FALENAS
Machado de Assis
FLOR DA MOCIDADE2
Eu conheço
a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida, aberta para o amor.
Eu conheço a mais bela flor.
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.
Vive às vezes
na solidão,
Coma * filha da brisa agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Colhe-se antes que
venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val.
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.
NOIVADO
Vês, querida,
o horizonte ardendo em chamas?
Além desses outeiros
Vai descambando o sol, e à terra envia
Os raios derradeiros;
A tarde, como noiva que enrubesce,
Traz no rosto um véu mole e transparente;
No fundo azul a estrela do poente
Já tímida aparece.
Como um bafo suavíssimo
da noite,
Vem sussurrando o vento
As árvores agita e imprime às folhas
O beijo sonolento.
A flor ajeita o cálix: cedo espera
O orvalho, e entanto exala o doce aroma;
Do leito do oriente a noite assoma
Como uma sombra austera.
Vem tu, agora, ó
filha de meus sonhos,
Vem, minha flor querida;
Vem contemplar o céu, página santa
Que amor a ler convida;
Da tua solidão rompe as cadeias;
Desce do teu sombrio e mudo asilo;
Encontrarás aqui o amor tranqüilo...
Que esperas? que receias?
Olha o templo de Deus,
pomposo e grande;
Lá do horizonte oposto
A lua, como lâmpada, já surge
A alumiar teu rosto;
Os círios vão arder no altar sagrado,
Estrelinhas do céu que um anjo acende;
Olha como de bálsamos rescende
A c'roa do noivado.
Irão buscar-te
em meio do caminho
As minhas esperanças;
E voltarão contigo, entrelaçadas
Nas tuas longas tranças;
No entanto eu preparei teu leito às* sombra
Do limoeiro em flor; colhi contente
Folhas com que alastrei o solo ardente
De verde e mole alfombra.
Pelas ondas do tempo
arrebatados,
Até à morte iremos,
Soltos ao longo do baixel da vida
Os esquecidos remos.
Calmos, entre o fragor da tempestade,
Gozaremos o bem que amor encerra;
Passaremos assim do sol da terra
Ao sol da eternidade.
MENINA E MOÇA3
A Ernesto Cybrão
Está naquela idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.
Às vezes recatada,
outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem coisas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.
Outras vezes valsando,
e* seio lhe palpita,
De cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.
Outras vezes beijando
a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir asas de um anjo e tranças de uma huri.
Quando a sala atravessa,
é raro que não lance
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.
Tem na alcova em que
dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.
Alegra-se em ouvindo
os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.
Dos cuidados da vida
o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, excetuando talvez
A lição de sintaxe em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.
Quantas vezes, porém,
fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!
Ah! se nesse momento
alucinado, fores
Cair-lhes aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás de vê-la zombar dos teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.
É que esta
criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!
A ELVIRA
(LAMARTINE)
Quando, contigo a
sós, as mãos unidas,
Tu, pensativa e muda; e eu, namorado,
Às volúpias do amor a alma entregando,
Deixo correr as horas fugidias;
Ou quando `as solidões de umbrosa selva
Comigo te arrebato; ou quando escuto
--Tão só eu, -- teus terníssimos suspiros;
E de meus lábios solto
Eternas juras de constância eterna;
Ou quando, enfim, tua adorada fronte
Nos meus joelhos trêmulos descansa,
E eu suspendo meus olhos em teus olhos,
Como às folhas da rosa ávida abelha;
Ai, quanta vez então dentro em meu peito
Vago terror penetra, como um raio!
Empalideço, tremo;
E no seio da glória em que me exalto,
Lágrimas verto que a minha alma assombram!
Tu, carinhosa e trêmula,
Nos teus braços me cinges, -- e assustada,
Interrogando em vão, comigo choras!
"Que dor secreta o coração te oprime?"
Dizes tu, "Vem, confia os teus pesares...
Fala! eu abrandarei as penas tuas!
Fala! Eu consolarei tua alma aflita."
Vida do meu viver, não me interrogues!
Quando enlaçado nos teus níveos braços*
A confissão de amor te ouço, e levanto
Lânguidos olhos para ver teu rosto,
Mais ditoso mortal o céu não cobre!
Se eu tremo, é porque nessas esquecidas
Afortunadas horas,
Não sei que voz do enleio me desperta,
E me persegue e lembra
Que a ventura co'o tempo se esvaece
E o nosso amor é facho que se extingue!
De um lance, espavorida,
Minha alma voa às sombras do futuro,
E eu penso então; "Ventura que se acaba
Um sonho vale apenas."
LÁGRIMAS
DE CERA
Passou; viu a porta aberta.
Entrou; queria rezar.
A vela ardia no altar.
A igreja estava deserta.
Ajoelhou-se defronte
Para fazer a oração;
Curvou a pálida fronte
E pôs os olhos no chão.
Vinha trêmula
e sentida.
Cometera um erro. A Cruz
É a âncora da vida,
A esperança, a força, a luz.
Que rezou? Não
sei. Benzeu-se
Rapidamente. Ajustou
O véu de rendas. Ergueu-se
E à pia se encaminhou.
Da vela benta que
ardera,
Como tranqüilo fanal,
Umas lágrimas de cera
Caíam no castiçal.
Ela porém não
vertia
Uma lágrima sequer.
Tinha a fé, -- a chama a arder, --
Chorar é que não podia.
NO ESPAÇO
Il n'y a qu'une sorte
d'amour, mais il y en a mille différentes copies.
La Rochefoucauld
Rompendo o último laço
Que ainda à terra as prendia,
Encontraram-se no espaço
Duas almas. Parecia
Que o destino as convocara
Para aquela mesma hora;
E livres, livres agora,
Correm a estrada do céu,
Vão ver a divina face:
Uma era a de Lovelace,
Era a outra a de Romeu.
Voavam... porém,
voando
Falavam ambas. E o céu
Ia as vozes escutando
Das duas almas. Romeu
De Lovelace indagava
Que fizera nesta vida
E que saudades levava.
"Eu amei...mas
quantas, quantas,
E como, e como não sei;
Não seria o amor mais puro,
Mas o certo é que as amei.
Se era tão fundo e tão vasto
O meu pobre coração!
Cada dia era uma glória,
Cada hora uma paixão.
Amei todas; e na história
Dos amores que senti
Nenhuma daquelas belas
Deixou de escrever por si.
Nem a patrícia
de Helena,
De verde mirto c'roada,
Nascida como açucena
Pelos zéfiros beijada
Aos brandos raios da lua,
À voz das ninfas do mar,
Trança loura, espádua nua,
Calma fronte e calmo olhar.
Nem a beleza latina,
Nervosa, ardente, robusta,
Levantando a voz augusta
Pela margem peregrina,
Onde do eco em seus lamentos,
Por virtude soberana,
Repete a todos os ventos
A nota virgiliana.
Nem da doce, aérea
Inglesa,
Que os ventos frios do norte
Fizeram fria de morte,
Mas divina de beleza.
Nem a ardente Castelhana,
Corada ao sol de Madrid,
Beleza tão soberana,
Tão despótica no amor,
Que troca os troféus de um Cid
Pelo olhar de um trovador.
Nem a virgem pensativa
Que as margens do velho Reno,
Como a pura sensitiva
Vive das auras do céu
E murcha ao mais leve aceno
De mãos humanas; tão pura
Como aquela Margarida
Que a Fausto um dia encontrou.
E muitas mais, e amei
todas,
Todas minha alma encerrou.
Foi essa a minha virtude,
Era esse o meu condão.
Que importava a latitude?
Era o mesmo coração,
Os mesmos lábios, o mesmo
Arder na chama fatal...
Amei a todas e a esmo."
Lovelace concluíra;
Entravam ambos no céu;
E o Senhor que tudo ouvira,
Voltou os olhos imensos
Para a alma de Romeu:
"E tu?" - Eu amei na vida
Uma só vez, e subi
Daquela cruenta lida,
Senhor, a acolher-me em ti."
Das duas almas, a pura,
A formosa, olhando em face
A divindade ficou:
E a alma de Lovelace
De novo à terra baixou.
Daqui vem que a terra
conta,
Por um decreto do céu,
Cem Lovelaces num dia
E em cem anos um Romeu.
OS DEUSES DA GRÉCIA4
(Schiller)
Quando, co'os tênues vínculos de gozo,
Ó Vênus de Amatonte, governavas
Felizes* raças, encantados povos
Dos fabulosos tempos;
Quando fulgia a pompa
do teu culto,
E o templo ornavam delicadas rosas,
Ai! quão diverso o mundo apresentava
A face aberta em risos!
Na poesia envolvia-se
a verdade;
Plena vida gozava a terra inteira;
E o que jamais hão de sentir na vida
Então sentiam homens.
Lei era repousar no
amor; os olhos
Nos namorados olhos se encontravam;
Espalhava-se em toda a natureza
Um vestígio divino.
Onde hoje dizem que
se prende um globo
Cheio de fogo, -- outrora conduzia
Hélios o carro de ouro, e os fustigados
Cavalos espumantes.
Povoavam Oreades**os
montes,
No arvoredo Doriades vivia,
E agreste espuma despejava em flocos
A urna das Danaides.
Refúgio de
uma ninfa era o loureiro;
Tantália ***moça as rochas habitava;
Suspiravam no arbusto e no caniço
Sírinx, Filomela.
Cada ribeiro as lágrimas
colhia
De Ceres pela esquiva Perséfone;
E do outeiro chamava inutilmente
Vênus o amado amante.
Entre as raças
que o pio tessaliano
Das pedras arrancou, -- os deuses vinham;
Por cativar uns namorados olhos
Apolo pastoreava.
Vínculo brando
então o amor lançava
Entre os homens, heróis e os deuses todos;
Eterno culto ao teu poder rendiam,
Ó deusa de Amatonte!
Jejuns austeros, torva
gravidade
Banidos eram dos festivos templos;
Que os venturosos deuses só amavam
Os ânimos alegres.
Só a beleza
era sagrada outrora;
Quando a pudica Tiemonte mandava,
Nenhum dos gozos que o mortal respira
Envergonhava os deuses.
Eram ricos palácios
vossos templos;
Lutas de heróis, festins e o carro e a ode,
Eram da raça humana aos deuses vivos
A jucunda homenagem.
Saltava a dança
alegre em torno a altares;
Louros c'roavam numes; e as capelas
De abertas, frescas rosas, lhes cingiam
A fronte perfumada.
Anunciava o galhofeiro
Baco
O tirso de Evoé; sátiros fulvos
Iam tripudiando em seu caminho;
Iam bailando as Menades.
A dança revelava
o ardor do vinho;
De mão em mão corria a taça ardente,
Pois que ao fervor dos ânimos convida
A face rubra do hóspede.
Nenhum espectro hediondo
ia sentar-se
Ao pé do moribundo. O extremo alento
Escapava num ósculo, e voltava
Um gênio a tocha extinta.
E além da vida,
nos infernos, era
Um filho de mortal quem sustentava
A severa balança; e co'a voz pia
Vate ameigava as Fúrias.
Nos Elíseos
o amigo achava o amigo;
Fiel esposa ia encontrar o esposo;
No perdido caminho o carro entrava
Do destro Automedonte.
Continuava o poeta
o antigo canto;
Admeto achava os ósculos de Alceste;
Reconhecia Pilades o sócio
E o rei tessálio as flechas.
Nobre prêmio
o valor retribuía
Do que andava nas sendas da virtude;
Ações dignas do céu, filhas dos homens,
O céu tinham por paga.
Inclinavam-se os deuses
ante aquele
Que ia buscar-lhe algum mortal extinto;
E os gêmeos lá no Olimpo alumiavam
O caminho ao piloto.
Onde és, mundo
de risos e prazeres?
Porque não volves, florescente idade ?
Só as musas conservavam teus divinos*
Vestígios fabulosos.
Tristes e mudos vejo
os campos todos;
Nenhuma divindade aos olhos surge;
Dessas imagens vivas e formosas
Só a sombra nos resta.
Do norte ao sopro
frio e melancólico,
Uma por uma, as flores se esfolharam;
E desse mundo rútilo e divino
Outro colheu despojos.
Os astros interrogo
com tristeza,
Seleno, e não te encontro; à selva falo,
Falo à vaga do mar, e à vaga, e à selva,
Inúteis vozes mando.
Da antiga divindade
despojada,
Sem conhecer os êxtases que inspira,
Desse esplendor que eterno a fronte lhe orna
Não sabe a natureza.
Nada sente, não
goza do meu gozo;
Insensível à força com que impera,
O pêndulo parece condenado
Às frias leis que o regem.
Para se renovar, abre
hoje a campa,
Foram-se os numes ao país dos vates;
Das roupas infantis despida, a terra
Inúteis os rejeita.
Foram-se os numes,
foram-se; levaram
Consigo o belo, e o grande, e as vivas cores,
Tudo que outrora a vida alimentava,
Tudo que é hoje extinto.
Ao dilúvio
dos tempos escapando,
Nos recessos do Pindo se entranharam:
O que sofreu na vida eterna morte,
Imortalize a musa!*
LIVROS E FLORES
Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor *.
Flores me são
teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?
PÁSSAROS
(Versos escritos no
álbum de Manoel de Araújo)
Je veux changer mes
pensées en oiseaux.
C. Marot
Olha como, cortando
os leves ares,
Passam do vale ao monte as andorinhas;
Vão pousar na verdura dos palmares,
Que à tarde, cobre transparente véu;
Voam também como essas avezinhas
Meus sombrios, meus tristes pensamentos;
Zombam da fúria dos contrários ventos,
Fogem da terra, acercam-se do céu.
Porque o céu
é também aquela estância
Onde respira a doce criatura,
Filha de nosso amor, sonho da infância,
Pensamento dos dias juvenis.
Lá, como esquiva flor, formosa e pura,
Vives tu escondida entre a folhagem,
Ó rainha do ermo, ó fresca imagem
Dos meus sonhos de amor calmo e feliz!
Vão para aquela
estância, enamorados,
Os pensamentos de minha alma ansiosa;
Vão contar-lhe os meus dias mal gozados
E estas noites de lágrimas e dor;
Na tua fronte pousarão, mimosa,
Como as aves no cimo da palmeira;
Dizendo aos ecos a canção primeira
De um livro escrito pela mão do amor.
Dirão também
como conservo ainda
No fundo de minha alma essa lembrança
Da tua imagem vaporosa e linda,
Único alento que me prende aqui.
E dirão mais que estrelas de esperança
Enchem a escuridão das noites minhas.
Como sobem ao monte as andorinhas,
Meus pensamentos voam para ti.
CEGONHAS E RODOVALHOS
( A Anísio
Semprônio Rufo)
( Bouillet)
Salve, rei dos mortais, Semprônio invicto,
Tu que estreaste nas romanas mesas
O rodovalho fresco e a saborosa
Pedi-rubra cegonha!
Desentranhando os mármores da Frígia*
Ou já rompendo ao bronze o escuro seio,
Justo era que mandasse a mão do artista
Teu nobre rosto aos evos.
Porque fosses maior
aos olhos pasmos
Das nações do Universo, ó pai dos molhos,
Ó pai das comezainas, em criar-te
Teu século esfalfou-se.
A tua vinda ao mundo prepararam
Os destinos, e acaso amiga estrela
Ao primeiro vagido de teus lábios
Entre nuvens luzia.
Antes de ti, no seu
vulgar instinto,
Que comiam Romanos? Carne insossa
Dos seus rebanhos vis, e uns pobres frutos,
Pasto bem digno deles;
A escudela de pão outrora ornava,
Com o saleiro antigo, a mesa rústica,
A mesa em que, três séculos contados,
Comeram senadores.
E quando, por salvar
a pátria em risco,
Os velhos se ajuntavam, quantas vezes
O cheiro do alho enchia a antiga cúria,
O pórtico sombrio,
Onde vencidos reis o chão beijavam;
Quantas, deixando em meio a mal cozida,
A sem sabor chanfana, iam de um salto
À conquista do mundo!
Ao voltar dos combates,
vencedores,
Carga de glória a não trazia ao porto,
Reis vencidos, tetrarcas subjugados,
E rasgadas bandeiras...
Iludiam-se os míseros! Bem hajas,
Bem hajas tu, grande homem, que trouxeste
Na tua ovante barca à ingrata Roma
Cegonhas, rodovalhos!
Maior que esse marujo
que estripava,
Co'o rijo arpéu, as mãos cartaginesas,
Tu, Semprônio, co'as redes apanhavas
Ouriçado marisco;
Tu, glutão vencedor, cingida a fronte
Co'o verde mirto, a terra percorreste,
Por encontrar os fartos, os gulosos
Ninhos de finos pássaros.
Roma desconheceu teu
gênio, ó Rufo!
Dizem até ( vergonha!) que negara
Aos teimosos desejos que nutrias
O voto de pretura.
Mas a ti, que te importa a voz da turba?
Efêmero rumor que o vento leva
Como a vaga do mar. Não, não raiarão
Os teus melhores dias.
Virão, quando
aspirar a invicta Roma
As preguiçosas brisas do oriente;
Quando co'a mitra d'ouro, o descorado,
O cidadão romano,
Pelo foro arrastar o tardo passo
E sacudir da toga roçagante,
Às virações os tépidos perfumes
Como um sátrapa assírio.
Virão, virão,
quando na escura noite
A orgia imperial encher o espaço
De viva luz, e embalsamar as ondas
Com os seus bafos quentes;
Então do sono acordarás, e a sombra,
A tua sacra sombra irá pairando
Ao ruído das músicas noturnas
Nas rochas de Capréia.
Ó mártir
dos festins! Queres vingança?
Tê-la-ás e à farta, à tua gran memória;
Vinga-te o luxo que domina a Itália;
Ressurgirás ovante
Ao dia em que na mesa dos Romanos
Vier pompear o javali silvestre,
Prato a que der os finos molhos Tróia
E rouxinol as línguas.