Farsa
ou Auto de Inês Pereira
Gil Vicente
Ido o Escudeiro, diz o Moço:
MOÇO
Senhora, o que ele mandou
Não posso menos fazer.
INÊS Pois que te dá de comer
Faze o que t'encomendou.
MOÇO Vós fartai-vos de lavrar
Eu me vou desenfadar
Com essas moças lá fora:
Vós perdoai-me, senhora,
Porque vos hei-de fechar.
Aqui fica
Inês Pereira só, fechada, lavrando e cantando esta
cantiga:
INÊS "Quem
bem tem e mal escolhe
Por mal que lhe venha não s'anoje."
Renego da discrição
Comendo ò demo o aviso,
Que sempre cuidei que nisso
Estava a boa condição.
Cuidei que fossem cavaleiros
Fidalgos e escudeiros,
Não cheios de desvarios,
E em suas casas macios,
E na guerra lastimeiros.
Vede que cavalarias,
Vede que já mouros mata
Quem sua mulher maltrata
Sem lhe dar de paz um dia!
Sempre eu ouvi dizer
Que o homem que isto fizer
Nunca mata drago em vale
Nem mouro que chamem Ale:
E assi deve de ser.
Juro em todo
meu sentido
Que se solteira me vejo,
Assi como eu desejo,
Que eu saiba escolher marido,
À boa fé, sem mau engano,
Pacífico todo o ano,
E que ande a meu mandar
Havia m'eu de vingar
Deste mal e deste dano!
Entra o Moço
com uma carta de Arzila, e diz:
MOÇO
Esta carta vem d'Além
Creio que é de meu senhor.
INÊS Mostrai
cá, meu guarda-mor
E veremos o que i vem.
Lê o sobrescrito.
"À mui prezada senhora
Inês Pereira da Grã,
À senhora minha irmã."
De meu irmão...Venha embora!
MOÇO
Vosso irmão está em Arzila?
Eu apostarei que i vem
Nova de meu senhor também.
INÊS Já ele partiu de Tavila?
MOÇO Há três meses que é passado.
INÊS Aqui virá logo recado
Se lhe vai bem, ou que faz.
MOÇO Bem pequena é a carta assaz!
INÊS Carta de homem avisado.
Lê
Inês Pereira a carta, a qual diz:
"Muito
honrada irmã,
Esforçai o coração
E tomai por devação
De querer o que Deus quiser."
E isto que quer dizer?
"E não vos maravilheis
De cousa que o mundo faça,
Que sempre nos embaraça
Com cousas. Sabei que indo
Vosso marido fugindo
Da batalha pera a vila,
A meia légua de Arzila,
O matou um mouro pastor."
MOÇO Ó meu amo e meu senhor!
INÊS Dai-me
vós cá essa chave
E i buscar vossa vida.
MOÇO Oh que triste despedida!
INÊS Mas que nova tão suave!
Desatado é o nó.
Se eu por ele ponho dó,
O Diabo me arrebente!
Pera mim era valente,
E matou-o um mouro só!
Guardar de
cavaleirão,
Barbudo, repetenado,
Que em figura de avisado
É malino e sotrancão.
Agora quero tomar
Pera boa vida gozar,
Um muito manso marido.
Não no quero já sabido,
Pois tão caro há de custar.
Aqui vem
Lianor Vaz, e finge Inês Pereira estar chorando, e diz Lianor
Vaz:
LIANOR Como
estais, Inês Pereira?
INÊS Muito triste, Lianor Vaz.
LIANOR Que fareis ao que Deus faz?
INÊS Casei por minha canseira.
LIANOR Se ficaste prenhe basta.
INÊS Bem quisera eu dele casta,
Mas não quis minha ventura.
LIANOR Filha, não tomeis tristura,
Que a morte a todos gasta.
O que havedes
de fazer?
Casade-vos, filha minha.
Inês Jesu! Jesu! Tão asinha!
Isso me haveis de dizer?
Quem perdeu um tal marido,
Tão discreto e tão sabido,
E tão amigo de minha vida?
LIANOR Dai isso por esquecido,
E buscai outra guarida.
Pêro
Marques tem, que herdou,
Fazenda de mil cruzados.
Mas vós quereis avisados...
INÊS Não! já esse tempo passou.
Sobre quantos mestres são
Experiência dá lição.
LIANOR Pois tendes esse saber
Querei ora a quem vos quer
Dai ò demo a opinião.
Vai Lianor
Vaz por Pêro Marques, e fica Inês Pereira só,
dizendo:
INÊS Andar!
Pêro Marques seja.
Quero tomar por esposo
Quem se tenha por ditoso
De cada vez que me veja.
Por usar de siso mero,
Asno que me leve quero,
E não cavalo folão.
Antes lebre que leão,
Antes lavrador que Nero.
Vem Lionor Vaz com Pêro Marquez e diz Lianor Vaz:
LIANOR Nô
mais cerimónias agora;
Abraçai Inês Pereira
Por mulher e por parceira.
PÊRO Há
homem empacho, má-hora,
Cant'a dizer abraçar..
Depois que a eu usar
Entonces poderá ser:
INÊS (Não lhe quero mais saber
Já me quero contentar..).
LIANOR Ora dai-me essa mão cá.
Sabeis as palavras, si?
PÊRO Ensinaram-mas a mi,
Porém esquecem-me já...
LIANOR Ora dizei como digo.
PÊRO E tendes vós aqui trigo
Pera nos jeitar por riba?
LIANOR Inda é cedo... Como rima!
PÊRO Soma, vós casais comigo,
E eu com vosco,
pardelhas!
Não cumpre aqui mais falar
E quando vos eu negar
Que me cortem as orelhas.
LIANOR Vou-me, ficai-vos embora.
INÊS Marido, sairei eu agora,
Que há muito que não saí?
PÊRO Si, mulher saí-vos i,
Qu'eu me irei pera fora.
INÊS Marido,
não digo isso.
PÊRO Pois que dizeis vós, mulher?
INÊS Ir folgar onde eu quiser
PÊRO I onde quiserdes ir,
Vinde quando quiserdes vir
Estai onde quiserdes estar.
Com que podeis vós folgar
Qu'eu não deva consentir?
Vem um Ermitão
a pedir esmola, que em moço lhe quis bem, e diz:
Señores,
por caridad
Dad limosna al dolorido
Ermitaño de Cupido
Para siempre en soledad.
Pues su siervo soy nacido.
Por ejemplo,
Me meti en su santo templo
Ermitaño en pobre ermita,
Fabricada de infinita
Tristeza en que contemplo,
Adonde rezo
mis horas
Y mis dias y mis años,
Mis servicios y mis daños,
Donde tu, mi alma, Iloras
El fin de tantos engaños.
Y acabando
Las horas, todas llorando,
Tomo las cuentas una y una,
Con que tomo a la fortuna
Cuenta del mal en que ando,
Sin esperar paga alguna.
Y ansi sin
esperanza
De cobrar lo merecido,
Sirvo alli mis dias Cupido
Con tanto amor sin mudanza,
Que soy su santo escogido.
Ó señores,
Los que bien os va d'amores,
Dad limosna al sin holgura,
Que habita en sierra oscura,
Uno de los amadores
Que tuvo menos ventura.
Y rogaré
al Dios de mi,
En quien mis sentìdos traigo,
Que recibais mejor pago
De lo que yo recebi
En esta vida que hago.
Y rezaré
Com gran devocion y fé,
Que Dios os libre d'engaño,
Que esso me hizo ermitaño,
Y pera siempre seré,
Pues pera siempre es mi daño.
INÊS Olhai
cá, marido amigo,
Eu tenho por devação
Dar esmola a um ermitão.
E não vades vós comigo
PÊRO I-vos embora, mulher
Não tenho lá que fazer
(Inês
fala a sós com o Ermitão):
INÊS Tomai
a esmola, padre, lá,
Pois que Deus vos trouxe aqui.
ERMITÃO Sea por amor de mi
Vuesa buena caridad.
Deo gratias, mi señora!
La limosna mata el pecado,
Pero vos teneis cuidado
De matar-me cada hora.
Deveis saber
Para merced me hacer
Que por vos soy ermitaño.
Y aun más os desengaño:
Que esperanças de os ver
Me hizieron vestir tal paño.
INÊS Jesu,
Jesu! manas minhas!
Sois vós aquele que um dia
Em casa de minha tia
Me mandastes camarinhas,
E quando aprendia a lavrar
Mandáveis-me tanta cousinha?
Eu era ainda Inesinha,
Não vos queria falar.
ERMITÃO
Señora, tengo-os servido
Y vos a mi despreciado;
Haced que el tiempo pasado
No se cuente por perdido.
INÊS Padre, mui bem vos entendo
Ó demo vos encomendo,
Que bem sabeis vós pedir!
Eu determino lá d'ir
À ermida, Deus querendo.
ERMITÃO
E quando?
INÊS I-vos, meu santo,
Que eu irei um dia destes
Muito cedo, muito prestes.
ERMITÃO Señora, yo me voy en tanto.
(Inês
torna para Pêro Marques):
INÊS Em
tudo é boa a concrusão.
Marido, aquele ermitão
É um anjinho de Deus...
PÊRO Corregê vós esses véus
E ponde-vos em feição.
INÊS Sabeis vós o que eu queria?
PÊRO Que quereis, minha mulher?
INÊS Que houvésseis por prazer
De irmos lá em romaria.
PÊRO Seja
logo, sem deter
INÊS Este caminho é comprido...
Contai uma história, marido.
PÊRO Bofá que me praz, mulher
INÊS Passemos primeiro o rio.
Descalçai-vos.
PÊRO E pois como?
INÊS E levar me-eis no ombro,
Não me corte a madre o frio.
Põe-se
Inês Pereira às costas do marido, e diz:
INÊS Marido,
assi me levade.
PÊRO Ides à vossa vontade?
INÊS Como estar no Paraíso!
PÊRO Muito folgo eu com isso.
INÊS Esperade ora, esperade!
Olhai que lousas aquelas,
Pera poer as talhas nelas!
PÊRO Quereis que as leve?
INÊS Si.
Uma aqui e outra aqui.
Oh como folgo com elas!
Cantemos, marido,
quereis?
PÊRO Eu não saberei entoar..
INÊS Pois eu hei só de cantar
E vós me respondereis
Cada vez que eu acabar:
"Pois assi se fazem as cousas".
Canta Inês Pereira:
INÊS "Marido cuco me levades
E mais duas lousas."
PÊRO "Pois assi se fazem as cousas."
INÊS "Bem sabedes vós, marido,
Quanto vos amo.
Sempre fostes percebido
Pera gamo.
Carregado ides, noss'amo,
Com duas lousas."
PÊRO "Pois assi se fazem as cousas"
INÊS "Bem sabedes vós, marido,
Quanto vos quero.
Sempre fostes percebido
Pera cervo.
Agora vos tomou o demo
Com duas lousas."
PÊRO "Pois assi se fazem as cousas."
E assi se
vão, e se acaba o dito Auto.
Farsa ou Auto de Inês Pereira, de Gil Vicente
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