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AUGUSTINE
DE VILLEBLANCHE
(ou "O Estratagema do Amor")
- Um momento,
um momento - disse Augustine, impedindo-o de abri-las -, vai divulgar
a nossa aventura a toda a terra, aposto.
- Talvez me
divirta a fazê-lo.
- De resto,
que me importa, graças a Deus estou acima dos murmúrios,
saia, Senhor, saia e diga tudo o que lhe agradar... - E detendo-o
uma vez mais -: Sabe - disse sorrindo -, que esta história
é muito extraordinária... enganámo-nos os dois.
- Ah! o erro
é muito mais cruel - disse Franville - para as pessoas com
o meu gosto do que para as que têm o seu... e este vazio causa-nos
repugnância...
- Por minha
fé, meu caro, creia que o que me oferece nos desagrada pelo
menos tanto; vamos, a repugnância é idêntica,
mas a aventura é deveras divertida, temos de concordar? Volta
ao baile?
- Não
sei.
- Por mim não
volto mais - disse Augustine -, fez-me sentir coisas... desgostou-me...
vou-me deitar.
- Já
não era sem tempo.
- Mas tenha
ao menos a delicadeza de me emprestar o seu braço até
minha casa, habito a dois passos, não tenho o meu coche,
não me vai deixar ficar aqui.
- Não,
acompanhá-la-ei de boa vontade - disse Franville -, os nossos
gostos não nos impedem de ser correctos... quer a minha mão?...
Ei-la.
- Só
aproveito porque não encontro melhor por agora.
- Fique bem
certa que por mim só lha ofereço por delicadeza.
Chegam à porta da casa de Augustine e Franville prepara-se
para se despedir.
- Na verdade,
o senhor é delicioso - disse a Menina de Villebranche -,
com que então deixa-me na rua.
- Mil perdões
- disse Franville -, não ousava.
- Ah, como são
bruscos estes homens que não gostam das mulheres!
- É que
eu - disse Franville, dando todavia o braço à Menina
de Villebranche até ao seu apartamento -, é que eu,
Menina, gostava de voltar depressa ao baile para reparar a minha
tolice.
- A sua tolice,
sente-se então muito aborrecido por me ter encontrado?
- Não
digo tanto, mas não é verdade que podíamos
ambos ter achado infinitamente melhor?
- Sim, tem razão
- disse Augustine entrando enfim em casa -, tem razão, senhor,
eu sobretudo... porque receio bastante que este funesto encontro
venha a custar a felicidade da minha vida.
- O quê,
não está então bem segura dos seus sentimentos?
- Ontem estava-o.
- Ah! não
acredita muito nas suas máximas.
- Não
acredito em nada, está a enervar-me.
- Está
bem, eu saio, Menina, eu saio... Deus me livre de a incomodar durante
mais tempo.
- Não,
fique, ordeno-lhe, poderá uma vez na vida obedecer a uma
mulher?
- Eu - disse
Franville sentando-se por condescendência -, nada há
que não faça, já lho disse, sou educado.
- Sabe que é
horrível de na sua idade ter gostos tão perversos?
- Julga que
seja decente de na sua os ter tão singulares?
- Oh, é
muito diferente, nós, é recato, é pudor...
é orgulho mesmo se o preferir, é o receio de se entregar
a um sexo que só nos seduz para nos dominar... Todavia os
sentidos falam e arranjamo-nos entre nós; se tudo dissimulamos
bem revestimo-nos dum verniz de discrição que muitas
vezes se impõe, assim fica a natureza contente, observa-se
a decência e os costumes não se sentem ultrajados.
- Eis o que
se chamam belos e bons sofismas, por esse caminho tudo justificaríamos;
e que disse afinal que nós não possamos igualmente
alegar em nosso favor?
- Absolutamente
nada, com preconceitos tão diferentes não devem ter
os mesmos pavores, o vosso triunfo está na nossa derrota...
quanto mais multiplicam as vossas conquistas, mais acrescentam a
vossa glória, e não podem recusar-se aos sentimentos
que fazemos nascer dentro de vós, a não ser por vício
ou depravação.
- Na verdade,
creio que me vai converter.
- Gostaria.
- Que ganharia
com isso, continuando no erro?
- É um
favor que o meu sexo me ficará a dever e como amo as mulheres,
sinto-me feliz por trabalhar para elas.
- Se o milagre
acontecesse, os seus efeitos não seriam tão gerais
como parece acreditar, eu só me converteria por uma única
mulher quando muito a fim de... experimentar.
- O princípio
é honesto.
- É que
é bem certo haver um pouco de receio, sinto-o, em tomar um
partido sem ter provado de tudo.
- O quê,
nunca viu uma mulher?
- Nunca, e a Menina... acaso possuíra primícias tão
seguras?
- Oh, primícias,
não... as mulheres que vemos são tão astutas
e ciumentas que não nos deixam nada... mas nunca conheci
um homem em toda a minha vida.
- E fez uma
jura?
- Sim, não
quero ver nem jamais conhecer senão um tão singular
como eu.
- Sinto-me desolado
por não ter feito a mesma jura.
- Não
creio que seja possível ser mais impertinente.
E dizendo estas
palavras, a Menina de Villebranche levanta-se e diz a Franville
que se pode retirar quando quiser. O nosso jovem apaixonado sempre
de sangue-frio faz uma profunda reverência e apresta-se para
sair.
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