar e às coisas. Fez algumas
tentativas de caça. Quando cansou de errar, consultou o
relógio e viu que não era cedo. Tinha o braço cansado de
suster a espingarda; só então reparou que não trouxera um
pajem consigo. Dispôs-se a voltar. Vendo uma parasita,
colheu-a com a intenção de a dar a Helena, como seu
primeiro presente de núpcias. Depois desceu, em caminho
para casa.
Vinha descendo, com a espingarda debaixo do braço, os
olhos no chão, a passo lento, apesar de ser tarde. De uma
vez que ergueu os olhos, viu um caso estranho, que lhe
fez deter o passo. Um pouco abaixo, saía, de trás de uma
casa velha, o pajem de Helena, conduzindo a mula e a
égua. Estácio não soube que pensar daquilo; cedendo ao
impulso, que não pôde dominar, deu um salto por cima da
cerca de espinhos, agachou-se e esperou o resto.
O resto não se demorou muito. Assomou à porta da frente a
figura de Helena. Depois de olhar cautelosamente para um
e outro lado, saiu e montou a égua; o pajem cavalgou a
mula e os dois desceram a trote.
Estácio sentiu uma nuvem cobrir-lhe os olhos; ao mesmo
tempo, apertava o primeiro objeto que achou debaixo das
mãos: era a cerca de espinhos. A dor fê-lo voltar a si;
tinha a mão ensangüentada. Ao longe, cavalgavam Helena e
o pajem. Logo que os viu desaparecer, Estácio saltou de
novo à estrada. Sem resolução nem plano, caminhou em
direção à casa donde vira sair a irmã. Era a mesma da
bandeirinha azul que Helena cumprimentara de longe,
alguns meses antes, e não esquecera de reproduzir na
paisagem que dera ao irmão, no dia dos anos dele. Estas
circunstâncias, antes indiferentes, apareciam-lhe agora
como outros tantos artigos de um libelo.
O prédio parecia ainda mais velho do que a primeira vez
que o vira; a caliça das paredes e das colunas ia caindo,
e o esqueleto de tijolo estava a nu, em mais de um lugar.
Alguma erva mofina brotava a custo junto às paredes,
cobrindo com folhas descoloridas o chão desigual e úmido.
Por baixo de uma das janelas havia um banco de pau,
gretado pelo tempo, com as bordas roliças de longo uso.
Tudo ali respirava penúria e senilidade.
- Não, dizia Estácio consigo, não é este o asilo de um
Romeu de contrabando. Mora aqui alguma família pobre, que
a caridade engenhosa de Helena vem afagar de longe em
longe.
A solução do enigma pareceu-lhe tão natural que o moço
resolveu parar a meio da aventura, e chegou a dar alguns
passos para trás. Mas a suspeita é a tênia do espírito;
não perece enquanto lhe resta a cabeça. Estácio sentiu o
desejo imperioso de indagar o que aquilo era, e voltou
sobre seus passos. Para entrar ali era necessário um
motivo ou pretexto. Procurou algum; a aventura dera-lhe o
melhor de todos. Olhou para a mão ferida e ensangüentada,
e foi bater à porta.
Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III e Capítulo IV
Capítulo V e Capítulo VI
Capítulo VII e Capítulo VIII
Capítulo IX à Capítulo XI
Capítulo XII à Capítulo XIV
Capítulo XV à Capítulo XVII
Capítulo XVIII à Capítulo XX
Capítulo XXI e Capítulo XXII
Capítulo XXIII e Capítulo XXIV
Capítulo XXV e Capítulo XXVI
Capítulo XXVII e Capítulo XXVIII